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Utopia realista para um país cansado: Proposta de um pacto intergeracional

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Atualizado em 23 de fevereiro de 2026 14:56

Nesse artigo me permiti um “aparte temático” mais pessoal. Espero que meus leitores o aceitem. Penso nesse momento tão difícil.

Há momentos em que uma sociedade perde, ao mesmo tempo, o prumo e o mapa. O prumo é aquilo que nos permite dizer - sem grandiloquência e sem cinismo - que certas coisas são melhores do que outras: a verdade é preferível à mentira, a dignidade é preferível ao desprezo, o direito é preferível ao arbítrio, a vida compartilhada é preferível ao linchamento moral. O mapa é aquilo que nos permite imaginar o caminho entre o que somos e o que poderíamos ser.

O sentimento de nosso tempo - e digo isso como impressão existencial antes de qualquer tese - é o de que o prumo foi ridicularizado e o mapa foi rasgado. No lugar do prumo, instalou-se uma espécie de relativismo oportunista: não o pluralismo legítimo e fecundo de uma democracia, mas uma equivalência moral de conveniência, em que tudo pode ser justificado se servir ao “nosso lado”. No lugar do mapa, instalou-se uma sucessão de urgências: crises que se atropelam, indignações que se substituem, pânicos, como se o presente tivesse sequestrado o futuro.

Escrevo a partir de uma memória geracional. Sou de uma geração dos anos 1960. Vivemos sob a ditadura militar pós-1964, e ainda assim tínhamos - paradoxalmente - uma expectativa positiva sobre o futuro do país e do mundo. Havia, no ar, a sensação de que o Brasil estava “por acontecer”, como se o destino fosse uma obra em construção, e nós fôssemos ao mesmo tempo personagens e operários. É claro: esse otimismo tinha ingenuidades. Mas, tinha também a convicção de que o amanhã poderia ser melhor.

Rememoro a nostalgia da bossa nova - elegância sem arrogância, uma contenção que não era frieza, uma “sofisticação” que não precisava do escândalo musical. Rememoro Brasília, símbolo de uma tentativa civilizatória (irrealizada, é verdade!): a cidade erguida no nada, a arquitetura que tentava materializar um futuro (sobretudo, Oscar Niemeyer), a crença de que o planejamento (lembro aqui, Celso Furtado na economia) poderia ser expressão de grandeza pública e não apenas de tecnocracia.

Depois atravessamos o “milagre brasileiro”, esse paradoxo histórico em que números crescem enquanto liberdades minguam. Atravessamos a radicalidade desesperada e ingênua da luta armada de grupos de esquerda, que nasceu de uma compressão política e moral e pagou, como quase sempre, um preço humano alto. No final dos anos 70, tudo se tornou turvo: a economia, a política, o sentido de destino coletivo. Mas aquela geração, com seus muitos equívocos e suas virtudes, ajudou a abrir espaço para o retorno da democracia, para o aprendizado institucional, para o controle da inflação e para uma Constituição cidadã de 1988, que prometia direitos sociais e individuais como a nova gramática do Estado de Direito.

Agora tudo parece obscuro. O diagnóstico, claro, é pesado: relativismo de valores, riscos à democracia ocidental, riscos às instituições de Estado, notadamente ao Judiciário, erosão da proteção aos direitos sociais e individuais, desconfiança como método, hostilidade a mediadores institucionais, e uma degradação geral da esfera pública. Há a sensação de que caminhamos para trás sem nos darmos conta.

Mas é justamente aqui que uma palavra, tão caricaturada no século XX, precisa ser resgatada: utopia. Não a utopia do delírio, nem a engenharia autoritária da felicidade. Não a utopia que substitui instituições por promessas, mas, isso sim, a utopia como imaginação criativa e crítica que ilumine as sociedades no sentido do bem, dos valores democráticos, da Justiça social e do desenvolvimento sustentável. A utopia para provar que “assim é” não significa “assim deve ser”. Ela devolve ao futuro a condição de tarefa.

É a hora de construirmos uma nova utopia criativa, apesar do diagnóstico pessimista e por causa dele.

O relativismo que nos ameaça hoje não é uma conquista intelectual da modernidade - a consciência de que culturas divergem, valores se pluralizam, e a verdade humana tem limites. Esse relativismo, quando honesto, é uma vacina contra dogmatismos. O que nos ameaça é outra coisa: um relativismo instrumental, em que a verdade vira ferramenta descartável, a moral vira marketing, e a ética pública vira jogo de torcida - não se discute sobre o que é justo, mas apenas sobre o que é útil para derrotar o adversário.

