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Política & Economia NA REAL n° 64

terça-feira, 11 de agosto de 2009


O furacão Marina

Nada indica, com certeza, que a ex-ministra Marina Silva vá aceitar o convite do PV para disputar a sucessão de Lula. Nada indica também que, aceitando concorrer, ela vá se transformar na terceira via, no "fato novo" que alguns ainda esperam ver na corrida sucessória para sacudir o ramerrão PT-tucanos. Porém, o simples surgimento do nome da senadora acreana na liça sucessória já balançou o coreto da candidatura Dilma. O governo já percebeu que ela pode arrancar votos da preferida de Lula muito mais que arrancará de Serra. Depois é uma candidata dura de ser combatida. E afasta o caráter plebiscitário que Lula quer dar à campanha. O também candidato Ciro Gomes acha que Marina implode o coreto de Dilma. Pode ser que não chegue a tanto. Mas o susto que ela já causou nas forças governistas mostra a fragilidade em que estão assentados os pressupostos da solução Dilma, idealizada solitariamente por Lula. Aconteça o que acontecer daqui para frente, Lula terá de rever sua estratégia e quem sabe preparar um plano B.

De patinho feio a cisne

Desde o momento em que o PV colocou oficiosamente o nome da ex-ministra na roda sucessória, muitos companheiros petistas da senadora redescobriram o número do telefone celular dela. O número havia sido perdido por eles quando Marina, quebrando uma praxe na administração pública brasileira, pediu demissão do ministério por não concordar com ações ambientais do presidente Lula e de Dilma. Alguns redescobriram até as boas maneiras, o modo civilizado de tratar os correligionários, mesmo quando há discordâncias conceituais.

O que devemos a Sarney ?

Além das numerosas e sérias denúncias que cercam o velho político do Maranhão, muito se fala do zelo que se deve ter em relação à "biografia" de Sarney. Ora, do que estamos mesmo a falar ? Do fato de Sarney ter "conduzido" a transição política pós-ditadura de forma "democrática" ? Bem, falta amor à verdade àqueles que formulam estas recomendações. As mais importantes marcas de Sarney estão ligadas aos seus feitos enquanto oligarca de um dos Estados mais pobres da federação e aos seus longos e lucrativos anos dedicados ao regime militar. Era ele o presidente do PDS, partido sucessor da ARENA, que sustentou os mandatos presidenciais dos generais, quando as eleições diretas foram rejeitadas pelo Congresso Nacional em 1982. Mudou de lado quando pressentiu a mudança política motivada pelos ventos democráticos vindos da sociedade e pôs-se ao lado de Tancredo. O resto nós já sabemos (e lembramos).

Sarney e seu desastroso governo

O seu governo (1984-1989) foi um dos maiores desastres desde o início da República, marcado por denúncias de corrupção, hiperinflação e fragilidade externa. Seu maior feito foi obter o direito a um mandato de cinco anos durante a Assembleia Constituinte, sob ameaças vindas do então ministro do Exército Leônidas Pires Gonçalves. Feito pouco "democrático", pode-se notar. Deixou o governo sob vaias e xingamentos do seu atual aliado Collor. Manteve o poder para se manter oligarca. Foi assim que percorreu a trajetória recente ao longo dos períodos de Itamar, FHC e Lula. Entre barganhas e manobras eleitoreiras. A biografia política de Sarney não é edificante. Sua atuação recente e histórica é vergonhosa. Tê-lo ainda presente na cena política é uma tragédia. Nada obriga ninguém a apoiar uma pessoa com esta biografia. Apenas os seus colegas de Senado necessitam descobrir isto.

EUA : recuperação consistente, lenta e gradual

A recuperação da economia norte-americana (25% do PIB mundial) está como a abertura política pós-ditadura militar nos anos 70 e 80 : lenta e gradual. Todavia, não é ainda segura. A taxa de desemprego de julho (9,4% da força de trabalho), abaixo da taxa esperada (9,7%), é uma boa notícia num contexto ruim. Além disso, dois dados adicionais são animadores : (i) a revisão para baixo, mesmo que em pequena medida, do dado de desemprego de junho, e (ii) o aumento das horas trabalhadas, a primeira desde setembro de 2008. E por que não é segura a recuperação ? Por duas razões gerais : (i) a taxa de investimento permanece muito baixa e é parcialmente compensada por investimentos públicos que causam riscos fiscais no médio prazo e (ii) o sistema financeiro permanece incapacitado e reticente em aumentar a carteira de crédito, item essencial para fomentar o aumento do consumo nos EUA. De toda a forma : o mercado de ativos (renda fixa e variável) está em rota de recuperação. Isto há de ajudar nas expectativas.

