Brilho eterno de um Brasil sem memória
terça-feira, 1 de setembro de 2026
Atualizado em 31 de agosto de 2026 08:23
Há filmes que contam uma história e filmes que oferecem a uma sociedade o seu espelho. "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004), de Michel Gondry, Charlie Kaufman e Pierre Bismuth, pertence à segunda espécie. Depois do fracasso amoroso, Clementine apaga Joel da memória; ferido, ele se submete ao mesmo procedimento. A clínica chama-se Lacuna - nome perfeito demais para ser inocente. Ela não cura a dor, não reconstrói a experiência, não reconcilia. Apenas elimina as lembranças que permitiriam compreender o sofrimento. Ao retirar a cicatriz, apaga também a história da ferida.
O Brasil aproxima-se das eleições gerais de 2026 como quem entra nessa clínica. Em 4/10, escolherá presidente, governadores, senadores e deputados. Antes, porém, decidirá quais lembranças terão direito de comparecer à urna. Toda eleição contém uma política da memória: ilumina certos fatos, empurra outros para a penumbra, nomeia alguns fracassos e dissolve os demais na linguagem anestésica da propaganda. A questão decisiva não é apenas quem governará, mas com que passado o país pretende escolher seu futuro.
É aí que as elites brasileiras revelam uma tentação antiga. Desejam os frutos da modernidade, mas resistem a reconhecer as raízes arcaicas que ainda os sustentam. Celebram estabilidade, produtividade e segurança jurídica, enquanto toleram privilégios, baixa qualidade educacional e insegurança cotidiana como se pertencessem a outro país. "Elites", aqui, não designa uma conspiração homogênea, mas os grupos capazes de selecionar os problemas visíveis, fixar o vocabulário legítimo e transferir custos a quem participa menos das decisões. Seu poder mais duradouro não é ordenar o esquecimento, mas definir o que parecerá razoável esquecer.
A ironia do filme é também a nossa. Joel e Clementine voltam a se encontrar porque as lembranças desapareceram, mas as disposições permaneceram. O Brasil procede de modo semelhante quando trata velhos impasses como acidentes recém-chegados. A inflação parece não ter biografia, a desordem fiscal que advém de todos os poderes não ter autores, a desigualdade dissolve-se na paisagem. Mudam os personagens e os slogans, mas sobrevivem os incentivos, as instituições informais e as distribuições de poder. A repetição, portanto, não prova um destino nacional. Revela causas que preferimos não nomear.
A clínica de Gondry trabalha durante o sono. A amnésia política opera quando a consciência pública está fatigada – há visível e perigoso cansaço com as eleições. Não precisa proibir fatos, basta fragmentá-los e tudo se perde. Um escândalo substitui o anterior antes que suas causas sejam compreendidas, a emergência devora a reforma, a indignação torna-se intensa e breve. O resultado é uma memória de episódios sem estrutura: preservam-se imagens, bordões e antagonistas, mas se rompe o encadeamento entre decisão e consequência. Uma sociedade que recorda fatos e esquece nexos termina discutindo sintomas como se fossem destinos. O esforço para tirar o futuro do país impressiona – perdoe-me a ausência completa de hipocrisia.
Essa amnésia é seletiva. Cada campo político conserva sua pequena Lacuna: os erros do adversário permanecem nítidos e os próprios recebem uma névoa indulgente. A República converte-se, assim, numa sociedade de responsabilidade limitada, na qual os dividendos do poder são presentes e os passivos pertencem sempre ao antecessor. Candidatos reaparecem sem biografia, partidos se despem de seus governos, agentes econômicos narram crises como espectadores e formadores de opinião reeditam convicções sem registrar previsões fracassadas. Todos chegam à praça pública como recém-nascidos e sem pecados originais.
A aproximação com o eterno retorno de Nietzsche é fecunda desde que não faça do filósofo um patrono da resignação. A pergunta não é se estamos condenados a repetir, mas se aceitaríamos querer de novo as consequências de nossas escolhas. Transportado para a eleição, o teste é severo: escolheríamos o mesmo método de governar? A mesma distribuição do ajuste? A mesma conta escondida sob a promessa e o mesmo precedente institucional se amanhã fossem usados pelo adversário? A maturidade política deveria começar, mesmo que não explicitamente, quando se desejam para o oponente as garantias reivindicadas para si.
