sexta-feira, 25 de setembro de 2020

COLUNAS

Onde e aonde

A leitora Ana Lucia Freire Pires Dias envia-nos a seguinte mensagem: 

"Sr. Gramatigalhas, urgente - emprego de 'onde' e 'aonde', senão... (a) onde vamos parar?"

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Onde e aonde

1) Por um lado, correspondendo ao advérbio latino "ubi" (com o significado de onde, no lugar em que), usa-se onde com verbos de acepção estática, que indicam permanência em algum lugar. Exs.: a) "Onde trabalha a testemunha?"; b) "Onde se escondeu o assassino?".

2)aonde, que é combinação da preposição a com o advérbio onde e que tem por sinônima adonde (correspondendo ao advérbio latino "quo" e significando para onde, para que lugar), exprime o destino de uma pessoa ou coisa e se emprega como adjunto adverbial de verbos dinâmicos1, que indicam movimento em direção a algum lugar. Exs.: a) "Aonde vai o nobre advogado?"; b) "Aonde foi o assassino?".

3) Vê-se, assim, que equivocado, em princípio, o uso de tais palavras nos seguintes exemplos: a) "Aonde você mora?"; b) "Onde você vai?"

4) Atente-se ao perfeito uso de ambas as palavras por Carlos Drummond de Andrade no seguinte trecho: "Pediram-me que definisse o Arpoador. É aquele lugar dentro da Guanabara e fora do mundo, aonde não vamos quase nunca, e onde desejaríamos obscuramente viver".

5) Assim resumem Antonio Henriques e Maria Margarida de Andrade a regra acerca do uso de onde e aonde: "Onde usa-se com verbos de caráter estático, indicadores de fixação... Aonde usa-se com verbos de caráter dinâmico, indicadores de movimento.2

6) Dando mostras de plena distinção entre os vocábulos, leciona Laudelino Freire: "deve firmar-se critério uniforme no emprego destes advérbios, em conformidade com as suas significações, sempre fáceis de serem discriminadas segundo os verbos que se lhes unem. Onde significa no lugar em que, no qual lugar, e junta-se a verbos que encerram a idéia de quietação; aonde significa para o lugar que, para o qual lugar, para que parte, para que lugar, e junta-se a verbos que encerram idéia de movimento".3

7) Para Sousa e Silva, onde e aonde não se equivalem hodiernamente, e, embora se trate de diferenciação moderna, "tende a fixar-se no idioma, não obstante a resistência de alguns filólogos".4

8) Arnaldo Niskier, em observação conjunta sobre onde, aonde e de onde, anota que seu uso "não é tão difícil" e justifica: "com verbos que indicam permanência, como estar, usamos onde; com verbos que indicam movimento, usaremos aonde quando se referir ao destino (aonde você quer chegar?), e de onde (ou donde) quando se referir à procedência (de onde você saiu?)".5

9) Lembrando que até mesmo Camões quase sempre usava onde e, "quando usava do aonde, fazia-o sem ter em atenção o seu significado", Laudelino Freire esclarece que, nos dias de hoje, "não escreveria correto quem não discriminasse nitidamente, no uso desse advérbio, o lugar donde, o lugar onde, o lugar aonde ou para onde".

10) E, de modo específico, no que concerne à distinção entre onde e aonde, é taxativo tal autor: "Com efeito, onde significa no lugar em que, no qual lugar, e junta-se aos verbos ditos de quietação; aonde significa para o lugar que, para o qual lugar, para que parte, para que lugar, e junta-se aos verbos ditos de movimento".6

11) Também acerca do emprego de onde, aonde e donde, Silveira Bueno assim sintetiza a lição: "O snr. só pode empregar onde com verbos que não marquem movimento, mas estado: O lugar onde estamos nem sempre é aquele onde morremos. Empregará aonde com os verbos de movimento para ou movimento a: A terra aonde vou; A casa aonde te diriges. Empregará donde com verbos de movimento de: O país donde chego; O jardim donde venho".7

12) Eduardo Carlos Pereira, por seu lado, após proceder à diferenciação entre aonde, donde e onde, observa que "não se subordinam os nossos clássicos e alguns escritores modernos a estas distinções quanto aos advérbios onde e aonde".8

13) Oportuna é a ponderação de Pasquale Cipro Neto e Ulisses Infante: "o estabelecimento dessa diferença de significado tem sido uma tendência do português moderno. Na língua clássica, ela não existia; ainda hoje, é comum encontrar-se o emprego indiferente de uma ou outra forma".9

14) Sílvio Elia, por seu lado, a par de estabelecer a lição normalmente aceita por nossos gramáticos de que os verbos de movimento exigem aonde, em comentários a um verso de Álvares de Azevedo "Onde vais pelas trevas impuras...?" - excepciona que "o interrogativo onde é muito freqüentemente usado em português com o valor de aonde".10

15) Não se pense, por fim, que a discussão seja destituída de cunho prático ou de atualidade, devendo-se lembrar que, em jornal de grande circulação no país11, o ex-presidente da República José Sarney, após afirmar que, no Maranhão, falar errado "desfaz casamento e abala conceito", produziu ele próprio a seguinte frase: "Ora, aonde no Brasil se pode misturar latim e Carnaval?"

