segunda-feira, 18 de outubro de 2021

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Porandubas Políticas

Por dentro da política.

Gaudêncio Torquato
quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Porandubas nº 733

Abro a coluna com uma historinha que me foi contada pelo ex-senador Ramez Tebet, saudoso amigo. Por ocasião da criação do Estado do MS, em 1979, a população de Campo Grande ficava assombrada com a caravana dos 17 grandes carrões pretos dos deputados estaduais que paravam diante da Assembleia Legislativa. Os carros ganharam logo o nome de "besourão" e, ao passarem pelas ruas, as pessoas logo faziam o sinal da cruz, na tentativa de afastar o medo daqueles carros que mais pareciam transporte de defunto. Ninguém se atrevia a andar num carro daqueles. Até que um dia, ao comparecer ao velório de um correligionário, numa cidade do interior, dirigindo um desses carros, o então deputado Ramez Tebet teve que atender ao pedido da família do defunto. Queriam por que queriam que o defunto fosse levado naquele carro. Nessa hora, não dá para negar. E lá vai o deputado carregando o caixão de defunto em seu "besourão". A história se espalhou por todo o Estado. Assim a fama negativa do carrão preto foi dissipada. O "besourão" passou a ser visto com outros olhos. A boa fama só veio, por incrível que pareça, depois de ter conduzido um defunto. Panorama geral Comecemos a coluna com um breve olhar sobre a política e seus contornos. Quem esperava um novo estilo Bolsonaro de ser acabou vendo o mesmo governante. Na ONU, fez um discurso com foco nos simpatizantes. Foi um périplo péssimo para a imagem do país. Na esfera parlamentar, o vai que vai à moda maria-fumaça. Muita fumaça e pouco fogo. Acomodação geral, com pautas que se perpetuam. Arthur Lira trabalha com um olho na reeleição para a presidência da Câmara. E parece enguia ensaboada quando se trata de matéria de interesse governista. Augusto Aras voltou à PGR, com jeitão independente, mas voltando ao estilo de bater continência ao constatar que pode ser o plano B de Bolsonaro para o STF, caso André Mendonça não emplaque. Impressão geral: tudo d'antes no quartel d'Abrantes. Pergunta recorrente O relatório da CPI da Covid-19, a cargo do relator senador Renan Calheiros, será encaminhado ao PGR, Augusto Aras, que, segundo o presidente Omar Aziz, de tão substancioso, não terá o destino da gaveta. Alguma providência será tomada, incluindo o presidente Jair Bolsonaro. Será encaminhado também ao STF e, segundo alguns juristas, ao Tribunal Internacional de Haia. Se metade das expectativas se confirmarem, o restante do ano terá esse tema como um dos pilares centrais da política. Quem acredita em punição do presidente da República, levante a mão: um, dois, cinco, sete.......só? Aras com cara de paisagem A dúvida começa com o PGR, Augusto Aras. Dará andamento ao relatório? Insatisfação cresce Some-se a avalanche das crises - a econômica, sanitária (que deve furar o ano novo), política e energética - e veremos o impacto sobre a população. O Auxílio Brasil poderá atenuar efeitos, mas a alta de alimentos e o preço da gasolina são combustíveis de fácil explosão. O presidente vai correr o país para comemorar seus mil dias de governo. Ouvirá impropérios mais que aplausos. Deus é brasileiro, mas nessa hora manda seus arcanjos tocarem a trombeta anunciando tempos de vacas magras. A conferir. Fusão DEM-PSL A fusão do DEM e do PSL poderá resultar no maior partido de direita do país. ACM Neto é o pai da ideia. E sua intenção é direcionar o partido na direção de Bolsonaro. O Brasil está mudando de feição e índole, mas Neto mais parece um barão das antigas, cioso dos limites de sua propriedade. Quer tomar o lugar do Centrão no latifúndio governamental. Há interesse de muita gente, mas essa fusão tende a ser uma grande confusão. Pacheco e Alckmin Rodrigo Pacheco tem um pé dentro do PSD de Kassab, que lhe prometeu a condição de vir a ser o candidato do partido à presidência da República em 2022. Geraldo Alckmin está também com um pé dentro do PSD. Seria candidato de Gilberto Kassab ao governo de São Paulo. Tem boas condições de se eleger. Sabe costurar tecidos esgarçados. Mas é precavido. Quer tomar mais pulso antes de uma decisão. P.S. Pacheco agregaria o adjetivo de "novo" e Alckmin simbolizaria o "experimentado". André Mendonça O "terrivelmente evangélico" André Mendonça deverá ser sabatinado nas próximas duas semanas. Davi Alcolumbre, o presidente da CCJ, a quem cabe a prerrogativa de convocar a sabatina está sendo vencido pela pressão de colegas. E garante que Mendonça não passa em plenário. Sei não. O governo conta com mil e um instrumentos de cooptação. Despertaria muita curiosidade o desempenho do pastor junto às dez cobras criadas do Supremo. Relatório CPI no arquivo Se o relatório da CPI da Covid-19 for para o arquivo, o que poderia acontecer? Muito palavrório com tendência à acomodação. Vacina primeira-dama A primeira-dama Michele Bolsonaro tomou vacina nos Estados Unidos. Uma estocada no SUS. Vir com a desculpa de que foi por insistência das autoridades norte-americanas não colou. Vacina no Brasil ganha marca de descrédito? FFAS não cumpririam ordens? Em entrevista à Revista Veja, Bolsonaro diz que possibilidade de golpe tem chance zero. E que as Forças Armadas não cumpririam uma ordem que destoasse da Constituição. Uma confissão ancorada em bases reais ou intenção de embaralhar o jogo? As Forças Armadas estão, sim, profissionalizadas. Mas há contingentes que rezam a cartilha bolsonarista. Quanto a golpe, só mesmo se o povo for em massa às ruas. Prévias tucanas João Doria corre o Brasil fazendo sua campanha para as prévias. Tem condições de levar a maioria dos diretórios. Eduardo Leite, governador do RS, é o azarão. E pode surpreender. Corre um certo sentimento de mudança nas veias dos participantes. Mas Doria é determinado e persistente, além de contar com a competente consultoria de perfis de primeira grandeza, como Antônio Imbassahy, ex-prefeito, ex-governador da Bahia, ex-ministro e ex-deputado. Um perfil admirado e respeitado. Carta aos Brasileiros I Há 44 anos, o jurista Goffredo da Silva Telles Jr., falecido no dia 27 de junho de 2009, dando vazão ao sentimento da sociedade brasileira, foi convidado para ler a Carta aos Brasileiros. O país abria as portas da redemocratização. Hoje, o Brasil vive sob o Estado de Direito, mas vegeta sob o Estado da ética e da moral, com um mandatário-mor que nega a ciência, é responsável pela pior gestão da pandemia de coronavírus 19 do planeta, e faz um vergonhoso discurso na abertura da ONU, privilégio que, historicamente, cabe ao Brasil desde 1947. Anos depois o professor Goffredo confessava ter vontade de ler uma segunda carta, desta feita para conclamar pela reforma política e por uma democracia participativa, em que os cidadãos votem em ideários, não em fulanos, beltranos e sicranos. Carta aos Brasileiros II Em setembro de 1993, na segunda Carta aos Brasileiros, o mestre Goffredo escolheria como núcleo a reforma política, eixo da democracia participativa com que sonhava. Mas falta disposição aos congressistas para fazê-la. Em 2022, Lula da Silva também leu sua Carta aos Brasileiros, onde pregava uma nova prática política e a instalação de uma base moral. Sabem qual a primeira palavra do discurso de Lula na posse? Mudança. Nada disso foi cumprido. O país continua ser um deserto de ideias. Um renomado homem de letras, imortal da ABL, sugere que os protagonistas do momento - todos os pré-candidatos à presidência - assinem uma nova Carta aos Brasileiros, explicitando seu compromisso com o rol de temas alinhados. É uma boa ideia. Covid-19 dominada? Há um vago sentimento de que a Covid-19 foi dominada e vive seus últimos momentos. Será? Os números apresentados diariamente pelo consórcio de mídia confundem e impõem muitas dúvidas. Seca e nuvens de terra O país vive um dos mais secos tempos de sua história. Correntes de terra nascem e sobem aos céus de nossas cidades, em um prenúncio de que teremos encontros com apagões logo mais. Cidades turvadas por nuvens de terra emolduram cartões postais de nossas plagas. Petrobras Bolsonaro diz que se reuniu com o ministro das Minas e Energia para discutir fórmulas que pudessem baratear o preço da gasolina. Imaginou o presidente algo em torno de R$ 4. Pois bem. Logo a seguir, o presidente Luna, da Petrobras, disse que nada iria mudar. Conversa e desconversa. A forca mais alta "Canuto, Rei dos Vândalos, mandando justiçar uma quadrilha, e pondo um deles embargos de que era parente del-Rei, respondeu: Pois se provar ser nosso parente razão é que lhe façam a forca mais alta." Padre Manuel Bernardes
quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Porandubas nº 732

Abro a coluna com a Paraíba. O médico João Izidro João Izidro, pai do amigo Carlos Alberto e do psiquiatra-escritor Luis Carlos, era pediatra, clínico geral e sábio. Atendia famílias de todos os recantos dos fundões da Paraíba. Sua clientela incluía Luís Gomes, cidade do Rio Grande do Norte na fronteira com a Paraíba, onde este escriba nasceu e de onde, do alto da serra, contemplava Uiraúna, terra de Luiza Erundina. Um dia, em Cajazeiras, sua cidade, atendeu a uma velhinha que se queixava de "incômodo em todo o corpo". Fez as perguntas tradicionais: - A senhora tosse? - Às vezes, sim, às vezes, não. - A senhora tem dor de cabeça? - Às vezes, sim, às vezes, não. - A senhora sente febre? - Às vezes, sim, às vezes, não. Paciente, o médico botou os óculos e escreveu a receita: - Pegue a receita, minha senhora. Pode ir, a senhora vai melhorar. A velhinha pegou a receita e tascou a pergunta: - Doutor, e esse remédio, hein, como é que eu tomo? A resposta do João veio no mesmo tom da voz da velhinha: - Tome o remédio às vezes, sim, às vezes, não. Brasil no fundo O pior aconteceu. Dizem que o Brasil abriu esta última sessão da ONU sob a maior vergonha de sua história na organização. Como é sabido, o Brasil presidiu a primeira sessão da Assembleia e a segunda sessão ordinária no mesmo ano. A fala inicial do Brasil cumpre uma tradição de 1947, quando o diplomata Oswaldo Aranha presidiu a Assembleia em dois momentos. Primeiro, entre abril e maio, quando o Reino Unido solicitou uma convocação extraordinária para discutir o status da Palestina, que desde o fim da Primeira Guerra Mundial estava sob um mandato britânico. E, depois, em novembro de 1947, quando esteve à frente da 3ª Assembleia Geral das Nações Unidas que discutiu e aprovou a criação do Estado de Israel. A ONU A Organização das Nações Unidas foi fundada em 24 de outubro de 1945 para trabalhar pela paz e desenvolvimento após ratificação da Carta das Nações Unidas pela China, Estados Unidos, França, Reino Unido e a ex-União Soviética, bem como pela maioria dos signatários. A Carta das Nações Unidas foi elaborada pelos representantes de 50 países presentes à Conferência sobre Organização Internacional que se reuniu em São Francisco de 25 de abril a 26 de junho de 1945. A Polônia, também um membro original da ONU, assinou o documento dois meses depois. A primeira reunião da Assembleia Geral ocorreu em Londres, em 1946, quando foi definido que a sede permanente seria nos Estados Unidos e que a comunicação se daria em seis idiomas oficiais: inglês, francês, espanhol, árabe, chinês e russo. Os Estados Unidos, o anfitrião, é o segundo a falar. Para todos os outros países, a ordem de discurso é baseada no nível de representação, preferência e outros critérios. Oswaldo Aranha Nos dias anteriores à sessão da ONU que aprovou a partilha da Palestina histórica em um Estado judaico e outro árabe, o ministro brasileiro também se mobilizou para garantir que a votação não fosse adiada. O Brasil apoiava a solução de dois Estados e era contra os argumentos de que os árabes eram maioria na região. Oswaldo Euclides de Souza Aranha nasceu em Alegrete no Rio Grande do Sul, em 15 de fevereiro de 1884. Formou-se pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro no ano de 1916. Participou ativamente nas articulações para depor o presidente Washington Luís e colocar Getúlio Vargas no poder através da Revolução de 1930. Tornou-se ministro da Justiça e da Fazenda em 1931, foi embaixador em Washington entre 1933 e 1937 e ministro das Relações Exteriores de 1938 a 1944. Versões e mentiras O pano de fundo da história da ONU acaba de receber uma camada de lama, lodo e sujeira. E o responsável foi o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que cumpriu o cerimonial de abertura, mas fez um discurso considerado mentiroso e cheio de versões estapafúrdias. Pregou remédios considerados ineficazes para tratamento da Covid-19, encheu a economia brasileira de dados sem lastro com a verdade, foi proibido de circular em Nova Iorque por não ter se vacinado, comeu pizza na rua e um churrasco no puxadinho de uma churrascaria brasileira, única maneira de comer em restaurante (aberto, ao ar livre), enfim, pregando sandices para sua bases radicais. Não prestigiou o concerto das Nações, desprezando as audiências de 193 Nações. Uma vergonha Os comentaristas internacionais são unânimes: foi uma vergonha. Os brasileiros que moram na cidade atestam diante das câmaras de TV: nunca passaram vergonha igual. E o país ainda passou o dissabor de ver um Bolsonaro hilário, tirando gozação com o primeiro ministro britânico, Boris Johnson. Pelo fato de este ter tomado duas doses de astraZeneca. Bolsonaro, negando sua vacinação, apontou negativamente com o dedo para o ombro, a dizer: aqui, não. A estética bolsonarista Para acentuar o isolacionismo, a equipe que acompanhou o presidente fez um desempenho estético que deixará suas marcas de deboche, desrespeito e vergonha: o ministro da Saúde, um paraibano que deveria respeitar os cânones de Hipócrates, mostrou o dedão do meio replicando as vaias que a comitiva tomava ao entrar no hotel; já o ministro das Relações Exteriores, o chanceler, fez o famoso gesto da "arminha", símbolo das armas matadoras que são usadas pelos bolsonaristas radicais, a partir de seu principal propagador, o filho 02, o deputado Eduardo Bolsonaro. Um show de estética com jeitão de símbolo de desprezo pelos circunstantes. O efeito de tudo isso? O de um tsunami devastador de princípios, ideias, valores, verdade. Os destroços permanecerão no meio social por muito tempo a lembrar o tufão que arrebentou os limites do bom senso. E Bolsonaro comanda todo esse espetáculo horroroso, depois de ter se comprometido, em carta à Nação, a ser um moderado à procura de paz e do bom senso. A carta, que teve a inspiração de Michel Temer, acaba de ser jogada na lata de lixo. Como acreditar em uma pessoa com essa índole traiçoeira? Covid-19 O relatório da Covid-19 virá na próxima semana. É o que promete o senador Renan Calheiros. Repleto de acusações de crime, incluindo a figura do presidente da República. Noutros contextos, teria condição de ir longe. Hoje, será arquivado por Arthur Lira e pelo PGR. Cada tempo com seu peso. Cada ave com sua pena. Os senadores Ganham um ponto na régua do seu tamanho. Principalmente aqueles que ganharam destaque e visibilidade. Doria e as vacinas Falem de João Doria aqueles que não simpatizam com o fato de ser muito centrado nas coisas a que tem se dedicado. Mas não fosse o governador paulista, o país ainda estaria engatinhando em matéria de vacina. João foi, sim, o maior patrocinador da vacinação em massa e da vacina Coronavac, do Butantan. João é um sujeito determinado. E não teve, ainda, o reconhecimento que merece. Equipe E ainda reuniu o governador de São Paulo uma das melhores equipes de gestão do país. Uma espada e ramos de café Quem vai ao Palácio dos Bandeirantes, encontra no Salão Nobre, cravado em madeira, o brasão do Estado: uma espada longa cercada por dois modestos ramos de café. Emoldurado pelo dístico: - Pro-Brasilia fiant eximia. (Façam-se as melhores coisas pelo Brasil). Que a maior parte dos leitores costuma assim traduzir: - João Doria fazendo exame para Brasília. O espírito do tempo Tempo sem alegria; tempo de resgate da vida normal; tempo de urgências; tempo de reavivamento das coisas que eram boas; tempo de novas poesias, novos cantos, novos humores. Tempo de meditar. Fecho a coluna com os hereges. Dez truques Dez truques dos hereges para responder sem confessar: 1) O primeiro consiste em responder de maneira ambígua. 2) O segundo truque consiste em responder acrescentando uma condição. 3) O terceiro truque consiste em inverter a pergunta. 4) O quarto truque consiste em se fingir de surpreso. 5) O quinto truque consiste em mudar as palavras da pergunta. 6) O sexto truque consiste numa clara deturpação das palavras. 7) O sétimo truque consiste numa autojustificação. 8) O oitavo truque consiste em fingir uma súbita debilidade física. 9) O nono truque consiste em simular idiotice ou demência. 10) O décimo truque consiste em se dar ares de santidade. (Manual dos Inquisidores - escrito por Nicolau Eymerich em 1376. Revisto e ampliado em 1578 por Francisco de La Peña)
quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Porandubas nº 731

A coluna de hoje tem uma proposta diferente. Propõe-se a interpretar o que ocorrerá na nossa política usando os instintos básicos do ser humano, sob o olhar compenetrado de Pavlov. Peço sua leitura. Deixo a historinha para o final. Os 4 impulsos Vamos tentar fazer uma leitura da política, usando ferramentas outras que as adotadas pela ciência política em seu dia a dia, principalmente os mecanismos clássicos da política, como ideários, partidos, eleitores, oposições, fatores como economia e circunstâncias temporais. Vamos fazer aquilo que um ou outro cientista político, com olhar mais agudo, avoca como elementos da neurociência, como o faz o nosso conhecido expert em pesquisas Antônio Lavareda. Vou tentar compor a moldura da política, a partir dos quatro instintos básicos do ser humano, estudados por Pavlov e descritos pelo russo Sergei Tchakhotine, que partiu dessa base para estudar o perfil e o percurso de Hitler. Reflexos condicionados Nas experiências de Pavlov, em laboratório, para que os reflexos condicionados pudessem se formar nos cães e gerar efeitos, era preciso que certas condições se efetivassem: o meio biológico, o lugar, o tempo, as características hereditárias dos indivíduos sujeitos às experiências. A cultura nazista abrigava tais fatores. Hitler encarnava certos complexos profundos do povo alemão, principalmente da classe média. Tinha necessidade de lidar com as massas em um nível inferior, quando, trabalhando sobre as condições fisiológicas, fazia mergulhar as multidões em estados quase hipnóticos. Dominava as massas pela violência psíquica. A propaganda nazista nada mais era do que a exploração da doutrina de Pavlov sobre reflexos condicionados. Os mecanismos Para entender os mecanismos que agem sobre o discurso político, vejamos, então, o que Tchakhotine, doutor em Ciências, expõe em Mistificação das Massas pela Propaganda Política, onde descreve de maneira exaustiva os mecanismos que formam a base dos métodos e ações usadas no processo manipulativo. Parte ele das teorias objetivas de I.P. Pavlov (1849-1936), pai da Escola russa. A teoria dos reflexos condicionados foi esboçada a partir da experiência feita por Pavlov com cães. Ao se alimentar um cão, sua saliva escorre automaticamente, um reflexo inato. Se um cão ouve o som de uma campainha, não salivará. Porém, se há uma sincronização entre os dois fatos, a alimentação e a excitação sonora, repetida 50 ou mais vezes, o som da campainha, mexendo com o sistema nervoso do cão, provoca nele salivação. Um  reflexo, artificial ou temporário, se forma, o que Pavlov chama de reflexo condicionado. E isso vai ocorrer, combinando-se o som da campainha com a entrega do alimento. 6 fenômenos O cientista russo relaciona seis fenômenos inerentes ao comportamento dos animais superiores: 1. A excitação; 2. A inibição; 3. O deslocamento da inibição; 4. A indução recíproca da excitação sobre a inibição ou a inibição sobre a excitação; 5. A formação e destruição das vias que ligam, entre si, as diferentes regiões do sistema nervoso e 6. Os processos de análise que decompõem os mundos exterior e interior em seus elementos. Sob essa teia de hipóteses, Pavlov estudou a hipnose e a sugestão, os reflexos de imitação, o estado de sonolência provocado pela inibição que se irradia sobre toda a superfície cortical, os reflexos de fim e de liberdade, até chegar ao estudo sobre as diferenças de caráter. Chegou, então, a forma de excitação pela palavra. Sob uma emoção profunda, uma pessoa atingida por uma palavra imperativa, uma ordem, que "se torna irresistível, graças à irradiação em todo o córtex da inibição por ela causada". Esses mecanismos psíquicos afetam principalmente os mais ignorantes, que se curvam facilmente às sugestões. Daí podemos aduzir como as massas se dobram ao discurso político. Os 4 instintos básicos Para completar a compreensão sobre a força do discurso político, a moldura se completa com os quatro impulsos inatos aos seres vivos. Analisando as reações do comportamento, Pavlov usa o exemplo da ameba. Ela foge do perigo, absorve alimentos, multiplica-se, forma quistos dentro dos quais se multiplica em um enxame de pequenas amebas. Por aí, podemos ter a primeira resposta para a questão da metáfora de guerra, tão do gosto dos indivíduos. As pessoas, como as amebas, procuram evitar o perigo e preservar sua espécie. A natureza procura conservar a vida, de acordo com dois grandes princípios: o do soma e o do gérmen. O primeiro, o indivíduo, conduz o segundo, a espécie; o primeiro é mortal, descontínuo, e o segundo é imortal, contínuo. Para preservar o indivíduo do aniquilamento, antes que tenha cumprido a tarefa de transmitir o gérmen da espécie, a natureza o dotou de dois mecanismos especiais; e da mesma forma, para a preservação da espécie, proporcionou dois mecanismos. Instintos combativo e nutritivo Para sua conservação, o indivíduo se vale de dois instintos fundamentais: o instinto de defesa ou combativo e o instinto de nutrição. O primeiro impulso é o mais importante, eis que a pessoa, para se conservar, luta contra o perigo, se defende, ataca, procura afastar as ameaças, prevenir-se contra riscos e morte. Ampara-se no instinto combativo, que é mais imediato que a carência alimentar. É o caso da pandemia do coronavírus. A pessoa faz tudo que está a seu alcance para preservar sua vida. Enfrenta correntes contrárias, grupos, setores politizados. Luta pela sobrevivência, que se completa com a garantia do equilíbrio biológico, a satisfação do corpo, los inputs que consome para ter sua reserva de energia. É o instinto alimentar o segundo. Impulso. São básicos para a conservação do indivíduo. Sexual e paternal Já no caso da perpetuação da espécie, entram em ação dois outros mecanismos: o terceiro, que é o impulso sexual, responsável pela reprodução da espécie e o quarto impulso é o paternal, que abriga o conjunto de sentimentos e valores emotivos (a tristeza, a alegria, a felicidade, a solidariedade, a amizade, o companheirismo, o amor filial, o carinho, a integração, a harmonia, o ódio, a vingança etc.). Nesse caso, emergem os valores ligados à família, a tradição, a modernidade contra a tradição. É possível formar reflexos associados ou condicionados, por meio dos impulsos, seja o nutritivo (a experiência da salivação do cachorro), seja por meio dos outros - o combativo, o sexual ou paternal/maternal. Em resumo: a luta pelo poder, a luta pela dominação - do homem contra o homem, do homem contra a natureza, do homem contra os sistemas institucionais - estão na base da luta pela sobrevivência e se amparam nas necessidades mais profundas do ser humano, de se conservar e preservar sua espécie. Como as amebas. Bolsonaro Desse acervo, extraio minhas inferências: os instintos combativo e nutritivo serão fundamentais para o desenvolvimento do quadro eleitoral no próximo ano. Tanto a pandemia e outros barreiras que dificultam a luta pela sobrevivência como a falta de dinheiro no bolso poderão determinar o sucesso ou insucesso eleitoral dos protagonistas da política. O auxílio assistencial terá a força do Bolsa Família? Os valores conservadores vencerão os apelos da modernidade? A manutenção do "mito" terá mais força que a união das forças de oposição? Surgirá um candidato de terceira via capaz de quebrar a polarização Bolsonaro versus Lula? Para onde irão os partidos? Sob esse mesmo feixe de conceitos, podemos inferir que os partidos, em sua maioria, deverão tomar o rumo das possibilidades abertas pelos mecanismos de conservação e perpetuação partidária. E Lula? Será dissecado pelas massas eleitorais. Representará o futuro esperançoso ou o passado cheio de curvas no caminho? O mesmo processo de dissecação ocorrerá em relação a outros candidatos. BO+BA+CO+CA Por isso, não se assustem leitoras e leitores quando insisto com minha velha equação, que organizei a partir de Pavlov. Bolso cheio (geladeira cheia), Barriga satisfeita, Coração agradecido e Cabeça tendente a votar em quem proporcionou essa equação da esperança e da felicidade. JK e JQ Nessa época de piadas contra os governantes, fecho a coluna com uma historinha envolvendo JK e JQ. Saudação aos presidentes Juscelino Kubitschek, presidente da República, foi ao Ceará com Armando Falcão, ministro da Justiça. Sebastião Nery conta que Falcão, cearense, levou JK a um desafio de cantadores. Um cego estava lá, com sua viola, gemendo rimas. Juscelino chegou, cumprimentou-o. O cego respondeu na hora: - Kubitschek, ai, meu Deus, que nome feio. Dele eu só quero o cheque porque do resto ando cheio. Um ano depois, a mesma cena. Jânio Quadros, presidente, vai a Fortaleza, há um desafio de cantadores. Chega com os óculos grossos e longos bigodes, um cantador o vê, saúda: - Vou louvar o meu patrão que já vem chegando agora. Engoliu a bicicleta e deixou o guidão de fora. Nunca mais ninguém levou presidente para ouvir cantador no Ceará.
quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Porandubas nº 730

Abro a coluna com a solidariedade em Petrópolis. Sou solidário e não pago Antônio Carlos Portela era um senhor rico e bom. Dava aval a todo o mundo, em Petrópolis. Gostava de política. Gostava demais. Quando chegava a campanha eleitoral, sua maneira de ajudar os amigos era avalizar empréstimos para as despesas de campanha. Certa eleição, avalizou um título para um candidato a deputado, que perdeu feio e ficou em dificuldades de pagar. O gerente do banco, sabendo que não receberia do devedor, foi ao avalista: - Senhor Portela, o título está vencido. Preciso que o senhor pague. Como avalista, o senhor é solidário. - Sou, sim. Sou muito amigo dele e estou inteiramente solidário com ele. Se ele não pagou, é porque tem seus motivos. Porque estou solidário, não pago também. A montanha pariu... Eu não diria que a montanha pariu um rato. Pois os ditos expressos pela maior autoridade do país produziram um monstrengo. Coisas como essas: não vai mais obedecer à decisões do STF, principalmente se emanadas pelo ministro Alexandre de Moraes; o presidente Fux deve enquadrar seus os ministros; só sairá do governo se for "morto"; maldiz a urna eletrônica; insufla as massas, induzindo-as à desinformação, enfim, não aceita o debate democrático como balizamento do futuro do país. Com quem está a bola? Chutou a bola na direção dos Poderes. Garantiu que iria acionar o Conselho da República, que debate pautas como desordem institucional e quebra da ordem. Diante do fiasco de não ter participantes, desdisse o que disse. Mas as palavras de ordem contra o Supremo estão no ar. Fux deu resposta dura como se previa, mas persistem as dúvidas! O que fazer ante a um ato de desobediência à Corte? Paralisar estradas federais é um ato de antipatia que depõe contra o governo. O mundo está perplexo, não apenas o Brasil. Trata-se de flagrante quebra da ordem normativa. Os presidentes do Senado e da Câmara não têm força para levar adiante a solução do impeachment. Os partidos vão gastar saliva com discursos. E só. Lira e Ciro longe Arthur Lira, o presidente tem a prerrogativa de levar adiante a ideia do impeachment. Mas logo ele, que negociou a participação do Centrão no governo? Ciro Nogueira, o presidente do PP, que se impôs a condição de "amortecedor" do governo, estará longe do imbróglio, quase dizendo: afasta-me de mim esse cálice, cheio de um vinho que não entra no meu paladar. Pacheco, o Rodrigo que comanda o Senado, é o menos temeroso, mas tem o cuidado de medir as palavras para não perder a chance de vir a ser candidato de Kassab, do PSD, à presidência. Teria suspendido a pauta do Senado esta semana. Inevitável? O vice-presidente da Câmara dos Deputados, Marcelo Ramos (PL-AM), disse que é "inevitável" a abertura de um processo de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) após os atos antidemocráticos de 7 de setembro. Este analista não acredita. Celso de Mello e Carlos Ayres O ex-decano do STF, ministro Celso de Mello, chama Jair Bolsonaro de "político medíocre que não está à altura do cargo" e o ex-presidente da Corte, ministro Carlos Ayres Britto diz que o presidente está sujeito a penalidades se descumprir decisão judicial. Tempos de pressão O ditador vai ao médico: - E a pressão, doutor? - O senhor sabe o que faz, meu general. Neste momento, ela é imprescindível para manter a ordem. Um país à deriva Do episódio de um 7 de setembro pisoteado, sobra a imagem de um país à deriva, sob as rédeas de uma família sobre a qual pesam denúncias de corrupção. Filhos dando os rumos do que poderá vir a acontecer. Comandando eventos de direita. E o pai, usando frota de aviões e helicópteros, na companhia de ministros, transformando um evento cívico em um comício privado, gastando dinheiro público e colaborando para as aglomerações em momento em que o país flagra a multiplicação da vertente Delta do coronavírus. Enquanto vai durar? As ameaças do capitão estão no ar. Deduz-se que seu dito será cumprido. Sob pena de mais bravata na coleção de ditos estapafúrdios. E se assim continuar, a engenharia do golpe continua ganhando peças, situação terrível se contar com o grupo de militares que agem no entorno. Generais, coronéis, capitães, olhem para o Brasil. Não se deixem enganar pelo canto de sereia na travessia de Ulisses. Um golpe hoje jogaria o nosso país dos territórios devassados pela estupidez. Urge dar um basta nessa escalada. Sociedade organizada, é a vez das entidades abrirem o verbo. Produtores e empreendedores, não deixem o Brasil seguir o caminho das trevas. 7 de setembro O 7 de setembro, para bolsonaristas, foi aquém das expectativas. Contou-se 125 mil pessoas na av. Paulista, 6% do esperado. Não entrarei nessa. O fato é que as falas do presidente em Brasília e em São Paulo plasmaram um monstrengo. O que foi dito é uma afronta à Constituição. Sob o prisma do desrespeito, desobediência, ruptura de princípios. A CF foi jogada na lata de lixo. O que fazer para reentronizá-la? Em 2022, o Brasil comemora 200 anos de independência. Sob que acordes? Liberdade? Opressão? Voto auditável Ora, o voto em urna eletrônica é auditável. Quem diz o contrário é ignorante. Querem voltar ao voto do cabresto, quando milicianos entregam envelopes fechados para eleitores ignorantes depositarem em urnas? (Doutor, em que estou votando? O coronel ou miliciano responde - deixe de ser besta, você não sabe que o voto é secreto?) Expectativa Este analista acredita nessas hipóteses: 1. Terá início uma reação parlamentar, que vai ter ondas mais altas um pouco mais adiante. 2. Com a soma das crises - sanitária, econômica, política, energética e social (com esgarçamento do tecido social) - é possível um desgarramento dos contingentes bolsonaristas por abril/maio. 3. A crise energética, se implicar apagão, acelerará o processo de desgaste do governo. 4. O auxílio Brasil, a ser lançado pelo governo no lugar do Bolsa Família, poderá aumentar o fôlego do governo por mais alguns meses. 5. A muito custo, Paulo Guedes aguentará ilustrar sua cabeça com o boné de Bolsonaro. 6. Este analista não aposta na candidatura de Lula como contraponto a Bolsonaro. 7. As oposições seguirão divididas até o 1º trimestre do próximo ano. 8. As FFAA deverão se dividir e a parcela profissionalizante predominará. 9. A vacinação em massa veio para ficar. A pandemia será uma constante em nossas vidas. 10. 2022 - Este analista vê como possibilidade a ideia de Bolsonaro não sustentar sua candidatura até o final. Fecho a coluna com a velha malandragem. A malandragem Querem saber a origem da malandragem no Brasil? Veja o finalzinho da Carta de Pero Vaz de Caminha a El Rei de Portugal. "E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra vi. E, se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, pois o desejo que tinha de tudo vos dizer, mo fez por assim pelo miúdo. E pois que, Senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da Ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro - o que dela receberei em muita mercê." E conclui Caminha: "Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro de Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500. Pero Vaz de Caminha." Um pedido aqui, um trololó acolá e muita bajulação.
quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Porandubas nº 729

Abro a coluna com o mestre Inrique... I.N.R.I. - Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum Conta Leonardo Mota que o mestre Henrique era reputado marceneiro nos sertões de Sergipe. Sua especialidade estava nas camas francesas à Luís Quinze. Quando o freguês achava que o leito era baixo, recebia a explicação de que a cama era francesa, mas era à Luís Quatorze; se se queixava da excessiva altura, ficava sabendo que aquilo era cama francesa à Luís Dezesseis... O mestre Henrique pôs toda a sua ciência no Cruzeiro do patamar da igreja de Aquidabã. No topo do sagrado madeiro, o vigário da freguesia fizera o mestre Henrique colocar uma tabuinha com as letras I.N.R.I., iniciais de Jesus Nazareno Rei dos Judeus, a irônica inscrição latina de que a ruindade de Pilatos se lembrara na ignominiosa sentença de morte do filho de Deus. Decorrido algum tempo, um sertanejo sergipano, intrigado com a significação daquelas quatro letras, perguntou a um seu conhecido: - Que é que quererá dizer aquele negócio de INRI, que tem escrito em riba do Cruzeiro? - Você não sabe não? Ali falta é o Q-U-E. Esse QUE não cabeu na tabuinha: aquilo é a assinatura de quem fez, que foi o mestre INRIque... Voltando à observação do cenário Acirramento Ao contrário do que muitos analistas enxergam, este escriba não vê o quadro político-institucional bem posicionado na paisagem. Há uma intenção manifesta de que "vamos todos torcer pela harmonia, sustentando a ideia de que tudo d'antes no quartel d'Abrantes". Pois vejo certa movimentação em quartéis de polícias militares, inclusive com o afastamento daquele coronel que manifestou intenção de botar o bloco nas ruas em 7 de setembro. Foi afastado por João Doria, Mas o coronel insiste em comparecer. Praças divididas Os blocos de apoio à Bolsonaro, que haviam feito pedido antes, irão à avenida Paulista no dia 7 de setembro. Caravanas de muitas cidades do interior. Muitas faixas contra o Judiciário, mas os blocos de oposição poderão usar a 9 de Julho, segundo decisão da Justiça, que tem fama de juntar massa, sem o impacto, porém, do cartão postal da Paulista. Na comparação, os favoráveis ao governo ganharão. Foram mais organizados, mobilizados, e contam com a palavra de ordem de Bolsonaro. Hora de dar um xeque (não mate) em algumas entidades, promete Bolsonaro. Juízes convencidos Os ministros do STF, um a um, parecem convencidos de que "daquela mata não sairá coelho". Bolsonaro não mudará. É o que é. Sem enfeite de bolo. Não adiantará esperar palavras de bom senso, harmonia, unido. A tensão interessa ao governo. Mantém o plantel do judiciário no cabresto curto. Só que alguns juízes não aceitam ser tratados como figurantes de terceira classe. A depender do plenário, o jogo será jogado conforme os espaços de cada guerreiro no tabuleiro. CPI da pandemia Pelo jeito com que dispara verbos e adjetivos, o presidente dá indicações de que não dará bola à CPI da Covid-19. Chutará de lado. Bolsonaro tem certeza de a costura que fez com os costureiros do Centrão foi com linha de aço. Não verga. Nem rompe. A conferir. Os relatórios - o oficial e o do governo - são duas retas que se encontrarão no infinito. A nota da Fiesp A Fiesp produziu uma nota que criou polêmica. Até sexta feira, Paulo Skaf prometeu divulgá-la. Ocorrem reações. Os bancos oficiais caíram fora. A nota pedia união entre os Poderes. Skaf tentou costurar o texto de forma a abrandá-lo. E sair bem na parceria com Bolsonaro. Mas as desavenças emergiram. Ficou uma colcha de retalhos. O agrobusiness saiu com uma versão. A Febraban jogou Paulo Guedes numa rede furada. A nota tinha mais de 300 entidades apoiadoras. A íntegra *Serenidade, Diálogo e Ações* As entidades signatárias deste documento veem com grande preocupação a escalada de tensões entre autoridades públicas, o que coloca em risco um dos pressupostos para a funcionalidade da democracia: a harmonia entre os poderes da República. Esse quadro de hostilidade gera incerteza e graves problemas econômicos, como a perda de renda e o desemprego de milhões de brasileiros. Por isso, a sociedade civil anseia e o momento exige de todos serenidade, diálogo, pacificação política, estabilidade institucional e, sobretudo, foco em ações e medidas urgentes e necessárias para que o país ultrapasse, de forma duradoura, os desafios hoje postos à recuperação da economia e à superação das carências sociais que atingem amplos segmentos da população. Para o fortalecimento da democracia, é imprescindível que cada ocupante de cargo público, que desempenhe os papéis da mais alta relevância e responsabilidade sobre os destinos do país, aja com racionalidade para distensionar o ambiente político e dissipar incertezas quanto à nossa capacidade de, mesmo nas diferenças, conduzirmos adequadamente as questões do presente, resgatando expectativas quanto ao nosso futuro. Um truque do Padre Vieira O Padre Antônio Vieira, o célebre pregador, escritor, político e diplomata jesuíta, subindo certa vez ao púlpito, iniciou estranhamente o seu sermão exclamando: - Maldito seja o Pai!... Maldito seja o Filho!... Maldito seja o Espírito Santo!... E quando a assistência, horrorizada, pensava que o grande orador houvesse enlouquecido, ele tranquilamente prosseguiu: - Essas, meus irmãos, são as palavras e as frases que se ouvem com mais frequência nas profundezas do inferno. Houve um suspiro de alívio no templo, mas com esse recurso teve Vieira despertada e presa a atenção dos fieis como poucas vezes, por outra via, houvera conseguido. (Narrado por Luis Costa em Leia Comigo) Democracia participativa Podemos enxergar, nos horizontes, maior afluxo de pessoas às manifestações públicas, a desnotar maior dinamismo dos nossos canais de democracia participativa. De tanto sofrer experiências e vivenciar situações conflituosas, acabaremos modelando o nosso sistema democrático. O périplo de Lula Acabamos de ver o périplo de Lula por alguns Estados do Nordeste. Menor impacto do que o previsto. Lula pouco apareceu de público. Fez articulação, sondagens, passou o seu termômetro para ver a febre lulista na região. Levou muitas camisas vermelhas, pouco as usou. Maneira de Lula sentir a barra. Ainda carreia grande prestígio, mas não é o Lula de antigamente. Impressão deste analista: Lula procura um candidato de centro-esquerda. Para ser o polo convergente de amplas fatias do arco ideológico. Lula não se sente bem ao atravessar novamente o calvário dos processos que correm contra ele na 1ª instância de Brasília. Tudo deve recomeçar. Seria um pano de fundo que Lula não gostaria mais de ver. Procura-se um perfil. Quem o encontrar, apresentá-lo a dom Luiz Inácio Lula. Thackhotine (Introdução à mistificação das massas pela propaganda política) Para legitimar suas conquistas, os ditadores sustentaram, seguidamente, que elas eram efetuadas, quase sempre, pacificamente, ou, pelo menos, sem emprego de violência física. Isso não é verdade senão na aparência: a ausência da guerra não impede o emprego de uma violência não menos real, é a violência psíquica. A ameaça - os discursos de Hitler - associada à visão da arma mortífera - a mobilização do exército alemão - eis a fórmula exata, segundo a qual os ditadores modernos exercem a violência psíquica. Foi precisamente isso o que se passou, por exemplo, na Europa, em setembro de 1938, e que levou as