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Política, Direito & Economia NA REAL

Enfoque político, jurídico e econômico.

Francisco Petros
terça-feira, 30 de março de 2004

Waldomiro, um agente da mudança

Francisco Petros* Waldomiro, um agente da mudança O escândalo de corrupção do assessor palaciano Waldomiro Diniz trouxe à tona uma discussão muito mais ampla sobre o governo do Presidente Lula do que inicialmente poderia ser imaginado. Como numa crônica de Nelson Rodrigues, extrapolou-se do ordinário para além da realidade aparente. Em "circunstâncias normais" não é razoável que um fato específico como este pudesse se amplificar a ponto de se tornar o amálgama de uma série de outros fatores que colocam o país numa situação, a meu ver, vulnerável do ponto de vista da estabilidade política, social e econômica. Ora, a investigação de um caso ou mesmo de uma rede de corrupção é um "caso de polícia" ou de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). Para a Polícia Federal o caso já foi. No que se refere a CPI, houve uma grave agressão à Democracia. De qualquer forma, espera-se que a partir das investigações surjam as punições derivadas da Justiça. Todavia, nas últimas semanas, verificou-se que esta crise espalhou-se e colocou em evidência fatores que, uma vez combinados, podem gerar uma deterioração significativa na evolução da economia brasileira. Em primeiro lugar, ficou nítido que as alianças políticas no âmbito do Legislativo e da Federação (especialmente, num ano de eleições municipais) são mais um fator de instabilidade do que de estabilidade. O custo do "enterro" das CPIs no Congresso é alto de vez que abriu a oportunidade para que os partidos aliados ao Partido dos Trabalhadores (PT) pudessem ampliar as suas parcelas de poder na gestão do governo e do Estado. Esta "ampliação" tornou-se um jogo não-cooperativo de vez que adiciona mais paralisia à execução das políticas do governo. Cargos e posições políticas nos mais variados níveis do Estado são "negociados" de maneira pouco conseqüente do ponto de vista operacional. Trata-se "apenas" de cumprir acordos feitos anteriormente nas Casas Legislativas. Tudo para que o governo não fosse investigado. Até mesmo, a votação de uma emenda constitucional permitindo a reeleição dos presidentes da Câmara e do Senado está sendo "negociada". Mudar a Constituição neste item nos parece um exagero. Contudo, faça-se a "pequena política", útil ao momento, mesmo que às custas de uma Carta que deveria valer para gerações e não para legislaturas. A outra variável que surgiu na atual crise foi a contestação crescente da política econômica. A insatisfação social é crescente, como provam as últimas pesquisas de opinião. Fruto do alto desemprego e da falta de perspectivas de crescimento sustentado. Uma em cada cinco pessoas habilitadas ao trabalho está desempregada na região metropolitana de São Paulo. A taxa de desocupação do IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística está ao redor de 12% e desde o final de 2002 está acima de 10%. Trata-se de uma tragédia social, especialmente por alcançar principalmente as pessoas com mais de 40 anos e os jovens que se formam no ensino médio e superior. Além disso, há o subemprego e a informalidade sem que exista uma rede de proteção social capaz de detê-los. O relatório anual do BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento, divulgado neste último fim de semana, chama a atenção para a questão e levanta inclusive a hipótese de que as economias latino-americanas possam passar por mais instabilidades políticas em função da falta de esperança surgida pelo alto desemprego. Além disso, há o risco de que a recuperação econômica do continente seja abortada por esta deterioração das expectativas internas no que se refere às políticas econômicas e sociais e pelo provável início do aperto monetário, a partir do final deste ano, no mercado internacional. Num quadro como este, a crise "Waldomiro Diniz", detonou críticas à manutenção do atual status da política do Governo e abriu a oportunidade para movimentos paredistas como os dos fiscais agrícolas e da Polícia Federal. Começam a surgir "alternativas" à atual política econômica. Algumas absolutamente consistentes. Outras apenas utilizadas para que se possa "barganhar" apoio político junto a um governo mais frágil. Aparentemente, não teremos soluções definitivas no curto prazo para a atual crise política. Talvez