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O Brasil contra o amanhã

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Atualizado em 22 de abril de 2026 08:56

O Brasil não sofre propriamente de amnésia, conforme muitos afirmam. Sofre de outra enfermidade, mais sutil e talvez mais destrutiva: a incapacidade de fazer da memória uma forma de inteligência. Entre nós, o passado deixou de ser, em larga medida, matéria de compreensão daquilo que somos e fazemos e converteu-se em matéria de consumo, seja para renegá-lo como um reacionarismo negativista ou para ancorar a sociedade na percepção de que nada é possível para além do que já existiu – a sentença mais formulada é: "sempre foi assim, não há o que fazer". Há mais: o passado é evocado para acusar, absolver, dividir, mobilizar, humilhar, absolver novamente. Serve para quase tudo, exceto para aquilo que mais importaria: ajudar a fundar um futuro. O futuro é o que mais nos falta.

A memória, quando degradada em instrumento de facção, deixa de ser consciência histórica e passa a ser apenas munição emocional – algo perigoso e meramente utilitário ao proselitismo da classe partidária ou para os grupos de interesses. Um país que usa a própria história como arsenal acaba, cedo ou tarde, por declarar guerra ao amanhã.

É por isso que o vocabulário público brasileiro se tornou, com o perdão da expressão, tão densamente funerário. Tudo nele parece girar em torno da volta, da restauração, da correção, da reparação, do ajuste de contas, da revanche, do resgate, da retomada ou do continuísmo do grave panorama no qual estamos mergulhados. Quase nunca nos deparamos com a invenção. O amanhã deixou de ser imaginado como construção e passou a ser pressentido como ameaça. E, quando o futuro se torna ameaçador, o passado - ainda que falseado, embelezado, mitificado - começa a parecer acolhedor e fatídico. O que se desejava adiante começa a ser buscado atrás. A promessa cede lugar ao refúgio. A política já não se organiza em torno do inédito, mas em torno da administração dos medos1.

Há algo de particularmente moderno nessa regressão. Em sociedades marcadas pela instabilidade, pela aceleração e pelo enfraquecimento dos vínculos, o tempo perde espessura. O presente se torna urgente demais para ser habitado. O futuro, incerto demais para ser desejado. Já o passado, distante o suficiente para ser idealizado ou escamoteado como uma "saída". Assim nasce a nostalgia política: não como capricho sentimental, mas numa espécie de "compensação histórica". Quando as instituições da sociedade e do Estado falham em oferecer segurança, e quando a vida social, tumultuada pela deterioração dos valores comuns, já não convence ninguém de que o porvir pode ser melhor, o imaginário coletivo começa a retroceder ou a caminhar para o niilismo. Não se deseja o passado real - com sua aspereza, sua violência, suas exclusões -, mas um passado imaginário, depurado, tornado símbolo de ordem, pertencimento e legibilidade2.

No Brasil, essa dinâmica encontra solo singularmente fértil. Somos uma sociedade que jamais resolveu inteiramente suas continuidades profundas. Mudamos de linguagem com impressionante velocidade e nos esquecemos do que realmente somos, por vezes algo deteriorado ou ruim. Mudamos de estrutura com muito menos (ou quase nenhuma) frequência. O país troca de enredo, de vocabulário moral, de lideranças, de coalizões partidárias, de formas de indignação, mas conserva, com notável persistência, certos hábitos mentais e certos automatismos de poder: a "dependência do chefe", a esperança num "salvador", a centralização afetiva da autoridade, a dificuldade de cultivar autonomia cívica, a tendência a reduzir cidadania à lealdade grupal. Supomos frequentemente ter rompido com o passado apenas porque mudamos a decoração da cena – as próximas eleições são um sinal desse tempo3. No entanto, a política continua a ser atravessada pelas mesmas disposições subterrâneas, pelas mesmas carências formativas, pelos mesmos impulsos de tutela e submissão. A falta de educação política toma conta na nação.

Essa ilusão de ruptura talvez explique boa parte da exaustão brasileira. O país, mesmo nesses tempos tidos como democráticos, tem seguidamente alternado governos, retóricas e narrativas, mas raramente parece tocar o núcleo moral e institucional de seus impasses. Há movimento, sem verdadeira travessia do atraso para o progresso sustentado. Há conflito, sem transfiguração. Há alternância de poder, sem renovação de ideias e ações políticas – a polarização tão comentada talvez seja uma espécie dessa realidade e nada mais porque há a sensação de que nada muda. A vida pública brasileira se tornou pródiga em pequenas e grandes crises, mas parcimoniosa em metamorfoses e transformações - agora temos as expectativas em torno do Banco Master e seus fantasmas. E isso não decorre apenas da má qualidade eventual de nossos dirigentes, mas talvez de um problema mais fundamental: falta-nos um horizonte compartilhado pela sociedade suficientemente forte para obrigar a política a sair do regime da reação. Afora, a nossa falta de organização política originada da ausência de valores compartilhados, dentre outros fatores.

