sexta-feira, 25 de setembro de 2020

COLUNAS

Norrau ou Know-how?

O leitor Carlos Frederico do Valle Sá Moreira envia-nos a seguinte mensagem:  

"Boa tarde, gostaria de consultar o Dr. José Maria da Costa quanto a uma 'palavra' na crônica do escritor Luis Fernando Veríssimo na página D12 do Caderno 2 do Estado de S. Paulo de 11 de janeiro de 2007. Quase no final do texto o autor lança a seguinte frase:

 

'A CIA terceirizou a tortura, levando suspeitos para serem interrogados por bárbaros úteis em países com norrau no assunto.' (grifo nosso) 

 

Não se discute a importância do escritor, mas gostaria de saber o que pensa o professor da 'nacionalização' da expressão 'know how'. Sua utilização em inglês é um anglicismo bastante comum. Trata-se de um neologismo? O Autor teria autoridade para tanto? Grato."

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Norrau ou Know-how?

1) Um leitor afirma haver encontrado em texto literário de consagrado autor da atualidade a palavra norrau e indaga acerca da correção de seu emprego em lugar de know-how, original de língua inglesa.

2) Anote-se, de início, que, no idioma de origem, a expressão significa conhecimento prático, ou habilidade, ou ainda tecnologia para solucionar determinada situação. Exs.:

I) "As grandes companhias têm dinheiro, mas nem sempre têm o know-how para executar corretamente as tarefas";

II) "Eu posso operar computadores, mas não tenho know-how técnico a respeito deles".

3) Ora, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, editado pela Academia Brasileira de Letras, por um lado, não registra a palavra norrau como integrante de nosso léxico. Por outro lado, o mesmo VOLP ordena que se escreva, quando necessário seu emprego, know-how, expressão essa que tal publicação insere entre as palavras estrangeiras.1

4) Com essas considerações de fato, observe-se, por oportuno, que a Academia Brasileira de Letras é o órgão que detém a delegação legal para determinar oficialmente quais palavras integram nosso léxico e qual sua grafia correta. Sua maneira de entender é a palavra oficial no idioma, e, desse modo, descabe toda e qualquer discussão acerca de outras possibilidades de uso dos mencionados vocábulos na atualidade.

5) Também é oportuno observar que os autores literários, por mais considerados que sejam, podem eventualmente polemizar a grafia mais adequada para um vocábulo e até mesmo aportuguesar a seu modo palavras e expressões estrangeiras. Sua postura, todavia, para nada servirá perante a posição oficial manifestada pela ABL em seu VOLP. Quando muito, tal conduta poderá servir para fornecer elementos para futura mudança de postura por parte da ABL, com a respectiva inclusão em edição futura do VOLP.

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1Cf. Academia Brasileira de Letras, Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 4. ed., 2004. Rio de Janeiro: Imprinta, p. 825.

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Atualizado em: 1/1/1900 12:00

COORDENAÇÃO
José Maria da Costa

José Maria da Costa, é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.