Migalhas de Peso

Salários escondem histórias

A moda mostra que nem toda história está à vista. A transparência salarial expõe desigualdades e revela as estruturas por trás delas.

8/6/2026
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Toda roupa possui uma história.

Nem sempre a história que conta.

A etiqueta informa o tecido, o tamanho, o país de origem. A marca comunica pertencimento. A campanha publicitária sugere estilo, identidade, desejo. A vitrine organiza aquilo que recebe atenção.

A costura segue presente.

A moda oferece um retrato preciso da forma como uma sociedade distribui reconhecimento. A moda oferece um retrato preciso da forma como uma sociedade distribui reconhecimento. Entre a vitrine e a oficina, existe uma diferença de visibilidade que nem sempre corresponde à importância do trabalho realizado. A roupa chega ao olhar do consumidor. As pessoas que a produziram costumam permanecer fora da cena.

A discussão sobre desigualdade salarial toca esse mesmo ponto.

Os números são conhecidos. Há décadas aparecem em pesquisas, relatórios e estatísticas. A diferença remuneratória entre homens e mulheres atravessou governos, crises econômicas, transformações tecnológicas e profundas mudanças no mercado de trabalho. Atravessou a ampliação da escolaridade feminina, a chegada de mulheres a profissões historicamente fechadas e a própria Constituição de 1988.

Ainda assim, os dados continuam produzindo um fenômeno curioso: ninguém parece ignorar sua existência e, ao mesmo tempo, sua permanência raramente provoca o grau de inquietação que seria esperado diante de algo tão persistente.

Foi preciso chegar a 2026 para que o STF reafirmasse a constitucionalidade de uma política destinada a ampliar a transparência salarial.1

Sob essa discussão existe uma pergunta antiga:

Quem define o valor do trabalho?

A pergunta possui dimensão econômica e alcança algo mais profundo.

Toda sociedade revela aquilo que considera digno de reconhecimento quando atribui valor a determinadas atividades e reduz outras à condição de tarefa invisível.

O salário remunera o trabalho realizado. Expressa, também, a forma como uma comunidade enxerga quem o realiza. Participa da construção da autonomia, amplia ou restringe possibilidades, influencia trajetórias profissionais e interfere concretamente nas condições de existência.

Por essa razão, a desigualdade salarial lança luz sobre uma questão essencial: o reconhecimento da dignidade de quem trabalha.

Durante séculos, atividades ligadas ao cuidado, à manutenção da vida cotidiana e à reprodução social permaneceram fora dos centros de prestígio econômico. Eram essenciais ao funcionamento da sociedade. A relevância prática dessas atividades conviveu com formas limitadas de reconhecimento material e simbólico.

A indústria da moda conhece bem essa dinâmica.

A peça pronta chega ao consumidor carregando valor de mercado. Entre o desenho inicial e a roupa exposta na vitrine existe uma sucessão de mãos, horas, técnicas e experiências que raramente aparecem na mesma proporção em que aparecem as marcas.

A diferença salarial registrada na folha de pagamento também possui uma história anterior ao número final.

Ela se forma na atribuição de valor a determinadas atividades, nos critérios utilizados para promoções, nas expectativas construídas em torno de carreiras, na distribuição do tempo dedicado ao trabalho remunerado e ao cuidado, nas formas pelas quais reconhecimento e prestígio circulam dentro das organizações.

Os salários registram o resultado desse percurso.

Registram também escolhas coletivas.

Revelam quais atividades recebem prestígio, quais experiências permanecem à margem e quais contribuições são percebidas como indispensáveis à vida social.

Quando diferenças persistem de forma sistemática entre pessoas que desempenham trabalho de igual valor, tornam-se visíveis questões de reconhecimento, pertencimento e igualdade de oportunidades.

Por essa razão, a transparência salarial possui relevância que ultrapassa a divulgação de números. Ela permite observar estruturas que costumam permanecer diluídas em decisões cotidianas, critérios subjetivos e práticas incorporadas à rotina das instituições.

Na moda, observar a peça pelo avesso revela caminhos percorridos pelo tecido, pontos de tensão, acabamentos, escolhas técnicas e marcas do processo de produção.

Na moda, basta virar a peça para encontrar a costura.

Nas relações de trabalho, certos percursos permanecem escondidos por mais tempo.

Diferenças salariais podem atravessar décadas sem receber a mesma atenção dedicada aos números que as registram.

A transparência permite acompanhar parte desse caminho.

Pela primeira vez, a discussão deixa de se concentrar na existência da diferença salarial e alcança as razões de sua permanência.

A transparência funciona como o avesso da peça: permite observar costuras que antes passavam despercebidas.

Como acontece ao se virar uma peça de roupa do avesso, tornam-se visíveis costuras que sempre estiveram ali.

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1 https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/lei-que-institui-igualdade-salarial-entre-homens-e-mulheres-e-constitucional-decide-stf/. Acesso em 3 de junho de 2026

Autor

Isabel Cristina de Medeiros Tormes Formada em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Isabel Cristina de Medeiros Tormes é advogada com atuação exclusiva na área trabalhista há quase três décadas. Especialista em Direito da Moda (Fashion-Law), é presidente da Associação dos Advogados Trabalhistas de São Paulo (AATSP) e sócia do Rodrigues Jr. Advogados. Mestre em Direito pela PUC São Paulo.

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