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A Copa do Mundo de 2026 e a colonialidade do futebol: Racismo, poder e a persistência das hierarquias globais

terça-feira, 21 de julho de 2026

Atualizado em 20 de julho de 2026 15:01

Resumo

A Copa do Mundo FIFA de 2026 evidenciou que o futebol contemporâneo permanece estruturado por relações históricas de colonialidade, racismo e desigualdade econômica. Muito além dos episódios de discriminação registrados durante a competição, o torneio revelou a continuidade de uma ordem internacional construída a partir do tráfico transatlântico de africanos escravizados, posteriormente reorganizada pelo colonialismo europeu e atualmente reproduzida pela circulação global de atletas e pela concentração das receitas esportivas nas antigas metrópoles coloniais. Este artigo sustenta que o futebol mundial constitui uma das expressões contemporâneas da colonialidade do poder, na qual atletas africanos e afrodescendentes ocupam posição central na produção da riqueza esportiva, enquanto os principais benefícios econômicos, políticos e institucionais permanecem concentrados nos países historicamente beneficiados pela expansão colonial. A partir das contribuições de Aníbal Quijano, Frantz Fanon, Sueli Carneiro, Achille Mbembe, Eric Williams e Walter Rodney, argumenta-se que o combate ao racismo no esporte exige enfrentar não apenas comportamentos individuais, mas também as estruturas históricas que continuam organizando a distribuição global de riqueza, poder e reconhecimento.

Palavras-chave: colonialidade; futebol; tráfico transatlântico; racismo; economia política; direitos humanos.

O futebol costuma ser apresentado como uma linguagem universal capaz de aproximar povos, construir identidades nacionais e promover integração entre diferentes culturas. Entretanto, sua dimensão econômica e política demonstra que o esporte também reproduz relações históricas de poder que atravessam a formação da sociedade internacional. A Copa do Mundo FIFA de 2026 tornou essa realidade particularmente visível. Os ataques racistas dirigidos a atletas negros, a forma como seleções africanas foram retratadas pela imprensa esportiva e a desigual distribuição dos benefícios econômicos produzidos pelo torneio evidenciaram que o futebol permanece organizado por hierarquias cuja origem antecede em muito a própria criação da FIFA.

A hipótese desenvolvida neste artigo parte da compreensão de que essas desigualdades não nasceram no esporte. Elas integram um processo histórico iniciado com o tráfico transatlântico de africanos escravizados, responsável por deslocar milhões de pessoas da África para as Américas entre os séculos XV e XIX e por constituir uma das bases da acumulação primitiva do capitalismo europeu. Conforme demonstraram Eric Williams e Walter Rodney, a riqueza produzida pelo trabalho escravizado não apenas financiou o desenvolvimento industrial das potências coloniais, como também contribuiu para o empobrecimento estrutural de diversas regiões africanas, cuja economia passou a ser organizada em função das necessidades das metrópoles europeias.

Embora a escravidão e o colonialismo tenham sido formalmente abolidos, a lógica que estruturava essas relações não desapareceu. Ela foi reorganizada sob novas formas econômicas, políticas e culturais, preservando profundas assimetrias entre Norte e Sul Global. Aníbal Quijano denominou esse fenômeno de colonialidade do poder, conceito que permite compreender como a classificação racial da humanidade, construída durante a expansão colonial, continua condicionando a divisão internacional do trabalho, a produção do conhecimento e a distribuição da riqueza. O futebol constitui uma das expressões contemporâneas dessa colonialidade porque reproduz, em escala global, mecanismos semelhantes de circulação de recursos e concentração de benefícios.

Nesse sentido, a economia do futebol apresenta uma dinâmica que guarda notável continuidade histórica com os processos inaugurados pelo colonialismo. Países africanos e parte do Sul Global continuam desempenhando papel fundamental na formação de atletas que posteriormente passam a integrar grandes clubes europeus, responsáveis pela maior parcela das receitas provenientes de direitos de transmissão, publicidade, patrocínio, marketing esportivo e comercialização internacional. A matéria-prima mudou. Antes eram ouro, marfim, algodão, café e pessoas escravizadas; hoje, são talentos esportivos altamente qualificados. Contudo, a estrutura que concentra riqueza nas antigas metrópoles coloniais permanece significativamente semelhante.

Essa interpretação desloca o debate sobre racismo no futebol de uma perspectiva centrada exclusivamente em atos individuais de discriminação para uma análise das estruturas históricas que produzem desigualdades em escala global. Os insultos racistas dirigidos a atletas negros durante a Copa do Mundo de 2026 representam apenas a face mais visível de uma organização econômica e simbólica muito mais ampla, na qual o reconhecimento, a cidadania e o pertencimento continuam sendo condicionados pela raça.