Também o amor fati1 costuma ser mal compreendido. Amar o destino não significa santificar escravidão, autoritarismo, pobreza ou desigualdade como etapas necessárias de uma formação nacional. Isso seria anestesia metafísica. Significa recusar a fantasia de que poderemos tornar-nos outros sem assumir a história inteira - inclusive suas partes vergonhosas - como matéria para a atividade política. O contrário do ressentimento não é o esquecimento. Ressentir-se é entregar ao passado o governo do presente. Já recordar responsavelmente é compreender seus mecanismos para interromper sua reprodução. É preciso desenvolver ideias para sair do que estamos a vivenciar.
Por isso, memória democrática não exige culpa hereditária, mas responsabilidade atual. Ninguém praticou todos os males que herdou. Nem todos participam, contudo, das decisões que prolongam ou corrigem seus efeitos. As elites fogem dessa exigência por duas portas aparentemente opostas. A nostalgia inventa um passado ordenado e silencia aqueles para quem a ordem significava exclusão. O futurismo promete que tecnologia, crescimento ou uma liderança providencial dispensarão o acerto de contas com as estruturas antigas. Ambos retiram o presente do banco dos réus. É uma tergiversação sem fim.
A ironia do título original do filme vem de Alexander Pope, do poema Eloisa to Abelard, publicado por Alexander Pope em 1717: o brilho eterno pertenceria à mente sem manchas, alheia ao mundo e por ele esquecida. No enredo, porém, a inconsciência não produz sabedoria e priva os personagens das condições de reconhecer o que lhes aconteceu. Também o Brasil cultiva a estética da mente imaculada. Ela seduz porque a memória pesa, introduz nuances onde a propaganda exige pureza e obriga a admitir avanços sob governos rejeitados, assim como retrocessos sob governos apoiados – aqui cada um que faça a sua análise. A lembrança honesta resiste, ao mesmo tempo, ao catastrofismo eleitoral e à autocomplacência oficial.
Essa lucidez exige distinguir o que escapa ao nosso controle do que depende de instituições e escolhas. O país não domina choques externos, pandemias, preços internacionais ou revoluções tecnológicas. Controla, em grau relevante, a qualidade do orçamento, a preparação das escolas, a integridade das regras, os critérios das políticas públicas e a distribuição dos riscos. Contabilidade, imprensa, universidades, tribunais e órgãos estatísticos preservam o vínculo entre promessa e resultado. Enfraquecê-los é aproximar a vida pública da clínica Lacuna. Em linguagem direta: é ser reacionário.
Sartre ajuda a explicar a sedução do apagamento. Vivemos entre a facticidade - o passado e as circunstâncias que não escolhemos - e a transcendência, a capacidade de projetar escolhas que não podem ser terceirizadas. A má-fé nega um desses polos. Ora se diz que "o Brasil é assim", como se desigualdade, violência e baixa produtividade fossem propriedades geológicas, e ora se anuncia que "agora tudo será diferente", como se uma vitória abolisse a administração real, o Congresso fragmentado e as restrições fiscais. Entre o fatalismo e o voluntarismo, desaparece a responsabilidade concreta. O eleitor está inerte, mas não é bobo.
A má-fé das elites consiste em apresentar como destino aquilo que também resulta de sua ação. O empresário protegido culpa apenas o Estado. Já o governante atribui toda paralisia ao Congresso. O cidadão influente fala da política como atividade de outra espécie humana. Até a meritocracia se torna álibi quando transforma uma conquista real em lei geral e apaga família, patrimônio, redes, escola, segurança, crédito, saúde e tempo. Não é preciso negar o mérito para reconhecer que o ponto de partida participa do resultado. A gratidão pela oportunidade só adquire dignidade pública quando se converte em compromisso com sua expansão.
Na política, a mesma fuga oferece conforto aos extremos. O militante entrega ao líder sua liberdade de julgar e chama a renúncia de fidelidade. Tudo o que o chefe faz passa a ser reação necessária à perversidade inimiga. Mas a democracia não concede essa exoneração: abstenção, voto útil e adesão ao menos ruim continuam sendo escolhas. A ausência de alternativas perfeitas não absolve a consciência. É diante de opções imperfeitas que a responsabilidade deixa de ser pose e se torna juízo.
