quinta-feira, 16 de setembro de 2021

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Política, Direito & Economia NA REAL

Enfoque político, jurídico e econômico.

Francisco Petros
segunda-feira, 13 de setembro de 2021

A hora do "impeachment preventivo"

A hora não é de falsa pacificação ou de afagos de lado a lado com o atual presidente Pela voz de Próspero, na sua obra prima "A Tempestade", William Shakespeare ensina que "somos feitos da mesma substância de nossos sonhos". Ao terminar de ler a "Declaração à Nação" de 9/9/2021 do capitão reformado que ocupa a presidência da República, fiquei com a sensação de que nós brasileiros somos forjados pelos nossos pesadelos. Próspero, principal personagem de "A Tempestade", busca restaurar o seu poder. No Brasil, verificamos que o poder do presidente atual pode ser mantido às custas dos dramas e pesadelos do povo brasileiro. É aceitável? Está claro que jamais seria razoável esperar que o ex-capitão pudesse proferir um "Discurso de Gettysburg" endereçado em junho de 1863 por Lincoln ao dividido povo americano, então engolfado na guerra civil. Pela pena de Michel Temer, o primeiro mandatário do Brasil conseguiu produzir uma "Declaração" que, ao contrário do que imagina grande parte da sociedade brasileira, é um completo desrespeito às Instituições da República. Seria risível, não fosse trágica. A cadeira da presidência da República não é banco de escola no qual se assentam meninos e meninas para aprender sobre o mundo e para receberem as lições que, conforme o trato que recebem, constroem a personalidade de cada um. Maus alunos podem ser admoestados e, até mesmo, punidos, para que se possa corrigir os erros que tenham cometido. A presidência da República é lugar de exemplo pessoal e institucional, de comprometimento com o progresso da Nação, com a manutenção de sua estabilidade, no sentido macro do termo. Não é lugar para penitências agostinianas de erros cometidos no curso do mandato presidencial. Não se pode fazer "rachadinhas" com os valores da Nação. Erros políticos e de gestão causam custos políticos a quem os comete e repercussão negativa aos cidadãos que sofrem os seus efeitos econômicos e sociais. Não cabe aceitação fácil, sobremaneira quando se ofende aos princípios mais básicos do ser humano, a sua dignidade e a sua condição social e econômica. No Brasil, que caminha para se consolidar como a pior dentre as nações do mundo no tratamento e no combate a maior pandemia em um século (em breve com 600 mil mortos), a "Declaração" presidencial, em face do papel subdoloso que o presidente exerceu nos palanques do dia Sete de Setembro de 2021, é um "atentado adicional" às Instituições porquanto tenta prover explicações simples para os pilares complexos da República. Ademais, a "Declaração" parece um termo de compromisso de colegial que, diante de sua suspensão das aulas por suas próprias falhas, tem de assinar junto com um responsável (Temer) um pedaço de papel. Não pode haver paciência suficiente para esta anedota de péssimo gosto. A hora é grave e exigiria ação política equivalente à tal gravidade para que, assim, possamos trilhar um caminho que seja favorável aos brasileiros. Todavia, as Instituições parecem paralisadas diante de um ex-capitão que por quase três anos atordoa o cotidiano de cada cidadão, deseducando-o sobre os temas cívicos da forma mais ignominiosa que se possa imaginar. Faltam-nos nesta triste fase, lideranças que se comprometam com os interesses mais profundos do Brasil. A hora não é de falsa pacificação ou de afagos de lado a lado com o atual presidente. O momento exige que se realize, isso sim, um "impeachment preventivo". Aqui é utilizada a analogia com termo "ataque preventivo" (preemptive strike) que se justifica pelo legítimo direito de atacar o inimigo frente ao iminente risco que ele representa em uma guerra ou batalha. Vejamos. O "impeachment preventivo" deve ser imediatamente adotado em função: (a) Da relevância do risco que o atual presidente representa em termos institucionais. Até as próximas eleições, além dos ataques à República, o ex capitão poderá causar enorme risco ao próprio pleito eleitoral; (b) Da cristalina possibilidade de que eventos como os do último Sete de Setembro possam se repetir e se converterem em "movimentos", como a paralisação que os caminhoneiros tentaram realizar nos últimos dias; (c) Do fato de que nenhum freio ou contrapeso dos outros poderes da República funciona diante da personalidade paranoica e psicótica do atual presidente. Não há a alternativa da contenção; (d) Da existência de crime de responsabilidade ocorrido, seja diante da condução da pandemia, seja nos diversos eventos atentatórios contra às Instituições do país e à democracia; (e) Dos poderes que um presidente detém, enquanto Comandante Supremo das Forças Armadas, para exercer tais atentados contra as Instituições e à democracia; (f) Das recentes participações de indivíduos e entidades, brasileiras e estrangeiras, na consecução de atos e fake news em favor do projeto reacionário do atual presidente; (g) Finalmente, porque os riscos, além de altos, são crescentes. Como se pode facilmente verificar temos presentes todos os ingredientes para que se realize um processo de impeachment. É preciso excluir o ex capitão do processo político porque ele representa um projeto alinhado com a antipolítica. Não resta dúvida de que, a despeito dos elementos políticos-jurídicos existentes na atual conjuntura, é preciso que a sociedade se mobilize vez que a classe política parece afeita à defesa de seus próprios interesses até o momento. Refiro-me especialmente às lideranças das casas legislativas que emitiram sinais anódinos e pouco sensíveis à defesa dos interesses republicanos do país. Não pode haver paz quando se vive no afrontamento aos princípios mais básicos da democracia e no desrespeito mais vil à Constituição do país. A ideia de pacificação não é apenas falsa. É verdadeiramente tola frente às iniciativas deste personagem nefasto da história. Nossos sonhos se esvaíram. Precisamos voltar a tê-los. Por enquanto, tudo é pesadelo nesta tempestade sem fim.
quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Os novos voluntários da pátria

O novo Messias pretende escrever o futuro, a partir de sua estranha revolução sem objetivos claros. O Dia da Independência de 2021 se constituiu em marco histórico relevante para o país e para a combalida democracia brasileira. A saliência dos discursos do presidente da República e as ameaças desferidas a partir de seu palanque populista não têm equivalente resposta das Instituições do Estado e, muito menos, da classe política do país. A marcha do ex-capitão reformado do Exército Brasileiro continua consistente com o seu discurso político, o qual foi docemente aceito nas eleições de 2018 por uma sociedade dividida entre o petismo e o antipetismo. Assim, o ex-capitão assumiu o Planalto, sem que escrutínio rigoroso do político que, por quase trinta anos, verbalizou contra as instituições, senão contra a própria civilização. Ou não foi? Não há, em verdade, surpresa alguma em relação ao personagem que atenta contra a estabilidade institucional do Brasil. A despeito da identidade entre a pregação do ex-capitão e a sua ação golpista concreta, restam dúvidas imensas do que significa esta estranha "categoria política", o bolsonarismo. Inicialmente, é preciso reconhecer que, de fato, existe o bolsonarismo, no sentido de que dele decorre concreta e organizada ação política - nada tem sido feito ao acaso da parte desta administração para ter o Poder. Do bolsonarismo sabemos de suas causas e motivações. Os meios que utiliza são voltados para o golpismo manifestado de diferentes formas e modos. Vejamos. No que tange às causas motivadoras do bolsonarismo, verifica-se que há múltiplas, graves e multifacetadas variáveis a motivar parcela sólida do povo brasileiro na direção de seu líder supremo. Algumas destas causas nos chamam a atenção. Em primeiro lugar vê-se que no mundo e, em especial em países subdesenvolvidos como o Brasil, a precarização do trabalho e da proteção social causam a percepção de exclusão permanente do processo de avanço capitalista, sem oportunidades minimamente inclusivas do ponto de vista econômico e social. Pelos nossos lados,este processo está desgovernado pela inexistência de um projeto de nação com uma agenda política e generalizadamente aceita. Ademais, seria preciso incluir o desenvolvimento tecnológico e humano sustentável como prioritário para que a economia, notadamente a indústria, possa ser competitiva frente ao teatro internacional. Também temos de levar em consideração que o cadente investimento público e privado, dada a ausência de um plano fiscal e monetário que suporte e não inviabilize o desenvolvimento (não apenas o crescimento do PIB), contribui para a redução substancial do capital que dá tração à economia em favor da acumulação de riqueza financeira. Assim, vê-se os voláteis mercados financeiro e de capitais indo e vindo aos sabores das expectativas de curto prazo, enquanto a denominada economia real (capital e trabalho) tropeça no atraso e na baixa produtividade. Formam-se, assim, sólidas barreiras contra a possibilidade de superação do subdesenvolvimento e da exclusão social. É neste contexto de atraso que se perpetua que o bolsonarismo introduziu uma espécie daninha de cultura que trabalha diuturnamente na transcendente ideia de que há uma série de "inimigos internos" que precisam ser derrotados para que os grilhões do atraso sejam quebrados e, com efeito, o Brasil volte a ser a grande nação imaginada nos quartéis de outrora. Esta "atividade ideológica" constante, via fake news, elege, conforme o caso, personagens que incorporam a essência do inimigo interno: o negro (que desfavorece a "sociedade una"), o homossexual (frente ao comportamento sexual "natural"), o STF (como impedidor da criação da "nova ordem populista"), a classe política (enquanto obstáculo à relação direta com o povo), os cientistas (frente a uma "ordem natural" livre de intervenções humanas), o comunismo (como perspectiva desejada pela "esquerda"), a ecologia (como barreira ao avanço econômico), os índios (que precisam ser integrados à sociedade e à economia) e  assim vai. Neste modelo, a superestrutura "cultural" (ideológica) acaba conquistando parcela da população, senão majoritária pelo menos numerosa, que passa a interpretar os fatos sociais, políticos e econômicos por meio de um monóculo irreal que explica o todo da exclusão inerente à realidade do subdesenvolvimento do Brasil. Aqui reside importante e inédito diferencial da situação atual em relação a outros momentos da história do país. Verifica-se evidente conservadorismo no centro do imaginário do bolsonarismo. Não à toa, o pentecostalismo evangélico e certas bordas conservadoras do catolicismo aderiram com fé no projeto do novo "messias" da política brasileira. Ocorre que, ao contrário da história brasileira desde a fundação da República, quando ocorreu a "modernização conservadora" por meio de um "pacto horizontal" do povo com os interesses da elite, o bolsonarismo faz um "pacto vertical" do "messias" com parte atuante do povo, no qual as Instituições Republicanas, ao invés de garantirem as condições objetivas do sistema político, se tornaram "barreiras" à implementação do "mundo novo" prometido pelo líder. Na essência, o projeto político do ex-capitão termina por aqui no que tange às suas estruturas frente ao subcapitalismo brasileiro. No que se refere à ação política do presidente, seu sucesso é evidente e perigosíssimo. Além de ter ganhado as eleições de forma espetacular (soube incorporar o antipetismo ao seu projeto), o primeiro mandatário do país, fez um pacto (ainda incompleto) com os fardados de toda a espécie da Federação, ocupou posições-chaves da burocracia federal com os militares das Forças Armadas, controla completamente as fontes de informação do Estado (e.g ABIN, Polícia Federal), calou a PGR, indicou com sucesso um membro da Suprema Corte com a aprovação do Senado Federal, montou competente e barulhenta rede de notícias (inclusas as falsas), capturou parcela controlável da classe política ("centrão") que impossibilita seu impeachment, silenciou parcela majoritária do empresariado e da elite da alta finança do país, atraiu as minorias mais atrasadas e reacionárias e moldou para si um personagem "amigo do povo", de costumes e modos grosseiros que atendem à figuração necessária para deixar a todos boquiabertos diante do espetáculo. O novo Messias pretende escrever o futuro, a partir de sua estranha revolução sem objetivos claros, mas que não se acanha em inquietar o presente e reescrever o passado (no qual pontifica a ideia de quanto foi bom o "regime militar"). Interessante salientar que, paradoxalmente, o bolsonarismo produz a paralisia da acumulação capitalista sob a liderança de figurantes ditos liberais, liderados pela patética figura do Ministro Paulo Guedes, quem não ruboresce frente a vergonha de si mesmo e deste (des)governo. O evento do último Sete de Setembro é representação clara que o projeto do bolsonarismo deu mais um sólido passo na direção da incerteza. O golpe é uma possibilidade e, independentemente da probabilidade de sucesso, precisa ser contido por uma ação política equivalente àquela encabeçada pelo atual presidente. Discursos de gabinete não seduzem o povo porque, diante da exclusão e do empobrecimento, as vozes messiânicas ecoam muito mais. Os novos Voluntários da Pátria, marcham sobre as ruínas do país, alistados por um populista reacionário, na direção do desconhecido. A crise institucional se aprofunda a cada dia. As reações são modestas frente à força da multidão na avenida, perdida, mas presente.  
segunda-feira, 12 de julho de 2021

A crise é permanente e crescente

Está claro que a crise institucional brasileira se tornou aberta e observável, até mesmo, aos olhos dos mais desavisados. Não bastasse o mal-estar social com o curso da pandemia, em seus aspectos incertos e nos riscos criados por um governo desastroso, agora temos a junção emblemática da crise econômica, a tragédia social e a pandemia política. Não estamos diante de uma conjuntura desfavorável, mas da realidade profunda que permite que se especule abertamente sobre um possível "golpe", sem que a defesa social tenha equivalência com a enunciação desabrida do provável fato. Vale notar que estamos em um estado permanente de crise há pelo menos oito anos e permanecemos resignados a vivê-lo sem iniciativas que possam cessar este cotidiano. As instituições do Estado e do governo hoje estão tomadas por interesses limitados a exercer um papel contido, fruto daquilo que Hanna Arendt chamava do divórcio entre o poder e a política. De fato, à autoridade falta o bom exemplo, a cidadania, a liturgia. Ao poder falta o interesse público o qual foi tomado, por dentro do Estado, pelo interesse privado mais direto, aqueles dos "representantes do povo". Rapidamente estamos a mitigar continuamente a funcionalidade da política pela perda absoluta de confiança entre a sociedade e os governantes (ou a própria governança). A delegação inerente ao processo e ao mandato democrático recaiu sobre o ex-capitão devotado à criação permanente de meios atentatórios à democracia e o zelo pela confusão ideológica, fruto de incessante processo de criação de factoides e distorções comezinhas e imaginárias. O falseamento da democracia é processo muito mais profundo do que, em princípio, se imagina. Afinal, parte enorme da sociedade se debate em torno de fatos e temas sem raízes públicas ou comunitárias, sem priorização, sem programa, sem visões, sem meios e fins. O governo se tornou uma máquina desgovernada que se confronta com a sociedade e não produz nada que realmente importe. Não se pode obter resultados concretos e interessantes à República se se tenta provar que a terra é plana, que os comunistas engolem crianças, que as vacinas não impedem as doenças ou que os estudantes devem estudar em casa para escapar da esquerda ideológica na escola. Kafka e Dostoiévski seriam concretamente explicados em vista do absurdo que imaginaram literariamente. Ocorre que deste inepto e incrível debate escapulimos para algo mais concreto: a corrupção e a incompetência em torno do combate à pandemia, algo sempre presente neste desgoverno. A CPI, que trata dos secos e molhados da pandemia, desvendou a concretude da realidade e, logo, as ameaças de quebra da ordem constitucional apareceram novamente. Verdade seja dita: neste contexto de ameaças, os arroubos dos fardados empoderados tornaram a confusão um desengonçado acordo entre certo bolsonarismo destinado a contestar o que é óbvio e o descaso esquivo com a democracia de parte das Forças Armadas. Não à toa, o presidente enfaixado de verde e amarelo opera na faixa da fraude eleitoral vindoura, aquela que seria salva pelos votos de papel, enquanto os militares defendem coronéis que andam fazendo coisas nada republicanas. Neste estranho tenentismo, a confusão é o método do momento para arrastar a crise institucional e estrutural para o desfecho antidemocrático. Não vê quem não quer. A única certeza que se pode ter neste cenário é que as inquietações da hora serão a crise aberta de amanhã. O princípio organizador que está em plena vigência é demonstrar para o cidadão comum que o seu antigo desgosto com a classe política, com o Judiciário, com as instituições em geral, pode ser solucionado pela obra redentora de um "regime forte", calcado na solução milagreira das ameaças existenciais à sociedade. A pregação irá caminhar, agora com maior velocidade, para a falsa ideia de que não há como o "capitão do mato" resolver os problemas brasileiros na atual configuração institucional. A solução passa, está claro, pela ascensão definitiva da classe armada ao Estado e ao governo. Noto que isto inclui a base de polícias estaduais e milicianos ocasionais. A geleia é geral. Enquanto isso, os poderes vigentes ficam a emitir "notas à imprensa" rechaçando a realidade que caminha a passos largos, concretos e cada vez mais céleres. Estejam certos: não irá funcionar este modus escasso de vigor entranhado na sociedade. Os cidadãos não acreditam que os poderes institucionais resolvam os seus problemas. Sem este preâmbulo a qualquer diagnóstico, o começo da solução está errado, inclusive para aqueles que acreditam na vinda redentora de um candidato em 2022. O nosso Messias de plantão sabe desta fragilidade básica e é isto que dá segurança intrínseca ao seu discurso que esculhamba e escangalha as instituições. É preciso criar rapidamente mecanismos de defesa. O impeachment deve ser o começo das soluções, mas a República, desta vez, necessita que a restauração seja além da reunião de seus pedaços espalhados por entre políticos e poderosos. No mundo digital, a democracia brasileira caminha a vapor.  
sexta-feira, 21 de maio de 2021

2022: entre a ideologia e a realidade

O atual presidente engendrou este discurso ideológico e o povo aderiu em parcela significativa. A liberdade de Lula, do ponto de vista físico e processual e a liderança do atual presidente na ponta extrema da direita brasileira põem em evidência a perspectiva de que em 2022 possamos ter dois candidatos realmente viáveis na corrida presidencial. Vale dizer que ambos são os que interagem com o distinto povo, a imensa maioria de pessoas pobres e desprovidas de educação formal e percepção funcional sobre a complexidade da vida e da política brasileira. Como já afirmamos em outros momentos nesta coluna, na política os fatos e as ações presentes originam as expectativas, enquanto no mercado financeiro e nos negócios são as perspectivas e expectativas que fornecem a ação presente em relação aos fatos. Creio que as pesquisas de opinião pública dão fartas evidências sobre a atual realidade polar: Lula, aos 75 anos, domina um dos papéis da cena a partir da percepção de que foi injustiçado e isso o legitima à luta pelo poder (de novo). Já o capitão reformado permanece firme junto à opinião pública com 1/4 a 2/3 do eleitorado, o que é muito. Também me parece claro que o distinto eleitor repousa os seus votos conforme os atores principais da política brasileira lhes proporcionam "fatos novos" a estimular a formação da opinião pública em relação ao tabuleiro de duas peças em 2022. Aqui, nota-se que a débâcle da economia (a tragédia econômica) e a pandemia (a tragédia social e psicossocial) têm no conjunto e separadamente efeitos limitados sobre o eleitor. Este voto com os olhos para o futuro com base na notícia do dia e não no passado. O trágico número de 430 mil mortos nesta pandemia da covid-19 produziu um efeito limitado no processo eleitoral, sobretudo se levarmos em conta que o Brasil é um país rico cercado de pobres e analfabetos. O atual presidente da República sabe se projetar muito bem neste triste pântano. Ele é aquele guia verborrágico que informa diariamente ao eleitor de que ele é a voz do povo oprimido, o messias que as elites (econômica e intelectual) e as instituições querem fazer calar. Notável que esta peleja presidencial é interna ao próprio governo (e.g. "os preços dos combustíveis"), ao Estado (e.g. "o STF atrapalha") e à sociedade (e.g. "os propagadores de valores contra a família"). Neste sentido, o plano de ação é ideológico, para não dizer surreal. Ao capitão apenas basta a imaginação fértil do eleitorado de que há uma conspirata contra ele e o povo. Um evangelho próprio é cumprido. No sentido do imaginário bolsonarista, o PT e seu candidato Lula ocupam o mesmo sentido da grande conspiração contra o guia do povo: o antipetismo e o ex-metalúrgico são aqueles que podem parar o projeto de uma nova sociedade que o presidente encarna. Quando o messias deste projeto informa, a título de ilustração, que "Lula pode entrar e nunca mais sair", o trato ao tema não condiz com a verdade: não há nenhuma evidência de que Lula tenha pretensões ditatoriais. Já Lula tem feito incursões nos bastidores empresariais, na política de Brasília, junto à sua rede de contatos no exterior para, segundo a sua própria intuição, se credenciar como aquele que dará estabilidade ao país. Vaza, aqui e ali, que o ex-presidente busca um vice-presidente em meio aos empresários, a reprodução do pacto entre o capital e o trabalho de seus dois mandados anteriores. Também se especula de que haverá uma nova "Carta aos Brasileiros", uma espécie de atestado de bom comportamento, sobretudo em relação aos fundamentos econômicos, notadamente a estabilidade fiscal. O caminho de Lula parece estar marcado pelas construções do passado. Afinal de contas, as elites bem-informadas sabem que Lula é politicamente um centrista com arpejos eventuais à esquerda e ao populismo. Uma eventual "Carta" de bom comportamento chega a ser risível. Sobretudo, quando se verifica que pessoas como Paulo Guedes, que teria nascido da célula mais profunda do capitalismo original, não passa de um capacho do presidente e, diga-se, de utilidade duvidosa para o enfaixado do Planalto. Qual seria o valor de uma "carta" para Lula e para as elites? Sejamos práticos! Para Lula esta "carta" tem pouca utilidade vez que, se o eleitor olha para frente, por que ele insistiria em proceder como no passado? Neste sentido, um programa eleitoral (não necessariamente de governo) que seja baseado na racionalidade econômica não faz sentido na busca pelo voto. É o que se vê. Aparentemente, Lula e os demais candidatos permanecem seduzidos pela ideia de que são os pilares da política econômica a espinha dorsal do raciocínio político. Se assim fosse, Bolsonaro não teria chegado lá, mesmo ladeado por Paulo Guedes, sobre quem já sabemos que não é um "posto Ipiranga". O campo de luta da eleição de 2022 é ideológico, voltado para o futuro, discutido sobre variáveis fluidas e etéreas. Uma temática de esperança e de busca pela inserção de um povo analfabeto em uma sociedade imaginária. O atual presidente engendrou este discurso ideológico e o povo aderiu em parcela significativa. Se há polarização de candidatos, neste momento, não há alternativas à natureza da formulação do discurso, digamos, vazio. Por óbvio, o conteúdo de cada tema será muito diferente entre Lula e Bolsonaro. Afinal de contas, não parece razoável imaginar que Lula concorde com teses esdrúxulas sobre cloroquina, sobre minorias, sobre a existência de conspirações comunistas, sobre milenarismo, salvacionismo, etc. Resta saber, se Lula aderirá ou não a esta forma ideológica de debater e qual a temática que trará. Finalmente, temos de reconhecer que, de um lado, se a economia não terá a pauta pragmática que alguns esperam em vão em relação aos temas clássicos das políticas fiscal, monetária, de investimentos públicos, câmbio, etc., de outro lado, os problemas econômicos e sociais do país e dos brasileiros são gravíssimos. Neste campo, a ideologia pode estar a serviço do processo eleitoral, mas não tem serventia à necessária consecução de um projeto de desenvolvimento integral (econômico, social, político e com sustentabilidade ambiental), cujas variáveis estão adstritas às formas concretas de como vamos mudar a realidade a partir de sonhos que não caiam em trágicos devaneios que levam aos colapsos econômicos que a nossa história comprova que não são fantasmas.
quinta-feira, 22 de abril de 2021

A CPI dos secos e molhados

A melhor perspectiva é de que as coisas fiquem como estão.  Ao que parece, as correntes políticas que não estão casadas com o bolsonarismo parecem empenhadas em transformar a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) relativa às políticas de combate à pandemia num tablado de perturbação e, eventualmente, de impedimento ao atual presidente da República. Por meio desta construção política e parlamentar, se poderia alcançar uma porta de saída para a infindável crise originada desde a posse do capitão reformado do Exército. Será? Para que se possa analisar a possibilidade de que a CPI alcance os seus objetivos políticos é preciso entender, prima facie, que as variáveis de um processo como este são muito complexas e cada político pode se tornar vassalo do descontrole dos fatos e do posicionamento da opinião pública. De toda a forma, vale investigar o problema, sem qualquer pretensão profética. A CPI e a classe política não têm nada a colocar, em termos políticos, no lugar do atual presidente da República. Afora ser um completo mistério o que realmente pensa o atual vice-presidente Hamilton Mourão, sabe-se que não foram poucos os seus arroubos autoritários nos últimos anos. Na cadeira de presidente, por que mudaria? Há de se considerar que Mourão não tem nem traquejo e nem suporte político junto ao Congresso Nacional. É mais fácil o Palácio Jaburu, onde mora o vice, ouvir cantilenas de conspiradores contra a democracia do que alguém realmente articular para dar destinos ao país. Se Hamilton exalar chances de poder, Mourão imediatamente será cercado de acólitos quando, enfim, se saberá qual é a personalidade política do vice. Ora, este é um jogo com esperança matemática duvidosa no qual os políticos não costumam embarcar. Não sendo razoável pensar sobre uma saída viável por meio do vice-presidente, restará para a oposição incrustada na CPI empurrar o ex-capitão na direção do escrutínio eleitoral de 2022. Aqui as coisas são ainda mais complicadas. A ascensão de Lula nas pesquisas eleitorais é resultado direto do retumbante fracasso da Lava Jato em agir institucionalmente como um Judiciário realmente sério. A turma de Curitiba se embananou completamente quanto tornou os processos judiciais em projeto político de destruição do "sapo barbudo", como Leonel Brizola batizou o ex-metalúrgico. Do Código de Processo Penal os procuradores lavajatistas esqueceram os verbetes e partiram para a luta política. A verdade é que o STF nada mais fez que restituir tardia e politicamente o devido processo legal. Isto tudo, antes de que se pudesse saber se o país poderia alcançar inédito e positivo padrão em termos de corrupção. O fracasso da Lava Jato deve ser inteiramente debitado ao projeto político do grupo populista do MPF. Lula, sobrevivente desde o seu nascimento em Garanhuns, sempre soube se sair bem de situações difíceis. A sua prisão tornou-o martirizado perante a opinião pública e, inocente ou não, as bençãos da popularidade de um injustiçado sobre ele recaíram. Sergio Moro não foi apenas rebaixado na empresa de consultoria na qual trabalha: foi ultrapassado e vítima de sua própria vaidade. Nas condições atuais de pressão da atmosfera política do país, Lula é o grande candidato de oposição, aparentemente com o mesmo e envelhecido projeto político de antes. Nenhum outro político foi capaz de preencher o vácuo que o presidente honorário do PT deixou quando preso. Não há projeto em ação que seja capaz de mudar a política brasileira e Lula foi lá e tomou o que já foi sua: a cadeira de líder antibolsonaro. Este cenário é o desejado por Jair Messias, não resta dúvida. Suas chances em cenários alternativos à Lula devem ser menores, muito embora este seja um exercício teórico. Ao que parece não apenas o presidente tem características bipolares: o povo também tem. Neste contexto a CPI apenas evidenciará se Lula estará mais forte ou mais fraco para enfrentar o atual presidente e seus pimpolhos frequentadores das redes sociais. Os políticos que estão instalados na Comissão assim avaliam o cenário e ainda não sabem direito se farão um jogo de curto fôlego ou de largo passo. No primeiro caso, o foco da Comissão pode ser o de extrair o máximo proveito, para si mesmos, da fragilização do presidente. O Centrão não mora apenas na casa de Waldemar da Costa Neto. Mora também no coração e no bolso de muita gente. Logo, Bolsonaro fraco é Bolsonaro mais amolecido para ceder cargos e rendimentos. Paulo Guedes, para tanto, já está a postos, pronto para a "rachadinha orçamentária", se me entendem... No caso do "cenário largo passo", o qual pode ser combinado com o de "curto fôlego", os políticos frequentarão a CPI com um olho no presidente e outro em Lula. Ao invés de poder no curto prazo, venderão poder a termo. A taxa de juros desta operação política dependerá ao andar da opinião pública. Assim, chegamos ao distinto povo: depois da barbárie que é o combate da pandemia e suas sequelas da miséria social e econômica, não se vê indignação equivalente o que foi arremessado contra o povo desde o Palácio do Planalto. Há anomia generalizada, fato este que pode tornar o voto muito volátil. (Aqui devemos lembrar que todo o raciocínio eleitoral feito sobre o então candidato Bolsonaro ruiu completamente em 2018. Bolsonaro fez a festa nas eleições, sem partido, sem TV, sem apoio crítico da mídia. O populismo é fenômeno de países atrasados, partidos fracos e falta de resistência política do eleitorado). Se há, de um lado, anomia social em relação ao quadro geral da economia brasileira, de outro, vê-se o presidente concretamente empoderado. A crise com os militares não passou de uma troca de cartas e cargos sem maiores efeitos. O presidente tomou posse e poder das estatais, controla a Polícia Federal e os órgãos de inteligência e tem ao seu lado suficiente frescor verde oliva para que possa ser identificado com as Forças Armadas perante os eleitores. Tem também cerca de 30% da opinião pública a seu favor em meio à recessão. E há, no mercado internacional, a onda do bônus da commodities que favorecem o Brasil no único setor no qual é competitivo. Neste cenário de CPI e de desgraça nacional, a melhor perspectiva é de que as coisas fiquem como estão. Diante do cenário bipolar Lula-Bolsonaro, da passividade do povo e das elites e do escanteio no qual o país está no cenário mundial não há força-motriz a caminho para que se acredite em mudanças. Estas apenas virão quando a sociedade formar consenso de que não se resolve mais os problemas em CPIs, mas a partir da própria sociedade. Teremos mais crise pela frente. De resto, os debates são secos e molhados, como dizia o saudoso Millôr Fernandes.
quarta-feira, 31 de março de 2021

O bolsonarismo avança tanto quanto a pandemia

A entrada do "Centrão" pelo meio, facilitou a saída dos "inimigos internos" do governo pelas pontas.  O momento político do país ganha contorno inédito: provavelmente, caminhamos com alguma celeridade para um desfecho de incerta crise institucional que pode provocar sérios abalos à democracia, não apenas do ponto de vista essencial (já trôpega há alguns anos) como do ponto de vista instrumental (ou formal). Em palavras ainda mais diretas, é possível que as instituições brasileiras passem por um teste de resistência entre o momento atual e as eleições do ano que vem. Os 55,1% de votos válidos de Jair Messias Bolsonaro no segundo turno da eleição de 2018, 57,8 milhões de votos, 10,0 milhões a mais que seu oponente petista Fernando Haddad, simbolizou não a disputa entre propostas de programas ou de estruturas de poder, mas a dicotomia cega e sem debate entre o petismo da gema e o antipetismo de alma ("ou raiz?"). Daí surge o bolsonarismo. A eleição foi, ao contrário do que se possa imaginar, a terceira mais apertada desde 1989. A diferença mais elástica foi a entre Lula e Geraldo Alckmin em 2002, algo muito próximo de 60/40 em favor do antigo sindicalista. Paradoxalmente, o debate naquele momento foi centrista, comportado e, até mesmo, educado. Tempos idos, nos quais a radicalização eleitoral era contida e, de muitas formas, uma simulação (falsa) dos verdadeiros programas políticos. A radicalização era fake e conveniente do ponto de vista programático. Afinal, a transformação do país foi minúscula. Restou a praga da reeleição em meio a partidos frágeis e "fisiológicos" que não fazem maioria congressual.   Hoje a radicalização política e eleitoral atinge esferas institucionais abrangentes como, por exemplo, o federalismo: em 2018, 12 dos 27 governadores se converteram em bolsonaristas. (A proposta eleitoral "bolsodoria" é a mais lembrada). Hoje se pode afirmar que há unidade de pelo menos 20 governadores contra o presidente da República por conta da trágica pandemia que nos atinge. Do lado daquilo que durante a luta pela redemocratização eram chamadas de "forças produtivas", o cenário tem contorno de decepção. A elite econômica que acreditava em Bolsonaro em 2018 e lhe fez acenos de subserviência ideológica em seguida, agora parte para o arrependimento contido. O surgimento de manifestações como a liderada pelo ex-presidente do BC Armínio Fraga, apesar de instigarem certa resistência social das elites, ainda carecem do motor potente das forças produtivas. Ademais, falta diálogo mais proveitoso com a turma que tem o voto, o distinto povo. O atraso do país é visível: somente em trinta anos ou pouco mais podemos dobrar a renda per capita. O crescimento não tem tração e o desenvolvimento mais holístico e abrangente do país está atolado no atraso (senão na ignorância) ambiental, no atraso tecnológico, na profunda desigualdade social, na falta de infraestrutura, na falta de educação, nas deterioradas condições urbanas e assim vai. Agora, temos em andamento o jogo duplo, comandado por Bolsonaro, de um lado, e pelo denominado "Centrão", por outro. Do lado do "Centrão" verifica-se, mais uma vez, o seu típico "ataque de pinça" que, por um flanco, luta e conquista cargos no governo e, por outra fresta, usa o orçamento do Estado a seu favor de forma a manter os seus apaniguados e sua base eleitoral que é, senão grande, suficiente para dar aparência de "equilíbrio" ao jogo desequilibrado do petismo versus o antipetismo. Interessante que esta velha estratégia tem chance concreta de dar em nada, pois a aceitação momentânea do "Centrão", enquanto aliado do bolsonarismo, resulta do crescente montante de cadáveres da pandemia. A irracionalidade das políticas contra a covid-19 da parte do governo de Jair Messias jogou o país em uma rota cujo desfecho não está claro do ponto de vista sanitário. O "Centrão", ao tentar alinhavar o presidente em sua teia, com ele terá mesmo destino. Um cenário, portanto, bastante diverso daquele que existiu sob Dilma Rousseff, quando o "Centrão" dominou o governo da petista e repetiu a dose sob Michel Temer, sem que as sequelas da petista existissem no corpo dos partidos do "Centrão". Do lado de Bolsonaro, o jogo é de larga escala. A entrada do "Centrão" pelo meio, facilitou a saída dos "inimigos internos" do governo pelas pontas. Para o presidente o ajuste que fez com os políticos do "Centrão" se tornou um "ajuste de contas" com os que não querem fazer parte de sua trupe ideológica. Portanto, ganha o "Centrão" o seu butim de cargos e os tesouros do Erário e ganha o presidente o apoio político necessário à sobrevivência política contra o impeachment no Congresso. Mas não é só isso. O governo avançou nos últimos dois anos, em todas as posições estratégicas do governo e do Estado: nas principais estatais, nos serviços de inteligência, nas políticas em prol das "forças de segurança" (dos cadetes às políticas estaduais) e alguma coisa, até mesmo, no Judiciário com o qual vivia às turras. Imaginar que os poderes de Bolsonaro caem quando cai a sua popularidade é erro grosseiro do ponto de vista analítico. O Planalto tem muito bem mapeado quem está contra ele e quem está a seu favor. E sabe se articular em meio a sua própria confusão. Agora, Bolsonaro, quem não age sozinho nessa, está avançando sobre as Forças Armadas, notadamente sobre o Exército, de onde saiu quase expulso e desmoralizado. A troca dos comandantes das três Forças, terá inédito caráter personalíssimo desde o Governo Geisel nos anos 1970. Mesmo que Jair Messias não consiga tudo que quer, ele terá avançado sobre o poder militar do Estado. No contexto atual que vivemos, não estamos assistindo a derrocada de um governo - ledo engano tratá-lo como mais frágil hoje do que ontem. De fato, o bolsonarismo caminha para testar a democracia, além do que já fez. O jogo estará decidido no curto prazo, possivelmente entre hoje e as eleições do próximo ano. Para quem derrubou as paredes e instalou a insensatez e a irracionalidade na democracia, agora pretende e pode balançar os seus pilares. Não à toa estamos em 31 de março.
terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Política e Economia NA REAL n° 276

Até logo Nos últimos cinco anos, ininterruptamente, a cada semana, estes colunistas tiveram a honra de escrever uma coluna neste bravo informativo Migalhas, sob a denominação Política & Economia NA REAL. Esta é a última coluna que os autores fazem em conjunto. Francisco Petros escreverá sobre temas que inter-relacionam Direito e Mercado e cuja data de estreia será informada nas próximas semanas. Francisco Petros e José Márcio Mendonça registram a enorme satisfação que foi escrever neste espaço. Aqui tivemos o extraordinário apoio do amado Diretor, Miguel Matos, e de sua valorosa equipe, os quais fazem do Migalhas o excepcional "rotativo" que é no mundo jurídico. Despedimo-nos com a certeza de que cumprimos nossos objetivos e que deixamos uma amizade perene com o Migalhas e com os leitores, aos quais agradecemos a atenção carinhosa que sempre recebemos. Previsões e tendências Como sempre fizemos questão de salientar, fazer previsões é uma atividade fadada ao fracasso. De nossa parte, a preferência recai em analisarmos tendências em vista da realidade e, assim, ao invés de nos ocuparmos de previsão sobre PIB, taxa de juros e câmbio, etc., avaliarmos o contexto e o alcance destas variáveis num certo horizonte temporal. É com base nesta premissa que fazemos as notas a seguir sobre o ano de 2014. PIB : o risco é não crescer Observado o que se previa no início de 2013 (+ 4,5%), o crescimento do PIB ao final do ano, algo como 2,1%, é um fracasso colossal. Não fosse a agricultura e alguns segmentos industriais, notadamente aqueles ligados à indústria automobilística, o PIB brasileiro gravitaria ao redor de zero, com muitos setores na área negativa. Há que se considerar dois aspectos essenciais para 2014. O primeiro é a tendência de que o fraco desempenho permaneça por mais algum tempo, talvez pelo ano inteiro. A falta de confiança na política econômica é o aspecto mais notório deste processo de vez que os riscos externos foram minorados (e não aumentados como quer fazer crer o governo) em 2013. O segundo aspecto diz respeito às debilidades estruturais do país as quais o empurram para um contínuo e perigoso processo de desindustrialização. Neste campo estamos a tratar da ausência de boa educação, falta de desenvolvimento tecnológico, insegurança jurídica, criminalidade, altos impostos, fragilidade da infraestrutura e assim vai. Os itens requerem políticas robustas e execução competente. Mas os governos, desde o final do regime militar, não conseguiram combinar tais políticas para evitar que estas tendências estruturais se tornassem dominantes. Para 2014, um PIB levemente positivo deve ser a tendência. Porém, os agentes devem considerar seriamente a hipótese deste ser negativo. Brasil perdeu mais que o "charme" O mercado financeiro é dado a alguns "modismos" que muitas vezes carecem de maior substância, mas que servem para transmitir ideias dominantes no tal do mercado. O acrônimo BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) foi um destes temas que ilustravam a expectativa de que o Brasil crescesse na velocidade destes países. O governo da presidente Dilma - no qual o desempenho econômico não é apenas sofrível, mas também desalentador - na prática retirou-nos da preferência dos investidores estratégicos e do mercado de capitais. Dificilmente alguém manifesta tal opinião publicamente, mas é isso que se ouve, aqui e no exterior, em conversas reservadas. Sabe-se que o "mercado" não é guia de decisões eficientes. Prova disso foram as crises e "bolhas" ao longo dos últimos trinta anos. Todavia, o que se viu nos últimos três anos foi a falta de competência governamental em aproveitar a "simpatia" do mundo do investimento pelo país para engendrar políticas que alavancassem o crescimento. O que se perdeu neste caminho não foi apenas a preferência e o "charme". De fato, perdemos a chance de "usar" o mercado a seu favor. A reversão deste processo, a partir de agora, será mais lenta e tortuosa. Muito mais que um discurso presidencial em Davos. Inflação : alta e com viés de alta Já comentamos em colunas anteriores que, não fosse a queda (forçada) das tarifas de energia e o congelamento dos preços dos combustíveis, a inflação estaria perto de 10%. Ademais, as multidões que protestaram em meados do ano "congelaram" as tarifas de transportes urbanos e deram uma ajudazinha ao BC. Há uma perigosa inércia inflacionária instalada, o que requererá um esforço maior da autoridade monetária que o inicialmente avaliado, inclusive pelos experts. De nossa parte, nos arriscamos em afirmar que a "escolha de Sofia" do governo está dada : ou tentará crescer o PIB, ou tentará evitar que a inflação cresça. Daí o nosso pessimismo sobre o crescimento realçado em nota acima. Há ainda o risco cambial. Se o real se desvalorizar mais acentuadamente em 2014, o que acreditamos que pode ocorrer, a tarefa do BC e do governo ficará ainda mais perturbada no que tange a inflação. COPOM : entre o que deve e o que irá fazer Não sabemos se o mercado está "nervosinho" com a inflação. Sabemos, isso sim, que a inflação está "nervosinha". Para acalmá-la, neste momento, há apenas uma solução : juros básicos para cima. O BC está na retaguarda da inflação e não o contrário como deve ser. Pois bem : do ponto de vista do interesse strictu sensu do controle da inflação, parece-nos que o BC deveria subir vigorosa e surpreendentemente o juro básico na próxima reunião do COPOM, nesta terça e quarta-feira. Estamos tratando de algo entre 0,75% e 1%. O "mercado" espera o "prolongamento" da campanha de elevação da taxa básica de juros. A diferença entre uma e outra alternativa é a quebra de inércia da inflação. Emprego : variável política e peso econômico Não há dúvida de que a popularidade da presidente Dilma decorre do fato de que o mercado laboral permaneceu favorável em toda a sua gestão. O desemprego é desprezível, até agora, no que tange ao seu efeito político. Assim será, até que fique evidente que o crescimento perdeu "tração" e/ou os riscos macroeconômicos tornem a avaliação das expectativas mais volátil. Basta lembrar, neste sentido, que o desemprego em 2008 nos EUA era baixo, meses antes de deflagrada a maior crise da história econômica desde 1929. Há que se notar outro aspecto importante : no Brasil o custo de demissão é muito elevado, acima inclusive de países que adotam a economia social de mercado, como a França e a Alemanha. Cristalizou-se, assim, a ideia de que sem evidências de que a demanda vai cair é melhor manter a oferta de mão de obra fixa e disponível às empresas. Há também o fato de que o Estado foi um grande demandador de recursos humanos por meios dos já famosos "concursos públicos". É desta variável que se verá o maior ou menor otimismo em relação à reeleição da presidente Dilma. Câmbio, acúmulo de problemas Não há modelos econométricos que sejam eficientes e precisos para informar qual é a previsão de defasagem ou excesso de desvalorização entre moedas. São muitos os estudos sobre o tema, mas o que se pode afirmar, de forma genérica, é que o câmbio depende de muitos fatores, mas não se sabe quais as combinações entre estes que fazem os movimentos cambiais manearem de um lado para o outro. De toda a forma, o real tende a se desvalorizar em função de três fatores mais relevantes : a falta de confiança na política econômica, a elevação dos juros de longo prazo nos EUA e o enorme déficit nas transações correntes do Brasil (uma das provas da nossa falta de competitividade). De outro lado, nossa taxa de juros básica persiste dentre as campeãs mundiais de alta. Esta rentabilidade surpreendente (combina paradoxalmente baixo risco e alto retorno) favorece a que o real fique mais valorizado. Com efeito, temos os pesos e as bandejas da "balança cambial". Difícil dizer o quanto vai pender para um lado ou outro. Todavia, uma coisa parece-nos muito provável : não deve ser custoso ficar indexado ao dólar, apesar da taxa de juros. Contas públicas : além dos números Não foram apenas duvidosos a forma e o conteúdo com os quais o ministro da Fazenda Guido Mantega divulgou os números do superávit primário do governo central na semana passada. O problema é que os resultados não comovem ninguém que conheça o assunto por uma razão simples e já repisada na mídia : receitas não-recorrentes não sinalizam o resultado do governo, a demonstração do resultado da multinacional ou a féria do botequim da esquina. O que há no Brasil atualmente não é propriamente um descontrole orçamentário e um risco fiscal iminente. De fato, a política fiscal está perdendo a confiança de longo prazo, algo muito precioso, e sendo usada de forma pouco eficiente de vez que não serve para aumentar o investimento e favorece alguns setores os quais extraem benefícios momentâneos destas desonerações. É o "samba do Tesouro louco" nas palavras de um bem posicionado ex-ministro da Fazenda. Neste item, devemos nos preparar para um rebaixamento do risco de crédito do Brasil ou um "viés negativo", provavelmente não no curto prazo (1º trimestre do ano), mas ainda 2014. Tudo depende de como o governo levará a cabo este tema. Quem será o novo presidente Quem vencerá a Copa do Mundo ? Quanto fechará o dólar em relação ao real ao final de 2014 ? O Ibovespa subirá quanto em 2014 ? Quem responder com precisão e convicção a estas questões saberá quem será o próximo presidente da República. De nossa parte, consideramos esta precisão muito difícil de ser praticada, quiçá impossível, de ser construída. As pesquisas mostram a presidente Dilma em posição privilegiada. Líder nas pesquisas e com bom apelo popular, há nos indicadores de popularidade da presidente sinais de consistência e resiliência. Conta com a máquina do governo e com uma sólida aliança eleitoral (não é uma aliança política lato sensu). De outro lado, o país não está saudável como soa dos badalos palacianos. Ao contrário, os desafios econômicos são substantivos conforme as notas acima demonstram. A presidente conta ainda com a imagem do ex-presidente Lula, o qual deve ajudar na campanha eleitoral e tutelá-la num possível segundo mandato. Lula foi eleito em 2002 e, desde então, não saiu do governo. Atualmente, é um homem materialmente rico e politicamente flexível. O governo não apenas o interessa, mas lhe é necessário. Campos : ainda sem rumo Do lado da oposição a coisa é igualmente obscura. Eduardo Campos juntou-se a Marina Silva e tem dificuldades em afinar o discurso e o programa de governo. Campos, recém-saído das hostes situacionistas, não pode ser chamado, do ponto de vista de sua essência política, como uma arraigado opositor de Dilma Rousseff. Trata-se, no máximo, de um dissidente do governismo desde o primeiro mandato de Lula. Marina Silva tem capital político relevante, mas, ao perder a chance de criar um partido a tempo de viabilizar a sua candidatura, acabou por pular no barco de Campos no qual produz tanto ou mais turbulência que o próprio oceano eleitoral. A dupla Campos-Marina nos parece, por enquanto, mais "a" alternativa à disputa entre PT e PSDB, mas tudo dependerá de como vai debutar na corrida eleitoral. Aécio : oposição que não foi sistemática O PSDB é o mais marcante partido oposicionistas do atual governo, mas não se pode chamar de um "partido marcador". Aos tucanos faltou, desde quando perdeu o poder em 2002, o senso de ser oposição sistemática e programática. O exemplo estava à vista, o PT desde a sua fundação até a tomada do poder central em 2002. Não conseguiu se firmar e ainda persiste sendo um partido de classes médias e abastadas do centro-sul e sem respostas mais estruturadas para os problemas mais importantes. Aécio Neves, frente à FHC, José Serra e outros caciques do tucanato, é sim uma renovação geracional. Resta saber se será uma liderança que saiba elaborar um discurso e um plano de governo que abarque inovadoramente maiorias eleitorais. Se vencer, terá de filtrar o discurso eleitoral e fazer alianças para governar. É a sina da política brasileira. O maior partido do Brasil : o atraso A crise penitenciária do Maranhão é sinal de que a barbárie mora aqui mesmo. Não precisamos ir aos conflagrados países africanos ou aos campos de refugiados do Oriente Médio para verificarmos o que o homem é capaz de produzir insanamente. As cabeças decepadas na prisão maranhense são o símbolo perfeito da natureza e da envergadura dos problemas que o nosso país terá de superar para ingressar no mundo da civilização. Não dá para tecer meias frases neste triste assunto, não é mesmo ? Pois bem : foram meias frases e um silêncio não-obsequioso o que se ouviu do governo Dilma Rousseff e o seu mentor Lula da Silva neste triste episódio nacional. É vergonhoso verificar que este silêncio guarda interesses eleitorais com a trupe de José Sarney, este que foi prócer do regime militar, presidente de um desastrado governo, eterno chefão do Maranhão, mandante de ministros em vários governos, membro que envergonha a Academia Brasileira de Letras por seus livros e sua história. O silêncio presidencial, em clara diferença com o que fez em outras ocasiões nas quais ambicionava atacar a oposição, é uma espécie de marco daquilo que é a política nacional. De fato, o processo político não consegue extirpar mazelas como José Sarney. Juntando os cacos da análise política nacional pode-se afirmar sem medo de errar que o maior partido do Brasil chama-se atraso, o qual a democracia precisa superar alijando pelo voto aqueles que lideram apenas para colher os benefícios que lhe são caros. Sarney não é apenas uma triste figura política. É o amálgama que liga o atraso ao atraso.
terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Política e Economia NA REAL n° 275

