quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

COLUNAS

  1. Home >
  2. Colunas

Análise e Conjuntura Política

Conjuntura política, social e econômica brasileira.

Alon Feuerwerker
segunda-feira, 16 de novembro de 2020

A escolha do previsível

A escolha do previsível  Uma leitura inicial dos resultados do primeiro turno da eleição municipal deixa claro que o eleitorado escolheu o previsível, não o imprevisível, e o conhecido, não o desconhecido. As exceções confirmam a regra. Cada um tem sua própria hipótese a provar, e a minha é que o grande eleitor até agora neste processo eleitoral é a Covid-19. Na emergência, a população vem deixando claro não estar muito a fim de experimentação.  Se os políticos e os analistas gostam de olhar os fatos à luz da régua puramente política, os critérios do povão costumam ser de outra ordem. A escolha de um governante se dá medindo em primeiro lugar a relação custo/benefício. E em época de pandemia, com o corolário de dificuldades econômicas, as urnas estão produzindo nomes que prometem menos nas palavras e mais na trajetória, mais identificados com soluções e menos com blábláblá.  O paralelo imediato é com situações de guerra. E não é exagero dizer que estamos no meio de uma, com sua trágica contabilidade de mortes e destruição de forças produtivas. Neste segundo caso, o impacto vem sendo atenuado pelas medidas excepcionais, e que já começam a minguar. Com o esperado efeito na popularidade do governo federal. Ele faturou quando abriu para valer as comportas do orçamento, e agora está ameaçado pelo contrafluxo.* O espírito prático do eleitor e a desconfiança sobre embarcar no desconhecido ficam também comprovados pelo desempenho apenas relativo, e põe relativo nisso, dos assim chamados padrinhos. Desta vez ter o apoio de grandes líderes políticos não fez tanta diferença assim. De todos os lados do espectro. Mas, cuidado: se em 2022 a tendência de escolher o certo e não o duvidoso repetir-se, os líderes talvez voltem a pesar mais. * Há as diversas contabilidades em jogo. Cada um defende a sua. Quem ganhou mais capitais. Quem vai governar mais eleitores. Quem ganhou mais governos e eleitores a governar nas grandes cidades. Quem elegeu mais prefeitos, ou vereadores. Mas novamente cuidado: qualquer conta deve levar em consideração o fato de o sistema partidário vir sendo implodido desde 2014, e esta eleição municipal foi apenas mais uma evidência explícita do fenômeno.  Foi uma eleição que se deu em torno de nomes, e não de siglas. Diferente de movimentos nos ciclos anteriores, não há uma onda partidária crescendo. Em 2018 havíamos tido, pelo menos, ondas de partidos informais, como o da "nova política" e o da segurança pública. Desta vez nem isso. 2018 implodiu o edifício da Nova República. 2020 acaba de exibir o cenário dos persistentes escombros, pois não há qualquer esforço de reconstrução.  Há previsões sobre uma convergência partidária a partir de agora. Mais provável é que o movimento real venha mesmo a partir de 2022. É quando começa a ter peso maior a cláusula de barreira para que os partidos possam ter acesso ao horário eleitoral, às verbas públicas e ao funcionamento parlamentar.
terça-feira, 27 de outubro de 2020

Algumas dúvidas nesta eleição municipal

São elas: 1) Qual o efeito da polêmica sobre as vacinas da Covid-19 no desempenho dos candidatos que mais se identificam com Jair Bolsonaro? 2) Qual o peso real dos padrinhos? 3) Haverá na reta final do primeiro turno alguma onda, e qual seria? 4) Qual será o anti da vez, que rejeição vai prevalecer? Sobre o primeiro ponto, é razoável projetar que vai ganhar fichas quem for identificado como preocupado em tornar a vacina disponível em massa para a população. Aqui, o governador de São Paulo, João Doria, conseguiu uma pegada no quimono melhor que seu adversário de tatame, o presidente Jair Bolsonaro. Um segredo da política é nunca desvelar que os interesses mesquinhos estão sempre em primeiro lugar. A sabedoria reside em embalá-los no papel de presente do "interesse público". Bolsonaro tentou fazer isso com o argumento de que o povo não será cobaia, mas depende de o medo da vacina tornar-se maior que o medo do vírus. Improvável. Outro problema do governo: a ira do presidente contra o governador de São Paulo terá o efeito colateral de vir a despertar desconfianças sobre uma eventual morosidade da Anvisa na liberação da vacina objeto da polêmica. E isso legitimará ainda mais a provável intervenção do Judiciário, uma instituição já atraída pelos holofotes do ativismo. Sobre os padrinhos, até agora o peso deles tem se mostrado apenas relativo. Uma hipótese é funcionarem melhor quando há correspondência de cargo. Por exemplo, um prefeito seria mais efetivo como padrinho na própria sucessão do que políticos de outras esferas. Pois a força do apadrinhamento refletiria em algum grau a avaliação da gestão. O próprio conceito de "padrinho" é duvidoso. Parte da premissa de o eleitor pertencer ao político. Melhor considerar a relação inversa de pertinência. O eleitor na verdade vê o político como um funcionário, e escolhe o que lhe for mais conveniente. Isso vale em toda a escala social. Não pensam assim só os ricos e a classe média. Os pobres também. E qual será, se houver, a onda no primeiro turno? A "nova política" dá sinais de fadiga, mas nunca é bom subestimar. E a quarta pergunta? O antipetismo anda meio esquecido, até porque o desempenho do PT, como era de esperar, não tem sido até agora dos mais brilhantes. Se esta onda vier, deve vir como antiesquerda, que anda bem pulverizada. Uma possibilidade é um certo antibolsonarismo, que por enquanto anda de breque de mão puxado. Dada a natural dificuldade de fazer o casamento do jacaré com a cobra d'água, a junção da esquerda com o pedaço da direita que desgarra do presidente em busca de projetos próprios. Mas é bom ficar de olho. Quem tem escapado de virar alvo do anti são exatamente a direita que descolou de Bolsonaro e a autonomeada centro-esquerda que descolou do PT para se vacinar contra o antipetismo. São candidatos a boas colheitas. E uma lembrança: é bom ficar atento a sua excelência, o imprevisível. No nosso modelo eleitoral, raios em céu azul costumam provocar incêndios inesperados. E o imprevisível, não custa repetir, é das coisas mais difíceis de prever.
segunda-feira, 5 de outubro de 2020

E se Bolsonaro estiver sendo subestimado?

Quase dois anos depois da inauguração de Jair Bolsonaro na presidência, já é possível esboçar algumas linhas de seu processo decisório. Uma delas, talvez a principal: ele navega sempre de olho nos objetivos programáticos mas nunca descuida de se garantir na variável-chave da sustentação política. No limite, abre mão sempre que isso é indispensável para não perder base que o sustenta, e não apenas no Congresso. Eis uma complexidade na vida dos que fazem oposição ou têm a missão de criticá-lo. Como no esquema do teatro grego, o bolsonarismo tem uma máscara, a da antipolítica. Acontece que no fritar dos ovos a política acaba sempre dando as cartas. Vem daí certa frustração notada entre os apoiadores mais da ponta do espectro. Uma avaliação honesta do processo decisório bolsonarista terá de admitir, verificada a realidade, que o capitão-deputado feito presidente não é tão tosco quanto alardeiam os detratores. E que há, ao contrário, algum grau de sofisticação na atual operação política. Acontecia também com Luiz Inácio Lula da Silva, naturalmente que com sinal trocado. Os opositores e críticos viam-no como pior do que realmente era de jogo. O grave erro de, nos negócios e na política, subestimar o concorrente. Vamos olhar aqui dois eventos. O primeiro é a política para o Nordeste. Claro que teve o acaso, que foram a Covid-19 e o consequente auxílio emergencial, que aliás nasceu magrinho e engordou pelos esforços da oposição. O segundo é a recente indicação do nome para o STF. Sorte e azar fazem parte do jogo, e quando as decisões são tomadas é preciso levar isso em conta. Análises a posteriori sempre têm um pouco de engenharia de obra feira, mas talvez os governadores do Nordeste tenham tido azar na escolha que fizeram de aceitar uma certa polarização contra o Planalto. Talvez trabalhassem com a premissa de que o governo ficaria inflexivelmente aferrado à austeridade econômica e isso lhes daria um terreno fértil para fazer oposição a Brasília nos seus estados, reconhecidamente os mais dependentes do dinheiro federal. Simplesmente não aconteceu, e hoje o cenário é de um bolsonarismo que ganha terreno ali com base em política social, verba para obras e alianças com políticos de direita (mesmo quando ditos de centro) que aliás também já foram aliados do PT. Talvez o jogo não se inverta completamente no Nordeste, mas Bolsonaro não precisa disso tudo. Basta a ele crescer na região e sustentar de algum modo a posição no Sudeste e no Sul. As pesquisas mostram que esse objetivo está mais à mão no segundo do que no primeiro. E tem a indicação para o STF, que claramente teve como vetores 1) não afrontar o próprio STF, 2) garantir o apoio no Senado Federal, com poder de veto neste caso e 3) sinalizar aos políticos com um nome não identificado com a caça a eles. O fato é que nenhuma das especulações anteriores à indicação descrevia esses critérios como essenciais. Bolsonaro foi aqui claramente subestimado. E talvez o erro tenha estado em ouvir demais o que se diz na política do que dar atenção ao que se faz. De vez em quando, já se disse aqui, o mais prudente é colocar a política no mudo.
segunda-feira, 28 de setembro de 2020

A enésima morte da nova política

A ideia da necessidade de uma política de tipo inteiramente novo não é novidade na política nacional. Basta lembrar do "Brasil novo" prometido pelo então candidato a presidente Fernando Collor de Mello, três décadas atrás. A tentação é permanente. Quem não gostaria de resolver os próprios problemas e aporrinhações simplesmente apertando o botão de reset? De tempo em tempos, mais agudamente em crises que esgotam a paciência, o eleitor cai nessa. É arrastado pela promessa de que a ponte para superar os impasses é trocar as pessoas erradas pelas certas. E nunca faltam candidatos a preencher a necessidade. E acabam chegando ao poder carregados da esperança de que vão finalmente passar o sistema a limpo. Mas tão previsível quanto o apelo cíclico das promessas de renovação é o poderoso efeito permanente da inércia. Se até nas rupturas dignas do nome ela opera com impacto decisivo nas políticas pós-revolucionárias, quanto mais em transições de superfície, como às que nosso país está habituado na sua já relativamente longa história. O Brasil é quase um laboratório permanente de experimentação da teoria que adverte sobre o peso opressor das ideias mortas sobre as ações dos seres vivos que se imaginam como o novo. Nada é mais previsível por aqui que a alternância entre a euforia diante da novidade e o conformismo quando o velho finalmente volta a se impor. O surto mais recente de ansiedade por uma nova política vem de 2014, impulsionado pela explosão de junho de 2013, o embrião do momento por que o país passa hoje. Mas se ao longo destes anos você fosse perguntando às pessoas "afinal, o que é a nova política", provavelmente constataria, surpreso, que ninguém tinha a menor ideia da resposta. Ao final, a nova política acabou se vestindo de algo bastante velho, o clássico bonapartismo. O culto ao poder unipessoal exercido em ligação direta com o desejo difuso das massas. O obstáculo? Este projeto unipessoal precisaria impor-se na prática aos bolsões de poder estabelecido. No Brasil isso é praticamente impossível, ou muito difícil, por várias razões. Uma singela: o sistema está organizado para impedir qualquer presidente de eleger com ele a maioria parlamentar. Presidente, governadores e prefeitos. O problema está nos três níveis da federação. Na teoria, trata-se de um sistema de freios e contrapesos. Na prática, a garantia de que nada vai mudar. Neste final da metade do (primeiro?) governo Jair Bolsonaro, assistimos ao enésimo enterro de um ensaio da possibilidade de uma política inteiramente nova. Mas, a exemplo de Luiz Inácio Lula da Silva, o atual presidente teve a inteligência, e a prudência, de mandar a coisa toda do "novo" às favas enquanto ainda tinha força suficiente para dissuadir "a velha política" de tentar derrubá-lo. Pois a coisa anda perigosa. Invocar questiúnculas para derrubar governantes que perderam a (ou nunca tiveram a) maioria parlamentar parece estar virando, como se diz, carne de vaca. Comprova-se, de maneira ineditamente disseminada, que governos "técnicos" estão sempre a caminho de cair. Ainda mais com a atual exuberância de um Judiciário inebriado de poder. E de Legislativos que perceberam que podem derrubar quem for sem enfrentar reação ponderável.
segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Números, narrativas e certezas absolutas

