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Política & Economia NA REAL n° 141

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Atualizado em 21 de fevereiro de 2011 14:30

A cobrança apenas começou

Foi mais fácil até do que o próprio governo imaginava aprovar o salário mínimo de R$ 545 na Câmara na semana passada. Mais tranquilo ainda o será no Senado. A oposição está aparvalhada (ver nota abaixo) e os sindicalistas sem brios depois de tudo que receberam do ex-presidente Lula. O gosto por cargos comprou fidelidades surpreendentes na amorfa base aliada. O desejo de preservar as emendas dos cortes do facão de Mantega fez o resto. Além disso, a questão do equilíbrio das contas públicas e suas conexões diretamente na veia com o ajuste do salário mínimo : a defesa de um ajuste muito alto pode cheirar a demagogia e tem eco contrário nos formadores de opinião e no chamado mercado. A presidente Dilma e os seus jogaram habilmente com isto.

Outros embates

Há outros embates armados para o governo nos quais uma grande parte desses fatores não se repetirá. É o caso do reajuste de mais de 50% para todo o Judiciário (ao custo calculado de R$ 6 bilhões anuais) e o da equiparação dos salários dos policiais civis e militares e dos bombeiros de todo o país aos de seus colegas de Brasília (mais R$ 40 bilhões ao ano). As emendas parlamentares já terão sido podadas, os cargos distribuídos - para cada parlamentar satisfeito haverá pelo menos dois ou três lamuriosos. Mas, além e acima de tudo, as corporações com interesses nesses projetos têm um poder de pressão direta infinitamente superior ao dos acomodados dirigentes das acoelhadas centrais sindicais.

Agora, é para valer

O ministro Guido Mantega terá de dizer esta semana de onde vai tirar os R$ 50 bilhões que prometeu economizar para bater com força na inflação. Ainda mais depois que se soube que o governo capitalizou mais ainda o BNDES e a CEF. Ampliando a capacidade dos dois bancos de conceder empréstimos numa conjuntura em que a ordem é a de moderar o consumo. Há contradições insanáveis entre medidas anunciadas e outras adotadas. E elas já começam a criar ruídos entre o Ministério da Fazenda e o BC. Quem precisa inspirar confiança deve comprá-la todos os dias.

Para não furar o teto

Os primeiros movimentos do governo, no momento, não são para trazer a inflação, hoje correndo nos 6% anuais, para mais próximo do centro da meta estabelecida, de 4,5%. A luta é para não deixar que nos próximos meses a corrida dos preços bata no teto dos 6,5%. De aí em diante o risco é, pela perda de credibilidade, a corrida se acentuar.

Cortando vento

As vozes oficiais escondidas de sempre estão apresentando o provável adiamento para o ano que vem da compra dos novos caças para a Aeronáutica como uma demonstração de que o governo vai mesmo fazer uma decisiva "conciliação" fiscal. Tão decidido que não se importa até em desagradar os militares - a Marinha também deixaria de ganhar novos barcos. É tudo conversa para bois, vacas, bezerros e outros mamíferos caírem no sono. Mesmo que o governo decida comprar novos equipamentos para aviadores e marinheiros, nenhum tostão seria gasto este ano, os pagamentos começariam apenas a partir de 2012, quando, nas previsões do ministro Mantega, as contas públicas conciliadas estarão navegando em mar de almirante e voando em céu de brigadeiro.

Falta de credibilidade fiscal

O governo está subestimando a ausência de credibilidade em relação aos cortes no orçamento propostos. Semana passada os autores desta coluna estiveram reunidos com importantes formadores de opinião do mercado financeiro. Quase sem exceção os investidores não levam a sério os propósitos governamentais. No fundo a grande maioria aposta numa inflação mais alta e num crescimento mais baixo. Não à toa, há toda uma gama de operações para reduzir a participação das operações de risco nas carteiras de bancos e fundos. Este é um fenômeno generalizado que obviamente não é comentado nos jornais.

Ex-ministros

Por mais que se diga o contrário, o ministro Carlos Lupi, do Trabalho, entrou irremediavelmente na lista dos futuros ex-ministros, já habitada, entre outros por Fernando Haddad, da Educação, e Pedro Novais, que muitos dizem, mas não comprovam, dirige o Turismo. Nela pode entrar em futuro próximo Orlando Silva, dos Esportes. Tudo sob a observação do ministro das Relações Institucionais, Luiz Sérgio, auxiliar de Antonio Palocci e Michel Temer na articulação política.

Reforma política

Se os brasileiros não ficarem atentos - e muito atentos - vão ser agredidos pela reforma política que está sendo industriada por José Sarney e Michel Temer no Congresso e por Lula com os partidos aliados, como ele promete fazer depois que voltar à ativa, após o Carnaval. Neste campo, o que é bom para o poder político não é bom para a sociedade. E adivinhem quem vai ganhar, de goleada, esse jogo ?

Timing das reformas

Aparentemente os políticos brasileiros esticarão a corda até que as pressões populares por reformas se tornem acesas nas ruas para que de fato estes ajam. O ex-presidente Sarney parece gostar de comentar a crises nos países árabes, mas esquece de mencionar que estas crises são fruto da letargia em executar reformas e no apego desmedido com o poder.

Leilão reverso

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, está leiloando seu cacife eleitoral, cujo tamanho real somente será conhecido quando ele não tiver mais a prefeitura e o apoio do governo estadual ao alcance, entre o PMDB e o PSDB e, em menor escala, até com o próprio DEM. Kassab está tão convicto de que tem o controle do processo que ainda nem desconfiou que os acenos recebidos dos socialistas do governador Eduardo Campos têm o dedo de Brasília e do PT. Não é do agrado dos líderes da aliança federal que o PMDB ganhe mais alguns deputados em Brasília e fique maior que os petistas na Câmara. O leilão tem tudo para virar-se contra o leiloeiro.

