Migalhas

Terça-feira, 7 de abril de 2020

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas
José Maria da Costa

Vi-o fechar o cofre ou Vi-lhe fechar o cofre?

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O leitor Darvin M. Fabrício envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas: 

"Prezados migalheiros, dirijo-me ao dr. José Maria da Costa, agigantado cultor do nosso idioma, para fazer uma consulta sobre sintaxe. Machado de Assis escreveu: 'Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado’. (Dom Casmurro, cap. I). Consabido, o verbo 'ver' é transitivo direto, e, por conseguinte, o oblíquo deve ser 'o'. Comete erro quem diz ou escreve 'Eu lhe vi'. Todos sabem que, por regra, somente os pronomes pessoais retos funcionam como sujeito. Pergunto: Há diferenças entre as frases 'Vi-o fazer um gesto' e 'Vi-lhe fazer um gesto?' Ambas são corretas? As duas frases oferecem diferença de sentido? Obrigado. Cordialmente,"


Vi-o fechar o cofre ou Vi-lhe fechar o cofre?

1) Um leitor indaga qual a forma correta: I) "Vi-o fazer um gesto"; II) "Vi-lhe fazer um gesto". Acrescenta-se outra indagação: "Vi ele fazer um gesto"?

2) Voltando ao primeiro exemplo trazido pelo leitor – "Vi-o fazer um gesto" –percebe-se que o exemplo pode ser dito de outro modo: "Vi que ele fez um gesto". Nessa nova formulação, percebem-se os seguintes aspectos: I) Uma primeira oração é "Vi"; II) Uma segunda oração é "que ele fez um gesto".

3) Em termos sintáticos, podem-se extrair as seguintes conclusões para o novo exemplo: I) "Vi" é a oração principal; II) "Que ele fez um gesto" é uma oração subordinada que faz a função sintática de objeto direto de vi, ou seja, da oração principal; III) Exatamente por isso, ela é uma oração subordinada substantiva objetiva direta; IV) Como se verifica, o objeto direto de vi não é o, mas toda a segunda oração; V) Então se conclui que "o" é o sujeito de fez.

4) Ora, ante um tal quadro, vê-se que está sendo usado um pronome oblíquo como sujeito do verbo no infinitivo, e não um pronome do caso reto, o qual é até mesmo errado na hipótese: I) "Vi-o fazer um gesto" (correto); II) "Vi ele fazer um gesto" (errado).

5) A excepcionalidade de um pronome oblíquo ser sujeito constitui estrutura vinda do latim, idioma esse no qual o sujeito de um verbo no infinitivo vai para o acusativo (que é o caso oblíquo), e não para o nominativo (que é o caso reto): a) "Credo Petrum esse bonum" (correto); b) "Credo Petrus esse bonus" (errado).

6) No primeiro exemplo da consulta – "Vi-o fazer um gesto" – , podem-se fixar os seguintes aspectos: I) "Vi" é a oração principal; II) "-o fazer um gesto" é oração subordinada que faz a função sintática de objeto direto de vi, ou seja, da oração principal; III) Exatamente por isso, ela é uma oração objetiva direta; IV) Porque seu verbo estava contraído na forma do infinitivo e precisou até mesmo ser desenvolvido para ser analisado, chama-se, adicionalmente, oração reduzida de infinitivo; V) Seu nome completo, assim, é uma oração subordinada substantiva objetiva direta reduzida de infinitivo; VI) "O" não é objeto direto do verbo da primeira oração, mas sujeito de fazer, o que se entende facilmente pela existência do ele na oração estendida.

7) E se acrescenta: quando, nessa estrutura, o verbo da oração subordinada é transitivo direto (como o é fazer), então se permite usar lhe em vez de o, e isso sem alteração alguma de significado. Exs.: I) "Vi-o sair" (correto); II) "Vi-lhe sair" (errado); III) "Vi-o fechar o cofre" (correto); IV) "Vi-lhe fechar o cofre" (correto); V) "Vi ele sair" (errado); VI) "Vi ele fechar o cofre" (errado).

8) Essa mesma construção e essas mesmas observações, feitas para o verbo ver, valem para os verbos fazer, mandar e deixar em construções similares. Exs.: I) "Faço-o sair" (correto); II) "Faço-lhe sair" (errado); III) "Faço-o fechar o cofre" (correto); IV) "Faço-lhe fechar o cofre" (correto); V) "Faço ele fechar o cofre" (errado); VI) "Mandei-o sair" (correto); VII) "Mandei-lhe sair" (errado); VIII) "Mandei-o fechar o cofre" (correto); IX) "Mandei-lhe fechar o cofre" (correto); X) "Mandei ele fechar o cofre" (errado); XI) "Deixei-o sair" (correto); XII) "Deixei-lhe sair" (errado); XIII) "Deixei-o fechar o cofre" (correto); XIV) "Deixei-lhe fechar o cofre" (correto); XV) "Deixei ele fechar o cofre" (errado).

José Maria da Costa

José Maria da Costa, é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.

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