Há uma percepção recorrente de que a formação de um bom profissional tributário começa na legislação. A minha experiência me ensinou algo diferente. Antes da estratégia, vem a operação. Antes da interpretação, vem a compreensão do negócio. E, antes da liderança, vem a experiência de executar.
Minha trajetória na área tributária começou aos 17 anos, em meu primeiro emprego registrado, como auxiliar de escrita fiscal. Minha primeira responsabilidade estava longe de qualquer análise sofisticada. Eu organizava um arquivo fiscal. Pode parecer uma atividade simples. Mas, na área tributária, até um arquivo exige critério. Era necessário compreender o que era matéria-prima, material auxiliar, uso e consumo, material administrativo, entre outras classificações. Sem perceber, eu começava a entender como aquela empresa funcionava. Foi ali que aprendi uma lição que me acompanharia por toda a carreira: Não existe tarefa pequena quando existe propósito.
Passei mais de um ano naquela atividade. Tenho asma e me lembro dos olhos irritados e do desconforto causado pela poeira. Mas me lembro, sobretudo, da felicidade que sentia. Aos 17 anos, eu havia conquistado meu primeiro emprego registrado e tinha consciência do valor daquela oportunidade. Por isso, procurava fazer bem feito.
Não porque aquela fosse uma atividade extraordinária, mas porque a oportunidade era extraordinária para mim. Quando terminei de organizar aquele arquivo, já conhecia praticamente toda a operação da empresa. Na época, eu não tinha dimensão do quanto aquela experiência seria importante. Hoje tenho.
A estratégia tributária começa onde a operação acontece
Ao longo dos anos, fui promovida e passei por diferentes etapas da área fiscal e tributária. Vieram os lançamentos de notas fiscais, as obrigações acessórias, as apurações, as análises e responsabilidades progressivamente maiores. O crescimento foi gradual. Com o tempo, compreendi que conhecer a legislação é indispensável, mas insuficiente para uma atuação verdadeiramente estratégica. Não existe boa análise tributária sem conhecimento do negócio.
É preciso compreender como a empresa compra, vende, produz, movimenta estoques, contrata, forma preços e se relaciona com clientes e fornecedores. O tributo não nasce isolado. Ele decorre de uma operação econômica. Por isso, quando uma análise tributária começa exclusivamente pela legislação e ignora o funcionamento da empresa, corre-se o risco de encontrar uma solução juridicamente interessante, mas operacionalmente inadequada. A técnica precisa conversar com a realidade. Talvez essa seja uma das principais diferenças entre simplesmente cumprir uma obrigação tributária e participar efetivamente da estratégia de uma organização.
Ao longo da minha trajetória, tornou-se cada vez mais evidente que a tributação interfere diretamente no caixa, na margem, na formação de preços, na competitividade, nos investimentos e nas decisões empresariais. Por isso, considero limitada a visão do profissional tributário como aquele responsável apenas por calcular tributos ou acompanhar obrigações acessórias. Sua atuação pode, e deve, contribuir para a tomada de decisão.
Algumas etapas não atrasam uma carreira. Elas constroem uma carreira
Sempre fui muito curiosa. Queria aprender mais, participar de atividades mais complexas e assumir responsabilidades maiores. Em determinado momento, ouvi de um gestor uma frase que, naquela época, me causou ansiedade:
"Você ainda não está pronta". Eu queria estar pronta. Queria crescer. Queria fazer mais.
Hoje compreendo melhor o significado daquela espera. Existe um tempo para observar, um tempo para executar e um tempo para errar, corrigir e amadurecer.
Vivemos em um ambiente profissional marcado pela velocidade. Existe uma expectativa constante de crescimento rápido, reconhecimento imediato e progressão acelerada. Mas experiência não se antecipa.
Conhecimento técnico pode ser adquirido por meio de cursos, livros, legislação, decisões administrativas e jurisprudência. Discernimento, porém, também depende de vivência.
Depende de observar consequências, assumir responsabilidades gradativamente, enfrentar situações para as quais não existe uma resposta pronta e aprender a decidir. Algumas etapas não atrasam o caminho.
Elas são o caminho
Foi assim que passei pelas funções de auxiliar, assistente, analista, especialista e gestora, até chegar à construção do meu próprio escritório. Nenhuma dessas experiências desapareceu quando a etapa seguinte começou. Ao contrário. Cada uma passou a integrar a profissional que eu me tornava.
O que a execução ensina à liderança
Talvez eu tenha percebido a importância dessa trajetória com ainda mais clareza quando me tornei gestora. Ter vivido pessoalmente as etapas que depois passei a supervisionar modificou minha forma de liderar.
Eu sabia quanto tempo determinadas atividades realmente demandavam. Sabia quais processos exigiam maior concentração. Compreendia quais tarefas eram mais sensíveis e em quais pontos meu time precisava de maior desenvolvimento. Sabia reconhecer quando um erro fazia parte de um processo genuíno de aprendizado. Mas também sabia identificar quando alguém tinha capacidade para entregar mais e precisava ser desafiado. Essa experiência me ensinou que liderança não é simplesmente cobrar resultado.