Uma democracia pode suportar divergências, em verdade ela vive delas. O que ela não suporta é a transformação do desacordo em guerra moral permanente, a política perde o estatuto de arte do possível e vira teatro do ressentimento. A esfera pública se converte, então, em tribunal sem processo, em praça sem regras.

Esse estado não nasce do nada. Ele nasce de frustrações reais: desigualdade persistente, insegurança, mobilidade social frustrada, serviços públicos insuficientes, corrupção repetida, burocracias opacas, elites que parecem viver num outro país. Mas o fato de ter causas reais não o torna menos perigoso. A frustração, quando não encontra vias institucionais de solução, encontra atalhos emocionais. E atalhos emocionais, em política, costumam terminar em autoritarismo ou em cinismo, as duas formas clássicas de desistência.

Permito-me citar, o Thomas More de minha juventude, na sua Utopia (de 1516) que não foi “manual de governo”, mas um contraste que denuncia injustiças naturalizadas. Também lembro Francis Bacon que imaginou a Nova Atlântida (em 1627) como utopia do conhecimento, vejam bem: a ciência organizada para o bem público, institucionalizada, submetida a uma ideia de finalidade civilizatória. A partir dessas obras percebemos que a intuição de fundo permanece: sociedades precisam de imaginação!

É sedutor tratar democracia como “procedimento”: eleições periódicas, alternância de poder, separação de poderes, garantias constitucionais. Tudo isso é essencial. Todavia, não basta. Democracia é também uma cultura: hábitos de convivência sob desacordo, respeito a regras, mesmo quando elas nos desfavorecem, tolerância ao tempo lento do devido processo, capacidade de reconhecer legitimidade no outro sem abdicar de discordar, não é?

O reformador educacional John Dewey1 (1859-1952) batizou, com simplicidade o que hoje parece subversivo: democracia como forma de vida. Não há democracia saudável onde a educação produz apenas técnicos, ela precisa produzir cidadãos. E cidadão não é quem repete slogans, mas quem aprende a pensar com responsabilidade pública.

Por outro caminho. J. Habermas2 (1929-) insistiu no valor democrático da esfera pública e da deliberação: a legitimidade política não pode ser reduzida a força, carisma ou vitória numérica. Ela depende de procedimentos, publicidade, argumentação, reciprocidade. Ela pode ainda ser lenta, vã, imperfeita, cansativa, exigente e contaminada.

O risco contemporâneo é que a democracia seja rebaixada a plebiscito emocional permanente. Nesse ambiente, as instituições passam a ser vistas como entraves: tribunais como “obstáculo”, parlamentos como “atraso”, imprensa como “inimiga”, universidade, burocracia como “conspiração”. E quando as instituições viram inimigas, surge a tentação do atalho: “alguém” deve encarnar a vontade coletiva sem mediação. Risco e tanto! A história é clara: atalhos institucionais para o arbítrio.

A Constituição de 1988 representou sim um salto moral: o Estado se comprometeu com uma cidadania ampliada, que inclui direitos sociais e individuais. Esse pacto constitucional buscou reconciliar liberdade e justiça.

Houve, portanto, um arco de esperança política, cultural e de desenvolvimento, passando da sombra autoritária para a promessa institucional da democracia constitucional. O drama atual é sentir que esse arco se quebrou.

Talvez o que se quebrou não foi a democracia em si - e sim a confiança de que a democracia, por si, produziria justiça. A democracia revelou problemas que estavam presentes. Ela também revelou um limite cultural: a dificuldade de sustentar pactos mínimos num país onde elites frequentemente confundem privilégio com mérito e onde setores populares são alternadamente idealizados e desprezados.

Essa revelação produz desencanto, diga-se. Afirmar que “tudo parece obscuro” não é uma figura de linguagem, mas uma sensação política e moral. A cidadania passa a ser apresentada como custo. Instituições devem ser criticadas, auditadas, reformadas. Contudo, quando a confiança se rompe, o espaço é ocupado por narrativas conspiratórias e por salvadores.

Um outro sintoma é a corrosão da verdade pública. É aqui que o relativismo oportunista se torna devastador. Porque democracia é, em grande parte, uma tecnologia de convivência baseada em palavras: leis, decisões, debates, promessas, justificativas. Quando palavras perdem o vínculo com fatos, a democracia perde seu instrumento. A mentira deixa de ser desvio e vira método.

