Migalhas

Terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

ISSN 1983-392X

Marizalhas
Antônio Claudio Mariz de Oliveira

Um paradigma de honradez e retidão

segunda-feira, 26 de março de 2012

A lembrança de Raimundo Paschoal Barbosa vem acompanhada de uma imensa saudade, daquelas que nos dominam como um forte e apertado abraço. Mas, não se pense tratar-se da saudade que causa amargor, inconformismo e incontrolável tristeza. Ao contrário, ela é como um afago, um bálsamo, um acalento.

A sua ida, nos últimos tempos, passou a ser esperada em razão de sua debilitada saúde, mas quando ocorreu foi profundamente lastimada e sentida.

Hoje, quando penso em Paschoal me alegro. Sua lembrança se reflete em um instantâneo sorriso. É o sorriso das boas e suaves lembranças.

Raimundo e eu conversávamos umas três vezes por semana. E ele me chamava de "macaco". Tenho esclarecido que esse não é um apelido fruto de merecimento. Ele foi herdado de meu pai, Waldemar Mariz de Oliveira Júnior, seu amigo fraterno.

A irreverência de ambos me leva a imaginar o que não estarão fazendo no local em que estiverem. Eu não sei onde estão, mas onde estiverem estarão juntos.

Nossas constantes conversas telefônicas amenizavam o árido cotidiano da advocacia. Falávamos amenidades. Ele sempre tinha uma história da profissão para contar. E, como eram agradáveis, engraçadas e inteligentes as suas narrativas. Episódios de sua rica trajetória de vida nunca faltaram. Nesses diálogos a ironia e o humor inteligentes sempre estavam presentes, marcados pelo seu gostoso sotaque nordestino.

Histórias da sua participação na 2ª. guerra mundial eram contadas com entusiasmo e indisfarçável orgulho por haver integrado a Força Expedicionária Brasileira. Episódios da sua estada na Itália faziam-me recordar daqueles contados por meu pai, só que estes eram imaginários, pois papai jamais participara da guerra, jamais fora pracinha. Narrava a sua "atuação" nas tomadas de Monte Castelo e de Monte Cassino, com tantos detalhes e realismo que mesmo sabendo ser pura invenção nós todos gostávamos de ouvi-lo.

O Ceará de sua época, suas experiências como jornalista – começou como faxineiro de redação – a forte personalidade de sua mãe, sua militância comunista, eram outros temas de sua predileção.

É interessante notar que mesmo mantendo as características do homem do nordeste, simbolizadas por seu forte sotaque, assimilou o modo de ser do povo paulista e o ostentava com indisfarçável orgulho.

Poucos amaram a advocacia como Raimundo a amou. Passou a simbolizar a figura do verdadeiro advogado criminal. Era um devoto da sagrada missão de defender. Sua retidão ética, seu destemor em face da tentativa de violação de nossas prerrogativas, sua altivez em face da prepotência e do arbítrio, a sua proverbial atenção aos advogados mais jovens transformaram-no em verdadeiro ícone da advocacia criminal, paradigma de honradez e retidão.

No quadrilátero da Praça João Mendes, ou será retângulo, não importa, exercia o poder de império sobre todos nós, jovens advogados. E, os antigos também aceitavam gostosamente o seu jugo. Sem nenhuma propensão para o autoritarismo ou para o mando, muito ao contrário, pois era um libertário, nesse espaço exercia o seu reinado, que tinha como origem um direito divino, tal o dos antigos monarcas. Era natural, transcendia a sua vontade, eram os seus súditos que se submetiam à sua dominação.

Mesmo após haver saído da Liberdade, ido para a Cardeal Arco Verde, ele diariamente ia inspecionar os seus domínios territoriais. E, ai passava na Ordem, na nossa "Praça da Alegria" no Palácio da Justiça, em algum escritório, mas especialmente se postava em alguma esquina sempre cercado, jamais o vi só, para cumprir um ritual que se tornou indispensável, o de contar "causos" e casos, fazer blague, aconselhar, opinar, gozar, ironizar, enfim derramar toda a sua cultura, toda a sua sabedoria de vida e em especial toda a sua infindável devoção e todo o seu amor à advocacia, para deleite e enriquecimento de todos os que, embasbacados, o ouvíamos com a reverência devida aos grandes homens.

Há um episódio notável, talvez já notório, mas que deve ser repetido à exaustão como exemplo da sua índole e da grandeza humana de Paschoal.

Ele perdeu sua mulher, Dna. Cecília, vítima de um latrocínio, em 1984. Ligado a ela por laços de amor e de uma absoluta e não disfarçada dependência, jamais superou a sua perda. Por vezes, e não foram poucas, dizia-me ser a viuvez um estado que beirava o insuportável.

Pois bem, no velório de Dna. Cecília um delegado comunicou-lhe que dois suspeitos haviam sido presos. O grande advogado o idólatra da liberdade, não titubeou e disse "Doutor, solta os presos, pois suspeito não se prende, apenas se interroga".

Esse operário da advocacia, braçal da profissão, como gostava de se auto denominar, está fazendo extraordinária falta a todos nós, velhos e novos advogados criminais.

Paschoal Barbosa possuía uma crença fervorosa na advocacia, como instrumento de modificação da realidade. Parafraseando Rene Dotti ele tinha um inquebrantável compromisso com "a realidade existencial da prática nas defesas penais".

Entendia o advogado como figura imprescindível à construção de um mundo melhor.

Aliás, parece que essa visão instrumentária da advocacia, que se estende à própria Ordem, é característica de todo advogado verdadeiramente vocacionado, ardoroso crente da imprescindibilidade da profissão como fator decisivo na construção de um mundo melhor.

Não me refiro, evidentemente, à advocacia ou à Ordem utilizadas como meio de projeção pessoal ou como instrumento para o alcance de outros objetivos, diversos daqueles que lhe são naturais. Objetivos, alguns deles até inconfessáveis.

A visão dos grandes advogados, que colocam a profissão e a sua entidade mãe a serviço de valores que transcendem os seus próprios limites, é, para uns, quixotesca, para outros utópica, ilusórias, desprovida de pragmatismos e senso da realidade.

É, pode ser, mas foi ela quem sustentou e sustenta a advocacia, nos momentos em que o autoritarismo político ou social pôs em risco a sua própria sobrevivência. Foi esta mesma visão que levou o advogado a ser o arauto da liberdade e da democracia, em inúmeros episódios da nossa história. E, para não dizer mais, foi esta visão que evitou o cometimento de injustiças contra acusados lançados à execração e ao linchamento públicos.

Poucos, como Raimundo acreditaram e cumpriram esse ideário sagrado, que deveria ser retomado por todos aqueles que advogam e especialmente por aqueles que pretendem ocupar os postos de comando na OAB. Tal como ele o fez deverão servir a entidade e à classe com abnegação, desprendimento e devoção aos ideais da advocacia.

Antônio Claudio Mariz de Oliveira

Antônio Claudio Mariz de Oliveira, é advogado.

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