Liderar é desenvolver pessoas capazes de entregá-lo.
Existe uma diferença importante entre essas duas coisas. Um gestor que conhece apenas o resultado final consegue medir desempenho. Um gestor que conhece o processo consegue compreender como aquele resultado foi construído. Isso torna a cobrança mais justa, a orientação mais precisa e o desenvolvimento mais consistente. Foi também nesse período que compreendi uma ideia que procuro levar comigo:
Empatia não elimina a cobrança. Ela qualifica a cobrança. É possível acolher sem normalizar a falta de responsabilidade.É possível cobrar sem desrespeitar.É possível desenvolver pessoas e, simultaneamente, manter compromisso com eficiência, qualidade e resultado. Excelência e humanidade não são conceitos incompatíveis.
Resultado tributário não é economia a qualquer custo
Existe outro aprendizado que o tempo trouxe. Na área tributária, é relativamente fácil transformar a palavra "resultado" em sinônimo de redução de tributos. Mas resultado tributário é muito mais amplo.Uma estratégia adequada deve considerar eficiência, segurança jurídica, aderência à legislação e compatibilidade com a operação da empresa.Nem toda economia representa, necessariamente, um bom resultado.
Se determinada solução não encontra sustentação técnica, não consegue ser incorporada à operação ou cria uma contingência desproporcional ao benefício pretendido, talvez ela não possa ser chamada de estratégia. Pode ser apenas a transferência de um problema para o futuro. Por isso, a busca pelo melhor resultado precisa caminhar ao lado da ética, da responsabilidade e da segurança. Uma estratégia tributária eficiente precisa funcionar além da planilha.
Precisa fazer sentido para a empresa. Precisa encontrar sustentação jurídica. Precisa ser executável. E precisa se sustentar ao longo do tempo.
O papel do profissional tributário, portanto, não é simplesmente encontrar caminhos para uma menor carga tributária. É identificar o caminho mais adequado para determinada realidade empresarial.
Disciplina também é uma competência estratégica
Se pudesse escolher uma característica que atravessou todas as etapas da minha trajetória, provavelmente escolheria a disciplina.Grande parte da construção profissional acontece quando ninguém está olhando. Está na obrigação revisada novamente.
Na análise que poderia ter sido superficial, mas recebeu atenção. Na dúvida que não foi ignorada. Na pesquisa realizada antes de uma resposta. No prazo respeitado. Na disposição de assumir uma tarefa simples com a mesma responsabilidade dedicada a uma atividade considerada estratégica.São escolhas aparentemente pequenas, repetidas durante anos, que constroem consistência. Talvez por ter começado pela execução, desenvolvi uma relação muito particular com o trabalho.Tenho dificuldade em enxergar uma demanda apenas como mais uma tarefa.
Procuro compreender o que existe por trás dela.
- Qual é o impacto.
- Quem será afetado.
- Qual resultado a empresa espera.
- E qual responsabilidade acompanha aquela entrega.
A carreira profissional nos ensina técnica, mas também nos forma como pessoas. Desenvolve disciplina, responsabilidade, resiliência, humildade e empatia. O ambiente profissional nos molda muito além do conhecimento que colocamos no currículo. Ele participa da construção da nossa maneira de tomar decisões, lidar com pessoas, enfrentar responsabilidades e compreender o impacto do nosso trabalho.
Do arquivo fiscal à tomada de decisão
Quando olho para aquela jovem de 17 anos organizando um arquivo fiscal e para a profissional que sou hoje, existe uma grande distância entre os dois momentos. Mas existe também uma continuidade.Ainda acredito no trabalho bem feito. Ainda acredito no valor da disciplina. Ainda acredito na importância de conhecer profundamente a operação antes de propor uma solução. E continuo acreditando que resultado e humanidade podem caminhar juntos.Hoje, depois de viver diferentes etapas da área tributária, meu propósito ganhou uma nova dimensão. Já não se trata apenas de aprender. Trata-se também de compartilhar experiência, desenvolver profissionais, apoiar empresas em decisões melhores e contribuir para que o tributário seja compreendido não apenas como obrigação, mas como parte integrante da gestão e da estratégia empresarial.
A experiência me ensinou que conhecimento ganha ainda mais valor quando consegue produzir impacto para outras pessoas e para as organizações.
Talvez aquela jovem de 17 anos não soubesse exatamente onde chegaria. Mas, enquanto organizava documentos, aprendia silenciosamente algo que levaria por toda a carreira:
Antes de transformar números, processos ou empresas, o trabalho transforma pessoas.
Comecei organizando um arquivo fiscal. Hoje, ajudo empresas a organizar decisões. E talvez essa seja a melhor síntese da minha trajetória no tributário. Talvez aquela jovem de 17 anos não soubesse exatamente onde chegaria. Mas, enquanto organizava documentos, aprendia silenciosamente algo que levaria por toda a carreira:
Antes de transformar números, processos ou empresas, o trabalho transforma pessoas. Comecei organizando um arquivo fiscal. Hoje, ajudo empresas a organizar decisões. E talvez essa seja a melhor síntese da minha trajetória no tributário.