porque ainda não tenha sido percebido pelos agentes que não se trata de algo episódico. Trata-se de algo mais profundo, da exposição mais explícita de nossas mazelas políticas, sociais e econômicas. Waldomiro Diniz, sem dúvida nenhuma, é um personagem menor. Contudo, um personagem que surge num horizonte carregado de problemas. É difícil fazer um prognóstico sobre como as coisas evoluirão. O Governo jura que na economia tudo continuará como dantes, combinando o "receituário ortodoxo" que ironicamente "legitima" o Partido dos Trabalhadores perante o "mercado". Esta certamente não é uma concepção abstrata. Conhecemos os resultados obtidos nos últimos anos por esta "ortodoxia", baseada numa racionalização estranha de uma realidade trágica uma vez que o país não cresceu. As imensas dificuldades da economia brasileira deixam evidente que será difícil permanecer dentro do padrão da atual política. "A sua manutenção é vista como fator crucial para que não haja retrocesso", diz Presidente Lula. Resta saber o que Sua Excelência dirá quando a sociedade perceber que sob o atual status da política econômica não haverá progresso. Como dizia Keynes, "problemas excepcionais requerem políticas excepcionais". O atual momento do país exige muita ousadia somada a muita responsabilidade. Waldomiro não imaginava que pudesse fazer tanto..._________ [email protected]* Economista e pós-graduado em Finanças. Foi Vice-Presidente e Presidente (1999-2002) da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais do Mercado de Capitais (São Paulo). _______
terça-feira, 23 de março de 2004

A Conspiração contra a Racionalidade

Francisco Petros* A Conspiração contra a Racionalidade "Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte? - O que eu vejo é o beco" (Poema do Beco) Manuel Bandeira (1886-1968) Um dos mais importantes pilares da teoria econômica e de finanças reza que os agentes se guiem pela racionalidade. Por razões objetivas. Pela observação dos fatos e por uma interpretação cerebral destes. Ora, de fato, seria muito difícil construir teorias baseadas na irracionalidade. Paradoxalmente, a análise da realidade nos mostra que a irracionalidade é um dos elementos mais presentes no cotidiano do mercado. A "exuberância irracional" sobre a qual Alan Greenspan falou há alguns anos. Às vezes nos perguntamos: como é possível que se formem ilusões tão grandes no mercado, esta "entidade" cujo pressuposto essencial é a racionalidade? As linhas acima são apenas um preâmbulo para sugerir uma reflexão sobre a realidade brasileira atual. Refiro-me não apenas à política econômica do Governo do Partido dos Trabalhadores, mas também à Política, com "P" maiúsculo. Afinal de contas, a dissociação da Economia e da Política, especialmente no que se refere à macroeconomia contém certo conteúdo arbitrário. A sugestão de que um Ministro da Fazenda ou um Presidente de Banco Central deveriam se guiar apenas pela "técnica econômica" não passa de elemento retórico para não dizer satírico. O momento atual é rico para que se faça uma reflexão sobre a possibilidade concreta de nos tornarmos de facto uma Nação que segue o caminho seguro do desenvolvimento e da modernidade. Entretanto, a realidade exuberante dos fatos recheia-se de uma irracionalidade que impressiona. No artigo anterior, comentei a natureza do sistema de metas de inflação e as suas contradições metodológicas e factuais na execução da política monetária por parte do atual governo. Agora temos a "surpresa": o fato de que o Banco Central ter reduzido a taxa básica de juros em 0,25% ao ano o que contraria a sua própria lógica, a mesma que julgamos sem lógica. Basta ler as notas da reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM) de janeiro e, principalmente, as de fevereiro e analisar se a redução de juros se justificava à luz da razão do Banco Central. Agora, em meio a uma crise política que põe à mostra da sociedade a alma do poder no Brasil, emergiu o debate sobre a consistência e a viabilidade da atual política econômica liderada pelo Ministro Antonio Palocci. De repente, começam a surgir vozes, surpreendentemente mais eloqüentes no campo oposicionista, de que não há nada de errado na condução da política econômica atual. Quiçá faltem apenas "correções", dizem os defensores da atual política econômica do governo.Este tipo de discussão resvala inclusive para a denúncia de que há quem deseje "o pior": uma "conspiração para que o governo