As reflexões de Frantz Fanon ajudam a compreender esse processo ao demonstrar que o sujeito negro permanece submetido a uma permanente prova de legitimidade. Mesmo quando representa oficialmente uma nação, sua identidade continua sendo frequentemente questionada. Durante a Copa de 2026, esse mecanismo tornou-se evidente nas manifestações dirigidas a Kylian Mbappé, cuja ascendência camaronesa foi utilizada para contestar sua condição de representante da França. O episódio revelou que a cidadania formal não elimina as marcas simbólicas produzidas pelo colonialismo e que a nacionalidade de atletas negros continua sendo percebida de forma distinta daquela atribuída aos jogadores brancos.

Essa lógica é aprofundada por Sueli Carneiro ao formular o conceito de dispositivo de racialidade, segundo o qual o racismo produz lugares sociais diferenciados e naturaliza determinadas posições de poder. No futebol contemporâneo, corpos negros são amplamente valorizados enquanto produtores do espetáculo esportivo, mas permanecem sub-representados nos espaços responsáveis pela definição das políticas, da governança e da distribuição das riquezas produzidas pelo esporte. A participação africana diminui significativamente quando se observam as estruturas dirigentes da FIFA, as presidências das grandes ligas, os conselhos administrativos dos clubes e os principais agentes responsáveis pela gestão financeira do futebol internacional.

A crítica formulada por Achille Mbembe reforça essa perspectiva ao demonstrar que a razão colonial permanece organizando formas contemporâneas de reconhecimento e exclusão. No esporte, essa racionalidade manifesta-se quando atletas africanos continuam sendo associados predominantemente à força física, à emoção ou ao improviso, enquanto atributos como inteligência tática, liderança e organização são frequentemente vinculados às equipes europeias. Não se trata apenas de preconceitos individuais, mas de narrativas historicamente construídas que continuam reproduzindo a centralidade epistemológica do Ocidente e a posição periférica atribuída aos povos colonizados.

Sob essa perspectiva, a Copa do Mundo de 2026 não constitui apenas um grande evento esportivo. Ela oferece um campo privilegiado para observar como a colonialidade continua operando nas relações internacionais contemporâneas. O torneio tornou visíveis estruturas que normalmente permanecem naturalizadas e permitiu compreender que o racismo presente no futebol não decorre apenas de comportamentos individuais, mas integra uma economia política que mantém profundas continuidades com a história do tráfico transatlântico de africanos escravizados, da expansão colonial e da ausência de reparações históricas.

A Copa do Mundo de 2026 forneceu evidências empíricas dessa permanência histórica. Durante toda a competição, atletas negros foram alvo de manifestações racistas nas redes sociais e em espaços públicos, enquanto seleções africanas continuaram sendo frequentemente retratadas por estereótipos que as associavam à força física, à emoção ou ao improviso, em contraste com a suposta racionalidade estratégica atribuída às equipes europeias. A linguagem utilizada por parte da imprensa esportiva revelou que antigas categorias coloniais permanecem estruturando a forma como diferentes povos são percebidos. Quando uma seleção africana alcança elevado desempenho competitivo, seu sucesso ainda costuma ser interpretado como "surpresa", "superação" ou resultado de talentos individuais, raramente como consequência de planejamento, investimento e desenvolvimento institucional.

Os ataques dirigidos a Kylian Mbappé constituíram um dos episódios mais emblemáticos dessa lógica. Mesmo sendo um dos principais jogadores da seleção francesa, sua ascendência camaronesa foi utilizada para questionar sua legitimidade como representante nacional. O episódio reafirmou aquilo que Frantz Fanon identificou como uma das marcas da experiência colonial: o sujeito negro permanece submetido à necessidade permanente de provar sua pertença à comunidade política. A cidadania formal não elimina a racialização do reconhecimento, e o pertencimento continua sendo condicionado por critérios historicamente construídos durante a expansão colonial.

Situação semelhante pode ser observada na forma como seleções africanas foram representadas durante o torneio. Países como Senegal, Egito, Marrocos, Argélia e Cabo Verde continuaram sendo frequentemente classificados como "seleções surpresa", expressão que, embora aparentemente elogiosa, pressupõe que essas equipes naturalmente não ocupariam posição de destaque no futebol mundial. Essa narrativa invisibiliza décadas de investimento em formação de atletas, infraestrutura esportiva e qualificação técnica, reforçando uma percepção de inferioridade historicamente atribuída aos povos colonizados.

A trajetória de Cabo Verde tornou-se particularmente significativa nesse contexto. Apesar de suas limitações demográficas e econômicas, a seleção demonstrou elevado nível competitivo diante de tradicionais potências do futebol. O desempenho do goleiro Vozinha simbolizou não apenas a qualidade esportiva alcançada pelo país, mas também a capacidade de pequenas nações africanas desafiarem estruturas historicamente desiguais. Ao mesmo tempo, a manifestação pública da comissão técnica da seleção egípcia contra o racismo evidenciou que o futebol permanece sendo um importante espaço de resistência política, retomando uma tradição construída pelos movimentos anticoloniais africanos ao longo do século XX.