Essa crise da verdade não é apenas moral; é estrutural. Ela se conecta com a economia da atenção e com formas tecnológicas de amplificação de emoções - tema a que voltarei.

O filósofo francês Paul Ricœur3 (1913-2005), ao refletir sobre ideologia e utopia, sugere uma tensão fértil: a ideologia dá coesão e identidade. A utopia abre o possível e critica a ordem vigente. O problema do nosso tempo é que a ideologia virou tribalismo e a utopia virou marketing.

Karl Mannheim4 (1893-1947) que trata da relação entre ideologia e utopia, observou que a utopia pode ser força histórica transformadora quando rompe a complacência com o presente! Pode se tornar perigosa quando se divorcia da realidade e legitima violência em nome de um futuro absoluto.5 Esse autor austro-húngaro, fugitivo do nazismo, me influenciou muito nos meus estudos de filosofia e me ensinou que utopias sem freios podem produzir pesadelos – eu estava naquele tempo esperando a volta dos anistiados pelo regime militar.

Habermas, já citado aqui, oferece uma defesa exigente da razão pública e do procedimento democrático: a legitimidade política exige justificativas que possam ser aceitas, em princípio, por cidadãos livres e iguais. Isso não elimina desigualdades reais, mas cria um padrão para criticá-las.

A crise atual da esfera pública é, em parte, a crise da formação democrática. Não aprendemos a viver num ambiente informacional em que a mentira circula mais rápido do que a correção. A democracia, para existir, precisa de um “ecossistema” de verdade: jornalismo responsável, ciência pública, educação crítica, transparência institucional, cultura de correção.

Se o relativismo corrói critérios, a desigualdade corrói vínculos. A democracia ocidental - e a brasileira em particular - está ameaçada não apenas por discursos autoritários, mas por uma realidade material que produz humilhação. Quando a desigualdade é extrema, a liberdade vira privilégio. E quando a liberdade vira privilégio, a democracia se torna uma farsa.

Aqui, vale pontuar a ideia de Rawls como se bússola fosse: a de uma “utopia realista”, isto é, princípios de justiça capazes de orientar instituições em sociedades imperfeitas, sem exigir perfeição humana. O essencial, aqui, é o núcleo: liberdades fundamentais iguais e proteção contra desigualdades que não possam ser justificadas por benefício aos menos favorecidos. Isso impede que desigualdade seja naturalizada como “destino”.

Se queremos uma utopia criativa que ilumine a sociedade, ela precisa ser social não como retórica, mas como desenho institucional: educação de qualidade como eixo de cidadania, saúde como proteção de dignidade, segurança pública como direito e não como guerra da polícia, trabalho decente como condição de autonomia, proteção social como rede que impede que crises individuais virem destinos coletivos. Uma utopia realista não promete eliminar conflitos, promete reduzir humilhações desnecessárias. E isso já é imenso.

Há um componente do presente que minha geração, nos anos 60, não poderia prever em sua forma atual: a tecnologia como “ambiente político”. Não me refiro apenas à internet ou à IA como ferramentas - refiro-me à reorganização da atenção, do debate e do poder.

Em magnífico livro, Hans Jonas6 (1903-1993) formulou um princípio que hoje parece inevitável: o poder tecnológico ampliou-se de tal modo que a ética precisa incorporar a responsabilidade pelo futuro e não somente pelo presente como era a base anterior do tema. Não é mais suficiente perguntar “podemos?”; é preciso perguntar “devemos? A sustentabilidade, nesse sentido, não é agenda setorial; é exigência moral.

Algoritmos podem amplificar ódio, podem monetizar indignação e podem transformar política em espetáculo. E há, além disso, uma transformação ecológica do político, como insiste o francês Bruno Latour7 (1947-2022), quem contemporaneamente com o professor da Universidade da Califórnia - Berkeley Manuel Castells (1942-) refletiu sobre como a sociedade atualmente é influenciada pelo amálgama com a tecnologia e a ciência: a “Terra” entrou na política, e não como tema, mas como condição. Crises climáticas, eventos extremos, deslocamentos humanos, pressões sobre alimentos e energia: tudo isso atravessa instituições e pode desestabilizar democracias, porque democracias precisam de previsibilidade mínima para negociar pactos.

A IA intensifica esse quadro. Ela pode ser instrumento de produtividade, de ciência, de educação, mas também pode ser instrumento de manipulação, de vigilância e de desinformação em escala.

