O recente documentário O Testamento - O Segredo de Anita Harley, não trata apenas de uma herança bilionária. Trata de algo mais inquietante e próximo da realidade brasileira do que muitos imaginam: o silêncio jurídico provocado pela ausência de planejamento patrimonial.
Uma empresária herdeira do Grupo Pernambucanas se encontra em coma há quase uma década. Um patrimônio expressivo. Relações afetivas sendo reconstruídas em tribunais. Narrativas concorrentes sobre vínculos familiares, união estável, filiação socioafetiva e controle empresarial.
Nada disso seria extraordinário se não fosse um detalhe crucial. A vontade da titular do patrimônio não está formalmente consolidada de modo suficiente para evitar disputas.
Quando a pessoa perde a capacidade de decidir, o patrimônio não entra apenas em inventário futuro. Ele entra imediatamente em zona de interpretação.
E interpretação, no Direito Sucessório, costuma significar conflito.
A ausência de testamento claro e integrado a um planejamento patrimonial consistente abre espaço para aquilo que mais fragiliza famílias e empresas: a substituição da vontade documentada por versões emocionais, memórias seletivas e interesses econômicos legítimos ou não.
O documentário expõe, com rara honestidade, uma pergunta que poucos querem enfrentar enquanto estão plenamente capazes: se algo interrompesse hoje sua autonomia, quem interpretaria sua vontade? E com quais documentos?
Planejamento sucessório não é instrumento da morte. É instrumento da lucidez.
Ele protege não apenas patrimônio, mas reputação, relações afetivas, continuidade empresarial e tranquilidade familiar. Empresas familiares, participações societárias, imóveis, investimentos e ativos digitais não podem depender de presunções futuras.
Outro ponto relevante revelado pelo caso é a crescente complexidade das estruturas familiares contemporâneas. Uniões estáveis longas, relações socioafetivas, famílias recompostas, dependência econômica indireta e vínculos patrimoniais não formalizados são realidade. Ignorá-los juridicamente não os elimina. Apenas transfere sua resolução para o Judiciário.
E o Judiciário não cria vontade. Apenas interpreta vestígios dela.
Testamento bem estruturado, doações com cláusulas estratégicas, organização societária por meio de holdings familiares e governança patrimonial preventiva não são luxo. São instrumentos de estabilidade.
A cultura brasileira ainda insiste em tratar planejamento sucessório como assunto desconfortável ou elitizado. Na prática, o custo emocional e financeiro da ausência de planejamento costuma ser muito maior do que qualquer investimento preventivo.
A incapacidade civil inesperada é hoje um dos maiores fatores de litigiosidade patrimonial. AVC, acidentes, doenças degenerativas ou eventos súbitos não avisam. E a ausência de previsão jurídica transforma famílias em adversários processuais.
O caso Anita Harley apenas amplifica, em escala bilionária, um fenômeno cotidiano nos escritórios especializados: patrimônios relevantes fragilizados não pela falta de recursos, mas pela falta de organização jurídica da vontade.
Não se trata de prever o futuro. Trata-se de não deixar que terceiros o interpretem por você.
Porque no Direito Sucessório existe uma regra silenciosa e implacável: quando a vontade não está escrita, ela deixa de ser vontade. Passa a ser disputa.