A ciência gosta de calcular por meio de porcentagens a letalidade de um fenômeno qualquer. Até o momento, as mortes por Covid-19 pelo mundo resvalam em 0,1% da população nos casos mais agudos. É relativamente aceitável? Não chega a ser motivo para manchetes. Mas, e se você disser que o Brasil deve passar das 200 mil mortes pela ação do SARS-CoV-2? É bem mais impactante. Perdas humanas são sempre trágicas, mas não se engane o leitor, ou leitora: para os políticos, lato sensu, elas são apenas uma variável da função que define o grau de sustentação do poder. Outra variável é a narrativa para explicar as fatalidades. Uma boa narrativa pode, em consequência, neutralizar um alto número de mortes, quando se calcula o efeito político delas. Eis por que o governo federal se agarra à denúncia da resistência dos adversários à cloroquina. Há alguma evidência de que o uso precoce dela teria reduzido as contabilidades fatais? Nenhuma. A ciência já largou de mão faz tempo. Mas isso pouco importa. Interessa antes de tudo fornecer argumentos a quem vai te defender, na mesa do bar ou na reunião da família. Mas seria injusto particularizar a caracterização no governo federal. Veja-se por exemplo a situação de São Paulo. Até sexta-feira o estado tinha 728 mortes por milhão de pessoas. São Paulo desde o início escalou uma profusão de celebridades científicas para dar cobertura à política. Depois implantou um sistema labiríntico para a saída da quarentena, o Plano São Paulo. Bem, com suas 728 mortes por milhão, São Paulo está pior que o Brasil no seu conjunto, onde o número até sexta-feira estava em 641. É razoável deduzir então que o enfrentamento da Covid-19 vem sendo pior em São Paulo que no resto do país? Fica a dúvida. Mas é inegável que a performance de "culto à ciência" está ajudando, e bem, o Bandeirantes a atravessar a borrasca. Voltemos aos 0,1%. Suponhamos que a China tivesse deixado a doença seguir seu curso natural, como fizeram em grande medida o Brasil e os Estados Unidos. É razoável projetar que teríamos então mais de um milhão de chineses mortos pela ação do SARS-CoV-2. Explica-se portanto o duríssimo rigor das autoridades ali. Seria um número de alta letalidade política e propagandística. Números são números. E aí os políticos levam uma vantagem sobre os cientistas. Podem mudar de conversa de um instante para outro, pois no primeiro ramo a coerência não chega a ser um valor vital. Já no ramo científico espera-se que o dito hoje tenha ver com o dito ontem. Se não tiver, é obrigatório explicar por quê. Uma explicação que os divulgadores científicos estão a dever é sobre o atingimento da imunidade de rebanho. Lá no começo da pandemia afirmava-se que seria necessário contaminar uns 60% da população para as curvas de casos e mortes entrarem na descendente. Bem, elas estão caindo por aqui sem que a população dotada de anticorpos ultrapasse 20%. Pode ser que haja gente resistente à coisa mesmo sem exibir anticorpos. Ou pode ser que o número estivesse errado. Ou outra hipótese qualquer. Há muitas por aí. Certamente um dia será explicado. De lição, fica apenas constatar, novamente, que ciência de verdade não combina com certezas absolutas a respeito de assuntos que ainda não se conhece bem.
segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Uma dúvida para 2021

Resta pouca dúvida de que o auxílio emergencial teve um formidável efeito-tampão sobre duas variáveis na conjuntura: a atividade econômica, em particular no comércio, e a sustentação popular de Jair Bolsonaro. Produziu também, junto com o real fraco e a voracidade estrangeira por estoques, algo de carestia em alimentos básicos. O governo aposta que este efeito será passageiro e não vai se propagar. Certa dúvida porém tende a colocar uma pulga atrás da orelha daqui até dezembro. Qual será o efeito do fim do auxílio, pois no momento o governo não quer que ele entre em 2021. Há o projeto do Renda Brasil, mas ainda está no forno e não tem nem de longe a dimensão do auxílio emergencial. Nas condições normais de temperatura e pressão, a cidadania vai ter de voltar a andar com as próprias pernas depois que a São Silvestre passar. Partamos então da premissa de que vai ser assim mesmo. Uma dúvida: como o povão vai reagir? Vai voltar-se contra o governo por este ter esticado a coisa até a eleição e depois tirado? Ou vai sentir-se grato por o governo ter encontrado uma solução de emergência na pandemia e assim evitado o colapso econômico e social? Quem tiver certeza, que faça sua aposta. Não é um jogo de previsão simples. Concessões e benefícios são fáceis de dar, e difíceis de tirar. Eis uma verdade, mesmo que não seja novidade. Mas é verdade também que uma conta mensal de R$ 50 bi não tem sustentação fiscal, ainda mais numa economia há uma década oscilando entre regressões brutais e crescimentos medíocres. Distribuir dinheiro funciona, mas precisa vir junto com aumento da produção ou da importação. Ou as duas coisas. Sem isso, é crise contratada. A história recente traz dois casos em que governantes esticaram o conto de fadas até passar a eleição, depois tiveram de dar a real e viram a popularidade despencar: José Sarney e Fernando Henrique Cardoso. Há também o cavalo de pau de Dilma Rousseff entre o primeiro e o segundo mandatos. Os dois primeiros tinham base no Congresso e no establishment. Sobreviveram. Dilma pagou o preço por não fazer os amigos certos na época das vacas gordas. Mas a história política brasileira é também pródiga em situações nas quais a gratidão popular acaba falando mais alto. Governantes que implementam programas de forte apelo junto ao povão acabam ganhando uma gordura de popularidade para queimar nas horas difíceis. E Jair Bolsonaro tem um trunfo: diferente de Sarney com o Cruzado e FHC com o dólar -- e o frango -- a um real, ninguém poderá dizer dele que prometeu o auxílio-emergencial para sempre. O governo acaba de organizar uma base no Congresso Nacional, mais na Câmara dos Deputados que no Senado Federal. O ministro da Economia parece acreditar na solidez dela, mas as ironias de Rodrigo Maia deveriam acender uma luz amarela no Planalto. Na última linha da planilha, a administração e o próprio presidente da República dependem do que deles acha o povão. Daí a importância da dúvida para 2021.
segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Ciência e bate-boca

A mais importante disputa pré-eleitoral nos Estados Unidos é pela narrativa-mestre: se vai ser a deficiência do governo de Donald Trump no enfrentamento da pandemia da covid-19 ou a acusação republicana de que os democratas de Joe Biden são lenientes com a violência das manifestações #BlackLivesMatter. O andamento das coisas dirá quem levou vantagem.  Contra a linha propagandística de Trump pesa o fato de todas as pesquisas mostrarem simpatia majoritária pela rebelião dos pretos contra os recentes eventos de viés racista. Mas os números mais recentes trazem algum estreitamento da vantagem democrata. Se é só o normal do pós-convenção republicana ou algo mais estrutural, novamente apenas o tempo dirá.  Sobre a covid-19 e o efeito dela na eleição será preciso também esperar para ver como estarão as coisas em novembro. Depois de criticar e depreciar a vacina russa por ter queimado etapas o Ocidente cogita fazer a mesma coisa: queimar etapas para não ficar para trás. E se Trump aparecer com uma vacina antes da eleição a sensação de algum alívio melhorará o ambiente para ele.  Por aqui na América do Sul parece que a covid-19, por enquanto, leva jeito de querer equalizar estratégias. Proporcionalmente, a curva do registro diário de mortes na Argentina parece querer cruzar a do Brasil. Sendo que a Argentina tem a mais longa e uma das mais rígidas quarentenas do planeta. O Brasil? Uma das mais descoordenadas nacionalmente.  Argentina e Brasil são dois países com distribuição populacional muito diferente. Ali o grosso da população concentra-se na Grande Buenos Aires, a província. Parece que agora a pandemia vai migrando para o interior. Sobre o Brasil, outra curiosidade. A curva de registro de óbitos no país está num platô bem elevado desde junho, mas parece ser um achado só estatístico.  O G1 tem uma página diariamente atualizada com as médias móveis de casos e falecimentos pelo Brasil e nos Estados (leia). A curiosidade: a somatória dos Estados vai num platô, mas os Estados em si exibem flutuações mais agudas. No final, a resultante fica estável, e com uma esperança de queda diante dos números mais recentes.  Por falar em números, eles ajudam a relativizar certas disputas. Se é legítimo, por exemplo, estabelecer uma correlação entre o governo Jair Bolsonaro e as cifras nacionais, também será razoável fazer isso nos Estados. Mas a São Paulo do governador João Doria, adversário figadal do presidente, tem, em números redondos, proporcionalmente, um resultado em mortes bastante semelhante ao resto do país.  O que isso permite concluir: talvez seja saudável dar um desconto nas conclusões epidemiológicas baseadas na ciência política. Ainda que pedir racionalidade na política seja amadorismo, ou quixotismo, tanto faz. O fato? Talvez essa tal covid-19 tenha mistérios para além das certezas que desfilam todos os dias pelas alas da polarização.  Um mistério continua sendo a tal imunidade de rebanho. Por que as curvas de casos e mortes se estabilizam e caem se a presença de anticorpos detectados na população está muito longe dos 50, 60, 70% que se diziam indispensáveis para o R mergulhar abaixo de 1? Quem tiver a resposta definitiva, para esta e outras dúvidas, que se apresente.   Enquanto isso fiquemos com o bate-boca, que também é divertido.
segunda-feira, 24 de agosto de 2020

