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O abismo entre a propaganda e a realidade: Um convite à reflexão eleitoral

Análise crítica do cenário eleitoral: Propaganda versus realidade socioeconômica, destacando a fragilidade social e responsabilidade administrativa do atual governo.

23/4/2026
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À medida que o calendário avança para um novo ciclo eleitoral, o cenário nacional começa a ser ocupado por uma intensa engrenagem de propaganda. Historicamente, este é um período saturado de narrativas moldadas para captar o voto, muitas vezes permeadas por meias-verdades e promessas que ignoram o passado recente. Para o cidadão que deseja decidir com consciência, torna-se imperativo confrontar o discurso político com a frieza dos fatos e a realidade dos indicadores socioeconômicos.

É impossível analisar o Brasil de hoje sem observar a continuidade política: Nos últimos 23 anos, o atual mandatário e seu partido geriram o país por 16,5 anos, o que representa 70% do período. Portanto, a situação atual é indissociável dessa responsabilidade administrativa. Soma-se a isso um fator demográfico relevante: Se reeleito, o presidente iniciaria um quarto mandato aos 81 anos, encerrando-o aos 85, um dado que merece reflexão sobre a estabilidade institucional a longo prazo.

Enquanto a propaganda sugere avanços, os números do IBGE e do Banco Mundial revelam uma vulnerabilidade social profunda. Atualmente, cerca de 60 milhões de brasileiros sobrevivem com menos de R$ 600,00 mensais - pouco mais de um terço do salário-mínimo. Na base da pirâmide, 70% dos aposentados e pensionistas recebem apenas o piso nacional, enquanto milhões de idosos e deficientes dependentes do BPC sequer possuem direito ao 13º salário. Ao todo, quase metade da população nacional vive com menos de um salário-mínimo por mês, evidenciando que a arrecadação tributária recorde não tem sido convertida em erradicação da pobreza.

Essa fragilidade foi agravada por uma manobra silenciosa na política de rendimentos. Ao final de 2024, uma alteração na fórmula de reajuste do salário-mínimo substituiu o crescimento do PIB por um teto inflacionário de 2,5%. Na prática, isso representou uma redução real no poder de compra para 2025 e 2026, afetando quase 100 milhões de pessoas, entre servidores municipais, trabalhadores do setor privado e beneficiários do Bolsa Família - estes últimos enfrentando ainda um longo congelamento no valor do benefício. Enquanto a sociedade aguardava a prosperidade prometida, o que se viu foi o encolhimento da capacidade de colocar alimento na mesa.

O contraste torna-se ético quando observamos a gestão fiscal. Em 2025, a arrecadação atingiu o recorde histórico de R$ 2,93 trilhões, impulsionada pelo aumento de impostos. No entanto, o investimento em áreas essenciais foi pífio, inferior a 2% do orçamento, enquanto a dívida pública saltou R$ 1,1 trilhão e o país destinou cerca de R$ 1 trilhão apenas para o pagamento de juros bancários. No topo da estrutura estatal, o privilégio impera: Milhares de servidores recebem acima do teto constitucional e bilhões de reais são canalizados para emendas parlamentares e fundos partidários.

Em última análise, o que assistimos é uma transferência de recursos daqueles que ganham até R$ 54,00 por dia para sustentar os "donatários do século XXI" e as bilionárias renúncias fiscais. O Estado, como observou Harry Edson Browne, frequentemente quebra as pernas do cidadão para depois oferecer uma muleta e clamar para si o mérito do caminhar. Diante da propaganda que se aproxima, o povo brasileiro, detentor do poder do voto, precisa de informações corretas e reflexão profunda para não ser novamente enganado por ilusões custeadas pelo seu próprio esforço.

Autor

Samuel Hanan Engenheiro, com especialização nas áreas de macroeconomia, administração de empresas e finanças, empresário e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002).

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