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Eleições: Um país adiado, de novo?

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Atualizado em 24 de agosto de 2026 09:20

Desde 16 de agosto o país voltou a ouvir a própria voz em forma de jingle, e no dia 4 de outubro saberá quem administrará o Brasil a partir de 2027. Há uma comédia discreta nesse arranjo: a urna tem calendário, o país tem destino, e os dois quase nunca coincidem. Quanto mais perto a data, mais o debate se comprime em preços, juros, impostos e medos - assuntos legítimos, todos, e nenhum deles capaz de responder à única pergunta que realmente importa, que é o que este país pretende ser quando as crianças matriculadas neste ano estiverem no auge da vida profissional. O urgente é um hóspede de má-fé: chega para uma noite e, logo depois, expulsa o dono da casa.

Ortega y Gasset, nas Meditações de Quixote1, deixou uma frase que se tornou tão repetida que quase perdeu o poder de incomodar: “eu sou eu e minha circunstância”. O que raramente se cita é a continuação, e é exatamente ali que mora o desconforto - “se não se salva a circunstância, tampouco se salva o indivíduo”. A advertência é política antes de ser filosófica. Patrimônios privados, carreiras bem construídas, prosperidade doméstica sobrevivem à deterioração do mundo que a cerca. Uma eleição deveria ser o momento em que uma sociedade olha para a sua circunstância e decide o que fará dela. É essa a função republicana da campanha: não escolher rostos, mas escolher rumos. (Aqui não vale apelar para o argumento diversionista de que se trata de uma “visão idealista” do autor desse artigo! Estamos a falar de nossa vida concreta, afinal!).

O que se observa, porém, é o encolhimento sistemático desse momento. As campanhas se organizam por adesões e antipatias, e os programas de governo viraram peça de cerimônia - protocolados, raramente lidos, quase nunca cobrados. Vale a pergunta incômoda: quantos dos programas apresentados nas últimas décadas diriam algo inteligível sobre o Brasil de 2060? E quantos, relidos hoje, revelariam ter antecipado qualquer uma das transformações que de fato ocorreram? A suspeita é que a resposta seja constrangedora - e o constrangimento, convém dizer, é coletivo, não partidário. Por isso os programas precisam voltar a ser propositivos, inventivos e criativos: não como enfeite retórico, mas porque a realidade deixou de aceitar respostas incrementais.

Nada disso relativiza o equilíbrio fiscal e monetário. A inflação é o mais regressivo dos tributos, porque castiga com mais violência quem não tem como se proteger dela. A dívida descontrolada é uma forma elegante de sequestrar o futuro, transferindo a quem ainda não vota a conta do que se consome hoje. Juros estruturalmente altos esterilizam o investimento produtivo e premiam a inércia patrimonial. Um Estado sem capacidade de financiar-se e uma moeda sem credibilidade encolhem o próprio espaço da escolha democrática. Estabilidade é fundamento, não arquitetura - e ninguém convida os amigos para admirar o contrapiso. A pergunta eleitoral relevante não é se o Brasil deve respeitar restrições macroeconômicas elementares: é o que ele pretende fazer com a estabilidade que conseguir construir.

Joseph Stiglitz, em “Povo, poder e lucro”2, insiste num ponto que a conversa brasileira teima em ignorar: mercados não são fenômenos naturais, são desenhados por regras, instituições e relações de poder, e a riqueza das nações vem do aprendizado coletivo, da ciência e da qualidade institucional - não da austeridade nem da especulação. Seu diagnóstico mais duro é o do circuito fechado: quando a concentração econômica produz concentração política, os beneficiários passam a escrever as regras que os beneficiam, e a desigualdade deixa de ser resultado do jogo para se tornar cláusula do regulamento. Aplicado ao Brasil, o tema se desloca. Não é apenas quanto o Estado gasta, mas o que a economia produz, com que produtividade e quem fica com o excedente. Um país pode ter contas impecáveis e mesmo assim não ter para onde ir. Nossa produtividade do trabalho não cresce em suficiência desde os anos 1980 - toda melhora de padrão de vida que não venha daí é empréstimo tomado contra nós mesmos. Equilíbrio sem projeto é a administração competente do declínio - e há algo de melancólico numa elite política que disputa com tanto afinco o direito de administrá-lo, via “emendas”. A emenda é pior que o soneto.

