Migalhas de Peso

30+ impostos em 3 anos: Contribuinte em estado de torpor

Imposto de importação subiu para mil+ produtos. A reforma promete simplificar, mas o custo só cresce. Por que o contribuinte entrou em “torpor” - e o que deve acontecer.

27/2/2026
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Há um fenômeno curioso acontecendo no Brasil: o contribuinte apanhou tanto que passou a reagir como quem toma pancada todo dia - não grita mais, não questiona mais, só ajusta o fluxo de caixa e segue a vida como se fosse normal.

E talvez seja essa a maior vitória do sistema: normalizar o anormal.

Enquanto a reforma tributária promete simplificar o consumo com IBS/CBS, a prática recente do Estado parece dizer outra coisa: “simplificar, sim - mas com muito mais fome”.

O caso mais fresco é emblemático: em fevereiro de 2026, o Gecex/Camex elevou o Imposto de Importação de mais de mil produtos, incluindo bens de capital (BK) e bens de informática e telecom (BIT) - máquinas, ferramentas, equipamentos e eletrônicos em geral.

A mensagem é: se você produz, investe, moderniza ou compete… pague mais. E, se reclamar, a resposta vem em forma de “ajuste” e “necessidade de política industrial”. A velha poesia fiscal.

O discurso público da reforma é de “novo sistema”, “IVA moderno”, “não cumulatividade”. Só que o empresário vive outra realidade:

  • A cada trimestre surge uma nova alíquota, exceção, trava, regra transitória, ajuste de base, restrição de crédito, nova obrigação.
  • E quando o setor começa a entender o jogo, aparece um movimento lateral: aumento de Imposto de Importação, mudança de regime, “revisão” de benefícios, restrição de compensação, etc.

O resultado é um ecossistema onde a empresa não planeja para crescer; ela planeja para não morrer.

A reforma, do jeito que vem sendo percebida no mercado, corre o risco de virar isso: um rebranding do mesmo apetite arrecadatório, com nova embalagem.

Para boa parte das empresas, BK e BIT não são “luxo importado”: são produtividade.

Quando você aumenta imposto sobre (i) máquinas e equipamentos, (ii) ferramentas, (iii) itens de informática e telecom, você faz três coisas ao mesmo tempo:

  1. Encarece CAPEX (investimento) e alonga o payback.
  2. Freia modernização (automação, eficiência energética, indústria 4.0).
  3. Aumenta custo Brasil justamente quando a reforma do consumo deveria “organizar a casa”.

E aqui entra o ponto ácido: o Estado vende a ideia de competitividade, mas tributa o caminho que leva até ela. É como incentivar corrida aumentando o peso do atleta.

Quando o contribuinte é submetido a uma sequência de aumentos e novas incidências - e o governo passa a tributar por “pontos cegos” (importação, consumo, renda, patrimônio, transações) - acontece algo previsível:

  • O empresário para de discutir “justiça tributária” e passa a discutir “sobrevivência”;
  • O time interno entra em modo apagador de incêndio;
  • O planejamento vira curto, defensivo, e o investimento vira “vamos esperar a poeira baixar” (spoiler: não baixa).

O torpor é esse: Exaustão!

Esse tipo de aumento (Imposto de Importação em massa) tende a se espalhar por toda a economia e, como sempre, a conta aparece no final: consumidor paga, empresa aperta margem, e o Brasil perde competitividade.

Nota objetiva: quando a tributação vira pancada diária, aumenta o incentivo a atalhos. Continuo insistindo que essa sanha pode ser um tiro no pé.

Pois bem. Em resumo, o aumento do Imposto de Importação de mais de mil produtos em 2026 é mais um sintoma do que o empresariado já percebe: a reforma do consumo pode até reorganizar etiquetas, mas não resolve o vício principal - a escalada de custo tributário como resposta padrão para todo problema fiscal.

E o contribuinte, já calejado, vai ficando em torpor… até o dia em que as penas do pato (que anda quieto) acaba e só resta a panela.

Autor

Lucas Pereira Santos Parreira Sócio no Escritório Rosenthal e Sarfatis Metta Advogados Associados. Mestre em Direito Empresarial e Especialista em Direito Tributário, Direito Civil e Direito Contratual.

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