A política que perdeu o país
segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Atualizado em 25 de setembro de 2026 11:54
"O futuro da humanidade permanece indeterminado, porque depende dela própria."
(Henri Bergson em "Duas Fontes da moral e da religião", 1932)
Todo escândalo tem uma primeira vida, feita de fatos, documentos, depoimentos, versões que se chocam e responsabilidades que ainda precisam ser provadas. Alguns destes, porém, adquirem uma segunda vida: deixam de ser apenas episódios e passam a expelir um odor desagradável sobre a estrutura que os tornou possíveis. O caso Master chegou a esse ponto. O que começou como investigação de um banco, de seus negócios e de suas relações de influência avançou até uma região mais delicada, onde o problema já não pode ser contido pelos limites de inquéritos. A cena desconfortável é verificar que a Corte Constitucional do país é chamada encarar fatos e conflitos em torno do caso e se vê obrigada a definir, diante do país, as condições sob as quais julgará controvérsias que já roçam as paredes da própria instituição.
Instituições políticas mudam de posição no instante em que deixam de olhar apenas para a crise e percebem que a crise também contamina o ambiente institucional.
Há, doutro lado, fatos documentados, suspeitas, versões defensivas e questões que continuam abertas (e talvez assim fiquem). A gravidade da crise institucional, entretanto, não depende de uma sentença condenatória, porque instituições públicas vivem de algo anterior ao veredicto: a confiança de que seus procedimentos são inteligíveis, estáveis e suficientemente distantes dos interesses que atravessam os processos. Uma Corte constitucional suporta e deve suportar a impopularidade e, eventualmente, irritar maiorias, governos, partidos e corporações. O terreno se torna mais movediço quando o cidadão já não sabe com segurança quem decide, segundo quais critérios internos, com que relações pretéritas e por que determinados movimentos processuais parecem mudar enquanto se movem. A legalidade permanece indispensável: a legitimidade cotidiana nasce também desse tecido menos visível, formado por contenção, previsibilidade e distância institucional. Quando o tecido se rompe, ainda que parcialmente, o debate jurídico adquire a febre da política e passa a ocupar um espaço que deveria pertencer à discussão do país. Ademais, estamos em pleno processo eleitoral.
A eleição de 2026 está a revelar sua estranha irrealidade. Chamar de “campanha eleitoral fake” o que se desenrola diante de nós não significa pôr em dúvida o voto, a urna ou a legitimidade da escolha popular, como já desejou parcela relevante da sociedade. A falsidade está em outra parte: na substituição do futuro por sua mera representação cênica. Os acontecimentos em torno do caso Master, as reações do STF, os vazamentos, as pesquisas e a espuma diária da mídia fornecem matéria inesgotável para a política porque permitem falar sem responder, indignar-se sem agir, acusar sem diferenciar.
O país se aproxima da eleição a observar o movimento das peças e quase nunca para o tabuleiro em que viverá depois que a votação terminar. Produtividade, dívida pública, educação básica, inteligência artificial, organização do trabalho, segurança, infraestrutura urbana, adaptação climática e transição energética permanecem diante de nós com a paciência mineral dos problemas que não desaparecem quando deixam de ser assunto do dia. O escândalo merece investigação rigorosa. O que ele oferece à política, inadvertidamente, é um abrigo contra a obrigação de dizer o que fazer na manhã seguinte.
A superfície tornou-se ruidosa. O país profundo continua esperando expediente.
Os números têm a indecência de permanecer quando a retórica muda de assunto. Vejamos exemplos. Em junho de 2026, a dívida bruta do governo geral chegou a 81,9% do PIB, depois de aumentar 3,3 pontos percentuais no primeiro semestre, face de um déficit preocupante e de uma taxa de juros monumental. A proporção de brasileiros com 60 anos ou mais, que era de 15,6% em 2023, deverá alcançar 37,8% em 2070, segundo as projeções demográficas oficiais, a mudança já está inscrita nas contas da previdência, na demanda por saúde, na composição das famílias e no mercado de trabalho. O dado mais recente do sistema nacional de saneamento mostra 59,7% da população atendida por rede coletora de esgoto. Em 2025, cerca de 12,7 milhões de hectares queimaram no país: houve forte redução em relação a 2024, embora Amazônia e Cerrado ainda tenham concentrado mais de 93% da área atingida. São números de naturezas diferentes e tempos diferentes. Lidos juntos, revelam uma dificuldade comum: quase tudo o que importa exige continuidade, capacidade de coordenação e escolhas cujos resultados chegam tarde demais para a fotografia de campanha. A eleição deveria ser o momento em que o tempo curto da política fosse constrangido pelo tempo longo da sociedade. Até aqui ocorre o contrário, e o debate público parece incapaz de sustentar por muito tempo qualquer assunto que não produza excitação imediata.
Há um tipo particular de decadência intelectual quando problemas conhecidos se tornam invisíveis pela repetição, pela aceitação passiva da realidade.
