O Gaeco - Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, do MP/SP, deflagrou, nesta terça-feira, 20, duas operações para investigar suspeitas de fraudes praticadas por advogados em ações judiciais ajuizadas em nome de aposentados e pensionistas no interior de São Paulo. As operações Libelo e Garatéia resultaram no cumprimento de 11 mandados de busca e apreensão e no bloqueio judicial de R$ 6,1 milhões em bens e valores. Em Ribeirão Preto, um advogado investigado foi preso em flagrante por suspeita de obstrução da Justiça após, segundo a Polícia Militar, arremessar um notebook e um celular pela janela de seu apartamento durante a chegada dos agentes.
As investigações apuram a atuação de grupos suspeitos de captar idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade para ajuizar ações em massa contra instituições financeiras e utilizar mecanismos processuais para controlar os créditos obtidos judicialmente.
Segundo o Ministério Público, os grupos investigados são distintos e, até o momento, não há conclusão sobre eventual ligação entre eles.
As medidas foram cumpridas em Ribeirão Preto, Altinópolis e Franca, com apoio das forças policiais.
Advogado é preso após jogar equipamentos pela janela
Em Ribeirão Preto, o advogado Guilherme Menna Barreto Gentil foi preso em flagrante durante o cumprimento de um mandado de busca e apreensão em seu apartamento.
Segundo a Polícia Militar, quando os agentes do Baep - Batalhão de Ações Especiais de Polícia chegaram ao imóvel, a esposa do advogado teria informado que ele não estava no local.
Nesse intervalo, conforme relato policial, Guilherme teria arremessado um notebook e um telefone celular pela janela do apartamento.
Os policiais perceberam a movimentação e recuperaram os equipamentos. Um vídeo divulgado pelo g1 mostra um integrante do Baep subindo na cobertura de vidro da piscina do condomínio para retirar o notebook, que havia caído sobre a estrutura.
De acordo com o capitão Ulisses Branquinho Arsêncio, a conduta motivou a prisão em flagrante por suspeita de obstrução da Justiça.
Além da residência, os agentes realizaram buscas em um endereço utilizado pelo advogado para atendimentos profissionais.
Guilherme foi encaminhado à Central de Polícia Judiciária de Ribeirão Preto, com previsão de audiência de custódia nesta quarta-feira, 21.
À EPTV, o advogado Júlio Mossin, responsável por sua defesa, negou que o cliente tenha cometido fraudes ou se apropriado de valores de clientes.
Sobre o episódio dos equipamentos, afirmou que Guilherme não admitiu tê-los arremessado e invocou o direito constitucional de não produzir provas contra si mesmo.
Operação Libelo: mais de 2 mil processos em Altinópolis
A operação Libelo investiga suspeitas de irregularidades na atuação de advogados em Ribeirão Preto e Altinópolis.
Foram autorizados seis mandados de busca e apreensão, sendo quatro em Ribeirão Preto e dois em Altinópolis, além do bloqueio de bens e valores até o limite de R$ 3 milhões.
A investigação começou após a identificação de um volume incomum de ações semelhantes patrocinadas por um mesmo advogado na comarca de Altinópolis.
Segundo o Gaeco, foram identificados mais de 2 mil processos somente no município, relacionados principalmente a empréstimos consignados, cobrança de tarifas bancárias e inclusão indevida de consumidores em cadastros de inadimplentes.
O Ministério Público apura se os advogados utilizavam ações judiciais para concentrar o controle dos créditos de seus clientes e realizar levantamentos de valores sem o devido repasse.
A investigação identificou processos em que os titulares dos créditos não sabiam quanto havia sido recebido judicialmente ou desconheciam a transferência de seus direitos a terceiros.
De acordo com o Gaeco, o núcleo investigado atuava principalmente em Altinópolis e Ribeirão Preto, com ramificações em Campo Grande e Iguatemi, no Mato Grosso do Sul. Também foram identificadas ações propostas pelos profissionais em outras regiões do país.
Créditos vendidos por menos de 20% do valor
Documentos judiciais consultados pelo g1 apontam que créditos obtidos por idosos em ações contra bancos foram cedidos a empresas por menos de 20% do valor a receber.
A cessão de crédito é permitida pela legislação. A investigação busca esclarecer, porém, se os clientes tinham conhecimento das operações, se consentiram com as transferências e se receberam os valores devidos.
Em dois dos três casos analisados pela reportagem, a empresa compradora foi a Desenrola, pertencente ao pai de Guilherme Menna Barreto Gentil. Segundo o g1, a empresa funcionava no mesmo prédio do escritório do advogado, em Altinópolis.
No terceiro caso, a compradora foi a Finalize, sediada em Campo Grande.
Operação Garatéia: mais de 12 mil ações em Franca
A segunda operação, denominada Garatéia, foi realizada em Franca e investiga outro grupo de advogados suspeito de utilizar procurações antigas ou genéricas para ajuizar ações em nome de aposentados e pensionistas.
Foram cumpridos cinco mandados de busca e apreensão. A Justiça também determinou o bloqueio de bens e valores dos investigados até o limite de R$ 3.149.840.
Segundo o Ministério Público, a investigação começou em 2024, após a identificação de indícios de que escritórios de advocacia da região utilizavam uma mesma procuração para propor diversas ações em nome de um único cliente.
Em alguns casos, os titulares não teriam conhecimento da existência dos processos.
O Gaeco também apura suspeitas de levantamento e retenção de valores judiciais sem o devido repasse aos clientes.
Um levantamento do TJ/SP identificou mais de 12 mil ações ajuizadas pelo grupo entre 2022 e 2025.
A investigação financeira apontou que, entre janeiro de 2021 e junho de 2025, contas ligadas aos investigados receberam aproximadamente R$ 10,9 milhões em 3.812 levantamentos de depósitos judiciais.
Desse montante, segundo o Gaeco, cerca de R$ 2,7 milhões foram transferidos a pessoas externas ao grupo investigado.
A apuração também identificou movimentações financeiras relacionadas à cobrança de taxas e a saques em espécie, cujo destino é objeto de investigação.