A senha para o Federal Reserve Caros leitores : do ponto de vista econômico, este final de ano e início de 2014 será repleto de sinais importantes. No âmbito interno, o Natal pode ser mais fraco que o sinalizado pelos indicadores antecedentes. Mas, nos EUA pode ocorrer um sinal importantíssimo. Como se sabe, republicanos e democratas andam às turras nas discussões sobre o teto do orçamento público Federal. Republicanos querem criar um teto realista para o afrouxamento da política monetária do Fed e os democratas desejam prorrogar o máximo possível as políticas de estímulo que já fizeram o desemprego cair bem este ano e o consumo e investimento voltarem a crescer. Pois bem : as negociações atuais no Congresso dos EUA sobre o orçamento podem pavimentar o caminho para que o Fed reduza o estímulo monetário. Ou seja, os republicanos aceitaria um déficit maior que o proclamado na mídia, mas o Banco Central americano teria de reduzir as compras de títulos no mercado. Isso provocará a elevação da remuneração dos títulos do Tesouro norte-americano e jogará o dólar para cima em relação às outras moedas do mundo. Inflação, um problema substantivo Os agentes econômicos já sabem que o governo da presidente Dilma, cujo assessor Guido Mantega propala as suas políticas, é leniente com a inflação. Cabe alertar, adicionalmente, que o governo, ao reprimir preços públicos, está causando risco maior às expectativas, pois estas se movem pelos fatos verdadeiros não pelos fantasiosos. Todos sabem que dos combustíveis à energia elétrica há preços comprimidos pela estratégia enganosa do governo. De outro lado, há o risco de a taxa de câmbio se desvalorizar mais acentuadamente por conta da deterioração das expectativas domésticas e da mudança de curso da política norte-americana após as negociações do Congresso entre democratas e republicanos (Dilma Rousseff é presidente do Brasil e não tem como mandar em Obama, no Congresso dos EUA e no Federal Reserve). Neste caso, o repasse do custo do câmbio nos preços internos pode ser rápido e acentuado. Para se ter uma noção a cada 1% de aumento no câmbio, potencialmente os preços domésticos podem subir entre 0,15% e 0,20%. Para não subir, o PIB terá de ficar mais fraco do que hoje. Fundamentos e mercados - 1 Analistas de investimentos, nos primeiros anos de atividade, aprendem analisar as variações de preços dos ativos reais e financeiros. A lição central das teorias e técnicas lecionadas é a de que os "fundamentos" alinham os preços em diferentes patamares a partir de uma relação entre riscos e retornos esperados. Pois bem : a economia brasileira está apresentando riscos crescentes em pelo menos quatro "áreas" : (i) estruturalmente, o país perde competitividade fruto de aspectos que vão da baixa educação e tecnologia, passando pela elevada criminalidade até os conhecidos problemas de infraestrutura ; (ii) do ponto de vista fiscal temos um Estado que gasta mal, arrecada muito e, assim, produz déficits potenciais crescentes ; (iii) do ponto de vista monetário, o BC ajusta as irresponsabilidade fiscal por meio da elevação da taxa de juros, uma das maiores do mundo. O BC acaba por onerar toda a atividade de investimento e consumo do país e (iv) a taxa cambial acaba por ficar valorizada, pois os investidores do mundo inteiro acabam por ingressar com recursos no país para aplicar recursos financeiros nos elevados juros do país. Este caminho tortuoso não é superado desde meados da década de 1980. No governo Dilma foi agravado por equívocos cometidos exclusivamente por escolhas erradas, tal qual a "maquiagem de números fiscais". Fundamentos e mercados - 2 Considerados os aspectos salientados na nota anterior, cabe alertar aos nossos leitores que está se tornando cada vez mais provável que os diversos segmentos do mercado financeiro sofram alterações nos preços, possivelmente bruscas e no curto prazo (próximos três meses). No mercado acionário, os ativos (observados no seu conjunto) nos parecem muito caros. No mercado cambial, as pressões externas (e internas) serão crescentes (vide nota "A senha para o Fed"). Os salários reais estão altos em função da ainda satisfatória taxa de desemprego, mas esta variável é a última que se ajusta a um cenário pior, bem como é a última que melhora na saída de cenários ruins - veja-se o que ocorre na Europa e nos EUA. À luz dos fundamentos globais (especialmente dos EUA) e da economia brasileira, o momento nos parece recomendar moderação nos riscos e contenção em relação às expectativas de retorno esperado. Infelizmente, o Brasil pode ser um país bem melhor, mas isto dependeria de escolhas políticas melhores. Não sendo assim, também não há porque esperar que um milagre ocorra. A política como necessidade premente O que mais impressiona no Brasil, nestes últimos anos, é a ausência de mobilização política para mudar as estruturas e conjunturas econômicas, políticas e sociais. Os avanços dos "anos Lula" nos mostram que o jogo é eleitoral e não geracional. Com Dilma, aprofunda-se o perfil político voltado para as próximas eleições. Nem mesmo as elites do país, detentoras do "poder político real" se mobilizam para mudar o curso da política e da economia. Temem que seus interesses imediatos possam ser prejudicados pelo governo - quem sabe ? As oposições, pequenas em número de representantes, mesmo que com uma base social potencialmente respeitável, parecem aderir à sina de Dilma de fincar os olhos na próxima eleição. Um vazio considerável. Há outros fatores psicossociais, tais como a mídia e os mitos oriundos da participação na Copa do Mundo de futebol e nas Olimpíadas que acabam por obscurecer ainda mais o cenário político. Bem, esta é apenas uma nota, não uma tese de doutorado. Chamamos atenção apenas para o vazio político, perigoso e causador do imobilismo social e político. Risco-Brasil Chega em fevereiro ao Brasil uma equipe técnica da Standard & Poor's para fazer um relatório sobre a economia brasileira a qual servirá de base para analisar a nota sobre o risco de crédito do país (country risk analysis). Hoje o Brasil está num patamar acima da nota de grau de investimento (investment grade). Se a nota for reduzida o país perde este grau e também muitos investimentos de vez que muitos fundos e investidores utilizam os relatórios de análises da S&P como parâmetro básico para suas aplicações. Acreditamos que, antes de mudar a nota do país, a S&P deve colocar o Brasil em "perspectiva negativa". As razões para esta expectativa são evidentes : piora do desempenho fiscal, a tentativa da Fazenda em mascarar tais resultados e o fraquíssimo desempenho do PIB. Uma coisa chama atenção neste processo : a atitude arrogante das autoridades brasileiras em receber a equipe de analistas das agências de classificação de risco. Muito embora o trabalho destas agências mereça críticas dada a ausência de alerta da parte destas antes da crise de 2008, nada justifica a arrogância da equipe econômica liderada pela presidente Dilma. A economia brasileira vai mal, mas o ego de Dilma e equipe não amaina. Automóveis, segurança e eleição - 1 Choca e surpreende a decisão do governo, anunciada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, de que será adiada a entrada em vigor da norma que determina que todos produzidos no Brasil a partir de janeiro já saiam da fábrica com freios ABS e com air bag duplo. O Brasil é um dos campeões mundiais em acidentes e mortes no trânsito e eliminar dois itens essenciais para a segurança dos veículos e proteção dos cidadãos é ato que beira a irresponsabilidade. A medida já estava tomada há muito tempo e todos deveriam já ter se adaptado a ela. Mais grave ainda é a alegação do ministro Mantega para a decisão : evitar o efeito do aumento dos veículos sobre a inflação, ainda que o IPI reduzido começa a cair em janeiro, e evitar desemprego na indústria automobilística com a suspensão da produção de alguns veículos. Automóveis, segurança e eleição - 2 O ministro antepôs a economia, que é um meio, frente à segurança e ao bem estar da população, que deveria ser um fim. Parece que tudo está invertido. O fim neste momento para o Palácio do Planalto é bem outro : a reeleição da presidente Dilma. É por ela que os carros sem segurança vão ganhar uma sobrevida. O temor real do governo é que um pouco mais de inflação e algum possível desemprego influam no ânimo dos eleitores. Como a política antiinflacionária está cambeta, ou seja, se combate mais o índice do que os fatores inflacionários, é preciso continuar com manobras que segurem artificialmente os índices que medem a inflação. O padrão incluía o controle dos preços da gasolina e do óleo diesel. Agora, inclui até air bags e freios de carros. Este será o padrão para quase tudo em 2014. Pode até recuar, mas... Depois das reações negativas ao recuo na segurança dos automóveis, inclusive em algumas áreas do próprio governo, o Palácio do Planalto apressou-se em avisar que ainda não há uma decisão definitiva a respeito da questão. Teria o ministro da Fazenda, um dedicado e obediente auxiliar da presidente Dilma, falado demais e anunciado o que ainda é apenas um estudo ? Parece improvável. O governo pode até recuar agora, mas o estrago político já está feito. Para amenizar, o negócio será jogar a culpa para as montadoras : já se diz que foram elas que pediram o adiamento. Não é nada improvável. Porém, o governo não deveria ter levado isto em consideração nem por um instante sequer. Mercosul : mais um revés A Argentina restringiu a importação de automóveis para o país. Fere, mais uma vez, as regras básicas do Mercosul. Pouco importa se a diplomacia aponte os possíveis waivers para tal atitude. O certo é que o Mercosul é um solene fracasso para o Brasil, país que precisa de novos mercados e mais investimento. Não vamos a lugar nenhum, como a história já provou, se continuarmos associados à Argentina de Kirchner, à Bolívia de Morales e à Venezuela do fantasma de Chávez. Na semana passada, chamamos a atenção para este tema e acabamos "brindados" com o exemplo da restrição em relação à nossa indústria automobilística. Neste tema está chegando o tempo de acabar com tergiversações, de Lula e Dilma, em relação à América Latina. Por aqui a história parou. É preciso olhar para o norte e para o oriente. O resto é papo de botequim sob o som de samba ou tango. PT : malabares e malabaristas - 1 A cúpula petista moveu almas e corações para se equilibrar entre as pressões dos grupos mais ligados aos seus filiados condenados no processo do mensalão para que o partido se solidarizasse com eles incondicionalmente, e as conveniências do governo da presidente Dilma e do próprio PT de não deixar o episódio contaminar o governo e a campanha eleitoral. Solidariedade sim, mas com limites, de olho em possíveis repercussões eleitorais. Assim transcorreu o 5º Congresso Nacional, de quinta-feira a sábado passados em Brasília. Na quinta, claque para defender José Dirceu, José Genoino, João Paulo Cunha e Delúbio Soares, com Dilma silenciosa e Lula se esquivando de ir mais fundo ao tema. Este último avisou que ainda não é hora de falar, uma referência indireta a Dirceu. Rui Falcão, presidente reeleito da sigla cumpriu a missão de fazer a defesa mais veemente dos companheiros. PT : malabares e malabaristas - 2 Na sexta, demonstrações de solidariedade explícitas, contudo, com a ausência de Lula e Dilma. E com Rui Falcão, abafando : dizendo que o PT não apoia movimentos pela anulação da chamada AP 470 e que não considera Dirceu, Genoino e Delúbio presos políticos. No sábado, no encerramento, grandes manobras para evitar que o documento final do encontro incluísse uma resolução obrigando o partido a organizar eventos e manifestações e outras ações em defesa dos réus. Ficou um texto anódino dizendo que o PT apoia iniciativas do tipo. E só. A questão é saber, agora, se toda a militância - e os próprios companheiros presos - aceitaram esses arranjos. O mensalão será de hoje em diante uma página virada na história petista ou o fantasma que aparece de vez em quando na legenda. Em tempo : a parte substancial da resolução do 5° Congresso, que se refere às linhas que o partido adotará em suas ações no próximo ano e que balizará a campanha de 2014 será analisada em uma próxima coluna. Investigação e CPI para os trens Com a transferência para o âmbito Federal, em Brasília, dos processos envolvendo suspeitas de propinas em compras de trens para o metrô de SP em gestões tucanas, a expectativa é que as investigações andem mais rapidamente e as responsabilidades sejam estabelecidas. Preventivamente, o provável candidato do PSBD à presidência, Aécio Neves, se apressou a dizer que se houver provas e culpados que sejam exemplarmente punidos, seja quem for. A tática do senador mineiro parece ser diferente da adotada pelo PT até agora em relação ao mensalão : não defender incondicionalmente os companheiros de plumagem como o petismo faz com Dirceu e os outros condenados pelo STF. É oportunidade também para a convocação de uma CPI para investigar o chamado cartel dos trens, que o deputado petista Paulo Teixeira anunciou que já estava com todas as assinaturas para ser criada e estranhamente caiu no esquecimento faz mais de dois meses. Parou por quê ? Entre dois fogos - 1 É sabido que Dilma, com gosto ou sem gosto, terá de fazer uma reforma ministerial pra substituir até abril de 10 a 12 ministros que precisam sair para disputarem algum mandato em outubro. A data fatal é abril, seis meses antes das eleições no primeiro turno. Muito tempo atrás se dizia que a presidente pretendia trocar os ministros logo do início de 2014, para ter uma equipe ajustada para tocar seu último ano de mandato, essencial para ajudar na campanha eleitoral e não ficar com uma equipe com cara de tapa buraco. Agora, não se sabe quando as mudanças virão. Dilma está entre dois fogos. De um lado estão os ministros a serem substituídos e o PT, que querem ficar até o limite no cargo para aproveitarem a exposição pública que o ministério dá, a possibilidade de viagens, inaugurações, anúncio de projetos e outros tais. As pressões maiores são pela preservação dos ministros Alexandre Padilha, da Saúde, candidato petista em SP, e Fernando Pimentel, do Desenvolvimento. Candidato em MG. Sem mandato os dois cairiam na vala comum. Entre dois fogos - 2 De outro, estão os partidos interessados nas vagas que vão se abrir, entre eles o PTB, o PROS dos irmãos Cid e Ciro Gomes, ministeriáveis, e especialmente o PMDB, que já não aguenta mais esperar a nomeação do senador Vital do Rego para o Ministério da Integração Nacional, um dos bons cartórios eleitorais com os quais o partido pretende contar para 2014. Para angústia geral, inclusive dos petistas, a presidente Dilma não tem dado muitas indicações sobre o que pretende fazer, sobre o como e o quando. Há sinais de que até o ex-presidente Lula estaria no escuro. Dilma sabe que os riscos eleitorais lhe tocam mais profundamente que a todos que lhe rodeiam. Tem mais : o Ministério tem de ser suficientemente submisso às vontades da rainha e sua personalidade "forte", para não usar outra palavra mais forte. Soltou a língua Sempre muito discreto, formal e parcimonioso em suas declarações políticas, o vice-presidente Michel Temer, presidente licenciado e voz real do PMDB, andou soltando o verbo na última semana, inclusive com uma pouco usual conversa com um grupo de jornalistas. Com alguma sutileza, andou passando claros recados da insatisfação peemedebista em relação ao andar de duas carruagens : a da reforma ministerial e a das relações com o PT no caso das alianças regionais. Imagina na Copa - capítulo II De uma pesquisa realizada pelos estudantes de jornalismo que participaram este ano do programa de treinamento do jornal o "Estado de S. Paulo", publicada no suplemento especial "Foca", sábado 14/12 : Pergunta : Os protestos vão voltar a acontecer durante a Copa ? Respostas: Sim, 91%; Não, 5%; Não sabem, 4%. Foram entrevistados 420 jovens de 15 a 29 anos, em 60 pontos da capital paulista, de 30/11 a 2/12. Férias A coluna está de férias no período até o dia 14 de janeiro. Feliz Natal e um ótimo 2014 para todos. Radar NA REAL 13/12/13 TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo Juros ¹ - Pré-fixados NA alta estável - Pós-Fixados NA alta estável/alta Câmbio ² - EURO 1,3767 baixa baixa - REAL 2,3193 baixa baixa Mercado Acionário - Ibovespa 50.451,18 baixa baixa - S&P 500 1.775,32 estável/baixa alta - NASDAQ 4.001,00 estável/baixa alta (1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais). (2) Em relação ao dólar norte-americano NA - Não aplicável
terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Política e Economia NA REAL n° 274

Política econômica : cartas na mesa - 1 A divulgação do PIB do terceiro trimestre do Brasil (-0,5%) e a queda do desemprego nos EUA (de 7,3% para 7% no mês de novembro) são duas notícias que ilustram bem o tom que a política econômica terá daqui para frente. Nos EUA está evidente que as políticas keynesianas, adotadas agressivamente após o débâcle de 2008, estão a produzir os resultados esperados. Há um intenso debate entre os formuladores da política econômica norte-americana, bem como entre os economistas dos dois partidos representados no Congresso de como sair desta política. Afinal, a sustentação da imensa expansão monetária promovida pelo Federal Reserve não deve e não pode ser eterna. Será preciso reduzi-la. É como retirar um paciente que volta do coma do balão de oxigênio. Requererá sabedoria e tenacidade por parte do BC. De toda a forma, os EUA tem a moeda forte do mundo e este está disponível para financiar este processo, mesmo porque não há alternativas suficientemente atraentes. A retirada do estímulo econômico deve ocorrer ao longo do ano que vem e isso implicará na elevação do juros por lá e o dólar ficará mais forte. Os agentes econômicos podem puxar o juros de longo prazo em questão de minutos, bastará a sinalização do Fed. Política econômica : cartas na mesa - 2 Por aqui espalha-se o sentimento de que perdemos a tração na atividade econômica. O Brasil não consegue aumentar os investimentos de forma consistente, bem como não tem como sustentar o consumo em patamares crescentes de vez que as famílias estão endividadas e a taxa de juros é escandalosa. Mas, o mais preocupante é que a presidente da República, que é quem comanda a economia juntamente com o seu assessor Guido Mantega, conseguiu criar, nos últimos três anos, uma somatória de problemas macroeconômicos que pareciam sob controle. Do lado fiscal, as contas públicas mostram-se abaladas pelo excesso de gastos os quais têm sido tentativamente escondidos por maquiagens nos números. Do lado monetário, os juros básicos vão subindo pois, sem o "apoio" da política fiscal, a demanda tem de ser controlada pelos juros. Mesmo assim, a inflação tem sido renitente. No setor externo, as exportações não são mais tão competitivas, sobretudo no setor de manufaturados, e as nossas commodities perderam a dinâmica dos "anos Lula" que favoreceram a formação de um montante de reservas que podem suportar os desarranjos domésticos atuais. Política econômica : cartas na mesa - 3 O cenário acima descrito está consolidado entre os agentes econômicos. Não é novidade para ninguém. Mas, o que pode ser diferente, então ? Na nossa visão o maior risco é que o real venha a se desvalorizar para um patamar superior aos movimentos que serão provocados pela mudança da política monetária dos EUA. A subida dos juros de longo prazo nos EUA e a consequente valorização do dólar jogarão as moedas do mundo, sobretudo dos emergentes, para baixo. No caso do Brasil, com seus fundamentos mais deteriorados, o real pode ir além da paridade esperada. Neste caso, os efeitos cambiais terão de ser compensados pela elevação dos juros por parte do BC na tentativa de controlar a inflação que virá via câmbio. Neste caso, por que alguém imaginaria um desempenho da atividade econômica melhor ? A nosso ver, 2% é topo para a elevação do PIB em 2014. Não estamos tentando "adivinhar" o PIB, mas apenas fazendo uma leitura das tendências que se delineiam para o Brasil. Obviamente, alguém poderia evocar os efeitos afrodisíacos que a Copa do Mundo pode ter para o país. Neste caso, teremos de abandonar as tabelas de indicadores econômicos e nos debruçarmos nas tabelas dos jogos. Quando a coisa chega neste ponto é melhor ligar a TV e assistir a um filme. E a oposição ? O cenário econômico acima descrito pode ter sido provocado pelo atual governo, mas caberá ao próximo governo tê-lo por herança. Se for o atual governo, os eleitores saberão cobrar em face do que já foi feito. No caso da oposição parece claro que é necessário que o eleitor seja informado sobre o que ela fará, caso seja eleita. Aécio Neves lançará seu pré-programa esta semana (vide nota abaixo). Veremos. No caso de Campos-Marina, a questão da política econômica é mais complexa ainda pois a sua candidatura se reveste de um prometido caráter mudancista "estrutural". Terão de mostrar "profissionalismo" na tarefa de recuperar a economia, coisa que numa campanha eleitoral é relativamente difícil de fazê-lo. O programa econômico dos candidatos será importantíssimo para arrecadar recursos de campanha. Nessa hora não adiantará ser apenas pragmático (ou conservador) para agradar a plateia. O cenário das ruas pode exigir que a política seja mais arrojada para tirar o país da letargia e levá-lo para um patamar melhor. Mercados Desde a semana passada sinalizamos para os nossos leitores que, a despeito das boas-novas na economia mundial, grande parte dos ganhos registrados nos mercados acionários já foram incorporados nos preços. A hora, ao que nos parece, é de realização de lucros no mercado internacional e no local. As commodities também parecem que irão se acomodar em patamares mais baixos, incluso o ouro, metal que brilhou muito nos últimos anos, mas que está se acomodando em patamares bem baixos. Vale lembrar que os democratas e republicanos voltaram a negociar o teto de endividamento do Tesouro norte-americano. Este tema, tão caro ao mercado ao longo deste ano, persistirá sendo o contraponto ao sucesso da política de expansão monetária promovida pelos EUA e sobre a qual comentamos nas notas iniciais desta coluna. A maior volatilidade deve ser vivenciada nos mercados cambiais os quais viveram um ano tranquilo em 2013. Imagina na Copa As imagens de mais um dia de caos nos aeroportos brasileiros no sábado e a incrível briga entre torcedores do Vasco e do Atlético Paranaense foram destaques nos jornais em todo mundo, acendendo os temores de que muita confusão pode ocorrer no Brasil durante a Copa do Mundo. Voltou a correr aquele mantra : se é assim agora, imagina na Copa. Ainda mais que estão cada vez mais claras as indicações de que se preparam, à moda de junho, manifestações de rua nos dias de jogos em todas as sedes da Copa. As autoridades, a FIFA e a CBF deveriam cuidar menos de festas e discursos como os de sexta-feira na Costa do Sauípe e prestar mais atenção para evitar que o maior evento do futebol mundial arranhe a imagem do país. O risco não é pequeno. O PMDB mostra suas cartas - 1 Como observamos na coluna da semana passada ("O PMDB e PT condenados a viver juntos"), no atacado das eleições de 2014, os dois partidos, salvo algo inusitado, marcharão unidos na campanha para a reeleição da presidente Dilma. No varejo, no entanto, as divergências não são pequenas, e não apenas em relação às composições para as eleições para os governos estaduais. Um teme a rasteira do outro, pois ambos têm outro objetivo : formar as maiores bancadas na Câmara e no Senado. Para o PMDB é essencial ter maioria, principalmente no Senado, para manter pelo menos a presidência de uma das duas casas legislativas e continuar com um "forte apelo" ao Palácio do Planalto em prol de seus interesses na máquina Federal. Para o PT, conquistar a hegemonia no legislativo Federal, principalmente no Senado, significa livrar-se do que o petismo qualifica como "poder de chantagem" do peemedebismo. Com a presidência da Câmara e do Senado, Dilma, caso reeleita, ficaria livre de muitos sustos que costuma passar no Congresso. O PMDB mostra suas cartas - 2 A desconfiança do PMDB de que o PT está lhe preparando alguma armadilha não diminui depois do ágape partidário de sábado retrasado na Granja do Torto. Nenhum acerto em nenhum dos Estados onde o PT quer que o PMDB o apóie prioritariamente foi fechado de fato, nem no MA da família Sarney. Algumas insinuações em falas do ex-presidente Lula e do presidente reeleito do PT, Rui Falcão, deixaram os peemedebistas com um amontoado de pulgas atrás da orelha. Intrigou principalmente o dito meio solto de que o PT tem total fidelidade à permanência do vice Michel Temer na chapa da reeleição, mas que o PMDB parece às vezes não entender bem as coisas e pode complicar. Foi esta a razão para o PMDB não sair de sorrisos escancarados da reunião e para o silêncio de suas principais figuras sobre o que de fato acertou-se na Granja do Torto. Porém, bem ao seu estilo nada sutil, o peemedebismo deu o troco dias depois. O PMDB mostra suas cartas - 3 Inusitadamente, quebrando todas normas e praxes partidários, a bancada do partido na Câmara antecipou a recondução do deputado Eduardo Cunha para a liderança do PMDB na Câmara, decisão que as legendas só tomam, normalmente, em fevereiro, no começo da sessão legislativa. E foi por aclamação. Eduardo Cunha é aquele que nas hostes governamentais é mais conhecido como "o coisa ruim" tal a capacidade de causar embaraços para o Palácio do Planalto quando não se sente bem atendido. Sua mais recente façanha foi levar para o ano que vem a votação do Marco Civil na internet, projeto eleito como prioritário pela presidente. O recado do PMDB foi cristalino : antes de chegar a 2015 é preciso passar por 2014 e se o partido não for bem tratado não vai deixar por isso mesmo. Ele mostrou suas unhas, bem afiadas. O PT e sua natureza Já está disponível na rede o documento preliminar preparado pela direção do PT para ser discutido no 5º Congresso Nacional do partido marcado para esta semana, de quinta-feira a sábado (clique aqui). O documento que o Congresso aprovar servirá de base para as ações do PT nos próximos anos e balizará a campanha de seus candidatos em 2014. Um dos pontos centrais é a defesa de busca do "socialismo do século 21", a fase do pós-capitalismo. Três curiosidades a anotar e para meditar : 1. A defesa dessas posições, embora teóricas e feitas em grande parte para motivar os militantes, surge no mesmo momento em que a presidente Dilma faz um extraordinário esforço para convencer investidores externos e internos que seu governo não tem nada contra o capital privado e o lucro. 2. Em 2001, também em dezembro, no Recife, também em um Congresso Nacional, o PT aprovou também uma polêmica declaração, na qual, entre outras coisas, dizia ser contra "tudo que está aí". No auge da campanha de 2002, quando eram grandes as desconfianças de como poderia ser um governo Lula-PT, com o dólar subindo, o risco Brasil crescendo, o PT providenciou a edição da famosa "Carta aos Brasileiros", na qual renegava boa parte do que aprovar meses antes em Recife. 3. Há um trecho altamente enigmático, mas que parece uma insinuação contra a autonomia de alguns governantes eleitos pelo partido : "Governantes e parlamentares do PT, pressionados por seus afazeres institucionais, ganharam exagerada autonomia em relação à atividade partidária". É documento para causar muita polêmica, se Lula e seus pragmáticos não agirem para torná-lo mais light. A ocupação do Poder Sabe-se que o Poder não aceita "vácuos". Estes são ocupados por quem estiver a postos. José Dirceu está na prisão, Genoino também em prisão domiciliar e o mensalão ainda deixa rastros pelo PT, inclusive em função das novas denúncias publicadas pela revista Veja neste final de semana. Ao invés de se afastar destes tristes episódios, o PT fará em seu Congresso desagravos aos implicados nos fatos ilícitos. Todavia, a questão relevante é a seguinte : o PT nunca esteve sob o estrito controle de Lula da Silva. De agora em diante, a dinâmica petista dependerá, ao redor do seu maior líder, de novos atores a ensejar novas estratégias e políticas. Quem serão eles ? Não está claro por uma razão simples : dependerá do desempenho de "novos líderes" como Haddad, Padilha e Lindbergh Farias. Estes terão de se provar no governo e nas eleições antes de aparecerem perante Lula e a plateia petista. O PSDB e suas armadilhas Hoje à tarde em Brasília o senador Aécio Neves, com a presença anunciada de alguns dos grandes figurões tucanos e das bancadas da legenda na Câmara e no Senado, deverá anunciar o seu pré-programa de campanha, que está sendo classificado como uma carta de intenções, temas básicos para o debate eleitoral. O programa só será detalhado depois de abril. O evento de hoje traz dois desafios para o senador mineiro, o mais provável candidato do partido à sucessão em 2014 e para o próprio tucanato : 1. Mostrar que o partido vai unido para a briga sucessória, sem a fogueira de vaidades que o consumiu nas três últimas disputadas presidenciais. 2. Mostrar que o PSDB tem uma proposta de governo factível, clara, e que de fato é uma alternativa de poder e não apenas uma oposição fraca e em frangalhos. A "rebelião" na Fazenda Dez coordenadores do Tesouro Nacional, área vital do Ministério da Fazenda, se reuniram com o secretário do Tesouro Arno Augustin no dia 22/11. Ao que se sabe, foram se questionar os passos do secretário em relação a aportes e alocações de recursos a serem feitos e as necessidades de captação. Foi uma reunião tensa onde os técnicos foram incisivos a respeito de certas práticas de Augustin, economista responsável pelas manobras contábeis que tentam mascarar as contas públicas e com fortes laços com a presidente. Nada aconteceu em relação aos pontos discutidos. Na dúvida, os técnicos do Tesouro chamaram os jornalistas e, sem se identificarem, vazaram o conteúdo da reunião. Aí, ficou evidente de que se tratava de uma rebelião. A nota posterior, do dia 5/12, negou que houvesse rebelião mas, quem sabe das coisas de Brasília, o recado já estava dado. Do alto de sua posição quem saiu imediatamente em socorro do secretário não foi o seu chefe direto Mantega, mas a presidente Dilma a qual mandou que o ministro da Fazenda "controlasse" a turma do Tesouro. Mantega, suave pessoa que é, cumpriu a ordem. Ao final, o nosso leitor pode anotar : há inquietação dos técnicos do Tesouro com o custo da dívida interna por força das medidas adotadas por Arno, Mantega ficou, mais uma vez, desmoralizado pelas "ordens de cima" e Arno Augustin é forte no Planalto. Somente lá. Não é fato isolado Há pouco mais de um mês, esta coluna comentou que havia inquietação em algumas importantes áreas do governo, dentre membros do chamado "segundo escalão". Este é composto por técnicos concursados que ficam enquanto governos passam. Uma boa parte destes são "petistas de carteirinha", mas todos acabam se defrontando com a "realidade" que mora fora de Brasília. Assim sendo, quando não concordam com as políticas do governo acabam por registrar suas inquietações fora dos muros da capital Federal. É o caso da diplomacia, da Receita Federal, de técnicos do BNDES e do BC, etc. É certo que não somente em relação ao atual governo, mas em relação a qualquer outro, não é saudável que o segundo escalão se rebele contra aqueles que direta ou indiretamente tem um mandato originado pelo povo. A exceção é evidente : quando se praticam ilicitudes. Contudo, o fato é que esta camada do poder está se mexendo com riscos de tremores e erupções mais à frente. Desafios da diplomacia brasileira - 1 Nos próximos poucos anos, entre dois e quatro, o Brasil vai se defrontar com uma avalanche de mudanças no cenário das transações comerciais. Na área do Pacífico-Índico o acordo iniciado em agosto passado entre o Japão e a Índia alavanca as trocas entre um país emergente ávido por incrementos tecnológicos e outro que tenta baratear seus produtos sem colocar azeitonas na torta chinesa. Por sua vez a China está fazendo acordos por todos os lados : na Bacia do Pacífico firma sua liderança com novos acordos com a Indonésia e Filipinas. Na África avança celeremente com acordos bilaterais que lhe garantam matéria-prima. Mesmo na América Latina, Chile, Peru e Colômbia viram seus olhos para os EUA. Na semana passada, o acordo de Bali, cria um cenário de flexibilização alfandegária que estimulará a rapidez em novos acordos comerciais. Desafios da diplomacia brasileira - 2 Enquanto isso, está evidente que o Mercosul é um projeto incerto e, até agora, ineficaz para os interesses brasileiros. Argentina, Bolívia e Venezuela não são parceiros que nos levarão a novos patamares em matéria de comércio exterior. Não são apenas os aspectos políticos da questão que nos deixam vulneráveis perante estes países, mas a realidade objetiva : precisamos aumentar as trocas e, assim, facilitar a melhoria do conteúdo (tecnológico, por exemplo) de nossas exportações. O parágrafo único do artigo 4º da Constituição reza que o "Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações". A matéria constitucional não deixa dúvida sobre nossas prioridades formais. Contudo, à diplomacia brasileira caberá, à luz das restrições constitucionais, desembaraçar a questão e buscar saídas para o nosso cambaleante comércio exterior. Precisamos de saídas efetivas e não discursos ideológicos. Frase da semana Do deputado Henrique Eduardo Alves, presidente da Câmara dos Deputados e peemedebista de estirpe : "Feio é perder a eleição. Dentro dos critérios éticos básicos, devemos fazer tudo para ganhar." Radar NA REAL 6/12/13   TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo Juros ¹ - Pré-fixados NA alta estável - Pós-Fixados NA alta estável/alta Câmbio ² - EURO 1,3720 baixa baixa - REAL 2,3320 baixa baixa Mercado Acionário - Ibovespa 50.944,27 estável/baixa baixa - S&P 500 1.805,09 estável/baixa alta - NASDAQ 4.062,52 estável/baixa alta (1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais). (2) Em relação ao dólar norte-americano NA - Não aplicável
terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Política e Economia NA REAL n° 273

PT e PMDB : condenados a viver juntos - 1 Os dois maiores partidos da base aliada, juntamente com a presidente da República, o ex-presidente Lula e alguns ministros dedicaram o descanso de sábado para debater a aliança eleitoral para 2014. A nacional e as regionais. As informações a respeito do que ficou ajustado são divergentes no que tange aos acordos estaduais. Não têm solidez, porém, nem qualquer acerto feito na Granja do Torto nem qualquer desacerto pode ser impossível de ser superado. As definições dos palanques regionais na sua maior parte vão depender de muitas variáveis e só começarão a ganhar consistência entre abril de junho. Antes, são especulações. PT e PMDB : condenados a viver juntos - 2 O presidente em exercício do PMDB, por exemplo, saiu do encontro dizendo que Lula e Dilma haviam acertado o apoio do PT ao candidato da família Sarney ao governo do MA e à governadora Roseana ao Senado. Ruy Falcão, presidente do PT, rechaçou avisando que nada foi acertado. Óbvio, o adversário dos Sarney é o presidente da Embratur, Flávio Dino, do PC do B. E os comunistas do ministro Aldo Rebelo cobram do PT uma compensação para os anos de fidelidade ao petismo. No caso, a tática oficial é deixar andar para ver como fica. No Rio, também, a situação ficou confusa e a tática é a mesma. A informação é a de que o PT não abriu mão da candidatura do senador Lindbergh Farias. E que o governador Sérgio Cabral, peemedebista, insiste com a postulação de seu vice, Pezão. No impasse, teria surgido a possibilidade dos dois apoiarem um tertius, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, também peemedebista. Há, porém, um outro nó : o candidato mais bem cotado na pesquisa, até agora, é outro governista, o ministro da Pesca, Marcelo Crivella, do PR, o partido dos desejados evangélicos. PT e PMDB : condenados a viver juntos - 3 Esses desacertos, mesmo que muitos redundem em palanques estaduais duplos e pouco amigáveis, não vão prejudicar o acerto nacional. No campo da sucessão presidencial, PT e PMDB estão condenados a viverem juntos. O dote oferecido pelo PT é a vice-presidência para Michel Temer. O PMDB entra com um dote considerado preciosíssimo pelos marqueteiros : os minutos no horário eleitoral obrigatório no rádio e na televisão. Contas bem feitas, o dote do PMDB é maior. Boa parte dos peemedebistas não dá a mínima para o cargo de vice. Muitos dizem que o partido até perde com isso, pois quando reivindicam melhor distribuição de cargos recebem logo a advertência de que têm a vice. Ora, como lembra um bem humorado peemedebista, vice do Brasil "não dá nem nome de um mero beco em cidades do interior". Ademais, o PMDB joga um jogo no qual já sabe previamente que está nas finais : qualquer que seja o resultado da eleição presidencial, ele sabe que será peça essencial no futuro "governo de coalizão". A não ser que o partido não consiga bons desempenhos nas eleições estaduais : para os governos, Câmara, Senado e Assembleias Legislativas. Assim, queira ou não queira, o PT vai ter de fazer mais concessões nas alianças regionais com o PMDB. É isto que Lula tem dito (ordenado) a seus correligionários. Nessas circunstâncias, os Sarney dificilmente deixarão de levar a bola do PT no MA. Pesquisa : desastre para a oposição, alertas para Dilma - 1 Dilma entra a semana em meio estado de graça, para desespero da oposição. A mais recente pesquisa DataFolha, do fim de semana, indicou que a preferência dos eleitores por sua candidatura voltou a crescer, depois de um período estagnada em torno dos 35%. Nada ainda que a aproxime dos números anteriores aos barulhos de junho, mas uma recuperação que parece sustentada. Os sinais bons para a petista e aliados é um desastre para os oposicionistas em geral : estão perdendo fôlego, apesar das indicações de que a população continua preocupada com os riscos de inflação e o desemprego. O discurso oposicionista, repita-se o que se viu em outras pesquisas, não convenceu ainda de que é capaz de fazer melhor. Pesquisa : desastre para a oposição, alertas para Dilma - 2 O eleitor está naquela : entre o incerto e o conhecido, ele tende a ficar com o conhecido, mesmo que ele não esteja agradando muito. Apesar do alívio, Dilma vai precisar se precaver. Como na pesquisa anterior da CNI, já comentada aqui, a população continua insatisfeita : 66% dos entrevistados do DataFolha disserem que querem políticas diferentes da que está em uso. E, confirmando o que era fácil intuir, quando Lula é apresentado como candidato governista, no lugar dela, a intenção de votos dele é muito superior à da pupila : Dilma fica na casa dos 40% e Lula chega próximo aos 60%. Uma sonata nos ouvidos das viúvas do lulismo, no PT, nos partidos aliados, nos meios empresariais. A leitura mais possível de tudo isto : quem disser que sabe o que vai acontecer em 2014 ou está muito mal informado ou é apenas um torcedor. É agora ou agora Naturalmente vão crescer as pressões para Aécio Neves anunciar sua candidatura e mergulhar de vez na campanha. O mineiro vai anunciar lá pelo dia 15 seu programa de campanha. Terá de ser claro, simples, objetivo e com promessas factíveis. Mesmo assim, fica um problema : quem vai colocar o guizo no pescoço do José Serra. Os tucanos vão se afundando em suas eternas vacilações e enormes vaidades. Água e óleo Estava certo quem previu que na prática não seria nada fácil misturar o pragmatismo socialista do governador Eduardo Campos com os sonhos de Marina Silva. Os dois estão perdendo adeptos e diminuindo aos olhos de alguns eleitores. A dupla não apenas não se entende, assim como é completamente ausente das notícias do dia a dia, espaço vital para quem tem algo a dizer e é candidato oposicionista. Ao governo sobram erros e não há entre os pessebistas nenhum sinal de vida política que mereça registro. A coisa parece mal e sem saída clara até agora. Candidatos tutelados Na semana passada comentamos que cresce dentro do petismo e fora dele, sobretudo entre os empresários, a vontade de que Lula não deixe a atual presidente à solta no próximo mandato o qual, sendo o segundo, torna ela mais livre para exercer o governo que tem na sua mente. Não resta dúvida de que Dilma é uma política tutelada e com rédeas relativamente curtas. Afinal, não é alguém com experiência em campanhas e nem concepção política provada por eleitores, apesar de gostar de pregar verdades por todos os lados. De outro lado, temos Aécio Neves, que apesar de ser político de estirpe mais conhecida, neto de Tancredo e com trânsito congressual indubitável, também aceita passivamente a tutela intelectual e política da velha guarda do PSDB, liderada pelo octogenário FHC. Aécio Neves parece garoto de velhos recados quando fala de políticas públicas. Falta-lhe brilho próprio e uma agenda atualizada à realidade atual. Ademais, se associa à turma da "Casa das Garças" da PUC/Rio, a nomes como os de Armínio Fraga, Pérsio Arida e Edmar Lisboa Bacha, conhecidos como bons economistas, mas não necessariamente conhecedores de vastas áreas de políticas públicas, especialmente as sociais. Como dissemos acima, veremos em breve o seu programa eleitoral. Todavia, há muito espera-se que o mineiro conduza e não seja conduzido pelas velhas guardas que o cercam. A missão de Geraldo Alckmin Há algo de podre no reino paulista do PSDB. Não se sabe se as listas de possíveis corruptos do PSDB paulista são verdadeiras, mas que há algo errado não resta dúvida. As denúncias da Siemens, forjadas por um acordo judicial na Alemanha, são consistentes com os fatos que se viu e outros sobre os quais apenas se sente o cheiro. Aécio Neves cobrou explicações ao ministro da Justiça Eduardo Cardozo, mas deveria ir além. Vale cobrar do governador de SP Geraldo Alckmin uma investigação própria e profunda, mesmo que tenha de extirpar seus colegas de partido. Ninguém pode cobrar nada que não faça por moto proprio. As nuvens que recobrem o Palácio dos Bandeirantes não são de coloração diversa daquilo que se vê em outros recantos nacionais. Há algo de corrupto no ar. Vai bombar Após mais uma decepção com o resultado das contas públicas em novembro, o secretário do Tesouro Arno Agustin, o "maquiador contábil" mais requisitado de Brasília, voltou a garantir que a meta fiscal do governo Federal será cumprida este ano. Qual, exatamente, vai se saber no fim do ano : 3,1%? 2,3% ? 1,7%? 1,5% ? Não há dúvida que vai, com o apoio do R$ 15 bilhões do pré-sal que entraram em novembro e pelo menos mais R$ 16 bilhões do "Refis do Refis" da crise, acertos de bancos e grandes empresas com o fisco. Somente da Vale podem ser mais de R$ 5 bi. Para efeitos contábeis, assim, estará tudo certo. Porém, não significa nenhum esforço fiscal real, ou seja, racionalização de gastos, evitando as despesas mais supérfluas e priorizando os investimentos. Pelo andar da carruagem, os investimentos Federais este ano serão inferiores aos do ano passado.E certamente não será em ano eleitoral que o setor público vai mudar esse comportamento. A questão do "rebaixamento" do Brasil As agências classificadoras de risco (rating agencies) são daquelas empresas que relatam o risco depois de que este já ocorreu. São inúmeras provas disso, especialmente após a crise de 2008. Todavia, estas agências ainda gozam de certo prestígio dentre administradores de fundos e concessores de crédito - estes, ao invés de tomarem suas responsabilidades, acabam por se "esconder" por entre os relatórios da Standard & Poor's e Moody's. Há a dúvida recente se o Brasil terá a sua nota reduzida por estas agências. A opinião desta coluna é clara : não há razões objetivas para que isto ocorra agora. No futuro, será preciso reavaliar. Isso porque não há riscos substantivos de que o padrão de solvência do país piore nos próximos meses a ponto de justificar um rebaixamento. Cabe lembrar, neste particular, que as reservas externas do país e a dívida interna sob relativo controle evidenciam que a nota do Brasil é justa. De outro lado, lembramos aos nossos leitores que não se deve confundir solvência (em certo momento histórico) com boas práticas de política econômica. O Brasil abusa do déficit externo, da leniência com a inflação, com a incompetência na transformação estrutural da economia brasileira, com os ineficazes e elevados gastos públicos, por um sistema tributário projetado no Instituto Pinel, etc. Em outro momento histórico, mais a frente, estas más políticas destruirão a solvência brasileira. E muito mais. Mercado de Ações Que ano maravilhoso para o mercado acionário. Referimo-nos ao mercado norte-americano, é claro. Na semana passada, os índices S&P 500 e NASDAQ ultrapassaram os significativos patamares de 1.800 e 4.000 pontos, respectivamente. Um sinal consistente com a recuperação (ainda em curso) da economia dos EUA. Nas próximas semanas poderemos ter um período de "realização de lucros". Afinal, depois de tantos ganhos, há uma parcela relevante do mercado que acredita que os preços das ações estão elevados demais. No médio prazo, continuamos otimistas com o mercado acionário americano. Por aqui acreditamos que, estes sim, os preços das ações estão elevados e as perspectivas do país não são boas. O atual marasmo (em termos de preços) do mercado acionário está em linha com o desaquecimento global e com o fracasso da política de crescimento da presidente e ministra da economia Dilma Rousseff. O ano que vem será muito desafiador : o país pode começar a sofrer ainda mais com o padrão já velho das políticas públicas. PIB : decepção e aviso O PIB do terceiro trimestre, calculado pelo IBGE e que será divulgado nesta terça-feira, mostrará não apenas o colossal fracasso da política econômica do governo. Haveremos de verificar que neste número estão embutidos todos os riscos estratégicos do país na área econômica : pobreza tecnológica, excesso de regulação, excesso de tributação, crise de confiança, falta de competitividade internacional, ausência de parceiros externos confiáveis, custos de logística elevados, etc. Dilma e seu assessor Guido Mantega patrocinam a desindustrialização do país, mas apenas há três anos. O país está neste processo há três décadas e nenhum governante tomou as rédeas para mudar esta situação. Um novo enredo Diante dos sinais de que dois terços da população quer mudanças nas políticas em voga em Brasília - e não se trata da política dos políticos, mas da política que determina o bem estar dos cidadãos - o governo está em busca de uma nova "narrativa econômica" para começar 2014 e angariar eleitores. A "narrativa" ensaiada no ano passado está esgotada : perderam-se o discurso dos juros, da redução das tarifas, do consumo sem freios. E, principalmente, a de que o crescimento econômico seria retomado com vigor. Para o setor empresarial é tornar crível a política fiscal e afastar os riscos da tal "tempestade perfeita" que o ex-ministro Delfim Neto diz que pode se abater sobre o Brasil no próximo ano. A perda de confiança no governo, no entanto, não parece ser uma questão de "narrativa" e sim de esgotamento do modelo, sustentado pelo incentivo ao consumo e pelos gastos públicos. Privatizações, um alívio Depois de atrasos, decepções e insucessos totais e parciais, a presidente Dilma teve dois momentos de alívio no seu plano de privatizações : os leilões dos aeroportos do Galeão e de Confins e de um trecho da BR 163. Foi o suficiente para a ela exibir todo o seu estilo e gabar-se : "É o meu modelo". Os avanços são evidentes, porém, nem tanto ao mar, nem tanto a terra : as privatizações só começaram a deslanchar depois de profundas mudanças nas modelagens iniciais preparadas pelo governo. Se ficasse na teimosia anterior, estaria tudo parado ainda. Enfim, descobriram Incrível como pessoas que há anos militam nos meios jurídicos brasileiros, alguns com mais de 50 anos de experiência no ramo, com passagens por diversos governos, conselheiros de ministros e presidentes começaram agora a descobrir que o sistema prisional brasileiro é sub-humano. Nunca se viu tanta gente boa falando sobre isto, imprecando contra esta "maldade" como neste momento. Qual a razão deste milagre ? A flor da pele Boa parte das críticas - e a totalidade dos ataques - ao ministro Joaquim Barbosa, presidente do STF, por suas ações no mensalão não escondem um indisfarçável tom racista. E olha que vem de gente que se julga da mais fina estirpe, politicamente correta, não apenas de raivosos internautas. Só faltam dizer e escrever que "o ministro não reconhece o seu lugar". (Sobre o assunto há um excelente comentário do jornalista Carlos Brickmann em seu blog : "Os 50 tons de pele".) Um pouco de humor Do jornalista Ricardo Setti em seu blog no portal da revista Veja : "Não dá para resistir à piada : se o senador Eduardo Suplicy (PT/SP) continuar visitando diariamente o mensaleiro condenado José Dirceu na penitenciária da Papuda, no DF - vai ver que até cantando, de vez em quando, o Blowin' in the Wind de Bob Dylan -, o ex-ministro acabará por pedir uma mudança em seu regime prisional. Em vez do semiaberto, poderá até, quem sabe, solicitar uma temporada numa solitária." Radar NA REAL 29/11/13 TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo Juros ¹ - Pré-fixados NA alta estável - Pós-Fixados NA alta estável/alta Câmbio ² - EURO 1,3547 baixa baixa - REAL 2,3553 baixa baixa Mercado Acionário - Ibovespa 52.483,16 estável/baixa baixa - S&P 500 1.808,32 estável/baixa alta - NASDAQ 4.059,88 estável/baixa alta (1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais). (2) Em relação ao dólar norte-americano NA - Não aplicável
terça-feira, 26 de novembro de 2013