16) Dias após, no Painel do Leitor do mesmo jornal12, o professor Octavio Bueno Magano, da Universidade de São Paulo, polemizava que o escritor maranhense melhor se houvera se dissesse: "Ora, onde no Brasil se pode misturar latim e Carnaval?"

17) Em resposta, o senador e imortal da Academia Brasileira de Letras - que não quis atribuir o aonde a equívoco da secretária ou datilógrafa, muito embora, em publicação anterior do mesmo artigo, no Maranhão, viesse o registro de onde - ponderava que um dos envolvidos na polêmica estava certo, e o outro não estava errado, realçando que a discussão tinha mais de um século, e que desde alguns de nossos melhores autores da fase arcaica da língua até nossos dias, vários não fazem distinção alguma, motivo por que onde ou aonde seriam defensáveis em tais casos, quer em decorrência do emprego pelos clássicos, quer pela ocorrência de verdadeiro brasileirismo.

18) Polêmicas à parte, o melhor, na atualidade, acaba sendo observar a distinção que modernamente se faz entre onde e aonde, usando o primeiro para verbos e outras palavras que indiquem quietação, e guardando o segundo para palavras que signifiquem movimento em direção a algum lugar.

19) Interessante é observar um exemplo como "Onde vou morar", no qual, aparentemente, há um verbo de conteúdo dinâmico (vou) e outro de conotação estática (morar).

20) Nesse caso, porém, a realidade que surge além das aparências é que não há dois verbos com significados distintos de ir e de morar, mas apenas uma locução verbal (dois verbos fazendo o papel de um só), cujo verbo principal (determinante do sentido) é morar, enquanto vou é apenas um verbo auxiliar da locução, sem capacidade para determinar a preposição que se há de empregar no caso.

21) E, assim, se morar é um verbo de acepção estática, então se há de empregar onde, e não aonde. Exs.: I) "Onde vou morar" (correto); II) "Aonde vou morar" (errado).

22) No que concerne aos textos de lei, normalmente se observa a referida distinção, e o art. 31 do Código Civil é exemplo típico de correção quanto ao emprego de palavras dessa natureza: ""O domicílio da pessoa natural é o lugar onde ela estabelece a sua residência com ânimo definitivo".

23) E, fundando-se em lição de Otoniel Mota, fazem Regina Toledo Damião e Antonio Henriques importante observação, quando distinguem onde de em que: "onde indica lugar material", enquanto "em que, lugar virtual".13

24) Melhor explicando: se não se tem um lugar, mas uma situação ou um tempo, por exemplo, não se há de dizer onde. Exs.:I) "Estive presente na sessão onde se discutiu o assunto" (errado); II) "Estive presente na sessão em que se discutiu o assunto" (correto); III) "No ano onde eclodiu a Guerra do Golfo, eu morava no interior" (errado); IV) "No ano em que eclodiu a Guerra do Golfo, eu morava no interior" (correto); V) "Na audiência onde se ouviram as testemunhas..." (errado); VI) "Na audiência em que se ouviram as testemunhas..." (correto).

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1 Cf. MACHADO FILHO, Aires da Mata. "A Correção na Frase", In: Grande Coleção da Língua Portuguesa. São Paulo: co-edição Gráfica Urupês S/A e EDINAL - Editora e Distribuidora Nacional de Livros Ltda., 1969. vol. 2, p. 684
2 Cf. HENRIQUES, Antonio; ANDRADE, Maria Margarida de. Dicionário de Verbos Jurídicos. 3. ed. São Paulo: Atlas, 1999. p. 59.
3 Cf. FREIRE, Laudelino. Sintaxe da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Empresa Editora ABC Ltda., 1937. p. 100.
4 Cf. SILVA, A. M. de Sousa e. Dificuldades Sintáticas e Flexionais. Rio de Janeiro: Organização Simões Editora, 1958. p. 195.
5 Cf. NISKIER, Arnaldo. Questões Práticas da Língua Portuguesa: 700 Respostas. Rio de Janeiro: Consultor, Assessoria de Planejamento Ltda., 1992. p. 52.
6 Cf. FREIRE, Laudelino. Estudos de Linguagem. Sem número de edição. Rio de Janeiro: Cia. Brasil Editora, impresso em 1937. p. 104-105.
7 Cf. BUENO, Silveira. Português pelo Rádio. São Paulo: Saraiva & Cia., 1938. p. 115.
8 Cf. PEREIRA, Eduardo Carlos. Gramática Expositiva para o Curso Superior. 15. ed. São Paulo: Monteiro Lobato & Cia., 1924. p. 354-355.
9 Cf. CIPRO NETO, Pasquale; INFANTE, Ulisses. Gramática da Língua Portuguesa. São Paulo: Editora Scipione, 1999. p. 546.
10 Cf. ELIA, Sílvio. A Língua e a Literatura no Curso Colegial. 3. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1967. p. 181.
11 Cf. Folha de S. Paulo. de 5.3.93.
12 Cf. Folha de S. Paulo. de 19.3.93.
13 Cf. DAMIÃO, Regina Toledo; HENRIQUES, Antonio. Curso de Português Jurídico. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1994. p. 230.

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Atualizado em: 1/1/1900 12:00

COORDENAÇÃO
José Maria da Costa

José Maria da Costa, é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.