Migalhas de Peso

Quem costura as 40 horas?

A redução da jornada reacende o debate sobre exaustão, trabalho invisível e os impactos da escala 6x1 na vida cotidiana.

1/6/2026
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Poucas indústrias revelam tanto sobre o espírito do nosso tempo quanto a moda.

O que hoje ocupa uma vitrine amanhã já parece antigo. Coleções sucedem coleções. Tendências nascem e desaparecem em questão de semanas. O mercado celebra a novidade permanente. O consumo é impulsionado pela sensação de urgência. Existe sempre uma próxima estação, uma próxima estética, uma próxima necessidade criada para substituir a anterior. A velocidade tornou-se um valor.

Não surpreende, portanto, que a aprovação da PEC 221/20191 que reduz a jornada de trabalho e praticamente encerra a escala 6x1 tenha provocado tamanho debate. A proposta toca justamente em uma das questões centrais do século XXI: os limites da aceleração.

Segundo o texto aprovado, a transição ocorrerá em duas etapas. Em até sessenta dias após a promulgação, a jornada semanal passará de quarenta e quatro para quarenta e duas horas e será assegurado o direito a dois dias de descanso semanal remunerado. Em até doze meses, a jornada será reduzida para quarenta horas semanais, preservados os salários.

Os detalhes jurídicos são relevantes. As perguntas que emergem dessa mudança talvez sejam ainda mais significativas.

Durante décadas, a discussão sobre jornada foi conduzida principalmente a partir de indicadores econômicos. Custos, produtividade, competitividade, crescimento. Tudo isso importa. Ocorre que a experiência concreta do trabalho raramente cabe integralmente em gráficos e projeções.

Há um elemento que permaneceu silenciosamente presente em todas essas discussões: o cansaço, que raramente aparece nos relatórios.

Está na trabalhadora que atravessa a cidade antes do amanhecer. No profissional que responde mensagens durante o jantar. Na ansiedade de domingo à noite. Na sensação de disponibilidade permanente produzida pelos celulares, plataformas digitais e sistemas de comunicação instantânea. Está na dificuldade crescente de estabelecer fronteiras entre trabalho, descanso, convivência familiar e vida pessoal.

A exaustão tornou-se parte da paisagem contemporânea.

Por isso a discussão sobre jornada ultrapassou os espaços tradicionais da política e dos sindicatos e encontrou ressonância nas redes sociais, nas conversas familiares, nos ambientes de trabalho e na experiência cotidiana de milhões de pessoas que passaram a reconhecer no próprio corpo os efeitos da aceleração permanente.

Nesse cenário, a moda oferece uma lente particularmente interessante para compreender o debate.

Durante anos, minha pesquisa acadêmica voltou-se para o trabalho invisível que sustenta a cadeia produtiva da moda. Ao longo desse percurso, uma pergunta aparecia repetidamente: quem suporta os custos humanos da velocidade?

A resposta raramente estava nas vitrines.

Ela surgia nas oficinas de costura, nos centros de distribuição, nos estoques, nas lojas e nos inúmeros espaços que permanecem fora do campo de visão do consumidor.

E a costureira ocupa um lugar emblemático nessa história. Seu trabalho atravessa séculos. Costura tecidos, ajusta medidas, transforma matéria-prima em vestuário e ajuda a movimentar uma das maiores indústrias do mundo. Ainda assim, permanece frequentemente ausente das narrativas de sucesso que cercam o setor.

Quem olha uma vitrine vê a peça pronta.

Raramente vê os caminhos percorridos até que ela chegasse ali.

A moda produz encantamento pela superfície enquanto o trabalho aparece menos. As oficinas, os centros de distribuição, os estoques e os inúmeros profissionais que sustentam o ritmo acelerado da indústria, permanecem fora do campo de visão

A costureira conhece esse ritmo.

Conhece os prazos encurtados, as entregas urgentes, as coleções que se sucedem sem intervalo e a pressão constante para produzir mais em menos tempo. Em muitos casos, a jornada não termina quando o trabalho remunerado termina. Há filhos para cuidar, refeições para preparar, familiares que dependem de atenção e uma série de responsabilidades que continuam exigindo presença.

Na cadeia produtiva da moda, essa questão aparece de maneira bastante evidente. O ritmo acelerado das coleções e a busca permanente por redução de custos convivem com oficinas terceirizadas, trabalho domiciliar, remuneração por peça e outras formas de organização produtiva que frequentemente dificultam o acesso aos direitos trabalhistas. A escala 6x1 organizou a rotina de milhões de trabalhadores brasileiros durante décadas. Influenciou relações familiares, formas de convivência e a própria percepção social do descanso.

A discussão aberta pela PEC amplia esse horizonte. Desenvolvimento econômico, inovação, produtividade e competitividade possuem relevância evidente para qualquer sociedade. A vida coletiva, contudo, também se constrói por meio do cuidado, da convivência, da formação, da cultura, dos afetos e da participação cidadã.

A cadeia produtiva da moda oferece uma perspectiva particularmente interessante para compreender esse debate. As vitrines exibem roupas. As etiquetas exibem marcas. O trabalho costuma aparecer menos.

Entre a criação e o consumo existe uma extensa rede de pessoas que sustentam a circulação das mercadorias. Costureiras, modelistas, revisoras, vendedoras, trabalhadoras da logística e profissionais que atuam em diferentes etapas da produção participam dessa trajetória sem ocupar a mesma visibilidade reservada aos produtos e às marcas.

É nesse ponto que a figura da costureira retorna ao centro da reflexão.

Grande parte das mulheres que ocupam as posições mais vulneráveis desse setor convive justamente com situações em que a proteção jurídica encontra maiores dificuldades para se efetivar.

Exibe a superfície das roupas e silencia frequentemente sobre as condições em que foram produzidas.

O Direito do Trabalho, por sua vez, surge para tornar visíveis relações, conflitos e desigualdades que muitas vezes permanecem naturalizados.

A discussão sobre jornada não se encerra nas horas registradas em uma folha de ponto, ela alcança a forma como uma sociedade distribui seus tempos, reconhece seus trabalhos e atribui valor às pessoas que sustentam sua dinâmica econômica.

Na moda, essa reflexão conduz inevitavelmente à figura da costureira. Presente em praticamente todas as etapas da cadeia produtiva, ela permanece ausente de boa parte das narrativas construídas sobre inovação, crescimento e consumo.

O debate aberto pela PEC oferece uma oportunidade rara de voltar o olhar para essas trajetórias.

A redução da jornada representa um avanço civilizatório importante. A efetividade dessa conquista dependerá, entretanto, da capacidade de alcançar os espaços onde o trabalho permanece invisível, fragmentado ou juridicamente descaracterizado.

Na cadeia produtiva da moda, essa realidade possui rosto. Está nas oficinas terceirizadas, no trabalho domiciliar, nas contratações precárias e nas diversas formas de organização produtiva que dificultam o acesso aos direitos sociais.

A discussão aberta pela PEC recoloca essas trabalhadoras no horizonte do debate público. E isso é tão importante quanto a própria redução da jornada.

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1 https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2233802 Acesso em: 28 maio 2026.

Autor

Isabel Cristina de Medeiros Tormes Formada em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Isabel Cristina de Medeiros Tormes é advogada com atuação exclusiva na área trabalhista há quase três décadas. Especialista em Direito da Moda (Fashion-Law), é presidente da Associação dos Advogados Trabalhistas de São Paulo (AATSP) e sócia do Rodrigues Jr. Advogados. Mestre em Direito pela PUC São Paulo.

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