Sabemos que o clima deixou de ser uma abstração ambiental e passou a interferir no preço do seguro, no desenho das cidades, no custo da energia e na produção agrícola. Sabemos que a fragmentação geopolítica chega aos portos, aos fertilizantes, aos semicondutores e às decisões de investimento e que a inteligência artificial reorganizará ocupações antes que a legislação compreenda inteiramente o que está regulando. Nessa última década as organizações criminosas acumularam capital, território e técnica, infiltrando atividades formais com uma sofisticação incompatível com a imagem folclórica que ainda se faz delas. Sabemos que o envelhecimento torna mais cruel a baixa produtividade e que a baixa produtividade torna mais difícil financiar o envelhecimento. A educação básica continua sendo a fronteira silenciosa entre o país que se promete e o país que se entrega. Inovação, saneamento, saúde e logística pertencem à mesma geografia de atrasos acumulados. Uma campanha eleitoral intelectualmente honesta teria de estabelecer precedências, atribuir custos, indicar quem perderá privilégios, reconhecer que certos ganhos exigem anos e explicar quais instituições suportariam a execução. Em seu lugar, aparecem com frequência promessas sem mínima arquitetura, números sem consequências e uma linguagem de pertencimento que transforma identidade política em sucedâneo de administração. Afora as discussões superficiais sobre a diversidade em nosso tempo. Tempos de malabarismos, de estratosferas imaginários e de fake news.
O eleitor não precisa conhecer o jargão para reconhecer a distância. Ele a encontra no tempo perdido diante de um serviço, na escola que não entrega aprendizagem, na rua que alaga outra vez, na sensação de que o Estado possui uma porta principal e várias entradas laterais.
O caso Master se instalou nesse mal-estar consolidado há décadas porque condensa, numa única narrativa, elementos que o cidadão já reconhece de forma dispersa: a proximidade entre dinheiro e poder, a desigualdade de acesso às instâncias decisórias, a circulação de informações em ambientes reservados e o esforço das instituições para convencer o público de que continuam julgando com independência. Deve estar claro que nenhum desses elementos, tomado isoladamente, autoriza conclusão sobre ilícito ou responsabilidade pessoal. Juntos, porém, produzem uma pergunta que notas oficiais dificilmente dissolvem. A resposta institucional depende de procedimentos verificáveis, de publicidade compatível com a natureza dos autos e de decisões capazes de sobreviver à leitura de quem desconfia delas. O Supremo acumulou enorme centralidade na vida brasileira ao longo das últimas décadas, em larga parte porque conflitos abandonados ou mal resolvidos pelos demais Poderes terminaram judicializados - o tema é consensual nesse ponto. Esse protagonismo ampliou sua autoridade e tornou mais severa a exigência de autocontenção. Quanto mais a Corte ocupa o vazio deixado por outras instituições, menos suas regras internas devem parecer matéria de administração doméstica. A crise atual encontra, por isso, uma crise mais antiga, feita de decisões individuais de enorme alcance, exposição pública de magistrados e crescente contaminação recíproca entre linguagem jurídica e linguagem de combate político. Essa é a realidade nua e crua.
Durante anos, “reforma do Estado” pareceu expressão saída de um fichário administrativo: organogramas, carreiras, privatizações, agências, controles orçamentários. O vocabulário envelheceu mais depressa do que o objeto. Reformar o Estado hoje envolve redesenhar processos decisórios para uma sociedade em que uma crise bancária se converte em disputa política quase instantaneamente. Eis o mundo líquido de Sygmunt Bauman em plena efervescência.
A administração foi construída para um mundo em que o tempo da decisão ainda podia ser separado do tempo da percepção. Essa separação acabou. Continuamos, em muitos casos, a governar uma sociedade eletrônica com instituições que conservam a memória psicológica do papel timbrado. Afora o acumulado atraso civilizatório do tempo anterior. A política envelheceu. O Estado envelheceu com ela. A sociedade, enquanto isso, mudou de velocidade. Já a direção pode ser o abismo.
Daí a insuficiência das convocações genéricas para que a sociedade “participe mais”. Participação sem objeto produz cerimônia e indignação ou apenas mais ruído. O Brasil dispõe de associações profissionais, universidades, organizações empresariais, movimentos sociais e centros de pesquisa capazes de formular propostas com densidade técnica. Essa energia, no entanto, costuma aparecer repartida em agendas corporativistas, cada qual apresentando sua urgência como se o orçamento público não tivesse bordas. O passo mais difícil consiste em construir uma agenda de reformas cujo horizonte sobreviva à eleição e cuja execução possa ser acompanhada por quem não ocupa cargos. Vejamos.
No Judiciário, isso significa tornar mais transparentes as regras para conflitos de interesse, distribuição processual e agendas institucionais compatíveis com a função jurisdicional. No Executivo e no Legislativo, significa melhorar a formulação e a avaliação de políticas, reconectar orçamento e prioridade pública, profissionalizar capacidades em tecnologia e segurança, além de rever mecanismos federativos que distribuem recursos sem suficiente correspondência com resultados. Algumas mudanças pedem lei e outras alcançarão a Constituição. Todavia, várias dependem de práticas que podem ser alteradas sem grandiloquência. A sociedade organizada pode converter essas questões em compromissos públicos verificáveis e obrigar todos os campos políticos a responder às mesmas perguntas.