O primeiro dos desafios estruturais é tecnológico, e sua velocidade não guarda a menor proporção com a das instituições. Inteligência artificial, computação avançada, biotecnologia, robótica e novos materiais deixaram de ser vitrine para se tornar infraestrutura de poder. Um levantamento do Fórum Econômico Mundial junto a mais de quatrocentos e cinquenta executivos mostra que a IA já entrou nos fluxos centrais de decisão das empresas, mas que apenas cerca de 15% das organizações a usam para redesenhar de fato o modo como o trabalho é feito. As demais instalaram um motor novo num chassi velho - e essa, note-se, é uma descrição razoável do Estado brasileiro diante da mesma tecnologia. A pergunta que nenhum programa eleitoral formula com seriedade é a da soberania computacional: que capacidade de processamento, que dados, que energia, que quadros e que cadeia de semicondutores o país pretende ter? Regular a inteligência artificial é necessário. Todavia, regular o que não se produz é apenas disciplinar a própria dependência.

O segundo eixo é energético e climático, e nele o Brasil ocupa uma posição quase indecente de tão privilegiada: matriz elétrica limpa, biodiversidade, agricultura tropical, sol, vento, biocombustíveis, minerais críticos. Ativos, porém, não viram liderança por gravidade própria. O Energy Transition Index 20263, que acompanha 120 países por quarenta e quatro indicadores, registra que a transição se fragmentou: mais da metade dos países melhorou sua pontuação, mas menos de um quarto avançou em todas as dimensões simultaneamente, e as restrições mais agudas passaram a ser a incerteza regulatória e o custo do financiamento. Bastaram algumas semanas de perturbação nos fluxos do Estreito de Ormuz, no início de 2026, para que o preço da energia lembrasse ao mundo que segurança e sustentabilidade não são departamentos separados. A transição, além disso, redesenha a geografia industrial: energia limpa e barata atrai indústria eletrointensiva. O Brasil pode ser destino de manufatura verde ou mero exportador de energia bruta e minério - e isso é escolha de política, não decreto da natureza.

Daí decorre o terceiro desafio, a inserção nas cadeias produtivas internacionais, onde a paisagem mudou de vez. O Global Value Chains Outlook 2026 do WEF trata a volatilidade não mais como ciclo, e sim como condição estrutural: só em 2025 foram introduzidas mais de três mil novas medidas comerciais e de política industrial no mundo, mais que o triplo do registrado uma década atrás, e cerca de três em cada quatro executivos passaram a ver resiliência como motor de crescimento, não como custo. A política industrial voltou à moda - e voltou armada. Para o Brasil, a pergunta não é quanto exportar, mas o quê, com quanto conteúdo tecnológico e sob quais dependências. Commodities geram excedentes relevantes e não geram densidade industrial, produtividade nem emprego qualificado. Política comercial, industrial, logística, educacional e de inovação precisam formar um sistema único, e o silêncio sobre isso não é neutralidade: é a escolha, por omissão, de permanecer onde se está.

O quarto desafio é geopolítico e contamina todos os outros. O Global Risks Report 20264 também do WEF batizou o momento de era da competição, com a confrontação geoeconômica no topo da lista de riscos e os mecanismos cooperativos em evidente fadiga. Comércio, finanças e tecnologia converteram-se em instrumentos de coerção. Já as tarifas, sanções e controles de exportação viraram rotina diplomática. Nesse ambiente, autonomia também não é postura retórica, é capacidade material - constrói-se com diplomacia profissional, defesa crível, densidade industrial e inteligência estratégica. Cabe então perguntar qual é a doutrina brasileira para os próximos trinta anos? Que política de defesa se pretende para o Atlântico Sul e para a Amazônia? Como diversificar parcerias sem criar dependências assimétricas? Que papel se reserva à integração regional, hoje em estado de semiabandono? Quem não responde a essas perguntas não as elimina: apenas delega a resposta a terceiros.

O quinto eixo, e talvez o mais profundo, é a desigualdade - que o mesmo relatório sobre riscos globais aponta como o tema global mais interconectado de todos, aquele que amplifica os demais. No Brasil a desigualdade não é apenas de renda: é de território, de tempo, de escola, de segurança e de acesso ao conhecimento. Importa menos a fotografia da distância entre os extremos do que a probabilidade de percorrê-la, e por essa métrica vamos mal. O gargalo tem nome antigo: a qualidade da educação básica, que decide, com décadas de antecedência, tudo o que se poderá fazer depois em produtividade, inovação e cidadania. Não há liderança tecnológica ou diplomática possível para um país onde o CEP ainda prevê o destino melhor do que o talento.