velhas democracias à capitulação, em Munich. "Construímos um armamento tal que o mundo jamais viu - posso agora confessar abertamente". "Em cinco anos, eu me armei efetivamente. Gastei milhões e equipei tropas com as armas mais modernas". "Temos os melhores aviões, os melhores tanques..." São frases do discurso do chanceler Hitler, no Palácio dos Esportes, em Berlim, em 27 de setembro de 1938, discurso dirigido ao mundo inteiro, que ouvia atento. "Dei ordem de erigir fortalezas gigantes em frente à linha Maginot francesa", declarava ele, em meio aos urros aprovadores da massa nazista em Nuremberg. "As forças alemãs", "o gládio alemão" etc., eis o que se ouvia da boca do senhor da Alemanha, nos anos fatídicos que precederam à Segunda Guerra mundial e isso se repetia em todas as ocasiões. O punhal de Mussolini "O punhal - eis o nosso melhor amigo", declarava cinicamente Mussolini; uma carabina sobre um livro foi o símbolo que ele ofereceu à juventude universitária italiana. "Que preferis, manteiga ou canhões?", perguntava a uma multidão eletrizada, em delírio, que respondia, bestificada, - "Canhões!" "A paz", "da paz", "pela paz"... era o refrão que se oferecia como desculpa a essas palavras dos ditadores, em todas as oportunidades, em todas as situações, no campo adverso, nas democracias europeias. A paz, certamente, quem não a deseja? Quem é tão tolo ou tão miserável para invocar o pior dos flagelos humanos? Mas, ter horror à guerra é uma coisa, e cultivar a esperança de evitá-la só com palavras, com ladainhas e invocações em face do perigo é outra bem diferente, que restabelece, na verdade, certas práticas medievais, em que ao incêndio, à peste, à seca, se opunham as procissões com imagens santas! O Brasil das calamidades O chiste é conhecido. Ao criar o mundo, Deus distribuiu as catástrofes pela Terra, enquanto comentava com o anjo ao seu lado: "aqui eu vou localizar os EUA com seus terremotos e furacões; ali vai ser a Europa, que vai ter vulcões e também terremotos; acolá, vou instalar a Ásia, com desertos, terremotos e até tsunamis". Curioso, o anjo indagou: "e nesse local vai pôr o quê?" Deus respondeu: "aqui será o Brasil". A terra da mentira por excelência. Insistiu o arcanjo: "e ele não vai ganhar catástrofes naturais"? A resposta divina: "não, de jeito nenhum, mas você vai ver os homens públicos políticos que eu vou botar lá". Ou a versão sobre a criação do mundo não é correta ou a galhofa sobre o Brasil não resiste aos solavancos da natureza nesta segunda década do século XXI. A pandemia, que assola o planeta, registra por aqui cerca de 600 mil mortos, parcela deles vítimas da irresponsabilidade e má gestão. Mas os nossos homens públicos afastam qualquer insinuação de desleixo e incúria. A burocracia tem pernas O cidadão chega à repartição e pede para ver seu processo. Ouve do chefe do departamento; "ah, meu senhor, tem muitos outros na frente do seu. Vai demorar um tempão até ser despachado. Papel, doutor, não tem pernas". Agastado, o interlocutor reage: "e quanto o senhor quer para por dois pés nesse papel?". Tirou do bolso um maço de dinheiro (que já tinha separado em casa para não dar na vista e, de maneira disfarçada, entregou ao sorridente chefe). Tiro e queda. O adjutório fez o papel correr rapidinho com seus dois pés. A corrupção se espraia por todos os lados.
quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Porandubas nº 728

Abro com uma historinha de Frei Damião. Casamento no Maranhão? Acompanhemos a pregação do Frei em Cajazeiras, na Paraíba. Com aquela voz que parecia sair das cavernas, perorava contra os amancebados, os luxuriosos, os desonestos, desfilando todos os pecados contra os 10 mandamentos. No meio do sermão, parou e perguntou: - Quantos aqui são amancebados? Quantos vivem juntos e não casaram? Centenas de pessoas levantaram a mão. O frei ameaçou: - Nesse estado de barbárie, todos vocês vão para as profundezas do inferno. E serão queimados vivos. Vivos. Começou a descrever a terra incandescente. E arrematou: "amanhã, quero todos os amancebados, aqui, para um casamento coletivo". Dia seguinte, lá estava a multidão. Começou a cerimônia. Frei Damião limpa o suor e joga a pergunta que ferveu na alma de muitos: - Quem tiver algum impedimento contra esses sagrados matrimônios, que fale, agora, ou se cale para sempre. Silêncio. De repente, vê-se, no meio da multidão, o braço no ar de Terezinha das Mercês, devota fervorosa de Senhora da Anunciação: - Raimundinho de Doca num pode se casar, pois ele já é casado no Maranhão. Perplexidade geral. Raimundinho, o açougueiro, toma um susto. Silêncio. Frei Damião, curioso, sai do púlpito. Multidão em transe. A companheira de Raimundinho, envergonhada, não sabe o que fazer. E muito menos o que dizer. O homem das carnes, encabulado, grita alto para todos ouvirem: - Foi no Maranhão, no Maranhão. Faz muito tempo. É muito longe daqui. Muito longe, Frei Damião. E adepois, fui a Juazeiro para tomar as benção do padim Ciço. O "santo italiano" do sertão nordestino baixou a cabeça. Chamou Raimundinho para perto e cochichou a penitência no ouvido: - 100 terços e abstinência por 7 dias. Se não cumprir a ordem, os dois queimarão vivos no inferno. Deu meia volta. Tomou lugar no púlpito. Milagre. O durão Frei Damião abençoou a todos. Leitura da conjuntura Nas cercanias do golpe Os sinais não são mais tênues, ganharam intensidade. Refiro-me à expressão dos mais altos assessores do presidente, principalmente aqueles com história nas Forças Armadas. O general Heleno é um exímio mensageiro de sinais. Afinal, a maior autoridade no universo dos serviços secretos e redes de informações sigilosas. Pois acaba de dizer que um golpe não está fora dos horizontes, claro, sob a ressalva de que um evento inusitado como esse carece do manto de alta gravidade. Bolsonaro é recorrente na lembrança da tese. E até o ponderado general Mourão tem arremetido nessa direção. Hipótese - Para confundir a cabeça dos pensadores. Não estaria havendo no planeta certa inclinação, alguma atração, pelos sistemas autoritários? A se confirmar esta hipótese, eventos políticos contemporâneos perderiam parte de seu verniz ideológico, chegando com mais assertividade em corações e mentes. A democracia não tem algumas estacas soltas? Este analista lança a hipótese, mas não é adepto dessa nova classe. Balão de ensaio ou mais que isso? Falar, lembrar, referir-se ao golpe, sob a alegação de que, em momento como esse, as Forças Armadas estariam cumprindo papel moderador, nos termos que defende o jurista Ives Gandra Martins, ao examinar a letra constitucional em caso de impasse e tensão entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, é mais que um simples ensaio interpretativo. É dar voz a um sentimento que corre nas veias de alguns núcleos. Impasse institucional? O que seria isso? Tensão entre os poderes é o que não tem faltado para apimentar o caldo golpista. Mas a pimenta vem da sementeira do presidente. Por isso, a tensão existe nos vãos do palácio do planalto, cujo ocupante vez ou outra dá um estocada forte em ministros, particularmente os ministros do STF, Luis Roberto Barroso e Alexandre de Moraes. Apesar de se prever arrefecimento nas investidas presidenciais, os sinais são de que Bolsonaro pode recuar agora para voltar mais adiante. Há cinco investigações sobre ele em curso. Até o próximo ano? Difícil é sustentar um duelo verbal até o próximo ano. Bolsonaro vai precisar do Senado e da Câmara para fazer passar sua pauta. O escolhido para compor o STF é André Mendonça, que deverá ser sabatinado. Passará? E se o presidente insistir em sua pendenga? Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, com bom senso, adia a sabatina. Arthur Lira, mais alinhado ao presidente, tende a endossar o destempero presidencial? Não. Decidirá sob o critério pragmático: interessa ao PP uma querela continuada com o Judiciário? Golpe, que golpe? Sob esse terreno de dúvidas, entraremos já, já, no fim do ano, com as pautas reformistas aprovadas parcialmente e todos com o olho (e o bolso) voltado para a economia. Que condição se apontaria para um golpe? Uma estrondosa vitória de Lula e ruas tomadas por grupelhos gritando palavras de ordem não aceitáveis pelas Forças Armadas? Clima de convulsão social ou apenas argumento para pôr tropas nas ruas? Poder Legislativo daria guarida a uma armação como essa? E o Judiciário ficaria apenas na observação? Os contingentes Os talibãs do petismo - Restritos, não teriam condições de voltar com suas bandeiras, principalmente se adornadas com os apetrechos do socialismo clássico. As classes médias - a pedra jogada no meio do lago tem, sim, condição de sustar um posicionamento radical que implicasse a tentativa de golpe - profissionais liberais, funcionários públicos, pequenos e médios proprietários, prestadores de serviços, autônomos, setores organizados. As margens carentes - Não se envolveriam diretamente em mobilizações, porquanto suas atenções estariam mais voltadas para a equação BO+BA+CO+CA= Bolso, Barriga, Coração, Cabeça. Mas poderão engrossar o caldo bolsonarista se o apelo maior for o assistencialismo. Novas milícias? No Brasil, o passado é sempre revisitado. E com direito a reviver seus hábitos, mesmo os pérfidos. É o caso do coronelismo do ciclo agrícola, que castigava o livre exercício dos direitos políticos. Os velhos coronéis da Primeira República (1889-1930) consideravam os eleitores como súditos, não como cidadãos. Criavam feudos dentro do Estado. A autoridade constituída esbarrava na porteira das fazendas. Agora, neste país urbano, o poder público tem de pedir licença para subir o morro. O império coronelista do princípio do século passado finca raízes no roçado do Rio de Janeiro. Denúncias de ontem voltam a frequentar o noticiário: comunidades chegam a ser dominadas por milícias, quadrilhas comandadas por policiais, ex-policiais, que ameaçam pessoas que não elegem seus candidatos. Coronelismo urbano Estamos diante de um novo coronelismo? O voto de cabresto, prática fraudulenta dos tempos da oligarquia rural, transfere-se, neste momento, para o domínio de comandantes de milícias, personagens da urbe violenta que se valem da insegurança para implantar o medo. Os currais eleitorais são comunidades miseráveis, comprimidas em morros, favelas e bairros degradados, onde o poder bandido monta formidável aparato. Certo é que... - Jair Bolsonaro continua em queda com maior quantidade de pessoas que desaprova seu governo. - Luiz Inácio Lula da Silva não conta mais com seu estoque antigo de carisma. - O maior desafio do governador João Doria é atenuar seu estoque de rejeição. - Falta muito cimento e cal para Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, construir as pilastras de eventual candidatura presidencial. - Mourão, o vice, tem chance numa chapa ao Senado. Falta escolher a praça. -Ciro Gomes aparece com cara de déjà vue. - O PP deverá chegar rachado na eleição do próximo ano. - Geraldo Alckmin, se for candidato ao governo de SP pelo PSD, tem boas chances de vitória. Fecho a coluna com JK. Anos de chumbo grosso. Tempos magros, época de fechadura braba. Falar em Juscelino era, no mínimo, pecado mortal. Mudança das placas dos carros, as chamadas alfanuméricas. A Câmara Municipal de Diamantina oficia ao Contran solicitando as letras JK para as placas dos carros do município, "como uma forma de homenagear o grande estadista John Kennedy". O Contran não atende. Um conterrâneo de Juscelino desabafa: - Esse pessoal do Conselho deve ser republicano, eleitor do Nixon. (Historinha de Zé Abelha)
quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Porandubas nº 727

Abro a coluna com uma historinha de Pernambuco. Perspectivas e características Quais as perspectivas que se apresentam ao Brasil nesse contexto de crise entre os Poderes? Confesso que não sei responder. Mas uma historinha de Pernambuco pode nos apresentar as perspectivas. Luís Pereira, pintor de parede, dormiu com 200 votos e acordou como deputado Federal. Era suplente de Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas, em Pernambuco, cassado pela ditadura. Chegou a Brasília de roupa nova e coração vibrando de alegria. Murilo Melo Filho melou o jogo, logo no aeroporto, com a pergunta abrupta: - Deputado, como vai a situação? Confuso, nervoso, surpreso, sem saber o que dizer, querendo causar boa impressão tascou: - As perspectivas são piores do que as características. Pois é, a esta altura, tem muito deputado imitando Luís Pereira e traçando o panorama do amanhã. Começo minha análise política com o poema do beco, de Manuel Bandeira. Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?-O que vejo é o beco. O cachorro louco Pois é, tentei ver maravilhas. Só vejo o beco. E um beco no início deste mês, considerado também o mês do desgosto e, para outros, o mês do cachorro louco. Lembremos alguns fatos. Em 24 de agosto de 1954, Getúlio deu um tiro no peito. Em 5 de agosto de 1961, Jânio Quadros apresentou sua carta de renúncia. Em 31 de agosto de 1969, uma trombose cerebral afastou da presidência o general Costa e Silva. Em 22 de agosto de 1976, morreu de acidente de carro, ao se dirigir ao Rio de Janeiro, o ex-presidente Juscelino Kubitschek. E, 13 de agosto de 2014, faleceu em acidente aéreo o forte pré-candidato à presidência da República, então presidente do PSB e ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Loucuras Loucuras de cachorro louco ou ação premeditada para começar a melar, desde já, o processo eleitoral de 2022? A crise entre o Judiciário e o Executivo é grave. E, pela primeira vez, vê-se uma tomada de posição inusitada: um inquérito para investigar o mandatário-mor do país, Jair Bolsonaro. A decisão, por unanimidade, foi tomada pelo TSE, com a participação de nove ministros do STF. A razão: a continuidade das denúncias sem sentido que o presidente tem feito às urnas eletrônicas. Até hoje não apresentou nenhuma prova. O capitão acende fogueiras para queimar o ministro Luís Roberto Barroso, que comanda o TSE. E este Tribunal quer conter o devaneio bolsonarista com um inquérito. Palavras ao vento Luiz Fux até havia se reunido com Bolsonaro, dias atrás, para estabelecer um pacto de não agressão. Saíram ambos confiantes. Teceram loas ao encontro. Palavras ao vento. O presidente agora foi jogado no canto do ringue. Um inquérito com aval do Supremo é coisa de alta gravidade. Se os ministros não encontrarem provas de fraudes, como alega o presidente, este será denunciado, podendo, até vir a perder os direitos políticos. Pelo andar da carruagem, esse beabá sobre eleições fraudulentas em 2022, caso não se aprove o voto impresso, é um sinal adiantado de derrota. E um avanço em direção a uma emboscada golpista. Quantos generais? Se o presidente quer melar as eleições do próximo ano, deve confiar no