Uma sociedade adulta e no caminho do envelhecimento, porém, não pode viver exclusivamente de resposta. Precisa ser capaz de um começo, mesmo que tardio. Precisa, em algum momento, levantar-se acima do inventário de suas humilhações e perguntar, com sobriedade e ambição: que forma de vida desejamos construir juntos? O Brasil hesita diante dessa pergunta porque está preso a uma disputa incessante entre passados rivais. Uma parte do país imagina a “salvação” como retorno a uma ordem moral perdida, mais coesa, mais hierárquica, mais reconhecível. Outra parte imagina a emancipação como denúncia permanente da violência histórica, como se a acusação, por si só, bastasse para gerar forma política nova. Uns tornam "absoluto" o passado como refúgio enquanto outros o tornam absoluto como culpa. Em ambos os casos, o resultado é idêntico: o futuro desaparece. Ficam os interesses mais imediatistas (especialmente da classe dirigente) em meio à imensa desigualdade econômica, social e cultural.  Essa é talvez a grande miséria do nosso tempo político: não a existência do conflito, que é inevitável e mesmo necessário numa sociedade complexa, mas a incapacidade de convertê-lo em obra comum. O conflito, quando submetido à forma republicana, pode fecundar a liberdade. Quando se dissocia de qualquer projeto compartilhado, degenera em liturgia do cansaço.

O Brasil parece viver, hoje, essa forma exaurida de antagonismo. Cada facção cultiva sua memória, suas vítimas, seus símbolos, sua mitologia do agravo. Nenhuma força política oferece uma arquitetura plausível do porvir modernizante, progressista e sustentável. O país inteiro se converte, assim, numa vasta sala de espera onde grupos rivais disputam o direito de administrar a mesma paralisia. As emendas parlamentares, e.g., são símbolo desse tempo.

A esfera pública, nesse ambiente, empobrece espiritualmente. Ela deixa de premiar a paciência necessária aos projetos de modernização, a complexidade não é reconhecida como premissa da mudança, o discernimento da realidade trágica na qual estamos mergulhados é deixado de lado e, especialmente a capacidade de imaginar o longo prazo se perde. A res publica precisa recompensar a sociedade com respostas rápidas, com simplificação moral, como uma certeza meramente performática. A indignação é apenas instantânea. A inteligência é suspeita e desprezada, a nuance é esquecida e desvalorizada, vista como fraqueza. A demora na realização das transformações sociais é confundida com cumplicidade com a situação – os grupos de pressão são tão somente temáticos e identitários. Já a mediação política é vista como insuficiente e como um jogo de baixarias e interesses próprios da classe política. A sociedade, interconectada e nervosa, torna-se ao mesmo tempo ruidosa e intelectualmente exígua. Cada grupo se fecha em sua pequena teologia política, em seu catecismo defensivo, em seu condomínio moral. E um país fraturado em moralidades de seita já começou a perder a faculdade de se imaginar como nação. Essa fragmentação é perigosíssima porquanto nos tira o futuro.

Nenhuma coletividade subsiste apenas por conflito. Um país precisa de uma narrativa mínima de pertencimento que permita às diferenças coexistirem sem se converterem em guerra de exaustão. Precisa de uma lealdade que não seja idolatria de líderes carismáticos (e, por vezes, falsos), de um patriotismo que não seja histeria identitária, de uma adesão às instituições do Estado que não dependa da vitória da própria facção, por vezes, criminosa. Em suma: precisa de uma forma de pertencimento civil que sobreviva ao ciclo das paixões. O Brasil perdeu, ou ao menos enfraqueceu dramaticamente, essa faculdade. Vivemos juntos, mas já não imaginamos juntos. E quando um povo perde a capacidade de se imaginar, começa a empobrecer mesmo antes de empobrecer materialmente.

Esse empobrecimento se manifesta na forma como tratamos nosso passado. Uma sociedade madura não idolatra a própria história, mas também não a odeia em bloco. Discernir é mais difícil do que venerar ou destruir. Exige distância, educação moral, forma intelectual. Exige reconhecer que o passado é sempre ambíguo: herança e fardo, patrimônio e limitação, advertência e recurso. O Brasil, ao contrário, oscila frequentemente entre dois infantilismos simétricos: o culto nostálgico das ruínas e a iconoclastia ressentida. Um transforma o passado em paraíso perdido - outro, em fonte inesgotável de condenação. Nenhum dos dois modos produz responsabilidade ou continuidade legítima. Não há horizonte! Os líderes parecem saber disso e nada forjam de novo.

Também não nos salvaremos pela simples alternância de poder, mesmo que essa necessária à democracia. Uma República não se regenera apenas porque troca seus ocupantes. Regenera-se quando recupera a capacidade de subordinar a luta política a uma forma superior de vida comum. Isso parece hoje escasso. A política brasileira tornou-se, em boa medida, um sistema de excitação contínua, incapaz de sair do curto prazo emocional. O país envelhece dentro dessa agitação. Move-se muito, amadurece pouco. Basta ver que o noticiário, as redes sociais e as conversas refletem o microcosmo que não ganha altura capaz de ver a situação na qual estamos. A mídia é parte desse jogo.