Entretanto, a colonialidade do futebol manifesta-se de forma ainda mais profunda na organização de sua economia. Milhares de jovens africanos iniciam suas trajetórias esportivas em clubes locais, escolas comunitárias e projetos financiados por famílias e instituições nacionais. Quando alcançam projeção internacional, passam a integrar cadeias globais de circulação de atletas controladas predominantemente por clubes europeus, grandes ligas profissionais, patrocinadores internacionais, empresas de marketing e plataformas de mídia sediadas, em sua maioria, nas antigas potências coloniais. É nesse momento que ocorre a maior valorização econômica de suas carreiras, concentrando os principais benefícios financeiros fora dos países responsáveis por sua formação.

Essa dinâmica reproduz uma lógica historicamente semelhante àquela que caracterizou o tráfico transatlântico de africanos escravizados. Evidentemente, não se trata de equiparar fenômenos jurídicos ou sociais profundamente distintos. A escravidão constituiu um sistema de violência extrema, desumanização e exploração compulsória que não encontra equivalência no esporte contemporâneo. Contudo, do ponto de vista da economia política, ambos os processos revelam um padrão estrutural de extração e concentração de riqueza. Se durante séculos a prosperidade europeia foi alimentada pela exploração do trabalho de africanos  escravizados , pela retirada de recursos naturais e pela acumulação de capitais produzidos no mundo colonial, atualmente parcela significativa da riqueza gerada pelo futebol mundial continua sendo produzida por atletas oriundos da África e de sua diáspora, enquanto a maior parte dos benefícios econômicos permanece concentrada nas economias centrais, países como Curacao, Panamá, Colômbia, Equador, seleções, marjoritariamente com jogadores negros.

É justamente essa permanência estrutural que permite compreender o futebol como uma das expressões contemporâneas da colonialidade do poder. A circulação global de atletas não elimina as desigualdades históricas produzidas pelo colonialismo; em muitos aspectos, reorganiza-as sob novas bases econômicas. Os países africanos permanecem como importantes fornecedores de capital humano esportivo, enquanto clubes, ligas, patrocinadores e empresas sediadas nas antigas metrópoles coloniais concentram receitas, prestígio institucional e capacidade decisória. Ao mesmo tempo, a presença africana continua reduzida nos espaços de governança do futebol internacional, revelando que a inclusão econômica dos atletas não foi acompanhada por uma efetiva democratização das estruturas de poder.

Essa realidade recoloca em evidência a discussão sobre reparações históricas. O debate acerca das reparações não deve restringir-se aos efeitos da escravidão e do colonialismo no passado, mas alcançar também as formas contemporâneas de reprodução das desigualdades. No futebol, isso implica refletir sobre mecanismos internacionais de fortalecimento das federações africanas, ampliação dos investimentos locais na formação de atletas, maior participação dos países do Sul Global nas instâncias decisórias da FIFA, proteção contra práticas predatórias de recrutamento e distribuição mais equitativa das receitas geradas pelo esporte. A justiça racial, nesse contexto, também é uma questão de justiça econômica.

A Copa do Mundo de 2026 demonstrou que o futebol permanece sendo um dos mais importantes espaços de produção simbólica da ordem internacional. Os episódios de racismo observados durante o torneio, a permanência de estereótipos coloniais, a desigualdade na circulação de riqueza e a reduzida participação africana nos centros de decisão não constituem fenômenos independentes. Todos integram uma mesma estrutura histórica que conecta o tráfico transatlântico de africanos escravizados, a expansão colonial europeia, a ausência de reparações e a economia política contemporânea.

A principal contribuição deste estudo consiste justamente em propor esse deslocamento analítico. Em vez de compreender o racismo no futebol apenas como um conjunto de comportamentos discriminatórios, o artigo procura demonstrar que ele representa a dimensão visível de relações históricas muito mais profundas, construídas ao longo de mais de cinco séculos. O futebol deixa, assim, de ser analisado apenas como espetáculo esportivo e passa a constituir um laboratório privilegiado para compreender como colonialismo, capitalismo, racismo e direitos humanos permanecem articulados na organização da sociedade internacional.

Sob essa perspectiva, enfrentar o racismo no esporte exige muito mais do que campanhas educativas ou sanções disciplinares. Exige reconhecer que a persistência das desigualdades observadas na Copa do Mundo de 2026 decorre da continuidade de estruturas históricas que ainda organizam a circulação global de riqueza, poder e reconhecimento. A descolonização do futebol, portanto, integra um projeto mais amplo de justiça global, igualdade racial e reparação histórica, no qual o reconhecimento da contribuição africana para a formação da economia mundial e para a construção do futebol contemporâneo constitui condição indispensável para a democratização efetiva do esporte.

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