A cadeira no terceiro andar do Planalto

Algo muito perigoso em análises de conjuntura é partir de premissas equivocadas. É como um trem que entra no trilho errado: não dá para fazer o retorno no momento em que se deseja. Tem de esperar pelo próximo trecho onde a operação de mudança de trilho seja mecanicamente viável. Bem, depois de um ano e meio, já é possível listar premissas sobre o governo Jair Bolsonaro que não se realizaram. 1. O governo seria politicamente instável. Essa premissa talvez se baseasse na personalidade do ex-capitão, ou no fato de ele nunca ter tido preocupação orgânica na política, ou na constatação de que as posições dele são consideradas extremistas pelo establishment, ou na ausência de uma base parlamentar própria, ou no desprezo dele pelo mainstream da chamada sociedade civil. Ou em todas essas variáveis combinadas. O fato, entretanto, é que um ano e meio depois o governo, no que interessa, tem com ele três quintos da Câmara dos Deputados, retém nas pesquisas a fatia de mercado eleitoral que o elegeu e resiste bem ao bombardeio que vem principalmente do setor que liderou o impeachment de 2016 mas depois perdeu a eleição. E ainda está tendo uma recessão e uma pandemia no meio do caminho. Sem pelo jeito sofrer politicamente com isso. 2. O governo faria uma política econômica de ruptura. Se desviasse desse caminho, o ministro da Economia pediria o chapéu e o governo acabaria. Tampouco aconteceu. Bolsonaro, Paulo Guedes e todo o entorno estão no momento empenhados em criar impostos para ajudar a financiar programas de renda mínima mais amplos que os do PT. Outra ideia é desonerar a folha de pagamentos para empregos de baixa renda (e portanto de baixa qualidade). Haverá alguma privatização, mas não do "trio de ferro" - Petrobras, Banco do Brasil e Caixa. E aprofundar as concessões será o caminho para tentar alavancar a taxa de investimento. Não há maiores novidades aí. O que talvez seja bom. Pois nem tudo que é bom é novo, e tampouco tudo que é novo é bom. 3. O viés dito autoritário do presidente estimularia formar uma ampla frente de oposição. Por enquanto, a frente mais ampla em vigor é a que sempre se apresenta para apoiar as iniciativas econômicas do governo e portanto impedir qualquer desestabilização. Do outro lado, a oposição caminha para as eleições municipais mais fragmentada que nunca. Verdade que o fim das coligações na eleição de vereador tem efeito centrífugo, mas isso não explica tudo. Os movimentos para formar a frente ampla de oposição não resistiram a um ajuste mínimo na atitude presidencial. Foi Bolsonaro amenizar o discurso e ela se desmanchou antes de existir. Um bom termômetro do alinhamento de forças será observável no segundo turno municipal. Veremos, por exemplo, qual será a porcentagem de situações de reta final em que o autonomeado centro apoiará candidatos da esquerda contra o bolsonarismo. E vice-versa. 4. Bolsonaro seria tutelado por Paulo Guedes, Sérgio Moro e pelos generais palacianos. A premissa que mais espetacularmente virou fumaça. Moro saiu do governo arrastando com ele maciçamente o que Roberto Campos chamava de "a opinião publicada". Ao final, a montanha pariu um rato. Guedes no momento luta para arrumar dinheiro para programas sociais bolsonaristas que vitaminem as possibilidades reeleitorais do presidente. Talvez embalado pela promessa de que num segundo mandato, aí sim, as coisas serão como foi sonhado. E os fardados palacianos da reserva influem, mas longe de deter qualquer poder de veto. Hoje em dia no Planalto, como sempre, quem manda é quem está sentado naquela cadeira do terceiro andar.
segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Números capturados pela polarização

Já faz algum tempo as pesquisas mostram a tendência de retorno ao padrão de um país dividido em três pedaços aproximadamente equivalentes na avaliação do governo. O movimento anterior tinha sido um leve sofrimento do "bom e ótimo", e deslocamento do "regular" em direção ao "ruim e péssimo". Aparentemente, dizem todas as pesquisas, Jair Bolsonaro volta a mostrar resiliência, a propriedade de reassumir a forma original após uma deformação elástica. Os números mais recentes do Datafolha trouxeram alguma surpresa, pois vieram logo após a blitz sofrida pelo presidente da República quando a contabilidade das mortes pela Covid-19 bateu na trágica casa dos 100 mil. Mas a própria pesquisa explicou a razão: quase metade da população não responsabiliza nem remotamente Jair Bolsonaro pela contabilidade fatal da pandemia por aqui. E os que o consideram o principal culpado não passam de 11%. Para compreender melhor o Datafolha, será útil recorrer a um número de outro instituto, o PoderData, do site Poder360. O último levantamento quinzenal dele mostrou empate entre aprovação e reprovação do presidente. Na margem de erro, uma divisão ao meio entre quem aprova e quem reprova. Aliás é a pergunta certa a fazer para saber a aprovação, pois sempre uma parte do "regular" aprova a administração quando é perguntada sobre isso. O que está acontecendo? Uma hipótese: quando certo assunto é capturado pela polarização político-partidária, o público tende a distribuir-se, grosso modo, conforme a distribuição das convicções partidárias e eleitorais. Os efeitos da agitação e da propaganda, a favor ou contra, tendem a ficar confinados dentro da respectiva "bolha". A política não é principalmente uma disputa de argumentos. É esgrima de interesses e fidelidades em que os argumentos e a propaganda são armas para manter íntegro o próprio exército e tentar dividir o do adversário. Até agora, decorrido um ano e meio de governo, as forças bolsonaristas e antibolsonaristas preservam o tamanho exibido nas eleições. O "bom e ótimo" reproduz o market share do candidato Bolsonaro no primeiro turno, e o "aprova" oscila em torno do desempenho do presidente eleito no segundo turno. O que seria capaz de alterar substancialmente o quadro? A radical degradação do quadro econômico? Foi evitada pelo auxílio emergencial de 600 reais. Um colapso dos serviços de saúde na pandemia e que pudesse ser debitado na conta do governo federal? Simplesmente não aconteceu. Tudo indica que estados e municípios estão fazendo seu trabalho e, notavelmente, não há queixas significativas de governadores e prefeitos quanto à atuação do Ministério da Saúde. No mais, o eleitorado possivelmente encara com naturalidade os críticos culparem o presidente pelas mortes e dizerem que a atuação dele é um desastre na pandemia. Estranho seria os críticos não o culparem. O "Caso Queiroz"? É anterior ao mandato. Traz algum prejuízo, mas não atinge o cerne do discurso presidencial sobre a corrupção. Pois não há, por enquanto, acusações relevantes de corrupção ao governo propriamente dito.
segunda-feira, 10 de agosto de 2020

A dúvida municipal

O que vai decidir a eleição para prefeito e vereador em novembro? O quadro local ou o nacional? Ou vai ser uma coisa em alguns lugares e a outra em outros? E quais serão os requisitos para alguém alcançar a maioria absoluta dos votos, indispensável a quem deseja a vitória já no primeiro turno? E o perfil mais encaixado nos desejos do eleitor médio em meio a esta pandemia? Assuntos para daqui até novembro. Começando pelo final, há quem aposte numa onda de candidatos médicos ou das demais carreiras da saúde. A economia preocupa, mas a principal angústia das pessoas neste momento concentra-se em escapar da perseguição do SARS-CoV-2 e sobreviver à onda da Covid-19. Analistas já intuem: assim como em 2018 tivemos a onda de candidatos ligados à segurança, talvez 2020 seja a hora dos identificados com a saúde. Mas os nomes anticrime de 2018 surfaram a insatisfação popular diante dos índices de violência e da ameaça potencial à vida e ao patrimônio. O intrigante neste momento da Covid-19 é não existir uma maré montante de insatisfação ou revolta popular contra as autoridades. Ao contrário, o eleitor médio parece considerar que os governos estão de algum modo agindo. Contribui para isso o sistema hospitalar não ter entrado em colapso. Mérito do Sistema Único de Saúde (SUS) e das medidas de isolamento e afastamento social, que segundo a epidemiologia produziram achatamento das curvas de casos e mortes. As curvas estão num patamar alto, mas relativamente estáveis. Pressiona para um lado a tragédia dos números fatais. Para o outro, os números não estarem em escalada aguda. Outra curiosidade é se virá uma "nova onda" política e qual seria. O PMDB sucedeu a Arena, o PSDB sucedeu o PMDB e o PT sucedeu o PSDB. Daí veio Bolsonaro, mas já está rompido com o partido da eleição, o PSL. Assim, se a onda bolsonarista tiver continuidade municipal, virá pulverizada em múltiplos partidos. Neste fim de semana o presidente disse que vai ficar fora do primeiro turno. Ou seja, vai entrar firme no jogo quando vier a polarização. Aí a trágica contabilidade de mortes da Covid-19 será um trunfo do antibolsonarismo. A narrativa já vem sendo bem trabalhada, uma semeadura que talvez permita boa colheita em novembro. Do outro lado, o governo tem um trunfo na economia. Os números aqui tampouco são bons, mas o dinheiro distribuído como auxílio emergencial vai ter seu papel. Principalmente no até agora grande reduto da oposição, o Nordeste. São os fatores da nacionalização. Mas não será prudente subestimar o localismo. O melhor palpite por enquanto é apostar fichas na racionália de que prefeitos e candidatos serão julgados pelo que fizeram ou deixaram de fazer, em particular neste último período pandêmico. Enquanto políticos e analistas gastam o miolo em torno do "fator nacional", o eleitor talvez queira saber o que pode melhorar a vida dele no local onde mora.
segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Trump, Biden e Bolsonaro

Qual será ao fim e ao cabo o efeito de uma eventual vitória do democrata Joe Biden nas relações entre os Estados Unidos e o Brasil? Nesta semana o assunto ganhou alguma tração quando um deputado do partido de Biden criticou o apoio aberto de familiares de Jair Bolsonaro ao incumbent Donald Trump. O Brasil é ponto focal dos Estados Unidos na América do Sul. Desde sempre. Um momento explícito foi quando o então presidente Richard Nixon disse que para onde pendesse o Brasil penderia a América Latina. É razoável portanto partir da premissa: a preocupação americana pelo que se passa aqui sobreviveria bastante bem à troca de guarda ali. Amizades e inimizades pessoais jogam um papel, mas seria um erro superestimar. A chave decisiva para a análise é outra: de que maneira as relações entre ambas as nações ajudam ou atrapalham o projeto de poder dos segmentos líderes em cada um dos dois países. E projetos de poder invariavelmente vêm conectados a projetos nacionais. Nos tempos da primeira Guerra Fria, a relação de troca sempre foi cristalina: os Estados Unidos ajudavam por aqui a manter uma arquitetura social e política enquanto o Brasil somava forças com o Ocidente no trabalho de contenção da influência da União Soviética. As exceções, quando essa lógica deixava de prevalecer em termos absolutos, apenas confirmavam a regra. Uma exceção foi no governo Ernesto Geisel. O rápido reconhecimento da Angola soberana e o acordo nuclear Brasil-Alemanha, no âmbito da ideia de "Brasil potência", são fatos da história. Assim como o rompimento do acordo militar com os EUA em represália, segundo Geisel, às pressões do então presidente Jimmy Carter em torno do tema dos direitos humanos. O momento hoje parece bem distinto daquele interregno geiselista. Não se nota nas elites brasileiras, lato sensu, maior desconforto com o alinhamento aos Estados Unidos. A divisão é outra: uns preferem acoplar-se a Trump e suas políticas, outros gostariam de engatar-se a Biden e à agenda do Partido Democrata, gostariam que a hegemonia norte-americana se desse apoiando outros atores e contemplando uma pauta mais antenada. Não se nota por aqui hoje em dia maior ambição de protagonismo independente. Que implicaria jogar um jogo mais inteligente diante da "nova Guerra Fria", entre os Estados Unidos e uma China em ascensão. Só o que se vê, no máximo, são lamentos diante da possibilidade de o alinhamento com o trumpismo atrapalhar os negócios do agronegócio. E neste ponto é preciso admitir que se o Brasil precisa da China a China também se beneficia das boas relações com Brasil. Não à toa o atual momento comercial entre os dois países é o mais expressivo desde sempre. Nunca a China teve tanta participação nas exportações brasileiras. Manter as coisas pelo menos como estão interessa muito a Brasília mas também a Beijing. Mas até quando? O alarido diante dos factoides não deve enganar: há muito tempo não se via no Brasil tanta disponibilidade para uma acomodação ao jogo que é jogado pela Casa Branca. Pouca razão haveria para um possível presidente Biden arrumar encrenca com o Brasil por causa de Bolsonaro. Ainda mais se o horizonte para 2022 continuar como está.
segunda-feira, 27 de julho de 2020

