O Atlântico partido e o mundo sem fiador
terça-feira, 24 de março de 2026
Atualizado em 23 de março de 2026 09:59
A grande novidade do nosso tempo não está apenas na ascensão de novos polos de poder, mas no fato de que a potência que organizou a ordem do pós-guerra parece hoje inclinada a relativizar o valor político da própria ordem que construiu. Durante décadas, a denominada Pax Americana foi menos um ideal moral1, apesar de toda a ideologia em torno do tema, e muito mais um sistema de previsibilidade nas relações internacionais. Os Estados Unidos não apenas detinham superioridade material como as "normas" do poder estratégico do Ocidente. O que agora se vê é algo mais grave do que seria uma inflexão diplomática: trata-se da corrosão do elemento fiduciário das alianças, isto é, da confiança de que Washington continuará a agir como fiador estável de compromissos, riscos e custos comuns2.
Essa mutação não é apenas interpretativa (pelos outros atores do processo), mas foi expressamente formulada pelo próprio governo norte-americano (sob Trump em segundo mandato). A "Estratégia de Segurança Nacional"3 de 2025 afirma, com notável franqueza, que a política externa deve servir unicamente à proteção dos "interesses nacionais centrais", critica o globalismo4, denuncia o peso das instituições internacionais e sustenta que aliados e parceiros transferiram para o povo americano os custos de sua própria defesa. Ao fazê-lo, o documento abandona a linguagem clássica da liderança sistêmica e substitui a noção de ordem compartilhada por uma lógica de barganha, hierarquia e utilidade imediata.
A atual guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã é, talvez, a representação mais eloquente dessa ruptura. O conflito, iniciado em 28/2/26, desde então expôs, de forma quase laboratorial, a desagregação da confiança atlântica. Washington pediu o apoio de aliados para operações ligadas ao Estreito de Ormuz e as principais capitais europeias recusaram-se a aderir. A chefe da diplomacia europeia, a estoniana Kaja Kallas, afirmou que os europeus não foram consultados antes do início da guerra e que muitos, ao contrário, tentaram dissuadir os Estados Unidos e Israel. O chanceler alemão Friedrich Merz e outros líderes europeus resumiram o sentimento continental com uma fórmula dura, porém reveladora: "esta não é a nossa guerra".
Mais do que um episódio regional, a guerra do Irã tornou-se o espelho da nova ordem em formação. O ataque ao campo de gás de South Pars, a represália iraniana contra instalações energéticas no Golfo e a pressão americana para que terceiros arquem com os custos da segurança marítima revelam a passagem de uma "hegemonia ordenadora" para uma "hegemonia transacional", menos disposta a consultar (aliados) e mais pronta a exigir (de qualquer Estado).
A analogia histórica mais útil, embora remota, talvez seja a do Congresso de Viena de 1815. Depois das guerras napoleônicas, as grandes potências procuraram reconstruir a estabilidade europeia com base em equilíbrio, contenção e administração prudente das rivalidades. Metternich5 compreendeu que a ordem internacional não se sustenta apenas pela força: ela precisa de forma, ritual, hierarquia reconhecível e uma percepção mínima de legitimidade entre os seus operadores. Viena reorganizou a Europa e inaugurou um concerto relativamente estável, ainda que incapaz de absorver plenamente as novas energias nacionais e sociais que amadureciam sob a superfície e que se manifestariam mais tarde, entre 1815 e 1914 (quando se iniciou a I Guerra Mundial), por meio de guerras sangrentas, mesmo que geopoliticamente mais limitadas6.
O ex-secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger (1923-2023), talvez o mais influente pensador e elaborador das relações internacionais no século XX, regressou a essa lição em obras decisivas como A World Restored (1957) e Diplomacy (1994). Seu ponto central era que a estabilidade internacional nasce do encontro entre equilíbrio de poder e legitimidade percebida. Quando um sistema conserva força sem legitimidade, ele endurece. Quando conserva legitimidade sem força, ele se dissolve. A relevância de Kissinger, ainda hoje, reside precisamente em haver recusado tanto o moralismo abstrato quanto o realismo intelectualmente vazio. Como assinala o Kissinger Center da Universidade Johns Hopkins7, a orientação intelectual do ex-Secretário de Estado dos EUA, insistia em história, prudência, compreensão do adversário e recusa de simplificações ideológicas. Algo bem diferente do que se vê no momento.