É aqui que A Rebelião das Massas5, livro seminal de Ortega y Gasset, oferece sua advertência mais afiada - e mais mal compreendida. Ortega não descreve o pobre nem o trabalhador; descreve o homem-massa como aquele que se considera pronto, que nada exige de si mesmo e que usufrui estruturas complexas sem a menor curiosidade pela disciplina e pela continuidade institucional que as tornaram possíveis. É disposição de espírito, não posição social - razão pela qual a leitura elitista é uma traição ao livro. Nossas elites são, com frequência, a massa mais perfeitamente realizada: satisfeitas, sem curiosidade, convencidas de que o mundo lhes é devido. Uma sociedade muito desigual produz, nos dois extremos, o mesmo empobrecimento deliberativo: de um lado a resignação, de outro a autossuficiência. E o populismo prospera exatamente nesse solo, oferecendo culpados no lugar de causas e slogans no lugar de programas.

Nada disso autoriza a tutela do eleitor, e convém dizê-lo com todas as letras. O problema da democracia brasileira não é excesso de participação, mas escassez de projeto e de mediação. Cabe aos candidatos traduzir a complexidade sem falsificá-la, explicitar escolhas e mostrar consequências. Há um teste simples de honestidade programática, e ele dispensa doutorado: nenhum programa pode prometer, ao mesmo tempo, mais gasto, menos impostos, mais subsídios, menos dívida e nenhuma perda para ninguém. Quem promete as cinco coisas juntas não está sendo criativo, está sendo “aritmeticamente impossível”. Nesse ponto é que se separa a invenção do voluntarismo: criar é combinar recursos reais de um modo novo. Já fantasiar é fingir que não existem recursos a combinar.

A revisão dos programas sociais entra nesse ponto, e revisão não significa desmonte, por óbvio. A transferência de renda foi conquista civilizatória, reduziu a pobreza extrema e tem eficácia demonstrada - motivo de sobra para tratá-la com seriedade em vez de bandeira. Os problemas são conhecidos: fragmentação, cadastros desatualizados, armadilhas de saída que punem quem se formaliza e uma estrutura de gasto social fortemente inclinada à proteção do fim da vida em detrimento do investimento no seu começo. Um país que envelhece depressa e gasta pouco com a primeira infância está, na prática, escolhendo empobrecer. A pergunta que um programa criativo enfrentaria é como transformar proteção em trampolim: articular renda com creche, escola, saúde, formação técnica, requalificação digital e crédito produtivo. É a ideia, cara a Stiglitz6, de uma sociedade organizada para aprender - na qual a política social não é amortecedora do fracasso econômico, mas insumo do sucesso econômico.

O sexto desafio é a segurança, que mudou de natureza enquanto o debate continuava com o vocabulário dos anos noventa. As facções converteram-se em agentes econômicos, com controle territorial, logística, mercados cativos, lavagem e conexões transnacionais, infiltrando-se em combustíveis, transporte, mineração e serviços financeiros. O que está em jogo não é apenas a violência, mas a substituição do Estado como instância reguladora em porções inteiras do território e da economia. Ao mesmo tempo, o Global Cybersecurity Outlook 20267 registra que praticamente todos os executivos consultados - noventa e quatro por cento - apontam a inteligência artificial como o principal vetor de mudança do risco cibernético, num quadro agravado pela fragmentação geopolítica e pela desigualdade de capacidade defensiva entre organizações e países. O Brasil, que construiu uma das melhores infraestruturas de pagamento do mundo, tornou-se por isso mesmo um alvo de primeira linha. Segurança pública, portanto, já não se separa de inteligência financeira, governança de dados, cooperação internacional e reforma prisional.

Há ainda um conjunto de desafios que atravessa todos os outros e que, por isso mesmo, costuma escapar às listas: educação, demografia, infraestrutura e - sobretudo - capacidade estatal. De pouco adianta a missão mais elegante se o Estado não consegue executar, avaliar, coordenar e, principalmente, encerrar o que não funciona. Criar órgão é fácil e rende foto. De outro lado, terminar obra, medir resultado e desligar programa ineficaz não rende nada, e é justamente o que decide o desfecho. O fracasso administrativo não é neutro: ele aprofunda desigualdades, porque quem tem renda compra no mercado privado o serviço que o Estado não entregou, e quem não tem, espera. Um programa sério dedicaria a esse tema o mesmo espaço que dedica às promessas - e talvez descobrisse que a reforma mais transformadora disponível é, sem qualquer glamour, a da máquina.