Europa : recuperação lenta e desproporcional

Os indicadores de atividade econômica e emprego na Europa não deram evidências de que a recuperação está à vista. Na semana passada, o Banco Central Europeu deixou claro que a recuperação é possível a partir do final do ano, mas que os sinais são tênues. Há outro problema sério na administração da política monetária na zona do euro : há diferenças discrepantes entre a atividade econômica na Alemanha e França (maiores crescimentos, especialmente no caso alemão) e os países meridionais - Espanha e Itália permanecem com dados sofríveis e ainda piorando (como é o caso do mercado laboral espanhol). Neste contexto, a política monetária tem de "espelhar" a média dos cenários. A dispersão dos dados faz com que a eficiência da política de juros seja prejudicada.

BRICs : Índia e China à frente

Tanto a Índia quanto a China têm sido bem avaliadas pelos analistas e investidores no que se refere à taxa de crescimento. Ambos os países tiveram os seus crescimentos reavaliados para cima : Índia de 5% para 7% este ano e China de 6% para 7%. A recuperação do setor industrial de ambos os países é notável e vai ajudar, sobretudo no caso chinês, a levantar os preços das commodities. (Neste sentido, por que não avaliar investir na Vale ?). Note-se que tanto a China quanto a Índia estão a fazer esforços fiscais muito menores que a média dos países centrais e mesmo em comparação ao Brasil. A Índia, por exemplo, teve quase que totalmente preservado o seu sistema financeiro (como no caso do Brasil.) A China não tem dados confiáveis sobre a qualidade do sistema financeiro - há quem afirme que é "quebrado" - o regime comunista também esconde números econômicos dos olhos mais curiosos.

BRICs : Brasil atrás e Rússia mal

O Brasil está apresentando uma recuperação consistente de sua economia. Consumo e investimento (em menor medida) sobem. O esforço fiscal do governo está a produzir bons resultados. Todavia, os gastos correntes (e permanentes) crescem maiusculamente e os riscos do médio prazo estão a subir muito. Este é o grande diferencial, digamos, de "qualidade de política econômica" quando analisamos o nosso país em relação à China e Índia. O caso da Rússia é mais específico : o sistema financeiro é bem mais frágil, a dependência do petróleo - com preços bem mais baixos que nos últimos anos - é barreira séria para a retomada da atividade econômica. Além disto, lá como cá, o Banco Central foi bem mais cauteloso na redução da taxa de juros - na semana passada, o BC russo reduziu pela quinta vez a taxa de juros (de 11% para 10,75% ao ano). A inflação lá ainda é bem alta que na média dos países emergentes.

Radar NA REAL

Temos insistido há alguns meses nesta coluna em relação à melhoria do cenário econômico mundial, embora reconheçamos os riscos relevantes ainda presentes no cenário. O posicionamento crescente e de longo prazo em ativos de maior risco (títulos de renda fixa e ações) é recomendável. Os investidores devem balancear as suas posições em conformidade com aquilo que é aceitável em relação ao patrimônio total. Este é sempre o melhor controle de risco, além da recomendável diversificação entre mercados e ativos. Chamamos atenção para os nossos leitores em relação ao dólar. Não acreditamos que o real (e nem outra moeda relevante no mercado) possa se valorizar substantivamente em relação à moeda norte-americana. Todavia, no caso do Brasil, o dólar pode ser um excelente hedge (proteção) para aqueles que tem investido em ativos de maior risco. Finalmente, um alerta que temos feito (e que tem se refletido no mercado) em relação aos títulos prefixados de médio prazo no Brasil. O futuro desempenho das contas fiscais brasileiras há de comprometer uma queda maior dos juros. A hora é de ficar em pós-fixados enquanto o governo não sinalizar como tratará o problema a partir de 2010. Lembrando que em tempo de eleições ninguém gosta de tratar de "coisas chatas" como essa...