Agitação e espuma dentro da bolha

Esta primeira quase metade de gestão Jair Bolsonaro vem sendo marcada pelo sonho oposicionista de que o governo é uma construção frágil, pronta a desabar pela ação do próximo "fato novo". Foi assim quando das manifestações em defesa da educação, logo no comecinho do mandato. Mais recentemente, as esperanças da oposição passaram a ser depositadas nos efeitos econômicos e sanitários da pandemia da Covid-19. E de tempos em tempos os olhos brilham quando surge alguma novidade no "Caso Queiroz". A realidade, porém, é que Bolsonaro por enquanto defende com sucesso a fatia de mercado conquistada por ele em 2018. O Brasil tinha então 147 milhões de eleitores e o candidato do PSL recolheu no primeiro turno 33% desse eleitorado, 49 milhões de votos, tudo em números arredondados. A esta altura você já percebeu. Os fatos vêm e vão, mas o percentual de "ótimo" e "bom" do presidente oscila sempre em torno desse mesmo um terço. A taxa de aprovação de Bolsonaro só pode ser medida se se pergunta "você aprova ou desaprova?", e não deve ser confundida com o ótimo+bom. Ela também oscila pouco, em torno de 40%. Interessante notar que essa ordem de grandeza corresponde ao market share do capitão no segundo turno. Aliás é também o patamar da fatia que aposta que o governo será bom ou ótimo ao final do mandato em 2022. Eis por que é furada a tese do "somos 70%". Serve como propaganda, mas estrategistas políticos que acreditam cegamente na própria propaganda estão a caminho de ter problemas. Há, é claro, as variações. Uma foi em meados do ano passado, quando o tema das queimadas na Amazônia ganhou visibilidade. Outra, agora mesmo, na decolagem da pandemia. Mas essas oscilações costumam deslocar mais do "regular" para o "ruim/péssimo" que qualquer outra coisa. E Bolsonaro tem mostrado resiliência. Quando a pressão afrouxa, as curvas de avaliação dele tendem a voltar para o padrão de "um terço, um terço, um terço". Sempre supondo que a conjuntura correrá pelos trilhos desse "normal", fica claro portanto que a base social de sustentação de Jair Bolsonaro é consistente e ampla o suficiente para ele se segurar na cadeira e ser competitivo em 2022. Poderá ser derrotado? Sim, desde que se encontre um candidato capaz de aglutinar todo o restante do eleitorado e que além disso consiga ganhar alguma margem levando para votar uma parte dos que têm insistido no absenteísmo. Não é simples. Implicaria costurar uma alternativa em que todas as facções do antibolsonarismo estejam contempladas. Como diz o ditado, seria o casamento do jacaré com a cobra d'água. Por enquanto, o que cada facção antibolsonarista vem pedindo às demais é a capitulação incondicional em nome do combate ao adversário comum. Na real, hoje ainda inexiste na oposição um sentimento autêntico de "qualquer um menos Bolsonaro". Aliás, é o contrário. Outro problema: a cada gesto de distensão do presidente, os ensaios de coalizão são lipoaspirados. E Bolsonaro tem sido hábil (ou tido sorte) na política, como mostrou a votação do Fundeb. Enquanto o novelo não desenrola, vem restando ao antibolsonarismo repetir o antipetismo praticado na maior parte do extenso período do PT no poder. Promover agitação e criar espuma dentro da própria bolha. Não deixa de ser uma maneira de passar o tempo fazendo algo útil.
segunda-feira, 20 de julho de 2020

Dispersão municipal

Em 1988 os então partidos de esquerda elegeram dez dos vinte e cinco prefeitos nas capitais. Tocantins ainda não tinha se separado de Goiás, então eram só vinte e cinco mesmo. No interior, especialmente no Sul-Sudeste, a esquerda também fez boa colheita. Era um prenúncio de que no ano seguinte a "onda vermelha" daria um gás a candidatos ditos progressistas na primeira sucessão presidencial direta da redemocratização. Não deu outra: Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Leonel de Moura Brizola (PDT) disputaram cabeça a cabeça uma vaga no segundo turno. No fim Lula passou mas não levou, deu Fernando Collor de Mello e o resto da história é conhecido. Esse prolegômeno teve a finalidade de lembrar que eleições municipais, se não têm a propriedade de embasar mecanicamente previsões para futuros embates eleitorais, de vez em quando servem de termômetro. Foi o que se passou em 1988. O país está absorvido pelas disputas políticas em torno da pandemia da Covid-19, de seus efeitos na estatística sanitária e na estatística econômica. A esta altura, em outros anos, as pessoas estariam começando a prestar atenção na eleição de prefeito e vereador. Não é o que acontece agora. Teremos uma campanha curtíssima, e que vai se desenvolver principalmente por meios remotos. E num cenário no qual ações heterodoxas de propaganda pela internet serão certamente motivo para processos de cassação de quem se aventurar a ilícitos. A relação benefício/custo desse tipo de gambiarra anda cada vez mais desfavorável. Mas o que está se desenhando para a eleição deste ano? Em primeiro lugar a dispersão. Não há nenhum partido com jeito de apontar como o novo candidato a disputar a hegemonia eleitoral do centro para a direita. A nova legenda de Jair Bolsonaro não se viabilizou a tempo e a antiga não poderá contar desta vez incondicionalmente com o combustível do bolsonarismo. O mesmo acontece por enquanto na esquerda, onde o PT leva jeito de vir a encarar sua mais difícil eleição municipal desde a fundação do partido. E os concorrentes nesse campo tampouco sinalizam um desempenho brilhante. E tem a novidade da proibição das coligações para vereador. O que, na teoria, levará à multiplicação de candidatos inexpressivos a prefeito, e portanto a mais pulverização. Só depois dos resultados é que virá, ou começará a vir, a consolidação. O presidente da República está em situação razoavelmente confortável. Não se prevê uma tendência plebiscitária nesta eleição. E depois dela Jair Bolsonaro poderá fazer a tradicional colheita entre prefeitos recém-eleitos e já com a corda das finanças no pescoço. Mais desafiadora é a situação dos governadores, que precisam consolidar a base municipal para tentar a reeleição ou eleger o sucessor. Vão ser entretanto favorecidos pela campanha curtíssima e pela anemia da mobilização de rua. E serão cabos eleitorais ainda mais importantes que de hábito. Isso embute riscos: eventuais derrotas de seus candidatos serão em grande medida derrotas deles próprios.
segunda-feira, 13 de julho de 2020

Segue o jogo entre o bolsonarismo e "o sistema"

Vai aqui uma linha do tempo político do governo Jair Bolsonaro. Foi eleito numa onda de bonapartismo (governar com o que considera "o povo", por cima das instituições). Na largada, satisfez esse desejo do eleitorado e não teve problemas reais com o Congresso e o Judiciário em 2019. Seu único transtorno real era a ação da direita não bolsonarista, que removera Dilma Rousseff mas fora derrotada na eleição. Aí este ano veio a Covid-19, com suas crises sanitária e econômica. Aí o sistema (doravante sem aspas) viu uma oportunidade para contra-atacar. Aí o presidente contra-contra-atacou radicalizando contra o sistema por meio de apoio tácito a apoiadores verborrágicos e desejosos de coisas como fechamento do Congresso, fechamento do STF e intervenção militar com Bolsonaro no poder. Aí Bolsonaro viu danificado o argumento dele de defensor da liberdade (por ele mesmo definida) e o sistema contra-contra-contra-atacou. Aí reforçou-se o sonho de uma frente ampla antibolsonarista. Aí Fabrício Queiroz foi preso. Aí o presidente acelerou a aproximação com o dito centrão e enveredou por uma linha tática de moderação verbal. Aí a frente ampla começou a perder musculatura. Mas o sistema continuou ganhando protagonismo, agora com a providencial ajuda do poder de polícia do STF, e é o estágio em que estamos. Uma etapa de equilíbrio entre o bolsonarismo e o sistema. Se perdurar, deslizaremos para a assim chamada guerra de posição. Que ainda não é um "empate catastrófico". Esse empate se dá quando o equilíbrio entre antagonistas paralisa o processo. Não é o caso. O bolsonarismo momentaneamente liderado pela fração dita realista e pragmática pode perfeitamente recompor-se com a maioria congressual e o establishment para fazer avançar a agenda, especialmente a econômica, mesmo que agora temperada com pitadas de social. O "Renda Brasil" vem aí. Mas nem isso garantiria com certeza - atenção - uma estabilidade estável, pois o front judicial opera com algum grau de autonomia, pelas suas características heterogêneas. São muitos ali os postulantes a protagonista nas múltiplas frentes: o Supremo, o TSE, o TCU, o STJ etc. Sem falar do arranca-rabo no MP. É muita variável operando simultaneamente. Precisaria de um maestro dos bons. Até o primeiro governo Dilma a ascendência do Executivo sobre os demais poderes vinha funcionando. O Executivo cumpria bem o papel. O bonapartismo de Bolsonaro veio como tentativa de restaurar isso depois que Dilma e Michel Temer deixaram o poder escorrer pelos dedos. O governo vai indo meio aos trancos e barrancos, em algumas áreas melhor e noutras pior. O Congresso não mostra disposição real de confronto, no máximo alguns brilharecos em entrevistas coletivas e atos heterodoxos de alcance político limitado, mas sempre capazes de gerar manchetes. Onde está o problema? No Judiciário. Ali são vários os candidatos a herói. E tem ela, a Covid-19. Que parece ter entrado num planalto de mortes. Quem pagará a conta política? O núcleo duro do eleitorado bolsonarista, cerca de um terço do estoque, parece firme, até agora. Os governadores vinham com alguma folga, mas é preciso ver como será a administração da popularidade deles na reabertura ainda com o SARS-CoV-2 forte por aqui. E tem a economia... Sempre ela.
segunda-feira, 6 de julho de 2020

Um desfecho pouco glorioso

Outro dia num bate-papo informal e algo provocativo propus uma solução meio piadista e meio séria para a polêmica que divide a oposição: se a aliança contra Jair Bolsonaro deve ser uma frente ampla democrática ou uma frente de esquerda. "Façam como no Uruguai: criem uma frente de esquerda e chamem de Frente Ampla." Claro que não solucionaria o cisma, hoje distante de solução, mas seria um truque do tipo que Tancredo Neves e Magalhães Pinto operaram na passagem dos anos 1970 para os 80. Criaram um partido de centro-direita e chamaram do nome que na época era cogitado para rotular uma eventual frente de esquerda: Partido Popular. Roubaram a marca. Acontece. A história conta que depois o presidente João Figueiredo e seu PDS, sucessor da Arena, impuseram o voto vinculado, e na urna de 1982 o eleitor seria obrigado a votar de vereador a governador em candidatos do mesmo partido. Aí os liberais sentiram-se traídos e a maioria deles reagruparam-se no PMDB, que sucedera o MDB do bipartidarismo. Essas histórias hoje já antigas ajudam a compreender que o dito centro tem esse nome exatamente porque pendula conforme a circunstância, mas sem nunca perder a identidade, que aponta mais para a direita que para a esquerda. Aliás esse locus político tem como vocação principal não exatamente apoiar outros, mas recolher apoio. A frente ampla até vinha razoavelmente bem, daí Bolsonaro resolveu jogar mais o jogo da política. Como se pode notar a partir dos fatos, esses teimosos, as defecções nela agora têm sido mais frequentes. Vão desde os que caíram fora da live do "Direitos Já" até quem de repente mudou de ideia e passou a defender que não, não é hora de pensar em impeachment. Mas a prova de fogo vai ser mesmo nas eleições. O que vai prevalecer, em especial onde terá segundo turno? A frente contra a esquerda ou a frente contra a direita? Ou não vai ter uma regra, uma tendência? Ou vai predominar, dentro de cada campo, a guerra fratricida de olho na necessidade de atrapalhar o fortalecimento excessivo de algum "aliado"? Na real, não existe frente sem programa político. Frentes "de resistência" são frágeis, também porque são óbvias. Uma ampla frente político-social opõe-se, por exemplo, aos movimentos que pedem o fechamento do Congresso Nacional e do STF. E do mesmo modo que facilmente se agrupa, desmancha-se quando o "que fazer?" é colocado na mesa. O MDB e depois o PMDB dos idos do regime militar tinham objetivos programáticos claros. O principal era, no caso do primeiro, a revogação da legislação excepcional. Do segundo, a volta das eleições diretas em todos os níveis. Ambos foram vitoriosos, o AI-5 acabou em 1978 e as diretas voltaram em duas etapas: 1982 e 1989. Depois o PMDB teve um momento brilhante, no Plano Cruzado que lhe deu safra gorda na eleição de 1986. Daí produziu uma Constituição, que hoje agoniza, e entrou em declínio. No momento, seus diversos spin-offs misturam-se aos derivados da velha Arena para formar a constelação que a imprensa chama de centrão, quando não aceita que negociem com o governo de turno. E que chama de "partidos de centro" quando um governo que ela apoia precisa negociar para obter apoio no Congresso. Não chega a ser um desfecho glorioso.
segunda-feira, 29 de junho de 2020