Política & Economia NA REAL n° 272

Última semana de novembro - 1  Nesta última semana de novembro, reuniram-se mais alguns fatos e atos que demonstram que o Brasil persiste a arranhar as melhores expectativas que dele podem se formar. Do ponto de vista econômico teremos a reunião do COPOM do BC que deve aumentar o custo do dinheiro e retornar à marcante taxa de juros básica de dois dígitos. Deste fato extrai-se a constatação do fracasso em relação à política monetária como instrumento efetivo a conter a inflação. O Governo persiste na estratégia de informar o público de que a meta em relação à variação dos preços está sendo cumprida, mas o que de fato se faz é abandonar o centro da meta de inflação e operar na "periferia do alvo" o que mexe não somente com as expectativas de curto prazo, mas, sobretudo com as de médio prazo. Esquecem os planejadores de Brasília que este discurso e estratégia acabam por elevar a resistência do tal do mercado em reduzir as taxas de juros. Tão simples de entender e o governo não entende. Última semana de novembro - 2 Do lado dos juros ativos dos bancos, o custo de empréstimos e financiamentos, o fracasso do governo é ainda mais retumbante. Nada conseguiu em relação à redução do spread bancário (lembram-se ?) e sequer foi capaz de chegar a um diagnóstico sobre o assunto. Esqueceu-se o assunto, assim como foi esquecido o PIB de 4,5% neste ano. Seria piada se não fosse interesse de nosso país. Mas, a Presidente da República e ministra da Fazenda Dilma Rousseff tem a sorte de fazer com que a letargia nacional não se torne motivo de maior desemprego. Somado a este fato as políticas ditas "sociais", bem como o alargamento da base de apoio dos políticos por meio de práticas (tristemente) históricas, a enganação nacional persiste. Afinal, quem se importa - no sentido de agir politicamente - com o maior déficit de conta corrente da história, o processo estrutural de desindustrialização, o atraso cambial, a compressão das tarifas públicas, etc. ? A sociedade brasileira aceita a "cristalização" de uma situação que joga o país no atraso, mas é bom que se saiba que há custos. Estes virão. Privatização dos aeroportos Faltaram os fogos de artifício para o governo completar a sua alegria em relação ao resultado do leilão que privatizou a concessão dos aeroportos de Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Foi um sucesso mesmo, temos de concordar com a Presidente da República. Não é apenas uma questão de ágio. É uma questão de acreditarmos que o cidadão vai ter algo melhor quando embargar e desembargar nestes aeroportos. De resto, teremos de verificar que o acordar do governo é tardio. Sequer a Copa do Mundo e as Olimpíadas serão atendidas com certa dignidade. O governo está descobrindo a roda. Que bom. Mais um pouco quem sabe consegue colocar um trem a vapor entre o Rio e São Paulo. Olimpíadas e Copa do Mundo Já se sabe que os nossos representantes não são afeitos a uma tarefa republicana mais nobre : a de fiscalizar. Fosse diferente os cidadãos (aqueles que votam) já teriam mais informações sobre a Petrobras, a CEF, o BB e o BNDES (este um cliente de carteirinha da Fazenda e que gosta de investir no setor de carnes e nas ações de Eike Batista). Cabe perguntar uma coisa a mais : há alguma atividade fiscalizadora no Congresso Nacional em relação aos gastos com o convescote futebolístico do ano que vem e das olimpíadas em 2016 ? Será que confiamos plenamente na capacidade divina do deputado comunista Aldo Rebelo ? Ou na sinceridade de propósito e nas informações do jovial presidente da CBF José Maria Marin e em seu colega do COB Carlos Arthur Nuzman ? Bem, temos a comissão do Ronaldo, não é mesmo ? Quantos votos ele recebeu nas últimas eleições ? Ainda sobre Genoíno e Dirceu - 1 Sérgio Buarque de Holanda, no seu Raízes do Brasil, dizia que a democracia no Brasil é um lamentável mal entendido. Vejamos se a cena não é a completa representação do que é o Brasil democrático. Cena 1 : Os principais presos pelos escândalos do mensalão entram na cadeia fazendo discursos patrióticos e levantando as mãos com os punhos fechados como se estivéssemos a caminho da revolução liderados, surpresa!, pelos criminosos que assaltaram os dinheiros públicos. Cena 2 : De outro lado, muitos políticos, ao invés de fazerem juras ao povo que os elegeram, fazem caravanas para se solidarizarem com os presidiários. Ao chegarem à Penitenciária com o sugestivo nome de "Papuda", encontram as famílias dos outros presidiários acampadas à espera da oportunidade de vê-los. A fila de visitas dos criminosos políticos anda rápida. A dos outros começa na madrugada. A Papuda virou centro de interesse político do Planalto Central. Ainda sobre Genoíno e Dirceu - 2 Sabe-se que José Genoíno está doente. Triste sina. Todavia, seu tratamento é VIP : advogado caro à disposição, hospital imediatamente provido e, de lá, prisão domiciliar. Difícil crer que a vida do presidiário, digamos, "comum", seja tão abonada. Há mais : o líder petista deve arrancar uma bela aposentadoria de R$ 26 mil/mês do Legislativo. (A coluna lembra ao deputado que ele não pode cumular este salário vitalício com o auxílio-reclusão. A lei não permite). José Dirceu tem pendores para ser executivo, comanda a cela e, segundo os jornais, mandou Delúbio Soares lavar a cela. A coisa parece séria. Tudo parece caminhar bem, não fosse o prejuízo deixado lá fora para os cofres públicos. Recomenda-se que José Dirceu tenha uma secretária para receber os seus colegas políticos. Dali poderá ligar para o Planalto, quem sabe ?! Pode ajudar muito na solução dos problemas carcerários do Brasil. As prisões brasileiras O Brasil é a quarta maior população carcerária do mundo. Cresceu mais de seis vezes desde 1990 (até 2012). Cerca de 40% dos quase 550 mil detentos não tem sentença definitiva - e não tem os caros advogados dos mensaleiros para pronunciar discursos sobre "estado democrático de Direito". Cerca de 195 mil dos detentos são presos provisórios (35% do total). O déficit de vagas é de cerca de 194 mil vagas. Uma imoralidade. Os dados são do Infopen do Ministério da Justiça e do professor Luiz Flávio Gomes. Relatório sobre a Papuda A coluna relaciona a seguir algumas das reclamações dos "detentos comuns" da Papuda, constante do "RELATÓRIO DE INSPEÇÃO EM ESTABELECIMENTOS PENAIS DO DISTRITO FEDERAL", realizado pelo CONSELHO NACIONAL DE POLÍTICA CRIMINAL E PENITENCIÁRIA e OUVIDORIA DO SISTEMA PENITENCIÁRIO/DEPEN do Ministério da Justiça em 30 e 31 de outubro de 2012 : Apesar da direção informar que o banho de sol é de duas horas diárias, afirmaram que este é de apenas 30 minutos e não é diariamente ; Dia de visita às quartas-feiras, no horário de trabalho ; Má qualidade da alimentação (às vezes, com insetos) ; Colchões insuficientes nas acomodações ; Banheiro entupido ; Agressão e ameaças que sofrem dos agentes penitenciários ; que estes utilizam gás de pimenta nas celas (nesse caso, enquanto os presos faziam essa reclamação, o chefe de segurança do estabelecimento se aproximou e ressaltou várias vezes que os internos da 1ª cela chegaram no dia 30/10, data da inspeção ; mas em outras celas essas reclamações se repetiram) ; Demora no atendimento à saúde e/ ou falta de atendimento médico (vários detentos com remédios controlados sem nenhum atendimento). Esperamos que os mensaleiros não passem o que os "comuns" passam, sob pena dos primeiros acabarem por conhecer a realidade brasileira, coisa que não parece ser um dever dos políticos. A palavra que ninguém quer pronunciar - 1 Ela não vem sendo pronunciada abertamente, mas vem se insinuando sorrateiramente no mundo dos partidos aliados, especialmente do PT e do PMDB, o líder e o segundo maior partido de sustentação do governo e que formarão a chapa para a disputa presidencial. A palavra que não quer confessar seu nome é : tutela. Esta vem sendo soprada não apenas para os partidos da coalizão, mas também para o público externo. Bem traduzida quer dizer o seguinte : não tenham medo, o segundo mandato da dupla Dilma Rousseff-Michel Temer não vai ser um ponto fora da curva. A palavra que ninguém quer pronunciar - 2 Duas razões levam a esse movimento tutelar : 1. Afastar de vez o zum zum estridente do "volta da Lula", que continua no ar mesmo com todas as demonstrações públicas de Lula de que está com Dilma e não abre. Certas ambiguidades de Lula, em conversas reservadas, alimentam esta expectativa (ou esperança), porém percebeu-se que não será fácil, caso se julgue necessário por alguma circunstância, afastar a recandidatura. 2. Afastar o risco, que também já vem se insinuando, de antigos parceiros no setor empresarial, abraçarem uma candidatura alternativa. Teme-se que Dilma, reeleita, sem compromissos com mais ninguém, sem nenhum outro projeto político pela frente, possa aplicar a "sua" política, coisa que não teria conseguido agora porque depende do Congresso, dos partidos e de Lula para se reeleger. A palavra que ninguém quer pronunciar - 3  Não é sem razão que certos encontros no Instituto Lula e certas ações deste, quando passa por Brasília, calam fundo - e mal - no mundo dilmista. Agora, por exemplo, o motivo de irritação são insinuações nos jornais de que o ex-presidente estaria interferindo diretamente na composição do novo ministério que a presidente deverá inaugurar provavelmente em janeiro. Nesta linha está também a movimentação do ex-ministro Antonio Palocci no meio empresarial. Antes, os motivos de mal estar foram a tentativa de patrocinar a substituição de Guido Mantega no Ministério da Fazenda e o patrocínio de Lula, pouco disfarçado, para a votação no Congresso do projeto do senador Francisco Dornelles, dando autonomia ao Banco Central. Recuperar a confiança Dilma até conseguiu que os partidos aliados, por seus presidentes e por seus líderes na Câmara e no Senado assinassem uma espécie de pacto antigastança : eles se comprometeram a não votar, agora, uma pauta de "bombas fiscais" no Congresso, com aumento de despesas que chegariam a R$ 60 bilhões/ano. Porém, em seguida, induzida pelo Palácio do Planalto, a base aliada no legislativo aprovou uma proposta que desobriga Brasília a cobrir o eventual (e atual) superávit/déficit primário que os estados e municípios não conseguirem entregar. Na prática, isto significa reduzir a economia oficial para pagar juros e evitar o aumento da dívida pública. Antes, o governo já havia aceito, em nome da paz aliada - e de apoio nos palanques -, o chamado "orçamento impositivo" para as emendas parlamentares. Com um aumento dessas verbas. Ou seja, além da dar mais dinheiro para as emendas, quase nunca dirigidas ao que é urgente e necessário, ele não poderá mais suspender sua liberação. Dando com uma mão e tirando com duas, dificilmente Brasília conseguirá convencer os agentes econômicos que vai ser mais austero com os gastos públicos. Ainda mais em plena temporada reeleitoral. Esse cara sou eu O líder do PMDB na Câmara, Eduardo Campos, o tal "coisa ruim", assegura, ao contrário do que diz o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que no pacto fiscal assinado na semana passada, não está incluída a proposta de mudança na rolagem a dívidas dos Estados e municípios. Cunha, cuja voz no Congresso anda falando cada vez mais alto, garante que o projeto será posto em votação ainda neste ano. Ao mesmo tempo, governadores e prefeitos, preparam-se para pressionar o Congresso a aprovar a proposta, que traria um bom alívio para suas combalidas contas. Este vai ser o grande texto do pacto fiscal. As pressões, neste caso, são suprapartidárias, com boas possibilidades de comover deputados e senadores. O empenho de prefeitos e governadores é mais importante nas eleições legislativas que a campanha presidencial. Deputados principalmente, se não estiverem nas graças dos governadores (e dos candidatos a tal) e dos prefeitos terão mais dificuldades para angariar votos e se eleger. Por isto, Eduardo Cunha tem a força. Efeito Orloff ? Preste-se atenção : pressionada pelas urnas e pela insatisfação do empresariado, a presidente Cristina Kirchner, da Argentina, trocou a base de sua equipe econômica. Informações procedentes de Buenos Aires indicam que o radicalismo anterior será atenuado, aos poucos. Vai mudar alguma coisa, nem que seja, como ensinava o príncipe Salinas, personagem de "O Leopardo", de Lampedusa, "para as coisas permanecerem como estão". Enquanto isto, em um país mais tropical que a Argentina, as pressões para que a política econômica volte aos eixos do primeiro governo Lula, por sua vez uma continuidade da última fase do segundo governo FHC, estão crescendo. Será para valer ? - 1 O pré-candidato tucano à Presidência da República, Aécio Neves, está prometendo para dezembro apresentar o esboço de seu programa de governo. Até agora ele tem sido cauteloso, repetitivo de velhos chavões e óbvio em suas manifestações a respeito do que pretende fazer se for ungido candidato em 2014 pelo PSDB e conseguir se reeleger. Sabe-se que ele está tendo o preciso auxílio de alguns formuladores do Plano Real e de componentes das equipes de Fernando Henrique Cardoso em seus dois mandatos. O próprio FHC tem orientado alguns dos passos do senador e ex-governador mineiro. Será para valer ? - 2 Até a posse terão se passado 12 anos desde que os tucanos deixaram o Palácio do Planalto nas mãos do PT. De lá para cá o Brasil mudou muito. Positivamente em muitos aspectos, negativamente em outros. Além do mais, a economia está numa encruzilhada : ela pode até se livrar de um ajuste duro em 2014, mas em 2015 as coisas terão atacadas como elas realmente são. Vão os tucanos inovar ou virão com "mais do mesmo" dos tempos de FHC ? A mesma questão pode envolver a dupla Eduardo Campos-Marina e o projeto de reeleição de Dilma. O Brasil está carente de inovação e imaginação em matéria de política e de economia. Os mantras entoados, de todos os lados, são praticamente os mesmos de 15, 20 anos atrás. Mas, quem vai ser o primeiro a colocar o guiso no pescoço de eleitor e avisar que 2015 vai ser um ano de ajustes e sacrifícios ? Mea culpa ou explicação para consumo eleitoral ? Do documento preliminar preparado para ser debatido no 12º Congresso do PT, em dezembro : "Não é fácil para o partido (...) realizar a complexa tarefa de apoiar seu governo e, ao mesmo tempo, empurrá-lo para além dos limites que lhe impõe a conjuntura e instituições, muitas vezes arcaicas. (...) Embora crítico à conciliação que tem marcado a história do Brasil (...) o partido é ainda prisioneiro de um sistema eleitoral que favorece a corrupção e de uma atividade parlamentar que dificulta a mudança." Frase da semana De um cínico observador da cena nacional : "Como querer que o Brasil seja um país politicamente correto quando sua política é tão absolutamente incorreta ?" Radar NA REAL 22/11/13   TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo Juros ¹ - Pré-fixados NA alta estável - Pós-Fixados NA alta estável/alta Câmbio ² - EURO 1,3514 estável/baixa baixa - REAL 2,2893 estável/baixa baixa Mercado Acionário - Ibovespa 52.800,74 estável/baixa baixa - S&P 500 1.804,76 estável/baixa alta - NASDAQ 3.991,65 estável/baixa alta (1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).(2) Em relação ao dólar norte-americanoNA - Não aplicável
terça-feira, 19 de novembro de 2013

Política e Economia NA REAL n° 271

Mensalão : não resta nem a lição - 1 Há certa pregação midiática e, até mesmo, nos eventos corporativos e informais, no sentido de que o mensalão é um marco contra a corrupção. Não é. Já se provou ao longo de toda a história brasileira que a política nacional está mais para Macunaíma do que para qualquer vã filosofia. Fosse diferente, Fernando Collor, personagem do único impeachment republicano, teria servido como exemplo para que o jogo de roubar o Erário se tornasse algo menos vulgar. O mensalão de fato tornou-se a principal lembrança do governismo petista, mas Lula naquela ocasião soube sair-se bem com o seu governo. Pela porta da frente, diga-se. A sociedade brasileira não é apenas negligente em relação à política. Passou ao estágio de descrente, senão conivente. Há uma desmobilização imensa dos movimentos sociais que, mesmo saindo às ruas, não sabem aonde ir. Além disso, quem tem voto no Brasil tem como principal predicado o poder de encastelar seus pares no Estado. Daí, apenas segue as tendências majoritárias ou opera contra para obter outras facilidades. Se assim não fosse, não haveria tantos "partidos penduricalhos" dos poderes espalhados pelo território nacional. Mensalão : não resta nem a lição - 2 Há, ainda, o absurdo, o exótico, o inacreditável. Veja-se, por exemplo, a mão erguida de José Dirceu e José Genoino. Um gesto de revolucionários no corpo de dois políticos que vão para a cadeia em função dos descalabros que cometeram. Nada a ver com revoluções, Che Guevara ou Lênin. Até Delúbio Soares, este mesmo, o tesoureiro, arriscou-se a soltar pelo Twitter palavras que evocam o sentimento de patriotismo. Sinceramente... Há algo de absurdo no reino de Momo. A sessão do STF que decidiu pelas prisões foi de teor jurídico duvidoso, passando por tiradas de humor peculiares e um certo sentimento de que não se sabia ao certo o que estava sendo decidido. Atitudes que dão margem aos reclamos da penca de advogados que acompanham os poderosos. Um fato como o "mensalão" deveria ser ocasião para se criar e promover instituições republicanas. O que se vê é uma reforma eleitoral fastigiosa de interesse público em meio às negociações eleitorais que fazem que a presidente da República aplaine a maquiagem três vezes ao dia, conforme o público que vai se defrontar. Nunca a política foi tão necessária ao Brasil. Nunca foi tão escassa. Mensalão, política e eleição - 1 Não se espere da presidente Dilma e de seus ministros - mesmo cobrados pelo PT - qualquer manifestação pública, oficial ou oficiosa - a respeito da prisão dos condenados do mensalão. Também não se espere do ex-presidente Lula nenhuma declaração mais contundente sobre o julgamento dos mensaleiros e das primeiras prisões, além de ambíguas manifestações, como as da semana passada, quando num dia disse que em algum momento poderia contar o que sabe sobre o mensalão e no outro disse que quem era ele para comentar decisões do Supremo. Também ainda não se espere movimentos públicos do PT oficial para defender seus líderes condenados e presos. A indignação da cúpula petista vai se resumir a notas oficiais e declarações formais. As manifestações mais duras serão de petistas mais ligados ainda ao passado do partido, não aos pragmáticos de hoje. Mensalão, política e eleição - 2 Para Dilma, Lula e o PT quanto mais cedo e com menos estardalhaço esta página triste da história do partido for virada melhor. Nem mesmo da oposição deve se aguardar grandes comemorações pelas prisões que expuseram certas entranhas petistas. Vai haver algum barulho, cobranças, ironias, dentro de certos limites. Afinal, a corrupção pública no Brasil tornou-se ecumênica, como mostram a existência do mensalão mineiro, a história da máfia dos fiscais paulistas, o caso Siemens, as aventuras cabralinas no RJ e uma centena de casos maiores e menores que, se listados em sua extensão, tomariam todo o espaço desta coluna. Ninguém se arriscará a jogar a primeira pedra. O discurso ético, embora não tenha perdido força junto à sociedade, perdeu apelo eleitoral. A eleição presidencial - as pesquisas indicam cada vez mais isto - será definida pelo que vagamente poderemos chamar de "sensação de bem estar" da população. Uma soma de emprego, poder de consumo e satisfação (ou insatisfação) com os serviços públicos. Lula e seu desafio Uma das missões de Lula nesta fase da campanha eleitoral será trazer o coração dos empresários para mais próximo do governo e da presidente Dilma. Um desafio e tanto : é cada vez maior - e mais perceptível - a ruminação empresarial contra o estilo da presidente, a ambiguidade de sua política econômica e o discurso arrevesado, que promete e diz uma coisa e na prática faz o contrário. Expectativas em concordata Depois do PIB do BC (tido como uma prévia do PIB oficial do IBGE) de negativos 0,12% para o terceiro trimestre do ano, praticamente consolidou-se entre analistas e gestores de empresa a convicção de que, a economia brasileira cresce este ano os 2,5% que o próprio BC vem projetando e o ministro Guido Mantega passou a admitir ultimamente. Deteriorou a expectativa para o ano da graça eleitoral de 2014 : tirando as fontes oficiais, que ainda fazem a conta de 3,5% para o PIB do ano que vem, a maioria quase absoluta dos especialistas diz que o movimento da economia nacional será mais lento que o deste ano. A média das previsões já está em torno de 2%. Tudo vai depender do comportamento da inflação, da necessidade que o BC tiver de manipular a taxa de juros para não deixar os preços ao léu em ano eleitoral. Do lado das contas públicas, Alexandre Tombini e sua turma não devem esperar grandes colaborações. Este é o dilema : como fazer uma política mais restritiva para não deixar a inflação corroer salários, renda e empregos e alimentar os apetites eleitorais por mais gastos públicos ? Graça versus Mantega Sexta-feira tem reunião do Conselho de Administração da Petrobras, presidido pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. Ele e a presidente executiva da empresa, Graça Foster, chegarão finalmente a um acordo sobre o aumento da gasolina e do óleo diesel. Graça olha a contabilidade da empresa e o aumento já é um gatilho para reajustes periódicos e automáticos daqui para frente. Mantega olha a inflação e só quer acertar os preços dos combustíveis quando os preços gerais derem uma folga. A arbitragem, naturalmente, é da presidente Dilma - sem sinais visíveis de que para que lado ela penderá. Mas a comunidade petrobrina está em ebulição com os prejuízos econômicos e para a imagem da estatal. A responsabilidade de Haddad - 1 Não devem estar sendo muito felizes os últimos dias do prefeito de SP, Fernando Haddad. Aliás, pode-se dizer que este seu primeiro ano na frente da maior prefeitura do país não está sendo dos mais auspiciosos. O caso da máfia dos fiscais, que começou a ser deslindado a partir de uma corregedoria por ele mesmo instalada, mas que acabou respingando em seu próprio governo, forçando o afastamento de um de seus principais secretários, é apenas o mais recente problema que está tendo de administrar. Eleito para administrar uma prefeitura quase falida, coisa que certamente não ignorava, e com um caminhão de promessas despejado sobre a população de SP, contava com a boa vontade financeira de Dilma em Brasília e o amparo político do PT. Até agora não viu muito a cor do dinheiro brasiliense em seus cofres. Assim, foi forçado (ou orientado) a ampliar o buraco nas contas oficiais não aumentando as passagens de ônibus em janeiro e depois sustando o aumento em junho. A responsabilidade de Haddad - 2 Quando imaginou engordar um pouco os seus cofres, com o polêmico aumento do IPTU, não teve a solidariedade dos seus, pelo contrário, foi tachado como politicamente desastrado. Quando destampou, corretamente, o escândalo da máfia dos fiscais, foi discretamente admoestado pelos companheiros porque acabou criando atritos com o ex-prefeito Gilberto Kassab, um parceiro tido como essencial, pelo seu tempo no rádio e na televisão, na aliança nacional que vai tentar reeleger Dilma Rousseff para mais um mandato no Palácio do Planalto. Haddad foi eleito para ser um dos símbolos do novo petismo : testar a "nova forma de governar do PT" e alinhar-se na futura geração de petistas para ocupar cargos executivos mais elevados. Sua gestão era uma das vitrines que o PT pretendia apresentar em 2014 para dar mais votos a Dilma em SP e tirar os tucanos do Palácio dos Bandeirantes, onde estão encastelados há mais de 20 anos. Depois de tantas, está solitário e no limbo. Discretamente, Lula e o PT discutem como ajudá-lo. Uma ajuda com jeito de tutela. Armas para Marina O crescimento de 28% no desmatamento da Amazônia em 12 meses é tudo o que a presidente Dilma Rousseff não precisava agora quando busca ações e políticas urgentes para neutralizar o discurso ambientalista da ex-ministra Marina Silva, no momento a pessoa mais capaz de causar estragos no projeto reeleitoral do PT. Para equilibrar o jogo Dilma teria de formatar um discurso mais forte nesta área, o que poderia indispô-la com o agronegócio. Eduardo Campos está sentindo o peso dessas posições. O que vale mais : o voto ambientalista ou o voto ruralista ? Ele é o homem Segundo colunista de "O Globo" Jorge Bastos Moreno, ele é conhecido no Palácio do Planalto, em algumas rodas em Brasília, como o "coisa ruim" tantas apronta. E apronta há muito tempo, não é de hoje. Se Eduardo Cunha merece o epíteto, é uma questão de ponto de vista. A verdade, porém, é que ele é hoje o mais importante e influente parlamentar do PMDB e do Congresso. É ele quem dá as cartas, se o deputado do PMDB fluminense não quer, não acontece. É ele que controla o PMDB parlamentar. Não tem Temer, não tem Renan, não tem Henrique Alves, não tem Sarney. Agora mesmo, sozinho, segura o Marco Civil da internet. É para pior Pode sair nos próximos dias uma minirreforma eleitoral para valer ainda para as eleições de 2014. Não tem nada de bom, só facilita a vida dos políticos. Principalmente naquele item para lá de perigoso : o financiamento da campanha. Será, se passar, mas um liberou geral. Nenhum comentário a mais. Jango O retorno do presidente da República João Goulart à Brasília foi simbólico e republicanamente importante. A presidente Dilma bem fez em fazer aquela recepção de Estado. A ironia é que o Brasil reconcilia-se com a história com atraso monumental. Não à toa os arquivos da ditadura militar de 1964 nunca se abrem. Ficam à espera das múltiplas e ineficientes "Comissões da Verdade" espalhadas por municípios, Estados e na União. Jango pelo menos tem a chance de ter a sua morte explicada. Para o país e para os seus. Mas, as ironias espalharam-se na chegada da urna funerária de Jango : a linha de frente da comitiva presidencial tinha composição luminar. Vejamos : José Sarney, umbilicalmente ligado ao regime militar que exilou Goulart, pontificava como naqueles tempos nebulosos. Fernando Collor de Mello, ex-membro do partido político do regime militar e impedido pelas denúncias de corrupção, olhava firmemente a chegada do corpo de Jango. Lula da Silva, este que julgou Sarney tão importante quanto Ulysses Guimarães para a consecução da Constituinte de 1988, esta que enterrou a ditadura, possivelmente só pensava nas alianças eleitorais enquanto assistia à cerimônia. De Jango para quem ? Disse Jango no famoso comício da Central do Brasil em 13 de março de 1964 : "A democracia que eles desejam impingir-nos é a democracia antipovo, do antissindicato, da antirreforma, ou seja, aquela que melhor atende aos interesses dos grupos a que eles servem ou representam". Radar NA REAL 15/11/13   TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo Juros ¹ - Pré-fixados NA alta estável - Pós-Fixados NA alta estável/alta Câmbio ² - EURO 1,3511 baixa baixa - REAL 2,2670 estável/baixa baixa Mercado Acionário - Ibovespa 53.451,60 estável/baixa baixa - S&P 500 1.798,18 estável/baixa alta - NASDAQ 3.978,32 estável/baixa alta (1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais). (2) Em relação ao dólar norte-americano NA - Não aplicável
terça-feira, 12 de novembro de 2013

Política e Economia NA REAL n° 270

EUA : Alto desempenho e alguns riscos - 1 Para quem duvida da recuperação da maior economia do mundo a divulgação do PIB do terceiro trimestre do ano (= 2,8% em termos anualizados) foi um banho de água fria. Para os que creem na recuperação o dado não foi apenas um alívio em relação ao passado recente, mas uma sólida esperança no médio prazo. A economia dos EUA está a crescer de forma consistente, com aumentos sucessivos na taxa de consumo e crescentes indicadores de investimento. O mundo agradece, pois a elevação da demanda norte-americana tira, por ora, os maiores temores em relação à redução da atividade econômica chinesa. Não à toa o mercado de ações dos EUA apresentou elevação de 28%, medido pelo índice S&P 500. Trata-se do terceiro melhor desempenho durante um segundo mandato presidencial desde os anos 1930. O conservador Obama faz companhia a seus antecessores Clinton e Reagan. Este espetacular desempenho não indica a existência de uma "bolha especulativa", mas um saudável desempenho conforme indicamos. Ou seja, a política de estímulos monetários e fiscais preconizada desde o governo Bush faz sentido e coloca os republicanos do "Tea Party" sob tiroteio da opinião pública. EUA : Alto desempenho e alguns riscos - 2 Para o Brasil a recuperação norte-americana é, de um lado, uma boa notícia. Isso porque a economia mundial precisa de alentos de demanda o que ajuda as nossas commodities. De outro lado, aumentos de demanda implica em preocupações com (i) a sustentação da política de estímulos fiscais dos EUA e (ii) a elevação da taxa de juros básica. Logo, a equação econômica que combina alta da demanda com elevação dos juros e menos déficit público irá irremediavelmente aumentar o valor do dólar norte-americano. Serão as moedas dos chamados "emergentes" as maiores prejudicadas com a alta do dólar. O real é uma delas e tem a sua situação agravada pela política fiscal frouxa adotada pelo governo, bem como pela ausência de crescimento econômico, sobretudo devido ao baixo nível de investimento. Cabe-nos prestar a atenção para a nova dinâmica da economia brasileira pela qual uma maior pressão cambial gera mais inflação e debilita mais a confiança e eleva os juros. Uma delicada administração econômica que cabe ao ministro Mantega e sua equipe acostumada a ventos mais favoráveis. PIB do terceiro trimestre e gastos de Natal Já não se acredita que da cartola do ministro Guido Mantega saia alguma visão estratégica consumada em política pública que alavanque o crescimento do PIB. Falta a equipe governamental, do Planalto até o Ministério da Pesca, a adoção de políticas públicas que tenham objetivos consistentes no longo prazo. Estamos na era do arranjo eleitoral, da imagem retocada do PAC tal qual a maquiagem da presidente Dilma nos eventos públicos dos quais participa cada vez mais. Pois bem : a divulgação do PIB do terceiro trimestre deste ano mostrará um crescimento próximo de zero e consolidará a ideia de que o país não passa de 2,5% de crescimento este ano. Triste foi a sina da previsão de crescimento de 4% de Mantega para este ano. Os indicadores antecedentes do BC já mostram a permanência de uma economia atolada neste e no próximo ano. Ademais, 61% dos brasileiros, segundo a ANEFAC, devem reduzir dívidas ao invés de gastar o 13º salário em presentes. Um comportamento prudente e necessário enquanto o emprego é elevado. A utilidade (duvidosa) do discurso contra a imprensa - 1 Depois de algum tempo em recesso, o influentíssimo (ainda?) secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, reapareceu com toda a força à luz do dia para, numa ação orquestrada com os ministros Guido Mantega e Gleisi Hoffmann, explicar para a plebe ignara que o déficit primário de setembro não foi bem déficit primário e que as contas fiscais vão bem obrigado. Num mesmo dia da semana passada, os três apareceram em três dos principais diários brasileiros exorcizando esse "terrorismo". Augustin, com grande imaginação, bem ao estilo dos cultores das teorias conspiratórias da história, encontrou um "ataque especulativo" ao déficit público. A teoria fez tanto sucesso que o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, dias depois, também vislumbrou o mesmo tiroteio assestado para sua entidade. A utilidade (duvidosa) do discurso contra a imprensa - 2 Lula, nos últimos tempos uma espécie de "ombudsman-mor" da imprensa brasileira, está fazendo escola. Na especulação "augustinina", a conspiração envolveria os meios de divulgação por divulgarem os dados das contas oficiais com destaque, jornalistas que esmiúçam os números e analistas (economistas de preferência) que chamam a atenção para o problema. Nesta lista (que a presidente Dilma Rousseff classificaria provavelmente de pessimistas), nas últimas semanas poderia até ser incluído o ex-ministro Delfim Neto, conselheiro informal do Palácio do Planalto, que em artigos e em entrevistas tem feito alertas bem explícitos a Brasília. O objetivo dessas ofensivas é claro - tentar desviar a atenção do foco da questão e das cobranças. Na mesma linha pode-se enquadrar a declaração do ministro Mantega de que a inflação de outubro, de 0,57% foi um "bom resultado". A utilidade (duvidosa) do discurso contra a imprensa - 3 Este "ataque especulativo" ao "ataque especulativo" é perda de tempo. As pessoas que sabem a importância de um política fiscal equilibrada para o bom andamento da economia não precisam necessariamente das informações da mídia para saber se as contas públicas vão bem ou mal das pernas. Quem é atacado pela inflação não precisa ler nos jornais matérias sobre os preços para saber quanto isto lhe dói no bolso. O mesmo vale para notícias sobre possíveis ameaças ao emprego ou outros "terrorismos" que os jornalistas registram. As pessoas sabem e sentem. Basta ver o que registra a última pesquisa do Instituto MDA para a Confederação Nacional dos Transportes (CNT) no quesito em que se levantava o grau de preocupação dos entrevistados com relação a alguns problemas do seu dia a dia. Vejamos. Questão : você está muito preocupado ou nada preocupado... 1. Com a Inflação : muito preocupado 53,7% x nada preocupado 15,5%. 2. Com o crescimento econômico: muito preocupado 44,1% x nada preocupado 16,9%. 3. Perda de emprego : muito preocupado 59,6% x nada preocupado 18%. 4. Com as dívidas : muito preocupado 63,4% x nada preocupado 16,5%. 5. Com o custo de vida : muito preocupado 73,4% x nada preocupado. 6. Com a violência : muito preocupado 91,5% x nada preocupado 1,4%. 7. Com a corrupção : muito preocupado 83% x nada preocupado 4,5%. 8. Com o transporte urbano : muito preocupado 54% x nada preocupado 14,4%. 9. Em cidades de mais de 100 mil habitantes. Você enfrenta congestionamentos em sua cidade ? Sim 76,1% x Não 23,9%. (Resumo feito pelo vereador e economista carioca César Maia) Prendam o fiscal ! A presidente Dilma Rousseff atacou o TCU por ter sugerido ao Congresso Nacional a paralisação, por diversas irregularidades, de sete obras Federais, entre elas um trecho da transposição do Rio São Francisco e outro da ferrovia Norte Sul. Segundo a presidente, isto não deveria ocorrer porque traz mais atrasos e prejuízos. Não seria melhor corrigir os defeitos apontados pelo Tribunal e daqui para frente fazer projetos mais detalhados ? Para os ministros do TCU os problemas surgem quase sempre por falta de projetos executivos bem feitos - trabalha-se em cima de esboços. Daí, faz-se aditivos e correções financeiras ao longo da execução do projeto. Mas o ataque ao TCU pode ser útil na campanha eleitoral : quando a oposição, como já vem ensaiando, falar em atraso de obras, o culpado já está à mão. Respeito às instituições Sobre as queixas de Dilma, trecho de um artigo escrito pelo jurista Carlos Ari Sundfeld para o jornal O Estado de S. Paulo : "(...) Existem normas jurídicas e instituições bem organizadas para proteger o interesse público. A presidente da República, ao invés de colocá-la em dúvida quando estão funcionando normalmente, devia respeitá-las e valorizá-las". Eleição no PT, fraqueza na oposição Ninguém pode acusar o PT de não ter uma razoável dinâmica interna no partido que combina a consulta aos seus membros e o debate de diferentes correntes regionais (especialmente no RS) e ideológicas. Sendo o partido do governo, a corrente majoritária liderada por Lula da Silva pode ajustar posições no Executivo que geram fidelidade aos desígnios de seu maior e único grande líder. Obviamente há acusações de uso da máquina de governo para fins pouco republicanos, mas quase todo partido que aquinhoa o poder faz a mesmíssima coisa. A oposição de outro lado, sobretudo o PSDB, continua com as suas disputas que combinam egos complicados e ausência de projetos e discursos. Ou alguém pode identificar com clareza o que separa, na essência, Aécio Neves de José Serra ? Claramente, a oposição perde pontos junto ao eleitorado, sobretudo à classe média constrangida em termos de renda, impostos, acessos ao investimento público, etc. Lula, com seu faro afiado e competente sabe disso. A oposição percebe esta realidade, nada faz para mudá-la. Lula e Padilha Fernando Haddad, o alcaide paulistano, encontrou um discurso a partir da divulgação dos descalabros da corrupção entre os fiscais do Erário municipal. O prefeito pode até perder o apoio do partido do ex-prefeito Gilberto Kassab, para quem sopram ventos acusatórios (e ainda sem confirmação efetiva), mas ganhou pontos junto à população da capital paulista. Sua gestão é um lodo de falta de mudanças imediatas e uma torrente de aumento de impostos, mas os efeitos destes virão mais intensamente quando a população receber os boletos dos impostos no ano que vem. Haddad é uma aposta de Lula que agora, refrescado pela ausência de uma oposição bem posicionada, vai lançar o Ministro da Saúde Alexandre Padilha ao Bandeirantes. Geraldo Alckmin parece ter se preparado nos corredores dos acordos partidários, mas ainda não se sabe se combinou com o distinto eleitor que o vê como um governador desgastado pelo tempo e pela ausência de inovação. Será uma eleição disputada, mas a última fronteira da oposição do país pode ser quebrada com consequências ainda inéditas na era Lula. A maldição da campanha das eleições Não se sabe se o ex-presidente Lula - pelo menos não publicamente - está arrependido de ter antecipado o debate da sucessão presidencial. É bom lembrar, embora alguns tentem reescrever os fatos, que foi Lula que deflagrou o processo, no início do ano, quando em SP, depois de uma de suas conversas com a presidente Dilma Rousseff disse que ela era a sua candidata. A manifestação de Lula veio depois de um discurso de Dilma na televisão, seu primeiro discurso eleitoral nesta fase na qual, a partir de então, toda aparição pública da presidente tem cheiro de urnas. O discurso de Dilma, então, foi visto como uma reação dela aos primeiros movimentos do "volta Lula" que vai e vem ocupam os políticos e empresários saudosistas. Agora está de novo se aquecendo. Se Lula não se arrependeu, deveria estar arrependido. Desde então, na política, seja no governo seja na oposição, nenhum passo é dado sem que a miragem das urnas esteja no horizonte. Um indício de dias piores ainda virão, especialmente em 2015 de anos seguintes. Nada como esta discussão fora do tempo para ilustrar o divórcio entre o Brasil da política e o Brasil que trabalha. A ilusão da "nova" classe média Dados do irrepreensível IBGE, no estudo "Aglomerados Subnormais - Informações Territoriais" - indicam que há ainda no Brasil 11.425.644 brasileiros (cerca de 4 milhões de famílias) vivendo em construções precárias e que não obedecem às regras de planejamento urbano. Ficarão ainda, por muito tempo, fora do alcance das políticas habitacionais oficiais. Em tempo : como diz o jornalista José Simão, o IBGE "tucanou" a favelas. "Aglomerados subnormais" nada mais são, sem fantasias linguísticas, que favelas, mocambos e assemelhados. Apesar desta realidade ainda se fala numa "nova" classe média. O Brasil continua com desigualdades humilhantes. A política faz política. Falta de curiosidade generalizada Descobre-se agora que empresas de Eike Batista receberam injeções de recursos do FI-FGTS. Sabe-se que o BNDES e CEF também tem ativos nas combalidas empresas de Batista. Dinheiro público e recursos advindos dos trabalhadores foram dispensados ao capitalismo de Eike. Incrível que não se vê nenhuma iniciativa organizada para se investigar se as instituições governamentais tiveram o correm o risco de ter prejuízos com os planos do ex-milionário mundial. Há alguma coisa que impede os políticos de verem, os fiscais de fiscalizarem e os envolvidos de se manifestarem a respeito. Ou tudo deve estar dentro da normalidade... O Congresso e suas ameaças Algumas pessoas no Brasil dizem que uma dádiva dos céus é o hábito dos deputados e senadores dedicarem com excesso de parcimônia ao trabalho diário. Quanto menos eles trabalham, menos o Brasil corre riscos de retrocessos políticos e econômicos. O recesso parlamentar seria uma dádiva, portanto. Agora mesmo há pelo menos três ameaças no ar : 1. O Orçamento impositivo apenas para as emendas parlamentares e sem nenhuma mudança nos procedimentos de preparação de votação do Orçamento Geral da União. É mais uma estaca cravada no controle das despesas públicas. 2. O fim do voto secreto para toda e qualquer decisão do Congresso Nacional. A transparência necessária em vários casos, a começar pela cassação de parlamentares, de maneira absoluta pode transformar os parlamentares em reféns de determinados lobbies e, principalmente, sujeitos à pressão do Poder Executivo. Nunca mais, por exemplo, um veto presidencial será rejeitado com o governo tendo nas mão suas duas mais importantes armas de gestão : a caneta e o Diário Oficial. 3. O novo esboço de reforma eleitoral (erroneamente chamada de reforma política), muito mais voltada para a conveniência dos políticos e seus partidos que para o interesse da sociedade e da democracia brasileira. Cuidado, portanto, ao se lamentar que o Congresso no Brasil não é muito ativo. Mobilidade urbana. Mobilidade ? Cálculo do arquiteto e urbanista Frederico Rangel : com 600 veículos sendo emplacados diariamente no município de SP, a cidade precisaria de criar mensalmente 18,5 quilômetros de vias trafegáveis somente para acomodá-las. Se todos os veículos registrados na cidade resolvessem sair às ruas ao mesmo, as vias existentes precisariam de ter pelo menos três andares para acomodá-los, uns atrás dos outros, imóveis. Radar NA REAL 8/11/13   TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo Juros ¹ - Pré-fixados NA alta estável - Pós-Fixados NA alta estável/alta Câmbio ² - EURO 1,3407 baixa baixa - REAL 2,3303 estável/baixa baixa Mercado Acionário - Ibovespa 52.248,86 estável/baixa baixa - S&P 500 1.770,61 estável/baixa alta - NASDAQ 3.919,23 estável/baixa alta (1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais). (2) Em relação ao dólar norte-americano NA - Não aplicável
terça-feira, 5 de novembro de 2013

Política e Economia NA REAL n° 269

Déficit externo mostra debilidade do país Se há um indicador que mostra o corolário da fragilidade do Brasil neste momento, este é o déficit externo. Até setembro ele atingiu o patamar de 3,6% do PIB e, mais ilustrativo, não é que ele seja resultado do pagamento de juros e amortizações da dívida externa, mas sim fruto da remessa de dividendos por parte das multinacionais aqui instaladas, bem como devido a conta petróleo. Isso demonstra que os reinvestimentos das empresas no país se reduziu, por conta da fraqueza do crescimento, bem como pela ausência de conforto para investir. Há ainda o inquietante, mesmo que mais simbólico, déficit do turismo brasileiro. O brasileiro prefere gastar lá fora que aqui por conta do dólar fraco e do elevado custo do Brasil. Um sinal e tanto de que há algo de errado na competitividade brasileira. De outro lado, o dólar fraco tornou ao longo dos anos a nossa indústria sem solidez para concorrer com o resto do mundo. Isso está levando o país a um consistente e significativo processo de desindustrialização. Um exercício econômico A situação letárgica da economia brasileira não se refletiu em desemprego mais elevado. Surpreendentemente, o mercado laboral está com números saudáveis frente a uma atividade econômica que maneia de um lado a outro sem que mostre nenhuma solidez ou sustentação. Este processo aparente não esconde os enormes riscos que estão se acumulando no médio e longo prazo. Vejamos. A inflação é alta, apesar de todo represamento de preços públicos feito pelo governo, da gasolina até a energia elétrica. Qualquer ajuste do câmbio para cima agravará estas variáveis que tem enorme impacto sobre os indicadores de inflação. Se o câmbio sobe, e essa é a sua tendência estrutural, os efeitos sobre a taxa de emprego podem ser mais agudos. O possível aumento das tensões sociais, fruto da elevação do desemprego, encontrará uma classe política desmobilizada e constrangida pelos pequenos e barulhentos protestos na principais cidades brasileiras. Tais hordas podem se tornar mais recheadas de conteúdo político e reivindicatório. Um cenário que, até hoje, um governo petista não encontrou. Neste contexto, o governo se defrontará com a decisão de conter a inflação via elevação dos juros e maior desemprego. Terá de maximizar uma destas variáveis, coisa que também nunca ocorreu a um governo petista. O governo sabe disso, é claro. Tentará por todas as vias que a realidade não lhe pegue em pleno teatro eleitoral em 2014. Como se vê, algo bem parecido com que ocorreu ao final do primeiro mandato de FHC. Tivesse o país uma oposição ativa, esta denunciaria isso tudo como estelionato eleitoral. O ralo da credibilidade - 1 Quem tem acompanhado com atenção as análises de especialistas não comprometidos com o oficialismo - ditos dentro do governo como "pessimistas" - não se surpreendeu com a deterioração das contas públicas e as dificuldades que Brasília vai ter de cumprir a meta de superávit primário deste ano (qualquer que seja ela) e com as desculpas da Secretaria do Tesouro Nacional para o rombo de mais de R$ 10 bilhões somente nas contas Federais em setembro. A verdade, sem voleios no trapézio do secretário Arno Agustin, é que o governo vem gastando mais do que pode e deve - e gastando errado. Os números oficiais não mentem : até o mês passado a arrecadação Federal cresceu 8%, os gastos subiram 13% e os investimentos foram 2,9% menores. O ralo da credibilidade - 2 Em que pese tudo quanto dito na nota anterior, Agustin voltou a afirmar que o superávit será honrado. Qual ? 3,1% do PIB ? 2,3% ? Com desconto dos gastos no PAC ? Com mais receitas extraordinárias ? Com o governo Federal não cumprindo a parte dos Estados e municípios ? O ministro da Fazenda Guido Mantega, fazendo cara de surpreendido logo depois do resultado de setembro, afirmou que o governo vai rever as regras do seguro-desemprego e talvez a do abono salarial, duas despesas que subiram além do razoável nos últimos anos. A do seguro-desemprego causa especial estranheza porque o Brasil há muitos anos não vive uma situação tão boa na área do trabalho. Mantega atirou no que foi possível para apagar o incêndio e dar uma satisfação aos agentes econômicos. É história sem futuro. Há tempos o governo analisa mudanças no seguro desemprego, já fez até uma pequena alteração, mas não leva o projeto para frente porque encontra resistências nas centrais sindicais - e em parte do PT. O próprio ministro disse que ainda vai conversar com os sindicalistas antes de apresentar as propostas de alteração. Impossível imaginar que o governo vai meter a mão numa cumbuca dessas em plena temporada eleitoral, quando nem a gasolina a Petrobras consegue aumentar para não colocar fogo na inflação. O ralo da credibilidade - 3 O número do superávit primário é importante, segundo os especialistas, para conter o crescimento da dívida pública, diminuir o consumo oficial e assim ajudar no combate ao processo inflacionário. Mas ele não é mais importante do que a disposição do governo para cumprir o que promete, sem malabarismos ou desculpas pouco críveis. É por esse ralo que se esvai a confiança na política econômica, no prometer o que não pode cumprir e tentar ofuscar a realidade com um véu pouco diáfano de fantasias. E agora ? A expectativa é saber se o BC, depois do resultado primário das contas públicas em setembro, ainda continuará a assegurar em seus comunicados e decisões a ideia de que a política fiscal do governo tende para a "neutralidade". A escolinha da professora Dilma - 1 Quase como um castigo - não há informações se alguns foram obrigados a ajoelhar-se no milho de olhos contra a parede - a presidente Dilma reteve 15 de seus mais importantes ministros em Brasília, em pleno sábado, feriado de Finados, para um debate de sete horas sobre a execução das políticas sociais e de infraestrutura do governo. Segundo os poucos presentes que conversaram com a imprensa depois da sabatina, a presidente fez cobranças de cronogramas de cumprimento dos projetos, "espancou" muitas propostas e deu "broncas" em alguns. ("Espancar", segundo a gíria oficial, significa contestar e desconstruir a proposta). Praticamente três anos depois de iniciado o governo, faltando um ano para a presidente renovar ou não ou seu mandato, é no mínimo estranho que Dilma ainda precise "espancar" projetos que no mínimo já deveriam estar prontos. E mais estranho ainda que haja necessidade de dar "broncas" em ministros que acompanham a presidente há tanto tempo. A escolinha da professora Dilma - 2 Há algo de errado nisso. Ministro que ainda agora merece admoestações na frente de colegas porque suas pastas andam titubeantes não mereciam continuar onde estão. A não ser que as vacilações não sejam apenas culpa deles. O mundo real da "escolinha de Finados da professora Dilma" parece outro : cobrar obras para o mundo eleitoral. Tanto que um dos projetos mais cobrados (e espancados, no sentido figurado) foi o da eterna transposição do rio São Francisco. As críticas ao atraso das obras as quais deveriam ser, nas promessas do passado, inauguradas por Lula ainda como presidente da República, tem sido um dos pontos mais criticados por Aécio Neves e os tucanos em sua pré-campanha. Dilma quer ir ao Nordeste no fim do mês, área em que está investindo depois que a candidatura Eduardo Campos-Marina Silva começou a crescer, para mostrar o projeto em pleno andamento e com muitos canteiros de obras ativos. A escolinha do professor Lula Está cada vez mais claro que a reeleição da presidente Dilma está nas mãos poderosas do ex-presidente Lula da Silva. É ele quem dá o tom da campanha, organiza o marketing eleitoral, negocia com os aliados a formação das alianças regionais e conversa com os empresários para quebrar resistências à política econômica e ao estilo da presidente e facilitar apoio financeiro à campanha. Até influenciar decisões estratégicas Lula tem tentado : está mal explicado, por exemplo, o envolvimento do ex-presidente na tentativa do presidente do Senado, Renan Calheiros, de mandar para votação um projeto de autonomia do BC de autoria do senador Francisco Dornelles (PP/RJ). O plano foi abortado depois de demonstrações de desagrado da presidente Dilma, mas havia lulistas envolvidos nele até o pescoço. Por essas e outras, Lula vai participar da campanha de Dilma não apenas como o grande eleitor, mas como se ele fosse o candidato à presidência. Por estar livre das amarras legais, pode aparecer até mais que Dilma nos eventos públicos do PT e aliados. O tema republicano do BC independente O lançamento da ideia do BC independente ficou mal parado por diversas razões, dentre as quais, destacamos duas. A primeira é que a independência do BC não pode e não deve ser uma questão a ser tratada com "mergência". Cabe reflexão sobre o tema, afinal é necessário que esta independência seja avaliada sob diversos prismas, tais como, tempo de mandato, forma e critérios de supervisão legislativa, relacionamento com os gestores da política econômica, novas normas de emissão e administração da dívida pública, relacionamento com o Tesouro, etc. Do jeito que foi anunciada, bem como sabendo-se que o ex-presidente do BC Henrique Meirelles está assessorando Lula em relação a este projeto, tudo pareceu inspirado em lobbies interessados no tema. Passa longe, portanto, de uma visão republicana sobre o assunto. O segundo aspecto diz respeito ao momento em que tal projeto seria implementado. Seria em meio às eleições ? Como fica a atual diretoria do BC ? Haveria um período de transição ? A escolinha dos tucanos, sem um mestre A reação de Aécio Neves à declaração do ex-presidente Lula de que José Serra é uma sombra para a candidatura presidencial do mineiro, mais do que um resposta bem humorada ("Lula é a sombra de Dilma") é uma prova de que a indefinição dos tucanos e as ações de Serra incomodam Aécio e uma parcela do tucanato com ele identificada. Eles sabem bem que ou o PSDB inicia imediatamente sua campanha, sem rachaduras, ou vão ficar alijados da competição. Agora, há outra provável candidatura competitiva, a da dupla Eduardo Campos-Marina Silva (ou vice-versa). Com a campanha já aquecida como nunca, esperar até março do ano que vem para botar o bloco na rua pode ser fatal. Os tucanos mais do que nunca estão fazendo jus à sua fama. Falta a eles, provavelmente, um líder com a força e o empenho de Lula. FHC chegou a ensaiar esses passos, mas parece ter se retirado do salão. Por fastio ou por perceber que certas plumagens tucanas não combinam e não se bicam. Dois assuntos perigosos para os tucanos As denúncias feitas pela Siemens e que envolvem a francesa Alstom nas licitações do metropolitano de SP estavam em compasso de espera, pelo que se soube a partir da informação de que as autoridades suíças não contaram com a colaboração do MP paulista. Agora, com a luzes que caem sobre o tema, é possível que tenhamos novas revelações. De Geraldo Alckmin até José Serra, todos correm o risco de ter notícias negativas nesta investigação criminal e financeira. Será lamentável para o esquecido "interesse público" se não houver esclarecimento sobre as estranhas transações financeiras e as contas off shore sob gestão de pessoas próximas do poder estadual. Há, ainda, o mal resolvido "mensalão mineiro", o qual não conta com a velocidade intensa que o atual presidente do STF deu ao mensalão petista. Minas e o país esperam uma solução judicial para esta questão, mas o que parece estar mesmo sendo incorrido é o prazo prescricional de certas imputações. Justiça que tarda não é Justiça. Maluf, enfim, sofre um revés político Paulo Salim Maluf é daqueles exemplos que demonstram que é verdadeira a máxima popular de que os poderosos nada sofrem no Brasil. Prócer da ditadura, engalfinhado em múltiplas operações duvidosas no setor público e um dos maiores chefões das negociações eleitorais brasileiras, o velho governador e prefeito acaba de ser impedido de se candidatar novamente por força da lei da ficha limpa. Resta saber quais os efeitos políticos sobre o seu poder no PP paulista aquele que se associou ao jovem prefeito Fernando Haddad, que teve ainda o afago público de Maluf nos jardins de sua mansão paulistana. Outro aspecto a ser observado é a consequência que este impedimento terá sobre os processos em tramitação no STF onde Maluf responde por outros desvios de dinheiro da viúva. A Interpol parece que já tem a sua posição sobre Maluf. A Petrobras em transe Quem leu linhas e entrelinhas dos comunicados da Petrobras ao mercado, a respeito de seus resultados no terceiro trimestre e sobre o "gatilho" proposto para organizar o reajuste dos combustíveis e mais a longa entrevista da presidente da empresa, Graça Foster, ao jornal "O Estado de S. Paulo", edição de domingo passado, percebeu que a estatal está em ebulição. "Se não der resultado, me demito" - avisou Graça ao defender seu gatilho e a necessidade de dar condições financeiras à empresa para realizar seu cronograma de investimentos. A previsibilidade do reajuste de preços é essencial nesse processo. Quando a empresa divulgou, para contragosto de Brasília, a proposta de gatilho para correção dos preços dos combustíveis, marcou-se uma posição clara - e queira-se ou não, colocando Brasília contra a parede. Em última análise, o que a empresa está verbalizando é simples : ou a Petrobras tem condições de fazer aquilo que é a sua atividade precípua ou ela funcionará apenas como linha auxiliar da política anti-inflacionária e da política industrial de Brasília. As duas ao mesmo tempo, definitivamente, não podem ser efetivadas. O governo, por sua vez, não parece ainda convencido dessa impossibilidade. Ainda tergiversa se aceita ou não a proposta de gatilho apresentada pela presidente Graça Foster. É mais um confronto com outra poderosa burocracia estatal. Radar NA REAL 1/11/13   TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo Juros ¹ - Pré-fixados NA alta estável/alta - Pós-Fixados NA alta estável/alta Câmbio ² - EURO 1,3510 baixa baixa - REAL 2,2390 estável/baixa baixa Mercado Acionário - Ibovespa 54.013,24 estável/baixa baixa - S&P 500 1.761,64 estável/baixa alta - NASDAQ 3.922,04 estável/baixa alta (1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais). (2) Em relação ao dólar norte-americano NA - Não aplicável
terça-feira, 29 de outubro de 2013