fracasse". Todavia, o debate mais importante não se faz. Será que a seguinte combinação de políticas e fatores econômicos levará o país ao crescimento sustentável? (1) Metas de Inflação ao redor de 5,5%, incluindo as variações das tarifas públicas indexadas e juros reais ao redor de 10% ao ano; (2) Superávit fiscal primário de 4,25% do Produto Interno Bruto (PIB) que inviabiliza investimentos públicos em infra-estrutura; (3) Arrecadação tributária de cerca de 38% do PIB e que sufoca o consumo e o investimento doméstico; (4) endividamento público consolidado de 80% do PIB e 58% líquido (descontando-se as reservas); (5) passivo externo líquido (dívida + investimento externo) ao redor de US$ 300 bilhões (mais de 50% do PIB) e (6) reformas econômicas e do Estado, baseadas naquilo que é "politicamente possível" e não na discussão verdadeira das necessidades do país. Nem tratarei do fato de que estamos em meio a um ambiente externo amplamente favorável. Talvez em meio a uma "bolha", conforme já se debate abertamente na imprensa internacional. O mercado financeiro e de capital, local e internacional, parece acreditar que a "ortodoxia" do Governo do Presidente Lula da Silva será capaz de tornar a combinação de fatores acima exposta numa equação matemática que justifica os valuations do mercado acionário, a taxa de risco dos títulos externos, a taxa de câmbio atual e assim por diante. Há ainda outro argumento bastante sugerido nas rodas de economistas e analistas. Trata-se das tais "reformas microeconômicas". Afinal de contas, a "macroeconomia" vai bem para não dizer "perfeita", segundo a voz do consenso. Tais reformas microeconômicas dizem respeito ao barateamento do crédito, a regulação do setor elétrico, a maior liberação dos fluxos de capitais, etc. A "ortodoxia" macroeconômica gera "confiança". Um pouco mais de políticas microeconômicas e o sucesso vem por acréscimo... Ora, vejam... A Europa devastada pela II Guerra, a China pós-reformas econômicas iniciadas em meados dos 70, a Coréia e a Índia não adotaram este tipo de "macroeconomia". Ao contrário, estas nações fizeram enormes intervenções do Estado, via déficits fiscais controlados, desvalorizaram o câmbio frente ao dólar, adotaram vigorosas "políticas industriais", etc. Os resultados demonstram que, a despeito das diferentes fases de desenvolvimento destes países, houve expressiva diferença de crescimento do PIB em comparação ao que ocorreu nos últimos anos na economia brasileira. Cuidaram da macroeconomia dentro de um receituário que hoje é chamado de "heterodoxo". (Obviamente, quando digo "heterodoxo" não me refiro a receituários irresponsáveis de políticas econômicas). Será que alguém vai lembrar a "ortodoxia" Argentina dos anos 90 e início desta década? Sob a aura da política preconizada pelo FMI o país foi à bancarrota. À lona. Junto com a "macroeconomia responsável" recomendada pelo "mercado". (Lembro-me, no início dos 90, de uma capa de uma importante revista norte-americana com a foto de Domingo Cavallo, o "ortodoxo" Ministro da Economia da Argentina. O título: "The Big One"). Será que alguém lembra da Rússia? A sua "macroeconomia de mercado" levou-a ao calote, a reestruturação da dívida, ao caos microeconômico de sua já devastada indústria. Ficou mais cambaleante que o então Presidente Boris Ieltsin. No Brasil deveria haver pelo menos a "dúvida" de que há algo de errado na nossa macroeconomia. Ao invés do discurso fácil que versa sobre "conspirações" urdidas contra o Ministro da Fazenda e sua política econômica, a sociedade deveria se debruçar sobre alternativas inteligentes de macro e micro economia. O atual "pacto de poder" do governo que pode suportar a "governabilidade" do país e a sustentação da atual política econômica apenas sugere que se trata de um arranjo momentâneo de uma maioria política que pode estar a corromper o futuro do país. Espero que a sociedade brasileira não descubra tardiamente e de forma trágica (no sentido mais weberiano da palavra) que a Política e a Economia caminham tão juntas. Mais ainda: que a racionalidade teórica da ciência econômica e das finanças pode ser algo diferente do que ocorre na prática._________ [email protected]* Economista e pós-graduado em Finanças. Foi Vice-Presidente e Presidente (1999-2002) da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais do Mercado de Capitais (São Paulo). _______
terça-feira, 16 de março de 2004

Temos de debater a meta de inflação!

