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O título do Galo poderá fazer bem ao futebol brasileiro

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

O Atlético Mineiro é um dos grandes clubes do Brasil. Sua fanática torcida, composta por aproximadamente 7 milhões de pessoas, não o abandona jamais. Títulos, que não são detalhes, acabam se tornando, paradoxalmente, para ela, detalhes: porque a paixão é incondicional.  

Desde 1971, ano em que se sagrou campeão - e o primeiro campeão - brasileiro, amarga uma seca (quase) inexplicável. Levantou, é verdade, muitas outras taças, inclusive a mais importante de todas, a Libertadores da América. Mesmo assim, faltava, em sua história, um reencontro com o êxito no plano nacional. Parece que chegou o momento, enfim.

A compreensão da anatomia do título fará bem, não apenas para o futuro do time, como para o futuro do futebol no Brasil. Isso porque o resultado esportivo que se atingirá, mesmo diante de uma crise financeira aguda, não decorre do acaso - e muito menos expressa uma vitória do associativismo.

Não me aventurarei a tratar da história política do clube. Tampouco dos movimentos recentes, com o surgimento de importantes mecenas. Longe disso.

O foco será o conjunto de fatores, aos olhos de um expectador externo, que viabilizou a ascensão no plano futebolístico.

Aliás, os números do Atlético, no início do ano, com base nas demonstrações financeiras de 2020, afetados pela pandemia, eram assustadores: bilionário endividamento em crescimento; e faturamento em queda (além de incompatível com o tamanho do time e de sua torcida, bem como com o tamanho da dívida). Pela lógica associativa, que se revela em praticamente todos os demais clubes, o caos se anunciava - e, com ele, mais um ano de espera.

Por mais qualificados que sejam os seus atuais dirigentes - pelo que se ouve, são mesmo -, o problema não se resolveria, como não se resolveu, sem o surgimento de fatores exógenos, os quais, aliás, começaram a se introduzir já há algum tempo.

Sabe-se que, no futebol, certas máximas de mercado podem, eventualmente, não funcionar da forma como funcionam empresarialmente. Times milionários e compostos por grandes estrelas também fracassam; por outro lado, organizações mais modestas "encaixam" formações que se revelam e surpreendem a todos. É verdade, mas não costumam se sustentar. Essas experiências devem ser contextualizadas e, quase sempre, tratadas como acidentes. Veja-se, por exemplo, o improvável título da Premier League obtido pelo Leicester na temporada 2015/2016.

A realidade é que o futebol se afirmou, nos últimos 30 anos, como um negócio de projeção global. Um negócio diferente, é verdade, porque envolve paixão. Mais do que isso: porque, sendo negócio e esporte, ao mesmo tempo, lida com o elemento transcendental. Não há poeta, eu acho, que tenha até hoje conseguido transformar em palavras o sentimento de um gol. Ou de um título.

Pois bem. A conjunção desses fatores indica a complexidade do ambiente da empresa futebolística, que vinha sendo, até o advento da Lei Rodrigo Pacheco (ou Lei da SAF), evitada e combatida, no Brasil, com quase todas as forças.

O combate, na maioria das vezes em nome da preservação de um estado de coisas de natureza política e interesseira, dissociada do interesse coletivo, explica, assim, a decadência e o enfraquecimento dos clubes brasileiros. Lembre-se: enquanto, por aqui, se lutava pelo monopólio do associativismo, outros países encontraram soluções para problemas sistêmicos - e, os seus times, isoladamente, para superar suas próprias mazelas.

A mudança cultural, que a Lei da SAF deverá estimular, começa a se sentir e ouvir. Certos clubes, como Cruzeiro e Botafogo, anunciaram a contratação de instituições financeiras para apoiar as suas reestruturações. O Athletico Paranaense indica que quer fazer a primeira abertura de capital da história. Surgiu, enfim, o instrumental jurídico para que se forme um pujante ambiente no Brasil.

O Galo não passou, pelo menos por enquanto, pelo necessário processo transformacional, viabilizado pela Lei da SAF; mas indicou, a quem quiser ver (ou mesmo a quem quiser negar a realidade), que há somente um caminho para manutenção de um time no topo: planejamento, gestão e, sobretudo, acesso a capital.

Por ora, e apesar dos esforços que se praticam sob o ambiente clubístico, o elemento fundamental, para o título, foi um: o capital.

Com efeito, sem o fluxo financeiro viabilizador (independentemente da forma adotada) da contratação de alguns dos melhores jogadores sul-americanos, o título, mais uma vez, não teria chegado. Tais jogadores fizeram a diferença.

Porém, o modelo adotado não é sustentável. E muito menos replicável. Há apenas uma família Menin no Brasil e ela é devota do Atlético, apenas.

A própria família e outros investidores importantes que participaram do êxito do time, assim como também os atleticanos, sabem que, para que o projeto se perenize, os demais elementos do tripé devem se formar; e isso somente ocorrerá sob a estrutura da SAF - que eventualmente viabilizará a possibilidade de todo e qualquer torcedor tornar-se, de fato e de direito, acionista, ou dono, do seu time de coração. 

O sucesso do mecenato poderá, assim, levar a um movimento maior, condutor de uma necessária e benfazeja transformação estrutural.  

Paralelamente, os demais times brasileiros, que enfrentaram, ao longo do ano, um esquadrão que fará história, também devem ter percebido que, seja sob a intensificação do mecenato, seja sob o modelo de uma futura SAF, terão muita, realmente muita dificuldade de enfrentar o Galo, se não encontrarem meio de financiamento de suas próprias atividades e de construção de grandes elencos.

Talvez, por esses motivos, o título do Atlético possa fazer com que se transformem não apenas a forma jurídica das entidades de prática do futebol e o acesso a capitais, mas, em especial, a mentalidade e o sentido de urgência da reformulação estrutural da atividade futebolística no Brasil.

Atualizado em: 24/11/2021 08:27