Há uma diferença conceitual e decisiva entre 1815 e o presente. O Congresso de Viena foi uma tentativa de recompor a ordem depois de uma exaustão geral fruto das guerras napoleônicas que não lograram a pretendida ruptura daquele status quo. Já o momento atual está inserido numa dinâmica de fragmentação no interior da própria ordem internacional ainda em funcionamento. Não se trata de uma potência derrotada que aceita limites (como foi a França em 1815), mas da maior potência central do capitalismo que começa a tratar seus vínculos históricos como ônus negociáveis – uso esse termo para me referir à visão atual dos EUA de que os seus aliados são um ônus para a grande potência e, assim, passíveis de sofrerem sancionamentos de várias espécies. É isso que abre espaço para ganhos estratégicos e geopolíticos da China e da Rússia. Moscou se beneficia de uma Europa mais inquieta, mais dependente de rearmamento e mais vulnerável a choques energéticos o que lhe facilita a expansão de sua influência ou domínio do leste europeu – o que seria uma construção torta do Império Soviético. Pequim observa uma coalizão ocidental menos coesa justamente quando a competição tecnológica, industrial e naval se intensifica. Assim, poderá atuar no centro e nas franjas dos aliados históricos dos EUA. Robert Kagan8 advertiu, com razão, que quando o jardineiro abandona o jardim, a selva volta a crescer. A leitura recente da Chatham House9 converge com esse diagnóstico ao sustentar que a volatilidade americana empurra os demais atores para estratégias de hedging e autonomia defensiva.
A consequência mais tangível dessa fragmentação será o aumento persistente do custo militar no mundo. A Comissão Europeia reconheceu, em seu White Paper for European Defence – Readiness 203010, que a ordem surgida em 1945 foi severamente abalada e que os aliados tradicionais, como os Estados Unidos, estão deslocando seu foco para outras regiões mais rapidamente do que muitos antecipavam. O Sipri11registrou que o gasto militar global alcançou US$ 2,7 trilhões em 2024, o maior nível já medido, com alta real de 9,4%, enquanto o Munich Security Report de 2025 descreve o momento como de "multipolarização" da ordem internacional. Em outras palavras: a incerteza estratégica já está sendo convertida em orçamento, indústria, doutrina e dissuasão. Dinheiro movendo estratégia por causa da alteração da política estadunidense.
Esse processo se torna ainda mais grave porque a própria sociedade norte-americana já não sustenta, com a mesma densidade de convicção, o papel internacional que o país desempenhou no pós-guerra. O Chicago Council12 mostrou, em 2025, que 60% dos americanos ainda apoiam um papel ativo dos Estados Unidos no mundo, mas o país está profundamente dividido quanto aos custos, aos recursos disponíveis e ao sentido de sua liderança. Ao mesmo tempo, pesquisa do Pew Research Center13 revelou algo politicamente perturbador: em países como o Brasil, os Estados Unidos aparecem simultaneamente como aliado e ameaça. Quando a potência central passa a ser percebida sob esse duplo signo, a erosão da autoridade torna-se tão importante quanto a erosão do poder. Interessante lembrar que essa pesquisa foi feita antes da atual guerra Israel – EUA – Irã.
É nesse contexto que o Brasil precisa reelaborar a sua política externa. A mudança em curso não parece ser apenas conjuntural, embora também o seja em parte. Há um elemento estrutural porque decorre de mutações domésticas americanas, de cansaço estratégico, de polarização ideológica e de uma nova gramática de poder em Washington. O Cebri14 tem sido perspicaz ao notar que o retorno de Trump significou uma guinada em relação ao multilateralismo, ao comércio internacional e às parcerias históricas com Canadá e Europa, além de recomendar, para o Brasil, diversificação de alianças, reforço dos vínculos asiáticos e formulação de respostas estratégicas de longo prazo.