Francisco Petros* Temos de debater a meta de inflação! Uma pergunta, mas não há como não fazê-la no contexto do debate atual (ou "não-debate") sobre a política de juros do Banco Central (BC) à luz do estabelecimento das metas de inflação: alguém responsável, à "esquerda" ou à "direita", deseja a volta da inflação? Entretanto, foi nestes termos que o Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva respondeu à platéia dos que ousam debater as metas de inflação atuais. Disse o mandatário: "quando a meta de inflação é de 5,5% para este ano vem alguém questionar se não pode ser 6%. Quem quer que seja 6% vai querer deixar chegar a 7%, 8%, 9%". Concluo que o Presidente acredita que sempre haverá alguém com um incontido desejo de que a inflação seja crescente. Assim sendo, a meta fica como está! Ao invés de justificar de forma racional a meta de inflação de 5,5% em 2004, o Presidente apenas criou a "parábola da multiplicação das metas de inflação". (Ainda bem que não é o milagre!). Ao se mostrar um "ortodoxo" na matéria econômica, o presidente se desvia do real debate: o custo do capital e do Tesouro. De outro lado, se alguém debate a meta de inflação, torna-se um inflamado defensor da inflação. Pode?!Não sou defensor da inflação, não rezo pela cartilha da irresponsabilidade monetária. Todavia, acredito que tenho (todos!) o direito de colocar alguns aspectos relativos a este debate: A taxa básica de juros, atualmente em 16,5% ao ano, é o mais importante instrumento disponível pelo BC para "formar as expectativas dos agentes econômicos" em relação à política monetária futura. Ao manusear a taxa de curto prazo (conhecida como taxa Selic), o BC busca influenciar o que se chama de "estrutura a termo da taxa de juros", a chamada "curva dos juros" (curto médio e longo prazo). Note que o BC "busca influenciar", pois quem forma a "estrutura a termo da taxa de juros" é o "mercado". Aqueles que compram e vendem títulos públicos de diferentes prazos e privados (cujos prêmios de risco dependem da qualidade do emissor acrescidos da taxa básica de juros). Se uma meta de inflação é estabelecida de forma "errada", logo o BC vai "persegui-la", via taxa de juros de curto prazo (Selic), de forma mais custosa para todo o sistema econômico. E vice-versa. Mas, como é estabelecida a "meta de inflação"? Através da previsão de um determinado índice de preços ou de um conjunto destes que se torna(m) a meta de inflação. A partir do estabelecimento desta meta, o BC manuseia a taxa nominal de juros (Selic) para que a inflação "permaneça dentro da meta". No Brasil, o índice de inflação adotado para o estabelecimento da meta de inflação é o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor - Amplo) coletado nas principais capitais dos estados e baseado numa cesta de produtos que incluem desde alimentos até serviços públicos (água, energia elétrica, etc.). Ocorre que a variação de um índice de preços nem sempre significa alta da inflação. Um exemplo simples: se há chuvas em excesso numa região, os preços dos alimentos podem subir, mas isso não significa que subirão necessariamente de forma constante. Outro exemplo: se as cotações do mercado internacional de petróleo sobem, os preços dos combustíveis são majorados. No primeiro caso, o aumento da taxa de juros não contribuirá para "controlar as chuvas" que afetam a oferta de alimentos. No segundo caso, um aumento da taxa de juros no mercado local, não influenciará a cotação do petróleo que é uma commodity. É natural que, mesmo diante de "choques de oferta" ou variações de preços de commodities, a autoridade monetária esteja atenta para que estes aumentos não "se espalhem" por toda a economia. Ou seja, o BC deve ser conservador. Contudo, quando se analisa um conjunto enorme de variações de preços, é preciso muita acuidade, senão o BC seguirá sempre sendo "conservador" e a taxa de juros adquire um "viés altista". Afinal de contas, como saber se há alta de preços (variação de índices de preços) ou alta constante de preços (inflação de facto)? Esta é uma das razões pela qual o Federal Reserve, o Banco Central dos EUA não estabelece uma "meta de inflação", pois o Fed julga ser quase impossível fazer "uma leitura" correta sobre a evolução dos índices de preços. Contudo, é um acreditado guardião contra a inflação. Como agem os BCs com credibilidade? A exemplo do que ocorre na prática, usam uma combinação de "arte" e "técnica" e olham a economia como um todo. Pesquisam com profundidade as variações de preços e usam técnicas para projetar a inflação futura. Não desprezam os aspectos técnicos, mas também não os engrandecem. Analisam a realidade da atividade econômica, dos fluxos de capital, do mercado de trabalho e assim por diante. Assim