Migalhas

Quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

ISSN 1983-392X

Gramatigalhas
José Maria da Costa

Ascendência ou descendência italiana?

quarta-feira, 14 de junho de 2006

O leitor Marco Aurelio Chagas Martorelli envia ao autor de Gramatigalhas a seguinte indagação:

"Caríssimo Professor, No Migalhas de hoje (1.319), 22/12, acredito ter-se dado uma escorregadela, certamente decorrente do cansaço deste fim de ano mais que intenso. É que o título da coluna 'Migalhas dos leitores - Descendência italiana ?', pelo qual o leitor migalheiro questionou o fato de a Primeira Dama, Dona Marisa Letícia, ter obtido cidadania italiana parece-me equivocado; ocorre que o título correto, s.m.j., deveria ser 'Ascendência italiana', pois é por conta de seus ascendentes que alguém pode pleitear tal 'status', desde que o país concedente siga a regra do 'ius sanguinis' para tanto; caso a migalha tivesse se reportado aos filhos de Lula e Marisa Letícia que, a partir da concessão de cidadania européia, poderiam, como seus descendentes, obtê-la, acredito ser aquele o título adequado. De toda forma, o que nos mais estranha é que alguém que divide os lençóis com o mais alto magistrado brasileiro, que se jacta aos jornais de que, com seu empossamento, deu-se início aos tempos de bonança e liderança global desse 'gigante adormecido' se preocupe em 'garantir o futuro de seus filhos', de preferência, fora daqui. Isso me lembra uma frase de um ilustríssimo Migalheiro, o Mestre Renato Stetner: 'Em terra de cego, quem tem um olho emigra!' Saudações Migalheiras."

1) Os dicionários registram, sem maior dificuldade, que ascendente significa antepassado ou antecedente, enquanto descendente tem o sentido de póstero, de posterior, de vindouro.

2) E, quanto à etimologia, ascender significa subir, enquanto descender guarda o sentido de descer.

3) Buscando alguma razão para justificar o conteúdo semântico de tais vocábulos em relação a sua etimologia, o que parece mais lógico é verificar que, quando se quer representar graficamente, em uma folha de papel, uma sucessão de gerações, o centro de referência é posto em algum lugar físico da página. Os pais são colocados imediatamente antes, os avós os precedem, e assim por diante. Já os filhos são postos imediatamente depois, seguidos dos netos...

4) Quando se termina uma tarefa dessa natureza, tem-se a árvore genealógica, ou seja, o apontamento das origens e da seqüência de uma família. Quando, porém, se analisa a representação gráfica, percebe-se que, diferentemente de uma árvore normal, que nasce da terra e segue para o alto, uma árvore genealógica nasce do alto e segue em direção oposta.

5) Assim, quando se parte em direção aos antepassados, ascende-se,sobe-se na árvore genealógica; já quando se caminha rumo aos pósteros, descende-se, ou desce-se, quer em linha reta (quando um se origina de outro), quer em linha colateral (quando se verifica a existência de algum relacionamento familiar, mas um não provém do outro).

6) Feitas essas ponderações, parte-se para a consideração do fato da consulta: a primeira-dama, Marisa Letícia, obteve a cidadania italiana, e a notícia do jornal veio com a manchete "Descendência italiana", quando, no entender de um leitor, deveria vir "Ascendência italiana".

7) Ora, uma mesma realidade de fato pode ser expressa de dois modos igualmente corretos:

a) "Marisa Letícia tem ascendência italiana";

b) "Marisa Letícia descende de italianos".

No primeiro caso, consideram-se os ascendentes em relação a ela; no segundo caso, ela é posta como descendente de seus antepassados.

8) E a manchete segue em mesmo caminho: ascendência italiana estaria pressupondo o raciocínio de que "Marisa Letícia tem ascendência italiana"; já descendência italiana estaria levando em conta o fato de "Marisa Letícia descende de italianos".

9) Resuma-se: ambas as manchetes são corretas, com a observação de que partem de enfoques diferentes.

José Maria da Costa

José Maria da Costa, é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.

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