Uma utopia criativa precisa encarar a tecnologia sem moralismo e sem submissão. Ela deve propor governança, transparência algorítmica em temas públicos, regulação que preserve inovação e proteja direitos, alfabetização midiática e científica desde cedo, proteção de dados, responsabilização por campanhas de manipulação (que não é censura),

Nenhuma utopia contemporânea pode ignorar o fato mais simples e mais duro: o planeta impõe limites. A modernidade foi, em parte, a história de uma expansão: mais energia, mais produção, mais mobilidade, mais consumo. Mas essa expansão encontrou a conta.

A “ecologia social”, ideia genial do defensor da democracia direta (o comunalismo) Murray Bookchin8 (1921-2006), insistiu que crises ecológicas não são apenas resultado de técnicas, mas são resultado de hierarquias sociais e formas de dominação. Uma sociedade que normaliza desigualdade tende a normalizar a devastação, pois tudo vira “recurso necessário”, inclusive pessoas e natureza.

A utopia criativa, portanto, precisa ser também uma utopia do limite entendido como civilização, não como privação. E, sobretudo, exige justiça: transições ecológicas injustas produzem reação e populismo. Sustentabilidade sem justiça social vira moralismo elitista, Justiça social sem sustentabilidade vira promessa impossível.

O século XX tentou nos ensinar que a esperança é incrivelmente “perigosa”. Na verdade, ele nos ensinou que esperança sem limites pode virar fanatismo. Mas não nos autorizou a desistir da esperança. Aqui rememoro o “marxista heterodoxo” Ernst Bloch9 (1885-1977), influência de Walter Benjamin e Theodor Adorno, quem formulou a ideia fértil da utopia concreta e o princípio da esperança. Concreta não porque seja pequena, mas porque se ancora em possibilidades reais, ainda que não realizadas.

O que a esperança concreta faz é recusar duas chantagens: a do fatalismo (“não há alternativa”) e a do delírio (“basta destruir tudo e o bem nascerá”). Ela diz: há alternativa!

Essa visão dialoga com a tensão da utopia como força crítica que descola o presente e com o já citado Karl Mannheim: utopia como força histórica, desde que não se converta em absolutização violenta do futuro. A utopia criativa que precisamos hoje é, portanto, deliberadamente modesta em método e ambiciosa em finalidade porque respeita limites e procedimentos e ambiciosa porque não renuncia ao bem comum.

Há um núcleo de pensamento católico - filosófico e social - que pode também iluminar a reconstrução de uma utopia criativa sem cair em confessionalismo.

Jacques Maritain10 (1882-1973), quem estudei na antiga biblioteca da PUC-SP, ao defender um humanismo integral, recoloca a pessoa como fim e não como meio: democracia, direitos e Estado devem servir à dignidade humana, não a capturar. Essa ênfase é especialmente relevante num tempo em que o indivíduo é reduzido a consumidor de indignação e a perfil algorítmico.

Há que se insistir num ponto difícil: liberdade e solidariedade não são opostas. São condições recíprocas. Uma sociedade em que cada um se salva sozinho não é livre - é indiferente. Uma sociedade em que o coletivo decide tudo não é solidária - é tutelar.

Aqui, o jesuíta geólogo-paleontólogo Teilhard de Chardin11 (1881-1955), autor da teologia evolutiva, muito citado pelo saudoso André Franco Montoro em suas palestras quando era Senador da República, oferece um horizonte peculiar: a visão de convergência humana que, mesmo quando contestável em seus excessos, inspira uma esperança civilizatória: o futuro como tarefa de integração ética e não como soma de interesses. Num país como o Brasil, em que desigualdade muitas vezes se torna paisagem, esse lembrete é incômodo – e, por isso, necessário.

O que esse conjunto oferece é, sobretudo, um antídoto contra o relativismo porque reafirma que há valores que não podem ser reduzidos a preferências de ocasião.

Se o diagnóstico é pessimista, a ação precisa ser positiva, não como “otimismo”, mas como construção. Abaixo, proponho um esboço - não de “salvação”, mas de pacto intergeracional. Algo que minha geração pode oferecer à nova geração não como pregação, mas como “aliança”. Vejamos:

