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STF- chegou a hora de enfrentar o "mínimo" de R$ 600

Hora do STF: proteger a dignidade no mínimo existencial ou ceder à pressão econômica? A escolha não é técnica. É histórica.

14/4/2026
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A fixação, por decreto, do mínimo existencial no valor de R$ 600 suscita uma questão que ultrapassa o plano meramente administrativo e alcança o núcleo estruturante da Constituição. Não se trata de discutir conveniência ou oportunidade, mas de aferir se o Estado pode, por ato infralegal, redefinir o conteúdo material da dignidade da pessoa humana.

A Constituição da República, ao eleger a dignidade como fundamento (art. 1º, III), não a concebe como um mínimo de sobrevivência biológica. Ao contrário, a ordem constitucional delineia um padrão mínimo de existência que envolve condições materiais indispensáveis à vida digna, como moradia, alimentação adequada, saúde, transporte e inserção social.

Nesse contexto, a fixação abstrata de R$ 600 como parâmetro universal de subsistência familiar revela-se incompatível com a realidade econômica e com o próprio conteúdo normativo da dignidade. Trata-se de um valor que não atende sequer às necessidades básicas contemporâneas, convertendo um direito fundamental em mera aparência de proteção.

O problema se agrava quando o decreto, além de estabelecer um patamar manifestamente insuficiente, exclui do seu âmbito de incidência dívidas típicas do fenômeno do superendividamento, como o crédito consignado. Tal exclusão compromete a coerência normativa da lei 14.181/21, que instituiu um microssistema voltado ao tratamento global da situação do consumidor superendividado.

A lógica da legislação é clara: enfrentar o superendividamento a partir da totalidade das obrigações, permitindo a repactuação equilibrada do passivo. Ao retirar do alcance do regime justamente as dívidas que mais impactam a renda do consumidor, o decreto fragmenta o problema e inviabiliza a efetividade da proteção legal.

No plano jurisdicional, observa-se a aplicação reiterada desse parâmetro sob o fundamento da presunção de constitucionalidade dos atos normativos. Embora tal presunção desempenhe papel relevante no sistema jurídico, não possui caráter absoluto, tampouco afasta o dever do magistrado de proceder ao controle de constitucionalidade no caso concreto.

A aplicação automática de um ato normativo, sem a devida análise de sua compatibilidade material com os direitos fundamentais, representa uma redução indevida da função jurisdicional. O magistrado não se limita a aplicar normas; compete-lhe, sobretudo, assegurar a supremacia da Constituição.

Para evidenciar a inconsistência do raciocínio, é possível recorrer ao contraste hipotético.

Imagine-se um decreto na área da saúde com o seguinte teor:

"O Estado fornecerá apenas medicamentos suficientes para evitar o óbito imediato, sendo dispensáveis tratamentos que assegurem qualidade de vida."

É evidente que tal norma não resistiria ao controle de constitucionalidade. O direito à saúde, previsto no art. 196 da Constituição, não se limita à preservação da vida em seu aspecto biológico, mas abrange a garantia de condições que permitam uma existência digna.

A analogia revela a gravidade da situação. Reduzir o mínimo existencial a R$ 600 produz efeito semelhante: não se assegura uma vida digna, mas apenas se evita o colapso absoluto. Trata-se de uma proteção meramente formal, incapaz de concretizar o conteúdo material do direito fundamental.

O núcleo essencial dos direitos fundamentais não pode ser comprimido por parâmetros abstratos e dissociados da realidade social. A doutrina constitucional é firme ao estabelecer que tais direitos possuem um conteúdo mínimo indisponível, que atua como limite à atuação estatal, inclusive normativa.

Nesse cenário, a magistratura assume papel central. A aplicação de normas infraconstitucionais que impactam diretamente a subsistência das pessoas exige postura crítica, atenta e comprometida com os valores constitucionais. A invocação genérica da presunção de constitucionalidade não pode servir como justificativa para a aplicação de normas que, na prática, esvaziam direitos fundamentais.

A função jurisdicional, especialmente em um Estado Constitucional de Direito, não se resume à observância formal da legalidade. Exige a constante verificação da compatibilidade das normas com a Constituição, sobretudo quando estão em jogo direitos que integram o núcleo essencial da dignidade humana.

O momento histórico impõe reflexão. A aplicação acrítica de um parâmetro manifestamente insuficiente não é neutra. Produz efeitos concretos na vida de famílias que já se encontram em situação de extrema vulnerabilidade, agravando quadros de exclusão e comprometendo a própria finalidade das políticas públicas de proteção.

A magistratura, nesse contexto, detém responsabilidade institucional relevante. Suas decisões não apenas resolvem litígios individuais, mas também definem, na prática, os contornos da dignidade humana na ordem jurídica.

A abstenção diante de normas que comprometem o núcleo essencial de direitos fundamentais não constitui postura neutra. Ao contrário, implica a aceitação de seus efeitos. A história demonstra que momentos de tensão entre legalidade formal e justiça material exigem atuação consciente e comprometida das instituições.

Se, no presente, a aplicação de tais parâmetros se mostra como solução aparentemente adequada sob o prisma formal, no futuro poderá ser objeto de reflexão crítica. Haverá, inevitavelmente, o questionamento sobre as escolhas institucionais realizadas e sobre o papel desempenhado pelo Poder Judiciário na preservação - ou no esvaziamento - da dignidade da pessoa humana.

Nesse cenário, a responsabilidade da magistratura é inequívoca. A opção por não enfrentar a incompatibilidade material de tais normas com a Constituição, ainda que sob o amparo da presunção de constitucionalidade, poderá ser compreendida, historicamente, como uma forma de abstenção institucional.

Tal postura, à semelhança de conhecidas passagens históricas, em que a inação foi escolhida diante de situações que exigiam posicionamento, tende a ser registrada como um dos momentos mais sensíveis da atuação jurisdicional. Não por ausência de instrumentos jurídicos, mas pela escolha de não os utilizar em sua plenitude.

O tempo, como sempre, revelará o alcance dessas decisões. E a memória institucional, inevitavelmente, registrará não apenas os acertos, mas também as omissões.

Autor

Leonardo Garcia Advogado, Procurador do Estado do Espírito Santo; Mestre em Direitos Difusos e Coletivos pela PUC/SP; Membro do GT de acompanhamento da Lei do Superendividamento no CNJ, Autor dos livros e parecerista

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