COLUNAS

  1. Home >
  2. Colunas >
  3. Meio de campo >
  4. Barbosa, Roger e o assédio coletivo

Barbosa, Roger e o assédio coletivo

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Atualizado em 28 de abril de 2026 14:30

Barbosa era um dos melhores goleiros em atividade. Foi titular na Copa de 1950, a primeira organizada no país. A seleção brasileira qualificou-se para o quadrangular final e enfrentou, na última rodada, a seleção uruguaia. A partida ocorreu no Maracanã, à época o maior estádio do planeta.1

Projetava-se público exuberante. Os registros destoam. De todo modo, entre 170 mil e 200 mil pessoas estiveram presentes. Talvez a maior aglomeração da história do futebol mundial.2

Não se concebia o fracasso. Bastava um empate para que o Brasil conquistasse o primeiro título mundial. Festas aconteceram na véspera. Imprensa saudava os campeões. Os jogadores eram tratados como quase heróis. A coletividade subestimou a força uruguaia.

O resultado, todos sabem: após estar na frente, com gol de Friaça, no início do segundo tempo, a seleção brasileira cedeu o empate aos 21' e, logo depois, sofreu a virada, aos 34', diante de uma torcida incrédula.3-4

A derrota ainda representa uma das maiores cicatrizes sociais de um país que luta contra a sua origem e se esforça (ou não) para compreender sua representação multirracial no cenário global.

A derrota não podia ser assumida como um fracasso coletivo. Ou nacional. Alguém devia ser culpabilizado. O peso recaiu sobre o goleiro, que não falhou e não teve culpa em nenhum dos dois gols. Apesar de tudo, ou por tudo, passou a ser o vilão de uma Nação; o responsável pela conversão do sonho em pesadelo.5-6

A vítima – sim, a vítima –, conviveu com o fardo pelo resto de sua vida. Aliás, as imagens que o registram levantando e caminhando para o fundo das redes, em busca da bola, denotam a resignação e uma certa consciência do martírio que se iniciaria a partir daquele momento.

Constitui-se, ali, uma dívida humanística, moral e ética, e também patrimonial, que jamais se pagará (ou apagará).

Roger assumiu a direção técnica do São Paulo em momento inoportuno. O clube que já foi o mais poderoso do país, a referência de todos, inclusive de estrangeiros, perdeu-se em sua arrogância e na incapacidade de compreender as mudanças que moviam o futebol europeu e, de tempos para cá, o brasileiro.

Daquele poderio sobraram, sobretudo, as glórias do passado e a esperança, transformada em ilusão, do torcedor (e outras coisas mais).

Era esse sentimento ilusório que embalava os frequentadores do estádio, os atuantes nas redes sociais, blogueiros profissionais ou não, e parte (apenas parte) da imprensa especializada.

Após um início de ano preocupante, o São Paulo embalou uma sequência improvável de vitórias e a liderança provisória da tabela do Campeonato Brasileiro; improvável conforme afirmação de seu próprio técnico à época, Crespo, para quem o objetivo do ano era atingir 45 pontos e garantir a permanência na Série A.7

Não se esperava, pois, ao menos para quem não participasse do restrito núcleo decisor, que ele seria rifado e, em seu lugar, assumiria Roger.

Mas vale recordar (pois, como cantam as torcidas, nas arquibancadas, recordar é viver): Crespo já havia dirigido o clube em 2021 e não impressionara. Venceu o Campeonato Paulista, é verdade, à conta do abuso físico do time e de uma aposta imprudente da diretoria recém-eleita, que escolhera o campeonato regional como uma espécie de mundial. Os jogadores não resistiram à continuidade do ano. Meses depois, o técnico foi demitido, com a marca de 54% de aproveitamento (24 vitórias, 21 empates e 12 derrotas).8

Seu retorno em 2025 ocorreu menos por convicção e muito mais por falta de opção. Mais: qualquer são-paulino que acompanha o time, torcedor ou jornalista, sabia – como ainda sabe – que aquele espasmo era apenas um espasmo, pois o clube não tinha condições estruturais e econômicas de competir com o poderio de determinados adversários estruturados. Assim como os mesmos adversários, em passado não muito distante, também não competiam com o poderoso São Paulo.

A torcida recebeu muito mal a troca. Blogueiros atiçaram a indignação. Jornalistas, com raras exceções, seguiram o cortejo e, a cada vacilada do time, as apostas sobre a resistência eram lançadas e especuladas.

Roger não teve tempo para se apresentar. Já chegou tendo que se defender de um suposto fracasso anunciado. E esse sentimento atingiu níveis de crueldade, de maldade, de desumanidade.9

Deixou de ser sobre futebol ou sobre torcer, e passou a ser sobre a mesma necessidade de décadas atrás, de escolha de um responsável pelas mazelas clubísticas que duram mais de uma década.

Assistimos, pois, a uma espécie de bullying coletivo e público, transmitido pela televisão e reproduzido em outras mídias – inclusive quando os resultados projetados não se confirmam por erros incontestáveis do goleiro (frango em pênalti), da defesa e dos atacantes que perderam gols feitos em distintas partidas, além de pênaltis.

Mais: nesse coliseu, conforme expressão do jornalista Menon, ninguém (ou quase ninguém) se lembrou de indagar sobre as opiniões de jogadores, como as de Luciano e Calleri, que têm demonstrado, ao que tudo indica, apoio a Roger – Luciano, ao marcar seu gol contra o Mirassol, fez questão de dirigir-se a ele e, de algum modo, em gestos, afiançar seu trabalho.

Pouca importam, as opiniões ou os gestos. Vale a convicção, que mascara o preconceito. Mesmo que as vitórias comecem a aparecer.

Mas elas não virão na intensidade e qualidade que o torcedor projeta – saudoso das eras comandadas por Raí ou Rogério Ceni –, pois aqueles times refletiam estruturas clubísticas e níveis de confiabilidade que se dissiparam.

A bem da verdade, levando em conta a situação financeira, econômica e política do clube, os jogadores fazem muito mais do que se imaginaria – vide a opinião de Crespo. E como alguém precisa pagar o preço, pelos erros acumulados dos dirigentes, Roger – coincidentemente, ou não – foi escolhido como vítima. Pela sua origem, pelo que pensa e pelo que representa. De uma forma que nenhum antecessor nem de perto esteve sujeito. Trata-se de um dos mais vergonhosos episódios da história do São Paulo.

__________

1 Disponível aqui. Acesso em 28.04.2026.

2 Disponível aqui. Acesso em 28.04.2026.

3 Disponível aqui. Acesso em 28.04.2026.

4 Disponível aqui. Acesso em 28.04.2026.

5 Disponível aqui. Acesso em 28.04.2026.

6 Disponível aqui. Acesso em 28.04.2026.

7 Disponível aqui. Acesso em 28.04.2026.

8 Disponível aqui. Acesso em 28.04.2026.

9 Disponível aqui. Acesso em 28.04.2026.