Cacheiro viajante da advocacia
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
Atualizado em 5 de fevereiro de 2026 11:52
As nossas viagens eram frequentes. Durante vários anos cortamos o Estado de São Paulo de ponta a ponta, do sul ao norte, do leste ao oeste. Frequentemente visitávamos as cidades nas quais estavam instaladas as subseções da Ordem dos Advogados de São Paulo. Além dessas outras cidades íamos a outras, desde que houvesse advogados.
Os motivos das viagens variavam. Poucos anos após me formar passei a ir às subseções, com outros colegas para participar de reuniões, palestras, encontros regionais, eventos comemorativos, inaugurações das casas locais e por muitas outras razões.
Já em meados dos anos setenta passei a fazer política de classe. As viagens então se intensificaram pois durante dez anos acompanhava os candidatos pelo interior, tendo coordenado várias candidaturas. Mário Sérgio Duarte Garcia; José de Castro Bigi; Márcio Tomas Bastos; José Eduardo Loureiro foram presidentes da Ordem de São Paulo com os quais tive o prazer de conviver durante as respectivas campanhas e posteriores gestões.
De cada um deles, além do afeto ficaram gravadas nas minhas recordações e sentimentos fatos marcantes, alguns hilários, reveladores da personalidade, do caráter e especialmente do amor pela advocacia de cada um deles.
Mário Sérgio Duarte Garcia foi sem dúvida um dos homens mais íntegros que conheci. Integridade, fidelidade aos seus ideais e aos seus amigos, lhaneza no trato, elegância no modo de ser e de trajar, enfim um homem que se tornou um dos mais festejados líderes da advocacia brasileira de todos os tempos.
No entanto, a sua elegância e fineza de trato, por paradoxal que pareça, esteva incomodando a nós os seus companheiros durante a campanha de 1978, na qual concorreu contra Rogê Ferreira para a presidência da OAB. Enquanto este experiente líder estudantil e naquele momento, político ativo do Partido Socialista Brasileiro, se caracterizava pelos seus ares populistas, Mário Sérgio, embora muito simpático e adepto de ideias progressistas, possuía duas características que poderiam passar uma falsa imagem de sua pessoa. Possuía um basto bigode bem cortado e aparado e usava monóculo.
Como já à época a advocacia não era privilégio das elites, parte do eleitorado poderia não se sentir representada por um presidente cuja aparência o distinguia da média dos profissionais. O voto desses tenderia a ir para outro.
Por tal razão, os demais integrantes da nossa chapa e alguns apoiadores resolveram designar alguém para falar com Mário Sérgio e sugerir que aparasse o bigode e não usasse o monóculo.
A árdua missão como eu temia recaiu sobre o mais jovem do grupo: eu. Com a sua proverbial educação e gentileza Mário não só recebeu a sugestão como a cumpriu. Em parte, pois passou a usar óculos. Quanto ao bigode eu não tive coragem de mencioná-lo. Ficou com ele, fato que não interferiu nas eleições. Saiu-se vitorioso.
Outras histórias das minhas incursões pelo interior de São Paulo serão narradas nos próximos escritos.