Política e Economia NA REAL n° 268

Desintermediação política e black blocs Na atual conjuntura, "sem-teto", caminhoneiros, funcionários públicos em busca de maiores salários e assim vai, fecham ruas, fazem passeatas diárias ou bloqueiam a distribuição e venda de bens e serviços. Isso apesar da situação econômica ser de ("apenas") estagnação. Por que isto ocorre ? A nosso ver, porque não há na sociedade a crença de que as instituições de representação política possam saciar ou intermediar suas ansiedades e aspirações. O caso dos professores do município do RJ é emblemático. Acabou na mesa do ministro Luiz Fux. Isto não é nada razoável e deveria causar espanto aos "donos do Poder". Imagine-se por um instante que conjunturalmente o país dobrasse a taxa de desemprego e/ou apresentasse uma desaceleração econômica mais forte. Este processo perigoso e continuado de desmoralização institucional seria muito mais grave e atentaria contra os pilares da democracia representativa. Essencialmente, a causa destes fenômenos sociais se deve a irresponsabilidade e descaso dos órgãos estatais, notadamente o Legislativo em todos os níveis da Federação. Há, ainda, os tais membros dos black blocs. Estes aproveitam-se destes movimentos "desintermediados" e mandam pedradas para todos os lados, sem trocadilho. Na última sexta-feira, a pedra atingiu a cabeça de um coronel da PM e o espancamento deste ocorreu sob as lentes da imprensa. A continuar a passividade com este grupo, um dia as pedras pegarão na cabeça da sociedade. As consequências são difíceis de serem previstas. Risco fiscal crescente - 1 É bem verdade que o FMI, mais do que nunca, é uma instituição porta-voz da finança internacional. A crise de 2008 deixou evidente o papel vergonhoso das organizações multilaterais na prevenção de crises sistêmicas, bem como a atuação dos BCs, especialmente dos EUA, que deixaram a especulação livre, pesada e solta. Mesmo assim, o alerta que fez o FMI sobre o lado fiscal brasileiro faz todo o sentido. A razão é política com consequências macroeconômicas. Vejamos. Para um maior crescimento, o Brasil precisaria (i) incrementar o consumo por meio de altas de salários e/ou (ii) aumentar os investimentos. Ambas as variáveis são muito improváveis de serem alteradas no mercado privado. No caso dos salários, as empresas não demitiram até agora (apesar do PIB sofrível), mas tem de conter os aumentos reais, caso contrário terão uma queda maior de produtividade (que é definida pela maior produção com o mesmo custo/quantidade de mão de obra). No setor público, os ganhos salariais são possíveis, mesmo que menos prováveis, afinal tais ganhos foram imensos sob a gestão petista. Risco fiscal crescente - 2 No caso dos investimentos a coisa é mais complicada. Trata-se de variável sensível a múltiplos fatores, dentre os quais destacam-se dois : (i) o custo de capital (leia-se taxa de juros) que para ser reduzido tem de ser consistente com uma inflação menor e uma intermediação financeira menos onerosa. Ora, neste campo a possibilidade de queda dos juros sem aumento da inflação é de baixa probabilidade, mesmo porque há evidente represamento de preços públicos e, a despeito disso, a inflação não cedeu. O custo dos empréstimos, por sua vez, é questão secular. Certo é que não cai; (ii) a redução da aversão ao risco dependeria de certas garantias institucionais e regulatórias que o governo Dilma está a arranhar desde o seu início. Também tem a velha (mas, não arcaica) questão das reformas estruturais que nunca acontecem. É difícil imaginar no curto prazo que o Brasil se torne um país com riscos institucionais elevados, sejam políticos e econômicos. Todavia, trata-se de um país pouco afável ao capital, seja interno ou externo. Estamos mais para um Estado patrimonialista que para uma economia de mercado. Assim, os investimentos privados dificilmente subirão rapidamente ao ponto de favorecer a demanda agregada em 2014. Risco fiscal crescente - 3 Resta-nos avaliar o investimento e o consumo do setor público. No primeiro caso, a administração Lula-Dilma mostrou-se débil em realizar e tornar efetivos os investimentos. Da transposição de águas do Rio da Integração Nacional, o velho Chico, até o trem bala, vê-se que nem Lula e nem Dilma tem a característica de "gerentes", especialmente no caso da presidente que neste quesito mostrou-se uma surpresa negativa, apenas para ser suave na definição. Há ainda barreiras como o TCU constatando irregularidades, as licenças ambientais que demoram a sair e, até mesmo, a ineficiência das empreitadas privadas. Resta, assim, o consumo governamental como alavanca de crescimento, o chamado aumento de gastos públicos, inclusos repasses para Estados e municípios, como no caso da Cidade do RJ e o novo petismo de Haddad. Este fator é tão caro ao governo que o ministro Guido Mantega para rebater o FMI falou destes como "a solução" para a crise pós-2008. Uma fala compreensível e justificável não mais para aquele período, mas para o ano eleitoral de 2014, ou seja devido as eleições. Conclusão : o risco fiscal não é apenas alto. É crescente. A Petrobras, em choque e sem cheque ? - 1 A Petrobras, mais uma vez, cumpriu o papel que a presidente Dilma e seus operadores políticos e econômicos esperavam : tornou viável a formação de um consórcio e assegurou que não desse "vazio" no primeiro leilão de licitação de exploração de um campo do pré-sal, o de Libra, na Bacia de Santos. Afinal, por garantia de lei uma participação mínima no negócio, ela não precisa participar de nenhum consórcio. Além disso, aumentou sua "cota" de 30% para 40% e, assim, foi decisiva para trazer outras petroleiras para o negócio. O fantasma do fracasso rondou o leilão e não fosse a estatal brasileira, com grande sacrifício, como se verá, o negócio poderia não ter saído. Quem acompanhou o leilão e depois seus desdobramentos, com as festas da presidente Dilma e do ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, não deixou de perceber a alegria contida da presidente da Petrobras, Graça Foster. É certo, segundo todas as indicações, que ela é uma pessoa extremamente dedicada ao trabalho e muito contida - exceto no carnaval, quando desfila no Sambódromo. Mas o contraste entre o bate bumbo oficial e sua contida euforia causou certa estranheza. A Petrobras, em choque e sem cheque ? - 2 As explicações vieram depois, ao longo dos dias que se seguiram à segunda-feira do leilão. Logo na terça-feira, ela teve uma reunião de quatro horas com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o dono do cofre Federal, e também presidente do Conselho de Administração da empresa que ela dirige. Saiu de lá garantindo que a Petrobras não precisará de um aumento da gasolina e do óleo diesel para pagar sua parte no bônus de assinatura do contrato de Libra, em novembro, de R$ 6 bilhões (40% de R$ 15 bilhões). Para entender : há meses - e põe meses nisto - Graça e sua equipe vêm lutando, insana e inutilmente, para conquistar um reajuste nos combustíveis e reforçar o caixa da estatal. Sempre negado em nome da política de controle da inflação, comandada por Dilma-Mantega. No dias seguintes, numa longa e esclarecedora entrevista à jornalista Miriam Leitão e na divulgação (sexta-feira) dos resultados da Petrobras no terceiro trimestre deste ano, ficou mais evidente as razões do pouco riso de Graça na segunda-feira, quando foi batido o martelo do campo de Libra num hotel na Barra da Tijuca no RJ. A Petrobras, em choque e sem cheque ? - 3 Vejamos o que se vê da divulgação de resultados do terceiro trimestre da estatal : 1. O lucro da empresa no período julho/agosto/setembro de 2013 foi 39% menor que nos mesmo período do ano passado e 45% inferior ao do trimestre encerrado em junho. Ficou bem abaixo de todas as previsões do mercado. 2. A Petrobras teve de engolir o calote da Venezuela na refinaria de Abreu e Lima em PE. Parceria acertada ente Lula e Hugo Chávez, ela não contou com um único centavo venezuelano, de sua parte de 40% no negócio. Agora vai ter de bancá-la sozinha, e com um orçamento muito mais elevado. É outra ferida em seu caixa. 3. No documento explicando os resultados, a empresa propõe a criação de uma política objetiva e definitiva para correção dos preços dos combustíveis, para evitar defasagens como a de agora, que minam o seu caixa. Ou seja, nas condições atuais pagar o bônus vai ser sacrifício. 4. Segundo uma reportagem do jornal "O Estado de S. Paulo", com base nos dados do relatório dos resultados do trimestre passado, o pagamento de sua parte no "bônus" de Libra vai ser consumido. O que é pesado para quem já tem uma série de compromisso assumidos e inadiáveis. A Petrobrás entrou em Libra gastando mais fôlego do que tinha. Não resta dúvida que vai ter de se desdobrar e ser mais bem tratada pelo governo para dar conta de tudo. O eterno dilema do PMDB - 1 Desde o fracasso do governo José Sarney, um peemedebista de eterna alma na ARENA (partido de sustentação da ditadura militar), e do insucesso das candidaturas presidenciais de Ulysses Guimarães e Orestes Quércia, o PMDB abdicou de disputar a presidência da República com candidato próprio. A estratégia peemedebista passou a ser a de desenvolver bem nos espaços intermediários do poder na República - municípios, Estados, assembleias legislativas, Câmara dos deputados e Senado - e acumular forças para ser um parceiro imprescindível de quem estiver ocupando o Palácio do Planalto. Assim, desde a saída de Sarney da presidência, apenas esporadicamente, e assim mesmo a muito contragosto, o PMDB militou na oposição em Brasília. E sempre atendeu prontamente ao chamado presidencial para se tornar um aliado, pouco importando quem e com quais razões. Portanto, para o partido o que importa, de fato, não é a eleição presidencial. Ele sabe que, fortalecido no conjunto, será chamado às bodas do poder. Óbvio que há sempre um peemedebismo de grife, vaidoso, que se apega a algumas circunstâncias de mais brilho que de poder de fato. São os que querem, por exemplo, alianças para garantir ao partido a vice-presidência da República numa chapa provavelmente vencedora. Não é o que pensa a maioria. A experiência atual desgastou o partido nesta linha : o fato de ter o vice Michel Temer na chapa de Dilma diminuiu a cota de poder no partido nos ministérios e órgãos públicos. O eterno dilema do PMDB - 2 Os peemedebistas ao fazer as contas percebem claramente que tiveram muito mais força e influência com Lula, quando o vice era José Alencar, ex-peemedebista alojado em outro partido, do que agora que tem o vice instalado no Palácio do Jaburu. É este o grande drama que assola o PMDB que não faz parte da cúpula partidária : garantir a aliança nacional em detrimento dos interesses locais, que dão musculatura ao partido ou exigir do parceiro PT apoio nos Estados em nome da aliança nacional ? Os cálculos variam, mas em pelo menos 10 Estados, PT e PMDB estão ameaçando se estranhar. O PMDB considera que tem candidatos mais competitivos (com o "direito sagrado" de competir) e exige que o PT o apóie. Mas, o PT nem sempre está disposto a este "sacrifício". Sequer aceita que Dilma voe, na campanha, para outro palanque que não o do petismo. Um caso clássico é o do RJ, já tão decantado. Sérgio Cabral e o peemedebismo querem o apoio à candidatura do vice-governador Pezão e o PT (assim assegura seu presidente, Ruy Falcão), não abre mão da candidatura do senador Lindbergh Farias. Com mais ou menos ênfase, o problema aparece no RS, no CE, no ES, na BA, no AM, no PA, em MS, pode pipocar em Minas e está aquecido até no MA, com choques com a família Sarney, donatária do Estado. Assim sendo... O conjunto dos insatisfeitos peemedebistas com um pouco mais de 50% dos votos na convenção do partido está a postos para definir que aliança se fará. É mais ou menos explosivo, porque pode contaminar outras seções estaduais, pois há uma fadiga geral com o apetite petista. E que não é somente do PMDB. Há sempre um espaço para a acomodação. Mas as grifes peemedebistas terão de entrar em ação, pois elas serão as maiores prejudicadas se o partido se rebelar contra a aliança com o PT nacionalmente. E o PT também terá de ser mais generoso. O dilema do PT - 1 A não ser que haja uma surpresa de última hora, Ruy Falcão, apoiado por Lula e Dilma, será reeleito no mês que vem presidente nacional do PT. Contudo, o processo de eleição direta do partido está expondo algumas fraturas internas, mais fortes que no passado. Há, entre os mais "puristas" (ou mais "radicais") petistas uma insatisfação crescente com as políticas e alianças do partido e uma constante infelicidade com parte da política econômica do governo. Na semana passada, num debate entre os candidatos à presidência nacional, a algaravia das queixas e críticas foi tanta que Falcão chegou a ironizar : "Ás vezes dá a impressão de que somos oposição ao nosso governo". Dá mesmo.  O dilema do PT - 2 Diante das inquietações, as pesquisas (a última do Ibope na semana passada) embora continuem indicando Dilma como favorita contra qualquer dos candidatos que se apresente contra ela, indicam também que sua preferência no eleitorado estagnou, depois de uma pequena recuperação após a brutal queda junina. Ainda não voltou à zona de conforto, apesar da superexposição que está tendo desde lá, sempre com distribuição de bondades. É neste quadro que o PT resolveu encomendar uma pesquisa para saber o poder de transferência de voto de Lula, o peso do ex-presidente como cabo eleitoral. Precisaria, depois das demonstrações que ele deu com as eleições de Dilma e Fernando Haddad ? Mas vai que... Os dilemas de Aécio Primeiro, cabe ao mineiro convencer uma parte do eleitorado de que será ele e não José Serra o candidato do PSDB - o ex-governador paulista ainda é uma sombra que assusta, principalmente pelo seu bom desempenho quando incluído nas pesquisas, apesar da fortíssima rejeição que sempre carregou. Depois, encontrar um discurso mais objetivo, que vá além das críticas às políticas oficiais, especialmente à econômica, e à tentativa de resgatar a herança de Fernando Henrique Cardoso. Agora, anuncia-se que será antecipado para dezembro o lançamento de seu programa econômico. Os dilemas de Campos O primeiro, é um tanto quanto parecido com o de Aécio Neves : convencer boa parte do eleitorado de que será ele e não Marina Silva a candidata da parceria PSB-Rede Solidariedade. A superexposição de Marina, mais fortemente crítica de Dilma que o governador de PE, contribuiu para alimentar esta dúvida. Segundo, encontrar um discurso que consiga fundir, sem contradições e incoerências, seu discurso "pragmático" com o "sonhático" mundo de Marina. Se o amálgama não for bem feito e convincente, os dois podem perder votos em seus respectivos campos e ainda não conquistar os votos do outro. Uma conclusão sem muito risco A sucessão presidencial é uma obra completamente em aberto e salvo atropelos vai permanecer assim até as portas das urnas. Será a disputa mais acirrada desde a eleição de Fernando Collor. Um pote de insatisfações - 1 Quem frequenta eventos - abertos ou fechados - empresariais, nos quais não há a presença de autoridades - sempre um inibidor de manifestações mais críticas - já vinha notando, há algum tempo, um aumento crescente da insatisfação com o governo Federal. Era uma sensação difusa, generalizada, que nem medidas positivas para o setor, como, por exemplo, a desoneração da folha de pagamento em diversas áreas, atenuava. E que não está ligada apenas aos momentos menos felizes que vive a economia nacional. Tem alguma coisa a ver com a "filosofia" do governo Dilma, à sensação de que ele é menos pró-empresas do que foram Fernando Henrique e Lula. Agora, o que era apenas observações contidas, está gerando reações mais pontuais e objetivas. Houve um ensaio antes, quando algumas companhias de eletricidade reagiram contra o plano de renegociação de seus contratos que estavam vencendo, caso da Cemig e da Cesp. Mas aí eram empresas estatais ou ainda com forte ranço estatal. Um pote de insatisfações - 2 Desta vez não. Três fatos recentes mostram a mudança de ânimo : 1. Um grupo de entidades empresariais entrou na Justiça contestando a manutenção do adicional de 10% na multa do FGTS por demissão de funcionários em justa causa. 2. Outro grupo de empresas aciona o Judiciário contra as regras de privatização de terminais portuários. 3. E um terceiro grupo também recorre à Justiça para poder concorrer ao leilão dos aeroportos de Cofins e Galeão. São os concessionários de Brasília, Guarulhos e Viracopos, insatisfeitos com o limite de 15% para eles nas novas concessões. Brasil em temos de censura 1. Um grupo de artistas, com discreta simpatia do mundo político, continua firme na defesa da necessidade de autorização prévia do personagem ou da família para publicação de biografias. Semana passada, sem motivo, a Câmara dos Deputados adiou, sem data nova para votar, a decisão sobre uma proposta que acaba com esta exigência. 2. No Senado caminha uma proposta proibindo a divulgação de pesquisas eleitorais nos 15 dias que antecedem às eleições. 3. Não saiu da agenda do PT, nem de alguns grupos sociais, a ideia de criar o que eufemisticamente se chama de "controle social da mídia". A liberdade de expressão de fato incomoda muito mais gente do que imagina nossa vã filosofia. Palavra de José Dirceu Do ex-ministro sobre a necessidade de regulação da mídia brasileira em artigo no Brasil Econômico em 24/10/13 : "É flagrante a omissão ao que determinam os artigos 220 e 221 da nossa Carta Magna e o desrespeito à recomendação da aprovação de lei Federal para regulamentar o setor, disposta no artigo 222. Para esclarecer, o artigo 220 proíbe o monopólio e o oligopólio nas comunicações e o 221 define as finalidades da programação de rádio e TV educativas, artísticas, culturais e informativas e prescreve a promoção da cultura nacional e regional. Mas 25 anos depois de aprovada a Carta de 1988, os conglomerados de comunicação brasileiros controlam as concessões de radiodifusão, a mídia impressa e os provedores de Internet, sem mecanismos efetivos para coibir os excessos da concentração de poderes". Tais palavras merecem análise de fundo sobre os objetivos desta recomendação de José Dirceu que tantas vezes se repete na boca da presidente Dilma e do ex Lula. Definição perfeita Segundo o economista José Roberto Mendonça de Barros, os partidos políticos brasileiros na sua maioria são, na verdade, "business plans". Agora mesmo, o recém-nascido PROS se prepara para fazer uma aliança com o PP na Câmara, formando uma bancada de 50 deputados, a terceira em número depois do PT e do PMDB. O que lhe dará grande poder de "argumentação" na hora de negociar o apoio à candidatura Dilma e conversar com a presidente sobre a reforma ministerial. Radar NA REAL 25/10/13   TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo Juros ¹ - Pré-fixados NA alta estável/alta - Pós-Fixados NA alta estável/alta Câmbio ² - EURO 1,3791 baixa baixa - REAL 2,1838 estável/baixa baixa Mercado Acionário - Ibovespa 54.154,15 estável/baixa baixa - S&P 500 1.759,77 estável/baixa alta - NASDAQ 3.943,37 estável/baixa alta (1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais). (2) Em relação ao dólar norte-americano NA - Não aplicável
terça-feira, 22 de outubro de 2013

Política e Economia NA REAL n° 267

Radicalizar : a opção de Aécio - 1 Disse o respeitadíssimo sociólogo Manuel Castells sobre os protestos de junho passado que foi "a primeira vez que os brasileiros se manifestam fora dos canais tradicionais, como partidos e sindicatos. As pessoas cobram soberania política. É um movimento contra o monopólio do poder por parte de partidos altamente burocratizados" (O Globo, 29/6/13). De fato, aquele sentimento das passeatas permanece assentado na sociedade. Todavia, quase nada foi articulado para que certas demandas sociais fossem atendidas pelos que controlam as instituições (situação e oposição). Note-se, por exemplo, que do lado do governo a estratégia tornou-se tão somente eleitoral. Daí as razões mais profundas do discurso de Dilma sobre a espionagem norte-americana ou o lançamento do programa "Mais Médicos". Este, embora justificável na sua essência, é insustentável diante da ausência de estrutura na área de saúde. Já quando à espionagem, a reação não tem condições de produzir alterações na relação EUA/Brasil. Do lado da oposição, a resposta aos ventos de junho foi igualmente burocrática. Desliza a oposição pelas mesmas propostas de sempre, do denominado "tripé macroeconômico" às críticas relacionadas com a incompetência governamental para realizar concessões e privatizações. Pois é exatamente esta visão burocrática e sem as inovações necessárias ao país que une Dilma ao tucano Aécio. Radicalizar : a opção de Aécio - 2 A grande dificuldade de Aécio Neves reside em encontrar elementos políticos que sejam suficientemente sedutores do ponto de vista eleitoral  e que, ao mesmo tempo, sejam habilitados a diferenciá-lo da presidente-candidata. Até agora, a opção do mineiro é olhar o passado e usar o governo FHC como referência estrutural para efetuar a crítica aos governos petistas. Esta estratégia acaba por cair numa armadilha inescapável : no petismo a estratégia política de Lula-Dilma foi a de incluir milhões do ponto de vista social, coisa que não se viu sob os tucanos liderados por FHC no período pós-real - a estabilização foi o grande fator de inclusão social. O discurso em prol da privatização e da estabilidade tem cunho ideológico, mas não "pega", do ponto de vista eleitoral. Aqui não é o caso de se examinar a essência do tema (se boa ou ruim), mas apenas se perguntar o que o eleitor "ganha de fato" com a privatização. Há ainda a realidade de que a privatização, em alguns casos bem significativos, aumentou proporcionalmente mais os preços dos serviços que sua melhoria operacional, como no caso emblemático da telefonia celular. Discursar sobre eficiência, racionalidade, consistência, etc., é uma coisa, torná-la palpável ao eleitor é outra. Radicalizar : a opção de Aécio - 3 A opção natural de Aécio Neves, se quiser se configurar como a "verdadeira oposição", é uma estratégia de confronto radical com Dilma e seu padrinho Lula. Caso contrário, sobrará com um discurso ideológico insensível às demandas efetivas do eleitor e, de resto, será "semelhante" à burocrática presidente Dilma. A opção por uma radicalização de Aécio deve encontrar barreiras enormes entre seus aliados, da "Casa das Garças", no RJ, até os marqueteiros munidos de pesquisas por todos os lados. Do lado dos ideólogos, incluso FHC, a tarefa de identificar o candidato com o povo não parece muito promissora às pretensões pessoais dos "pensadores". Talvez estes prefiram as planilhas ao pensamento "eleitoral" - não se sabe. Do lado dos marqueteiros, estes dirão que há nas pesquisas muitos fatores contra uma "radicalização". De outro lado, estes mesmos marqueteiros não mostrarão o que haveria a favor. Vale sublinhar que o problema de Lula, quando da eleição que o levou à presidência, era se mostrar um "moderado". O problema de Aécio é exatamente o oposto e a pergunta é : o que ele radicalizará frente à Dilma-Lula ? O distinto público deseja saber, pois tanto Aécio Neves quanto a dupla petista são parte do mesmo establishment. Um no poder, o outro na oposição. É o que ensina Manuel Castells. O que parece diferente (e talvez não seja) é Campos-Marina. Mas aí o problema é de conhecimento e intimidade entre eleitor e candidatos. No caso de Aécio Neves, sabe-se quem ele é, mas ainda não há reason why para nele votar. Os tucanos na muda ? - 1 Bons observadores notaram que os tucanos foram aqueles que menos participaram dos debates pré-eleitorais depois da anunciada união Marina Silva/Eduardo Campos. Marina, possivelmente para poupar Campos de se expor criticando um governo do qual foi aliado até pouco tempo, tomou a dianteira. Com críticas bem contundentes à política econômica de Dilma, de tal veemência que forçou até a presidente a, em três ocasiões diferentes, rebater a líder da Rede. Prova que Marina está incomodando, uma vez que a estratégia traçada pelo Conselho Reeleitoral do PT era evitar "encher a bola" da ex-ministra do Meio Ambiente. Alguns analistas acham que Dilma foi bem ao rebater Marina, principalmente na questão levantada por ela do abandono do tripé macroeconômico criado no governo FHC e seguido em parte do governo Lula. Foi, dizem, a oportunidade para Dilma e sua equipe confirmarem seus compromissos nesta área. Os tucanos na muda ? - 2 Talvez não seja bem assim. Ao atacar este ponto, Marina tirou Dilma da zona de conforto e colocou-a na defensiva. Por enquanto, pelo menos, quem está conduzindo a agenda do debate é a parceira de Eduardo Campos. A ausência dos tucanos pode ter duas explicações : 1. Ainda não se recuperaram do susto que foi o acordo Rede/PSB. O PSDB contava com uma disputa com quatro candidatos fortes, o que seria mais fácil para levar a eleição para o segundo turno. 2. Os tucanos têm uma estratégia herdada da política de Minas, do devagar e sempre, e estão deixando Dilma e Marina/Campos se desgastarem nessa troca de farpas enquanto eles são poupados para fazer seus ajustes internos e com possíveis parceiros. De todo modo, Aécio e seu grupo não poderão ficar muito tempo nessa área de sombra. Fora do ar Por falar em tripé macroeconômico, quando se pensa em seu pilar do ajuste fiscal, observa-se que quem está há algum tempo fora do ar é o secretário do Tesouro Nacional, Arno Agustin. Principal executor da "maquiagem orçamentária", Agustin era presença constante, figurinha carimbada nos jornais até pouco tempo atrás. Sumiu, sumiu por quê ? Espionagem : a indignação francesa O jornal Le Monde, em sua edição de ontem, informou que a NSA realizou 70,3 milhões de gravações de dados telefônicos de franceses em um período de 30 dias entre dezembro de 2012 e janeiro de 2013. Como não poderia deixar de ser, a fonte do jornal é o jovem espião Edward Snowden. Os EUA, por meio do diretor da NSA, não fez por menos e declarou que os EUA fazem o que todos fazem, espionam ! Há certa ira em Paris em relação ao tema, mas veremos como será a reação depois de alguns dias. Por fim, resta saber se Dilma se sentirá inferiorizada em função do modesto número de gravações do Brasil frente à França. A conferir. Candidatura útil O PMDB meio que oficializou neste fim de semana a candidatura do empresário Paulo Skaf, presidente da endinheirada Fiesp, ao governo de SP. É para valer, asseguram os peemedebistas : eles acham que têm chance de ganhar beneficiando-se de uma disputa fratricida entre o PT e o PSDB e precisam de uma candidatura ao Palácio dos Bandeirantes para tentar aumentar as bancadas estaduais e Federais do partido. É para valer até certo ponto. Hoje ela é uma candidatura útil também para os planos do presidente Lula, pois se imagina que, ligado aos empresários, Skaf tiraria mais votos de Geraldo Alckmin do que do petista Alexandre Padilha. O contrário do ministro Aldo Rebelo, do PC do B, à esquerda, que só prejudicaria Padilha, e por isto mesmo, foi aconselhado a permanecer em Brasília e desistir de disputar a sucessão de Alckmin. Se até a homologação das candidaturas não se comprovar que Skaf rouba votos do tucano ou se, ao contrário, ele começar a dividir votos com o ministro da Saúde, discretamente o PMDB será aconselhado a desistir dessa aventura. Até para manter a vice-presidência nas mãos de Michel Temer. Há uma outra utilidade para o PMDB na candidatura Skaf : naturalmente ele não demandará muito financiamento do partido para sua campanha e ainda poderá ajudar os candidatos do partido ao Legislativo. Frase interessante Vista a candidatura do empresário Paulo Skaf ao governo de São Paulo, vale a menção da declaração de Eduardo Giannetti da Fonseca sobre o apoio do empresariado à Dilma : A elite empresarial está no bolso do governo. (Folha de S.Paulo, 21/10/13). Que surpresa, não é ? Lula, idealismo e Kafka Vejamos a declaração do ex-presidente Lula ao jornal El País, no dia 20/10/13 : "Eu queria dizer que as pessoas tendem a esquecer os tempos difíceis em que achavam bonito carregar pedra. A gente acreditava, era maravilhoso. Um grupo mais ideológico, as pessoas trabalhavam de graça, de manhã, à tarde e à noite. Agora você vai fazer uma campanha e todo mundo quer cobrar. Não quero voltar às origens, mas gostaria que não esquecêssemos para que fomos criados (o PT). Por que queríamos chegar ao governo ? Não para fazer como os outros, mas para agir de maneira diferente". Nosso comentário : não são poucas as declarações do ex-presidente Lula ao longo dos anos pós-ele mesmo. Uma hora o ex-presidente "tutela" a sua sucessora. Noutra, defende os seus polpudos cachês pagos por empreiteiras. No ausência do público e da imprensa articula como ninguém, o faz no governo e para o governo. Desta feita, o ex-presidente Lula, respirando ares espanhóis, resolve cavalgar num idealismo que não se provou quando estava sentado no Planalto e convoca o próprio partido para que "não esqueça porque foi criado". Já não é o ex-presidente apenas uma "metamorfose ambulante", como aprecia se definir. Ao que parece, ele é o seu próprio álibi a encobrir suas próprias más ações. Um caso kafkiano que se sustenta enquanto silente estiverem os que observam a cena. E a CPI da Siemens, cadê ela ? Quando voltou à cena a história das propinas que a Siemens e outras companhias estrangeiras teriam pago a funcionários dos governos tucanos em SP para conseguir negócios no Metrô e na CPTM, a partir de vazamentos de processo que corre no CADE, órgão do Ministério da Justiça, o líder do PT, Eduardo Teixeira, anunciou imediatamente a coleta de assinaturas para instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito no Congresso Nacional para apurar a irregularidade. Duas semanas depois, Teixeira anunciou que estava prestes a protocolar o pedido de CPI, pois já tinha praticamente todas as assinaturas necessárias para instalar a investigação. O que não é nenhuma façanha uma vez que os governistas têm uma ampla maioria na Câmara e no Senado e a oposição não tem como impedir nada que o governo queira fazer no Legislativo em Brasília, nem mesmo impedir aprovação de emendas constitucionais. Isto foi há mais de dois meses e de lá para cá, em Brasília, não se fala mais no assunto de CPI. Por que será ? Ah ! Esses estrangeiros... O ministro da Fazenda Guido Mantega, nosso mais incorrigível cultor da filosofia do dr. Pangloss ("Cândido, ou o Otimismo", Voltaire), em entrevista ao "Estadão" de domingo afirmou que o PIB brasileiro vai crescer 3% em 2014 (a previsão dos especialistas é de que será inferior aos 2,5% projetados para este ano) e que poderá chegar até a 4% se o ambiente externo permitir. Ah !, como são malvados esses estrangeiros. Estão sempre conspirando para prejudicar o trabalho das autoridades econômicas brasileiras para colocar nossos negócios no lugar. Habeas corpus (ou desculpa preventiva) O presidente do BNDES declarou, no fim de semana, que até 2015 o Brasil poderá voltar a reduzir os juros. Até recentemente, Luciano Coutinho foi um dos mais ardorosos defensores da "nova matriz econômica" que o ministro Guido Mantega anunciou há cerca de dois anos haver implantado no Brasil. Esta matriz contraria o tripé macroeconômico (neoliberal ?) aplicado pelo governo FHC na economia nacional e seguido por Lula em boa parte deseu mandato. Coutinho dizia-se entusiasta da redução mais acentuada dos juros básicos iniciada pelo BC em meados de 2011 e interrompida há meses. Nada como uns "indicizinhos" teimosos de inflação para converter os mais fiéis desenvolvimentistas. BC : ainda na alta A leitura da ata da última reunião do COPOM que elevou a taxa de juros básica para 9,5% dá poucas esperanças de que a taxa de juros deixe de subir na próxima reunião do COPOM. A situação, de fato, é curiosa. A demanda permanece estável, mesmo que num bom patamar, o mercado laboral está sem pressões substantivas, mas a inflação não cai. Isso tudo com o "apoio" da Petrobras que não majorou os preços dos combustíveis, bem como houve a "baixa" das tarifas de energia elétrica. A inflação é, portanto, um problema incômodo e parece que estará presente por um longo período. O BC sabe disso e vai forçar a taxa para cima de novo. Daí por diante, a nosso ver, o BC terá de renovar a anuência do Planalto em relação a esta estratégia. Pesará a eleição do ano que vem na orientação que virá da chefe do Executivo. Por esta e por outras, a probabilidade da taxa de juros subir para 9,75% na próxima reunião e aí ficar é bem alta. Um outro dígito na taxa básica pode ser um dígito a menos nas pesquisas eleitorais. Língua pátria, novilíngua Do "The NSA Herald", o diário mais xxxxxxxxxxxx do país, uma criação da revista "Piauí" (outubro/2013), com degravações de espionagens americanas no Brasil : "General updates Ref. Fucking language Atenção:  interceptações feitas em todo o território brasileiro indicam que o idioma falado no país não é o espanhol, e sim um dialeto usado como código na Primeira Guerra Mundial, o Português. Há variações no linguajar no STF, e nos cadernos de cultura dos jornais de grande circulação, em particular na crítica de cinema. Textos acadêmicos publicados nos cadernos de fim de semana empregam idioma criptografado, cuja chave parece exigir conhecimentos desumanos de Lacan, Badiou, Agamben, Huck, Schwarz e Chauí. No domingo passado um dos nossos mais tarimbados analistas abandonou o cargo e converteu-se à religião Amish depois de tentar compreender um texto sobre Merleau-Ponty publicado no caderno Ilustríssima. Ref. To previus REF.: Ainda em relação ao idioma : agências de publicidade e setor financeiro falam inglês (versão apache). Frases da semana Do jornalista e escritor Humberto Werneck, autor de uma excelente biografia (não autorizada, obviamente) do intelectual brasileiro Jaime Ovalle e de uma extraordinária história de intelectuais mineiros dos anos 1920/1960 que foram formar uma diáspora da "mineiridade" na antiga capital da República : "Esses caras [Chico Caetano, Gil e cia.] não precisam preocupar-se com os maus biógrafos. Eles mesmos já estão se encarregando de avacalhar suas biografias." De um jornalista de Brasília, amigo desta coluna : Quem iria ler a biografia não autorizada da Paula Lavigne ? E quantas páginas seriam necessárias para relatar a obra produzida por ela ? O autor da pergunta, José Rubens Pontes, promete também, em solidariedade aos artistas roubados pelos biógrafos não autorizados, não comprar e nem ler qualquer biografia não autorizada da Paula Lavigne. E nem a autorizada. Radar NA REAL 18/10/13   TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo Juros ¹ - Pré-fixados NA alta estável/alta - Pós-Fixados NA alta estável/alta Câmbio ² - EURO 1,3675 baixa baixa - REAL 2,1729 estável/baixa baixa Mercado Acionário - Ibovespa 55.378,46 estável/baixa baixa - S&P 500 1.744,50 estável/baixa alta - NASDAQ 3.914,28 estável/baixa alta (1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais). (2) Em relação ao dólar norte-americano NA - Não aplicável
terça-feira, 15 de outubro de 2013

Política e Economia NA REAL n° 266

Coisas a comemorar, muito com que se preocupar - 1 A pesquisa do DataFolha divulgada no fim de semana, trouxe motivos para todos os candidatos à presidência da República terem alguma coisa a comemorar. É a primeira sondagem depois do terremoto (ou maremoto) provocado pela união entre Eduardo Campos (PSB) e Marina Silva (Rede, ainda não oficialmente existente) e não captou ainda todos o efeitos da inusitada colaboração entre os sustentáveis e os socialistas. Demorará algum tempo ainda para que a onda provocada pela pedra jogada no meio do lago atinja as margens da lagoa eleitoral. Apesar disso, quem tem mais a sorrir é a presidente Dilma Rousseff e o seu grupo : as indicações do momento apontam que ela ganharia em primeiro turno se seus adversários fossem Aécio Neves e Eduardo Campos e venceria qualquer um de seus prováveis concorrentes (os dois mais Marina Silva e José Serra) numa hipotética segunda rodada. Coisas a comemorar, muito com que se preocupar - 2 Viu-se, também, que Marina permanece sendo a principal competidora de Dilma, o que explica a quantidade de notas e análises "isentas" na mídia, na última semana, apontando para as dificuldades que a dupla Campos-Marina enfrentará na prática. Pura torcida, pois não apenas os dois enfrentarão dificuldades regionais em seus palanques : também Dilma e Aécio/Serra vão sofrer muito para acomodar os interesses de prováveis aliados. Para Dilma, o pior sinal do levantamento do DataFolha é o que diz que sua popularidade, com brutal queda depois das manifestações juninas, e depois em recuperação, perdeu fôlego, está praticamente parada. Este dado já estava presente na pesquisa do Ibope, divulgada em meados de setembro. Para todos os partidos, o sinal que deixa tudo em suspense é que cerca de 25% dos eleitores sondados pelo DataFolha, ou seja, um em cada quatro, ainda não escolheu seu candidato. O que pode mudar tudo até as vésperas das eleições. Também é bem significativo, conforme outras pesquisas, o número de eleitores que admitem mudar sua preferência ao correr da campanha. Coisas a comemorar, muito com que se preocupar - 3 O mais relevante a considerar para qualquer prospecção mais profunda, porém, é que todos esses movimentos estão sendo proporcionados apenas por eventos políticos e de "marquetagem", importantes sem dúvida na conquista do eleitor, mas não totalmente determinantes. Dois serão os fatores que poderão, de fato, decidir as eleições de 2014 : 1. O sempre falado comportamento da economia, com ênfase na questão do emprego e da renda. Nesse ponto, a maioria dos analistas independentes não está vendo no horizonte, grandes abalos para a candidatura de Dilma à reeleição. O governo tem instrumentos para ir tocando a situação, sem deixar a inflação escapar ao controle e segurando ameaças de desemprego. Vamos continuar crescendo mediocremente, mas sem turbulências maiores ou mesmo uma crise. 2. A percepção, a sensação dos eleitores sobre a qualidade dos serviços públicos, naquilo que mais afeta o seu dia a dia, a sua qualidade de vida, aliás, o grande mote das manifestações juninas. Desse ponto de vista, o quadro que se apresenta hoje não é dos mais animadores para quem, Federal ou estadual, vai defender as cores governistas. Campos-Marina : Moderno-Arcaico - 1 Não cabe neste honrado espaço enormes e profundas digressões sobre a sociologia política brasileira neste momento. Todavia, parece-nos que é o caso de utilizarmos as "ferramentas" da política para pensarmos um pouco sob a luz da recente aliança Campos-Marina. Ocorre que esta dupla reserva ao eleitorado uma soma inusitada entre o antigo e o moderno que precisa ser deduzida com certa urgência sob pena de a esfinge do eleitorado dragá-los e expeli-los. Campos, com seus europeus olhos azuis, é homem que denota tradição (o ex-governador Miguel Arraes) e um carisma local (e não nacional). Todavia, falta-lhe o tempero da modernidade na política, aquele que no dizer de Max Weber está ligado ao entendimento mais completo da legalidade formal e dos limites (formais ou não) da democracia. Marina, de outro lado, tem tradição calcada em luta política, é abastada de carisma pessoal e apega-se a visões de mundo estruturadas de forma ideal e, às vezes, um pouco distante da realidade objetiva. Saiu da floresta e provou-se astuta na associação que fez, mas ainda persiste em seu discurso certo exagero onírico. Campos-Marina, enfim, não é uma combinação tal qual feijão com arroz. Está mais para uma mistura tropicalista, onde ele pensa no casamento e ela saboreia um açaí. Campos-Marina : Moderno-Arcaico - 2 Se as diferenças de Campos e Marina são notórias, estas serão bem mais exploradas pelos seus opositores que os poços de petróleo de Eike Batista. Logo, por dedução lógica-política, é melhor mostrar logo para o respeitável público como a equação funciona entre os dois, sob pena de esta parceria virar inequação e terminar esquecida em algum lugar inabitado da Amazônia. Para Marina cabe sair do respeitado discurso sobre a vocação política para a ação política concreta, dizer aquilo que vai fazer. Eduardo Campos terá de fazer que o leito do PSB, tão assoreado por nada ortodoxas alianças políticas, sobretudo nos Estados, não vire um atoleiro onde não andarão juntos a pureza ideal da política de Marina e o necessário pragmatismo na ação política. A dúvida sobre a "cabeça de chapa" vai ficar até que se saiba sobre os efeitos externos desta surpresa política. Internamente, não há nada mais perigoso que as vaidades reinarem e desunirem o partido que já era um composto complexo e que sofreu mais uma mutação genética jamais vista nas últimas décadas no Brasil no âmbito formal dos partidos políticos. Campos-Marina: Moderno-Arcaico - 3 O programa de rádio e TV da nova dupla dinâmica da política brasileira, na última semana, foi bom para tratar não apenas das aparências, mas também começar a falar concretamente a que veio. Pareceu sincero e trouxe até alguma felicidade frente à tremenda chatice que, em geral, se vê. Daqui por diante, porém, será essencial que se saiba mais sobre o que pensam Campos e Marina sobre a economia, a política, a educação, a saúde, etc. Sumir de cena para realizarem os "debates com as bases" sobre o que deve ser feito se constituirá enorme erro de estratégia porquanto dará tempo para que os adversários se recoloquem para destronar a vanguarda que Marina-Campos (nessa ordem) criaram. Política é liderança, e não pode ser guia o "curtir" do Facebook com todo o respeito que as tais redes sociais merecem. Esta coluna não é afeita a "conselhos", mas a nossa melhor análise leva a crer que o eleitorado gostará de ver algo novo no ar, mas quer saber como a vida concreta de cada um vai ser afetada. Campos-Marina criaram riscos enormes à frente, mas há de se reconhecer que abriram horizontes no céu da triste política brasileira. Dilma, eleições e melões Na semana passada a presidente Dilma Rousseff esteve presente a eventos que são bem a conta de (i) o quanto a campanha eleitoral está prematuramente nas ruas e (ii) a falta de uma visão estratégica em relação ao Brasil, no momento em que se vê a olhos nus a desindustrialização do país, a incompetência generalizada na gestão do Estado, a corrupção elevada em diversos segmentos e assim vai. O primeiro foi o encontro com taxistas para fazer coro em prol de um projeto que altera as regras das permissões de serviços públicos em caso de morte do permissionário. O outro, sábado passado, foi a entrega de 57 motoniveladoras no RS com direito a fotos com as belas gaúchas da Festa do Melão. Tais encontros representam bem a tônica do governo Dilma neste momento. Não bastasse isso, há vazamentos na imprensa dando conta do forte interesse de Dilma Rousseff por motocicletas, ao que parece uma Harley-Davidson. A presidente vai, inclusive, agravar as já debilitadas contas externas do país. Insatisfação social : uma medida Dados da pesquisa do Ibope de setembro mostram que é constante a deterioração da satisfação da sociedade com os serviços de obrigação dos governos de um modo geral. Vamos a eles na comparação com setembro de 2011 : - desemprego : (a) aprova - 53% em setembro de 2011, 39% em setembro de 2013; (b) desaprova - 42% em setembro de 2011, 57% em setembro de 2013. - inflação : (a) aprova - 55% em setembro de 2011, 38% em setembro de 2013; (b) desaprova - 68% em setembro de 2011, 27% em setembro de 2013. - combate à fome e à pobreza : (a) aprova - 59% em setembro de 2011, 51% em setembro de 2013; (b) desaprova - 38% em setembro de 2011, 47% em setembro de 2013. - saúde : (a) aprova - 30% em setembro de 2011, 21% em setembro de 2013; (b) desaprova - 67% em setembro de 2011, 77% em setembro de 2013. - educação : (a) aprova - 46% em setembro de 2011, 33% em setembro de 2013; (b) desaprova - 51% em setembro de 2011, 65% em setembro de 2013. - segurança pública : (a) aprova - 37% em setembro de 2011, 24% em setembro de 2013; (b) desaprova - 59 % em setembro de 2011, 74% em setembro de 2013. - impostos : (a) aprova - 27% em setembro de 2011, 22% em setembro de 2013; (b) desaprova - 66% em setembro de 2011, 77% em setembro de 2013. - meio ambiente : (a) aprova - 54% em setembro de 2011, 41% em setembro de 2013; (b) desaprova - 38% em setembro de 2011, 52% em setembro de 2013. - taxa de juros : (a) aprova - 32% em setembro de 2011, 23% em setembro de 2013; (b) desaprova - 59 % em setembro de 2011, 71% em setembro de 2013. (A diferença para 100% das entrevistas correspondente a quem não sabe ou não respondeu à questão. Quem quiser acompanhar a evolução desses índices nesse período, clique aqui) Alianças muito precárias A não ser em casos muito específicos, como no caso PSB-Rede - nesta altura a aliança é indissolúvel sob pena de total desmoralização de Marina e Eduardo Campos - e da sólida composição PT-PC do B - praticamente todas as alianças que os principais concorrentes à presidência estão correndo para fechar agora, tendo em vista, principalmente, a conquista de tempo no horário eleitoral obrigatório no rádio e na televisão. Ademais, estão sujeitas a revisão no futuro. Até julho, quando todos os partidos farão suas convenções, ninguém é de ninguém nesta vida, apesar de flerte, namoros e até "ficadas". Para todos os partidos que não estão na tabela principal - PT, PSDB e PSB-Rede o que importará mesmo, será garantir poder de barganha com o novo governo e tomar posse em 2015. Para isso, eles precisam eleger o maior número possível de deputados Federais e senadores e também não fazer feio demais nas eleições estaduais. Assim, o que contará para eles são as composições que lhes garantem mais chances nessas disputas. Afinal, depois das eleições, com exceção dos dois derrotados - e mesmo assim olhe-se lá - todos serão chamados para compor o "alianção" governista. O que eles ganharão em troca será proporcional ao tamanho que apresentarem depois das urnas. Águas revoltas : a Receita Federal - 1 Algumas semanas atrás, citando especificamente o BC, o Tesouro Nacional e o Itamaraty, falávamos de uma surda revolta nas burocracias mais consolidadas do governo Federal contra decisões em suas áreas e posições de seus comandos que eles consideram mais políticas que técnicas. Esta semana as águas ficaram revoltas na secretária da Receita Federal, com um e-mail interno expedido pelo chefe da Fiscalização RF Caio Cândido, reclamando abertamente de "interferências externas" nas decisões do órgão e com uma entrevista dada por outros dois comissionados dizendo claramente que os pareceres técnicos da área desaconselham o novo Refis que está para ser aprovado pelo Congresso com as bênçãos do Palácio do Planalto. Houve uma tentativa de amenizar a crise, porém sabe-se que o ambiente por lá é efervescente. A interpretação é a de que a revolta é com os benefícios e vantagens que empresas influentes estariam conquistando. É um fato, porém não é o único. Incomoda (na expressão usada pelo chefe da fiscalização que está demissionário) também o uso de expedientes para sustentar artificialmente certos aspectos da política econômica. A inquietação não é, para usar uma expressão introduzida no meio pelo ex-presidente Lula, uma simples marolinha. Águas revoltas : a Receita Federal - 2 Há que se notar que as complicações envolvendo a Receita são enormes. O órgão sempre é instado a arrecadar mais num contexto em que o governo gasta mal e muito. Não é fácil a tarefa. Além disso, é relativamente comum certos obstáculos jurídicos que garantem a segurança das operações de empresas e pessoas serem ultrapassados. Foi o ocorreu na questão na tentativa da Receita em faturar mais alguns reais tributando os dividendos passados das empresas em função da diferente contabilização entre os critérios definidos pela Receita e aqueles referentes ao sistema contábil IFRS. A intenção, neste caso, foi a de aumentar a arrecadação. Contou com a anuência da Fazenda e, quando os órgãos de representação das empresas, especialmente a Abrasca - Associação Brasileira das Companhias Abertas, reagiram aos efeitos daquela tentativa, houve singelo recuo da Receita e da Fazenda como se fosse tudo um mal entendido. Não foi. Isto está inserido no contexto de "perseguição arrecadatória" na qual está mergulhada a Receita, por força da atual gestão das finanças públicas do país. Projeto de Alckmin Vejamos esta afirmação do governador de SP no Fórum de Mobilidade Urbana promovido pela Folha de S.Paulo : "Trilhos são o melhor investimento. Um trilho faz 80 mil passageiros/hora em cada sentido. Ônibus, 5 mil. Um corredor de ônibus pode chegar a 12 mil, 14 mil". Nosso comentário : até o final de 2014 a Cidade de SP o Metropolitano deve chegar a 102 km. Diz o governador que o objetivo é chegar a 200 km. Para tanto, não especificou a data. O certo é que deveria o metrô ter mais de 300 km. O metrô de SP é uma ilha de esperança da população cercada por um mar de tubarões onde são fartas as denúncias de corrupção na construção dos trilhos, bem como o proselitismo político do poder de plantão. Não há um plano consistente que tire a população do aperto diário dentro dos ônibus. Os números sobre o tema sobram nas palavras dos governantes, mas não há o sentimento de emergência em relação à população, sobretudo a mais pobre, que depende do transporte público. Sequer há prazos bem planejados. Em tempo : o prefeito de SP tem uma aposta curiosa. Incentivar que as pessoas andem a pé. Afinal, as calçadas estão sendo reformadas. Haddad : saída fácil Os imóveis de SP terão a tributação elevada em cerca de 30%. O IPTU de Fernando Haddad tornará a tributação paulistana a fonte de recursos para sanear as mazelas de SP, do transporte público até a saúde. O ex-ministro da Educação demonstrou que sua capacidade de criar algo novo na cidade é zero. Não há reformas, não há economias projetadas, não há inovações. Há apenas a alta do IPTU. Com a Câmara Municipal aos seus pés, o distinto alcaide pode tudo. Como membro da "nova geração" política do país, Haddad age como todo poderoso de plantão de velha guarda : faz alarde sobre projetos destituídos de visão estratégica como são as faixas de ônibus e dá um carnê de imposto mais alto na mão dos eleitores. Há também medidas populistas, típicas dos velhos tempos da política nacional : Haddad quer obrigar o seus secretários a irem de ônibus para o trabalho. O sistema deve ficar lotado, afinal são 29 subprefeituras e 27 secretarias, distribuídas pelos partidos que apóiam o prefeito. Será interessante, para dizer o mínimo, a experiência que o prefeito quer introduzir. Verdades pela metade O ex-presidente Lula, em entrevista publicada segunda-feira no jornal argentino "Página 12" voltou a acusar a oposição brasileira de ter prejudicado o setor de saúde ao ter acabado, em fins de 2007 com a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras). Este é um velho discurso de Lula e ele voltou a retomá-lo comparando a atitude da oposição no Senado naquela época com a disputa hoje entre os republicanos e o presidente Barack Obama no Congresso a respeito do orçamento Federal, por causa dos planos do presidente americano para os planos de saúde. Trata-se de uma boa conversa de apelo eleitoral, mas que não encontra amparo na realidade por duas razões : 1. O PMDB, partido governista e que tinha (e tem) o vice-presidente da República, Michel Temer, foi um dos principais artífices da derrota da prorrogação da vigência da CPMF pedida então por Lula. Primeiro, porque segurou ao máximo da MP correspondente na Câmara, dificultando as negociações para sua aprovação pelos senadores. Comandou o boicote o deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ), hoje líder do partido, que só soltou o osso quando conseguiu acertar nomeações para Furnas. E depois, quando vários peemedebistas votaram contra a MP. A oposição sozinha já então não tinha número suficiente para derrotar o governo, nem no Senado nem na Câmara. 2. O ministro Guido Mantega, da Fazenda, logo depois da derrota, em janeiro, soltou uma MP, aprovada no Congresso em abril, aumentando o IOF de algumas operações e a Contribuição Social sobre o lucro líquido dos bancos, de 9% para 15% exatamente para compensar as perdas com o imposto do cheque. Os maus serviços públicos de saúde no Brasil se devem apenas em parte à falta de recursos. Em boa parte é culpa de desperdícios e má gestão mesmo. Radar NA REAL 11/10/13   TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo Juros ¹ - Pré-fixados NA alta estável/alta - Pós-Fixados NA alta estável/alta Câmbio ² - EURO 1,3593 baixa baixa - REAL 2,1889 estável/baixa baixa Mercado Acionário - Ibovespa 53.149,62 estável/baixa baixa - S&P 500 1.703,20 estável/baixa alta - NASDAQ 3.791,87 estável/baixa alta (1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais). (2) Em relação ao dólar norte-americano NA - Não aplicável
terça-feira, 8 de outubro de 2013

