Migalhas de Peso

A manchete antes da sentença

Muitas vezes, somos nós mesmos, advogados e advogadas, que contribuímos para esse cenário.

26/2/2026
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Existe um fenômeno silencioso (e ao mesmo tempo escancarado) que se repete sempre que um advogado se torna alvo de uma investigação ou operação policial: a notícia deixa rapidamente o campo da informação e passa a ocupar o território do espetáculo. Antes mesmo de qualquer acusação formal ser examinada, a narrativa pública já parece pronta, completa e definitiva.

Quem acompanha o cotidiano forense percebe que nem sempre é assim. Em inúmeras operações envolvendo outros investigados, há cuidado na exposição: imagens preservadas, nomes abreviados, cautela na identificação e uma preocupação visível em evitar prejulgamentos.

A presunção de inocência, nesses casos, deixa de ser apenas um princípio jurídico e passa a orientar a comunicação pública. Mas, curiosamente, quando o investigado é advogado, essa prudência frequentemente desaparece.

O rosto é exibido sem reservas, o nome circula amplamente e as suspeitas ganham contornos de certeza. A acusação passa a ser narrada como fato consumado, enquanto a defesa, quando mencionada, surge quase como detalhe protocolar. Cria-se, assim, um julgamento paralelo, conduzido não nos autos, mas na arena da opinião pública.

É importante deixar claro: refletir sobre esse cenário não significa relativizar eventuais ilícitos. Condutas irregulares devem ser investigadas com seriedade e, se comprovadas, punidas na forma da lei. O ponto central não é a responsabilização, mas o desequilíbrio no tratamento. A mesma intensidade usada para expor raramente é empregada para reparar.

Quando há absolvição, arquivamento ou reconhecimento de equívoco, o silêncio costuma substituir o alarde inicial, mas a reputação já foi profundamente atingida.

Há ainda um aspecto incômodo que precisa ser enfrentado com honestidade. Em alguns momentos, a própria advocacia contribui para ampliar esse ambiente de exposição excessiva. Comentários apressados, ironias públicas e julgamentos antecipados entre colegas acabam reforçando a ideia de que o advogado investigado merece menos cautela do que qualquer outro cidadão.

Sem perceber, fragiliza-se coletivamente uma profissão que depende, justamente, do respeito às garantias processuais.

A advocacia ocupa um lugar peculiar na estrutura democrática: é a atividade que assegura voz a quem muitas vezes já foi previamente condenado pelo imaginário social.

Por isso, quando o advogado passa a ser tratado como exceção às garantias que diariamente defende, o problema deixa de ser individual e passa a revelar algo maior: uma dificuldade crescente de conviver com o devido processo legal fora dos livros.

Talvez o debate que se impõe não seja sobre pessoas específicas, mas sobre métodos e limites. Informar é essencial; expor sem medida, nem sempre.

Entre o direito de informar e o dever de preservar garantias fundamentais existe uma linha tênue que não pode ser ignorada. Afinal, em um Estado de Direito, a justiça não deveria começar pela manchete, mas sim pela prova.

Autores

Thalles Vinícius de Souza Sales Presidente do Instituto dos Advogados do Acre - IAAC. Membro da Comissão Nacional de Defesa de Prerrogativas e Valorização da Advocacia, do CFOAB. Diretor da Escola de Prerrogativas da OAB/AC.

Thais Moura Advogada e vice-presidente da OAB/AC.

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