Estados mentais. E um pouco de bom humor

O processo político conduzido e produzido na era da Lava Jato pela ampla aliança que impulsionou a operação apontava para o fortalecimento de uma saída bonapartista. Na narrativa dos novos tempos, negociação política, governo de coalizão, entendimento, interpretação literal dos direitos e garantias previstos na Constituição, todas eram coisas a combater, se possível extirpar.Bem como a tal independência e harmonia dos poderes.Quem melhor soube interpretar esse espírito do tempo foi o candidato Jair Bolsonaro. Talvez mais por intuição que fruto de elaboração, pouco importa. O fato é que ele estava bem posicionado e equilibrou-se na prancha para pegar com muita felicidade a onda decisiva no mano a mano final em 2018. Assim como tivera a competência, e a sorte, para chegar à decisão.Bolsonaro é portando não apenas agente, mas também e talvez principalmente resultante da construção de uma narrativa. Que está aí, essencialmente íntegra. As concessões do presidente ao "sistema" para sobreviver parecem ser recebidas pelos fiéis a ele como a velha operação de entregar os anéis para não perder os dedos. É o que mostram as pesquisas.Aconteceu algo semelhante com Luiz Inácio Lula da Silva no caminho para chegar ao poder e consolidá-lo. As concessões que precisou fazer aos grupos dominantes, principalmente na economia, nunca enfraqueceram o núcleo central da narrativa do petista, porque em nenhum momento ele teve arranhada a imagem de compromisso com o combate à pobreza.É possível especular se a transição do PT para Bolsonaro não representou mesmo certa mudança de estado mental coletivo em que combater a corrupção e a "porex" (política realmente existente) passaram a ser mais centrais que combater a pobreza. Se a hipótese estiver correta, Sergio Moro eventualmente poderá até deslocar a esquerda e tirá-la da decisão em 2022.Mas 2022 está longe, concentremo-nos no agora. De volta às narrativas, a única que a oposição a Bolsonaro está produzindo é que a luta contra o presidente é para salvar a democracia. Não à toa Bolsonaro guinou ao centro (até quando ele suportará?) e alguns gestos singelos já neutralizaram parte da oposição moderada, que no limite se confunde com a situação moderada.Se a oposição não cuidar de construir uma linha estratégica, suas táticas correm o risco de escapar entre os dedos como a água que o sujeito tenta carregar nas mãos. O PT só foi derrotado quando sua narrativa hegemônica recebeu pela frente uma contranarrativa, consistente e bem conectada ao tal espírito do tempo.O partido pode até dizer que foi derrotado pelas fake news, mas se acreditar nisso é autoengano. * Segue animado o debate sobre a frente pela democracia, sobre sua conveniência e viabilidade. Para (não) variar, nela nem tudo são flores. Há os afagos mas também as cotoveladas. Coisa fácil de resolver. Basta, por exemplo, todos que dizem defendê-la se comprometerem a apoiar no segundo turno em 2022 qualquer um da frente que tenha chegado à decisão.Análise política fica meio maçante sem um pouco de bom humor.
segunda-feira, 8 de junho de 2020

A útil maquiagem do passado

Idealizar e embelezar o passado é um método útil para construir narrativas cujo objetivo é alicerçar propostas políticas no presente. A última moda na oposição é reescrever a história das Diretas Já, movimento político que deu um gás na transição do último general a ocupar a presidência da República, João Figueiredo, para o governo civil de Tancredo Neves (que morreu antes de assumir) e José Sarney.O tema costuma ser introduzido nos debates como se em certo momento o conjunto dos líderes oposicionistas tivesse deixado as diferenças de lado para juntar forças pelo objetivo comum de restaurar a democracia. É uma maneira de ver. Outra: numa certa ocasião, todos os potenciais candidatos da oposição a suceder Figueiredo uniram esforços para que o sucessor fosse escolhido não no Colégio Eleitoral mas na urna.Parece a mesma coisa, mas a diferença existe, apesar de sutil. Uma sutileza que esconde o essencial. O que move os políticos profissionais não é principalmente um idealismo programático, mas a busca (ou manutenção) do poder. Quando têm sorte, esse objetivo converge para a onda do momento. A sabedoria está em saber surfar a onda certa no momento certo. Ou evitar a onda agora para tentar pegar uma mais favorável adiante.Raramente a narrativa lembra que quando as Diretas pararam no plenário da Câmara dos Deputados foi cada um para um lado. Leonel Brizola lançou no ar a prorrogação por dois anos do mandato de Figueiredo, e Diretas em 1986. Luiz Inácio Lula da Silva caiu fora e o PT não votou a favor de Tancredo na indireta. Os deputados que votaram ou saíram ou foram saídos. Sobraram na aliança, de expressivos, o PMDB e a dissidência do PDS (ex-Arena).Pouco menos de cinco anos depois, Lula e Brizola disputaram a vaga no segundo turno para enfrentar Fernando Collor. Os candidatos herdeiros da Aliança Democrática vitoriosa em 1985 ficaram literalmente na poeira. Todos vitimados pelo fracasso de Sarney na luta contra a inflação e pelas acusações de corrupção e "fisiologismo", expressão celebrizada na época por quem pretendia ganhar músculos explorando o ódio à "Porex" (política realmente existente).Não se trata aqui de comparar momentos históricos. Há diferenças claras. Ali a ideia de ditadura sofria uma natural fadiga de material. Hoje ela é introduzida com alguma desenvoltura no debate, apesar de ainda enfrentar barreiras difíceis de transpor: a oposição da opinião pública e da maioria da sociedade, conforme evidenciam todas as pesquisas que procuram saber o que acha o eleitor sobre o assunto.Mas é o caso de comparar sim a motivação dos personagens. Os líderes que precisariam ser reunidos para a formação de uma frente ampla contra Jair Bolsonaro estão todos amarrados ao próprio cálculo. Para uns o melhor é o impeachment. Para outros a cassação da chapa pelo TSE. Para Lula nada disso adianta se ele permanecer inelegível. Para os demais não interessa de jeito nenhum Lula elegível. É o gato da "luta contra os extremismos" escondido com o rabo de fora.E para o presidente da Câmara, que tem na mão a chave da largada do impeachment, o destino dos antecessores que comandaram impeachments de sucesso (Ibsen Pinheiro, cassado; Eduardo Cunha, cassado e preso) não chega a ser propriamente estimulante.
segunda-feira, 18 de maio de 2020

Saindo? Não, entrando

Articulação política é o nome pomposo dado ao ministério, ou à secretaria, que faz a divisão de poder entre os aliados do presidente da República, no que aqui se convencionou chamar de presidencialismo de coalizão.Se os nomes das cadeiras federais deixassem de lado eufemismos, deveria chamar-se Ministério, ou Secretaria, da Repartição de Cargos e Verbas Orçamentárias. Sua missão em todos os casos é evitar que o presidente veja formar contra ele uma maioria parlamentar.A opinião pública não chega a ter posição, digamos, de princípio sobre o assunto. A complacência da opinião pública (não confundir com sociedade ou eleitorado) diante da articulação política depende dos objetivos do governo.Se estão alinhados a essa opinião pública, o viés pejorativo ou morre ou vegeta ou é repaginado. Como aconteceu nos meses anteriores à reforma da previdência, quando a opinião pública era só lamentos por o presidente não ter uma maioria. E, por isso, colocar em risco a reforma.A reforma da previdência social nunca esteve realmente em risco, mas isso é outro assunto. O fato: aqueles meses foram ricos em demandas por mais articulação política. Para que a ausência de uma base parlamentar não ameaçasse a agenda do ministro da Economia.Agora, quando Jair Bolsonaro precisa formar alguma base parlamentar para sobreviver no cargo, e a "nova política" é bananeira que já deu cacho, quem deseja remover o presidente da cadeira desenterra antigas terminologias, sempre úteis em ocasiões assim.Voltam as acusações de fisiologismo, de toma lá, dá cá. Antigos prontuários policiais que não deram em nada são desenterrados com ar de escândalo.E pode-se ter certeza: se houver uma substituição presidencial, a mesma opinião pública que hoje se escandaliza amanhã apoiará a divisão de poder. Talvez em nome das reformas, ou de uma interessada união nacional.Tudo isso é previsível, e chega a ser entediante, mas no Groundhog Day (filme traduzido para o Brasil como Feitiço do Tempo; deveria ser Dia da Marmota) da política nacional não há como escapar das repetições. Não inventaram ainda criatividade que dê conta disso.Bolsonaro precisa de maioria parlamentar para enfrentar eventuais pedidos de impeachment, se o presidente da Câmara finalmente ceder às pressões. Ou para barrar a abertura de processos criminais contra ele no Supremo Tribunal Federal.Só há um caminho para isso. Distribuir poder.Fernando Collor fez assim com o chamado ministério ético. Deu errado. Itamar Franco abdicou da caneta em favor de Fernando Henrique Cardoso. Deu certo. FHC cedeu ao PMDB quando flagraram a compra de votos para a reeleição. Deu certo.Lula fez assim quando acossado pelas acusações inauguradas por Roberto Jefferson. Deu certo. Dilma tentou a manobra para escapar do impeachment. Deu errado.Se vai dar certo ou errado com o atual ocupante da cadeira presidencial, só acompanhando em tempo real. Mas, cuidado: base parlamentar é um troço perigoso. Mais ou menos como o tempo (meteorológico) em certas regiões extremas do planeta. Muda de repente.Vai depender dos fatos, sempre eles. Para monitorá-los, de vez em quando é útil colocar a política no mudo. Em vez de concentrar-se no que os políticos dizem, prestar atenção no que fazem. Por enquanto, não estão querendo um outro governo. Preferem entrar neste mesmo.
segunda-feira, 11 de maio de 2020

O casuísmo que ameaça vir por aí

Governantes estão sempre prontos a justificar o próprio senso de oportunidade a partir da dita ética consequencial weberiana. Vendem a obsessão com o interesse deles mesmos embalada em preocupação com as consequências de seus atos para os governados. Não se faz aqui juízo de valor, apenas uma constatação. Aliás, líderes que não se preocupam com a consequência de seus atos para os liderados costumam conduzir ao desastre. Se o próprio Max Weber tivesse vivido um tanto a mais veria a prova viva da precisão do conceito. Voltando ao Brasil de 2020, políticos ensaiam tentar adiar para 2022 as eleições municipais do próximo outubro, marcadas para renovar as prefeituras e câmaras municipais. O pretexto é a falta de condições para realizá-las atendendo a normas que protejam a saúde do eleitor. Será? Convenções podem perfeitamente ser feitas, com vantagem, pelo Zoom, ou outros apps. E as votações dos convencionais, executadas online. E nossas convenções sempre se resumem a atos mecânicos para referendar decisões já tomadas pelos caciques da sigla. E até em situação normal o grosso da campanha já seria por meios eletrônicos. E basta impor o distanciamento para a votação presencial acontecer com bastante segurança. E ir votar traz menos riscos que, por exemplo, ir ao mercado. A Coreia do Sul acaba de ter eleições. Por que não fazer um benchmark, ver como resolveram o problema ali? Aliás, a pouca disposição para o benchmarking é sintomática da combinação de preguiça e arbitrariedade que parece conduzir nossos governantes nesta crise. A Constituição brasileira determina rigidamente a duração dos mandatos e até a data das eleições. Teriam portanto de emendá-la. Isso não seria um problema maior para nossos deputados e senadores, em sua quase totalidade eleitos a partir das atuais bases municipais. Ou seja, os deputados que precisarão renovar seus mandatos em 2022 iriam à luta naquele ano já contando com o apoio de vereadores e prefeitos que os ajudaram em 2018 e estariam devendo a eles os dois anos a mais de mandato recebidos grátis. Melhor que isso, só dois disso. Caso o Congresso aprove o casuísmo, a coisa ficaria dependendo do Supremo Tribunal Federal. O STF poderia eventualmente derrubar a decisão por inconstitucional, definindo que a duração dos mandatos é cláusula pétrea da Constituição. Mesmo entre lideranças no Congresso há a semente da dúvida sobre abrir o precedente. Porque criaria as condições para, algum dia, no futuro, algum presidente da República especular com a extensão do próprio mandato a partir de uma votação no Legislativo. Sem contar que se abriria também a possibilidade teórica de amputar mandatos. Ou seja, prorrogar os atuais mandatos municipais seria mais uma pá de terra na colcha de retalhos da Constituição de 1988, a supostamente "cidadã", tão celebrada quanto emendada e ignorada a pretexto de estar sendo modernizada. E sempre estará à mão o uso malandro do velho Weber para justificar a coisa toda. Esquecendo que ele também falou em uma "ética da convicção".
segunda-feira, 4 de maio de 2020