Política e Economia NA REAL n° 265

2014 : nada será mais como antes - 1 Muita água vai correr ainda debaixo das pontes que cruzam o Capibaribe diante da união entre Marina Silva e Eduardo Campos para formar uma chapa conjunta e concorrer à vaga de Dilma. O primeiro ponto a ser analisado é sobre a viabilidade prática da coligação dos "sonháticos" de Marina com os "socialistas pragmáticos" de Eduardo Campos e a capacidade dessa união de ser uma soma real de votos. Viu-se, por exemplo, já no fim de semana, pelas redes sociais, que os "marineiros" estão divididos : 1. houve os que aplaudiram irrestritamente; 2. houve os que querem a união com Marina na cabeça de chapa; 3. houve os que simplesmente recusaram a união. 2014 : nada será mais como antes - 2 O tempo dirá o acerto ou não do grande e surpreendente lance de Campos e Marina, o mais ousado até aqui da corrida sucessória. Frenéticas pesquisas que os partidos encomendaram imediatamente, agora darão apenas um leve sinal dos efeitos eleitorais da jogada da dupla. Marina já vai aparecer no horário eleitoral obrigatório que o PSB tem direito na quinta-feira. No fim de semana, portanto, pesquisas abertas que alguns institutos estão preparando terão sinais menos tênues da aceitação do acordo PSB/Rede. Todavia, nada em definitivo se saberá em menos de dois ou três meses, até porque os abalos sísmicos obrigarão os adversários da provável (improvável até sábado passado) aliança a mudarem suas estratégias eleitorais. Principalmente Dilma, Lula, PT e aliados. 2014 : nada será mais como antes - 3 De todo modo, algumas afirmações já podem ser feitas : 1. O segundo turno, que Lula passou novamente a sonhar ser possível evitar quando Marina ficou sem partido, agora ficou quase inevitável. 2. Nesse caso, será impossível a chapa governista de Dilma atrair os adversários do primeiro turno. O PSDB é por natureza oposição. Marina e Campos, pelo gesto e pelos discursos, também deram sinais de que não farão acordos com a candidata oficial. 3. Tanto Dilma quanto Aécio (ou Serra, pois há tucanos que ainda não desistiram da candidatura do ex-governador paulista) são atingidos pelo novo quadro. Inicialmente, e aparentemente, os tucanos perdem mais. 4. Marina e Campos são dois potes assim de mágoa com o governo e o PT. Marina deixou claro que os culpa pelas dificuldades que teve para oficializar o Rede. Seu discurso ao lado de Campos foi pesado até ao atribuir tendências "chavistas" ao governo. Campos não perdoa o fato de o governo ter tentado dividir sua liderança no PSB. 5. Se Dilma não conseguir, por quaisquer razões, aumentar seus índices de intenção de votos a níveis próximos dos 50% até o início do ano, o "queremismo" do "volta Lula", que nunca se apaga totalmente, deverá se amplificar fortemente no PT e nos aliados. 6. Os aliados do PT, a começar pelo PMDB, já começaram a se sentir mais imprescindíveis do que nunca ao PT e Dilma e devem aumentar seu preço para continuar na aliança. A reforma ministerial que Dilma necessariamente fará para liberar os ministros e outros auxiliares candidatos ganha outra dimensão. 7. Dilma estava dando um "sufocozinho" no PMDB ao não ter indicado imediatamente o senador Vital do Rego/PB para o ministério da Integração Nacional. Agora talvez tenha de ser mais rápida na decisão. 8. O PMDB, porém, também precisa se cuidar : conforme o andamento da campanha, é possível que a estratégia oficial exija que a aliança governista venha com alguma aparência de "nova", alguma maquiagem de renovada. A dupla Dilma/Temer frente a Campos/Marina pode ficar com cara demais de passado. Em política, nunca se sabe Quem disser que sequer imaginou o lance audacioso de Marina e Eduardo Campos é porque estava muito mal informado. Foi a mais surpreendente surpresa político-eleitoral do Brasil em muitos anos. Palpite infeliz Em condições normais de temperatura e pressão, nessa altura da disputa presidencial, já teria sido fora de propósito - além de uma demonstração de soberba e arrogância um tanto excessivas - a declaração do marqueteiro e ministro sem pasta de Dilma à revista "Época" desta semana classificando os adversários da presidente como "anões". Ficou ridícula depois do acordo Eduardo Campos/Marina. Não é à toa que em Brasília se diz, há algum tempo, que João Santana já não está mais tão influente quanto era até a queda do prestígio de Dilma e do governo nas pesquisas, na esteira dos movimentos juninos. E ele tem uma conta a pagar, que já está chegando : prometeu que a presidente recuperaria esses índices em quatro meses, portanto, perto do fim do ano. Mercado subestima o risco político - 1 A inegável carga de inteligência política de Marina Silva ao se alojar no partido de Eduardo Campos esconde outra aposta com efeitos relevantes sobre a economia : a de que o governo Dilma sofrerá um revés econômico maior que o atual. Além disso, Campos e Marina apostam numa "terceira via" associada com a latente insatisfação de substanciais parcelas da opinião pública em relação ao governo petista. O desafio para a dupla será o de criar um cenário ao mesmo tempo possível e razoável para suportar as insatisfações. De fato, não existe um "pensamento econômico" que possa caracterizar Campos e Marina. A leitura do que se conversa nos bastidores e do que se vê em público é que da fonte do PSD/Rede há pouca substância no que concerne à economia. Não à toa, Campos se escora na velha guarda conservadora para ganhar pontos com a elite (Jorge Konder Bornhausen) e Marina Silva conta com o apoio do milionário André Lara Resende, um dos formuladores mais influentes do PSDB. Mercado subestima o risco político - 2 Será um erro colossal se as elites econômicas do Brasil não cobrarem dos candidatos, em geral, e de Campos/Marina, em particular, um projeto (não um plano) consistente que faça o Brasil retomar o crescimento em bases novas. A desindustrialização é um fenômeno mais que evidente e os fundamentos sistêmicos do Brasil já alcançam o grau de deploráveis para que o país possa permanecer a caminho do centro do capitalismo. Neste sentido, não bastam mais os planos de ocasião, as políticas limitadas e pouco estratégicas. A necessidade do momento requer um plano que possa ser formulado com objetivos de longo prazo. Ao mesmo tempo, o jogo eleitoral exigirá propostas imediatistas para a saúde, previdência, educação e desenvolvimento regional. Entre o discurso e a prática, a política econômica dos candidatos sofrerá um escrutínio além do eleitorado que é o da realidade. O Brasil deixou de ser um país dinâmico para ser um país relativamente atrasado e distanciado dos novos padrões mundiais. Basta ver a Coréia do Sul e a China. O Brasil está mais para o México, receptor de investimentos voltados para as suas maquillas. Este cenário pouco animador "não está nos preços dos ativos" como se diz no mercado. Todavia, os fatos são mais fortes que possam parecer e cobrarão o seu preço político logo à frente. BNDES merece ser investigado Se o Congresso valoriza o seu papel de fiscalizador das políticas do poder executivo há uma tarefa republicana a ser realizada : trata-se de investigar como opera e quais os resultados que o BNDES obteve nos últimos anos. É inegável que o banco de desenvolvimento tem de ter papel central na configuração das políticas econômicas do Brasil. O que se vê, contudo, são operações muito estranhas e de resultados duvidosos. Nas últimas semanas soube-se um pouco mais sobre o passivo do banco com o Grupo X de Eike Batista, os ex-supermilionário mundial. Na semana passada, verificou-se a operação do Grupo Oi, cliente prime do BNDES, com a Portugal Telecom. Há ainda as operações do banco com os frigoríficos, bem como outras operações motivadas pela duvidosa "política dos campeões" forjada a partir da cabeça do presidente do BNDES Luciano Coutinho. Se quisermos avançar, precisaríamos entender a política do BNDES na área de cultura, sobretudo no cinema nacional. Como pode uma instituição com o porte orçamentário do BNDES permanecer sem uma avaliação do Congresso ? Marta Suplicy poderia responder O escritor Paulo Coelho já discorreu em várias entrevistas sobre os seus "poderes excepcionais". Diz que faz até o vento soprar mais forte. Falando de coisas mais prosaicas, o nosso Alquimista, em entrevista ao jornal alemão "Welt am Sonntag" (Die Welt), informou em alto e bom som algo que deveria ser um tufão na área cultural : "Duvido que todos sejam escritores profissionais." Disse mais : "Dos 70 convidados, só conheço 20, nunca ouvi falar dos outros 50. São, presumivelmente, amigos dos amigos dos amigos. Um nepotismo. O que mais me aborrece : existe uma nova e excitante cena literária no Brasil. Muitos desses jovens autores não estão na lista". O polêmico escritor estava se referindo à lista de 70 convidados do Ministério da Cultura do Brasil, liderado pela ministra Marta Suplicy, que irão à Feira de Livros de Frankfurt, na Alemanha. Será que a ministra da Cultura adotará a postura do "relaxa e goza" para comentar as declarações de Paulo Coelho ? Metamorfose ambulante Trajetória partidária do ex-ministro e ex-governador Ciro Gomes desde que começou sua carreira política em Sobral, no interior do Ceará : Arena/PDS - PMDB - PSDB - PPS - PSB - e agora (e até quando ?) PROS. Sim, Ciro é aquele mesmo que não perde a oportunidade de criticar a falta de convicção política dos adversários. Ambulantes A contagem não foi encerrada, porém já se conta em mais de 60 o número de parlamentares que trocou de partido até sábado, data fatal para quem pretende concorrer a alguma coisa em 2014 estar filiado a uma legenda. Isto só no plano Federal. Somados os estaduais, o número passa facilmente dos 100, podendo chegar a 200. A maioria foi em direção ao PROS e Solidariedade, criados exatamente para abrir essas brechas. Para que tantos ? Entramos na fase decisiva da campanha eleitoral com 32 partidos oficialmente criados. É um exagero em qualquer quadrante do planeta, não há tantas formas de ver o mundo e pensar a gestão pública quando esse número parece indicar. Nem num país com a criatividade política do Brasil. No fundo, entre nós, a questão partidária poderia ser resolvida, como se diz popularmente, com "uma meia dúzia de três ou quatro" legendas, a saber : - dois partidos de oposição, um mais ou menos e outro menos ou mais - teria 20% da representação política, qualquer legenda ocupasse o Palácio do Planalto no turno. - dois partidos da situação - o PGN (Partido Governista Nacional) e o PGB (Partido Governista do Brasil) - com 80% da representação política para apoiar o governo de plantão. Se por acaso a sociedade, contrariada de algum modo, resolvesse trocar o comando do Palácio do Planalto, imediatamente os oposicionistas vencedores passariam a ser o PGN e o PGB, com 80% de adeptos e parte ínfima do ex-governistas formaria a nova oposição. Como já ensinava um velho político mineiro, desses que se orgulhava de nunca ter passado um mísero dia sequer de sua vida política na oposição, seu partido ganhando ou não o Palácio da Liberdade, "não há nada melhor na política do que cafezinho de Palácio de governo". Outra metamorfose ambulante Não passará uma semana sem que o governo anuncie algum tipo de modificação nos modelos de privatização (ou concessão, como prefere sempre o Palácio do Planalto) das estradas, rodovias, ferrovias e portos incluídos no Programa de Investimentos em Logística (PIL) para atrair ressabiados investidores. O problema mais sério - embora isto também o seja - não são apenas algumas regras. O problema continua sendo os temores dos possíveis concorrentes com as interferências governamentais nos negócios - não há confiança é no pós-venda, se o acertado vai ser para valer, sempre. O risco de novos "vazios" nas disputas, apesar das concessões que já foram feitas, ainda é grande. Estranha coincidência No mesmo dia em teve o dissabor de ver uma de suas notas de crédito rebaixada pela agência de classificação de riscos Moody's, a Petrobras deixou "vazar de forma oficial", veja-se bem, que nos próximos dias anunciará uma bilionária descoberta de petróleo na bacia de Sergipe/Alagoas. Informação depois não confirmada pelo ministério das Minas e Energia. É óbvio que jogava para desviar a atenção para a má notícia, principalmente quando se aproxima o momento em que ela terá de desembolsar R$ 4,5 bilhões para pagar seus 30% no bônus de assinatura no leilão do campo de Libra do pré-sal. O mais grave é que como companhia de capital aberto, ela não pode ser dar ao direito da fazer esse tipo de vazamento. Onde está a CVM que não vê uma coisa dessas ? CPI da Petrobras A Petrobras, nos seus 60 anos de idade, ainda pode ser investigada pela CPI que o PMDB prometeu instalar há pouco mais de seis meses ? Ou esta "ameaça" era apenas para dar um recado ao governo ? Com a palavra Michel Temer e seus aliados do partido, especialmente, o deputado carioca Eduardo Cunha. Duas vozes É semana de reunião do Copom do BC e, pelas previsões do mercado, com base na última ata do BC e do Boletim Trimestral de Inflação, está vindo mais um aumento de 0,5 ponto percentual na taxa básica de juros. A expectativa está transferida para a última reunião do ano, em novembro. A maioria acredita que virá mais um ajuste na Selic, para cima, de 0,25 ponto percentual e mais nada. Por um bom tempo ela ficaria então em 9,75%, não chegando novamente aos dois algarismos tanto odiados pela presidente Dilma. Há, porém, ruídos nessa interpretação, provocados pelos barulhos do próprio BC. Quando apresentou o Boletim de Inflação, 10 dias atrás, o diretor de política econômica do BC, Carlos Hamilton, disse claramente que a inflação ainda preocupa e exige atenção de cuidados. Já o presidente Alexandre Tombini, em palestra lá fora na semana passada, afirmou a investidores que o ouviam que a inflação está sob controle e é declinante. Ou é Tombini ou é Hamilton, as línguas estão claramente divergentes E não é difícil entender a contradição : por mais que as "vozes oficiais" sopradas do Palácio do Planalto digam o contrário, Dilma marca o BC nesta questão da Selic. Os "juros mais baixos da história do país" fazem parte da cesta do marketing eleitoral dela. Daí as divergências de falas entre Tombini (mais político pelo cargo que ocupa) e Hamilton (mais técnico e tido como dos mais ortodoxos da diretoria do BC). Política e economia nos EUA A estratégia de negociação dos republicanos no que se refere ao orçamento dos EUA mistura uma enorme dose de ideologia (o grau de intervenção na economia, notadamente no setor de saúde) e um inusitado proselitismo ao pedir que Obama negocie pessoalmente. O intento é claro : (i) reduzir o sistema universal de saúde criado por Obama aos frangalhos e (ii) enquadrar o presidente e seu governo com vistas à próxima corrida eleitoral. Uma aposta que envolve o mundo inteiro uma vez que a dívida pública corre o risco de não ser parcialmente paga. É muito improvável que um cenário mais agudo ocorra, mas o jogo político está mais tenso que poderia um arguto analista imaginar. Para o Brasil os efeitos imediatos são sobre o mercado cambial, mais tranquilo com a queda do dólar norte-americano. Os efeitos mediatos ainda são difíceis de serem estimados já que a guerra dos republicanos deve se propagar por alguns anos. Não à toa o presidente norte-americano está a passear por temas caros aos republicanos, tais como, espionagem e guerra externa. Os lobbies da indústria armamentista agradecem. Radar NA REAL 4/10/13 TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo Juros ¹ - Pré-fixados NA alta estável/alta - Pós-Fixados NA alta estável/alta Câmbio ² - EURO 1,3581 baixa baixa - REAL 2,2055 estável/baixa baixa Mercado Acionário - Ibovespa 52.848,97 estável/baixa baixa - S&P 500 1.690,50 estável/baixa alta - NASDAQ 3.807,75 estável/baixa alta (1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais). (2) Em relação ao dólar norte-americano NA - Não aplicável
terça-feira, 1 de outubro de 2013

Política e Economia NA REAL n° 264

2014 : Dólar para cima. Juros também - 1 Os diversos segmentos do mercado financeiro mundial estão relativamente estáveis, inclusos os tais emergentes, dadas as informações provenientes da última reunião do Fed que manteve inalterada a expansão monetária que sustenta as atuais taxas de juros negativas nos EUA. Vale dizer que, a despeito desta informação, é certo que este período de forte expansão das emissões de dólares está chegando ao fim, depois de cinco anos desde a crise de meados de setembro de 2008. Isso significa que o dólar norte-americano vai se valorizar com a alta dos juros básicos daquela economia, bem como devido ao próprio fato de que a atividade econômica está em clara expansão nos EUA. O euro e o iene sentirão os efeitos decorrentes deste processo, mas serão as moedas de países em desenvolvimento aquelas que mais perceberão os efeitos do dólar americano mais caro. Neste sentido, Índia e China já se preparam claramente para este cenário. A Rússia opera olhando mais para o preço do petróleo e o Brasil está aumentando os juros, mas a inflação também sobe - este também é o caso da Turquia, para citar uma dentre as economias mais secundárias. 2014 : Dólar para cima. Juros também - 2 Há, obviamente, a opção de os países emergentes, dentre os quais o Brasil, de não subir os juros e aceitar passivamente a desvalorização cambial. Isso significará muito provavelmente uma equivalente alta da inflação. No caso brasileiro há o agravante de que o governo represou uma série de preços públicos, dentre os quais a energia elétrica (esta sofreu uma desoneração, mas as tarifas estão artificialmente baixas) e os combustíveis. Ou seja, os riscos de inflação são muito maiores. Portanto, na medição entre juros mais altos versus inflação mais alta o governo deve optar pelo controle da inflação. O que, por sua vez, significa atividade econômica muito modesta, ao redor dos 2%. Note-se que não há no horizonte nenhuma alteração estrutural que nos tire desta sina do "voo de galinha", outrora propalado pelos que hoje detêm o poder. No caso da Índia e China, ambos os países com taxas de produtividade crescentes, o PIB pode crescer menos, mas não a ponto de se envergonhar perante seus "colegas". O caso do Brasil é de dar vergonha até mesmo perante o continente abaixo do Equador, local onde há o mito de que não há pecado. 2014 : Dilma e o PIBinho Até agora está claro o favoritismo da presidente na corrida presidencial. O fato de produzir resultados pífios na governança e na economia não a impede de bons índices de popularidade por força do emprego alto e a renda estável. É possível e, até mesmo provável, que persista este cenário por mais tempo. Porém, temos de reconhecer que o cenário no médio prazo está cada vez mais comprometido. A indústria brasileira está capenga, acumulando dia a dia mais necessidades de "vantagens" para sobreviver. Depende de um câmbio mais favorável, de desonerações tributárias permanentes, de incrementos de novas tecnologias, de maior eficiência na logística de produção e distribuição... e assim vai. Não à toa o Brasil, pouco a pouco retorna ao seu destino de país agrícola (e abençoado por Deus, neste particular). As elites industriais e financeiras pouco esforço despendem do ponto de vista político para frear este destino. O próprio ativismo governamental está voltado para o crédito de setores atrasados para um processo de acumulação capitalista digno do nome de "moderno". A política está afeita cada vez mais para a gestão de conjunturas de curto prazo e, nesse quesito, devemos reconhecer que governo e oposição são semelhantes. Em havendo semelhança, o povo escolhe o que mais conhece. No caso Dilma, assessorada diuturnamente por seu padrinho-palestrante Lula da Silva. É o que se verifica até agora. México tenta ajuste O presidente mexicano Enrique Peña Nieto lançou no último dia 8 um plano para ajustar o déficit público em 1,4% do PIB. Atualmente, o déficit é da ordem de 3,5% do PIB, o maior nos últimos 24 anos. A recepção do plano foi péssima e reuniu das classes laborais até os empresários mais discretos. Este ajuste ocorre no exato momento em que o país sofre os efeitos da forte saída de recursos estrangeiros, os quais estão retornando, sobretudo, para os EUA. Comenta-se que as agências de classificação de risco consideram reduzir a nota do país o que adicionaria maior turbulência ao mercado de títulos soberanos e privados. Investidores em mercados emergentes comentam que as dificuldades do México podem ser semelhantes aos eventuais ajustes/ reformas no Brasil, especialmente na área da previdência social, onde o déficit deve se aproximar de 1% do PIB este ano, cerca de R$ 40 bi. Em 10 anos este déficit deve ser de cerca de 3% do PIB. Time quase completo Dilma, de um lado amparada por um larguíssimo suporte de partidos políticos, de um partido comunista até um partido sob a influência de Paulo Maluf, símbolo do regime militar e de práticas cross border que faria até Obama corar. De outro lado, uma oposição fraca de ideias e ação, representada por Aécio Neves e (talvez) Marina Silva. Estes últimos tentam e tentam mais alianças políticas de olho nas eleições estaduais e do Congresso, além do famigerado horário de rádio e TV. Em meio aos principais candidatos surge Eduardo Campos, apostador no longo prazo. Sai agora debaixo das saias do governo pensando em conveniências de 2018. Afinal, é jovem e formou uma boa base em seu Estado PE e no Nordeste. Nada tem a acrescentar em termos de discurso. Pegará o que lhe parecer mais razoável e empenhará alguma bandeira mudancista. Por fim, temos José Serra, sobre quem ninguém sabe muito, pois para ele tudo é tão estratégico que parece discutido com um único personagem : ele mesmo. Ao que parece vai ficar no PSDB, voltado para um seguro mandato de deputado Federal. Terá o que falar no Congresso. Resta saber quem o escutará. Este deve ser o cenário. No final da semana esgota-se o prazo para indecisões. Marina esbarra no óbvio Tão certo quanto a torcida para que Marina fique sem partido é o fato de que "a sustentável" demonstrou pouca capacidade operacional para liderar um partido novo. Que existe má vontade dos corredores do aparelho estatal com a "Rede" até as pedras do Pão de Açúcar podem imaginar. Todavia, para quem teve pelo menos quatro anos para tomar um rumo, Marina Silva deixa muito a desejar. É possível que consiga formar o seu partido, mas a marca de inoperante precisa ser observada com redobrado cuidado. Ademais, a "postura" de manter-se eventualmente fora da luta política de 2014 em nome de "princípios" soa mais ainda como "fraqueza". Ninguém, em prol do Brasil, pode pregar "práticas fisiológicas", mas também deixar de articular para propor algo novo ao país parece mais "fuga" que postura. Cerca de 1/5 dos eleitores esperam algo de Marina Silva. Simplesmente virar as costas para este segmento e dizer "até 2018" parece coisa de artista consagrado que se retira da vida pública. Não é o caso de Marina que ainda necessita se provar viável enquanto alternativa de poder. Difícil de explicar, difícil de entender Filustrias legais à parte, será difícil explicar para o eleitor, mesmo os esclarecidos, como Marina não conseguiu formar seu partido e dois partidos voltados para a compra e venda - todos sabem do quê - se fizeram de pé até com facilidade. Esse episódio diz muito do sistema partidário brasileiro, da política de um modo geral e de um tal certo "garantismo" que em determinados momentos empolga a Justiça brasileira. Não dá para ninguém lavar as mãos nesse triste recorde mundial de partidos que o Brasil caminha para bater em breve. Todos estão interessados na existência dessas legendas de aluguel. E foi o STF que acabou com a cláusula de barreira (ou de desempenho) que poderia assustar alguns aventureiros. E foi também a Justiça quem disse que um partido novo pode herdar o tempo de propaganda eleitoral no rádio e na televisão e o fundo partidário referente ao número de deputados Federais que conquistar Deus e o Brasil inteiro sabem lá como. Liberou geral e agora não adianta chorar. Eduardo Campos, moderno ? Será muito curioso verificar qual será o discurso do governador Eduardo Campos. É jovem, fala bem e parece querer transitar entre o moderno e o arcaico no que tange à economia. De seus respeitáveis índices de aprovação Campos manifesta-se pelo país e governo que "podem mais". Se pensa em 2018, por que não anuncia planos estruturais ? Por que não denuncia o atraso no qual o país mergulha e prevalece a letargia política ? Como explicará que foi sócio do primeiro time dos projetos lulistas e dilmistas e agora quer ser um oposicionista ? Se tudo se circunscrever apenas ao "tático", por ora, é possível que Campos possa se inserir no cenário político, mas será necessário que ele vá além de suas alianças regionais e seus bate-papos com Dilma e Aécio. O que se conhece nacionalmente de Eduardo Campos foi sua atuação para assentar sua mãe Ana Arraes no TCU. Há dois anos fez contatos e acordos de norte a sul para garantir o assento da genitora. Venceu com 222 votos contra 149 do atual ministro dos esportes Aldo Rebelo. Apoiou-se em Lula, Kassab, no PTB de Roberto Jefferson e assim foi. Seria este um sinal de como atua politicamente ? Em tempo : Campos não pode nem de longe passar a impressão de que começa a correr em 2014 para se preparar para 2018. Se o eleitor desconfiar disso, ele terá uma votação pífia. Afinal, porque votar agora num cara que só quer chegar em quatro anos ? Celso de Mello, Poder Estatal e o povo - 1 É consagrado o princípio que conceituou o Poder Estatal como único, dado que a sua fonte é o próprio Estado formado por um caráter volitivo originário dos interesses de um povo. A Constituição dá forma à organização do Estado e aos limites para a sua ação. A "separação de poderes", a partir desta premissa, foi o modo funcional construído socialmente a partir do século XVII para que o Poder uno do Estado fosse contido de forma "harmônica e equilibrada". Portanto, a "separação" é uma ficção útil à sociedade, evitando-se a tirania. A existência do Legislativo, Executivo e Judiciário é uma garantia cuja fonte é um "parcelamento" do Poder em prol do povo e que guarda graus variados de interdependência. A "separação" é uma garantia que, de outro lado, não deve excluir a influência de seu constituinte, o povo. Trata-se de conceito básico que muitas vezes precisa ser relembrado para que seja relativizada a independência de cada um deles, especialmente, o Judiciário, o mais supremo detentor das decisões estatais. Além do fato de que todas as instâncias do Poder Estatal estão sujeitas às críticas. Celso de Mello, Poder Estatal e o povo - 2 Afirma o eminente ministro Celso de Mello, na coluna da jornalista Mônica Bergamo da Folha de S.Paulo do último dia 26 que "em 45 anos de atuação na área jurídica, nunca presenciei um comportamento tão ostensivo dos meios de comunicação buscando subjugar um juiz. (...) Abordagens passionais descaracterizam a racionalidade inerente ao discurso jurídico. É fundamental que o juiz julgue de modo independente". Ao que parece o ministro do STF esqueceu-se de alguns aspectos fundamentais ao fazer o seu desabafo. O povo, a sociedade, das quais a imprensa é parte, tem sim o direito de ser incisivo e ostensivo. Tem o direito de tentar influenciar as decisões estatais, em geral, e as do Judiciário em particular. Afinal, assim ocorre, por diferentes meios, com o Executivo e o Legislativo, também detentores do Poder Estatal. Mais : não pode haver "constrangimento" quando as vozes se pronunciam sobre temas que lhe são caros, dentre os quais, as imoralidades do chamado "mensalão" (cujo nome já soa desagradável). Diante disso não há tentativas de "subjugação". No caso da AP 470, por sinal, a decisão foi tomada e aceita, sem que houvesse nenhum atentado aos juízes e às suas sentenças. Celso de Mello, Poder Estatal e o povo - 3 O ministro Celso de Mello, ao pronunciar o seu voto, estava desempatando um processo decisório onde havia e há mais dúvidas do que certezas. Não pense o eminente juiz da Corte máxima que o seu voto recheado de citações, embora muito respeitável, seja fonte de sabedoria superior nesta ação penal. Fosse assim cabalaria para si outros votos, afinal estes podiam ser mudados até o encerramento do resultado, não é mesmo ? Se é verdade que a aceitação dos embargos infringentes é tortuosa, melindrosa e cheia de corredores analíticos, é verdade também que o distinto povo está "subjugado" por mazelas como a corrupção e o abuso do Poder uno do Estado. Ao povo não falta paciência com a "racionalidade do discurso jurídico". Especialmente quando se vê o tal do "mensalão" se arrastando por anos e os poderosos protegidos por um Estado de Direito que não agasalha sequer a maioria do povo. Não pode esperar o digníssimo magistrado que o povo distinga todas as facetas e particularidades de um processo, especialmente na Suprema Corte. Não resta dúvida que foi isso que a imprensa refletiu nas suas reportagens. Não se pode chamar isso de "paixão". Diga-se que nem sempre a imprensa reflete legitimamente e eficazmente os sentimentos do povo, mas neste caso a "racionalidade" de Celso de Mello deveria reconhecer que foi o caso. O Judiciário é uma garantia contra a tirania do Poder uno do Estado, mas não pode ser impermeável à fonte que lhe dá este Poder. O "x" de Guido Mantega O ministro da Fazenda Guido Mantega declarou em um evento na FGV/SP que "isso [a crise do grupo X] continua atrapalhando o desempenho da economia brasileira, que na Bolsa é muito boa. Mas claro que você pode ter uma empresa que não tenha desempenho suficiente e nos atrapalhe". Trata-se de uma declaração curiosa, especialmente vindo da boca do presidente do Conselho de Administração da Petrobras, o que lhe credencia como especialista no setor. Será que tal crise não era previsível ? O que terá feito o governo para evitá-la ? E por que o BNDES emprestou tantos recursos para este Grupo ? Não deveria o banco ter sido mais prudente ? Sobre estas perguntas não se sabe o que pensa o ministro. Ainda Dilma na ONU Cabe a um presidente de um país como o Brasil se indignar diante das revelações sobre a espionagem promovida pela maior potência do mundo em comunicações públicas e privadas de governantes. Tal indignação pode ser manifestada de diversas formas e ocasiões, mas no mundo da realpolitik é preciso tomar cuidado para não ultrapassar certos limites, incluso o do ridículo. A arena internacional não permite amadorismo. Veja o caso do governo Obama em relação à crise Síria. Vladimir Putin deu um nó diplomático no departamento de Estado e no próprio presidente que não restou alternativa aos EUA senão o recuo de suas pretensões intervencionistas. O que ocorreu em seguida ? O secretário John Kerry se recompôs, apertou a gravata e voltou a negociar com a Rússia e outros países que compõem o Conselho de Segurança da ONU. A União Europeia, também vítima da política de Obama, viu-se constrangida em verificar que sofreu espionagem no exato momento em que negocia um amplo acordo comercial com os EUA. O que ocorreu a seguir ? A vida seguiu e as negociações também. A pergunta que resta é como Dilma e seu governo seguirão em relação aos EUA ? Será que a presidente consultará o seu ministro sem pasta João Santana, conselheiro eleitoral da presidente, para saber o que fazer ? O sumiço de Mercadante Nota-se em Brasília que o ministro da Educação Aloizio Mercadante está menos atuante nos assuntos fora de sua pasta. Não se sabe se isso é efeito de suas proposições sobre plebiscito e reforma política durante as manifestações de junho e julho passados. A conferir. Por quê nem todos acreditam ? Lula tem feito louváveis esforços para dissuadir as viúvas do lulismo, no PT e na base aliada, de que não passa por sua cabeça voltar ao Palácio do Planalto. Pelo menos em 2014 não, o lugar, ele reafirma sempre que pode, é de Dilma. Em 2018, quem sabe, talvez... Mas cada vez que Lula abre a boca para jurar sua fidelidade a Dilma, mais as dúvidas sobre suas reais intenções persistem. Talvez por um erro de escolha de palavras e ênfases. Foi assim duas vezes nos últimos dias. No meio da semana passada, em entrevista à imprensa ligada ao PT, sua declaração de que "está no jogo" assanhou os lulistas mais radicais. No "Correio Braziliense" de domingo, o fogo pegou novamente : Lula disse que estará nos palanques como se fosse ele o candidato. Junte-se a isto críticas veladas a Dilma, inclusive no caso do rompimento político com o PSB, e está formado o caldo de cultura para alimentar um pouco mais o "volta Lula" que ele tenta abafar. Foram apenas escorregões verbais ou recados cheios de malícia política ? Por que eles não acreditam ? O ministro da Fazenda, Guido Mantega, descobriu mais um responsável pela desconfiança no exterior a respeito da economia brasileira : o empresário Eike Batista, outros incensado no mundo oficial como o empreender dos novos tempos (ver nota acima). De ilusões também se vive O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, talvez por um lapso mental, deu a chave do início desse descrédito, no road show que a presidente Dilma Rousseff comandou nos Estados Unidos para atrair investidores para o Programa de Investimentos em Logística (PIL) : o modo como foi conduzida a renovação dos contratos do setor elétrico. A queda começou aí. Não foi à toa que o tom da peroração da presidente Dilma Rousseff foi o de que o Brasil é um país que cumpre contratos. Por quê é tal difícil de convencer ? O diretor de Política Econômica do BC, Carlos Hamilton passou maus bocados para tentar convencer os jornalistas especializados que acompanham o dia a dia do BC, que a política fiscal do governo Dilma caminha para a neutralidade, como a autoridade monetária escreveu no boletim trimestral de inflação divulgado ontem. Não é mesmo fácil emplacar esta tese depois de o superávit primário de agosto ter batido em apenas R$ 87 milhões e o governo, via Ministério da Fazenda, está contando com receitas extraordinárias, inclusive das concessões e infraestrutura e do pré-sal para cumprir sua promessa de economia de recursos este ano. Radar NA REAL 27/9/13   TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo Juros ¹ - Pré-fixados NA alta estável/alta - Pós-Fixados NA alta estável/alta Câmbio ² - EURO 1,3536 baixa baixa - REAL 2,2242 estável/baixa baixa Mercado Acionário - Ibovespa 53.738,92 estável/baixa baixa - S&P 500 1.691,75 estável/baixa alta - NASDAQ 3.781,60 estável/baixa alta (1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais). (2) Em relação ao dólar norte-americano NA - Não aplicável
terça-feira, 24 de setembro de 2013

Política e Economia NA REAL n° 263

Para além da mera conjuntura - 1 Os substantivos problemas pelos quais o Brasil atravessa têm sido sistematicamente tratados, seja do alto da maior autoridade brasileira, seja dos analistas, como "conjunturais" na ausência de outra palavra no vernáculo. Ocorre que o país está acumulando problemas de natureza estrutural sem que estes tenham encaminhamento estratégico. Agrava-se esta constatação com o lançamento de factóides que contribuem para a formulação dos discursos oficiais com vista às próximas eleições. A maioria das políticas governamentais ou das críticas a estas não subsiste a um exame mais demorado, mais estrutural. Como não está instalado na sociedade e no governo um sentimento de "emergência" tudo vai sendo empurrado por uma monumental barriga. Assim, com efeito pirotécnico, tudo fica como sempre e sem solução. Para além da mera conjuntura - 2 Pode-se fazer uma longa lista ou uma "agenda" para comprovar a "dança do ventre" da sociedade e do governo cujo efeito é a paralisia nas soluções. Selecionamos alguns dos itens mais importantes : (i) considerada a atual taxa de câmbio e o chamado "custo-país" (tributação, regras trabalhistas, taxa de juros, etc.), o Brasil não é competitivo perante um mundo, incluso o emergente, altamente competitivo; (ii) nada de relevante ocorreu no país nos últimos 15 anos que tenha sido relevante para alterar as ineficiências da infraestrutura nacional. Das estradas até o balcão dos cartórios dos tribunais, tudo conspira contra o desenvolvimento econômico e social (veja as notas sobre os recentes leilões de concessões); (iii) a larga maioria dos programas sociais se reduz a uma estrita visão eleitoral. Do Bolsa-Família ao "Mais Médicos" nota-se a ausência de uma visão estratégica suficiente para em algumas décadas superar-se a pobreza e o subdesenvolvimento; (iv) em matéria de desenvolvimento tecnológico e educacional a coisa vai de mal a pior. Somos, de fato, um país sem possibilidade de incorporar parcelas importantes de avanços tecnológicos e, de um modo geral, sobram analfabetos funcionais. Para além da mera conjuntura - 3 Alguém poderia argumentar que "as coisas sempre foram assim" e mesmo assim o Brasil se desenvolveu. Esta duvidosa argumentação, em geral, não considera o fato de que as mudanças dos padrões de competitividade das últimas três décadas jogaram o país num quadro de estupendos desafios. É preciso recuperar rapidamente o que deixamos de fazer naquilo que é o "básico" para jogar o jogo e, ao mesmo tempo, dar arrancadas tecnológicas que permitam ao país ser ao menos competitivo dentre seus pares "emergentes". Para isto, a arte de governar teria de reformar o Estado no sentido de torná-lo eficiente no cumprimento de suas tarefas na formulação de políticas modernas e atrair o capital para mover a máquina do desenvolvimento. Para isto o governo tem de ser fonte de estabilidade e confiança, pois até o mundo mineral sabe que o capital é covarde. Ora, o que se vê no governo é o jorro de bravatas e a incapacidade, digamos, operacional, de fazer o país seguir em frente. Afora, outros aspectos mais nebulosos como a corrupção e a trágica criminalidade. Por toda esta argumentação já não existe, a nosso ver, "conjuntura" e "estrutura". Há uma emergência que embora não aflorada, faz um país muito além de suas próprias possibilidades. Câmbio : "parada técnica" ou "mudança de tendência" ? O Federal Reserve preservou a sua estratégia de expansão monetária com o objetivo de estimular o "lado real" da economia norte-americana e, com efeito, manter o mercado laboral em aquecimento. Observados os indicadores de atividade da maior economia do mundo, o que se vê é que a demanda está, a cada dia, mais aquecida e, em menor medida, sustentada pela expansão do crédito. O que é certo é que o pior já passou e a direção dos capitais mudou, da periferia para o centro capitalista. Neste sentido, o dólar mantém intacta a tendência de valorização frente às demais moedas. O ritmo desta valorização haverá de ser maior ou menor na medida em que o Fed aponte quando "mudará" a sua política. Todavia, a autoridade monetária americana está mais próxima de mudá-la que de mantê-la. Quando isto ficar mais claro a volatilidade cambial voltará a se exacerbar e os movimentos serão mais bruscos. Até lá, parece muito mais seguro permanecer investido no dólar que em outra moeda. A transição parece ter ficado mais longa, mas a tendência permanece clara. Privatizações : os fatos e as versões - 1 A primeira versão é que a presidente Dilma Rousseff está irritada como o que classifica como insucesso dos primeiros leilões de privatização de rodovias Federais em seu governo e de exploração do primeiro campo de pré-sal, o de Libra, colocado em hasta pública. Insucesso porque o governo acreditava que haveria uma enxurrada de concorrentes nas duas ofertas e o que se viu foi a ausência de qualquer proposta para a rodovia BR-262; um consórcio vencedor da disputa pela BR-050 formado por nove empresas de porte médio, o que agitou outro fantasma que já assombrou a presidente, os resultados dos leilões do aeroportos de Guarulhos, Viracopos e Brasília; e o aparecimento de apenas 11 - inclusa a Petrobras - companhias e não as 40 imaginadas, ainda com a desistência de cinco gigantes petrolíferas, na disputa do pré-sal. Privatizações : os fatos e as versões - 2 Foi demais para Dilma - ela reagiu como se não soubesse que isto poderia ter acontecido. Ou não lê jornais, uma vez que não conversa com quem não pensa como ela e aceita suas ideias, ou não foi bem informada por seus assessores. Especialistas nesses setores, de diversos matizes ideológicos, alertaram para esse risco, em função dos modelos que foram elaborados para as concessões (palavra que o governo prefere à privatização), não dessas duas áreas agora, mas também do que vem por aí como os aeroportos, portos e ferrovias. O governo demorou anos para aceitar a necessidade de chamar o setor privado para ajudá-lo a atacar nossos problemas de infraestrutura. Havia um ano e meio de gestão quando a presidente lançou o Programa de Investimentos em Logística (PIL), em agosto de 2013. Entre a descoberta dos primeiros campos de pré-sal, as mudanças no modelo de concessão para partilha e o anúncio da oferta do campo de Libra, passaram-se seis anos. Privatizações : os fatos e as versões - 3 Quando o livro foi aberto percebeu-se que o governo queria conceder sem conceder de fato, mantendo interferências e controles sobre o processo que tornavam, para o capital privado, o negócio pouco atraente. Várias correções foram feitas, já comentadas aqui, com o objetivo de aumentar a rentabilidade nas concessões rodoviárias e reduzir os correspondentes riscos. Mesmo assim a coisa não pegou. E não pegou tanto nas estradas como nos poços de petróleo por uma coisa que está sendo chamada de "risco-governo". O Palácio do Planalto procurou encontrar agentes externos de variadas conotações para explicar o insucesso. Empresários chegaram a ser chamados a Brasília para receber um "pito" da ministra Gleisi Hoffmann. A presidente, enquanto isso, ordenou a seus auxiliares uma revisão de todo o processo, para ver onde estão os gargalos. É incrível que, depois de tanto tempo, o governo ainda precise fazer ajustes no seu programa. É sinal da soberba palaciana, de ouvir pouco e ordenar muito. Faltou o chamado "juízo crítico", normalmente uma mercadoria escassa nos palácios governamentais. Que empresa privada gostaria de ter no seu calcanhar uma sócia, a nova estatal criada para o pré-sal, que não investirá um mísero dólar no consórcio, mas terá total poder de veto nas decisões estratégicas ? Se não olhar para dentro e fizer um mea culpa, se não perceber que o Brasil não é o único lugar no mundo onde há bons negócios para o capital privado, a presidente Dilma pode colher outros frutos amargos na sua "privatização envergonhada" - "que nem jiló" como diz a música de Luis Gonzaga. Dilma/PSB : as versões e os fatos - 1 Outra surpresa, confessada por ela mesma, que assaltou a presidente Dilma Rousseff, foi a decisão do governador de PE e presidente do PSB, Eduardo Campos, de entregar a ela os dois ministérios e cargos de peso no segundo escalão Federal ocupados pelo partido. Houve sim a surpresa, mas apenas pelo gesto de Campos - ninguém esperava nas esferas oficiais e petistas tal gesto de "desprendimento" com certo cheiro eleitoral. Na realidade, Dilma se preparava para ser a condutora do processo de afastamento PSB e acabou sendo "trucada" pelo governador pernambucano. Era visível até para os mais leigos em política, que Campos e o PSB, desde que ficou mais ou menos claro que ele pretendia concorrer de fato à presidência da República em 2014, estavam sendo "fritados". Dilma/PSB : as versões e os fatos - 2 A "fritura" tinha por objetivo humilhar o concorrente, pespegando nele pechas de "oportunista" e "fisiológico", por estar fazendo um discurso de oposição, com críticas à política econômica, para preparar sua candidatura presidencial e, ao mesmo tempo, não largar o osso dos bons cargos Federais. Nessa linha, preparava-se o desembarque do PSB do governo por decisão presidencial. O PT, como bom menino que é, defendia abertamente a saída de Campos e do PSB. O PMDB, menino glutão, seguia na mesma linha, de olho nos cargos que vagarão. Já está até trucidando pelo Ministério da Integração Nacional. De duas semanas para cá, o jornais e sites começaram a publicar reportagens e notinhas, sem fontes identificadas, mas facilmente perceptíveis a olho nu, que Dilma tiraria os ditos socialistas de sua equipe quando outubro chegasse. Dilma deixou que se espalhasse a versão de que ficou furibunda com o encontro amigável de Eduardo Campos com Aécio Neves. Dilma/PSB : as versões e os fatos - 3 Houve até uma reunião em Brasília, do "Conselho Eleitoral" de Dilma, na qual o ex-presidente Lula compareceu, quando o tema foi tratado. A versão é que o ex-presidente teria aconselhado Dilma a não atacar Campos para não queimar as pontes com o PSB e jogá-lo nos braços de Marina ou Aécio. É improvável que Lula e Dilma não soubessem de tais manobras. E que, se quisessem, facilmente calariam o PT o PMDB e desmentiriam publicamente e veementemente as notícias que levavam à "fritura" de Campos. Como diz o popular, foram buscar lã e saíram tosquiados. Agora correm para conter os prejuízos, pois os sinais de que Eduardo Campos saiu contrariado - quem sabe, furibundo - desse episódio são muito claros. Dilma pediu um tempo ao ministro renunciante Fernando Bezerra e pediu a seu auxiliar para intermediar uma nova conversa dela com Campos. Lula também entrou em campo. O governador de PE aceitou falar com Dilma outra vez sobre o tema. Mas não tem volta com o PSB ficando no governo, sob pena de se desmoralizar irremediavelmente. O máximo que se pode agora é ajustar a funilaria, reparar os estragos e não ter Eduardo Campos como um inimigo declarado. Sem Lula por perto, normalmente a operação política da presidente Dilma é um desastre. Desta vez, como Lula estava no mesmo barco para arpoar Eduardo Campos, o jogo se revelou lastimável. E a faxineira ? Nos últimos 15 dias houve demissões de funcionários graduados, em cargos comissionados, de confiança, por razões não ecumênicas, no Ministério do Trabalho, no Ministério da Previdência Social e no Ministério das Relações Institucionais. No entanto, os titulares das pastas em ebulição, respectivamente Manoel Dias/PDT, Garibaldi Alves/PMDB e Ideli Salvatti/PT, continuam impávidos colossos em seus postos. Cientes de que a teoria do "domínio dos fatos" é filustria jurídica para o STF. Manoel Dias ainda com um agravante : em entrevista do jornal "O Globo" avisou que se for retirado do Ministério não vai ficar calado. Teria coisas "impublicáveis" para contar. Sem insinuação, porém... Contrasta a facilidade com que o ex-prefeito Gilberto Kassab conseguiu montar no ano passado o seu PSD, feito sob medida para esvaziar partidos de oposição em Brasília, e as dificuldades que Marina Silva está encontrando para montar seu Rede Sustentabilidade, partido pelo qual pretende disputar a presidência da República contra Dilma Rousseff. Um teve todo o amparo oficial, o outro, todo o boicote possível. Não é nada, não é nada, é muito estranho. Um pequeno ruído oposicionista O programa eleitoral do PSDB na quinta-feira, estrelado pelo provável (cada vez mais) candidato do partido ao Palácio do Planalto, deu o tom do que poderá ser a campanha tucana no ano que vem : menos espetaculosa, mais crítica, em tom didático e de conversa com o eleitor - e sem promessas. Trata-se de uma mudança no estilo de marketing político-eleitoral brasileiro, de extração publicitária, na base da venda de um "produto" desenhado a partir de pesquisas de opinião. Parece ser um texto. A questão é : funcionará ? O comando da campanha resistirá às pressões para adotar o modelo edulcorado, caso a campanha não deslanche ? Porém, apenas isto não basta - e a observação vale para outros candidatos também, inclusive para a presidente Dilma : os candidatos deverão apresentar aos eleitores programas de governos concretos, não fantasiosos, factíveis. O aperto que os prefeitos empossados em janeiro estão enfrentando - estão praticamente os mais importantes com a popularidade em baixa - se deve à incapacidade de cumprir as promessas - na maioria, mirabolantes, que fizeram durante a campanha. As não suficientemente analisadas manifestações juninas demonstraram isto. A infringência dos embargos - política Em nome da solidariedade pessoal aos réus condenados, foi de júbilo, apesar de contido, no governo e no PT, a decisão do ministro Celso de Mello, do STF, com o voto de desempate, de considerar possível a apresentação de embargos infringentes por quem teve - 12 no total - pelo menos quatro votos contra sua condenação. O comedimento público das reações tem uma explicação a partir desta pergunta : será bom para a campanha e Dilma e do PT a exibição pública do mensalão, com toda a sua história repisada, no ano que vem ? A infringência dos embargos - jurídica O mundo jurídico oficial, STF à frente, e o Legislativo precisam mergulhar mais profundamente sobre os embargos infringentes nas ações penais como o mensalão. O ministro Celso de Mello deu um voto de desempate, concluindo que eles estão vigentes no ordenamento político nacional. Todavia, Celso de Mello, por mais elevado que seja o seu saber jurídico, não é um oráculo, persistem dúvidas sérias sobre a aplicação desta norma. Como mostraram os cinco votos contrários - é uma divergência "significativa" - e várias interpretações de juristas renomados. Não é, como se diz, uma questão vencida. Está vencida para o caso do mensalão, não para outros casos que venham a surgir. Dependendo da composição da corte a decisão pode ser distinta daquela de quarta-feira passada. Como disse a ministra Carmem Lúcia em seu sereno e substancial voto, o sistema não fecha. A infringência dos embargos - a desculpa Com seu voto, o ministro Celso de Mello botou abaixo um dos argumentos dos advogados e defesa dos réus - e discurso permanente dos "mensaleiros" - de que eles estavam sendo vítimas de um julgamento de exceção, de que não estavam tendo direito pleno de defesa. Pelo menos para os 12 com direito a embargos declaratórios, o duplo grau de jurisdição foi estabelecido. Não para os outros condenados. País de cultura Aos olhos da mais mortal das criaturas parece razoável que o Erário de um país, via Lei Rouanet, financie o Rock in Rio, o musical Billy Elliot e desfiles de moda em Paris ? Renovação política Viu-se na imprensa : José Sarney deve se aposentar em 2015 aos 85 anos. Deixará um herdeiro político em seu lugar e deve disputar a presidência da Academia Brasileira de Letras. Há muita expectativa sobre tudo isso. É preciso se preparar. FHC, em seu discurso de posse na ABL, pronunciou : "O grande desafio dos caminhos da política é evitar a tentação do doutor Fausto e não vender a alma ao demônio". Investiga-se a intenção da frase, mas não há resultados por ora... Opinião pública Em tempos de discussão sobre opinião pública, voz das ruas e coisas tais, vale lembrar duas lições sobre o assunto. Do filósofo espanhol Miguel Unamuno : "Eu sou eu e minhas circunstâncias". Do "filósofo" português Conselheiro Acácio, criação de Eça de Queiros em "O Primo Basílio" : "O problema é que as consequências vêm sempre depois". Radar NA REAL 20/9/13 TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo Juros ¹ - Pré-fixados NA alta estável/alta - Pós-Fixados NA alta estável/alta Câmbio ² - EURO 1,3502 estável baixa - REAL 2,1998 estável baixa Mercado Acionário - Ibovespa 54.110,03 estável baixa - S&P 500 1.709,91 estável/alta alta - NASDAQ 3.774,73 estável/alta alta (1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais). (2) Em relação ao dólar norte-americano NA - Não aplicável
terça-feira, 17 de setembro de 2013