Embora o Brasil ocupe posição secundária na hierarquia militar do sistema, suas escolhas não são irrelevantes. O país é uma potência territorial, agrícola, mineral e energética. Tem interesse direto em fluxos comerciais previsíveis, preços internacionais estáveis e liberdade de navegação. Em 2025, as exportações brasileiras para a China atingiram US$ 100 bilhões, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. Dados do Banco Central15 mostram que, em 2024, a China respondeu por 41% do superávit comercial brasileiro, enquanto no comércio com os Estados Unidos houve essencialmente equilíbrio. Isso significa que qualquer estratégia brasileira séria haverá de ser simultaneamente prudente com Washington, pragmática com Pequim e atenta à nova autonomia defensiva europeia.
A guerra do Irã, portanto, não é um desvio periférico do argumento. É, de fato, a sua prova concreta. Nela já aparecem, concentrados, os traços do mundo que emerge: unilateralismo americano, recusa europeia em seguir automaticamente Washington, valorização abrupta da energia, fortalecimento indireto de competidores revisionistas, pressão por rearmamento e crise de legitimidade no interior do próprio Ocidente.
O que se rompe nesse momento não é apenas uma política, mas um hábito histórico de confiança. E quando a confiança desaparece, o sistema internacional volta a comportar-se como no século XIX: mais caro, mais nervoso, mais armado e menos previsível. Ao Brasil, nessa conjuntura que já permanece por semanas e não dias, não cabe retórica ornamental. Cabe lucidez estratégica. Teremos?
1 Aqui utilizamos esse conceito, de chave Kantiana, no sentido de guia de políticas externas, aspecto rejeitado por Henry Kissinger.
2 KISSINGER, Henry. Diplomacy. New York: Simon & Schuster, 1994.
3 ESTADOS UNIDOS. The White House. National Security Strategy. Washington, D.C., 2025, disponível aqui. Acesso em 21/3/26.
4 A Stanford Encyclopedia of Philosophy observa que, no discurso contemporâneo, ela pode aparecer tanto como rótulo para uma ordem liberal global quanto, em linguagem populista, como crítica a uma suposta tecnocracia ou elite transnacional. Aqui se usa no segundo sentido.
5 Metternich foi um diplomata e estadista austríaco do século XIX, chamado em geral de Príncipe Klemens von Metternich. Ele foi ministro das Relações Exteriores da Áustria de 1809 a 1848 e tornou-se a principal figura da diplomacia conservadora europeia depois das guerras napoleônicas. Articulou a coalizão que derrotou Napoleão e, depois o Congresso de Viena.
6 Guerra de Independência da Grécia (1821–1832), Guerra Russo-Turca (1828–1829), Guerra da Crimeia (1853–1856), a mais relevante, Guerra Sérvio-Turca (1876–1878) e a Guerra Russo-Turca de (1877–1878).
7 Johns Hopkins Sais. Henry Kissinger Center of Global Affairs. Henry Kissinger and the Study of Global Affairs. Washington, D.C., 2026.
8 KAGAN, Robert. The Jungle Grows Back: America and Our Imperiled World. New York: Alfred A. Knopf, 2018.
9 RAPP, Laurel. Trump’s new national security strategy: cut deals, hammer Europe, and tread gently around autocrats. Chatham House, 9 dez. 2025.
10 Munich Security Report 2025: Multipolarization. Munich, 2025. Disponível aqui. Acesso: 13/3/26
11 SIPRI. Trends in World Military Expenditure, 2024. Stockholm, 2025. Disponível aqui. Acesso: 13/3/25.
12 SMELTZ, Dina; EL BAZ, Lama. Slight Boost in American Support for Active US Role in World. Chicago: Chicago Council on Global Affairs, 2025. Disponível aqui. Acesso em 15/3/26.
13 PEW RESEARCH CENTER. People in Many Countries Consider the U.S. an Important Ally; Others See It as a Top Threat. Washington, 2025. Disponível aqui. Acesso em 14/3/26
14 CEBRI. How Should Brazil Deal with Trump? Rio de Janeiro, 2025. Disponível aqui. Acesso em 15/3/26.
15 Relatório de Política Monetária: Comércio bilateral do Brasil com EUA e China, Jun. 2025

