Imagine acordar na manhã do seu aniversário de 30 anos e descobrir que está sendo processado. Você não sabe quem o acusa, não sabe exatamente qual crime teria cometido, não conhece as regras daquele processo e, sobretudo, não consegue encontrar alguém capaz de explicar, de maneira objetiva, o que está acontecendo.
É assim que começa O Processo, de Franz Kafka. Publicado postumamente, em 1925, o romance acompanha Josef K., um procurador-chefe de um banco que se vê envolvido em um procedimento judicial cuja acusação jamais lhe é claramente apresentada. Neste desenrolar, ele tenta compreender e enfrentar uma estrutura que parece ter regras próprias, personagens que sabem mais do que ele e autoridades às quais nunca consegue ter pleno acesso.
Para quem nunca leu Kafka, o mais interessante acaba sendo o sentimento de desconforto provocado pela história não está apenas no que acontece com Josef K. Está também na experiência de acompanhar sua trajetória sem receber do autor todas as respostas que esperamos. O leitor, assim como o personagem, também se sente diante de um sistema que não consegue compreender completamente.
É justamente aí que O Processo pode ensinar algo ao Direito contemporâneo: a presença da informação não significa necessariamente a compreensão. Um processo pode ter centenas de páginas. Uma decisão judicial pode ser tecnicamente impecável. Uma lei pode estabelecer direitos, obrigações e consequências com precisão. Um escritório pode produzir artigos, posts e vídeos diariamente. Ainda assim, o destinatário de toda essa informação pode continuar sem saber o que, de fato, está acontecendo.
A linguagem jurídica possui uma razão de existir. Comunicar, entretanto, é tornar comum. E quando estamos falando para públicos heterogêneos, ‘traduzir’ esse universo acaba se tornando um desafio interessante de desenvolvimento do repertório autoral,
Imprensa, marketing e a tradução da complexidade
Na imprensa, o desafio ganha outra camada. O jornalista não precisa transformar-se em advogado para cobrir uma decisão judicial. Tampouco se espera que o leitor conheça o CPC ou a jurisprudência dos tribunais.
O que importa é conseguir responder a perguntas aparentemente simples, que chamamos de Lead Jornalístico: o que aconteceu? Por que aconteceu? Quem será afetado? O que muda? Por que isso importa? - são essas as perguntas que dialogam a visibilidade do advogado, em conexão com seu assessor de imprensa e com os jornalistas de redação.
O advogado domina o conteúdo técnico. O jornalista domina a lógica da notícia. O assessor de imprensa pode atuar na interseção entre esses dois universos, identificando a relevância pública de uma informação e ajudando a traduzi-la sem distorcer seu significado.
O mesmo vale para o marketing jurídico. Um escritório pode ter excelente reputação técnica, profissionais altamente especializados e produzir conteúdo diariamente. Mas existe uma pergunta anterior a todo esse cenário: alguém consegue compreender por que esse conhecimento é relevante?
É nesse momento que diagnosticamos a existência do que chamamos de posicionamento. Ele surge quando conhecimento, contexto e linha editorial encontram uma narrativa capaz de fazer sentido para alguém, não apenas da exposição de competências. Caso você seja um advogado com expertise em Regulação, por exemplo, uma empresa não vai querer simplesmente saber que determinada norma foi publicada. Ela precisa entender como será afetada diretamente. Um empresário não deve apenas conhecer a existência de uma decisão judicial, mas entender o que ela pode representar para seu negócio. Um cidadão não precisa necessariamente dominar a fundamentação de um acórdão, e sim, conseguir compreender se aquilo muda alguma coisa em sua vida.
A verdadeira autoridade jurídica não se mede pela altura do muro conceitual que o profissional constrói ao seu redor, mas pela precisão com que consegue abrir janelas para o mundo real. Se em O Processo, de Kafka, o cidadão se vê perdido em um labirinto por falta de explicações claras, na vida real a boa comunicação - seja na imprensa ou no posicionamento de um escritório - cumpre o papel oposto: o de guiar, orientar e dar sentido ao conhecimento prévio.
Traduzir a complexidade do Direito sem deturpar a sua essência nunca pode ser confundido por simplismo ou falta de rigor técnico. Trata-se de respeito pelo interlocutor, utilidade pública e a única forma de garantir que ninguém precise se sentir, como Josef K., refém de um cenário que não consegue acessar.