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Quisera ser um jogador de futebol...

domingo, 28 de junho de 2026

Atualizado em 26 de junho de 2026 11:01

Assistindo aos jogos de futebol da Copa do Mundo – cada um tem que cumprir com suas fantasias e apegos - projeto-me para o interior do campo e me imagino como um jogador com pouca experiência, mas com muita vontade, daí minha convocação, disputando a peleja exibida pela televisão. Talvez vergue a camisa oito ou a dez, mas com função primordial de articular o meio de campo, justamente por se encontrar numa posição mediana, com a ligação entre a defesa e o ataque. É o símbolo do equilíbrio e a justa medida.

Colocaria várias metas para serem atingidas. Iria aprimorar meu preparo físico para que seja um diferencial entre os demais atletas. Correria mais, pois hoje as equipes contam com técnicos especializados em marcar o tempo de movimentação em campo, até mesmo a velocidade desenvolvida. Saltaria mais alto para que a imagem em câmera lenta pudesse descrever a impulsão majestosa, o rosto contorcido, o suor escorrido para alcançar a bola. Um verdadeiro bailar na altura.

Procuraria ser um exímio batedor de bola parada. Antes, porém, iria estabelecer um contato muito íntimo com a bola, discreto e perfeccionista, como Pelé. Falar com ela a mesma língua. Quer queira, quer não, é a personagem que circula por todos os cantos e só se aloja no gol quando for tocada com maestria por algum jogador.

Ensaiaria a folha seca, com uma pitada de afeto para marcar um gol olímpico, a trivela, com um arrasador efeito no escanteio, de ponta de pé, para o certeiro pênalti, de rosca, para fazer a bola dançar como um pião, de voleio ou sem-pulo apanhando-a ainda no ar, desprevenida, de bico, o mais simples, o reto, o correto e o mais importante para alcançar a vitória.

Faria lançamentos com mais profusão, calculando milimetricamente a trajetória da bola e a velocidade do jogador que se deslocou para recebê-la, como se tivesse uma IA catalogada ao meu cérebro. Daria dribles curtos, com agilidade, ginga e elasticidade. Conversaria com os demais jogadores em campo para mudar a estratégia da partida, mesmo contrariando a ordem do técnico. Viraria o jogo não só no placar, como também de uma lateral para outra. Envolveria a torcida de tal forma que o canto se tornasse um hino para atingir a vitória, arrancando os merecidos aplausos. É a mesma receita para atrair seguidores. Daí que o futebol imita a vida.

Estudaria com mais vagar a utilização da melhor logística para ganhar mais espaço em campo, assim como para minar o poderio ofensivo do adversário. Criaria uma adaptação do pulo duplo twist carpado - e não o triplo da Daiane dos Santos – como um novo marco para comemorar o gol e que fosse também um incentivo e exemplo para todo aquele que faz da vida uma luta renhida. Mas, uma certeza eu tenho: não deixaria cobrir o meu corpo com tanta tatuagem, pois ela modifica a própria imagem.

Depois de ter sido reconhecido e conquistado a fama procuraria estudar mais, dando preferência para as carreiras relacionadas com a administração de bens e contas bancárias, por onde desembocam expressiva quantidade de dinheiro, em razão dos contratos de propaganda. Também me interessaria pela história política e social do meu país para poder repassar à população mais carente o conhecimento necessário de sua cidadania. Daria entrevistas expressando-me bem na minha língua e, quando for contratado para jogar no exterior, adotaria a mesma fluência com relação ao outro idioma.

É a trajetória perfeita para se chegar à seleção. E a Copa do Mundo pede passagem em sua peregrinação a cada quatro anos com a comissão de frente já desfilando alegorias e samba no pé. Já não se diz à boca pequena que o ano de 2026 irá começar somente após o final do campeonato, pois terá outra interrupção no mês de outubro, período eleitoral. Se as propostas de paz e harmonização vinculadas à competição do futebol mundial conseguirem conciliar as oportunidades que se apresentam para conhecer as culturas dos povos participantes e, posteriormente, abrir debates populares para discutir a responsabilidade do voto como direito inalienável da cidadania e o engajamento de cada um no processo, aí tudo vale a pena, mesmo que a nossa seleção seja pequena.

Acordo do enlevo e me vejo na realidade do dia a dia, sem graça, sem futebol e sem qualquer atrativo. Mas a vida segue e busca novos horizontes de esperança para que a torcida, de pé, possa aplaudir o espetáculo da vida humana.