7/8/9

 

TENDÊNCIA

SEGMENTO

Cotação

Curto prazo

Médio Prazo

Juros ¹

 

 

 

 - Pré-fixados

NA

estável

alta

 - Pós-Fixados

NA

estável

estável/alta

Câmbio ²

 

 

 

 - EURO

1,4198

alta

alta

 - REAL

1,8300

estável/baixa

alta

Mercado Acionário

 

 

 

 - Ibovespa

56.329,51

estável/queda

estável/alta

 - S&P 500

1.010,48

estável/alta

alta

 - NASDAQ

2.000,25

estável/alta

alta

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).
(2) Em relação ao dólar norte-americano
NA - Não aplicável

Mercado acionário dos EUA à frente da Bovespa

Já dissemos em colunas de semanas anteriores : acreditamos que as bolsas norte-americanas terão desempenho relativo superior às ações brasileiras. Lá os ativos, sobretudo em alguns setores como o financeiro, estão muito depreciados. O cenário mercado de ações brasileiro é positivo, mas para se ganhar dinheiro será necessário correr mais riscos em setores menos importantes e empresas menos dominantes em termos de mercados e posição financeira. A hora é da "seleção de ações" - o mercado como um todo pode ficar parado enquanto certas ações hão de tomar o caminho da alta - as ações de segunda linha.

Inflação e bola de cristal

Segundo Eulina Nunes dos Santos, coordenadora de índices de preços do IBGE, "o IPCA em 12 meses está com tendência de queda desde março, mas é uma incógnita (grifo nosso) se ela continuará em agosto". Bom, este é o tipo de afirmação que não serve pra nada, além de complicar. Afinal, por definição, a taxa de inflação é endógena, ou seja, formada pelo mercado. A inflação no Brasil caiu por três motivos : (i) a crise que conteve o aumento de preços, (ii) a queda dos preços das commodities e (iii) o dólar que despencou (nos últimos meses). Ora, a taxa da inflação vai depender da evolução destes fatores. Tudo indica que as coisas estarão sob controle, mas a incógnita persistirá à solta. De todo modo : não aposte na alta da inflação no médio prazo. Use o bom senso, não a bola de cristal.

O New Approach contra o terrorismo

Foi sintomático o anúncio do Assistente de Segurança Interna e Contra-Terrorismo da Casa Branca, John Brennan, na última sexta-feira em Washington. Estava ao lado da Secretária de Estado Hillary Clinton. Foi afirmado que os EUA, embora persigam o objetivo de prover segurança para os norte-americanos, hão de apostar na "diplomacia" para enfrentar os grupos terroristas. O que significa "diplomacia" na linguagem da Casa Branca ? (I) apostar na estratégia de não-proliferação de armas de destruição em massa, (ii) luta contra a fome e a pobreza em área conflagradas, (iii) reforço das políticas e ferramentas contra ataques cibernéticos e (iv) reconstrução de alianças na área de inteligência. Tudo muito interessante. Mas...

 Falta clareza na execução

Quem acompanha a política externa norte-americana está confuso sobre prioridades. Sabidamente, o Império não pode e não tem condições de atuar em larga escala nos múltiplos e enormes riscos geopolíticos. Até agora, não se sabe ao certo como serão tratadas as pendências com Irã, o conflito com os palestinos, as ameaças da Coréia do Norte e a guerra afegã. Esta é a verdade. No caso do Iraque, apesar de todo alarde dos discursos de Obama, a estratégia adotada foi igualzinha a de Bush Jr. A "visita" diplomática de Bill Clinton à ditadura coreana resvala neste contexto : há tempos não se via uma foto do ditador coreano. O que os "negociadores" americanos não conseguiram, Bill com aquele seu jeitinho fez valer e libertou prisioneiros. Pode ter conversado com a esposa sobre o assunto, mas os parceiros dos EUA ficaram atônitos. Sem saber como os EUA tratarão os mísseis daquele déspota maluco...

E agora a Colômbia...

A confusa política externa norte-americana também repercute na América do Sul, região para a qual não existe sequer representante no Departamento de Estado. Os EUA vão instalar bases no país de Uribe e irão ter uma posição militar suficiente para atender aos interesses internos (conter a entrada de drogas) e externos (espiar por cima da fronteira de Equador, Bolívia e o fanfarrão do Chávez). Em tempo : Uribe foi um dos três líderes de países que receberam a Medalha da Liberdade, maior condecoração dos EUA ao final do ano passado. Junto com Tony Blair e o ex-primeiro-ministro australiano John Howard. Das mãos de Bush Jr., Uribe é também "queridinho" de Obama, assim como era de Bush. Não é somente o caso de Lula.

O teste real

A política externa e de contra-terrorismo dos EUA será testada de verdade quando um ataque mais sério acontecer no país ou em algo (ou lugar) que contrarie os interesses do país. O resto, por enquanto, é discurso. Infelizmente.

Sotomayor na Suprema Corte

Na nota do Congresso dos EUA que anunciou a nomeação (aprovada por 68 votos a favor e 31 contra) de Sonia Sotomayor para a alta corte americana foram listadas as suas virtudes : "ela tem o intelecto, o temperamento, o histórico de integridade e a independência mental para habilmente servir a corte mais alta de nosso país". Bom, há algum tempo não vemos pelos nossos lados alguém que reúna estas qualidades somadas...