Força, fraqueza. E o atributo central

Quando Luiz Inácio Lula da Silva estava fustigado pelas ondas da tempestade que passou à história como mensalão, a popularidade dele apenas oscilou. Jamais chegou a ser abandonado pela espinha dorsal do seu eleitorado. O escândalo deu-se em 2005. No começo do ano seguinte, o da reeleição, Lula já ultrapassava os adversários nas pesquisas. Liderança que não mais lhe escapou. A oposição chegou a namorar o impeachment mas nunca foi em frente. Cautela. Pois todos os levantamentos mostravam ileso o prestígio do presidente junto à tropa dele. Quando se especula sobre afastamentos presidenciais normalmente mede-se 1) o apoio parlamentar, 2) a economia 3) o "povo na rua" e 4) as pesquisas. Colocar povo na rua não chega a ser tão complicado. Há exceções, como numa pandemia. Mas mesmo agora na covid-19 vemos gente disposta a sair de casa para protestar. E talvez "a rua" no pós mantenha um forte componente digital, quem sabe? E se o Brasil é habitado por bem mais de 200 milhões de pessoas colocar até 1 milhão na rua, ou na "rua", não chega ser decisivo. Presidentes normalmente entram "à vera" na linha de tiro para serem afastados só quando sua sustentação no povo evapora. O item 4. Foi assim com Fernando Collor e Dilma Rousseff. Estavam já muito vulneráveis quando os adversários colocaram para rodar os exércitos do impeachment. Mas dizer que governantes caem quando perdem apoio é quase uma tautologia. O que leva líderes a ver evaporar a sustentação? A piora das condições materiais? Também, mas não necessariamente. A popularidade de Vladimir Putin vem resistindo bem às dificuldades econômicas trazidas pelas sanções em represália à reanexação da Crimeia. O ditado "É a economia, estúpido" popularizou-se com Bill Clinton, mas toda unanimidade é burra. Ainda que a afirmação do Nelson Rodrigues tenha uma contradição interna. O governante consegue resistir bem à tempestade econômica na medida em que os atributos centrais dele estão preservados. Putin mantém-se porque ninguém duvida de que trabalha pela grandeza da Rússia humilhada ao final da Guerra Fria. Lula reelegeu-se, elegeu a sucessora e colocou seu candidato no segundo turno em 2018 porque nunca convenceram o povão de que ele deixou de "olhar pelos pobres e pelos excluídos". Ao contrário, Collor enfraqueceu-se decisivamente quando conseguiram carimbá-lo de corrupto. Bem ele que se apresentara em 1989 como quem melhor iria combater a corrupção. A anemia política de Dilma teve a ver com a guinada real e simbólica de política econômica entre a duríssima campanha pela reeleição e o instalar do segundo governo. Guinada que dividiu e desmobilizou a base eleitoral dela, deixando-a indefesa. E em vez de a oposição aplaudir a presidente por "fazer a coisa certa" aproveitaram a fraqueza dela para derrubá-la. É a política, estúpido. Qual o atributo central de Jair Bolsonaro aos olhos do tal terço, um pouco mais, um pouco menos, nas pesquisas? Ele ser "anti-sistema". Lato sensu. Eis por que precisa manter o conflito aquecido com "o sistema". Mas a realidade é uma contradição ambulante, e essa guerra eterna drena recursos e energias do presidente, e traz isolamento. Quando ele mais precisa de aliados. Se não se faz omelete sem quebrar ovos, tampouco existe almoço grátis. Ah, sim: o dito centrão não está nem perto de ser "o sistema". Fica a dica. E vamos ver até que ponto o conflito com Sergio Moro mexe na percepção dos atributos presidenciais.
segunda-feira, 27 de abril de 2020

Os riscos e a prudência

Tentar decifrar o que vai no pensamento alheio é sempre meio estrambótico. Tipo aquelas especulações "o presidente pensou em nomear fulano, mas acabou nomeando sicrano". Um exemplo de afirmação indesmentível. Quem poderá mesmo garantir que o sujeito pensou em algo, ou deixou de pensar? E assim segue a vida. Outra excentricidade é imaginar que todas as ações de governos e governantes são previamente pensadas e planejadas para atingir determinados objetivos, e sempre obedecendo a um bem elaborado e pré-estabelecido cenário. Parte do pressuposto, em geral, de que o governante é um gênio. Esses dois mecanismos mentais derivam em parte da necessidade compulsiva de que tudo tenha uma explicação lógica, necessidade que é irmã siamesa do desejo de acreditar que as decisões de quem nos lidera têm sempre um fundo racional. O paralelismo mais comum, usado à exaustão, é com piloto de avião e comandante de embarcação. Pululam as teorias sobre a razão da saída de Sergio Moro. Todas merecem ser jornalisticamente investigadas. Então eu vou participar também com algum "especulol". E se Jair Bolsonaro forçou a demissão para evitar que um potencial adversário em 2022 continuasse se criando e ganhando musculatura política de dentro do governo? Perguntei aqui em janeiro: "E se Moro virar o candidato do 'centro'?". Sabe-se que 1) a principal oposição ao presidente desde o início do mandato é a busca de um "bolsonarismo sem Bolsonaro"; e 2) até agora os candidatos a liderar esse bloco potencial não demonstram musculatura suficiente, pelo menos nas pesquisas. A demissão de Moro abre-lhe a possibilidade de disputar o posto agora sem amarras. Mas depende deele conseguir provocar a amputação do mandato presidencial. Por meio do Congresso ou da Justiça. E depende de um segundo fator: caso Bolsonaro saia, impedir que o vice se consolide na cadeira rumo a 2022. É um jogo em que tudo tem de dar muito certo. Nada pode dar errado. Uma jogada de alto risco. Talvez por raciocínio, talvez por intuição, Bolsonaro leva jeito de ter forçado mesmo a demissão de Moro. Poderia eventualmente ter seguido a dança e não feito publicar logo pela manhã no Diário Oficial a exoneração do chefe da Polícia Federal. Imagino que soubesse: ficar nesta circunstância seria humilhante demais para o ex-juiz da celebrada Lava Jato. E já que estamos falando em risco, o de Bolsonaro é o impeachment ou alguma outra modalidade legal de afastamento. Neste momento, são bem minoritárias as forças políticas que desejam isso de coração. Exatamente porque não são elas que comerão o bolo se organizarem a festa. Ou vai ser Moro, ou vai ser (Hamilton) Mourão. A resistência dos políticos nunca é garantia, mais ainda quando a chamada opinião pública entra em modo de campanha para supostamente salvar o Brasil, algo que se dá de tempos em tempos. Entretanto, pensando bem, é um processo que já vinha sendo ensaiado. Então é possível que Bolsonaro tenha decidido limpar a área, mesmo que à beque de fazenda. Ainda falando em risco, um adicional para Moro é sua onda ser surfada por quem deseja tirar o presidente e depois o ex-ministro ser simplesmente abandonado em favor de quem estará na cadeira com a caneta na mão e isento de culpa na confusão. Sobre isso, cumpre notar que o retrospecto do destino dos heróis dos recentes impeachments recomenda alguma prudência.
segunda-feira, 20 de abril de 2020

Direto para a fase dois

Por que Jair Bolsonaro decidiu acusar o presidente da Câmara dos Deputados de tramar a deposição dele? Talvez o único consenso em Brasília seja que ninguém quer nem ouvir falar em impeachment. A resposta é simples: Bolsonaro decidiu que precisa guinar para uma aliança com a "velha política". Para tanto, está obrigado a apresentar ao seu público fiel uma razão de força maior. "Ou me alio a uma parte deles ou vão se juntar todos contra mim e me derrubar".A clássica cortina de fumaça.A flexão faz muito sentido. Aliás já fazia sentido havia tempo. Foi escrito aqui em outubro. Era uma aposta pouco arriscada do analista, quase de risco zero. Todo entusiasta da dita nova política que chega ao poder alguma hora percebe ter sido colocado numa armadilha. Pois as mesmas vozes que exigem do governante romper com "tudo que está aí" são as primeiras a refazer a amizade com tudo que aí está quando o dono da cadeira entra na linha de tiro.O noticiário diz que o presidente anda em tratativas com o chamado centrão. Desde que passou a criar problemas para o governo o centrão deixou de ser chamado de centrão. Foram repaginados para "partidos de centro". É provável que a denominação anterior volte agora, quando se instala a mesa de negociações para essas legendas esvaziarem o poder do presidente da Câmara e aderirem ao Planalto.Dilma Rousseff tomou duas decisões que tiveram grande peso para o desfecho prematuro do mandato dela: 1) acreditou que bateria o então líder do então PMDB, Eduardo Cunha, na corrida pela presidência da Câmara e 2) recusou-se a ajudar um Cunha emparedado no Conselho de Ética. Bolsonaro tem sobre Dilma a vantagem de que quando ela escalou o conflito com Cunha a base social da presidente já tinha esfarelado. Não é o caso agora.Mas, atenção: se o governo vai se meter numa guerra para lipoaspirar Maia e depois fazer o sucessor dele, é bom que entre para ganhar. E aí começam a aparecer os obstáculos. Eles não são intransponíveis, mas trata-se de percurso que exige certo talento. E expertise. É o tipo de negociação que todo mundo sabe como começa mas poucos têm quilometragem para ter noção de como vai terminar. Não é coisa para amadores.Antes de tudo, os ainda "partidos de centro" não são um só. Há ali múltiplos líderes. Talvez seja pouco realista supor que serão atraídos apenas por um punhadinho de cargos de segundo escalão. Até podem aceitar em primeiro momento. Quando acomodados na embarcação, é provável abrir-se nova fase de disputas. O governo evitará isso se passar diretamente à fase dois, se promover uma reforma ministerial para formar uma base parlamentar.Bolsonaro tem também a opção de recosturar sua aliança com Rodrigo Maia e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Talvez não queira porque vê neles aliados potenciais do atual inimigo de estimação, João Doria. Ou algum outro motivo qualquer. Ou então acredita não precisar deles para retomar um poder moderador que murchou nas crises de Dilma e do sucessor dela, Michel Temer.De novo. Qualquer que seja a motivação íntima, qualquer que seja o cálculo, o aconselhável nestas situações é o Planalto entrar na briga para ganhar. O custo de perder é altíssimo.
segunda-feira, 13 de abril de 2020

A favor de quem opera a inércia?