A tragédia é que essa fadiga não produz apenas atraso. Produz desesperança. E a desesperança talvez seja o mais grave de todos os males políticos. Sociedades podem sobreviver à pobreza, à crise, ao conflito e até a derrotas profundas, desde que preservem alguma convicção de que o futuro continua aberto. Quando essa convicção desaparece, instala-se a forma mais discreta e mais devastadora da decadência: a crença de que nada de realmente novo pode acontecer. O Brasil parece perigosamente próximo dessa disposição melancólica e depressiva. A repetição de antagonismos conhecidos, a reciclagem de linguagens gastas, a dependência de velhos corpos políticos e o encurtamento da imaginação programática produzem a impressão de que o país não escolhe, apenas reencena. As pesquisas eleitorais, nas suas entranhas, mostram isso. Os marketeiros ao redor dos políticos querem apenas forjar o jogo em torno de temas microscópicos. Não chegarão a lugar algum junto à sociedade desesperançada, mesmo que as pesquisas para um ou outro venham a melhorar.

O futuro não nasce por geração espontânea. Ele precisa ser fabricado. E fabricar futuro é, antes de tudo, um ato de responsabilidade moral. Significa recusar a comodidade narcótica da indignação terceirizada. Significa exigir dos partidos políticos mais do que biografias eleitorais e repertórios de ressentimento. Significa restaurar o valor da formação cívica, da linguagem precisa, do debate honesto, da administração competente, da ambição institucional. Significa, sobretudo, reaprender a distinguir memória da prisão ao que já passou. O passado deve ser conhecido, julgado, elaborado, mas não adorado nem transformado na única fonte disponível de identidade política.

Há países que romperam com passados sombrios não porque os esqueceram, mas porque os enfrentaram com gravidade institucional e com imaginação pública. Vejamos a Alemanha pós-nazismo, por exemplo. Souberam nomear culpas, delimitar responsabilidades, construir narrativas nacionais menos infantis, reconhecer vítimas, consolidar procedimentos e, ao mesmo tempo, reabrir o horizonte da ação comum. O Brasil não realiza hoje esse trabalho. Entre nós, a memória comparece frequentemente sem pedagogia e a denúncia comparece sem forma. Falta-nos o estágio decisivo: transformar lembrança em responsabilidade e a responsabilidade em projeto.

É preciso recuperar a coragem de desejar algo que ainda não existe. O futuro só volta a existir quando uma comunidade aceita a tarefa exigente de imaginá-lo em comum, de dar-lhe linguagem, forma institucional, densidade moral. Sem isso, continuaremos presos à alternância entre nostalgia e ressentimento, entre a ordem sonhada e a revolta ritualizada, entre o medo da perda e a exibição da culpa.

O Brasil não precisa de mais uma facção persuadida de que encarna sozinha a redenção nacional. Precisa de um reaprendizado mais severo e mais modesto: o da maturidade histórica. Um país amadurece quando compreende que sua memória, por si só, não o salva.  Apenas o adverte. Temos de construir um projeto novo!

Salvar-se é tarefa do presente. E o presente brasileiro, se quiser deixar de ser esse corredor congestionado entre ruínas e pânicos, terá de reaprender sua responsabilidade mais esquecida e mais nobre: a responsabilidade de fabricar o amanhã é nossa! Sem isso, a campanha eleitoral vindoura será um ardil, uma cilada, uma enganação completa e perigosa. Quiçá, como nunca vista na nossa história. Aí, passado e futuro podem se encontrar tragicamente.

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1 BAUMAN, Zygmunt. Retrotopia. Rio de Janeiro: Zahar, 2017. A ideia central mobilizada desse magnífico texto é a de que, diante da crise da noção moderna de progresso, o futuro perde credibilidade e o passado passa a ser idealizado como refúgio e promessa.

2 Uso aqui o argumento de Bauman acerca da aceleração do presente, da fragilidade dos vínculos e da instabilidade das instituições deriva diretamente da denominada “modernidade líquida”, na qual as estruturas que antes pareciam mais estáveis - trabalho, vínculos pessoais, identidade, instituições, projetos de vida e pertencimentos - se tornam mais flexíveis, instáveis e mutáveis. Ver BAUMAN, Zygmunt. Liquid Modernity. Cambridge: Polity Press, 2000.

3 Aqui a referência é a reflexão sobre as continuidades subterrâneas que sobrevivem às rupturas formais inspira-se na leitura tocquevilliana da persistência de disposições e estruturas políticas mesmo após grandes transformações históricas. Vide: TOCQUEVILLE, Alexis de. O antigo regime e a revolução. Tradução de Yvonne Jean. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1982.