O (não) acordo ortográfico

O Acordo Ortográfico entre os países de língua portuguesa é daqueles que Franz Kafka adoraria romantizar. O acordo não foi adotado em Angola, nem em Guiné-Bissau, nem em Moçambique e, agora, parece que tem grandes chances de não ser adotado em Portugal ! Os maiores grupos editoriais de Portugal (Leya e Porto Editora) não irão adotar o vernáculo unificado. Enquanto isto, nesta Ilha de Vera Cruz, estamos a mudar a nossa escrita, a abandonar sinais gráficos que lutamos para aprender nos bancos escolares e a revisar nossos escritos com algum sofrimento e tensão. Será que o tal Acordo (ou desacordo) será investigado por alguém "neste país" ? A distinta população está a aprender novas regras em vão ?

Quem sabe ?

Por que não voltamos ao latim ? Quem sabe encontrássemos uma língua comum entre os países que falam português.

Em inglês e português

Curioso o fato de as mensagens que admoestam os possíveis fumantes de locais públicos em SP estarem escritas em português e inglês. Trata-se de algo realmente especial. As mensagens que fazem alertas sobre o uso de elevadores, por exemplo, são em apenas um idioma. Talvez fumar seja mais perigoso que cair no fosso do elevador. Ou será "estratégia de marketing" ?

O velho Rui sabia das coisas

Rui Barbosa, patrono do Senado Federal, um grande brasileiro. Vejamos o que dizia em seu tempo : "Da política, todo o mal que dela se disser, jamais dará a medida da realidade. Eu sou um de seus convictos detratores". Em outra ocasião afirmou : "política miserável e odiosa de nossa terra", "infecto fervedoiro político". Trechos extraídos do magnífico "Três Discursos" de Goffredo da Silva Telles Junior, publicado há pouco pela Editora Migalhas. O que diria hoje ? Agravaria as palavras ?

Tiroteio - 1

De um maldoso político profissional de plantão em Brasília : "O verdadeiro PAC 2 do presidente Lula é a eleição da ministra Dilma Roussef".

Tiroteio - 2

Do mesmo maledicente, agora apelando para um trocadilho : "A Yeda vai ser 'crusius' do Serra ou do Aécio".

Tiroteio - 3

Do mesmo autor, com apoio numa gíria "técnica" : "Collor voltou a exibir grande 'brilho' no Senado".

Para mostrar serviço

O chanceler alemão Otto Von Bismarck dizia que "leis são como salsichas. É melhor não ver como elas são feitas". Na semana passada, quem assistiu à sessão de discussão de votação da MP 460, viu o presidente da Câmara, Michel Temer, fazer tudo e um pouco mais para provar que a máxima de Bismarck vale também para o Brasil. Atropelou regras, regulamentos, ponderações maduras de parlamentares, para votar de qualquer modo a MP. A intenção é fazer a Câmara funcionar a qualquer custo para tentar diferenciá-la do complicado vizinho Senado. O risco é aprovar barbaridades.

Dias agitados

Se o calendário for observado, esta semana teremos a divulgação de estatísticas e pesquisas para dar o que falar.

1. Os resultados da arrecadação federal em julho em plena efervescência da crise na Receita Federal provocada pela demissão de Lina Vieira. Um mês depois Guido Mantega ainda não encontrou um substituto.

2. Os resultados das contas do Tesouro Nacional também de julho, já sob o impacto do aumento concedido a diversas categorias de servidores públicos a partir do mesmo passado.

3. As pesquisas eleitorais CNT/Sensus e CNI/Ibope já sob os efeitos do episódio Sarney, mas ainda sem o fator Marina. Aliás, a divulgação desses dois levantamentos já está ligeiramente atrasada...

Mais uma do causídico

O humorista Luis Fernando Veríssimo inventou o Analista de Bagé, personagem que tratava a ciência da psicanálise a coices e chicotadas. Seu conterrâneo Tarso Genro deu à luz o "Jurista de São Borja", que também trata com 'delicadeza' os princípios do Direito. A mais recente contribuição do Ministro da Justiça ao pensamento jurídico foi sentença declarando que a censura que o desembargador Dácio Vieira impôs ao "Estadão" não foi censura. Quem sabe, nesses tempos do "politicamente correto", na ótica de Genro, a proibição de um jornal publicar uma notícia deva ser chamada de "supressão temporária de texto desagradável aos amigos".

Atualizado em: 10/8/2009 15:16