“O mundo vai girando cada vez mais veloz. A gente espera do mundo, o mundo espera de nós. Um pouco mais de paciência”. (Lenine, “Paciência”).
O tempo da Justiça não é o tempo da saúde mental. Essa constatação é um convite à reflexão e, embora eventualmente incômoda, precisa ser considerada por quem pensa em ingressar com uma ação judicial.
É preciso reconhecer que judicializar um conflito nem sempre é uma escolha. Em muitos casos, especialmente nas situações mais dramáticas, não há espaço para construção consensual ou para qualquer tentativa de composição prévia. Há circunstâncias em que a urgência se impõe, o direito corre risco de perecimento ou o próprio bem jurídico a ser tutelado reclama proteção imediata. Nessas hipóteses, a judicialização deixa de ser alternativa e se revela imperativa. O Judiciário não é apenas um caminho possível, mas o único capaz de oferecer resposta institucional adequada à gravidade ou à urgência do caso, assegurando a efetividade da tutela jurídica.
Contudo, há inúmeras situações em que, ao pensar no tempo, é preciso saber e compreender que um processo judicial exige bem mais do que argumentos e provas. Ele demanda tempo psíquico, estabilidade emocional e resistência subjetiva.
Isso porque o tempo da Justiça é outro. Entre petições, prazos, recursos, audiências e diligências, a realidade de quem vive o processo é marcada por incerteza, frustração e desgaste. Há quem ajuíze uma ação esperando uma solução rápida para uma dificuldade presente, e, no entanto, encontra um longo percurso de formalidades, confrontos e demoras que podem, inclusive, ampliar essa dificuldade.
A maturação do conflito judicializado exige tempo, e isso faz parte da própria dinâmica processual.
Pouco, ou nada, se fala sobre os custos emocionais de uma ação judicial. Fala-se em custos financeiros, em estratégias, em teses e na interpretação do direito aplicável ao caso, entre outros aspectos. Mas e a ansiedade de cada andamento? A angústia de uma audiência? O medo de perder? O trauma de reviver os fatos dolorosos em juízo? Toda ação judicial, por mais legítima que seja, carrega um peso invisível.
Isso não significa dizer que não se devam ajuizar ações. Como dito, muitas vezes não há outra solução senão buscar o Poder Judiciário. Mas, para tantas outras situações, a reflexão que se propõe é anterior: para você, compensa, neste momento, ajuizar esta ação? Há outros meios possíveis, como, por exemplo, a mediação ou a conciliação? Você está emocionalmente disposto para o que pode vir?
Não há uma resposta pronta. Cada ser humano é um “mundo” em si, com dores, tempos e subjetividades próprias. É a partir dessa dimensão subjetiva que se deve refletir. Não existe uma receita única ou padronizada. Saber se estamos “minimamente preparados”, ou mesmo se queremos enfrentar o percurso de um processo, é, a depender do contexto, tão importante quanto ter razão.
Nessa perspectiva, é fundamental refletir sobre os impactos que ultrapassam o campo do Direito e a dinâmica processual. Litígios envolvem pessoas, sentimentos e fragilidades. (Re)conhecer essa vertente é, em alguma medida, humanizar a prática jurídica e admitir que o processo também pode gerar adoecimento, e que o sistema de Justiça precisa considerar e olhar para os sujeitos que dele dependem.
Em última análise, entre a razão do direito e a dor vivida, que saibamos ponderar. Que cada pessoa, à luz de sua história e do seu tempo interno, possa discernir se é o momento de seguir por essa via ou de buscar outros meios. Porque o tempo da Justiça não é o tempo da saúde mental. E porque, como nos lembra a canção de Lenine, “a vida é tão rara, tão rara”.