Migalhas

Terça-feira, 31 de março de 2020

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas
José Maria da Costa

A mim me parece

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O leitor Gustavo Mauricio Sicca de Camilo envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas:

"É correto dizer 'a mim me parece que...'? Apesar da aparente redundância, vejo essa construção ser usada por autores. Obrigado."

A mim me parece

1) É correta a repetição, em pleonasmo, de um pronome pessoal oblíquo átono por um tônico. Exs.:

a) "A mim me parece que o recurso é intempestivo";

b) "A ela, não lhe ficou a ideia de que estavam dizendo a verdade".

2) Na lição de Vitório Bergo, trata-se de construção irrepreensível, apesar de pleonástica, e isso porque "o pleonasmo deixa de considerar-se vício para classificar-se como figura desde que, sem tornar deselegante a frase, contribua para dar maior relevo à ideia"1.

3) Mário Barreto, em corroboração, leciona que "uma boa coleção de pleonasmos possui a língua portuguesa na combinação das formas pronominais, tônicas e atônicas, podendo o pronome absoluto preceder o pronome conjunto complemento: dá-lhe a ele; a mim parece-me que...; parece-me a mim que...; a ti não te faço mal; a mim basta-me a satisfação de ter descoberto estas pérolas; a ele eu não lhe disse nada; ele disse-mo a mim...."2.

4) Nas palavras de Laudelino Freire, "é de boa linguagem reforçar o pronome objeto com o pronome oblíquo correspondente, ou com o pronome ele, precedidos um e outro da preposição a. Exs.: Mato-me a mim; Sirva-lhes a eles de castigo"3.

5) A autoridade de Vasco Botelho de Amaral, de igual modo, não deixa dúvidas acerca da possibilidade de emprego de pleonasmos dessa natureza: "Parece-me a mim, deu-nos a nós, falou-lhe a ele e similares não devem proscrever-se, porque tal condenação privaria o idioma de construções espontâneas, corretas, portuguesíssimas que se topam amiúde nas mais brilhantes páginas".

6) E arrola tal gramático4 exemplos de insuspeitos autores:

a) "Me dês a mim certíssima resposta" (Camões);

b) "Parecia-me a mim que se haviam de levantar todos, e irem-se lançar aos pés de Cristo" (Padre Antônio Vieira);

c) "A mim não se me pega nada" (Almeida Garrett);

d) "Quem me diz a mim que a grenha ruça não vai ao pé de nós?" (Antônio Feliciano de Castilho).

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1 Cf. BERGO, Vitório. Erros e Dúvidas de Linguagem. Rio de Janeiro: Livraria Editora Freitas Bastos, 1944. v. II, p. 183.

2 Cf. BARRETO, Mário. Através do Dicionário e da Gramática. 3. ed. Rio de Janeiro: Organização Simões Editora, 1954. p. 264.

3 Cf. FREIRE, Laudelino. Sintaxe da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Empresa Editora ABC Ltda., 1937. p. 98.

4 Cf. AMARAL, Vasco Botelho de. A Bem da Língua Portuguesa. Lisboa: Ed. da Revista de Portugal, 1943. p. 38.

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José Maria da Costa

José Maria da Costa, é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.

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