quarta-feira, 14 de abril de 2021

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Como - Conjunção causal ou explicativa?

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

O leitor Marco Aurélio Mello envia à coluna Gramatigalhas a seguinte mensagem:

"Prezado Dr. José Maria: Gostaria de esclarecer qual a função sintático-semântica exercida pelo conetivo 'como' na frase abaixo. Minha dúvida consiste em reconhecer se se trata de conectivo que introduz causa ou conectivo que introduz explicação. Veja, assim, o seguinte exemplo: 'Como a estimativa é de que aconteça uma complicação para cada quatro ou cinco casos, o cálculo é de que tenham ocorrido de 685 mil a 856 mil abortos clandestinos no país. ' Desde já, agradeço a ajuda. Cordialmente.

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1) Um leitor envia mensagem, indagando, em síntese, se, no exemplo a seguir, a conjunção como é causal ou explicativa: "Como a estimativa é de que aconteça uma complicação para cada quatro ou cinco casos, o cálculo é de que tenham ocorrido de 685 mil a 856 mil abortos clandestinos no país".

2) Ora, na condição de expressão que liga orações, a conjunção "como", num primeiro plano, pode ter o sentido de uma vez que e, nesse caso, inicia uma oração subordinada adverbial causal. Ex.: "Como ia de olhos fechados, não via o caminho" (Machado de Assis). Nesse caso, a oração iniciada pela referida conjunção (que é uma oração subordinada adverbial causal) significa a própria causa do que se diz na outra oração (que é a oração principal).

3) Também pode iniciar uma oração subordinada adverbial comparativa, quando exprime o outro termo de uma comparação, caso em que tem o significado de qual ou assim como. Ex.: "O medo é a arma dos fracos, como a bravura (é) a dos fortes" (Marquês de Maricá).

4) Ainda pode iniciar uma oração subordinada adverbial conformativa, quando inicia uma oração que exprime um fato em conformidade com outro expresso na oração principal, caso em que tem o sentido de conforme, segundo, consoante. Ex.: "Fez os exercícios como o professor determinou".

5) No caso trazido pelo leitor, tendo o significado de uma vez que, o conetivo, sem dúvida, traz a conotação de uma conjunção subordinativa causal, e a oração iniciada pela conjunção apontada constitui verdadeira e efetiva causa do fato da outra oração.

6) Para completar as premissas para as conclusões que daqui se precisa extrair, finaliza-se, dizendo que a conjunção como também pode dar início a uma oração coordenada explicativa, e isso quando tal conetivo começa uma oração que explica a razão de ser do que se diz na oração a que se ligam (mas não chega a constituir real causa do que se diz na outra oração). Ex.: "Como a chuva está chegando, vá logo para casa".

7) Com essas considerações, extraem-se daqui as seguintes conclusões: (i) não deixa de haver profundo sentido na dúvida do leitor; (ii) isso porque referir a causa de um fato não deixa de ser conferir-lhe uma explicação; (iii) deve-se observar, todavia, que toda causa é uma explicação, mas nem toda explicação é uma causa; (iv) por conta dessa possível confusão, observa-se que nem sempre é tão fácil distinguir tais modalidades de orações e, consequentemente, dos conetivos (ou conjunções) que as iniciam; (iv) uma acurada análise da extensão da explicação que sempre existe nesses casos permite ver se ela constitui causa ou não do fato que se expressa na outra oração; (v) e esse é o ponto crucial para solucionar a dúvida.

8) Para concordar com o leitor quanto às dificuldades que surgem nesse caso, transcreve-se o registro de Evanildo Bechara, que é textual a esse respeito: "As explicativas não passam de causais coordenativas, que nem sempre se separam claramente das causais subordinativas"1.

9) Said Ali, em mesmo raciocínio, assim se expressa com palavras diversas: "Em certas línguas, distingue-se a causal subordinativa da causal coordenativa pela diversidade de partícula (em francês parce que, car; em inglês because, for; em alemão weil, denn); em português, empregando-se porque ou que para um e outro caso, conhece-se a diferença pela pausa. A causal subordinativa separa-se da oração principal por uma pausa muito fraca (que se representa, quando muito, por uma vírgula). A causal subordinativa separa-se da proposição anterior por uma pausa mais forte (que se figura por vírgula, ponto e vírgula e até por ponto final"2.

10) Além das explicações acima dadas pelos estudiosos, importa, com caráter mais do que definitivo, peremptório e prático, insistir em que toda causa não deixa de ser uma explicação, mas nem toda explicação há de tipificar uma causa.

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1 BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 19. ed., segunda reimpressão. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974, p. 161.

2 SAID ALI IDA, Manuel. Gramática Secundária da Língua Portuguesa. São Paulo: Melhoramentos, 1971, p. 203.

Atualizado em: 30/9/2020 08:55

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