  1. Transparência radical em temas públicos: Dados abertos, auditorias independentes, rastreabilidade de decisões administrativas;
  2. Educação para evidência: Alfabetização científica e midiática desde cedo; capacidade de distinguir fato, opinião e propaganda;
  3. Responsabilização por desinformação organizada: Não censura do cidadão, mas limites claros para operações coordenadas de manipulação;
  4. Reforma institucional com garantias: Corrigir falhas, reduzir opacidade, aprimorar controles, mas manter o núcleo do devido processo e dos freios e contrapesos;
  5. Cultura de serviço público: Reconstruir mérito, ética e sentido de missão; combater aparelhamentos e privatizações disfarçadas do Estado;
  6. Capacidades como política de Estado: Educação pública exigente e inclusiva; saúde com eficiência e dignidade; proteção social inteligente; combate à fome e à miséria como prioridade moral;
  7. Economia da dignidade: Crescimento precisa se traduzir em autonomia real. Trabalho decente, mobilidade social, segurança cotidiana: sem isso, a democracia vira promessa vazia;
  8. Transição ecológica justa: Energia mais limpa e segura; cidades mais habitáveis; agricultura sustentável; resiliência a eventos extremos. O futuro é obrigação ética;
  9. Ecologia social: Enfrentar hierarquias que produzem devastação. Sustentabilidade sem justiça é instável; justiça sem sustentabilidade é impossível;
  10. Regulação democrática da técnica: Transparência algorítmica em temas públicos; proteção de dados; incentivos à inovação orientada ao bem comum; limites ao uso político de tecnologias de manipulação. Ferramentas devem ser conviviais, não dominadoras;
  11. Reforço de espaços de participação: Conselhos, orçamento participativo, fóruns locais, deliberação comunitária;
  12. Política como convivência: reduzir a guerra moral, reabilitar a ideia de adversário legítimo. Aqui, a democracia como forma de vida de Dewey torna-se programa e não apenas teoria;
  13. Arte e educação como infraestrutura moral: Não há democracia sólida sem imaginação cívica. Uma sociedade que não cria beleza tende a criar ressentimento. E uma sociedade que só cria ressentimento se torna ingovernável.

O que quero aqui propor parte de um princípio simples: a democracia precisa ser defendida e reconstruída ao mesmo tempo. Defendida contra o atalho autoritário. Reconstruída contra suas próprias insuficiências.

O que parece nos faltar hoje é aquilo que, paradoxalmente, tínhamos sob ditadura: uma intuição de futuro. Não porque o presente fosse melhor - não era -, mas porque acreditávamos que o país poderia ser maior do que o regime de então. Agora, em democracia, parece que muitos acreditam que o país é menor do que seus conflitos. Essa é a rendição que precisamos evitar.

Isso exige pacto intergeracional. A nova geração tem linguagem, técnica, urgência, coragem de romper tabus. A minha geração tem memória, advertência, experiência do preço do autoritarismo e do valor do devido processo. Separadas, essas forças se anulam: a juventude pode cair no delírio, a maturidade pode cair (se já não caiu!) no cinismo. Juntas, podem construir algo raro: esperança concreta.

Ernst Bloch chamaria isso de princípio esperança. Eu chamaria, com menos teoria e mais vida, de recusa à rendição. Porque, no fim, a democracia não é apenas um arranjo institucional. É uma decisão cotidiana de não transformar o outro em inimigo e de não transformar o futuro em ruína antecipada.

Se tudo parece obscuro, talvez seja porque estamos no intervalo: o fim de uma narrativa e o começo de outra, para usar a linguagem de Susan Sontag que tanto amo. E esse começo - ainda que tímido - pede uma coisa simples e difícil: que transformemos um diagnóstico pessimista numa ação positiva. Não por ingenuidade. Por dever.

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1 DEWEY, John. Democracia e Educação: Capítulos Essenciais. Seleção e comentários de Marcus Vinicius da Cunha. São Paulo: Ática, 2008.

2 MANNHEIM, Karl. Ideologia e utopia. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.

3 RICOEUR, Paul. A ideologia e a utopia. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

4 MANNHEIM, Karl. Ideologia e utopia. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.

5 HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia: entre facticidade e validade. Tradução de Flávio Beno Siebeneichler. 2. ed., reimpr. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2011. 2 v.

6 JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto; PUC-Rio, 2006.

7  LATOUR, Bruno. Onde aterrar? Como se orientar politicamente no Antropoceno. São Paulo: Bazar do Tempo, 2020.

8 BOOKCHIN, Murray. The ecology of freedom: the emergence and dissolution of hierarchy. 3. ed. Oakland: AK Press, 2005.

9 BLOCH, Ernst. O princípio esperança. Rio de Janeiro: EdUERJ; Contraponto, 2005–2006. 3 v.

10 MARITAIN, Jacques. O homem e o Estado. Tradução de Alceu Amoroso Lima. 4. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1966.

11 TEILHARD DE CHARDIN, Pierre. O fenômeno humano. São Paulo: Cultrix, 2001.