Política e Economia NA REAL n° 262

Atenção ao Federal Reserve Estamos cada vez mais próximos de uma mudança efetiva da política monetária expansionista do BC dos EUA. A linguagem já mudou : os policy makers estadunidenses já avisaram ao mundo de que a maior economia mundial ainda convalesce, mas está ficando sadia no que tange à recuperação do consumo e do investimento. Todos os indicadores mostram isso com clareza. Por ora o que se discute é o grau de sustentação do crescimento e o grau de estímulo necessário para que haja segurança para que a economia real ande por pernas próprias. Ou seja, a expansão das emissões em dólares vai se reduzir, mas a intensidade e o momento de adotá-la está sob escrutínio. As taxas de juros dos títulos de prazo mais longo já se alteraram e o dinheiro mundial começa a fluir intensamente de volta à metrópole. Os países emergentes, dentre os quais o Brasil, já se ressentem dessa virada de política monetária americana. Não há espanto, apenas a concretização de uma expectativa. Nesta quarta-feira é bem provável que o Fed informe mais claramente suas pretensões. O mundo escutará. O BC brasileiro terá de acionar mais intensamente as suas armas na defesa do Real. Será uma batalha perdida no médio prazo por duas razões básicas : o Real tem de se desvalorizar frente ao movimento do dólar ; a conjuntura doméstica, seja política, seja econômica está se deteriorando. Sobretudo por culpa do governo pífio que faz a presidente Dilma. A falta de prudência da jurisprudência e os efeitos políticos Diz o ministro do STF Marco Aurélio Mello que 'direito é bom senso'. Bem, nem sempre é assim. É certo que a maior infringência que pode ocorrer num sistema judicial, em particular, ou no sistema estatal, em geral, é o distanciamento entre a sociedade e o Poder Estatal. Também é certo que o julgamento dos embargos infringentes pelo STF é baseado em tortuosas análises entre um Regimento Interno revogado (ou não ?) e a lei Processual Penal. O ministro Celso de Mello sabe disso, mas deve optar por uma longa análise jurídica que desembocará na validação dos tais embargos para o caso do mensalão. O estrago será feito do ponto de vista político : a percepção do povo de que poderosos e ricos no Brasil não pagam por seus desfeitos públicos e privados se comprovará. Além disso, aumenta a desconfiança de que a escolha política de ministros do STF atende a interesses inconfessáveis das plataformas políticas e dos ocupantes das cadeiras do poder. Se é verdade ou não, a esta coluna só cabe dizer que haverá mais um fato a colorir o imaginário popular que acredita cada vez mais no chamado "interesse público" das autoridades estatais. Por fim, fica claro que as matérias jurídicas nas mãos de políticos, magistrados, governantes e funcionários públicos vão adquirindo uma elasticidade tal de interpretação que, ao final, a impunidade prevalecerá tardia e, talvez, soberanamente. Victor Nunes Leal Citação do ex-ministro do STF na sua monumental obra "Coronelismo, enxada e voto" : "Aos amigos, Justiça ; aos inimigos, lei". As cinzas das horas ministerial - 1 Na semana passada voltou a crepitar a fogueira no Palácio do Planalto para transformar em cinzas alguns cargos ministeriais. Irritada com o governador de PE, Eduardo Campos, por sua desenvoltura como candidato a presidente, com direito a críticas cada vez mais acerbas à política econômica de Brasília e troca de amabilidades em público com o senador Aécio Neves, a presidente Dilma começou a ensaiar expulsão do governo dos companheiros do neto de Arraes. Não propriamente dos companheiros de PSB, mas dois ligados diretamente a Campos, como o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra. A turma dos irmãos Gomes, entre eles o secretário dos Portos (status de ministro) Leônidas Cristino, naturalmente seria preservada. As cinzas das horas ministerial - 2 A rifa dos amigos de Campos contava com o incentivo entusiasmado dos outros partidos da base aliada (lembrar que o PDB ainda é oficialmente um parceiro), especialmente do PT, e do PMDB, de olho nos lugares que vagariam. O partido de Michel Temer, José Sarney, Renan Calheiros e Henrique Eduardo Alves já estava até lustrando sua melhor beca para ocupar o ministério da Integração Nacional. Assim, o partido ganharia o que mais almeja hoje, um ministério que dá votos. Os peemedebistas se queixam que as pastas que têm "não elegem nem governador". Pelas informações colhidas no fim de semana, o fogo foi apagado. De passagem por Brasília, onde foi conferir se tudo vai bem no governo e deixar suas opiniões e instruções, o ex-presidente Lula teria aconselhado a "conter seus radicais" e não mexer agora com a turma do governador de PE. As cinzas das horas ministerial - 3 Não estaria ainda na hora, segundo a visão política acuradíssima do ex-presidente, de queimar as caravelas com o presidente do PSB e o seu grupo. Não que Lula também não esteja irritado com o governador pernambucano, um pupilo que cultivou muito. Pragmático, porém, vê que o rompimento com ele pode criar mais problemas para Dilma no Congresso, ela que já os têm demais na Câmara e no Senado. Além disso, no fundo, Lula, que voltou a conversar com Campos depois dos movimentos juninos, após meses de afastamento, parece ainda alimentar a esperança de trazer o neto de Arraes para o redil governista, fazendo-o desistir da corrida presidencial. Em troca de quê, pode-se perguntar. Houve um tempo em que a vice-presidência na chapa reeleitoral de Dilma foi vista com o figurino perfeito para vestir Eduardo Campos e afastá-lo da corrida presidencial em 2014. O PMDB e Michel Temer seriam impiedosamente rifados. As cinzas das horas ministerial - 4 Ainda há um discurso petista nesta linha. Semana passada também o governador do RS, Tarso Genro, em entrevista à Folha de S.Paulo, voltou a dizer que não considera fechada a repetição, ano que vem, da dobradinha PT/PMDB para o Palácio do Planalto. O que Tasso, que tem dissidências com o comando petista, diz de público, muitos petistas pensam no privado. Porém, com a perda da popularidade de Dilma - ainda em lenta recuperação, com poucas chances de voltar a ser como antes - e os laivos de rebeldia e independência de boa parte dos aliados, a presidente precisou se apoiar mais e mais em seu vice-presidente e na parte do PMDB que ele comanda. O panorama, olhado de hoje, torna impossível rifar o PMDB. Ao contrário, é o PMDB que está com as melhores cartas do baralho - e com o jogo na mão está cobrando - e vai cobrar - muita fidelidade petista nas composições regionais. E Lula fará o PT pagar o pedágio. As cinzas das horas ministerial - 5 Sobrará oferecer o que já foi insinuado a Campos anteriormente e ele não se comoveu : uma posição de destaque num mandato Dilma 2 (até o ministério da Fazenda já foi jogada nesta especulação) e o apoio do PT à candidatura dele em 2018. Campos não se comoveu porque, como todo mundo que acompanha um pouquinho que seja da política brasileira, não acredita que o PT seja capaz de fazer qualquer concessão nesse campo. Para os petistas, o projeto de "governo popular do PT" é eterno. Num momento, portanto, a ruptura Campos/PT ocorrerá. Esta adiada, possivelmente para janeiro, quando Dilma então deve tirar a maioria dos ministros que vão disputar algum tipo de mandato em 2014. Mas se Campos não ficar mais quietinho, a irritação, um estado que a presidente alcança mais rápido do que ebulição da água quando submetida a fogo alto, pode ficar mais forte que as ponderações de Lula e o desenlace ocorrer antes.  No Trabalho, fogo alto - 1 As mesmas razões que estão levando a presidente, apesar de toda a sua decepção, a não "punir" o possível adversário Eduardo Campos com a retirada do Ministério da Integração e outros postos relevantes das mãos do PSB, estão salvando da degola o ministro do Trabalho, Manoel Dias, um digno representante do PDT na equipe presidencial. As denúncias envolvendo negócios nada "simpáticos" do ministério com ONGs ligadas a pessoas do partido ou próximas de pedetistas, que já levaram a prisões de algumas dessas figuras e ao afastamento de servidores graduados da pasta, inclusive do secretário Executivo, Paulo Roberto Pinto, pode ainda render muitas histórias desagradáveis e tornar a situação do ministro insustentável. No desespero, Dias mandou suspender 408 convênios com ONGs, para reavaliação. Será que vai adiantar. O ministro do Trabalho preferido do PDT, seu presidente nacional, Carlos Lupi, perdeu o ministério pouco mais de um ano atrás também por negócios escusos de ONG. No Trabalho, fogo alto - 2 A situação voltou à estaca zero por - em boa parte - responsabilidade da presidente Dilma. Quando ela tirou Lupi, foi mais uma vez saudada como a "faxineira" que não perdoava "malfeitos" (a expressão vai entre aspas porque foi assim que ela classificou as histórias do início de seu governo que levou uma penca de ministros para a rua). O ânimo, porém, não durou um ano. Com o PDT praticamente nas mãos, Lupi passou a boicotar o ministro escolhido por Dilma, Brizola Neto, também do partido, e a levar o PDT a ensaiar no Congresso alguns minuetos oposicionistas, em votações importantes para a presidente. Sem saída, Dilma mandou Brizola Neto para casa e trouxe para o lugar o deputado Manoel Dias, preposto de Lupi. Voltou todo o esquema antigo, até o secretário Executivo Paulo Pinto, que tinha sido mandado passear por causas das histórias antigas. Deu no que deu - e não foi por falta de aviso. No Trabalho, fogo alto - 3 Agora, a presidente, já esquecida da sua vassoura e do aspirador de pó, faz um esforço incomum para não entrar em colisão com Lupi. O custo pode ser novamente o PDT criando problemas no Congresso e ameaçando levar seu tempo no horário eleitoral obrigatório no rádio e na televisão para os braços de um dos três prováveis adversários da presidente no ano que vem. É possível que o preço fique alto demais, tal é a vida das ONGs no Ministério do Trabalho. Talvez Dilma tenha ao menos de se livrar de Manoel Dias, para manter as aparências. A semana dirá. Não mexer em vespeiro Há uma outra razão para a presidente tentar não fazer trocas pontuais no ministério : cada vez que uma vaga se abre, é um briga dos aliados para ocupá-la e ocupar o que de melhor em cargos e segundo escalão oferece o ministério. É agradar um e desagradar 200, o que Dilma, com sua base "desalinhada" não pode se dar ao luxo de fazer. Já basta a confusão que vai ser a mexida da desincompatibilização. Não faltava mais nada ? Quando a Câmara decidiu não cassar o mandato do deputado-presidiário Natan Donadon, muitos acreditaram que finalmente o fundo do poço tinha sido atingido pelo Congresso. Não falta mais nada para acrescentar ao descrédito do parlamento. Engano puro. Descobriu-se agora que o voto do deputado Zoinho/PR foi fraudado na sessão que derrubou o veto da presidente Dilma ao projeto de redistribuição dosroyalties do petróleo. Ele não estava em Brasília no dia mas seu voto apareceu. Já inadmissível. O mais grave, porém, é que o presidente do Congresso, Renan Calheiros, anunciou que não vai anular a votação. Alega que o voto não influiu no resultado. Este poço parece não ter mesmo fundo. Tirem os meninos da sala Pelo que se conta em Brasília da conversa para os parlamentares trocarem de partido antes de 4/10, aproveitando o espaço criado pelo nascimento de pelo menos mais duas legendas do tipo aluguel - Solidariedade e PROS - e também pela oportunidade criada ainda pelo PSD de Gilberto Kassab, é melhor que os pais tirem as crianças da sala. Aliás, os adultos também devem sair. São histórias proibidas para pessoas menores de 100 anos. A oposição em banho-maria ainda Apesar da irritação da presidente Dilma e do PT, com Eduardo Campos, não apenas a "campanha" dele para a sucessão presidencial, assim como a de Aécio Neves, se desenrolam mais nos bastidores, na busca de apoios políticos e nos formadores de opinião e menos nas ruas, nos palanques. Até as críticas às políticas oficias não estão sendo gritadas. Tanto Aécio quanto Campos precisam ainda aparar arestas com futuros parceiros e nas suas próprias legendas. E Marina Silva, hoje a que mais persegue Dilma nas pesquisas, está totalmente envolvida na criação do seu partido, o Sustentabilidade, sem o que suas chances de fazer bonito em 2014 ficam complicadas. Ainda perturba os adversários da presidente a falta de uma ideia-força para a campanha. Assim, mesmo com os desenganos com sua base aliada, as restrições da economia e os desarranjos do governo, tipo Manoel Dias, a presidente é a única que está em firme campanha nos palanques. Sai bem na frente, e em vantagem, não resta dúvida. E o mote presidencial do momento é "Mais Médicos" e nada mais. Só motivos políticos ? - 1 Para o governo, o fato de nenhum interessado ter aparecido para disputar o leilão da BR 262 (ligação Minas Gerais/Espírito Santos) foi por razões políticas. Ele se firma nesta tese, defendida pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, e pelo ministro dos Transportes, César Borges, lembrando que a outra rodovia a entrar no leilão de amanhã - a BR 050, Goiás/Minas Gerais - teve nada menor de oito concorrentes se habilitando na bolsa de valores. Segundo a interpretação oficial, a ameaça dos parlamentares (e o governo) do ES de entrar na Justiça para anular o leilão, por causa do elevado preço do pedágio, com prejuízo para os pequenos agricultores. Além disso, teria pesado a rodovia cortar dois Estados tidos como "oposicionista" : ES (PSB) e MG (PSDB) dos presidenciáveis Eduardo Campos e Aécio Neves. Pode ser, talvez se saiba esta semana. As razões, porém, mais duras parecem outras. Segundo analistas que não vestem a camisa oficial, da forma como estava, mesmo com todo o dinheiro barato posto à disposição dos concorrentes, a rodovia rejeitada não era o "filé" que o governo apregoou. Só motivos políticos ? - 2 No seu inicio, o PIL (o Programa de Investimentos em Logística) envolvendo os setores rodoviário, ferroviário, aeroportuário e portuário, lançado em agosto no ano passado por um simples razão : era uma privatização (o governo até recusou este nome) "envergonhada", com o governo tentando manter tudo sob controle, o dono da bola a escalar quem quisesse e mantendo tudo sobre controle. Quando falhou a primeira privatização (concessão, na voz oficial) de rodovias, em fevereiro, o Palácio do Planalto passou a fazer concessões acertos de todos os lados. O que atrasou o processo, a primeira concessão vem mais de um ano e um mês depois do PIL ser anunciado. A pergunta é : o governo resolveu abrir para valer ou deixou pegadinhas aqui e ali para não fugir a seu vezo ideológico. A falha na BR 262 pode ter sido provocada ainda por este viés. O temor ainda existe entre os investidores. Assim, em lugar de procurar bodes expiatórios políticos para esse fracasso, o governo deveria analisar com lupa todo o PIL e seus modelos. Para não ter outras derrotas. Radar NA REAL 13/9/13   TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo Juros ¹ - Pré-fixados NA alta estável/alta - Pós-Fixados NA alta estável/alta Câmbio ² - EURO 1,3348 estável baixa - REAL 2,2727 estável baixa Mercado Acionário - Ibovespa 53.797,51 estável baixa - S&P 500 1.687,99 estável/alta alta - NASDAQ 3.722,19 estável/alta alta (1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais). (2) Em relação ao dólar norte-americano NA - Não aplicável
terça-feira, 10 de setembro de 2013

Política e Economia NA REAL n° 261

O pior já passou ? - 1 Diz em alto tom a presidente Dilma Rousseff que "falharam mais uma vez os que apostavam em aumento do desemprego, inflação alta e crescimento negativo". O governo acerta, diz a primeira mandatária do país porque "nosso (do governo) tripé de sustentação continua sendo a garantia do emprego, a inflação contida e a retomada gradual do crescimento". Trata-se evidentemente de uma perspectiva bastante eleitoral pelo qual a presidente procura distinguir "nós" (o governo) "deles" (qualquer um que discorda do governo). Como se vê, não é esta a questão de fato, especialmente quando se trata a crítica como mera aposta, quem sabe daquelas que se faz em mesas de botequins. O que fica evidente é a face autoritária do discurso e da presidente, pessoa conhecida por ser temperamental e pouca afeita ao diálogo. De nossa parte, não cremos que homens de negócio, trabalhadores, servidores públicos, estudantes, etc., não cremos que exista uma "aposta" contra o país. O pior já passou ? - 2 O que de fato se vê é um país sem reformas estruturais, baseado na improvisação nas relações (tensas) com o setor privado, marcado pela profunda incompetência na concepção e estruturação das políticas públicas e sem avanços substantivos nas relações econômicas e sociais. Neste último item é clara a cooptação de segmentos sociais desprotegidos por meio de políticas que cristalizam as condições das classes sem educação, saúde, sem acesso à tecnologia e moradoras de lugares tristemente coroados pela miséria. Os resultados são evidentes, queira a presidente desejar vê-los ou se esconder por detrás de um discurso escrito por seu "marqueteiro". O que se comemora é um PIB bem abaixo das possibilidades do país. O que se vê na política é o compasso "fisiológico" das negociações com os agentes políticos, cujos fins são unicamente as eleições. As finanças públicas são maquiadas por artimanhas que realçam a pouca transparência e aguçam o desejo da Fazenda em fingir-se de "correta" para o tal do mercado e "social-desenvolvimentista" para quem quer ver o país andar. O pior já passou ? - 3 Este é um governo sem rumo claro, sem afinação com os princípios mais consagrados da democracia, sobretudo a transparência e a disciplina em buscar o bem comum. A presidente vocifera contra os que "apostam" contra, como se o dia da Pátria fosse palanque eleitoral. É grosseira quando se pronuncia sobre as críticas que sofre. Nada tem da imagem de "gerente" que pretendeu lançar nos tempos de sua eleição. Parece ter aprendido pouco quando se vê a mediocridade de seus resultados. É certo que o governo retomou a liderança do processo político. Afinal de contas, a oposição não propicia nenhuma alternativa crível às ansiedades mais profundas das sociedades. Estas temem pregar e se aliar aos segmentos sociais, pois carecem de legitimidade política. Neste contexto, não será surpresa a reeleição da tutelada do ex-presidente Lula. No passado também se viu FHC reeleito para quatro anos em que o país pagou o preço de sua política econômica desastrada no que diz respeito ao câmbio e à taxa de crescimento. A arrogância poderá aumentar Provavelmente, as próximas semanas podem instigar os instintos mais otimistas dos que leem o funcionamento do poder. Muito provavelmente, a taxa de câmbio estará mais calma, a inflação ficará comportada no atual (incômodo) patamar e os juros podem parar de subir (ata do Copom foi um poço de otimismo). São aparentemente bons sinais. Mas, esta conjuntura não é sinal de alterações estruturais nas carências do país. Um país que é capaz de ganhar a autoridade de fazer uma Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos com um gerenciamento de tão baixa qualidade quanto o que é feito, também é capaz de ter a sua economia administrada em altas doses de improvisação e sem visão estratégica que possibilite a remoção do atraso e do subdesenvolvimento social, econômico e político. Lula trafegou nas ondas favoráveis dos países emergentes durante os seus anos de presidência. Dilma Rousseff pode ter ventos favoráveis por uns tempos. Todavia, tristemente os problemas estruturais estão sendo jogados "para debaixo do tapete", dentre os quais : (i) inflação elevada; (ii) déficit externo recorde; (iii) contas públicas deterioradas; (iv) indústria em processo de obsolescência; (v) reformas estruturais eternamente adiadas. Vamos ter uma paz conjuntural enquanto as estruturas sofrem a deterioração continuada dos últimos anos. Há o que comemorar ? - 1 Sábado havia civicamente e oficialmente o que comemorar : o 7 de Setembro, o Dia da Pátria, desde sempre a mais importante festa cívica nacional. No entanto, pelos lados oficiais ela acabou um tanto quanto esvaziada pelo temor das manifestações de rua. A segurança e as precauções foram tantas, mormente em Brasília, que a festa acabou vazia, um tanto chocha, mais parecendo a dos tempos mais duros da ditadura militar e não os melhores momentos dos tempos da democracia pós-85. Sinal de que, tanto numa ponta como na outra, o povo na rua só é mesmo bem visto quando a favor - no mais, assusta. Porém, o que assustava e se temia não ocorreu. O povo não foi para as ruas como se imaginava, ficou em casa curtindo o feriado. Aliviadas, as autoridades e os políticos até já ensaiam comemorações : o pior já passou, a agenda positiva dos executivos Federal, estaduais e municipais e do Legislativo já começou a funcionar. Há o que comemorar ? - 2 Aconselha-se que se olhe o quadro com um pouco de cautela antes que de pensar que estão todos absolvidos dos seus pecados gritados pelas ruas juninas. Devagar com o santo, ensina o popular dito, porque o andor ainda é de barro. Objetivamente, o povo não foi para as ruas por duas razões : 1. O temor da violência, que voltou a tomar conta dos movimentos. 2. Porque se estava num sábado, feriado. A "agenda positiva" não tem nada a ver com os fatos. Até porque ela é mais - ou quase somente - marketing do que ações de verdade. O clima ainda está no ar. Basta haver uma nova conjugação de fatores para a rua voltar a urrar. Se não foi agora, certamente será nas eleições. O triângulo das bermudas Aparentemente revigorada pelo esvaziamento das manifestações programada para 7 de Setembro, que o Palácio do Planalto tanto temia a ponto de montar um vigoroso esquema de segurança em Brasília e esvaziar os desfiles em todo o Brasil, a presidente Dilma Rousseff vai retomar, mais aliviada seu périplo eleitoral pelo Brasil. E, mais aliviada, deve ensaiar novamente aparições "públicas" menos controladas que as suas últimas aparições fora da capital Federal, nas quais arriscou pouco em contatos diretos com os eleitores. Nesta fase da campanha, o fogo maior vai continuar concentrado em dois estados - SP e MG. Foram sete visitas às duas regiões para mostrar a importância que o governo dá a mineiros e paulistas. A razão é simples : juntamente com o RJ, SP e MG formam o que se pode chamar de "triângulo das bermudas" eleitoral do Brasil. Sozinhos, eles concentram mais de 40% do eleitorado do país e quem não tiver um desempenho pelo menos razoável nos três vai ter de suar muito nas outras regiões para compensar. Conta eleitoral SP foi sempre o "calcanhar de Aquiles" do petismo. Nunca venceu por aqui. Mas sempre compensou essa diferença em MG e, principalmente, no RJ. Desta vez, há um senão nesse caminho : com Aécio Neves candidato, a votação mineira certamente não será a mesma que Lula (duas vezes) e Dilma tiveram por lá. (Há até uma intriga na política nacional que diz que José Serra complica agora a vida de Aécio como uma espécie de vingança contra a falta de empenho do mineiro a favor de sua candidatura.) O RJ, por sua vez, tornou-se uma incógnita. O governador Sérgio Cabral, aliado fiel nas duas vezes, deu empenho nas alianças com os petistas. Hoje Cabral é um fantasma eleitoral e sua companhia não é aconselhável na proximidade das urnas. Tanto que o Estado tem sido evitado por Dilma. Mas ele deverá começar a merecer também mais atenção. Especialmente se Marina Silva confirmar a criação de seu partido, o Rede. O eleitor fluminense já demonstrou que tem uma quedinha por ela. Falta ainda encontrar uma fórmula de entrar mais fundo no Rio contornando a companhia de Sérgio Cabral. O PMDB na conta eleitoral - 1 Há que não irritar o PMDB, considerado essencial na operação SP, MG e em alguns outros Estados. Em Minas, por exemplo, todo o esforço está sendo feito para que o partido, meio partido ao meio, não vá para os braços de Aécio Neves, atire-se mesmo ao regaço de Fernando Pimentel. Nesta equação um nome desponta : o senador Clésio Andrade, poderoso presidente da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) e que um dia foi aliado de Aécio. É carta para vice. Outra carga ainda são alguns cargos no governo ainda vagos, como uma diretoria da Petrobras, a Internacional, ocupada interinamente pela presidente Graça Foster. É o preço a pagar para o PMDB não ficar com o tucano. Em SP, a equação ainda não está montada. Está dependendo de um cálculo : qual o real potencial eleitoral do possível (já em franca campanha) candidato do PMDB, Paulo Skaf, e da estrutura da Fiesp. De quem Skaf tiraria mais votos : do tucano Geraldo Alckmin ou do petista Alexandre Padilha. Respondida esta questão, a montagem será feita. Skaf, em ascensão nas pesquisas, sonha naturalmente com o apoio do PT à sua pretensão de chegar ao Palácio dos Bandeirantes. Quase impossível. Só terá esse apoio se a operação Alexandre Padilha, engendrada por Lula e não contestada nem em SP nem em Brasília, se revelar um fracasso. O mais provável é que o presidente da Fiesp venha a ser "convidado" a compor, como vice, a chapa encabeçada pelo petista. O PMDB na conta eleitoral - 2 Como o PMDB será convocado a se "sacrificar" em SP e Minas, é possível que tenha a compensação no RJ. Embora o petismo local esteja entusiasmado com o desempenho pré-eleitoral do senador Lindbergh Farias, mesmo com algum risco o mais provável é que o PT fluminense seja aconselhado a ficar com o Pezão, candidato de Sérgio Cabral. Mas o PMDB poderá ser levado a fazer outros sacrifícios : ele será sempre lembrado que já tem assegurado a vice-presidência para Michel Temer e, portanto, deve colaborar mais nos Estados para o bom andamento da aliança governista. Dois outros pepinos Preocupam também a cúpula petista dois Estados : a BA, o quarto eleitorado brasileiro, e PE. Foram dois locais nos quais Lula e Dilma colheram algumas de suas mais avantajadas vitórias sobre os tucanos que os confrontaram. Agora, a situação, pelo menos no momento, não parece tão promissora assim. Na BA, Jaques Vagner já não está com um prestígio nas alturas, o PMDB com Geddel Vieira Lima rebelde ameaça complicar a aliança e com o governo de Salvador nas mãos do DEM, de ACM Neto, os votos da capital podem ser mais divididos. É um desafio para o poder de persuasão de Lula. Em PE, não tem mistério : com Eduardo Campos no grid de largada vai ser impossível repetir a votação de Lula e Dilma nas eleições anteriores. Quadro formado Não há mais dúvidas de que a corrida eleitoral de 2014 terá quatro grandes personalidades na largada; Dilma Rousseff, Aécio Neves, Eduardo Campos e Marina Silva. Não há mais volta para nenhum deles. As dúvidas sobre se Campos vai ou não vai já não existem, Aécio assegurou o seu lugar no ninho tucano, e Marina muito provavelmente nos minutos finais terá o seu Rede. A corrida agora é para fazer composições com outros partidos, em busca de mais tempo no horário eleitoral, e composições regionais para assegurar palanques fortes nos Estados. É quando partidos como PMDB, PP e outros se tornam mais exigentes. A crise com os EUA Tendo o governo descoberto o que até o mundo mineral sabe - que os EUA espionam por todos os lados - há dois caminhos que poderão ser seguidos. O primeiro é a presidente-candidata Dilma "capitalizar" a crise com um discurso nacionalista muito útil para o público interno, inclusos os países latino-americanos. O segundo é se aproveitar da crise e realinhar a relação com os EUA, de sorte a agenda se aprofunde a partir de uma maior percepção dos EUA de não ter mais um problema entre os aliados, muito embora o Brasil não seja um player importante para a política norte-americana. No caso da Europa, que também flagrou os EUA em plena delinquência espiã, preferiu-se fazer o jogo de cena e persistir negociando acordos econômicos. Com o Brasil, o jogo de cena precisa ser iniciado pois que não há contencioso, mas também não há grandes acordos. Deve-se seguir o patamar atual, pouco intenso e sem interesses muito elevados de ambas as partes. Eike e a Res Publica Além dos questionamentos sobre a rela situação econômica e financeiro das empresas "X" do empresário Eike Batista, ainda falta outro debate mais importante : quanto foi o investimento de dinheiro público nas empresas do arrojado empresário carioca ? Interessante ver que nenhuma corrente política se esforça para saber a resposta desta incômoda questão. Na cadeia Os tais mensaleiros estão preparados para passar algum período (entre dias e apenas noites) na prisão. Especialmente José Dirceu parece certificado de que o seu destino está traçado pelo STF. Ver-se-á as consequências políticas desta inédita cena na política brasileira. A presidente Dilma já guarda providencial distância de seus parceiros de PT há bons tempos. Logo é muito improvável que o governo seja abalado pela turma que ajudou a financiar a campanha de Lula à presidência em 2003. No que diz respeito ao STF, os embargos infringentes parecem que serão engavetados. Mas com cerimônia. No caso, no salão do pleno do STF. Radar NA REAL 6/9/13 TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo Juros ¹ - Pré-fixados NA alta estável/alta - Pós-Fixados NA alta estável/alta Câmbio ² - EURO 1,3267 estável baixa - REAL 2,2782 estável baixa Mercado Acionário - Ibovespa 53.749,42 estável baixa - S&P 500 1.655,17 estável/alta alta - NASDAQ 3.660,01 estável/alta alta (1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais). (2) Em relação ao dólar norte-americano NA - Não aplicável
terça-feira, 3 de setembro de 2013

Política e Economia NA REAL n° 260

PIB e pibinho - 1 Não deixa de ser significativo o que é comemorado no Brasil nestes estranhos tempos. Começou-se o ano se especulando que o crescimento do PIB gravitaria ao redor de 4%. Já em meados do ano, o próprio governo admitia que este crescimento não seria maior que 2,5%. Agora o PIB do terceiro trimestre, cujas previsões giravam entre 0,8% e 1,3% no segundo trimestre, "surpreendeu" (+1,5%). Os setores que surpreenderam foram a agricultura (+3,9% registrado contra 1,5% esperado) e a construção civil (+3,8%). Os outros indicadores foram razoavelmente dentro das expectativas o que pode ser considerado como bom no atual contexto de desânimo. A questão é sabermos se houve uma mudança estrutural que justificasse tal desempenho superior. A resposta é não. A economia brasileira deve cair um pouco em relação ao segundo trimestre e, ao final do ano, subir um pouco. Na contabilidade do ano vamos crescer algo como 2,3%-2,4%, o patamar que os EUA apresentam e que é insatisfatório. Mas, por aqui, a surpresa faz com que o ministro da Fazenda saia de sua rotina e manifeste a glória de sua política econômica. O Brasil continua um país de crescimento medíocre e não há nenhum vetor estrutural sendo alterado para que este 'voo de galinha' se afaste de nós. PIB e pibinho - 2 O principal item que acalenta a tendência medíocre do crescimento brasileiro é a ausência de uma visão estratégica para as políticas econômicas. A combinação confiável entre o capital privado e o estatal persiste opaca pelo arranjo entre uma visão ideológica vencida da presidente-ministra da Fazenda Dilma Rousseff. Além disso, o governo flerta com a falta de disciplina fiscal e com a inflação mais alta, controlada, em parte, pela compressão de preços públicos e pela alta (hesitante) da taxa de juros básica. Não há nenhuma relação de causa e efeito que indique que o crescimento no Brasil será mais robusto nos próximos dois anos. É essencial que se supere (i) a inoperância/ineficiência governamental em relação às reformas e ao investimento, (ii) a política cambial desindustrializante, (iii) o custo elevado do crédito local e (iv) a baixa produtividade do setor público. Isso requererá reformas estruturais que vão da educação à tributação e que o governo e a sociedade gostam de jogar para debaixo do tapete. Resultado : PIB que cresce 2,5% é razão de euforia. Sucesso eleitoral ? - 1 Há dúvidas - ver notas acima - a respeito da continuidade da recuperação da economia brasileira no ritmo flagrado pelo IBGE no segundo trimestre. O próprio ministro Guido Mantega, o "dr. Pangloss" nacional de plantão, preferiu ser comedido e ficar com sua previsão anterior, de crescimento de 2,5% até dezembro, melhor que no ano passado, mas inferior da 2011. A presidente Dilma, sempre, agora com a direta orientação de seus marqueteiros, sempre disposta a trombetear qualquer sucesso de seu governo, mesmo quando é apenas uma pedra fundamental, preferiu também ser comedida nas suas comemorações. As razões nos parecem mais políticas que econômicas. Um dado do PIB do primeiro trimestre não é para comemorar, pelo menos sob a ótica político-eleitoral mais imediata do Palácio do Planalto. Enquanto economistas apontavam como um dos sinais o fato de a economia nacional estar invertendo sua lógica de crescimento dos últimos anos, saindo da força no consumo e recuperando ainda que em bases baixas, o investimento, o mundo do marketing político vê essa inversão como um ponto negativo. Sucesso eleitoral ? - 2  Afinal, a popularidade da presidente até a eclosão das ruas juninas, assim com a de Lula antes e sempre, se sustentou exatamente neste ponto : a satisfação da sociedade, especialmente a impropriamente chamada classe C, por estar consumindo mais. O sinal de que o consumo está estagnado - cresceu apenas 0,3% no trimestre abril/maio/junho, depois de ter caído 0,8% no período anterior - foi um soco na boca do estômago dos marqueteiros. Ainda mais se somarmos a isto os dados de que o crescimento da oferta de empregos com carteira assinada está desacelerado, que a renda média do trabalhador cai desde o início do ano, que o crédito ao consumo está mais seletivo. As manifestações juninas tiveram como estopim o aumento nos transportes coletivos em SP, RJ e em algumas outras cidades, porém só tiveram o alcance de público e de crítica que tiveram porque havia um caldo de cultura para o movimento prosperar. Sucesso eleitoral ? - 3 Centenas e milhares de pessoas foram se manifestar e mais de 80% dos brasileiros (dados de mais de uma pesquisa) aplaudiram as ruas em movimento não apenas pela insatisfação com a qualidade dos serviços públicos em geral e com a capacidade dos políticos fazerem as coisas certas, mas também por uma difusa sensação de insegurança, medo de perder o que foi conquistado nos últimos anos. Enquanto os economistas de Dilma não encontram uma fórmula para recuperar o poder de consumo da população e afastar o temor do desemprego, o desafio de Dilma e seus marqueteiros será encontrar outro mote para manter o discurso de gosto popular que a presidente abraçou nos últimos meses. Daí a ênfase no programa "Mais Médicos", um ideia positiva, porém cheia de aventuras e improvisações que tanto pode ser bem sucedida como virar um fracasso do qual Dilma e menos ainda o ministro Alexandre Padilha dificilmente se recuperarão. Mais médicos A reação inconsequente por parte de alguns profissionais brasileiros de medicina, como os que vaiaram indecentemente médicos cubanos em Recife, ou do CRM de MG, estão ajudando Dilma e Padilha a empurrar o programa "Mais Médicos" porque desviam a discussão de questões gravíssimas da saúde brasileira. Parece que tudo se resume a ter ou não ter mais médicos formados em Cuba no Brasil. Ajuda também a presidente o fato de seus oposicionistas não saberem o que dizer sobre o assunto. Bom ou mal para ajudar a minorar os problemas do atendimento às populações mais carentes do país em matéria de saúde, não há dúvidas de que o projeto tem claramente um cunho eleitoreiro. Basta ver que o acerto com os cubanos já estava feito há mais de seis meses, inclusive com instrutores brasileiros tendo ido a Cuba treinar seus profissionais, muito antes de a presidente Dilma, com uma espécie de resposta ao clamor das ruas, ter anunciado o "Mais Médicos". Perca-se a ilusão. Ou : uma homenagem a Tiririca Quase tudo o que se escreveu e o que ainda se escreverá sobre o escárnio, a cusparada na cara dos brasileiros como pode ser denominada a recusa da Câmara em cassar o mandato do deputado Natan Donadon, terá sido pouco para espelhar a indignação nacional contra a indignidade cometida pelos parlamentares e seus partidos. A imagem já está ficando batida, mas vale dizer mais uma que o deputado (e palhaço, no bom sentido) estava errado ao dizer que 'pior que está não fica'. Fica sim. Perca-se a ilusão de que alguma coisa possa mudar por lá : a verdadeira reforma política não sai. Um dia, se sair, sai apenas na parte que interessa políticos e partidos. Nem o fim do voto secreto no Parlamento, apontado como principal responsável pela manutenção do mandato do deputado Donadon, será aprovado com rapidez, embora o presidente da Câmara, Eduardo Alves, tenha prometido botar o projeto imediatamente em votação. Pode até passar na Câmara, mas para "inglês ver" : será modificado, como quer o deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ), uma espécie de quase dono da casa dos deputados, sem o qual nada de bom ou de mau por lá acontece. Ademais, terá então de voltar ao Senado. Também é coisa para algum tempo longínquo a aprovação no Senado da PEC, que torna automática a perda de mandato dos parlamentares condenados por corrupção ao crime comum. Tiririca vai ter de mudar seu slogan se quiser se reeleger. Contas a pagar 1. Estão sendo crucificados os deputados que assinaram a folha de presença na sessão de cassação do mandato do deputado Donadon e não votaram. Mesmo com o voto secreto eles foram identificados. São identificados e execrados também os que se ausentaram totalmente da Câmara naquela hora. Porém, os 513 deputados, exceção para aqueles (por doença ou viagem oficial) com justificativas plenas, são responsáveis por aquelas cenas de desrespeito aos brasileiros. O voto secreto também tem isto : todos são suspeitos igualmente, porque não dá para saber quem votou de tal ou qual forma. 2. Com O episódio, ficou ainda mais difícil de entender a mudança de entendimento do STF em casos de condenados como o de Donadon e do mensalão. No caso dos mensaleiros, os ministros entenderam que a cassação do mandato dos que são ainda parlamentares é automática. O que até ameaçou abrir uma crise entre o Judiciário e o Legislativo. No do deputado presidiário, já com o voto dos novos ministros Teori Zavascki e Luís Roberto Barroso, entendeu-se que a questão do mandato era privativa da Câmara. O STF também precisa se explicar. 3. Se alguns dos ausentes na fatídica sessão de terça-feira na Câmara e os que, beneficiados pelo covarde manto secreto contribuíram com a "absolvição" de Donadon, acreditavam estar abrindo caminho para dar boa vida aos mensaleiros-parlamentares, estão enganados. Como se diz popularmente, o tiro saiu pela culatra. Um dos temas que as manifestações programadas para este sábado, 7/9, em todo o país, vão levar para as ruas é exatamente o da impunidade política de parlamentares e dos mensaleiros. Veio a calhar O vexame da Câmara veio em boa hora para o Palácio do Planalto. Não que a presidente Dilma esteja comemorando qualquer coisa do caso Donadon. É inegável, porém, que este assunto deve desviar um pouco a atenção de outras palavras de ordem popular das manifestações de sábado. De todo modo, a segurança oficial está tomando todas as precauções possíveis - e muito mais - para proteger a presidente de cenas desagradáveis no palanque do desfile militar em Brasília. No ano passado, com um clima bem melhor, a presidente já foi alvo de vaias. Cadê ? Nada mais se fala sobre o plebiscito, sobre referendo, sobre nenhum plano arquitetado por Aloizio Mercadante? Trinta dias decisivos Em pouco mais de um mês (exatamente no dia 5/10) parte do jogo eleitoral de 2014 estará definido : é quando termina o prazo para inscrições partidárias. Daí para frente ninguém mais muda de partido ou poderá se inscrever numa legenda para disputar as eleições ano que vem. Apenas a presidente Dilma Rousseff, do grid de sucessão presidencial, passará o mês sem muitas tensões nesta área. Aécio Neves vai ficar na expectativa do que vai fazer José Serra. Para o senador mineiro o ideal é que o ex-governador paulista ficasse no PSDB e se engajasse de fato em sua campanha. Isto, porém, parece impossível - e, aconteça o que acontecer, terá um custo para os tucanos. Eduardo Campos vê algumas reações às suas pretensões presidenciais, cada vez mais evidentes, contestadas por alguns governadores e prefeitos que não querem se indispor com os cofres do governo Federal. E pode perder aliados. O governador do CE, Cid Gomes, um empedernido governista Federal, anda caçando um novo partido abertamente. Seu mais recente sinal foi para o Solidariedade, partido que o deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força, promete colocar de pé no tempo devido. Marina Silva está às voltas com a criação de um partido para chamar de seu ou na busca de uma legenda que aceite abrigá-la e tenha uma imagem mais aceitável para a população. Enquanto isso Dilma terá tempo de cuidar dos seus renitentes parceiros que prometem para ela grandes emoções quando de fato os palanques regionais começaram a se formar. Não preocupa agora A presidente Dilma e sua turma da política não deram sinais de ter sentido o golpe do acordo de cooperação e não beligerância celebrado entre dois de seus prováveis adversários ano que vem : Aécio Neves e Eduardo Cunha. Pelo menos aparentemente. No momento, embora não confesse, a preocupação do staff reeleitoral é cortar as asas de Marina Silva. Uma leitura atenta das diversas pesquisas de opinião pública mostra que a ex-ministra é a que tem o maior potencial de surrupiar votos de Dilma. Com Marina está a chave do segundo turno, mesmo que ela não seja a escolhida para disputar o turno derradeiro. É tudo ou nada nas concessões - 1 Exatamente em 15 dias, com o leilão de dois trechos de rodovias, o governo terá exatamente os sinais definitivos se o seu PIL (Programa de Investimentos Logísticos), lançado há mais de um ano e andando até agora a passos de cágado, vai deslanchar ou não. Para exorcizar o risco de um fracasso - em janeiro falho o primeiro leilão rodoviário -, que poderia contaminar em seguida as concessões também previstas para este ano de ferrovias, portos e aeroportos, além da primeira venda do pré-sal, o governo abriu o cofre de concessões. É tudo ou nada nas concessões - 2 Colocado diante da ameaça de possíveis concorrentes de ficar em casa, o governo alterou várias regras inicialmente previstas. Poderá alterar outras até o dia 18/9. Semana passada, por exemplo, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, chamou dirigentes de bancos a Brasília para induzi-los a criar consórcios para financiar empresas interessadas em participar dos leilões. E ofereceu a eles risco zero nessas operações. O sucesso dos leilões é essencial por pelo menos quatro razões para Dilma : 1. A óbvia : sem a participação do capital privado nacional e estrangeiro será impossível melhorar, em prazo razoável, as condições da economia nacional para que ela possa crescer sem constrangimentos. Certamente o início efetivo de obras, no ano que vem, ajuda a turbinar o PIB de 2014. 2. Acertar bons negócios, ainda com a boa notícia relativa do PIB do segundo trimestre, pode quebrar a desconfiança e a resistência dos investidores na economia brasileira. 3. Vai melhorar também o astral da população e, naturalmente, dar a Dilma mais um bom argumento de palanque. 4. O dinheiro que deve entrar ainda este ano, com a assinatura dos contratos, o bônus de concessão, é essencial para fechar as contas públicas de 2013, especialmente os R$ 15 bilhões esperados para a primeira concessão do pré-sal. Por isso, depois de muitas resistências e incensos de todos os lados ao estatismo velho de guerra, o Palácio do Planalto agora está erguendo todas as velas à Santa Concessão. Espia que eu gosto Usualmente quando a área de inteligência de um governo proporciona inquietações ao governo, os assessores se mexem muito antes dos atores principais para "mapear o problema". Em matéria tão sensível, não deve um presidente se expor primevamente antes de um tratamento inicial da questão pelas instâncias menores. Até o mundo mineral sabe que os EUA espionam mundo afora numa velocidade e quantidade jamais vistas. O Brasil não é exceção, muito embora esteja distante daquilo que seria o interesse central dos americanos. Ora, a presidente Dilma tem especial predileção em fazer do tema "espionagem" matéria de ampla divulgação social. Não faltam expressões de indignação patriótica na boca dos ministros do governo. Enquanto isso, as relações Brasil/EUA vão se deteriorando no momento em que a ocupante do Planalto prepara-se para tomar seu avião e ir tratar com o chefe do Império, Mr. Obama. Se a espionagem é tão certa, esta indignação pública ainda precisa ser explicada. Será que a presidente quer ganhar pontos junto à opinião pública às custas de um assunto tão obscuro? O sonho de Obama Se os EUA irão ou não atacar a debilitada Síria não é possível saber. São muitos os fatores a serem analisados em torno deste sensível assunto. Uma coisa é certa : sabia-se que Obama não passa de um conservador suficientemente provido de atributos de produto de marketing; o que não se sabia é que Obama era quase igual a Bush Jr. Se Barack fizesse o discurso I have a dream de Martin Luther King talvez ele dissesse que o sonho se realizou : Obama é igual a Bush, the little one. Radar NA REAL 30/8/13   TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo Juros ¹ - Pré-fixados NA alta estável/alta - Pós-Fixados NA alta estável/alta Câmbio ² - EURO 1,3189 estável baixa - REAL 2,3628 baixa baixa Mercado Acionário - Ibovespa 50.008,38 estável/baixa baixa - S&P 500 1.632,97 estável/alta alta - NASDAQ 3.589,87 estável/alta alta (1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais). (2) Em relação ao dólar norte-americano NA - Não aplicável
terça-feira, 27 de agosto de 2013