Há uma virtude quase pedagógica nesse método: ele devolve peso às palavras. Dizer “educação é prioridade” consome segundos, mas explicar alfabetização, carreira docente, ensino técnico e financiamento obriga a entrar no reino menos sedutor das escolhas. Precisa de fiscalização social.
A ideia de anomia continua útil porque descreve o momento em que as normas deixam de organizar de modo persuasivo a relação entre esforço, recompensa e pertencimento. O Brasil ainda tem amortecedores institucionais relevantes, eleições regulares desde a redemocratização e uma sociedade civil difícil de reduzir a uma só voz. Tem, no mesmo espaço, desigualdades persistentes, violência cotidiana e grupos com capacidades muito desiguais de capturar atenção ou recursos públicos. Quando a confiança se desfaz, a frustração procura objetos. Pode aparecer como desprezo pela lei, fascínio pela exceção, hostilidade contra grupos convertidos em inimigos e tolerância crescente com formas privadas de coerção. O ambiente digital encurta o percurso entre ressentimento e narrativa: oferece culpados instantâneos, fabrica comunidades de certeza e transforma a dúvida, que é matéria da política democrática, em sinal de fraqueza ou traição.
Uma democracia começa a correr perigo quando a derrota deixa de parecer provisória e o adversário passa a ser imaginado como uma presença intolerável dentro do mesmo país. A crise do Supremo acrescenta uma dificuldade particular porque uma Corte constitucional funciona como lugar de encerramento. Quando os demais Poderes não resolvem um conflito, espera-se que a jurisdição ofereça uma decisão e, com ela, algum repouso institucional. Se a autoridade da Corte passa a ser contestada em bloco, até decisões rotineiras podem ser interpretadas como gestos de facção e se magistrados respondem a críticas políticas com a linguagem própria da luta política, alimenta-se a mesma leitura que se deseja repelir. O caminho de preservação institucional exige diminuir zonas de ambiguidade
O Brasil precisa de um Supremo dotado de autoridade porque precisa de Constituição eficaz, controle do poder e direitos protegidos contra maiorias ocasionais. Essa autoridade depende também da disposição de submeter o exercício do poder judicial a regras compreensíveis de prevenção de conflitos e de responder a dúvidas legítimas sem converter toda crítica em hostilidade ao regime. O caso Master pode terminar com responsabilidades amplas, restritas ou inexistentes para pessoas hoje mencionadas. A necessidade de aperfeiçoamento institucional surge antes (e não depois!) desse desfecho, durante o intervalo em que a sociedade ainda não sabe inteiramente o que ocorreu e observa, com atenção incomum, como o sistema trata a própria dúvida.
Esse intervalo coincide com a eleição e poderia ser usado para algo mais exigente do que o comentário diário sobre o escândalo - a notícia não pode ser espetáculo, mas espaço de cidadania. A mídia responsável, empresas, universidades e organizações civis precisam abandonar a posição confortável de comentaristas da deterioração e aceitar uma responsabilidade menos elegante: formular alternativas, submetê-las ao contraditório, acompanhá-las durante anos e cobrar quando o governo eleito.
As eleições passam depressa. Os defeitos institucionais têm uma vida muito mais longa. No caso do Brasil já está longa demais. O risco de 2026 sairá da votação com governos legitimamente escolhidos e, ao mesmo tempo, com o país ainda órfão de um projeto minimamente compartilhável de modernização institucional e desenvolvimento.
Talvez a crise mais funda não esteja no excesso de conflito, mas na dificuldade crescente de reconhecer o que ainda merece ser levado a sério. A política continua a produzir gestos, discursos, cerimônias, eleições. A sociedade, porém, começa a escutá-los com a distância reservada aos rituais cuja forma permanece intacta depois que seu sentido se tornou incerto. É nesse intervalo entre a aparência de funcionamento e a perda de confiança que uma democracia se torna vulnerável, porque a descrença prolongada prepara o espírito para aceitar aquilo que, em tempos menos exaustos, pareceria intolerável. O perigo não nasce apenas da violência aberta, da ruptura declarada ou da recusa das regras. Pode surgir antes, silenciosamente, quando a comunidade política deixa de imaginar que suas instituições sejam capazes de aprender, corrigir-se e produzir futuro. Nesse ponto, o fracasso deixa de ser percebido como contingente e passa a parecer natural: a mediocridade adquire o estatuto de destino. Nenhuma sociedade permanece muito tempo nesse estado sem pagar um preço alto, porque viver politicamente exige alguma confiança na possibilidade de adiar a força, suportar a demora, aceitar a imperfeição e ainda assim conservar a esperança racional de que amanhã possa ser organizado de maneira menos pobre que hoje. O Brasil se aproxima desse limite sem saber exatamente quando começou a atravessá-lo, e talvez seja justamente essa ausência de percepção - esse acostumar-se progressivo ao rebaixamento das expectativas - o aspecto mais inquietante de todos.