Chegar às urnas com memória significa submeter os programas a alguns testes. A desigualdade não é apenas injustiça imposta aos pobres: desperdiça talentos, reduz produtividade e corrói a confiança sem a qual reformas não duram. Responsabilidade fiscal, por sua vez, perde legitimidade quando é severa com a despesa social e discreta diante de renúncias tributárias, subsídios e proteções patrimoniais. Desenvolvimento não nasce de palavra de ordem: requer concorrência, investimento e integração internacional, mas também educação, infraestrutura e regras confiáveis.
O mesmo critério vale para democracia, ambiente e herança social. Instituições deixam de sê-lo quando são defendidas apenas nas decisões favoráveis: todo excesso celebrado contra o adversário redige uma autorização para o futuro. A natureza registra custos que a retórica tenta adiar e os devolve como seca, enchente, perda agrícola e seguros mais caros. A escravidão, por fim, deve ser lembrada não como fórmula ritual, mas como instituição que organizou trabalho, cor, propriedade, violência e cidadania. Memória adulta não acusa descendentes: interroga as permanências - ou essas não existem?
Esses pontos não compõem um programa partidário. Formam um teste anterior aos programas. Toda candidatura - de esquerda, centro ou direita - deveria dizer que fatos reconhece, que erros próprios admite, quais heranças pretende transformar, por quais meios, em quanto tempo, a que custo e sob quais limites. Deveria explicar como financiará promessas, que poderes aceitará restringir mesmo quando os exercer e de quem cobrará sacrifícios. Quando respostas são substituídas por pertencimentos, a escolha democrática degrada-se em identidade.
No fim do filme, Joel e Clementine ouvem as gravações feitas antes do apagamento. Cada um descreve, com crueldade, as falhas do outro. Aquilo que poderia separá-los torna-se a condição de uma nova escolha. Não há promessa de cura definitiva, apenas um “Ok” hesitante que aceita o risco sem negar o conhecimento. Antes das fitas, reencontravam-se sem saber. Depois delas, podem tentar sabendo. A diferença entre compulsão e liberdade está na memória: o mesmo gesto adquire outro sentido quando incorpora a experiência e assume suas consequências previsíveis.
O Brasil também precisa chegar à urna depois de ouvir suas fitas. Nelas estão promessas incumpridas, reformas incompletas, avanços reais, desastres evitáveis, instituições que resistiram e outras que falharam. Estão ainda as vozes quase sempre excluídas da edição: a criança que espera alfabetização, a mulher que calcula o caminho seguro, o trabalhador informal sem proteção, o jovem negro submetido à suspeita, o empresário produtivo sufocado pela complexidade e o servidor que preserva capacidade estatal apesar da captura.
Às elites cabe responsabilidade maior porque dispõem de mais voz, capital, educação e acesso e, claro, absorvem melhor o custo dos próprios equívocos e ampliam seus efeitos coletivos. Não basta proclamar confiança no país enquanto se busca imunidade privada contra tudo o que deteriora o espaço comum. Uma sociedade não se estabiliza quando seus grupos dirigentes terceirizam escola, saúde, segurança, transporte e esperança, deixando ao Estado apenas a administração dos que ficaram do lado de fora.
O amor fati político não é amar um Brasil cordial, predestinado ou naturalmente grande. É amá-lo sem suprimir o intolerável de sua formação, por meio do reconhecimento de que não escolheremos outro passado, mas podemos escolher o uso que faremos dele. Seu gesto afirmativo não diz "tudo deve repetir-se", e sim "nada será desperdiçado como aprendizado". Assim, a herança deixa de funcionar como fatalidade e se converte em tarefa.
O Brasil não precisa de uma clínica Lacuna. Precisa de instituições de lembrança e de cidadãos capazes de suportar a verdade sem transformá-la em paralisia. Escolher é dizer "ok" a um futuro sem garantias - mas dizê-lo depois de ouvir as fitas. A alternativa adulta não é a mente imaculada. É a memória assumida: aquela que reconhece o instante em que a repetição começa e nos impede de chamar de destino aquilo que, outra vez, escolhemos, escolheremos.
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1 Amor fati é uma expressão latina que significa “amor ao destino”. Tornou-se especialmente importante na filosofia de Friedrich Nietzsche. Nietzsche formula a ideia de modo radical: não apenas suportar o inevitável, mas incorporá-lo à vida e transformá-lo em força. O passado não pode ser refeito; pode, porém, receber um novo sentido por meio da maneira como agimos no presente (N.A.).