Política e Economia NA REAL n° 259

O estado da política econômica - 1 Há que se concordar que qualquer que seja o governo este tem de dar respostas razoáveis e proporcionais às variações relevantes da conjuntura, seja política, social ou econômica. Da mesma forma, tais respostas (políticas, estratégias, planos) têm de ser guiadas por uma visão vetorial e estratégica. Este aspecto é particularmente importante quando há intervenções sobre o andamento de mercados ou de qualquer processo endogenamente formado naquela determinada sociedade, como no caso de manifestações e protestos. Isso porque o imperium não pode prevalecer a toda hora e para qualquer solução. A soberania estatal deve simbolizar a reunião de esforços em sentido específico e em prol do interesse comum (ou da res publica). A banalização da intervenção estatal sempre resulta em distorções que já não serão conjunturais, mas estruturais. Cria-se um perigoso viés, cujo custo é inexoravelmente incorrido, seja logo após a intervenção, seja à frente - lembremo-nos, neste item, do congelamento do câmbio no primeiro governo FHC. Além disso, intervenções conjunturais sem visões estratégicas acabam por se tornar um fim em si mesmo. Vira um jogo entre o Estado e a sociedade (ou parte dela). Forma-se um par antagônico, nós versus eles. Isso é quase tudo. O estado da política econômica - 2 Reportamo-nos a entrevista do ministro Guido Mantega ao jornalista Valdo Cruz da Folha de S.Paulo no último sábado, 24/8. Vejamos alguns trechos em itálico e nossos comentários a seguir : a) Sobre a dívida interna : "O que posso dizer é que a nossa dívida vai continuar caindo e com mais transparência em operações que poderiam suscitar dúvidas". Nosso comentário : o ministro poderia começar explicando o que persiste sem explicação, tais como as manobras fiscais envolvendo bancos oficiais e a definição arbitrária do que é e do que não é investimento na apuração do superávit fiscal. b) Sobre reajuste dos combustíveis : "A Petrobras sempre pede. Ela tem uma política de mais de um reajuste por ano, mas sem olhar a questão cambial, de momento". Nosso comentário : primeiro seria necessário que o ministro se definisse sobre o seu próprio papel. Isso porque ele é o presidente do Conselho de Administração da Petrobras e desta função amealha alguns bons reais no bolso. Ora, quando diz o ministro que a "Petrobras sempre pede..." quer dizer o que ? Que ele pede para si mesmo ? Ademais, não sabe o ministro, ops !, o presidente do Conselho de Administração da Petrobras que existe uma enorme defasagem de preços dos combustíveis mantida pelo Ministério da Fazenda, cujo titular é o mesmo Guido Mantega ? c) Sobre os especuladores : "Você pode ganhar, mas pode perder. Porque o nosso câmbio é flutuante. Então é preciso tomar cuidado. Houve época em que nosso câmbio flutuava apenas só para um lado. Se você apostar demais numa direção, pode quebrar a cara". Nosso comentário : Isso mesmo ministro. Concordamos que "você" pode perder ou ganhar. Parece um axioma razoável. Quanto ao câmbio este nunca flutuou apenas para um lado, ele subiu e caiu muitas vezes desde a adoção do regime flutuante, logo após a inauguração do segundo governo FHC. Este fraseado ministerial serve para explicar exatamente o que ? d) Sobre a inflação : "A inflação tem uma trajetória sazonal. Começa alta no início do ano, vem caindo, atinge seu menor patamar em julho, depois volta a subir. O importante é a velocidade de crescimento, para que ela esteja dentro de parâmetros normais. Por exemplo, que a inflação de agosto fique em torno de 0,30". Nosso comentário : A inflação, conforme enorme literatura econômica internacional, não é aumento episódico de preços. Trata-se de aumento constante de preços. Este, no Brasil, gravita bem próximo à meta de inflação. Além disso, há uma considerável inflação acumulada nos últimos anos no Brasil, fruto de inúmeros fatores, mas um deles é constante : a falta de seriedade com que o governo trata o combate à inflação. Sobre isso nada fala o ministro. A única coisa que transparece das palavras de Guido Mantega é que a queda do câmbio é vital para o controle da inflação. Logo, é bom ter um limite para ele, mesmo que isso não dependa do ministro, mas do mercado. No caso, o mercado mundial. O estado da política econômica - 3 Na semana passada, quando o tal do mercado mostrou que o dólar poderia subir bem mais, o governo anunciou que intervirá com US$ 50 bilhões no mercado cambial, via leilões de swaps cambiais. Tanto a elevação do dólar quanto a intervenção governamental são fatos importantes. Do lado do dólar as razões para a alta são bem claras : deve-se (i) a valorização da moeda americana no mercado internacional e também (ii) aos temores de que a economia brasileira não caminha bem por força da política da presidente Dilma Rousseff e que é executada pelo ministro Mantega. Mas e a intervenção no dólar ? Atende a algum objetivo estratégico ? Ou é algo meramente de controle conjuntural ? Há preocupação do governo com a competitividade da indústria nacional ? Além da intervenção do governo, o BC vai elevar a taxa de juros além daquilo que está previsto pelo mercado ? Não existe uma inflação "represada" nos combustíveis ? Não contou o governo com a queda das tarifas de transporte, pós-manifestações de junho/julho, para a queda da inflação ? O governo tem algum plano fiscal novo ? Bem, o governo Dilma Rousseff carece de uma visão estratégica e opera o dia a dia da política e economia. E ainda culpa o setor privado por ter dúvidas sobre o destino ao qual o país está sendo levado. Neste caso, o país pode "quebrar a cara" ? Em prol da transparência Dada a nova vocação do ministro Mantega para a "transparência em operações que poderiam suscitar dúvidas" por que não se estimula o presidente do BNDES Luciano Coutinho, colega de Conselho de Administração de Mantega na Petrobras, a divulgar com clareza os resultados das operações de empréstimos do banco para as empresas de Eike Batista e para outros setores econômicos, tais como os frigoríficos, nossos "campeões mundiais" ? Recordar é viver : "Carta aos Brasileiros", Lula, PT 2002 "Quero agora reafirmar esse compromisso histórico com o combate à inflação, mas acompanhado do crescimento, da geração de empregos e da distribuição de renda, construindo um Brasil mais solidário e fraterno, um Brasil de todos. A volta do crescimento é o único remédio para impedir que se perpetue um círculo vicioso entre metas de inflação baixas, juro alto, oscilação cambial brusca e aumento da dívida pública. O atual governo estabeleceu um equilíbrio fiscal precário no país, criando dificuldades para a retomada do crescimento. Com a política de sobrevalorização artificial de nossa moeda no primeiro mandato e com a ausência de políticas industriais de estímulo à capacidade produtiva, o governo não trabalhou como podia para aumentar a competitividade da economia. Exemplo maior foi o fracasso na construção e aprovação de uma reforma tributária que banisse o caráter regressivo e cumulativo dos impostos, fardo insuportável para o setor produtivo e para a exportação brasileira. A questão de fundo é que, para nós, o equilíbrio fiscal não é um fim, mas um meio. Queremos equilíbrio fiscal para crescer e não apenas para prestar contas aos nossos credores." Seria cômico, não fosse trágico. Tucanos, uma nau sem rumo - 1 Não se pode dizer que os tucanos ganhariam as eleições em 2002, 2006 e 2010. Na sucessão de Fernando Henrique Cardoso havia um ambiente de "fadiga de material" a prejudicar qualquer que fosse o candidato governista. Na reeleição de Lula, o presidente já havia se recuperado da crise do mensalão e ainda começava a colher os frutos de uma boa fase da economia internacional e nacional. Na hora da substituição de Lula, o clima econômico era mais favorável ainda a um candidato governamental, o que facilitou a eleição do então "poste político" que Lula escolheu para substituí-lo. Mesmo assim, os tucanos que concorreram com os petistas - José Serra duas vezes e Geraldo Alckmin uma - embora tenham ido para o segundo turno, coisa que Lula não conseguiu nas duas vezes em que se bateu com Fernando Henrique Cardoso, poderiam ter tido um melhor desempenho. Não ganhariam, provavelmente, mas teriam se saído melhor na segunda rodada das urnas. Matou-os a incrível fogueira de vaidades que os consome. Tucanos, uma nau sem rumo - 2 Do modo que as coisas vão entre eles, os tucanos caminham novamente para perder a eleição presidencial, com um ano de antecedência, ante à sua incapacidade, primeiro, de se entenderem minimamente, e segundo, por sua incapacidade de apresentar uma alternativa de governo ao que está em prática. Tanto quanto o governo eles parecem não ter entendido bem o que a dita "voz rouca das ruas" está pedindo. Pelo andar da carruagem, depois de outubro de 2014, Serra vai passar a gozar de definitiva aposentadoria da política, e Aécio Neves, mais jovem e ainda com mandato, vai ter de recomeçar do zero sua corrida para quem sabe um dia chegar ao Palácio do Planalto. Naturalmente, num outro partido, pois os tucanos não resistirão intocados a um novo vexame eleitoral nacional. De intrigar Apesar da quase desintegração dos tucanos, são eles que ainda assombram mais o Palácio do Planalto e o PT. Basta ver a insistência com que os informantes informais palacianos insistem em dizer ora que o grande adversário da Dilma é a Marina Silva, ora que é Eduardo Campos. Sempre acrescentando que Aécio é figura descartada. Há nessa conversa uma clara intenção de inflar Marina e Campos, dois candidatos com estrutura bem menor e menos sólida do que o possível candidato tucano. O fato real é que embora os tucanos estejam meio perdidos nesta sucessão, em princípio, são eles que ainda preocupam os governistas. Por pouco tempo, pelo que estamos vendo da "pax tucana". Só ele salva ? O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso engajou-se de fato na campanha de Aécio Neves. Aliás, como não o fez nas outras três campanhas em que o PSDB foi derrotado pelo PT. Conseguirá manter o partido mais ou menos unido e entusiasmado para o embate ? Só ele é a esperança dos tucanos. Também é somente ele A presidente Dilma, como sempre ocorre quando o mundo econômico e/ou político ameaça desabar sobre um governo, passou quatro horas na semana passada no confessionário do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em SP. Tempo suficiente para discutir a escalação do Corinthians e passar em resumo toda a Bíblia. Também serviu para Lula dar instruções eleitorais e administrativas à pupila. Dilma aproveitou a vinda à SP para se aconselhar a respeito do que fazer sobre a maré de insatisfações políticas e econômicas que ronda o Palácio do Planalto. Os oráculos de Brasília esperam que a presidente se torne um pouco mais cordata com o mundo político depois desta conversa. Também se espera mais ações na economia para atrair de novo a atenção dos empresários. Há expectativas de novas mudanças nas regras de concessões. É tudo com ele Para sentir cada vez maior a influência do ex-presidente nas coisas que Brasília faz, veja o que escreveu sábado em seu artigo semanal da "Folha de S.Paulo", o jornalista e professor da USP, André Singer, porta-voz do Palácio do Planalto, na primeira fase do governo Lula : "Seja como for, o bloco reunificado [de empresários] foi se queixar a Lula, como se tornou costume à esquerda e à direita, obtendo uma espécie de recuo do desenvolvimentismo em quase todas as frentes no último semestre : aumento de juros, privatizações generalizadas na área de transportes, maiores taxas de retorno nas concessões, expansão das desonerações, suspensão das restrições ao capital especulativo e corte de dispêndio público". Leia-se : é Lula quem faz. E leia-se em certos amuos petistas : esta mudança de rumo não está agradando. Entenda quem quiser Muito se incensou - e justamente - a fala do ministro Celso de Mello, do STF, na primeira sessão de julgamento do mensalão, após a altercação entre os ministros Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski. Foi de forma elegante, um desagravo a Lewandowski, mas foi principalmente uma reafirmação da autonomia e independência do Supremo, acima de algumas paixões, quase um Fla-Flu (ou um Corinthians-Palmeiras) com que determinados grupos estão tratando o julgamento da AP 470. O recado foi muito claro, em uma substancial sentença, curiosamente ignorada por uma parte das arquibancadas : "Não nos olvidemos, jamais, senhor presidente e senhores ministros, das sábias palavras do saudoso ministro Luiz Gallotti, que lançou grave advertência sobre as consequências do processo decisório nesta Corte, ao enfatizar que o Supremo Tribunal Federal quando profere os seus julgamentos, também poderá, ele próprio, ser 'julgado pela Nação' (RTJ 63/299, 312) e pelos cidadãos desta República". Ou seja : o STF não é um ser anódino, apartado da sociedade. Para quem quiser entender, isto basta. Aos embargos aquilo que é, de fato, infrigente A questão "técnica" sobre a validade ou não do regimento interno do STF no que toca aos embargos infringentes é questão muito polêmica e passível de legítima dissecação dos excelsos jurisconsultos. Todavia, em sendo a Ação Penal 470 uma espécie de proxy sócio-política do Estado da Nação, a possibilidade de desvios jurisprudenciais é elevada. E mais : servirá de perigoso paradigma para esta questão "técnica". Todos os juízes ao redor daquelas mesas do plenário sabem disso e já revelaram a interlocutores suas preocupações. O problema é que, caso o andamento do julgamento caminhe para uma revisão das sentenças, poderemos ver coisas surpreendentes nas manifestações dos ministros. Os ácidos recados do presidente do STF poderão ir além do que já foi registrado. Nem parecido com Ulpiano, aquele jurisconsulto que firmou a máxima de que "tais são os preceitos do direito : viver honestamente, não ofender ninguém, dar a cada um o que lhe pertence". Tão simples explicar O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, cada vez menos ministro e cada vez mais candidato ao governo de SP, sempre uma figura muito afável em suas entrevistas, está exibindo clara irritação com as críticas e contestações à importação de quatro mil médicos cubanos que o governo pôs em prática esta semana. Boa parte delas, as de ordem legal, envolvendo inclusive questões trabalhistas, poderia ser facilmente rechaçada com a divulgação completa das datas e tudo mais do convênio que o governo brasileiro assinou com a Organização Panamericana da Saúde (OPAS) para tornar viável a importação. Simples assim. Também quero o meu Entusiasmado com o que no governo é visto como um grande sucesso de "público" do ministro da Saúde, o programa "Mais Médicos", seu colega da Educação, Aloizio Mercadante, que lá no fundo ainda não "revogou" sua pretensão de concorrer ao governo de SP, anunciou que poderá também lançar em sua pasta um sucedâneo do programa de Padilha, o novo programa "Mais Professores". A questão é saber de onde virão esses profissionais se, como no caso dos médicos, não houver brasileiros suficientes para suprir as vagas a serem oferecidas pelo MEC : preferencialmente de Cuba também ? Dos países lusófonos ? Do Vietnã, Japão ou China ? E mais serão dispensados, como os médicos de um exame de validação do diploma e de um teste de eficiência em Língua Portuguesa ? Eleição, o que não se faz em seu nome ! Frase da semana Do escritor e jornalista Gilberto de Mello Kujawiski em artigo no Migalhas : "Por fim, permito-me reparar ainda que a denúncia da 'corrupção' gritada e escrita nas manifestações de junho não se limita a receber ou dar propina, não envolve forçosamente dinheiro. Refere-se à outra corrupção mais profunda e danosa : a deterioração das relações dos governantes com o Estado, apropriando-se do público em seu proveito, como se privado fosse, e pior ainda, provocando a degeneração do projeto de país em projeto de poder, sem limites." (clique aqui) Comissões da verdade Consta que os Estados já criaram nove "Comissões da Verdade" para apurar violações aos direitos humanos no período 1946-1988. Somadas tais comissões estaduais à sua "mãe" Federal o Brasil parece viver um verdadeiro período de apuração histórica sobre o papel da repressão (estatal ou não) sobre as pessoas e entidades. Observados os resultados de tais apurações verificamos que pouco ou quase nada se acresceu aquilo que já se sabia. O trabalho de tais comissões deve ser até sério, mas convenhamos : será que dá para ter algo "novo" sem uma abertura geral e irrestrita dos arquivos estatais, sobretudo aqueles nas mãos dos militares ? Com resultados tão pífios não seria o caso destas comissões se debruçarem sobre os 50 mil homicídios que o Brasil tem todos os anos ? Este indicador é sim uma violação monumental aos direitos humanos, um recorde mundial que nos envergonha. Radar NA REAL 23/8/13   TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo Juros ¹ - Pré-fixados NA alta estável/alta - Pós-Fixados NA alta estável/alta Câmbio ² - EURO 1,3365 estável baixa - REAL 2,3484 baixa baixa Mercado Acionário - Ibovespa 52.197,06 estável/baixa baixa - S&P 500 1.663,50 estável/alta alta - NASDAQ 3.657,79 estável/alta alta (1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais). (2) Em relação ao dólar norte-americano NA - Não aplicável
terça-feira, 20 de agosto de 2013

Política e Economia NA REAL n° 258

A República rebelde - 1 Sem a conotação de uma rebelião aberta ou uma insubordinação burocrática, mas também não muito subterrânea e disfarçada, já é possível visualizar na capital da República, segundo os melhores observadores dos costumes locais, uma certa rebeldia de setores governamentais contra determinadas políticas, orientações e discursos oficiais. É a reação da burocracia estatal formada pelo funcionalismo com carreira de Estado, incomodados com as ordens superiores que recebem, contrárias ao que eles consideram a melhor forma de gestão pública. São os servidores, concursados, de alto nível, que sabem que a caravana passa e eles ficam para pagar muitas vezes por políticas e ações com as quais, tecnicamente, não concordam. A República rebelde - 2 Eles não pensam como agentes do governo, de um governo, de qualquer governo, mas como servidores públicos estatais, sem vinculações políticas e partidárias. A preocupação desses grupos é preservar a imagem da instituição a que servem, sem deixar que elas sirvam a interesses que não os do Estado. O mais visivelmente incomodado é o BC. Depois de passar dois anos e pouco interpretando todos os desejos da presidente Dilma e do ministro da Fazenda, Guido Mantega, subordinando a política monetária à política de desenvolvimento da dupla que comanda a economia, o BC mudou sua posição em quase noventa graus. Seus últimos comunicados contrariam de maneira frontal o otimismo que Dilma e Mantega continuam a cultivar. Agora, enquanto a presidente e seu ministro comemoravam em seu melhor estilo a queda a quase zero da inflação de julho (meros 0,03% de alta), o diretor de política econômica do BC, Carlos Hamilton, ao avesso, disse a quem quisesse ouvir, que o resultado foi um ponto "fora da curva", indicando que a instituição não vai afrouxar no ritmo da eleição da taxa básica de juros, mesmo com sinais de que o PIB não anda lá essas coisas. A República rebelde - 3 Semana passada, ao mesmo tempo em que o ministro da Fazenda dizia que a nova escalada do dólar é positiva para a indústria brasileira, o BC realizava uma série de intervenções no mercado para conter a rebeldia da moeda americana. Na quinta-feira, o bem informado, em matéria de BC, repórter Vicente Nunes, do "Correio Braziliense", publicou uma nota em seu blog dizendo que a instituição presidida por Alexandre Tombini estava se considerando traída pelo restante do governo, pois enquanto ela cumpriu o que tinha sido acordado entre as partes, e derrubou a Selic, não teve a contrapartida de uma política fiscal mais austera. Sem outra saída, o BC emitiu uma nota lacônica, obviamente negando a idiossincrasia. Porém, quem frequenta os ares do BC sabe que o funcionalismo de lá, altamente qualificado e comprometido com a instituição, não gosta do que está se passando. E passa seu desconforto para a diretoria, toda ela formada por funcionários de carreira. E esse ambiente de insatisfação não está somente no BC. Há tempos a burocracia da Receita Federal se preocupa com a forma atabalhoada e seletiva com que o governo adota para distribuir incentivos fiscais e desonerações de impostos. No Tesouro Nacional, outro setor de funcionários concursados e de elevado nível, a "contabilidade criativa" do secretário Arno Augustin é vista com profundo desgosto. Uma hora o caldo pode entornar. A República insubordinada Continua muito forte no Congresso Nacional a insatisfação dos partidos aliados, inclusive em muitos casos no próprio PT, a insatisfação com a presidente Dilma e a maior parte de seus ministros. Apesar do novo estilo "Dilminha, simpatia, quase amor" que a presidente vem exibindo nos últimos para seus parceiros políticos, com sessões de agrado no Palácio do Planalto, e a franquia dos cofres do Tesouro Nacional para as verbas das emendas parlamentares, a relação entre o Executivo e o Legislativo não melhorou. Haja vista as duas derrotas do governo em votações na Câmara, na semana passada - na divisão dos royalties do petróleo e no caso do Orçamento impositivo - e nas ameaças de derrubada hoje de alguns vetos presidenciais. A máxima franciscana (nada a ver com o papa Francisco e nem com o sentido verdadeiro da expressão de São Francisco) do "é dando que se recebe" até hoje não está funcionando, talvez porque Dilma tenha começado muito tarde nesta prática, numa hora em que seu prestígio está baixo. O ambiente no Congresso é de insubordinação. Não dá, porém, para comparar esta com a insatisfação de setores da burocracia estatal, conforme a nota acima : com os primeiros, a insatisfação é de fundo e técnica, tem a ver com as políticas que têm sido adotadas ultimamente. A insubordinação dos congressistas é mais chã, tem a ver com o interesse deles e de seus partidos apenas. Dilma, Guido, Tombini e o câmbio Quem acompanha as coisas de Brasília sabe que quem manda na Fazenda é a presidente Dilma. Os graus de liberdade do ministro Mantega são limitados à vontade da chefe. Ele, por sua vez, parece muito bem acomodado à missão dada de fazer específica e detalhadamente o que vem do Planalto. No BC assim já foi. Hoje, como mostram as primeiras notas desta coluna, a autoridade monetária está ocupando espaços, inclusos os do Planalto. Dilma em matéria monetária parece ter apetência para mandar, mas é mais limitada política e tecnicamente que em outras governanças avançadas que desempenha. Pois bem : sabe-se que a presidente está particularmente preocupada com a alta do dólar e, sabedora dos efeitos perniciosos deste processo, parece inclinada a tomar partido "operacional" das soluções. O certo é que não há muito que fazer para estancar este estrutural processo. O que dá para fazer é cuidar das rebarbas (hedge, intervir pontualmente, etc.) e, atenção!, subir a taxa de juros básica para tentar valorizar o real e reduzir a inflação que nasce do câmbio desvalorizado. Isso o Planalto não quer escutar nem de longe. Todavia, será o que ouvirá de perto do BC. COPOM sob tensão Os diretores podem passar o tempo que quiserem olhando para os débeis indicadores da economia brasileira. O que se vê explicitamente e não apenas nas entrelinhas é que o país não tem vetor de crescimento. Trafega entre a perda de competitividade da indústria brasileira e a indiferença cada vez maior do setor privado (daqui e alhures) em investir (produzir riqueza nova). No meio do caminho tem um petardo estrutural (e não apenas conjuntural) : a alta cambial. O certo neste momento é o BC se fechar em torno do controle de uma variável, a inflação. Em relação ao câmbio cabe agir com moderação, sabedoria e inteligência, não necessariamente nesta ordem. Veremos o que sairá das tortuosas linhas dos comunicados do BC. M o leitor pode anotar : se o BC errar como o governo erra, o restante de 2013 será muito fraco e volátil e 2014 somente Deus sabe como será. O Brasil acumula boas reservas para operar o que torna um "colapso" improvável. Deve prevalecer o agravamento do atual grau de letargia. Bovespa e dólar Uma frase metafórica de um bem posicionado investidor brasileiro deve ser levada a sério : "Dólar a R$ 3,00 e Índice Bovespa a 30 mil pontos". Como se sabe, não é possível atribuir valores tão precisos às previsões, mas há que se respeitar a análise de tendências. Neste sentido, parece razoável imaginar que o tal do mercado caminha nesse sentido. Os fundamentos conspiram contra as cotações das ações das melhores empresas brasileiras cotadas na bolsa. Os preços são elevados em função do desempenho da economia brasileira e comparativamente ao que se vê lá fora. De outro lado, o dólar não capenga, tem força justificada. No curto prazo até que pode o cenário melhorar, mas isso torna uma venda mais segura que uma compra de ações. Uma Marina incomoda muita gente - 1 A candidatura da ex-ministra e ex-senadora Marina Silva, ainda sem partido, à presidência da República, já não é vista, nem pelos partidários da reeleição da presidente Dilma, nem pelos possíveis candidatos de oposição, Aécio Neves e Eduardo Campos, como, para usarmos uma expressão da moda, "um ponto fora da curva". É, até mesmo, uma candidatura bem recebida, bem-vinda pela oposição, porque tucanos e socialistas acreditavam que ela poderia tirar votos preferencialmente de Dilma e garantir a realização do segundo turno no ano que vem. Era igualmente bem-vinda pelo petismo e aliados porque se acreditava que ela consumiria votos preciosos de Aécio e Campos, dividindo e enfraquecendo a oposição. A leitura das últimas pesquisas de opinião divulgada para o público e as que os partidos mandam realizar para consumo interno, indicam que os estragos que Marina Silva está causando atingem a todos. A ex-ministra está pegando votos (mais especificamente, intenções de votos) em todas as searas, do governo e da oposição. Uma Marina incomoda muita gente - 2 A vantagem que Marina carrega hoje é que, embora tenha sido petista, tenha servido ao governo Lula e tenha tido intensa atividade parlamentar, ela não é vista pela maioria da população como alguém que representa o que mais foi condenado nas ruas de junho : "tudo que está aí", o modo de ser da política brasileira. Marina não é classificada como uma "política tradicional" no sentido brasileiro e pejorativo do termo. O maior sinal de que a ex-ministra começou a incomodar de fato foi o apelo - esta é a expressão correta que o ex-presidente Lula fez ao senador Eduardo Campos, para que ele se recomponha com as forças governistas e passe a apoiar a reeleição da presidente Dilma. Até semanas atrás, Lula, publicamente, dizia que não faria tal apelo por respeito ao direito de cada um escolher sua opção política. Uma Marina incomoda muita gente - 3 Governistas e oposicionistas estão um pouco sem saber como agir. Torcem para que ela não consiga montar seu partido e, se conseguir, não consiga adesões e alianças suficientes para garantir um tempo razoável no horário eleitoral obrigatório no rádio e na televisão. Mas esta é uma aposta temerária, porque ela pode conseguir outra legenda. Além do mais, se a sociedade desconfiar que eles estão agindo por debaixo do pano para dificultar o nascimento do Rede Sustentabilidade, o partido que Marina tenta criar, a arma pode se voltar contra eles. A própria Justiça eleitoral parece ter se dado conta de que precisa ser mais ágil na análise do pedido de registro da legenda de Marina para não se comprometer com a opinião pública. Uma Marina incomoda muita gente - 4 Resta tentar desconstruir a imagem da ex-ministra, o que parece já estar em andamento, haja vista algumas matérias que começam a surtir aqui e acolá, apontando falhas e contradições dela. Também deste lado não será tão fácil. A ex-ministra está mais experiente, bem mais "escolada" e bem melhor assessorada. A entrevista que ela deu ao jornal Folha de S.Paulo neste domingo é um primor e deve ser lida com muita atenção. Aparece ao lado da Marina conservadora em matéria de costumes, uma Marina mais conservadora (e liberal) em outros temas, um pouco diferente da figura quase religiosa da ambientalista radical. O discurso de Marina já não pressupõe um confronto com certos segmentos do mundo empresarial e em certos aspectos parece mais palatável para eles do que os conceitos que eles têm da presidente Dilma. É por essas e outras que Marina está incomodando muita gente. É cedo para dizer se ela vai chegar lá, mas já não é mais uma principiante como já tentou-se sugerir. Por isso, está incomodando tanta gente. Está escrito nas estrelas - I Lula não será candidato à presidência da República no ano que vem, se Dilma recuperar parte de prestígio perdido nos últimos meses. O PT não arriscará seu projeto de poder eterno se a presidente não chegar, lá por março, com mais de 50% de aceitação - pessoal e de seu governo. Caso não consiga, mesmo contra a sua vontade e contra qualquer risco, Lula terá de voltar aos palanques com toda a força, e não apenas como simples animador. Está escrito nas estrelas - II José Serra está movendo céus e terra para ser candidato novamente ao Palácio do Planalto. Poderá ser, mas não será pelo PSDB. A não ser que as chances do partido diminuam muito e Aécio prefira esperar outra oportunidade melhor para tentar a presidência, o que é muito improvável. O homem forte A Câmara e o Senado têm presidentes eleitos por seus pares. Todos os partidos têm direções escolhidas pelos seus filiados, os partidos indicaram de comum acordo seus líderes na Câmara, no Senado e no Congresso, assim como o governo escolheu seus representantes no Legislativo sem nenhuma pressão, por livre e espontânea vontade. Com tudo isso, porém, uma única pessoa dá as cartas para valer no momento no Congresso Nacional - o líder do PMDB na Câmara, deputado Eduardo Cunha/RJ. Sem a boa vontade dele nada acontece hoje no Congresso. Se Cunha não quer, não passa ; se ele avaliza, anda. É o caso de perguntar : que talentos têm este homem ? Ou o que ele sabe que outros não sabem que o torna tão poderoso e tão temido ? Barbosa versus Lewandowski - 1 Certo é que o palavreado exacerbado - para usar um termo mais suave - do presidente do STF Joaquim Barbosa não é desmedido como parece. Barbosa não pretende ser um homem ilustre. Quer ser muito mais neste tema do mensalão : quer ser herói. Assim sendo, é preciso entender que ser herói lato sensu significa ultrapassar a percepção de um grande homem e adentrar no imaginário extramuros do STF. O distinto público está com fome de Justiça, deseja ver atrás das grades os poderosos que sempre "escapam pelo ladrão" (sem trocadilhos). Deste imaginário popular é que nasce os trejeitos pessoais do excelentíssimo presidente do STF. Não se tenha ilusão disso. Os que desejam algo mais, digamos, "jurídico" nas decisões da Corte, não devem esperar isso de alguém que almeja o heroísmo. O heroísmo combina com combate, bravura e coragem. Barbosa sabe disso e irá desempenhar seu papel. Barbosa versus Lewandowski - 2 Lewandowski, de sua tribuna, sabe que Barbosa está mais frágil nos intestinos corredores da Suprema Corte. A astúcia política do presidente está mitigada por dois detalhes importantes. O primeiro é que parte aparentemente majoritária do plenário quer decidir por força da hermenêutica jurídica e, mesmo sabendo-se que isso não é algo absoluto, está pondo na mesa os seus argumentos legais. Este é o jogo "político" que foi traçado. O segundo é que Barbosa já sofre certos revezes de imagem, especialmente quando fala e parece desequilibrado e em eventos como o da compra de um apartamento em Miami por meio de um artifício tributário incomum aos magistrados. Neste item, Lewandowski e sua turma (se esta existe) está a conseguir o intento de neutralizar a demanda popular por um herói e que Joaquim Barbosa sabe operar. Este é o cenário por detrás das cortinas, mas que será incorrido na frente de todos. Não se espere calma nessa hora. Barbosa versus Lewandowski - 3 Convenhamos que a questão dos embargos infringentes é pra lá de polêmica. Não é matéria certeira a ponto de se falar de jurisprudência pacificada. Ocorre que este questionável recurso não esconde que é nele que repousa a esperança de José Dirceu e outros de ficar livre da cadeia. Esta é a cena ideal e final que Barbosa espera propiciar para o distinto povo faminto de Justiça. Pena mesmo é que o tema dos embargos infringentes fique obscurecido por tão notório caso concreto. Afinal, é um assunto de ordem mais do que pública e cujas repercussões vão do Oiapoque ao Chuí. Todavia, até se chegar ao final desta intrigante peça teatral sobre o poder, não se espera calma naquele plenário. Radar NA REAL 16/8/13   TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo Juros ¹ - Pré-fixados NA alta estável/alta - Pós-Fixados NA alta estável/alta Câmbio ² - EURO 1,3342 estável baixa - REAL 2,4191 baixa baixa Mercado Acionário - Ibovespa 51.538,78 estável/baixa baixa - S&P 500 1.655,85 estável/alta alta - NASDAQ 3.602,78 estável/alta alta (1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais). (2) Em relação ao dólar norte-americano NA - Não aplicável
terça-feira, 13 de agosto de 2013

Política e Economia NA REAL n° 257

Números providenciais - 1 O sábado, com a divulgação da pesquisa DataFolha indicando que o prestígio da presidente Dilma não só deixou de cair como apresentou uma recuperação de relação ao levantamento anterior do mesmo instituto, passando de 30% para 36% de avaliação ótima/boa, coroou uma semana de boas notícias para o Palácio do Planalto, depois de dois meses nada consagradores. Os seis pontos de bônus na pesquisa vieram a se somar com certa trégua - sempre um tanto quando incerta, é verdade - celebrada com os partidos aliados no Congresso Nacional para evitar a batelada de contestações e derrotas que o PMDB & Cia. estavam prometendo aplicar na presidente, aprovando algumas medidas que contrariam as posições do Planalto e derrubando alguns dos vetos considerados cruciais pela equipe presidencial. Números providenciais - 2 Há ameaças, ainda, como a possibilidade de aprovação, esta semana pela Câmara, por insistência do aliado Henrique Eduardo Alves (PMDB), da obrigação de o governo liberar sem cortes e sem contingenciamentos as emendas parlamentares ao Orçamento da União. Porém, já se criou um ambiente mais cordial, de ambas as partes. A outra boa notícia foi a da trégua dos preços, com a inflação de julho ficando praticamente no zero (exatos 0,03%) e a acumulada de 12 meses abaixo do teto da meta de 6,5%, número que hoje é a obsessão do governo. Quando Dilma diz que a inflação vai ficar dentro da meta, ela está se referindo a esse limite máximo, não exatamente aos 4,5%. É certo que, como admite a maioria dos analistas e o BC, os números de julho não se repetirão tão cedo. A inflação voltará a subir nos próximos meses. Nem mesmo em 2014 acredita-se que a alta dos preços baterá nos tais 4,5%. Números providenciais - 3 É certo também que o Congresso é imprevisível, os partidos aliados estão com o apetite aguçado, além do normal. Ou seja, o humor pode mudar tanto no mundo político quanto entre os agentes econômicos. Mas foi crucial para a presidente os bons ventos que sopraram para ela esta semana - veja-se a alegria muito genuína que ela exibiu em Porto Alegre onde esteve em dois eventos político-administrativos. Foi importante para ela exorcizar os fantasmas que estavam se formando cada vez mais em seu entorno. De um lado, segura os partidos aliados, em parte "rebelados" porque já começavam a ver outras possibilidades eleitorais em 2014. De outro, joga um pouco mais para longe as nostalgias petistas de Lula. Por mais que o ex-presidente insista em dizer que é Dilma e nada mais, que os petistas de mais fôlego também entoem esta ladainha, no coração petista, com Dilma rateando como estava, o "volta Lula" ainda está guardadinho no seu melhor lugar. Números providenciais - 4 Uma prova de que há "fidelidade condicionada" foi o que disse o presidente do partido, Rui Falcão, em reportagem da jornalista Daniela Pinheiro, na revista "Piauí" de agosto. Mesmo com as ressalvas do cauteloso Falcão, está lá toda a nostalgia do ex-presidente : "Não tem isso de 'Volta Lula'" - disse grave. "Mas é evidente que, se no ano que vem a presidenta não estiver bem nas pesquisas, é natural que ele se apresente. Temos um projeto longe de mudar o país", afirmou, fixando o olhar pelo vidro lateral do carro. "Mas isso não vai acontecer. Ela vai se recuperar nas pesquisas." Assim, foi providencial este número do DataFolha agora. Ainda mais que a pesquisa indica também que ela ganharia de qualquer um de seus adversários em um hipotético segundo turno em 2014. Um lado da pesquisa tem para ela, porém, um senão : Lula, candidato, ganharia de qualquer um no segundo turno. Há quem esteja temendo que, com esses ventos favoráveis, Dilma e seus conselheiros acreditem de fato que está tudo bem e voltem ao seu mundo anterior aos sustos provocados pelos movimentos juninos. Poderá ser sua perdição. Foi a economia A leitura atenta dos dados da pesquisa do DataFolha indicam claramente que os seis pontos recuperados pela presidente Dilma na avaliação de seu governo se devem basicamente ao alívio da inflação e a persistência do baixo índice de desemprego. Há uma correlação direta entre esta recuperação e o aumento também da confiança dos entrevistados nas suas condições econômicas. A economia vai andar ? A presidente recuperou parte de sua popularidade, como se vê. Do ponto de vista da economia a maior probabilidade é que as coisas persistam na marcha lenta. Não há nenhum fator estrutural mudando no Brasil que possa indicar aumento do consumo ou uma "arrancada" do investimento. Até mesmo a inflação não deu propriamente "uma trégua". Observados os fatores de queda temos a exaustão momentânea de alguns fatores sazonais (no segmento de alimentos) e a queda das tarifas de transporte (fruto das movimentações nas ruas). Do ponto de vista "técnico", ou seja, das previsões possíveis de serem feitas, pode-se afirmar que o governo Dilma já acabou. Mesmo que a presidente fosse uma boa gestora, coisa que não é, e movimentasse o governo para executar grandes mudanças estruturais, os seus resultados viriam no médio prazo. Isso depois de riscos conjunturais substantivos, a saber : alta do dólar (e da inflação), fortíssimo déficit nas contas externas, alta dos juros no mercado internacional e debilidade do consumo no mercado doméstico. A antecipação da corrida eleitoral é um desastre do ponto de vista econômico : os investidores que já capengavam em função da incompetência governamental estão preferindo esperar. O capital é covarde, como se sabe ou se devia saber. Emprego estável numa economia instável A FGV-IBRE divulgou na última sexta-feira, 9/8, o Indicador Antecedente de Emprego e o Indicador Coincidente de Desemprego. Ambos tentam projetar o comportamento do emprego nos próximos meses. O que se pode observar é que o emprego está estável, mas dificilmente continuará assim se o consumo e o investimento não crescerem nos próximos meses. O empresariado está esperando a consolidação do cenário de médio prazo para tomar decisões na área laboral. Note-se que demitir é caro (custos de demissão e os incorridos na formação do funcionário) e readmitir é igualmente custoso (treinamento). Esta rigidez do mercado de trabalho não irá persistir por muito tempo e será o desemprego, se aumentar, o principal fator a conspirar contra a popularidade da presidente. Inferno para os tucanos Se a pesquisa trouxe alívio para a presidente Dilma, acendeu um sinal amarelo para os tucanos com Aécio caindo na intenção de votos em todos os cenários que apareceu. Caiu fora da margem de erro, numa demonstração de que o partido ainda não encontrou o tom certo da campanha. A pesquisa nem pegou as denúncias sobre irregularidades em contratos do Metrô de SP, que, dependendo de como se desenrolar, tem grande potencial para desgastar eleitoralmente os tucanos. Não preocupa Pessoas que têm interlocução com o staff de Aécio dizem que não preocupa tanto quanto estão dizendo alguns a perda de pontos do provável candidato tucano ao Palácio do Planalto na última pesquisa DataFolha. Dizem que a estratégia de Aécio agora é mais para dentro do partido do que para fora, embora não desprezem a conquista de simpatias neste momento. Antes ele precisa consolidar sua candidatura no PSDB afastando o fantasma de José Serra que ainda o atormenta. Depois é que virá a concentração na busca dos eleitores, que começa proximamente com a intensificação das viagens do senador mineiro pelo país. É o devagar e sempre, "sem açodamento", dizem, porque a corrida é longa e de muitos obstáculos. Para os aecistas, a pesquisa traz até boas notícias, asseguram : Serra não tem o recall que imaginava ter - é dos postulantes o que tem mais rejeição, a rejeição de Aécio é menor que a de Dilma e o prestígio de Dilma está muito ligado ao comportamento da economia que não deverá dar a ela fôlego que os conselheiros da presidente estão esperando. Pode ser. Mas também pode não ser. O dilema de Marina A ex-senadora Marina Silva foi novamente a "grande vencedora" da pesquisa do DataFolha no quesito eleições presidenciais. As intenções de votos nela subiram novamente e ela aparece como a candidata de oposição mais competitiva no momento. O drama de Marina é que ela não tem ainda um partido para chamar de seu, tem menos de dois meses para registrar definitivamente o Rede e se não conseguir terá de se submeter a alguma legenda já inscrita no TSE, o que sempre é um risco. É simples assim : os tucanos têm de se explicar Quando colocados diante de algum tipo de suspeita de má conduta, os partidos políticos brasileiros costumam fazer de tudo : fingir que não é com eles, inventar alguma teoria conspiratória, mandar procurar o bispo. Menos o mais simples : vir imediatamente à público e explicar o caso - e até assumir culpas, se houver. Isso vale para todos, sem exceção. Desta vez quem está tendo tal ataque é o PSDB, diante das denúncias de que um cartel pintou e bordou em contratos no Metrô de SP e na CPTM. Há fortes indicações de que as irregularidades denunciadas, e já em investigação pelo Cade, de fato ocorreram e também indícios de que servidores públicos - não se sabe ainda em que nível - foram envolvidos. O PSDB apenas pasmo, tergiversando simplesmente até agora. Os adversários estão explorando politicamente o fato. É natural. Assim fazem os tucanos também quando podem. Por que não apoiar uma CPI para investigar o caso ? Aliás, duas - uma em SP e outra em Brasília ? Prejuízos o PSDB já está tendo, por sua omissão. Poderá pagar mais caro ainda se não explicar, como poderá ver a partir da agora na campanha presidencial. Promiscuidade em xeque Uma CPI - séria, para valer, naturalmente e não com objetivos meramente políticos - a respeito do cartel do Metrô poderia ser muito útil no sentido de desvendar o que se sabe, ocorre em boa parte de negócios públicos - os acertos de preços entre os grupos interessados na concorrência, muitas vezes sem nenhum envolvimento de qualquer autoridade. Um jogo que não existe apenas no Brasil, como, aliás, comprovam as confissões da Siemens a respeito de sua atuação em várias partes do mundo. A imprensa e o seu papel Impressionante (no bom sentido, por isso digno de todos os aplausos) o trabalho da dita mídia tradicional na investigação, dentro de suas possibilidades, de desdobramentos das denúncias de formação de cartel e pagamento de propinas em negócios com trilhos nos governos de SP e do DF, com grande destaque para o primeiro, já no período em que o Palácio dos Bandeirantes já estava nas mãos dos tucanos. Não é nada demais, nem deveria merecer um comentário aqui - é apenas uma obrigação do jornalismo que se quer o respeito. Mas vale a nota porque desmoraliza as teorias conspiratórias de alguns de que a grande mídia só investiga quando a denúncia atinge um lado, é seletiva no seu trabalho e nas suas preferências. Os mesmo que dizem isto agora estão se fiando no esforço de jornais e jornalistas que em outras ocasiões eles execram para agora atacar os adversários. Faça-se bom proveito. Os ETs de Brasília A presidente Dilma declarou que tem "muito respeito" pelo ET de Varginha. Ainda bem que se trata apenas de uma brincadeira com uma figura de ficção. O problema é o respeito pelos ETs políticos, burocráticos que infestam o ambiente do Planalto Central. Estes não são fictícios : são reais - e muito vivos. Na realidade, para lembrar outra criação assombrosa do jornalismo popularesco brasileiro dos anos 1970, 1980, são verdadeiros "chupa-cabras". Cuidados eleitorais É consenso no governo, a começar pela presidente Dilma, de que é preciso voltar ao antigo modelo de hidrelétricas no Brasil, com construção de grandes barragens e não a fio d'água como foram as últimas concessões na Bacia Amazônica. A tese do governo, amparada em estudos técnicos, é que a volta das grandes represas permitirá o melhor aproveitamento dos recursos existentes : mais potência para as usinas e, obviamente, custos menores na produção de energia. O governo está de olho principalmente na grande capacidade do rio Tapajós. Porém, apesar de encontrar tantos benefícios na mudança do modelo, Dilma e seus ministros não deverão passar a defender, de peito aberto, essas alterações. Pela simples razão de que baterão de frente com os grupos ambientalistas (nos quais Marina Silva tem grande penetração) e com os grupos de defesa dos povos indígenas. Para os marqueteiros oficiais isso é desaconselhável em períodos eleitorais, pois feriria até a alma de muita gente boa no PT. É por isso que a defesa dessas mudanças está sendo prioritariamente "terceirizada" para entidades empresariais e especialistas independentes. Insegurança jurídica por todos os lados Não bastasse a tentativa boba e incompetente do Planalto em tentar "tabelar" o retorno dos investimentos privados nos diversos segmentos de infraestrutura, espalha-se pelo país a sensação de insegurança jurídica e de negócios. Em SP o escândalo em relação às licitações do Metrô adiciona ao cidadão comum mais certeza sobre como funcionam as licitações. Para os investidores, fica a sensação de que os processos licitatórios vão demorar ainda mais. O Palácio dos Bandeirantes já não era objeto de admiração dos investidores no que tange à sua eficiência. Agora caiu na vala comum dos administradores públicos brasileiros. No RJ, o "ex-arrogante" Sérgio Cabral mudou os termos da concessão/construção dos complexos esportivos das Olimpíadas/Copa do Mundo. Novamente fere a segurança jurídica e a lógica econômica. O setor público brasileiro afasta quem nunca aqui investiu e prejudica a quem quer investir. Alta da Bolsa, queda do dólar, etc. Há, do nosso ponto de vista, pouco conteúdo passível de análise nas recentes altas das ações, na queda do dólar ou, de forma mais geral, no otimismo do tal do mercado. Acreditamos inclusive que este "veranico" permaneça por mais alguns dias/semanas. Da mesma forma, acreditamos que o mercado financeiro nos países centrais "ande de lado" como se diz no jargão do mercado. Estamos em pleno período de transição. As principais variáveis domésticas já estão consideradas nos preços (inflação, descrença política, demanda fraca, etc.), assim como lá fora (fim da temporada de divulgação de resultados, dados econômicos, mudança da política monetária nos EUA, fraqueza econômica na Europa, PIB mais fraco na China, etc.). Será preciso uma nova onda de notícias que clareie as atuais tendências (negativa por aqui e positiva lá fora). Apenas num contexto de fatos novos é que novas posições estruturais devem ser assumidas. O Brasil, a Grécia e o FMI O ministério da Fazenda informou na quarta passada que o representante do Brasil, e de outros 10 países da América Latina no FMI, Paulo Nogueira Batista, tem "respaldo político" do ministro Guido Mantega para continuar exercendo suas responsabilidades na instituição de crédito internacional. Como se sabe, o nosso representante no FMI resolveu, por moto proprio, se abster na votação de liberação de US$ 1,7 bi para a combalida Grécia, sob a justificativa de que as reformas helênicas têm sido "insatisfatórias em quase todas as áreas" e que "as suposições de sustentabilidade de crescimento e dívida continuam a ser otimistas demais". Seria muitíssimo interessante conhecer as inteligentes percepções de Nogueira Batista Jr. sobre a política econômica de seu padrinho Guido Mantega. Será que as nossas reformas são aceleradas ? E o crescimento da nossa dívida, o que acha tão abalizado economista ? Mensalão : mudanças à vista ? Há contido entusiasmo dentre as bancas de advocacia que estão defendendo mensaleiros que estão apurados com a perspectiva de irem para detrás das grades. Segundo vozes destas bancas, Teori Zavascki e Luís Roberto Barroso vão mudar os rumos das penas aplicadas sob a batuta de Joaquim Barbosa. Radar NA REAL 9/8/13   TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo Juros ¹ - Pré-fixados NA alta estável/alta - Pós-Fixados NA alta estável/alta Câmbio ² - EURO 1,3311 estável baixa - REAL 2,2712 baixa baixa Mercado Acionário - Ibovespa 49.874,90 estável/baixa baixa - S&P 500 1.691,42 estável/alta alta - NASDAQ 3.660,11 estável/alta alta (1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais). (2) Em relação ao dólar norte-americano NA - Não aplicável
terça-feira, 6 de agosto de 2013

