domingo, 27 de setembro de 2020

COLUNAS

Paulo Mendes da Rocha, subserviência, liberdade e futebol

O arquiteto Paulo Mendes da Rocha é um gênio. Integra a lista de brasileiros que orgulham - ou que deveriam orgulhar - qualquer pessoa que ostenta a sua nacionalidade.

A genialidade se exprime não apenas em suas obras, como também em suas falas ou atitudes, que revelam sua natureza e suas preocupações humanísticas; característica, aliás, que não se expressa em todo gênio.

Autor de realizações emocionantes, como o MUBE - Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia, o Estádio Serra Dourada, as intervenções na Praça do Patriarca e na Pinacoteca, o Museu dos Coches e o Sesc 24 de Maio, foi reconhecido mundialmente com as atribuições do Prêmio Pritzker1 - o mais importante da arquitetura -, do Leão de Ouro da Bienal de Veneza e do Prêmio Imperial do Japão.  

Certa vez um renomado advogado carioca, que comprara uma cobertura duplex nos Jardins, bairro sofisticado da cidade de São Paulo, pediu ao arquiteto orientação a respeito do que fazer na parte superior do imóvel, e teria obtido a surpreendente (e genial) opinião - segundo ele me narrou: a derrubada da construção existente, o plantio de uma mangueira e a instalação de um banco sob a árvore, para contemplar a cidade. A imagem é sublime; mas a sugestão não foi acatada.

Essa história condiz com as suas posições, defendidas ao longo de décadas: para ele, a arquitetura não é feita para ver, mas para vivê-la - apesar do resultado visual (ou estético), não gratuito, de seus projetos. Neste sentido, Paulo Mendes da Rocha afirma que a suprema obra de arquitetura, ou da arquitetura, como forma de conhecimento, seria a cidade, que não se sabe que desenho, ou que forma tem. Ela seria um acontecimento riquíssimo sob todos os aspectos imagináveis2 (e que poderia, acrescenta-se, ser lindamente contemplada do topo de um arranha-céu, com o perfume de mangas).

A coragem e a coerência marcam sua trajetória, sempre avessa a qualquer forma de submissão, seja a padrões estéticos impostos pelas nações predominantes - e colonialistas -, seja a forças políticas do momento.

Daí a perplexidade causada pela notícia da doação de seu acervo pessoal, composto de mais de 9.000 itens, a uma jovem instituição privada portuguesa, sem tradição ou acervo relevante.

A comunidade intelectual e artística reagiu, inicialmente, de modo crítico. Na sequência, uma carta-manifesto, assinada por mais de duas centenas de pessoas, apoiou a decisão. O debate, de todo modo, faz-se necessário.

José Lira, Professor titular da FAU-USP, em texto publicado na Folha (ed. de domingo, 13 de setembro, p. A3), após lembrar que foi em São Paulo que Paulo Mendes da Rocha "se tornou uma liderança para centenas de profissionais, estudantes e professores, parceiro de projeto de muitos deles e esteio de pranchetas, sala de aula, pesquisas e debates Brasil afora", indaga se sua obra "restará compreensível aos que tiverem a ventura - além do interesse e do dinheiro - de examinar seus traços e margens em Matosinhos" (pequena cidade lusitana, onde se localiza a Casa da Arquitectura, instituição que acolherá o patrimônio doado). E vai além: pergunta se "o fabuloso desfalque documental não abalará também o julgamento e a preservação de sua obra".

Não pretendo, aqui, entrar em debate para o qual não me sinto qualificado; apesar de parecer-me que a obra de Paulo Mendes da Rocha está posta, perenizada, mesmo que interesses obscuros venham, num futuro que já não se pode desconsiderar, demoli-la em benefício de propósitos especulativos - como se tentou, aliás, com a magnífica construção que abriga o MUBE.

O distanciamento do material de trabalho, que de resto sempre foi privado e inacessível ao público em geral, não tornará Paulo Mendes da Rocha menor; exceto por meio de um eventual (e condenável) processo de destruição ideológica, desnecessário num país pródigo em não reconhecer seus realizadores, seus feitos e seus valores.

Daí surge a relação com o futebol.

