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Duas bolas traiçoeiras

terça-feira, 7 de julho de 2026

Atualizado às 09:27

Um menino, com 10 anos de idade, vestido com as cores do Brasil, camisa 10, short verde e faixa amarela na testa e com os olhos brilhando mais do que o telão da sala, assistia e freneticamente torcia pelo seu país. Não sabia o que era 4-3-3, nem impedimento, nem VAR. Mas sabia o que o avô comentou antes da Copa:

"Filho, o Brasil, além do melhor futebol, joga com alma. E quando se joga com alma, ninguém segura".

O garoto fazia disso seu grito de guerra. Gritava, pulava. Cada passe era um gol e cada defesa um milagre.

De repente, silêncio.

Uma bola traiçoeira. Depois outra. Ambas se acomodaram nas redes do Brasil, como que pedindo mil desculpas para o garoto. O estádio na TV ficou mudo. Os adultos também.

Só o garoto que não. As lágrimas vieram primeiro. Depois os soluços acompanhados da pergunta que nenhum adulto queria ouvir. Com a camiseta já molhada pelo choro, desabafou:

"Pai, eu esperava muito mais do meu time".

O pai, visivelmente emocionado e se contendo para contornar o desencanto, falou baixinho:

"Eu também filho. Mas sabe por que a gente chora? Porque a gente ama de verdade. Quem ama, sofre junto e comemora junto. O Brasil já perdeu antes e por cinco vezes foi campeão mundial. E vai ganhar de novo. Porque torcer não é só para a vitória. Torcer é ficar aqui junto das pessoas que nos relacionamos e queremos bem, mesmo quando dói".

O menino enxugou o rosto na manga da camiseta. Olhou para o telão e viu os jogadores de cabeça baixa, um procurando consolar o outro. Como ele, com a fé que tinha herdado e agora não sabia como encontrá-la.

Então o torcedor infantil fez uma coisa que os adultos não fizeram: bateu palmas e bradou com toda força de sua voz:

"Levanta, Brasil".

E nova esperança renasceu com ele, que agora corria descalço pela sala. Todos entenderam que torcer é plantar bandeira em terra propícia e transformar derrota em promessa.