Migalhas

Terça-feira, 7 de abril de 2020

ISSN 1983-392X

Marizalhas
Antônio Claudio Mariz de Oliveira

Um apaixonado fiel

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Uma das características mais acentuadas da personalidade de meu pai era a fidelidade às suas paixões. Era um apaixonado de entrega absoluta, sem subterfúgios, reservas ou freios que o inibissem. Situações e eventos desde os mais relevantes aos mais singelos eram por ele incorporados e integrados em sua memória, em suas afeições e saudades e passavam a ser lembrados e reverenciados, com frequência.

Se acontecimentos os mais variados criavam vínculos inesquecíveis com meu pai, era no relacionamento pessoal que sua paixão aflorava de forma plena e a entrega era absoluta. As pessoas ingressavam no seu íntimo e ficavam cobertas pela sua generosidade e capacidade de compreender o ser humano, colocando-se pronto para proteger e amparar quem dele necessitasse.

Mas, voltando às afeições de meu pai, lembro-me do carinho com que se referia a alguns dos automóveis que possuiu durante sua vida: um Chevrolet, um Nasch e um Ford Prefect.

O Chevrolet, fabricado em algum ano da década de trinta, foi comprado por meu pai no final dos anos quarenta. Lembro-me que como auxiliar da partida havia uma manivela colocada na frente do carro e que era manualmente acionada, todas as vezes que o motor de arranque não funcionava. E, não eram poucas as vezes que isso ocorria.

O Prefect vivia no mecânico. Era surpreendentemente duro, péssimo molejo, suspensão praticamente inexistente. Por tal razão, papai brincava que fazia questão de colocar sua sogra, minha avó, no banco de trás, para que quando passasse por buracos ela batesse a cabeça no teto do carro. Era mesmo um automóvel próprio para se transportar a sogra no banco de trás.

O Nasch recorda-me as frequentes viagens que fazíamos a Santos onde moravam meus tios Maria Benedita (Bina) e Gil Ribeiro de Mendonça. Na volta, era inevitável que ao subir a serra o velho carro fervesse. E como fervia. Minha mãe, precavida, levava uma pequena panela, na verdade era um pequeno penico, que possuía dupla serventia, a natural e a de saciar o sedento carro. A água era encontrada nas diversas bicas existentes na Anchieta. No entanto, mesmo com o carro esquentando inúmeras vezes, a panela-penico era pouco usada. Ela servia para uma ou duas enchidas do enorme radiador. Ocorria que, acometido de grande irritação, meu pai arremessava a dita cuja, precipício abaixo e lá ficávamos nós sem panela, sem água e sem carro, pelo menos até que ele esfriasse o suficiente. Esse fato ocorria em quase todas as viagens. Haja panela !!!

Outro fato repetido nas viagens a Santos era a advertência que papai fazia quando estávamos para entrar no túnel da serra: "abaixem a cabeça". Nossas queridas Juraci e Judith, que se revezavam como empregadas de casa, obedeciam ao patrão e permaneciam de cabeça baixa até a que a contra ordem fosse dada.

A paixão para papai tinha um componente indissociável que era à fidelidade. Jamais abandonava ou trocava de paixões, incorporava as novas e conservava as antigas.

Viúvo se mostrou marido amantíssimo, mas manteve viva e reverenciada a memória de Carmen Lúcia, minha mãe.

Lecionou por décadas nas Faculdades de Direito de Bauru e na Faculdade Paulista de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, da qual foi Professor Titular de Direito Processual Civil, defendendo a tese "Substituição Processual". Ainda no magistério foi diretor da Faculdade de Direito das Faculdades Metropolitanas Unidas.

No entanto, foi até o fim dos seus dias um devoto das Arcadas e do Centro Acadêmico Onze de Agosto. Um dos fatos dos quais mais se orgulhava era o de ter pertencido à turma de 1946, para ele "gloriosa". Propagava aos quatro ventos ter sido ela a "melhor" turma que já passara pela quase bicentenária Faculdade. Outra prova da afeição que papai dedicava aos acontecimentos, instituições e pessoas que interferiram na sua vida.

Apaixonado pela magistratura, a advocacia não abandonava seu espírito, suas recordações e até as suas preocupações. Vestia a toca no corpo e envergava a beca na alma.

Acompanhei de perto a sua gestão como Presidente da Associação dos Advogados de São Paulo, que constituiu sem dúvida a sua razão maior de vaidade, na sua carreira de advogado. Nessa época tive uma preciosa lição de desprendimento e de preocupação para com os interesses da advocacia. A ASSP era dirigida por uma gama de abnegados, que em detrimento de suas bancas e muitas vezes da própria família a geriam com invulgar dedicação. Nessa época a grande entidade não havia ainda atingido a sua pujança atual. As dificuldades materiais colocavam em permanente risco o seu futuro.

Lembro-me que a compra do imóvel de sua sede no Largo de São Francisco, quando papai ocupava um cargo em sua diretoria, pode se dar em razão dos avais fornecidos pelos seus diretores. Posteriormente, já com outros diretores, o fato se repetiria quando da aquisição da sede da Francisco Cruz.

No curso de sua vida meu pai trabalhou em confortáveis escritórios e gabinetes, mas tinha um apreço especial pelo acanhado escritório da Praça da Sé, n. 399. Lá eu comecei a trabalhar em 1961 ou 62. Papai havia saído do escritório de meu tio José Augusto Mariz de Oliveira, com quem trabalhara desde os quinze anos, para instalar-se no 5º andar da Praça da Sé, junto com Flávio de Freitas Gouveia, em 1957. Formaram a dupla "Macaco" e "Coelho", como eram conhecidos desde a época de Faculdade. O palco de suas apresentações diárias, era o Fórum – então instalado no velho prédio do Tribunal de Justiça – Eu deliciava-me com as histórias que os advogados e funcionários, que com eles conviveram, contavam a respeito das brincadeiras, gozações futebolísticas, provocações que norteavam as relações forenses de então.

O escritório da Praça da Sé, ainda lhe era muito caro, pois o Professor José Frederico Marques, o inexcedível processualista e penalista, ao aposentar-se como Desembargador, foi para lá exercer a advocacia, em sociedade com papai. Posteriormente, nós, eu já com ele trabalhava, mudamos para o 6º andar, onde estava instalado o escritório do Dr. Henri Couri Aidar e de seu filho Carlos Miguel.

A extraordinária capacidade de envolvimento emocional de meu pai, infelizmente, também constituía uma fonte de sofrimento e de amargura. Embora homem experiente e dotado de extraordinária inteligência, em não poucas ocasiões chegava a mostrar boa fé, crença e certa ingenuidade na reciprocidade de uma amizade, que o impediam de enxergar a realidade com clareza. Esta, como sabemos, não raras vezes é marcada pela deslealdade, pela ingratidão, pela supremacia dos interesses e pelo egoísmo. Ao percebê-la meu pai era tomado de grande amargura. Exatamente porque a sua entrega às amizades era total, não conseguia superar a decepção, para encarar com pragmatismo e mesmo com cinismo aquilo que lhe era inaceitável no ser humano. Dentre outras de suas características, esta sua dificuldade em assimilar os desgostos foi plenamente herdada por mim.

Antônio Claudio Mariz de Oliveira

Antônio Claudio Mariz de Oliveira, é advogado.

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