Política e Economia NA REAL n° 256

O fim da crise - I Nenhum policy maker vai propagandear isso mundo afora, mas os indicadores de atividade (consumo e, em menor medida, investimento), o comportamento das empresas e dos investidores, a situação do mercado de crédito e o comércio internacional indicam que a crise iniciada em 2008 está se esvaindo nos países centrais. Isso não quer dizer que o mundo não tenha problemas e que estes sejam desprezíveis. Ao contrário : o "rescaldo" da crise internacional persistirá como essencial ao sistema econômico, especialmente no que se refere à situação fiscal e à administração da política monetária. Este é o caso dos EUA onde o Federal Reserve manda recados propositalmente contraditórios no que tange à manutenção ou não do imenso estímulo monetário gerido pela autoridade monetária daquele país. Com menos alarde, é o mesmo que faz o Banco Central Europeu e o Banco do Japão. O fim da crise - II Não à toa os mercados mais arriscados e sensíveis às variações de humor, sobretudo o de ações, está com invejável desempenho nos países centrais. Os resultados corporativos tem sido positivos e corroboram o otimismo dos investidores. Nos EUA, além da confirmação das melhores expectativas em termos dos resultados, os analistas estão ouvindo dos managers que o ambiente mais favorável está se traduzindo em vendas e investimentos. As listas de recomendações de ativos estão lotadas e os volumes negociados nos mercados estão altos e se espera que assim permaneçam. Os próximos embates em termos de política econômica nos países mais ricos serão entre eles : os temas relacionados ao protecionismo e as taxas de câmbio começam a preocupar os formuladores de políticas e os próprios políticos. Em suma : a conjuntura melhora e os aspectos estruturais voltarão a dominar o ambiente das discussões. O fim da crise - III Apesar de todo otimismo e do melhor desempenho em termos de atividade, a maior probabilidade é que até o final desta década o crescimento mundial gravite em torno de 2%, algo como metade dos melhores anos da década passada. O despedaçamento do sistema de crédito e do funcionamento dos mercados em 2008 ainda produzirá muitas dificuldades para a recuperação dos países mais desenvolvidos. Com efeito : não se deve esperar que os ativos tenham valorização equivalente a dos patamares mais elevados dos anos 2000. A recuperação deve ser lenta e gradual. E sem a segurança de que a volatilidade seja razoável. Os tempos são melhores, mais promissores e ainda cheios de obstáculos. O começo da crise - I O caso brasileiro é oposto ao andamento do cenário no rico hemisfério norte. O Brasil passou rapidamente da condição de "queridinho" pelos analistas e investidores para a condição de "preocupante". Reduzidos os fatores de crescimento (aumento do consumo interno em função de salários e o efeito "China") o que fica evidente é que a tração do crescimento se reduziu para um patamar entre 0%-2%. Não há milagres possíveis em política econômica. Assim, o país continua omisso no que se refere às reformas necessárias à economia. Além disso, fatores estruturais como a péssima educação, o subdesenvolvimento tecnológico, os transportes, portos, etc. se juntam a uma tributação elevada e a uma taxa de câmbio que inviabiliza a competitividade externa. O governo Lula e Dilma tem a mesma agenda que adia as reformas e antecipa os ganhos e avanços sociais que produzem resultados eleitorais mais imediatos. A presidente Dilma acelera o intervencionismo governamental na atividade econômica e administra uma estranha coalizão política que soma oligarcas e movimentos sociais desprovidos de maiores ideais. O começo da crise - II A melhoria do cenário externo retira certos riscos que pairam sobre o Brasil, vindos de fora. Todavia, os riscos domésticos são substantivos e carecem de soluções políticas articuladas que não virão por duas razões básicas : (i) a presidente tem visão míope e bastante distinta da enorme parte da sociedade brasileira e lhe falta força política para agir depois da recente e vertiginosa queda de popularidade e (ii) as forças políticas estão paralisadas à espera da evolução do cenário para somente depois se posicionar. Neste segundo item estão incluídos os partidos de oposição, tão pobre de ideias quanto o governo. "Fatos novos" na política são necessários para que se mude o prognóstico para o país. O que se espera é que nos próximos meses fique mais evidente a queda da atividade e, com efeito, aumente o desemprego. Estes elementos devem tornar o governo ainda mais débil e mais combustível será dado à corrida eleitoral do ano que vem. Apostar na melhoria do cenário não será apenas um exercício para os mais otimistas. Será dos videntes que estão vendo muito além daquilo "que aí está". Leilões : hora de decisões  - I Começou a contagem regressiva para os leilões de concessões nas áreas de ferrovias, rodovias, portos, aeroportos e exploração de petróleo, boa parte deles marcada para ir ao ar ainda este ano, em negócios iniciais de mais de R$ 100 bilhões. Há um clima de alta tensão em Brasília por causa da chegada da hora das vendas, de apreensão, insegurança e medo. Para o Brasil, os leilões, por sua importância para a economia brasileira, de forma a dar uma empurrada num PIB vacilante e com sinais de que o limite de crescimento do país está muito baixo, é essencial. Mas para o governo Dilma e as pretensões presidenciais ele é tão essencial quanto : 1. Será a forma de Dilma começar a mudar o clima de desconfiança dos agentes econômicos e dar também uma injeção de ânimo na população. 2. O Palácio do Planalto e o Ministério da Fazenda contam com o dinheiro que entrará nos cofres pelas concessões ainda este ano para fechar as contas públicas e garantir o superávit primário de 2,3% do PIB prometido por Guido Mantega e do qual boa parte dos analistas duvida. Os R$ 15 bilhões do campo de Libra, do pré-sal, por exemplo, já estão somados nas previsões orçamentárias. Leilões : hora de decisões - II Há, no entanto, muitas incertezas quanto ao sucesso da maioria das concessões previstas para este ano. A única que parece segura, até agora, é a do campo de Libra. Mesmo assim, os prováveis candidatos estão pressionando para que algumas regras sejam mudadas. Nas outras, a insegurança é total, embora fontes não-identificadas de Brasília estejam alimentando a mídia com informações de que o número de interessados é grande e o entusiasmo deles é maior ainda. No mundo real, porém, ao que se sabe, há pressões para que as condições do leilão sejam mudadas, o negócio não é considerado pelos investidores assim tão atraente quanto o governo imagina. É claro que há o jogo natural das empresas para tentar levar mais vantagem, mas há também, como se sabe, a idiossincrasia de parte do governo com o que ele classifica como "lucro excessivo", que quer levar os candidatos às concessões. Vai ser uma queda de braço até que os leilões de fato se realizem. Já se fala, por exemplo, em novo adiamento do trem bala, agora sem nova data para acontecer. A decisão sobre isto deve sair esta semana. Sinal amarelo O sinal amarelo em relação às concessões piscou depois que, na semana passada, fracassou, por falta absoluta de concorrentes, o leilão para construção e exploração da linha 6 do metrô de SP. E olha que o governo paulista é muito mais aberto às concessões que o governo Federal. Debandada O banco norte-americano Goldman Sachs anunciou nesta segunda-feira, 5/8, que não mais irá recrutar 50 executivos para a sua agência brasileira. A justificativa é que o Brasil não parece tão atraente neste momento de fraqueza de crescimento. Nos últimos tempos, o GS perdeu três de seus principais executivos, dentre os 40 que saíram da instituição. Os bancos de investimento são bem ágeis para ajustar seus quadros às perspectivas do mercado. Mais política, menos marketing ? Depois do barulho das ruas, talvez assustado com o que muitos governistas classificam como um ruído de comunicação entre o governo e a sociedade, a Brasília oficial passou a espalhar que o governo passaria a fazer mais política e menos marketing nas suas conversas com a sociedade. A interpretação era de que a presidente Dilma estava fazendo tudo certo, apenas não transmitia bem o que fazia. Parece que não será bem assim. Segundo informações da capital Federal, a presidente Dilma está preparando-se para uma série de entrevistas exclusivas em programas de audiência de televisão de grande alcance popular, principalmente os que atingem as donas de casa. Anuncia-se também que está sendo preparado um calendário de inaugurações - seja de obras, seja de pedras fundamentais - pelo país para a presidente comparecer. De preferência em locais onde os governadores e os prefeitos amigos possam ajudar. Não é o que parece Não é isto, porém, que parece querer uma parte do PT, a julgar por este trecho do documento que o presidente nacional do partido, Rui Falcão, lançou para ser discutido pelos petistas como plataforma de sua candidatura à reeleição, em novembro : "O Partido que Muda o Brasil", que lançou Rui Falcão à reeleição, afirma : "Nossa comunicação não pode e não deve ser comandada pelos referenciais do marketing, mas pela perspectiva política que não se atém, apenas, às vitórias eleitorais e à sustentação da imagem partidária. Nossa comunicação deve ser capaz de dialogar, de modo permanente, com a sociedade por meio das redes sociais, da TV, do rádio, da web e de materiais impressos, o que supõe políticas e coordenação permanentes". É tudo muito simples : o problema do governo, no momento, é credibilidade. Confiança não se retoma com retórica apenas, o discurso e os números prometidos e anunciados têm de ter um pezinho no mundo real. Sem Dilma, no mato sem cachorro0 Não se pode dizer que o PT voltou a amar Dilma - pois nunca houve, de fato, um afeto profundo entre eles. Lá no passado, o partido não tinha Dilma como uma de suas opções para substituir Lula. Aceitou-a, como acata tudo e muito mais que vem do ex-presidente. Afeiçoou-se a ela depois que ela caiu nas graças da opinião pública. Agora, que a mesma opinião pública começou a tirar terra debaixo dos pés da presidente e de seu governo - o PT quis ser "independente". Foi devidamente enquadrado por Lula e pela própria Dilma, por atos e palavras. E percebeu que seu destino em 2014 e a permanência no poder em 2015 está atrelado ao dela. Enquadrou-se sem aos menos estrebuchar. O Congresso está de volta Com muita disposição e apetite os políticos voltam para o Planalto Central. Nessa hora é que mora o perigo. Para alguns deputados e senadores as promessas de ação são a melhor reza. Valha Deus a Dilma e ao Brasil ! A pesquisa do PMDB Deve ficar pronta esta semana uma pesquisa, com uma série de questões, que o PMDB está fazendo entre seus deputados, senadores e direções regionais para levantar a opinião do partido sobre as relações com o governo Dilma e outros temas. Uma das perguntas é sobre a manutenção ou não da aliança com o PT nas eleições presidenciais do ano que vem. Como é uma pesquisa interna e sem auditoria, pouco se saberá dela de fato. Mas é certo que cerca de 95% dos peemedebistas dirão que são favoráveis à manutenção da chapa Dilma Rousseff/Michel Temer. Podem acreditar. O Brasil no FMI Não deixa de ser ilustrativo que o representante do Brasil no FMI, indicado pelo ministro Guido Mantega, esteja fazendo do cargo o que bem entender. Ao votar, em nome do país e de outros tantos contra o empréstimo do Fundo à Grécia, Paulo Nogueira Batista Jr. alegou que as condições concedidas ao belo país mediterrâneo eram muito melhores que aquelas que prevaleceram em 1987 para o Brasil. Nogueira Batista Jr. era o negociador brasileiro naqueles sombrios tempos. Além da evidente maluquice de nosso representante ao votar sem considerar os interesses do país e de seus representados, há que se reconhecer que Guido Mantega não escapa da culpa in eligendo. O titular da Fazenda deveria usar o seu poder mágico que utiliza para fechar as contas públicas para fazer sumir Nogueira Batista Jr. das cercanias do prédio do FMI em Washington. Radar NA REAL 2/8/13   TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo Juros ¹ - Pré-fixados NA alta estável/alta - Pós-Fixados NA alta estável/alta Câmbio ² - EURO 1,3262 estável baixa - REAL 2,3014 baixa baixa Mercado Acionário - Ibovespa 48.744,04 baixa baixa - S&P 500 1.689,56 estável/alta alta - NASDAQ 3.613,16 estável/alta alta (1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais). (2) Em relação ao dólar norte-americano NA - Não aplicável
terça-feira, 30 de julho de 2013

Política e Economia NA REAL n° 255

Leitura política e econômica de uma entrevista - I A entrevista concedida pela presidente Dilma Rousseff à Folha de S.Paulo, publicada neste último domingo, é muito ilustrativa para o delineamento do provável rumo político e econômico do país nos próximos meses. De fato, a presidente confundiu convicções sobre princípios políticos com convicções sobre medidas políticas (e econômicas). Os primeiros dizem respeito à necessária visão republicana da política. Já as segundas dizem respeito à condução de certas políticas de governo. Ora, a confusão dos dois conceitos pela presidente resulta num quadro preocupante no qual se combinam diagnósticos errados sobre a condução do governo com soluções inadequadas. Vejamos algumas das conclusões extraídas da entrevista presidencial e os aspectos que devem prevalecer nos próximos meses nas decisões governamentais : 1. Inflação : não há grandes riscos para a alta dos preços. A meta de inflação é secundária na gestão da política monetária. Basta ver que FHC não a cumpriu quase sempre ; 2. Política fiscal : a execução fiscal não é problemática e não deve haver maiores contenções dos gastos públicos. Além disso, não vê a presidente risco fiscal devido à redução da atividade econômica ; 3. Câmbio : um problema incontornável, não há o que fazer, pois é fruto das intempéries externas ; 4. Guido Mantega : o homem certo no lugar certo suportado por uma lealdade canina do Planalto ; 5. Base aliada : será mantida, basicamente, às custas dos 39 ministérios e, nas demandas pós-manifestações juninas, precisa ser "submetida ao povo", via plebiscito ; 6. Ministros e ministérios : são auxiliares sem poder de decisão e cobrados na medida da capacidade e intensidade de trabalho da presidente ; 7. Empresários e setor privado : não são aliados, mas apenas a outra parte de um processo negocial ; 8. Lula : um copresidente com o qual as divergências são normais (e antigas, desde 2005 quando era ministra da Casa Civil). Assim sendo, não precisa voltar porque não saiu ; 9. Investimentos : precisam crescer e, para isto, na essência, dependem do impulso estatal. Os leilões e concessões que devem ocorrer no segundo semestre vão dar este impulso ; 10. Controle da mídia : a questão é controlar as empresas e não a opinião das empresas, mas ainda não se sabe como fazê-lo. Mas, será feito (um dia ?) Leitura política e econômica de uma entrevista - II A entrevista da presidente joga um balde d'água fria na expectativa de que existam substanciais alterações na política e na economia nos próximos meses. Isso dependerá muito mais da evolução dos fatos do que da percepção da presidente. Esta última parece obscurecida por uma mistura de arrogância pessoal combinada com teimosia e miopia política. Se houver mudança por força dos fatos, esta será feita contrariando o desejo e o humor da presidente e não como resultado do natural processo político de reavaliação pelo qual "mudam os fatos, mudo de opinião". Com efeito : a perda de legitimidade política do governo, fruto da queda de popularidade, tornará a política e a economia muito mais arriscadas em função da visão de Dilma. As notas a seguir mostram um pouco dos riscos à vista. Leram mesmo ? Se leram, não entenderam - I Tanto a presidente Dilma quanto o Congresso estão se vangloriando de ter lido com clareza e entendido perfeitamente os recados que os movimentos populares espalharam pelo país em julho. Não é o que parece, porém. O Congresso, depois de algumas medidas mais demagógicas do que reais, foi descansar em berço esplêndido, num recesso branco incompatível com a lei e suas obrigações. Os parlamentares não poderiam ter abandonado Brasília nos últimos 15 dias sem antes votarem a LDO. A volta tem tudo para repetir a rotina de sempre. Disputas com o Palácio do Planalto, pressões políticas, chantagens, vinganças (ver nota abaixo). Se a sociedade não ficar atenta, com manobras políticas para facilitar a vida eleitoral de todos no ano que vem. Leram mesmo ? Se leram, não entenderam - II A presidente Dilma, em pelo menos três ocasiões públicas na semana passada, também deu mostra que sua leitura dos acontecimentos foi um tanto "vesga" : (1) na recepção do Papa, de forma extemporânea (por ser uma propaganda explícita do governo numa sessão em que o personagem era outro) ; (2) no discurso na festa do PT em Salvador ; (3) na entrevista exclusiva à colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, domingo, sobre a qual comentamos nas notas anteriores. O extenso palavrório pode ser resumido : "está tudo bem com o Brasil, o que não estiver estamos prontos para consertar, atendemos o que as ruas pediram". Há controvérsias em relação a este otimismo. Ele está expresso na abrangente pesquisa realizada pelo Ibope por encomenda da Confederação Nacional da Indústria, divulgada na semana passada. Ela vai muito além da confirmação da queda vertiginosa da popularidade da presidente (com sobra também para boa parte dos governadores) e da avaliação de seu governo, o destaque a sondagem na maioria da mídia. É, na realidade, um retrato estatístico, com números contundentes, da insatisfação das ruas e seus porquês. Três constatações relevantes da Pesquisa CNI-Ibope 1. 91% dos entrevistados acham que os impostos são altos demais no Brasil. 2. 87% da população concordam total ou parcialmente com a afirmação de que "o governo já arrecada muito e não precisa aumentar mais os impostos para melhorar os serviços públicos". 3. As respostas dos governantes e do Congresso Nacional não foram vistas de maneira positiva pela população. Mais de 30% dos entrevistados reprovaram totalmente essas respostas. Vale a pena ler o excelente resumo dos pontos fulcrais da entrevista feito pelo jornalista Ricardo Noblat em seu blog (clique aqui). Com estes dados e as lições deixadas pelo papa Francisco por aqui, governo e oposições têm um roteiro seguro para agir e dar mais fé e confiança à sociedade. Ou agem nesta linha ou vão colher outros dissabores. Já está em pleno andamento a montagem de uma manifestação popular "como nunca antes vista neste país" para o feriado de 7 de setembro, o chamado Dia da Pátria. Uma semana de paz. E depois... - I Com o Congresso em recesso e o papa Francisco, com seus incômodos recados de volta a Roma, a presidente Dilma terá uma semana de relativo sossego, antes de mergulhar em alguns turbilhões previstos para perturbar sua paz em agosto e setembro. Em agosto, os embates serão com o Congresso, crônicas de crises anunciadas. Além das queixas mais recentes dos parlamentares, seus partidos aliados contra a condução da política de relações com o Congresso e da política econômica por Dilma, algo meio difuso, há um contencioso concreto para a presidente enfrentar no Legislativo - a questão de três vetos que ela apôs a propostas aprovadas na Câmara e no Senado, a saber : 1. Ao fim da multa adicional de 10% do FGTS dos trabalhadores demitidos por justa causa. 2. A obrigação do governo Federal ressarcir os Estados das perdas de receita referentes a benefícios fiscais concedidos pela União utilizando impostos partilhados (IPI e IR). 3. A prorrogação, até 2014, do Reintegra, programa de compensação a exportadores. Uma semana de paz. E depois... - II Derrubar vetos presidenciais era quase impossível até recentemente - poucos caíram nos últimos 20 anos. O Congresso chegou a acumular até recentemente mais três mil desses vetos sem votá-los. Recentemente, depois de trocas de farpas e acusações entre Executivo e Legislativo, por iniciativa do presidente do Senado, Renan Calheiros, criou-se uma nova sistemática para a votação dessa matéria : se o veto não for votado em 30 dias, ele passa a trancar a pauta do Congresso. Esqueceu-se (não totalmente o passado) e vai se tocar nova vida daqui para frente. Os vetos de julho de Dilma já entram nesta conta. E o ambiente entre a presidente, os parlamentares e seus partidos aliados - inclusive o PT - não está dos melhores. Além das velhas queixas, foi agravado nos últimos tempos pela perda de popularidade da presidente. Desde que Dilma - pelo menos neste momento - deixou de ser uma perspectiva absolutamente certa de poder a partir de 2015, seus parceiros ficaram mais críticos, mais exigentes e com maiores laivos de independência. Uma semana de paz. E depois... - III O quadro fica um pouco mais complicado quando se sabe que os vetos desagradaram a setores que sempre conseguem comover os parlamentares com suas queixas, a ver : 1. Reintegra e o fim da multa do FGTS irritaram o setor empresarial, de onde sai o grosso do dinheiro de campanha. 2. Ressarcimento de perdas com subsídios desgostaram prefeitos e governadores, de quem muito dependem deputados e senadores para se reelegerem. Como os congressistas estarão indo para Brasília depois de suas semanas de contatos mais diretos com as suas chamadas bases eleitorais, cuja insatisfação "com tudo que está aí" é mais que visível, sempre ficam mais críticos e mais assanhados ainda. Em tempo Parte dos vetos antigos, alguns ainda da gestão FHC foram anulados pelo Congresso. Mas para significativa deles, cerca de mil ainda está parada e pode ser colocada em votação dependendo de decisão da direção do Congresso e das pressões dos parlamentares. Alguns deles, como os vetos do Código Florestal e da nova lei dos royalties do petróleo, são "explosivos". De olho neles estão os aliados com sede de vingança, como a parte do PMDB que obedece à sinalização do líder do partido na Câmara, Eduardo Cunha. Com sede de vingança ou de compensações. A presidente Dilma nunca precisou tanto do amparo do jeitinho do presidente Lula para acalmar - ou engabelar - os partidos da base aliada. Lula, pelo que se sabe, vai deixar de lado nesse segundo semestre suas viagens ao exterior para "vender o Brasil" e se concentrar em ajudar a presidente Dilma a "domar" os aliados, espicaçar a oposição e reconquistar o coração da opinião pública. Teses eleitorais - I Já estão visíveis algumas das teses com as quais os consultores de Dilma pretendem recuperar o prestígio da presidente e reconquistar os votos que estariam sendo perdidos agora por ela na corrida de 2014 : 1. Os problemas brasileiros não são brasileiros, são internacionais. Nós somos vítimas da má condução da política econômica por outros países, principalmente os ricos. 2. A inflação de agora não é nada, inflação perigosa era a do tempo de FHC. Não dá para comparar uma com a outra e a oposição não tem autoridade moral para falar sobre esse assunto. 3. A insatisfação popular, que explodiu nos movimentos de junho, é consequência da política de inclusão social e de incentivo ao consumo do governo Lula, continuadas pela administração Dilma. Parece a história dos "recursos não contabilizados" do mensalão. Se colar, colou. Teses eleitorais - II Até agora, a oposição só tem um tema de campanha : falar mal do governo. Por mais que Dilma esteja tropeçando, é muito pouco. Não há perigo de colar. Teses eleitorais - III Por essas e outras, o que não é "político" [de política tradicional] está tão em alta nas pesquisas. Quanto menos identificado com a "política" dos políticos, mais prestígio. Sol quadrado Cálculo de quem conhece o humor político em Brasília e o novo humor do STF pós-movimentos de julho : alguns dos réus do mensalão começarão a ver, como se diz popularmente, o sol nascer quadrado ainda em setembro. Melhor depois Já se fala em adiar as eleições diretas para a presidência nacional do PT, marcadas inicialmente para novembro. O clima não está para disputas. Antes Lula vai ter de fazer um cuidadoso trabalho de psicanálise política nos companheiros. Línguas soltas - I Ministros e figuras de proa do governo já não sussurram apenas suas insatisfações - gritam. Ninguém faz mais questão de não ser visto falando mal um do outro. A intriga virou esporte predileto em Brasília. É um "salve-se quem puder" que não acaba mais. Línguas soltas - II Tucanos de boa plumagem voltaram a se bicar. Tudo depois que Dilma começou a perder popularidade e a possibilidade de disputar com chances a presidência da República começou a ficar possível e não apenas um sonho. Línguas soltas - III Livres de intrigas, até agora, estão Marina Silva e Eduardo Campos. Marina é soberana em seu território. Campos, com a queda da popularidade de Dilma, passou a ser visto com outros olhos por seus adversários dentro do PSB, mormente os irmãos Gomes. A última entrevista do "mercurial" Ciro, por exemplo, foi de uma agressividade e grosseria com Dilma como há muito não se via. Línguas soltas - IV Por via de todas as dúvidas, embora Joaquim Barbosa continue negando qualquer intenção de disputar o Palácio do Planalto em 2014, já estão devidamente providenciadas informações, vazadas sem fontes visíveis (o famoso "off") para desconstruir a imagem do presidente do STF. Os vazamentos têm dupla utilidade : queimar Barbosa junto à opinião pública e tentar conter seus ímpetos na segunda e decisiva fase de julgamento do mensalão. Pode ser um bumerangue. Radar NA REAL 26/7/13   TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo Juros ¹ - Pré-fixados NA alta estável/alta - Pós-Fixados NA alta estável/alta Câmbio ² - EURO 1,3246 estável baixa - REAL 2,2614 baixa baixa Mercado Acionário - Ibovespa 49.422,05 baixa baixa - S&P 500 1.691,65 estável/alta alta - NASDAQ 3.613,16 estável/alta alta (1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais). (2) Em relação ao dólar norte-americano NA - Não aplicável ___________
terça-feira, 23 de julho de 2013

Política e Economia NA REAL n° 254

Só se Dilma demitir Dilma - I São cada vez maiores os pedidos indiretos e insinuações para que Dilma faça trocas em seu ministério. O próprio PT é um dos mais queixosos e, segundo informações correntes em Brasília, até Lula teria "aconselhado" Dilma a fazer as alterações. Os alvos seriam a equipe econômica, com foco no ministro da Fazenda, Guido Mantega, a turma da coordenação política - leia-se Ideli Salvatti e Gleisi Hoffman - e a área de comunicação (lembrar que Franklin Martins, que foi o grande nome de Lula neste segmento, está agora muito presente no Palácio do Planalto). Só se Dilma demitir Dilma - II Dilma, porém, na mais que otimista peroração para os empresários e sindicalistas reunidos no Conselhão - Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social - deu a indicação das razões que justificam sua insistência em ficar com esta equipe que não agrada nem a gregos nem a cearenses. Foi quando ela disse (a citação não é literal) que quem comanda a economia brasileira não mora na Esplanada dos Ministérios, tem residência no terceiro andar do Palácio do Planalto. A afirmação vale para toda a equipe governamental, do primeiro escalão ao contínuo do gabinete mais distante do mais obscuro ministério. É conhecido - e até pouco tempo louvado por muitos aliados - o estilo centralizador e autoritário da presidente. Com certa dose de humor se diz que nem um clips se compra em Brasília sem que ela saiba. Ora, sendo assim, só se Dilma demitir esta Dilma que governou até agora para que haja realmente alterações no modo de ser e de trabalhar de sua gestão. Depende de quem fala Na sua posse no Ministério da Educação, o hoje onipresente Aloizio Mercadante, louvou publicamente o estilo Dilma de "espancar projetos", ou seja, de descer aos menores detalhes de tudo, de não deixar passar nada. Para alguns, isto é virtude. Para outros, pelo excesso, paralisa o governo. Alguém está destoando - I Nesse mundo oficial do "sim senhora" quem está destoando é o BC. A ata da última reunião do Copom está na direção contrária ao otimismo presidencial, divulgada no mesmo dia em que a presidente garantia à turma do "Conselhão" que nem a inflação nem as contas públicas estão desajustadas. No seu linguajar um tanto peculiar - "bancocentralês" - a autoridade monetária diz com todas as letras que a inflação ainda está assanhada e que a política fiscal é expansionista, eufemismo para dizer que o governo está gastando mais do que devia. Posições que foram confirmadas, também com todos os "esses", "erres" e "ipsolenes" em entrevista esclarecedora do presidente da instituição, Alexandre Tombini, ao jornal "O Estado de S. Paulo" de domingo. Alguém está destoando - II Tombini repete o principal recado da ata : se não recuperar a confiança da população e das empresas na condução da economia, o risco de a economia brasileira continuar crescendo vegetativamente ainda por um bom tempo é elevado. O BC dá indicações de que ele está visivelmente se esforçando para recuperar a sua própria imagem no mercado financeiro, depois de um bom tempo visto como excessivamente submisso aos desejos do Palácio do Planalto e do Ministério da Fazenda. A "escolha de Sofia" do BC As contradições da política econômica, sobretudo as engendradas no Palácio do Planalto e no Ministério da Fazenda, este último que não tem a menor visão estratégica, tornaram o BC refém de uma escolha que não precisava ser feita. A alta dos juros apenas ocorre em função da política fiscal excessivamente expansionista quando a política monetária também o era. Fosse diferente, o BC poderia ter ficado quieto, pois que a fraqueza econômica não recomenda elevação dos juros. A inapetência de Guido Mantega e seus asseclas, todos comandados pelo Planalto, para fazer verdadeira política econômica, fez com que a escolha do BC, no que tange à política monetária, recaísse sobre o combate à inflação. Ainda o BC terá de cuidar de uma demanda crescente por dólares norte-americanos, por aqui e lá fora, a qual elevará ainda mais a inflação. Assim sendo, a aposta de que o PIB possa crescer ao redor de 1% passou de possibilidade remota para algo bastante factível. Recomendações da hora Permanecemos com a nossa recomendação de venda de ações (Índice Bovespa) e compra de moedas estrangeiras. O investidor não deve sossegar enquanto mantiver posições indesejáveis no mercado acionário. Melhor um prejuízo agora que um maior mais à frente. "Política de campeões" e o "X" da questão Daria uma tese de pós-doutorado a descrição e compreensão da política do BNDES, relativamente às suas escolhas de campeões da área industrial. Num mundo que se mexe com base nos chips e na alta tecnologia, a alta cúpula do BNDES se esforça para financiar frigoríficos de carne bovina e de aves, a "velha" indústria automobilística (e de auto-peças) e outros setores básicos desde os anos 70 do século passado. O país não tem escolas, professores, hospitais e médicos, mas pode se gabar dos frigoríficos cujos acionistas gostam de transitar pelos céus com seus jatos lotados de políticos. Não bastassem as tantas dúvidas em relação ao tema, há, ainda, o caso Eike Batista a ser clarificado. Como pode um empresário, de quem até os analistas de investimento novatos já tinham desconfiança em seus projetos, receber dinheiro público ? Chega a ser imoral, do ponto de vista do interesse público, que o BNDES seja vítima de ideias duvidosas de seu presidente Luciano Coutinho e demais diretores. Enquanto isso o Congresso repousa em berço esplêndido. Perguntinhas incômodas E a CPI da Petrobras, temida por poucos dias, onde foi parar ? Na gaveta de quem ? Ou será que os negócios internacionais da empresa não mais incomodam ? Confronto e conciliação - I Em pouco mais de um mês, coincidindo com as manifestações da rua que deixaram atarantados o Palácio do Planalto e o mundo político de um modo geral, Dilma conseguiu criar uma série de atritos políticos que em nada vão contribuir para tirá-la da situação de quase isolamento em que se encontra. Pode ser que ela até tenha razão em algumas das decisões que tomou e acabaram irritando este ou aquele segmento político, econômico e social. Porém, fiel a seu estilo de não ouvir mesmo quando parece estar ouvindo, acabou comprando brigas perigosas : 1. Com o Congresso Nacional quando, com pouca sutileza, quis jogar nas costas do parlamento a responsabilidade maior pela insatisfação nas ruas. 2. Com o PMDB, pelas mesmas razões, pois é dele o comando das duas casas legislativas Federais. Confronto e conciliação - II Nos dois casos, o troco já está aparecendo e a situação pode piorar quando o Congresso voltar do "recesso branco". 1. Com o seu próprio partido, o PT. A ausência da presidente na reunião da executiva nacional sábado foi engolida a seco, não foi digerida. Os dirigentes petistas tiveram de fazer extraordinários malabarismos para o caldo não entornar, mas a panela está cheia. 2. Com os médicos ao não consultá-los de fato para as mudanças substanciais de que está propondo na política nacional de saúde. É uma classe unida e muito afeita à política no dia a dia. Mais de 50 deputados Federais são médicos de origem. O preço político que ela vai pagar vai ser alto. 3. Com os governadores e suas bancadas, ao vetar, também sem consultas e afagos, o artigo da nova lei do Fundo de Participação dos Estados que determinava que o governo Federal ressarcisse aos Estados toda vez que fizesse uma desoneração tributária com base no IPI. Por tabela, os municípios também sairiam ganhando com isso. Confronto e conciliação - III Estas são apenas algumas amostras dos contenciosos políticos mais recentes que Dilma construiu para ela por livre e espontânea vontade. A realidade é que Dilma, ao contrário de seu habilidoso antecessor e protetor, o ex-presidente Lula, é mais do confronto que da conciliação. É mais da imposição que da consulta e da conversa. E, com exceções, está cercada de conselheiros da mesma estirpe e sem a correspondente competência. Dilma, seguindo, segundo fontes brasilienses, conselhos de Lula, tem feito esforços para mudar. Os exemplos desses esforços seriam a série de reuniões que ela tem feito. Mas nelas, ainda mais fala do que ouve. Com os governadores e prefeitos para lançar o pacto foi assim, no Conselhão também. Não é de estranhar, portanto, que cada vez mais tantos estejam com tantas saudades de Lula. Com amigos assim... PT e PMDB parecem estar numa acirrada disputa - na surdina, evidentemente - para ver quem tem mais queixas da presidente Dilma. O que eles - e todos os partidos aliados - precisam perceber é que o isolamento da presidente não faz bem a nenhum deles. E muito menos ao país. Pressionar para que haja mudanças de rumo no governo é legítimo - e dado o que está aí, correto. Esticar a corda demais é loucura. Brincadeira de mau gosto Não é para levar a sério a sugestão do presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, de reduzir o número de ministérios de Dilma de 39 para 25. Menos ainda a PEC do líder do PMDB na Câmara, de estabelecer em 20 o número máximo de ministérios permitidos a um governo. São apenas lances do peemedebismo para deixar a presidente contra a parede. Recado internacional A leitura, com atenção, do segundo comentário de Lula para o site do "The New York Times" aponta para recados nada sutis para Dilma. Sem dizer, Lula dá ecos às insatisfações do PT e de aliados com o governo. Lições das últimas pesquisas Após três sondagens de opinião, por três institutos diferentes, com metodologias distintas, em períodos alternados (logo após os movimentos de junho) e cerca de 30 dias depois, já dá para consolidar algumas tendências na corrida eleitoral : 1. A perda de substância reeleitoral da presidente Dilma é mais profunda do que gostariam seus aliados e sua recuperação, a ponto de torná-la, como antes, uma candidata quase imbatível, embora não impossível, ficou mais complicada e demorada. 2. A melhor leitura das sondagens aponta para uma confirmação do que a "voz rouca das ruas" já apontava : uma forte rejeição de "tudo que está aí", seja do modo de governar, seja do parlamento, seja dos partidos, seja da política tradicional. Em tradução : a sucessão presidencial é agora uma obra em aberto. Lições para a oposição O crescimento de Marina Silva, que não é identificada pela população como uma política tradicional, enquanto Aécio Neves patina e Eduardo Campos mantém índices de intenção de votos pouco competitivos, é um recado claro para a oposição, assim como está sendo para Dilma e os seus : os oposicionistas também não têm o discurso - as propostas de soluções para os problemas nacionais - que a sociedade espera. Uma lição para todos Do líder comunista italiano Enrico Berlinguer, um dos "pais" do eurocomunismo, citado pelo jornalista Sandro Vaia em sua excelente biografia do líder comunista brasileiro "Armênio Guedes" : "Sereno Guerreiro da Liberdade" : "Os partidos de hoje são, sobretudo, máquinas de poder e clientela : pequena ou mistificada consciência da vida e dos problemas da sociedade, das pessoas; poucas ou vagas idéias, programas; sentimentos ou paixão civil, zero. Os partidos ocuparam o Estado e todas as suas instituições, a partir do governo. Ocuparam as instituições locais, os institutos de previdência, os bancos, as empresas públicas, os institutos culturais, os hospitais, as universidades". Qualquer semelhança com o Brasil de agora não é mera coincidência. Radar NA REAL 19/7/13   TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo Juros ¹ - Pré-fixados NA alta estável/alta - Pós-Fixados NA alta estável/alta Câmbio ² - EURO 1,3193 estável baixa - REAL 2,2354 baixa baixa Mercado Acionário - Ibovespa 47.400,23 baixa baixa - S&P 500 1.6892,09 estável/alta alta - NASDAQ 3.587,40 estável/alta alta (1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais). (2) Em relação ao dólar norte-americano NA - Não aplicável
terça-feira, 16 de julho de 2013

Política e Economia NA REAL n° 253

Em busca da legitimidade perdida - 1 Como se sabe a legitimidade política de um governo ou de um líder não se confunde com a legitimidade formal. Factualmente, o conflito entre as duas formas de aquisição de legitimidade diminui a previsibilidade, fator essencial à calma política e aos negócios prósperos. A existência de mandato fixo presidencial torna esta questão ainda mais complexa. No parlamentarismo, a perda de legitimidade política normalmente não convive com a mera permanência da formal. Não existindo no presidencialismo a saída da "queda do gabinete" a crise tende a prosperar por mais tempo e depende ainda mais da liderança política presidencial para recuperar sua legitimidade. O presidente precisa encontrar e promover perante o corpo social o "fato novo" para tornar a sua legitimidade política novamente associada à formal, seu mandato legal. Caso contrário, o líder e seu governo perdem a capacidade de engendrar novas (e positivas) expectativas, estas que na política só florescem depois de criados os fatos (e não o contrário, como ocorre no caso dos agentes econômicos que agem em função das expectativas). Em busca da legitimidade perdida - 2 O momento político brasileiro é especialmente "perigoso". Não que se vislumbre uma ruptura institucional, muito embora o "amadurecimento democrático e institucional" do país seja bem menor que aquele apregoado pelos "formadores de opinião". O que estamos a discutir é a elevada probabilidade de que o governo Dilma Rousseff se veja enquadrado na categoria de "morto-vivo", incapaz de produzir fatos e expectativas tão necessários à sociedade, em geral, e à economia em particular. Alguns dos sintomas são preocupantes e estão a se agigantar : (i) a falta de sintonia enorme entre o sentimento das elites políticas e o do cidadão que trabalha e paga impostos. Os episódios de uso ilegal ou imoral (ou ambos) de aeronaves pelos presidentes do Senado e da Câmara são o retrato exemplificativo da ausência de sintonia entre eleitos e eleitores, quiçá seja, até mesmo, pouco caso com a opinião pública; (ii) a credibilidade das instituições está obscurecida pelos seus representantes. Exemplo disso é o espaço excessivo que ocupa o presidente do STF e o espaço diminuto ocupado pela classe política no seu conjunto. Além da pálida figura que se tornou a presidente da República, os sindicatos, as associações de classe e por aí vai; (iii) a deterioração das expectativas econômicas : pela nona semana seguida "o tal do mercado" aponta para queda da atividade e inflação alta (ainda que não seja mais crescente), baixo nível de investimentos, apenas para citar alguns exemplos. Em busca da legitimidade perdida - 3 Em meio a este cenário, a presidente se acanha. Mostra-se, pelo menos por enquanto, cerceada de problemas sem trabalhar nas soluções. Ademais, seus conselheiros contribuem para jogá-la em mais ares turbulentos (algo detestado pela presidente quando no seu avião). Vejamos. Aloizio Mercadante, ministro de múltiplas funções, conhecido no Congresso pela imagem antipática e arrogante, lança ideias ("fatos novos") necessitadas de robusta articulação política e naufraga com elas sem conhecer alto mar e em poucas horas ou dias. Michel Temer, o vice-presidente poeta e político (como Sarney foi um dia), mais parece empenhado em desarticular o governo e pegar a bússola política para saber qual é o próximo lance que desfechará para se manter bem no retrato - será uma espécie de "síndrome de Dorian Gray" na política ?; Consta do habitual bate-papo congressual com a imprensa que Guido Mantega ambiciona ser mais longevo no cargo que alguns antecessores (Malan e Delfim). Não se sabe se é verdade. Todavia, sua política é que não pode ser longeva, por uma razão simples : simplesmente é incapaz de manter em ordem as coisas ordinárias (contas públicas, inflação, etc.) e nos eventos extraordinários é simplesmente incapaz politicamente, em parte pela própria postura "ministerial" da presidente que tudo quer saber e nada delega. Como se vê, o palco parece pouco ofertado de atores para uma boa cena. Em busca da legitimidade perdida - 4 A partir da análise das variáveis acima relacionadas, o que se vê é um cenário que nos leva a concluir que não é vasto o "espaço político" para se alterar as tendências estruturais da política e da economia. Nessa ordem diga-se, mesmo porque na economia não há nenhum problema que seja implacável para suscitar as piores expectativas - o que falta mesmo é competência para começar a trabalhar na direção correta, apesar de seus prováveis resultados serem colhidos apenas no próximo mandato presidencial. Mas... a política... bem... Esta nos joga num vazio que carcome a legitimidade, torna incerta a coalizão de apoio ao atual governo, resgata velhos atores (Lula e FHC) e não serve sequer à pálida oposição (sem projeto e sem credibilidade). Restará, ao que parece, a expectativa sobre os próximos fatos sociais, estes que simplesmente não sabemos quais serão. Vejamos as notas a seguir para verificarmos se não é esse mesmo o vento que sopra. De terrorismo e terroristas Da presidente Dilma Rousseff em discurso no complexo da Rocinha, RJ, no dia 14 de junho : "Críticas, todo mundo tem de ter a humildade de aceitar. Agora, terrorismo, não. Fazer estardalhaço e terrorismo informativo sobre a situação do Brasil, não". E agora, depois do IBC-Br de menos 1,4% (espécie de prévia do PIB) de maio, Dilma vai acusar o BC de terrorismo ? O "novo" sindicalismo em concordata - 1 É desses paradoxos que nem a política explica e que a razão desconhece : depois do fiasco (pela grandiosa adesão esperada pelos organizadores) do Dia Nacional de Luta, quinta-feira passada, percebe-se que o novo sindicalismo brasileiro, batizado de autêntico, nascido com Lula e os movimentos no ABC paulista em fins dos anos 1970, está a morrer, vítima do lulismo. É inegável que a CUT, Força Sindical, CGT e outras centrais sindicais menos votadas, mais "companhias belas" como UNE e MST, esperavam levar às ruas no dia 11 multidões bem maiores que as cerca de 100 mil pessoas que a elas compareceram pelo Brasil inteiro. Sem organização visível, sem estrutura, sem líderes tarimbados, sem carros de som e microfones, os "indignados" brasileiros de junho reuniram um milhão e meio de cidadãos também numa quinta-feira, semanas atrás. O "novo" sindicalismo em concordata - 2 Falharam os pentecostais do trabalhismo oficial e seus penduricalhos basicamente por três razões : 1. Afastaram-se de suas bases, imantados que foram por verbas oficiais do imposto sindical e de financiamento às organizações "não-governamentais 'governamentais'" que começaram a recolher milhões nos últimos anos, graças às generosidades brasilienses. Perderam garra. O MST é a melhor prova disso. 2. Estão com um discurso defasado, antiquado para uma sociedade que mudou muito, política e socialmente, no último caso em boa parte graças às políticas de renda do lulismo. 3. Tornaram-se extremamente semelhantes aos partidos políticos aos quais indiretamente estão ligadas. Neopeleguistas, se quiserem sobreviver só lhes resta se reinventarem, assim como Lula inventou o sindicalismo moderno brasileiro mais de 30 anos atrás. Leia mais em "Vocês não estão agradando" - José Márcio Mendonça - (Clique aqui) Ilusão à toa Na surdina, mas não de todo modo disfarçado, Dilma, Lula e o PT namoram com o Dia Nacional de Luta. Cada um a seu modo, imaginava utilizar o que se pensava ser uma demonstração de força e liderança do sindicalismo oficial organizado, para retomar o "controle" das ruas e colocar o Congresso Nacional na defensiva, livrando-se da parte que cabe a eles no latifúndio das cobranças que explodiram nas "revoltas de junho". Foi sonho de uma noite de inverno. Padrões mentais do passado Nada soa mais antiquado e irrealista do que interpretar a "revolta de junho" pelas velhas categorias da análise política, a chamada "esquerda versus direita". Lula chegou até a instar os movimentos sociais a não deixarem as ruas para a "direita". Se a interpretação for só um discurso para embalar "militantes", nada demais. O problema é se o julgamento for mesmo uma convicção : pode levar a reações e respostas equivocadas. Afinal, Lula, entre outras coisas, é o conselheiro-mor do Palácio do Planalto para qualquer assunto. Frouxos de riso Definitivamente, o fracasso subiu à cabeça das centrais sindicais depois das ruas quase às moscas na quinta-feira passada. Elas agora estão ameaçando com uma "greve geral", inicialmente no dia 30 de agosto, se a presidente Dilma Rousseff e o Congresso Nacional não atenderem as reivindicações delas até esta data. Como diria Eça de Queirós depois da demonstração de liderança e capacidade de aglutinação de trabalhadores das centrais (e de seus penduricalhos e patrocinadores), o Palácio do Palácio deve estar "frouxo de riso". Gangorra no Planalto Central Em tempos de desarranjo político como os que vivem agora o governo Dilma Rousseff, os partidos da base aliada e o Congresso Nacional, o primeiro esporte nacional é especular sobre uma possível reforma ministerial e sobre o balanceamento do poder na República, quem está prestigiado (de fato) e quem perde pontos. Estas são algumas cotações de momento no Planalto Central, a primeira coluna indicando quem caiu e a segunda indicando quem está subindo ou pode subir, segundo a percepção das raposas Federais do mundo político - ninguém como elas sabem que gabinetes frequentar : - 38 ministros - Aloizio Mercadante - Ideli Salvatti - qualquer político que não seja de oposição - Michel Temer - Michel Temer - Dilma Rousseff - Lula - Bernardo Figueiredo - Arno Agustín - PT - PMDB - João Santana - Franklin Martins - Guido Mantega - enorme espaço em aberto Isto não significa que os em baixa no momento serão substituídos em algum momento, como quer uma parte dos aliados com Lula em relação a Dilma. Nem mesmo que haja agora uma reforma ministerial, como alguns acreditam que poderá ocorrer até o fim do mês. Significa apenas que as panelas de fritura em Brasília estão ligadas em fogo alto e sem óleo. Dilma e seus amigos O presidente licenciado (e de fato) do PMDB, o vice-presidente Michel Temer está submetendo os deputados do partido em Brasília a um extenso questionário para medir a temperatura de turma em suas relações com o governo Dilma e os aliados, principalmente com o mais estridente deles, o PT. No rol das questões há uma intrigante para quem se diz aliado preferencial da presidente e aspira manter a coligação e o cargo de vice na recandidatura no ano que vem : "Você apoiaria a reedição da chapa Dilma-Temer para a eleição presidencial de 2014?". Num diapasão não muito diferente, o presidente nacional do PT, Rui Falcão, do grupo do presidente Lula na legenda e em busca da reeleição para o comando partidário, em entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo" deixou escapar uma dúvida inusitada para o encarregado de organizar os palanques da presidente no ano que vem : "Ninguém sabe hoje quem apoiará Dilma em 2014". Em Brasília, os ouvidos mais atentos já registram o som de petistas de renome se referindo ao "governo Dilma" e não mais ao "nosso governo", como orgulhosamente denominavam a gestão da presidente até pouco tempo atrás. Vale a velha boutade : com amigos assim, Dilma não precisa de adversários na oposição. Leia mais em "As vozes roucas do lulismo" - José Márcio Mendonça - (Clique aqui) Os tropeços da oposição Nem só Dilma Rousseff em sua cruzada pelas urnas de 2014 está às voltas com os "muy amigos" que vicejam a seu lado. Os adversários também. 1. Eduardo Campos, apesar de todo o esforço, ainda não conseguiu sensibilizar os irmãos Gomes, os governadores da legenda e nem mesmo o vice-presidente do PSB para sua candidatura. No máximo, com a queda da popularidade da presidente Dilma Rousseff alcançou uma trégua. 2. Aécio Neves viu ressuscitar o fantasma da candidatura José Serra, com aparelhos respiratórios ligados depois que uma pesquisa divulgada dias atrás apontou que o ex-governador paulista tem melhores índices de intenção de votos que o ex-governador e senador mineiro. 3. Marina Silva, se não está com nenhum inimigo dentro de casa desde que desistiu do Partido Verde ainda não conseguiu organizar alianças que lhe garantam um tempo maior na propaganda eleitoral obrigatória no rádio e na televisão. E olha que o problema mais grave da oposição não é nem mesmo essas divergências. O pior mesmo é a falta de ideias novas, práticas verdadeiramente factíveis, para enfrentar as dificuldades atuais do país. Se tem algo, além das críticas óbvias, estão escondendo tão bem que ninguém percebe. Assim, Dilma está ganhando tempo para tourear seus próprios demônios. EUA aumentam a tração, Brasil perde No Brasil, com as ruas mais quietas e com o BC agindo para conter a alta dos preços (também contida pela queda da atividade durante os protestos), os investidores ficaram mais calmos. Volatilidade em queda, preços dos ativos em alta. No cenário internacional dois são os destaques : (i) do lado positivo, os EUA persistem com indicadores cada vez mais positivos, mostrando que a atividade econômica sobe consistente e significativamente. Os resultados corporativos do segundo trimestre do ano estão aderentes aos indicadores macroeconômicos ascendentes, o que reforça a visão otimista para o mercado acionário daquele país; (ii) já a China transpira que a atividade econômica vai cair ainda mais e não está claro se este cenário estrutural levará a um crescimento inferior a 5%-6%. Como se sabe, o Brasil, com seu comércio de US$ 40 bilhões com a China, torce para que a queda da atividade econômica chinesa seja apenas pontual e nada intensa. Nesse momento em que o crescimento doméstico naufraga por conta da crise política e pela inércia governamental, o Brasil poderia, ao menos, contar com uma China mais comportada. Em momentos de otimismo fixe o olhar nas tendências Como temos seguidamente informado aos nossos leitores permanecemos negativos em relação à economia brasileira e ao desempenho dos principais segmentos do mercado financeiro. De um modo geral, acreditamos que o mercado acionário permanece caro e sem perspectivas positivas no curto prazo. O destino dos investidores é o mercado norte-americano. De outro lado, a taxa de juros básica deve subir mais um pouco, mas não será capaz de debelar a taxa de inflação elevada (ao redor de 6% para este ano), apesar da fragilidade da atividade econômica - acreditamos num PIB mais para 1% que para 2% neste ano. A vedete do mercado financeiro deve ser a moeda norte-americana, claramente em tendência de alta e carregando benefícios (exportações) e malefícios (inflação). Neste cenário, obviamente haverá momentos de otimismo : assim ocorrendo é hora de se desfazer de posições ruins e não alinhadas com as tendências estruturais. A pior coisa que pode ocorrer é permanecer "torcendo" para que a tendência daquele segmento de mercado reverta a favor da posição de investimento. Torcida é bom no campo de futebol e não no mercado financeiro. Radar NA REAL 12/7/13   TENDÊNCIA SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo Juros ¹ - Pré-fixados NA alta estável/alta - Pós-Fixados NA alta estável/alta Câmbio ² - EURO 1,3068 estável baixa - REAL 2,2257 baixa baixa Mercado Acionário - Ibovespa 45.533,24 baixa baixa - S&P 500 1.680,19 estável/alta alta - NASDAQ 3.600,08 estável/alta alta (1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais). (2) Em relação ao dólar norte-americano NA - Não aplicável ___________