O esporte veio para o Brasil pelas mãos - ou pés - de classes favorecidas, colonizadoras e expropriadoras. Mas não tardou a ser absorvido pelas classes subjugadas, trabalhadoras e viabilizadoras da extração dos lucros pretendidos pelos expatriados e suas empresas transnacionais.

Operou-se, portanto, o que, anos depois, viria a ser um dos motes do modernismo brasileiro: a antropofagia.

Nada, realmente nada, expressa de modo mais preciso o ideal antropofágico, do que o futebol: após apropriação pelos negros e mestiços, foi devolvido ao mundo com características e linguagens próprias, tornando-se referência e objeto de veneração.

Apesar disso, o Estado e a sociedade civil o tratam maleficamente: ora como instrumento de sustentação de projetos políticos, inclusive ditatoriais, ora como meio de alienação das massas - ou, no melhor dos casos, como atividade futilizada e imprestável para viabilizar necessário movimento de inserção e desenvolvimento social.

Os resultados, que se colhem há anos (ou melhor, não se colhem), decorrentes, pois, da ausência de políticas públicas e do descaso dos brasileiros com algo que se tornou parte de sua simbologia, são desalentadores: falta de estrutura; falência das entidades organizativas da prática futebolística; subsídios estatais e desperdício de recursos públicos, para manutenção de uma casta cartolarial desqualificada para o exercício de sua função; transformação de meninos em coisas, para exportação ainda em fase de desenvolvimento; destruição da relação entre o povo e seus "heróis"; etc.

Não à toa que o Brasil, no plano futebolístico, passou de desenvolvedor de tecnologia (ou de produto de ponta - e de sonho) à posição de fornecedor de matéria-prima, própria de país terceiro-mundista, que o caracteriza, aliás, por imposição externa ou subserviência, desde as invasões europeias, notabilizadas a partir do início século XVI.

Com isso, o futebol e as atividades conexas, como serviços, hotelaria, turismo, medicina do esporte, educação física, construção, licenciamento de produtos, direitos de imagem, advocacia esportiva, dentre outras, deixaram de ser estruturados como vias de inserção social e de desenvolvimento econômico sustentável, atreladas a um projeto educacional de dimensão nacional.

A entrega voluntária, sem contrapartida, do acervo de Paulo Mendes da Rocha, ao país que, direta ou indiretamente, extraiu as riquezas naturais locais, apesar de dolorida, sobretudo por partir de quem partiu - e que sempre manteve um discurso anticolonialista -, talvez seja o recado, intencional e necessário, de que as bases institucionais devem ser revistas.

Ao declarar à Folha, na edição de 15 de setembro, que sua decisão representava um ato de liberdade, o arquiteto reafirma o inconformismo com o capitalismo tupiniquim: despreocupado com o ser humano, com o meio-ambiente e com valores sociais; e denuncia, ao mesmo tempo, a insustentabilidade do modelo de Estado brasileiro, que se revela incapaz de preservar e defender os princípios consagrados na Constituição Federal - bem como de zelar por um "simples" acervo de ideias arquitetônicas.

Assim como também não consegue preservar e defender o futebol, expressão máxima de nossa cultura, que vem sendo entregue e jogado na Europa; sem que contra isso, contudo, alguém se insurja.

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1 Feito antes atingido apenas por Oscar Niemayer - e, desde então, por nenhum outro brasileiro, apesar da qualidade dos arquitetos e arquitetas das gerações seguintes, a exemplo de Angelo Bucci (que possivelmente também atingirá a façanha).

Atualizado em: 16/9/2020 07:57

COORDENAÇÃO
Rodrigo R. Monteiro de Castro

Rodrigo R. Monteiro de Castro, é professor de Direito Comercial do IBMEC/SP. Ex-presidente do MDA. Ex-presidente do IDSA. Ex-Professor de Direito Comercial do Mackenzie. Doutor em Direito Comercial pela PUC. Coautor do projeto de lei que institui a Sociedade Anônima Simplificada. Coautor do Livro "Futebol, Mercado e Estado" e autor dos livros "Controle Gerencial" e "Regime Jurídico das Reorganizações". Sócio do escritório monteiro de castro, setoguti advogados.