O poder da linguagem no mercado de consumo
quinta-feira, 23 de abril de 2026
Atualizado em 22 de abril de 2026 08:36
Já disse aqui que a informação é base nas relações de consumo.
Em todas as suas formas, direta, indireta, aberta ou oculta, via marketing em anúncios publicitários em todos os veículos, via redes sociais etc., ela leva a consumidora e o consumidor a adquirir produtos e serviços e a acreditar em muitas coisas para a vida pessoal, para os projetos de educação, para os cuidados com a saúde, enfim para várias escolhas no modo de viver etc.
Hoje continuo explorando esse assunto.
Em tempos de comunicação por amplas redes sociais, eu trato do controle que os poderosos exercem sobre as pessoas com o uso da linguagem, algo que funciona há muito tempo.
Um dos modos conhecidos de controle impostos pela chamada globalização é o da imposição linguística.
Antigamente, esse método chamava-se imperialismo, ditado pelos países ricos; os demais países eram qualificados como subdesenvolvidos.
Trata-se de uma forma de manipulação com várias peculiaridades e que foram sendo impostas com o passar do tempo pelos poderosos dominantes.
Os países ricos continuaram assim e os subdesenvolvidos foram “promovidos” a emergentes. Uma vitória simbólica.
Vitória dos poderosos e não dos dominados, pois como diz o sociólogo francês Pierre Bourdieu, a base da violência simbólica está presente nos símbolos e signos culturais, especialmente no reconhecimento tácito da autoridade exercida por certas pessoas e grupos de pessoas, como por exemplo, a mídia, a religião, a publicidade etc.
Por isso, a violência simbólica propriamente dita nem é percebida como violência, mas sim como uma espécie de indicação, uma permissão ou uma proibição desenvolvidas com base em um respeito ao que "naturalmente" se faz; ela se apresenta como um modelo de conduta a ser seguida. (Pierre Bourdieu, O Poder simbólico. Lisboa: Edições 70, passim).
A produção cultural e tecnológica dos países dominantes é desenvolvida e entregue às pessoas dos demais países. Assim, na era da chamada globalização, a maior parte das invasões não se faz em termos de territórios, mas de mercados (ainda que, como sabemos, as invasões territoriais continuem existindo).
Toma-se conta do polo de consumo e, na medida em que os consumidores e as consumidoras aderem aos produtos e serviços inventados e produzidos pela indústria e comércio dominantes, passam a se comportar como esses detentores do poder global querem que elas e eles se comportem. Quanto aos produtos e serviços, vale de tudo, desde um refrigerante até os chamados “produtos culturais”, tais como filmes de cinema, enlatados de tevê e demais redes, séries, programas etc.
E um dos modos mais eficientes de dominação, como acima antecipei, é o do uso da linguagem. Para ficarmos com a posição de Bourdieu, o uso de palavras e expressões pelos dominadores (os que vêm de fora ou que estão mesmo dentro da comunidade) é um dos modos mais eficientes de controle.
Eu, às vezes, brinco com esse poder que a língua estrangeira tem, especialmente, o anglicismo (que no mais das vezes aparece escondido no termo “estrangeirismo”) e que tem uma origem e direção: a língua inglesa.
Certa vez eu escrevi esse diálogo que ilustra o que eu quero demonstrar. Trata-se da conversa entre dois amigos. Um fala para o outro:
“Minha filha me contou que seu *boyfriend* foi até o *shopping center* de *bike*. Ela estava lá, esperando por ele, na pista de *skate*, que fica em frente a um *outdoor*. Quando ele chegou, foi que ela reparou que ele tinha um *piercing* na barriga, pois estava quase sem camisa por causa do vento. Parecia até que queira fazer *strip tease*”
“Brincando, ela perguntou se ele não queria fazer de vez um *topless* e aproveitar para arrancar o apetrecho do umbigo e colocar um *band-aid* no lugar. Ele riu e disse que estava tudo bem com ele, pois tinha feito um *checkup* recentemente.”
“Daí eles encontraram outro casal e entraram correndo para comer numa lanchonete *fast food*. Ela comeu um *hamburger*, no qual passou *ketchup* e bebeu uma *coca-cola light*. Ele deglutiu um *cheeseburger bacon* e tomou um *milk-shake* de chocolate. De sobremesa, ela comeu um *cupcake* de *blueberry* e ele um *sundae* de creme.”
“Os outros dois amigos, que sentaram na mesma mesa da praça de alimentação, haviam ido a lugares diferentes: ela foi a um restaurante *self-service* e de lá levou uma *caesar salad* e um *smoothie* de morango. Ele variou: pegou um *tuna wrap* num lugar, uma porção de *onion rings* em outro e bebeu um suco *detox*. De sobremesa, ela tomou *frozen yogurt* e ele um *cookie* de chocolate”.
Eu posso dizer à você leitora e à você leitor:: “Isso não é coisa de *influencer* nem é *fake News*”.
Como se sabe, a linguagem é um sistema aberto e, naturalmente, cada língua, de um jeito ou de outro, recebe influência externa. Não há necessariamente um mal nisso até porque é inevitável. Muitas vezes, inclusive, a língua pátria acaba por fazer uma adaptação. No caso brasileiro, são muitas as palavras aportuguesadas (ou abrasileiradas), tais como abajur, futebol, purê, batom, chofer, baguete, ateliê, bife, boate, sutiã etc.
Mas, de fato, chama a atenção a enorme quantidade de termos em inglês que passou a fazer parte do dia-a-dia do mercado de consumo brasileiro, com muita naturalidade, a indicar, como acima referi, de um lado o poder de controle dos americanos e ingleses e, de outro, uma aceitação passiva do modelo.
Uma simples passada d'olhos no mercado brasileiro mostra uma interminável sucessão de termos ingleses com *iphones, smarthphones, blue-rays* etc. ou nos computadores e seus *inputs, outputs, backups, mouse, scanner, software, hardware*, etc. ou, ainda, na internet e redes sociais com o *skype, facebook, o twitter (atualmente X), as hashtags* etc.
*Capisce?*