O presidente da República vive uma situação contraditória. Nunca o apoio a ele foi tão sólido na sua base fiel. Todas as pesquisas mostram entre 25% e 35% do eleitorado acompanhando-o mesmo nas polêmicas em que está sozinho contra o resto da política e a opinião pública. Mas a faca tem dois gumes, e nunca como nesta crise da covid-19 Jair Bolsonaro esteve tão próximo do isolamento. Na sociedade, nas instituições e mesmo dentro do próprio governo.As falas e ações de Bolsonaro deixam claro que os movimentos dele com acenos à conciliação são apenas manobras táticas para ganhar tempo e reagrupar forças com o objetivo de retomar a ofensiva. Ele joga com a atitude dos que confiam plenamente na vitória final, ou dependem excessivamente dela para sobreviver. E também por isso não têm maior interesse num acordo de paz. Ou mesmo num armistício mais duradouro, que possibilite a estabilização do front.Em política, é sempre importante levar em conta a inércia. Responder à pergunta "se não acontecer nada, acontece o quê?". É a outra forma de perguntar a favor de quem joga o tempo. E a análise desse fator deve ser sempre pontual, pois o vento pode mudar de sentido de uma hora para outra. Então cabe perguntar: se persistir à esquerda e ao dito centro a rejeição a enveredar pelo caminho do confronto final contra o presidente, qual será o desfecho?Para recuperar a expressão popularizada pelo técnico da seleção na Copa de 1978 (faz tempo...), Cláudio Coutinho, Bolsonaro mostra jogar de olho no ponto futuro. Na crise provocada pelo SARS-CoV-2, apesar de ajustes táticos aqui e ali, parece confiar que a fortaleza dos adversários, particularmente os governos estaduais, vai cair diante da inevitabilidade de alguma hora as pessoas precisarem voltar ao trabalho para garantir a subsistência.Não chega a ser uma aposta tão arriscada. O tema começa a ganhar espaço em todo o mundo mesmo sem o vírus da covid-19 estar neutralizado. Até porque fica cada vez mais evidente que isso talvez demore. E bastante. Então trata-se de planejar a executar a volta à atividade mais dia menos dia, tomando as providências necessárias, ou possíveis, para reduzir a transmissão do patógeno quando as pessoas voltam de algum modo à vida social.Um governo convencional teria assumido cedo a liderança do lockdown, e agora estaria liderando o planejamento da operação para sair dele. E saborearia os píncaros da popularidade. E a completa imobilização da oposição. É o que acontece, por exemplo, na Argentina. Onde está a diferença? Talvez ela esteja em Alberto Fernández ter um partido institucional hegemônico e vertebrado, enquanto Bolsonaro não tem nenhum.Talvez essa diferença leve o presidente brasileiro a acreditar que se decidir enveredar pelo caminho da conciliação com o establishment acabará imobilizado, se não terminar derrubado. Na ausência de um partido institucional para chamar de seu, Bolsonaro precisa manter em movimento o partido bolsonarista extra-institucional, exatamente para bloquear o movimento de adversários políticos, especialmente dos que se apresentam como possíveis aliados.Entrementes, disputa espaço nas manchetes com a contabilidade de mortes.E fica a pergunta: "Se não acontecer nada, acontece o quê?"
segunda-feira, 6 de abril de 2020