Tudo isso sugere que é preciso mudar também a forma de escrever programas eleitorais. Em vez da lista extensa de promessas, seria mais útil organizá-los por missões nacionais, cada uma com meta verificável, custo estimado, instituição responsável e horizonte explícito - algumas para render resultado em quatro anos, outras, como alfabetização, ciência, infraestrutura digital, formação técnica e resiliência climática, para serem avaliadas em dez, vinte ou quarenta. E cada programa deveria trazer seus cenários adversos escritos: o que fazer se a economia mundial desacelerar, se um conflito alterar o preço da energia e dos alimentos, se uma tecnologia deslocar ocupações mais rápido do que o previsto, se eventos climáticos impuserem perdas sucessivas. Planejar não é adivinhar, mas fazer ensaios e estimativas. Essa disciplina não retiraria da democracia o direito de mudar de ideia - ao contrário, tornaria as escolhas legíveis, permitindo ao eleitor distinguir promessa, preferência, necessidade e restrição, que hoje chegam a ele misturadas no mesmo pacote colorido.

Vale insistir no horizonte, porque é ele que dá sentido ao resto. Entre 2056 e 2076, trabalho, energia, segurança, indústria e ordem internacional terão outra configuração, e as decisões que a produzirão estão sendo tomadas - ou adiadas - agora. A criança que este ano aprende a segurar o lápis estará economicamente ativa em 2060. A infraestrutura contratada nesta década ainda estará operando. A janela demográfica brasileira, enquanto isso, se fecha: o país envelhecerá antes de enriquecer, e essa não é uma frase de efeito, é matemática. Cada ano gasto sem enfrentar a agenda estrutural reduz o número de decisões que ainda estarão disponíveis quando ela se tornar inadiável. A democracia vive esse descompasso entre o calendário curto das urnas e o tempo longo do desenvolvimento, e um programa presidencial que se respeite existe para construir a ponte entre os dois.

Chamo de “incerteza estratégica” a essa condição - e a expressão precisa de cuidado, porque não se trata de não saber o que vai acontecer, o que é irredutível e vale para todos. Trata-se de não saber o que se pretende fazer diante do que pode acontecer. É uma incerteza autoinfligida, produzida pela recusa a deliberar, e sua consequência é precisa: um país que não estrutura estratégia própria torna-se objeto da estratégia alheia. Não desaparece, não colapsa, não vira manchete. Apenas passa a ser administrado de fora, por preços que não fixa, regras que não escreve e tecnologias que não domina. É um destino discreto - e por isso mesmo muito mais provável do que a catástrofe, que ao menos teria a decência de avisar.

Volto a Ortega, que escrevia sobre uma Espanha dos anos 1920 e 1930, convencida de que bastava esperar. Salvar a circunstância exige, antes de tudo, olhá-la sem consolo. O eleitor tem nisso uma responsabilidade que não pode delegar: a de exigir dos candidatos aquilo que hoje não lhes é exigido - um projeto que diga como o Brasil pretende produzir, aprender, se defender e se inserir no mundo que já começou sem pedir licença. A pergunta decisiva, portanto, não é quem governará a partir de 2027. É outra, bem menos confortável: haverá, nesta disputa, alguma proposta cuja ausência nós seremos capazes de lamentar daqui a trinta anos? Se a resposta for não, teremos elegido um governo para quatro anos e, no mesmo gesto, comprometido o espaço de decisão de quem vier depois. A eleição terá sido decidida antes de começar - e não por nós.

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1 ORTEGA Y GASSET, José. Meditações de Quixote. São Paulo: Livro Ibero-Americano, 1967.

2 STIGLITZ, Joseph E. Povo, poder e lucro: capitalismo progressista para uma era de descontentamento. Tradução de Alessandra Bonrruquer. Rio de Janeiro: Record, 2020.

3 WORLD ECONOMIC FORUM. Energy Transition Index 2026. Genebra: World Economic Forum, 2026a. Disponível aqui. Acesso em: 18 ago. 2026.

WORLD ECONOMIC FORUM. Global Cybersecurity Outlook 2026. Genebra: World Economic Forum, 2026b. Disponível aqui. Acesso em: 18 ago. 2026.

5 ORTEGA Y GASSET, José. A rebelião das massas. São Paulo: Martins Fontes, 1987.

6 Op.Cit.

7 WORLD ECONOMIC FORUM. Global Cybersecurity Outlook 2026. Genebra: World Economic Forum, 2026b. Disponível aqui. Acesso em: 18 ago. 2026.