como no caso da técnica, a realidade aparente também merece desconfiança dos responsáveis pela gestão da política monetária. Projetam, mas analisam possíveis erros. Agora vejamos o caso atual do Brasil. Os índices de inflação neste início de ano subiram em função de choques de oferta nos alimentos, altas anuais das mensalidades escolares (índices de preços ao e, no caso dos índices de atacado, em função de altas das cotações das commodities, como aço, produtos petroquímicos, metais especiais, etc. A atividade econômica persiste fraca, mesmo que crescente. Vem de um ano de recessão. O desemprego bate recorde. Os empresários se sentem inseguros. Houve alta de impostos. A partir de janeiro, o BC parou de reduzir a taxa básica de juros e começou a emitir "atas do COPOM (Comitê de Política Monetária)" sinalizando que "talvez" a inflação suba além da meta de 5,5%. Uma meta sobre a qual pesam dúvidas de natureza técnica. Será que as recentes altas de preços se tornarão altas constantes de preços (inflação)? Há demanda para isto? Com a sua atitude "ortodoxa", o BC instalou na sociedade e, em particular, nos agentes econômicos a desconfiança. Surgem as perguntas. Há algo errado em termos de inflação? Será que será possível crescer? Deterioram-se as expectativas. Mais um detalhe: quem estabeleceu a meta de inflação? O próprio governo, através do Conselho Monetário Nacional (CMN)! Sem a supervisão de nenhum órgão ou poder "independente". Apenas com base na sabedoria dos próprios policy makers. É como se um magistrado fosse ao mesmo tempo legislador e julgador de causas baseadas naquela lei que o próprio juiz criou. De um modo simplista, há "dois custos" numa economia nacional: (a) o custo da mão-de-obra (salários) e (b) os outros custos de produção. Os salários são estabelecidos pelo mercado de trabalho. Os outros custos são determinados pelo "custo de capital" que nada mais é do que o "custo de oportunidade" de consumir e/ou investir comparado à renda obtida pelas aplicações financeiras. Com efeito: quando uma sociedade aceita passivamente que um governo estabeleça uma meta de inflação sem discuti-la, está aceitando um determinado "custo de capital". É razoável que isto não seja discutido e debatido? É razoável que se deixe um tema tão caro à sociedade somente sob a "batuta" de um BC? É razoável que se onere o orçamento com pagamento de juros sem que se fiscalize a formação de seus custos? Política monetária é um tema muito complexo. Reconheçamos. O estabelecimento de metas de inflação necessita de muita reflexão, técnica e talento. Entretanto, não existe "suprema sabedoria" da parte de ninguém para dizer qual é a meta de inflação correta e como conduzir a política monetária à luz desta. Contudo, a melhor maneira de evitar erros grosseiros é debater, entender e fiscalizar a autoridade monetária. A diretoria do Banco Central não está acima da sociedade. Suas políticas merecem debate. Como qualquer outra entidade de natureza pública. Debater não quer dizer que se deseja inflacionar o país. O que se deseja é transparência!_________ [email protected]* Economista e pós-graduado em Finanças. Foi Vice-Presidente e Presidente (1999-2002) da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais do Mercado de Capitais (São Paulo). _______
terça-feira, 9 de março de 2004

Um país com destino certo

Francisco Petros* Um país com destino certo "Não há dúvida alguma que o Brasil é um país muito rico. Nós que nele vivemos; não nos apercebemos bem disso, e até, ao contrário, o supomos muito pobre, pois a toda hora e a todo instante, estamos vendo o governo lamentar-se que não faz isto ou não faz aquilo por falta de verba". (Marginália, 8-5-1920 - Lima Barreto). Uma das coisas mais fascinantes no Brasil é a capacidade do povo acreditar que vivemos num país que vai dar certo. Inexoravelmente este é o nosso destino. Esta talvez seja uma característica que se fundamenta na antiga dúvida se somos de facto uma Nação. Afinal de contas, a construção de uma Nação não é algo que possa ser dissociado da construção da própria cidadania, onde prevalece o senso de Justiça e o direito e o dever para com a Liberdade e o sentido do significado de Progresso. Aqui não importa a discussão sociológica ou política do que seja uma Nação, mas apenas a dúvida se Ela existe sem que haja cidadania onde a percepção da realidade é mais nítida, clara e transparente para a sociedade. Parece inegável de que existe este senso comum de estamos destinados ao sucesso. Se alguém levanta a menor suspeita de que talvez não consigamos "dar certo" é imediatamente considerado "pessimista", "anti-patriota", "desesperançado" e quem quiser debater o tema, em geral, é desqualificado. Veja o caso da política econômica