Bar das Putas e Cu do Padre
quarta-feira, 18 de março de 2026
Atualizado às 10:40
Eu tenho escrito sobre locais, de diversas naturezas, que são exemplos de redutos de sociabilidade e ao mesmo tempo trazem gratas recordações que me acompanham até hoje.
Da rua em que morei e suas adjacências, passando, pelos meus escritórios, centro da cidade, estádios de futebol, chácara de meu avô, casa de tios em Santos, bares e restaurantes e outros, provocam não só a fixação das lembranças, mas reflexões sobre convivência, solidariedade, amizade, necessidade de confraternização. Tais reflexões representam o homem como ser gregário, ligado ao coletivo, como antítese do individualismo e do egoísmo, tão presentes nos dias de hoje.
Quero nesse escrito, após ter me referido em outro às livrarias por mim frequentadas, trazer à lembrança os bares e restaurantes frequentados pela minha geração durante quase setenta anos. A maioria não mais existe. Alguns resistem galhardamente.
Locais históricos que preencheram, e alguns ainda o fazem, as nossas necessidades etílicas e culinárias, mas, acima de tudo, os nossos anseios de alegria e de benquerença.
Dos bares devo registrar o "Guanabara"; o "Girondino", o antiguíssimo "Cu do Padre"; atrás da Igreja de Pinheiros; o "Bar do Leo"; o "Bar Brahma"; o "Riviera", e o simbólico e diria glorioso "Bar das Putas", oficialmente chamado de "Sujinho", fixado na rua da Consolação.
Por que "Das Putas"? Não se pense que nós jovens de ontem e os de hoje, o frequentamos à cata das companhias femininas que estariam lá aportadas. Não, houve época que o "Sujinho" era o refúgio da chamadas falsamente de moças de "vida alegre", contra as investidas da polícia que as perseguia quando ficavam na Consolação e adjacências. Entravam no bar e lá se sentiam protegidas prelos boêmios de plantão.
Outro local pitoresco pelo apelido que lhe foi dado e por sua configuração, que eu diria atentatório aos mais comezinhos preceitos de higiene, é o “Cu do Padre”. Desde sua fundação que data, certamente, dos anos cinquenta ou sessenta, foi batizado como “Cu do Padre” pela sua localização, atrás da Igreja de Pinheiros. Talvez tenha sido o primeiro bar-boteco de São Paulo a preparar batidas com leite condensado. A enjoativa bebida durante um tempo caiu no gosto especialmente das mulheres. Na rua José Antonio Coelho, no Paraiso/ Vila Mariana, havia o “Palmas”, bar de um refugiado húngaro, que igualmente punha o leite nos seus coquetéis.
Mas, voltando ao "Cu do Padre", especificamente, ao seu aspecto, ele possuía pendurados os salames e queijos que se misturavam com no teto com teias de aranha. O pó era companhia constante das garrafas, que por vezes encobria os seus rótulos. Enfim pouca higiene, que, no entanto, até hoje atrai uma fiel freguesia.
Os nomes de ambos os bares são incomuns, alguém diria inadequados, grosseiros e tantos outros adjetivos, mas refletem a realidade que os cerca e caíram no gosto do paulistano há várias décadas.