O samba de uma nota só

Neste curso coletivo de dimensões planetárias sobre epidemias, aprendemos que a curva epidêmica tem um trecho exponencial ascendente, logo no começo. Depois a subida inverte a curvatura, conforme algumas pessoas se imunizam e outras, infelizmente, vão a óbito. Uma hora chega o pico. E quando o fator "R", o número de indivíduos que cada indivíduo contaminado contamina, cai abaixo de um, a curva começa a trajetória descendente. Numa imagem que é quase o espelho de quando subiu. O enigma para o analista político é tentar decifrar se haverá correlação entre as idas e vindas da curva epidêmica e uma parente dela: a curva de aprovação/desaprovação dos políticos que lidam com a epidemia em cada país. Ou em cada Estado. Ou em cada cidade. Quem disser que tem certeza provavelmente falta com a verdade. Ao final deste pesadelo (haverá um "final"?) poderemos ter certeza. Mas aí já será trabalho para historiadores, os privilegiados que podem se dar ao luxo de fazer previsões só depois que tudo já aconteceu. Políticos agem por instinto, e movidos principalmente (unicamente?) pelo humor do eleitorado do qual dependem. Donald Trump decidiu proibir exportações de produtos médicos necessários para ajudar pacientes da covid-19 e profissionais da saúde. E mandou comprar/pegar tudo que fosse necessário comprar/pegar mundo afora. Para tristeza dos fãs da "globalização", cada um só vota nas eleições de seu próprio país. E a contabilidade de mortos que interessa a Trump no ano eleitoral é a dentro das fronteiras dos Estados Unidos. Por isso, ele combina bem o "blame game" (o esforço, por enquanto pouco produtivo apesar da propaganda, de emplacar a expressão "vírus chinês") com uma versão mais tosca do "big stick", versão que dispensa aquela parte de "fale macio". E os índices mostram o presidente candidato à reeleição navegando em meio à curva crescente da epidemia nos Estados Unidos. No momento, o povo americano parece mais preocupado em sobreviver, e menos em discutir se lá atrás Trump subestimou o problema. Por aqui, Jair Bolsonaro sofre algum desgaste por ser talvez mais teimoso. O ocupante da Casa Branca mudou o discurso e a linha de ação quando foi necessário, sem se preocupar em explicar por que alterou a rota. Assim funcionam os líderes. Bolsonaro já teve inúmeras oportunidades de ajustar o leme para indicar que se preocupa sim com o impacto da epidemia para a saúde e a vida, mas não aproveitou. Continua no samba de uma nota só, de que os efeitos econômicos da paradeira podem ser tão ou mais daninhos que os da covid-19. As pesquisas mostram por enquanto um desgaste para ele apenas na margem. Não está bem avaliado no combate à epidemia, mas mantém perto dele o eleitorado fiel desde a reta final do primeiro turno em 2018. Por cálculo, ou por instinto, ou por convicção, tanto faz, ele parece achar que isso será suficiente para concluir o mandato e brigar para continuar em 2022. Pode ser. Mas também pode ser que ele esteja subestimando o papel que o cansaço com o belicismo presidencial pode desempenhar para juntar gente contra ele até lá.
O tranco vem aí. E ninguém poderá alegar surpresaA Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (@FGVDAPP) detectou uma novidade esta semana nas redes sociais: certa agregação de perfis que ela considera de esquerda e de centro. Vamos então aceitar para efeitos didáticos a classificação, pois aponta um movimento de razoável importância no público. As ações do presidente da República para reagrupar e anabolizar a base mais próxima dele na guerra de opiniões da Covid-19 tiveram um custo: juntaram contra ele, pelo menos nas redes sociais, quem não se juntava há tempos para nada. Não existe mesmo almoço grátis, apesar de esse rearranjo na internet não ter até o momento maior implicação política. O custo em imagem ainda precisa ser medido nas pesquisas, mas os dados digitais fazem deduzir que a base bolsonarista fiel continua preservada na essência. E duas coisas jogam a favor do presidente na correlação de forças: não há condições objetivas para protestos de rua em massa e tampouco o Congresso Nacional parece propenso a enveredar por um confronto aberto contra o Planalto. Tirando os pontos fora da curva, por exemplo a suspensão dos contratos de trabalho sem contrapartida, a disposição no Legislativo é aprovar as medidas governamentais de combate às crises sanitária e econômica, aqui especialmente as de caráter anticíclico. Até porque de repente todos viraram keynesianos: economistas, empresários e jornalistas especializados. E um Congresso que só pode reunir por teleconferência não chega a ser propriamente ameaça. Nesta condição, é pouco provável deputados e senadores colocarem para rodar qualquer coisa afastada do consenso. E se há um consenso nas duas Casas é não bater de frente com Jair Bolsonaro. Em vez de esticar a corda, dar corda para o presidente. Nas últimas horas a sensação é de um movimento centrípeto governamental. Os ministros da Saúde e da Fazenda falaram à vontade no sábado para garantir que planos para a defesa contra o coronavírus estão aí e irão funcionar. Mostraram estar confiantes nas cadeiras. É pouco provável terem feito a aparição pública sem combinar com o chefe. Mas nada servirá de escudo se duas coisas não funcionarem bem: se o dinheiro para empresas e trabalhadores não chegar na ponta e se o sistema de saúde não aguentar o tranco que vem aí nas próximas semanas. Os ministros responsáveis pelas duas áreas pareceram neste sábado confiantes de que os dois desafios serão equacionados. Ninguém se engane. Ainda não saímos da etapa dos bate-bocas. Que têm hora para dividir o palco com os fatos duros. O tsunami vem aí. E o governo será julgado pelos resultados. Inclusive porque teve tempo de se preparar. O lockdown em Wuhan tem mais de dois meses, e a agudização na crise na Europa já vem há várias semanas. Ninguém poderá alegar surpresa. Deu tempo suficiente para aprender com os erros dos outros. Vamos aguardar, e rezar, para termos aprendido. * Depois desta epidemia vai ficar muito difícil a vida de quem deseja enfraquecer o Sistema Único de Saúde. Se ele funcionar como prometem, e nada indica que não vá (tem um pouco de torcida nisso), estará aberta a estrada para atacar de vez o problema do subfinanciamento.
Brasil parece ser o mais atolado na guerra política. É um grave fator de risco no enfrentamento do problema. Outra variável fundamental é a rapidez da reação ou, ao contrário, o atraso para cair a ficha. Está matematicamente comprovado que tomar providências ontem em vez de hoje, ou anteontem em vez de ontem, produz efeitos benéficos para lá de significativos.  O atraso nas ações contra o novo coronavírus tem duas raízes principais: a subestimação do problema e o receio de ferir de morte a economia com medidas excessivamente drásticas. A primeira raiz mistura legítimas curvas de aprendizado e wishful thinkings. O pensamento mágico supõe a prevalência da vontade sobre a razão. É humano tender a acreditar nas explicações que minimizam os sacrifícios necessários e projetam o futuro menos doloroso.  Aliás esta é uma crise inanalisável, inclusive no aspecto político, sem alguma dissecção da natureza humana.  Nos últimos dias a ficha parece finalmente ter caído. As ruas das cidades brasileiras esvaziaram-se e o país entrou em forte desaceleração. Na falta de um sistema coerente e centralizado capaz de impor rapidamente a necessária disciplina social, tivemos de esperar pela decantação da consciência coletiva. E adianta pouco reclamar. Assim como as pessoas, países também têm suas naturezas, que precisam enfrentar situações extremas para finalmente mudar.  Uma pergunta ainda não respondida, talvez por não ser mesmo prioritária, é "como vai ser o Brasil quando a Covid-19 passar?". Os otimistas dirão um país mais solidário, menos tolerante às desigualdades, mais exigente quanto ao padrão dos governantes e mais atento à qualidade dos serviços que o Estado precisa prover para atender às necessidades da sociedade que o financia.  Um aspecto em que talvez os otimistas estejam certos: a valorização do Sistema Único de Saúde parece ter enveredado por um caminho sem volta. Os governos, em primeiro lugar o federal, precisarão enfrentar para valer a equação do financiamento do SUS. Quando até um governo em que a área econômica é fortemente liberal apresenta, principalmente pelas palavras do ministro da Saúde, o SUS como nosso grande trunfo, fica claro que uma página foi virada.  Mesmo que os otimistas sejam lá na frente frustrados, sempre a maior probabilidade, outra coisa parece que veio para ficar: a reabilitação do papel do Estado. Na hora da dificuldade extrema, o setor privado aparece bem quando se coloca à disposição para ajudar, mas a sociedade volta-se mesmo, e unanimemente, para os governos. É aquela história: para saber se o sujeito é mesmo ateu, procure verificar se ele não apela a Deus nas horas extremas. * O Reino Unido desistiu de deixar o pessoal se infectar para o coletivo adquirir a "imunidade de rebanho. Mudou de ideia quando lhe contaram que morreriam pelo menos uns 250 mil súditos da rainha. Qual seria a conta a pagar aqui se essa opção fosse adotada?
O governo Jair Bolsonaro vem se equilibrando em quatro pernas: o maciço apoio empresarial inicial, a firme sustentação militar - na hierarquia e na massa, a concordância potencial da maioria do Congresso Nacional e da imprensa com a agenda econômica e o período de graça na sociedade, natural após rupturas. Beneficia-se também da aproximação com o presidente dos Estados Unidos, e assim evita algumas encrencas conhecidas. As pesquisas dirão quanto durará a paciência popular com a lentidão da retomada na economia e nos empregos. Vamos ver se, e como, a desaceleração brusca provocada pela pandemia da Covid-19 vai mexer com os ânimos. É possível acabar funcionando de amortecedor das insatisfações. A não ser que o governo mostre uma extraordinária incapacidade de lidar com a situação. O caso italiano. Há sinais de erosão prematura em alguns pilares. O Congresso acaba de tomar uma invertida do Tribunal de Contas da União, que suspendeu a derrubada do veto presidencial sobre o BPC. Faz parte do processo de retomada pelo Executivo do poder moderador. O TCU argumenta que tem de zelar pelo cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal, ao determinar que toda nova despesa precisa ser compensada por uma receita adicional ou corte de outra despesa. Veremos como o Congresso vai reagir a isso e ao apoio do presidente a atos em que manifestantes pedem o fechamento do Legislativo. A vingança é um prato que na política costuma ser comido frio. Mas vai saber? Outro foco potencial de perturbação começa a aparecer nas dúvidas crescentes sobre a política econômica. Fica progressivamente claro que o Brasil está contaminado pelo vírus da demanda deprimida. E o encanto da opinião pública com a linha atual parece em diluição. Ainda inicial, mas visível. A palavra de ordem "reformas, reformas, reformas" começa a ser recebida com algum descrédito. Não a necessidade delas, mas a capacidade de enfrentar os desafios imediatos. Claro que se for dado tempo suficiente, em condições políticas ótimas, toda orientação econômica acaba dando algum resultado. Só que este ano tem eleição municipal, da qual dependem em boa medida os deputados em seus projetos de recondução dali a dois anos. E daqui a menos de três anos tem eleição geral. Daí a importância política de saber se a retomada pós-Covid-19 vai ser em V ou U. Ou se vai acabar sendo um L, com o Brasil continuando a patinar. A observação de outros países, especialmente China e Estados Unidos, revela ação em duas frentes: medidas para evitar que o excesso de carga acabe colapsando o sistema de saúde e providências para fazer a roda da economia voltar a girar o mais rápido possível. Aqui, a boa notícia para o Brasil é a China já estar em reignição, após conseguir conter radicalmente a expansão dos novos casos. O problema maior ali agora parece ser a importação de infectados. Comum, em todo canto, o desafio é mostrar serviço, para além do ativismo. Serviço e resultados. Na saúde e na economia. O Brasil ainda não atingiu o ponto crítico em nenhuma das duas frentes. Mas a hora vai chegar. A única dúvida é quando.
A política econômica de Jair Bolsonaro não mostra resultados brilhantes e suas premissas estão sendo questionadas. A saída de recursos externos da Bolsa bate recordes e o investimento privado continua muito abaixo do necessário para impulsionar a atividade, e portanto o emprego. E este é uma variável que pode fazer andar ou desandar o humor da galera. Diante do problema, o governo foge para adiante. Chama a rua.Na teoria as reformas já realizadas e a queda dos juros da dívida pública deveriam atrair investimentos e estimular o consumo. Na prática ou não está acontecendo ou vai indo muito devagar.Responsabilizar o Congresso pela pasmaceira econômica é moleza, no país em que o senso comum foi envenenado pela mistificação de que tudo é culpa "dos políticos".Será? Desde o impeachment de Dilma Rousseff o Legislativo entregou aos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro os três pilares mais pedidos: o teto de gastos, a mudança nas leis trabalhistas e, principalmente, a reforma da previdência com o exigido 1 trilhão de economia em dez anos.Aparentemente a noiva (o governo) embelezou-se para o casamento mas o noivo (o capital) está demorando para aparecer na porta. E o público começa a desconfiar. A orquestra e os cantores precisam caprichar para não deixar a peteca cair. Claro que se for dado tempo suficiente é provável que a noiva chegue. Mas na política o tempo é uma variável fora do controle dos economistas, está mais na alçada dos políticos.E há o imprevisível, sempre muito difícil de prever. O novo coronavírus não parece ser ainda uma gripe espanhola, mas tampouco é um surtozinho de gripe comum. E traz com ele a desaceleração dos negócios pelo mundo. A China pelo jeito conseguiu estancar a expansão interna do contágio, mas o vírus e junto o breque nos negócios vão firmes para cobrir o planeta. Fingir que não é grave ajuda no discurso, mas os fatos, sempre eles, são teimosos.O horizonte econômico não parece bom. E o governo dá sinais de enveredar para justificativas exóticas, como o "PIB privado", e o apelo à mobilização da base. É sempre uma saída, mas talvez a correlação de forças atual não ajude. O dia 15 será puramente bolsonarista, e mesmo se mostrar alguma força exibirá junto algum isolamento. E já foi notado semana passada: uma vez desencadeada a dinâmica de rua é bobagem achar que tudo estará 100% sob controle.O governo Jair Bolsonaro nunca teve obstáculos políticos reais. Como previsto, eles começam a aparecer na economia. Em vez de tentar resolver o governo cria problemas também na política. Se der certo será o caso de reescrever todos os manuais. * A pouca paciência para a negociação política tem seu charme, mas também tem custo. O rompimento do presidente da República com o PSL está se mostrando algo assim não tão brilhante. A Aliança pelo Brasil vai num ritmo muito abaixo do que previam seus inspiradores, articuladores e operadores. A eleição de 2020 já era. Talvez seja algo precipitado dizer, mas na velocidade que vai é bom o pessoal acender a luz amarela para 2022.
Um governo entra em zona de risco quando emerge certa coalizão político-social capaz de substituí-lo, e um sinal é aliados naturais, programáticos, demonstrarem mais propensão a sair que a entrar. Governos sabem que estão com o poder preservado quando, ao contrário, tirando o alarido, não se nota qualquer alternativa, e em vez de apelos pela derrubada do governante prevalecem os lamentos por seu comportamento. A coalizão social que elegeu Jair Bolsonaro está essencialmente preservada, como mostram todas as pesquisas. Também a união programática entre a direita raiz e o chamado centro. O pensamento-padrão: "É ruim que as turbulências políticas possam atrapalhar o andamento das reformas". Qual é a disputa, então? Como previsto lá atrás, o Bonaparte eleito precisaria travar uma guerra prolongada para retomar, na Brasília pós-Lava Jato, pelo menos parcialmente o Poder Moderador, institucionalizado desde D. Pedro 1º e enfraquecido entre 2015 e 2018. O esvaziamento recente do Executivo acabou por dar asas a polos que costumavam se dobrar ao mando do Palácio. O Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal, a Polícia Federal, o Tribunal de Contas da União e, em boa medida, o Ministério Público. E um polo informal, a imprensa. Agora é a hora da marcha-a-ré, de fazer o caminho de volta da dispersão política. O presidente vem tendo algum sucesso, restando casos particulares. Um é o controle do Orçamento. O debate orçamentário estimula delírios, como o de que estaria em curso a manobra pelo parlamentarismo dito "branco". Trata-se de bobagem fantasmagórica, ainda que dita em tom solene por especialistas e combatida ferozmente pelo bolsonarismo das redes sociais. Ninguém está propondo retirar do Executivo suas atribuições, há apenas a disputa por um mísero naco da igualmente mísera verba federal destinada a investimentos. Os deputados, principalmente, não querem depender do humor do Executivo para ter ou não recursos colocados nas suas bases eleitorais. E o governo teme um Legislativo, como se diz, empoderado pela autonomia orçamentária. Se der a lógica, governo e Congresso vão acabar chegando a algum acordo. Será inteligente da parte dos deputados e senadores um acerto tático com o Executivo, deixando a este o ônus de explicar como vai fazer para alavancar a economia em tempos de coronavírus e ameaças de recessão global. Pois desta explicação o governo pode até correr, mas terá muita dificuldade para escapar, ainda mais se o Legislativo continuar entregando as pedidas reformas. E vai. E um detalhe: como dito semana passada, o apelo presidencial à rua abre a janela para a oposição sair da natural hibernação pós-derrota. Mas ela continua com aquele probleminha. Os liberais revoltados com o fato de Bolsonaro não lhes dar a mínima pelota (prepararam o bolo do impeachment mas ao final não comeram) continuam preferindo o atual presidente à possibilidade de devolver o poder à esquerda, ou entregar a uma autonomeada centro-esquerda. Resistem até a atender a algumas demandas dessa turma, o que aí sim permitiria formar um bloco político-social alternativo. Enquanto estiver desse jeito, Jair Bolsonaro não tem problema relevante com que se preocupar. Mas, atenção: ele que sempre navegou com vento a favor, pelo menos desde 2013, agora precisará demonstrar habilidade com vento contra. Uma hora o pão precisa aparecer. Governos têm de mostrar resultados, e os últimos números já não vinham sendo tão animadores, mesmo antes da onda de pessimismo econômico desencadeada pelo coronavírus. A vida de presidentes com base congressual gelatinosa depende perigosamente da popularidade. Nunca é demais lembrar.
A tese antes da posse era que o radicalismo do presidente da República seria domado pelo pragmatismo e profissionalismo dos generais e pelo liberalismo democrático e competente do ministro da Economia, e respectivo dream team. Aqui a vida real reservou outro habitual imprevisto. O presidente parece ter mais jogo de cintura que os candidatos a tutor, pelo menos para tratar com os outros pilares do poder constitucional (Congresso, Supremo). O titular da Economia anda meio recolhido, depois de dois tropeços na comunicação. Desta vez veio de um general, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, o sinal mais dolorido da perda de paciência com o Congresso. Na sequência da revelação pública da explosão do general, a base (ou a cúpula) bolsonarista desencadeou a chamada para um 15 de março de apoio a ele e repúdio ao Legislativo, em particular aos presidentes da Câmara e Senado. Governos são animais que vivem sob pressão constante, e a falta de traquejo costuma abrir espaço para vozes que nas horas complicadas pregam a "fuga para adiante". Na maioria esmagadora dos casos dá errado. Numa releitura adaptada da célebre frase de Joãosinho Trinta, governo tem de gostar de governar, pois quem gosta de gente na rua é a oposição. Se já tiverem esquecido, bom lembrar de junho de 2013. Dica: ver como começou e como terminou. A oposição está entretida com as questiúnculas que cercam as eleições municipais, discutindo se em 2022 a frente deve ser ampla ou de esquerda, no máximo ataca o governo nas redes sociais. A greve dos petroleiros começou e terminou isolada. No STF o governo vive um ambiente de paz e cooperação. No Congresso, se tiver paciência e sangue frio, conseguirá que as reformas fiquem próximas do por ele desejado. No bottom line o governo não tem problema político real. Problema mesmo o governo enfrenta nos canais de reverberação da dita sociedade civil. Mas estes não têm mostrado capacidade física de mobilização antigovernista. Por uma razão singela: o "centro" não consegue colocar povo na rua e tampouco está a fim de se juntar com quem poderia conseguir, pois decidiu há algum tempo que o caminho para voltar ao poder passa pela "luta contra os dois extremos". Coisa que, como se sabe, vem tendo um sucesso danado aqui e no mundo todo. Introduzir a variável "rua" no cenário só interessa à oposição. E a defesa do Congresso e suas prerrogativas, como parte da defesa da Constituição de 1988, é o prato feito para quem pretende aglutinar as forças antibolsonaristas. Um achado para os opositores na preparação das eleições municipais. Especialmente quando a economia, apesar de sinais de melhora, ainda nem de longe pode ser descrita como brilhante. No popular, é real o risco do tiro sair pela culatra. * Um cenário hipotético. Bernie Sanders não consegue a maioria absoluta dos delegados, só maioria simples, e a cúpula do Partido Democrata alija-o da disputa contra Donald Trump. Sanders tem a opção de correr como independente. De quem tiraria mais votos? Gostaria de ver uma pesquisa Trump x Joe Biden (ou Mike Bloomberg) x Bernie.