Ilusão à toa

Depois de quarta-feira, o ego do PMDB e de sua direção não cabe em nenhuma galáxia. Vai desinflar antes que o galo cante três vezes, assim que o ministro Palocci, por delegação da presidente Dilma Rousseff, começar a alimentar o Diário Oficial com as nomeações do segundo escalão.

É punir ou punir

Se os petistas dissidentes no salário mínimo não forem exemplar e sumariamente "executados", vai ser duro segurar a fidelidade dos outros parceiros aliados em futuras votações no Congresso.

Ser ou não ser

A oposição continua paralisada entre a mineira moderação de Aécio Neves e o neoradicalismo de José Serra. O rolo compressor que Dilma está acionando - ela está se mostrando mais eficiente até do que Lula neste quesito - não justifica a apatia que PSDB, DEM e PPS vêm mostrando nesses dias. Falta direção e sobram fogueiras de vaidades e ambições entre os ditos - mas não provados - oposicionistas. É certo que o embate do salário mínimo era delicado. O salário piso dos brasileiros é de fato baixo, ridículo, humilhante. Porém, havia e há questões muito sérias em torno dele - a repercussão do reajuste nas contas oficiais por conta de distorções existentes na economia. Brigar por um mínimo elevado sem mostrar como corrigir estas distorções é mesmo demagogia. Dizer que dá para dar mais simplesmente cortando a conta dos juros é repetir o discurso do PT no passado e até de alguns petistas no presente - demagogia também. Mesmo enredada nessa armadilha sobra espaço para a oposição aparecer, crescer e acontecer : o desarranjo fiscal, a inflação, o câmbio, os juros, as contas externas, o peso dos impostos, o rombo da previdência, só para ficarmos nos mais urgentes. A oposição ganha se levá-los para o Congresso, com propostas concretas para solucioná-los. Não basta "twitalos" ou exibi-los em discursos vazios. Deste modo a oposição caminha para se tornar mais irrelevante do que já está.

Sindicalismo e representação política

Por mais que seja pouco comentado, o setor sindical brasileiro é um dos mais atrasados segmentos sociais e políticos brasileiros. As centrais sindicais ligadas ao governo estão paralisadas e procurando posições no governo para os seus apaniguados. As outras centrais buscam espaço em discussões pontuais como no caso da votação do salário mínimo e, até mesmo, chegaram a defender pela voz de Paulinho da Força a volta dos bingos. Os sindicatos não representam de fato os trabalhadores e são financiados concretamente pela existência de um imposto sindical obsoleto e útil às lideranças sindicais. Triste sina do movimento dos trabalhadores, tão importante na redemocratização dos anos 80.

Aécio e os sindicatos

Está certo o senador e ex-governador Aécio Neves quando trata da ampliação da base de apoio oposicionista. Não faz sentido que a conquista de espaços com vista à reconquista do poder central seja feita a partir de um eleitorado já conquistado. É preciso ir buscar apoio em outros segmentos sociais. Todavia, não deixa de ser irônico que o mineiro busque apoio nos sindicatos carentes de representatividade e com mazelas e práticas políticas que chegam a assustar. A modernidade que Aécio quer trazer à tona não combina com esta percepção tão arcaica.

O Panamericano e os "balanços apócrifos"

A CVM aprovou a publicação das informações financeiras pela nova diretoria do Panamericano sem que os dados passados sejam passíveis de responsabilização por parte da atual diretoria. Esta decisão aparentemente se deve a constatação de que os controles internos do banco eram deploráveis. A pergunta que não quer calar é : quem então assumirá a responsabilidade pelo passado ? E o BC ? Nada sabia disso tudo ? Finalmente, se as contas não são confiáveis, como foram calculadas as provisões e o preço de venda do banco ? Tudo muito obscuro...

Variáveis dos mercados

O otimismo com o mercado acionário norte-americano está se generalizando. Todavia, este tem de sair dos operadores e "contaminar" a economia real. Uma trajetória e tanto. De toda a forma, a liquidez crescente das bolsas americanas e os resultados corporativos positivos projetam uma recuperação consistente, mesmo que ainda insuficiente para espalhar otimismo generalizado. O mesmo ocorre na Alemanha e, em menor medida, na França. O maior risco mesmo vem do Oriente Médio. O petróleo está num nível acima dos estimado pelos especialistas, o mais alto dos últimos dois anos. Isto pode conter a recuperação mundial (especialmente a dos EUA) e aumentar a inflação. Assim sendo, a nossa melhor estimativa indica que vamos vivenciar um período mais turbulento nos próximos dois meses. O aumento da volatilidade é evidente em que pese o fato de que a tendência favorável às ações americanas está intacta. Nos mercados emergentes, especialmente no Brasil, a tendência é negativa. Nada muito acentuado, mas a melhor fase passou. É preciso esperar um pouco mais para apostar no otimismo.

México, depois de muito tempo

Não são poucos os investidores que estão apostando que o México será o destaque dos emergentes neste ano. A inflação cai, o PIB deve crescer no ritmo mais forte na América Latina e a alta do petróleo pode ser favorável. A verificar.

Radar NA REAL

18/2/11 TENDÊNCIA
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(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).
(2) Em relação ao dólar norte-americano
NA - Não aplicável