atual. Suas premissas são de que o Brasil precisa de rígido controle fiscal com o objetivo de equilibrar a relação dívida pública/PIB, metas de inflação cumpridas à risca pelo Banco Central, liberdade para o fluxo de capitais externos, ou seja, o conhecido receituário proposto e fiscalizado por esta "entidade" denominada "mercado". Tais premissas parecem até razoáveis, na medida em que compõem aquilo que se consolidou na teoria e na prática como um padrão adequado para a condução da política econômica de um país. Porém, o que ocorre no Brasil é que este receituário é praticado sem que haja "espírito crítico" capaz de qualificar o significado de cada item deste receituário. E pouco se sabe o que alcançaremos com estas políticas.Vejamos alguns exemplos. No caso da política fiscal, o governo anterior e o atual construíram uma máquina arrecadadora que consome cerca de 38% do PIB e cujo resultado foi o de apenas estabilizar o nível de endividamento consolidado do setor público. No período de 2002/2003, apesar de toda contenção das despesas públicas, da queda do dólar (indexador de cerca de 20% da dívida mobiliária) e do aumento da arrecadação em mais de 15%, o endividamento público permaneceu estável em 52% do PIB. Enquanto isso, a infra-estrutura persiste num processo de deterioração, os investimentos em saneamento, saúde e educação são insuficientes para superar a histórica situação crônica em que vivem e o crédito público não contribui para a criação de novos negócios (e empregos). Basicamente, toda a melhoria dos resultados fiscais foi destinada ao serviço das dívidas interna e externa. Os juros são elevadíssimos e são justificados por uma política de "metas de inflação" sobre a qual sobram suspeitas. A meta estabelecida pelo próprio governo - sem revisão do Legislativo - é apertada, os índices de inflação são muito influenciados por variações sazonais de preços e pelas variações da taxa de câmbio. Assim, a formação da taxa de juros básica tem claro viés altista o que cria uma enorme transferência de renda entre o setor financeiro (os poupadores) e o setor real (os produtores). É impressionante que mesmo com severas dúvidas sobre o funcionamento do sistema de metas de inflação, uma imensa maioria de analistas, investidores, economistas e "formadores de opinião" elogiam a "credibilidade" do Banco Central. Alan Greenspan, o poderoso Chairman do Banco Central dos EUA, no seu depoimento junto ao Congresso dos EUA no último dia 25 de fevereiro, disse textualmente que o estabelecimento de uma meta específica de inflação não melhora as condições do Fed em cumprir os seus objetivos. No Brasil o sistema de metas de inflação é quase um dogma.A conquista recente da "estabilidade" da política econômica no Brasil é efêmera. Os fracos fundamentos da economia do Brasil estão obscurecidos pela maior expansão de liquidez do pós-guerra, fruto de taxas de juros negativas nos EUA e muito baixas nas principais economias mundiais. As reformas votadas no Congresso no ano passado são medíocres e incapazes de modificar a trajetória sofrível da taxa de investimento que perpetua a estagnação que vigora há mais de vinte anos. A reforma da previdência social não significou mais que 0,2% do PIB de economia para os cofres públicos. A reforma tributária sequer ocorreu. Foi um arremedo, uma luta federalista pala divisão do bolo da arrecadação. Muito provavelmente teremos mais um ano de alta da arrecadação.Mas não faltam otimistas a pregar em favor do "reformismo" do Presidente Lula. Através dele adentraremos numa nova era de crescimento sustentado. Mesmo com pobres argumentos, os tais analistas e "formadores de opinião" são capazes de convencer a sociedade de que "estamos no caminho certo". O Ministro Antônio Palocci tornou-se o símbolo deste tempo de estabilidade (sic). É considerado um animal político incapaz de adicionar risco. Um homem previsível, sereno e conciliador. Um ícone deste tempo.De minha parte, não consigo me lembrar de um país que tenha sido capaz de se transformar para melhor sem arrojo, sem homens que tenham assumido riscos e contrariado o senso comum. Talvez o Brasil seja a exceção da história e o seu destino realmente esteja traçado. Será de glória. Percorrerá um caminho virtuoso onde tudo de bom ocorrerá. Os bons efeitos virão, sem causa aparente. Tal qual uma benção divina. Um milagre. Talvez esta seja a razão para que não seja necessário o debate sobre aquilo que, em princípio, seria importante para o país. Podemos vibrar, pois já vivemos o fim da História. _________ [email protected]* Economista e pós-graduado em Finanças. Foi Vice-Presidente e Presidente (1999-2002) da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais do Mercado de Capitais (São Paulo). _______