poder armado para a tentativa de se manter no Planalto na marra. Tem generais suficientes na ativa para uma empreitada arriscada como essa? Os que estão em seu entorno não terão voz para mobilizar forças. Mas disporiam de forte poder de articulação. Os ministros militares teriam apetite para degustar esse menu? É quase impossível acreditar nessa hipótese. O quase fica por conta da tese de que, na arena da política, nada é impossível. Mas o problema é outro: o Brasil não é uma República de bananas, como lembrou o vice-presidente da República, Hamilton Mourão. O mundo globalizado isolaria o país. E Bolsonaro, em descenso nas pesquisas, não contaria com a maioria da população. BO+BA+CO+CA Dinheiro no Bolso, Barriga Cheia, Coração Agradecido, Cabeça votando a favor do patrono da equação. Esta pode ser a manobra bolada pelo presidente para massagear o coração das massas em 2022. Manobra que é a de encher o Bolsa Família com muita grana, a ponto de marcar as mensalidades com a quantia de R$ 600. Um trunfo com jeitão de triunfo. Dinheiro no bolso exerce grande apelo. Assim, o presidente estaria pavimentando sua jornada com um exército ocupando as ruas. Para tanto, os precatórios seriam retalhados e pagos modicamente. Paulo Guedes está nesse jogo. A índole O pau que nasce torto não tem jeito morre torto. A índole golpista de Sua Excelência resiste às mutações. Só não sei se foi em um mês de agosto que o capitão liderou movimento, em passado distante, em favor de aumento de proventos para as forças de seu "exército". A reserva com reserva Grandes perfis na reserva veem com reserva as curvas e dribles que o presidente tenta dar na Constituição. A conferir. O trunfo é paus A política deixou de ser uma unidade autônoma, porquanto passou a depender de mais duas hierarquias: a alta administração do Estado e os negócios. Esse é o feitio dos modernos sistemas democráticos. E é essa modelagem que explica manifestações radicais das massas em quadrantes diferentes do planeta. Busca-se um salvador da pátria, seja ele socialista, populista, liberal, conservador de direita, tecnocrata ou intelectual. Se ele não aparecer, um ditado conhecido dos ditadores poderá emergir: quando nada mais se apresenta, o trunfo é paus. Cá entre nós, leitores, enxergam alguma afinidade com nossa situação política? Moralização ou desmoralização? Digamos que a CPI da Covid-19 apresente provas plausíveis de má gestão da res publica. Digamos que o inquérito do TSE também apresente provas de que as urnas eletrônicas são confiáveis. E que, entre os nomes arrolados no capítulo da irresponsabilidade, conste a figura do nosso mandatário-mor. Será ele punido? Escapará pelas tangentes? Em jogo estarão os nomes e a respeitabilidade dos julgadores. Este analista já apostou numa pizza gigantesca. Ante esse inquérito do TSE, a conclusão é a de que a imagem (positiva ou negativa) recairá sobre nossas instituições. Um nome de respeito General de reserva, Santos Cruz, para quem a confusão criada por Bolsonaro com urna eletrônica é deliberada. Nomes que crescem Senadores Omar Aziz, Otto Alencar, Alessandro Vieira e Simone Tebet; prefeito Alexandre Kalil, Gilberto Kassab, Centrão. Nomes que perdem fama Sergio Moro, Luiz Mandetta, ACM Neto, ministros de Bolsonaro. Um tributo Esta coluna presta suas homenagens a três grandes professores e intelectuais, eixos do pensamento político nacional: José Arthur Giannotti, Leôncio Martins Rodrigues e Francisco Weffort. A confiança nas instituições Desde os anos 1960, a confiança nas instituições da modernidade despencou, e a segunda metade do século XXI viu a ascensão de movimentos populistas que repudiam com estardalhaço os ideais do Iluminismo. Eles são tribalistas em vez de cosmopolitas, autoritários em vez de democráticos, desprezam especialistas em vez de respeitar o conhecimento e têm saudades de um passado idílico em vez de esperança em um futuro melhor. Steven Pinker, em O Novo Iluminismo A velha questão fiscal Nossa democracia vive ciclos diferentes. Mas a questão fiscal sempre foi um elo a integrar os tempos. Enterramos uma história pontilhada de excessos fiscais e monetários, desde os princípios do século XIX, quando importávamos caixões de defuntos vindos da Inglaterra, prontinhos e estofados em veludo, para receber empresários decadentes e burocratas inescrupulosos. Até que enfim, o sonho de Campos Sales realizou-se. Vale lembrar que ele lutou, entre 1898 e 1902, para fazer o saneamento financeiro e estancar a dívida externa brasileira, que chegou às alturas por conta de empréstimos tomados da Inglaterra pelo governo anterior de Prudente de Moraes. Hoje, a questão fiscal tributária continua a formar uma Torre de Babel no entorno dos cofres públicos. O nosso fardo Ainda hoje traços de uma população amorfa impregnam nossa identidade, reflexo da carga negativa que paira sobre a fisionomia nacional: a pobreza educacional das massas; a perversa disparidade de renda entre classes; o sistema político resistente às mudanças; o sistema de governo ortodoxo (hiperpresidencialismo de cunho imperial); e a continuidade de mazelas históricas, entre as quais reinam, absolutas, o patrimonialismo e o assistencialismo de caráter paternalista. Sob essa teia esburacada, a concentração de forças permanece sob a égide do Estado todo-poderoso, bem visível na função de cobrador de impostos, eixo repressor (policialesco), distribuidor de favores e com poder de definir os destinos da sociedade. Fecho a coluna com um causo das Minas Gerais. Engano de segundo grau 31 de março de 1964. Benedito Valadares se encontra com José Maria Alkmin e Olavo Drummond no aeroporto de Belo Horizonte: - Alkmin, para onde você vai? - Para Brasília. - Para Brasília, ah, sim, muito bem, para Brasília. Os três saem andando para o cafezinho, enquanto Benedito cochicha no ouvido de Drummond: - O Alkmin está dizendo que vai para Brasília para eu pensar que ele vai para o Rio. Mas ele vai mesmo é para Brasília. Esse tipo de artimanha é chamado de engano de segundo grau. Quer dizer: engano meu interlocutor, dizendo-lhe a verdade para tirar proveito da sua desconfiança. A primeira historinha é judia e expressa com humor o refinamento a que leva o ocultamento de informações: "Que sacanagem, o senhor quis fazer-me acreditar que vai a Minsk. Acontece que o senhor vai a Minsk".
quarta-feira, 28 de julho de 2021

Porandubas nº 726

Abro a coluna com uma fábula. Em cinco anos, tudo pode ocorrer Um poderoso sultão, sábio entre os sábios, possuía um camelo muito inteligente. Obedecia a todas as ordens que nem precisavam ser emitidas de viva voz. Faltava-lhe apenas o dom da palavra. Esse detalhe entristecia sobremaneira o sultão. Um dia, decidiu convocar o Grande Conselho e chamou o grão-vizir. - Quero que ensine meu camelo a falar! - Mas isso é impossível. - Cortem a cabeça dele! Tragam-me o adjunto! Mesma afirmação de desejo sultanesco, mesma resposta, mesma sentença. A cena repetiu-se diversas vezes e cabeças rolaram. Exasperado o sultão declarou. - Aquele que ensinar meu camelo a falar será meu grão-vizir. Silêncio! O sultão repetiu a exortação. Eis que surgiu um humilde ajudante de cozinheiro. Disse: -Dá-me, ó incomparável senhor, um prazo de cinco anos, e farei falar teu camelo. Estupefação geral. Seguida do cumprimento da promessa. -Doravante, és meu grão-vizir! Mas se falhares, sabes o que te espera! - Bem sei! Encantado, o jovem fez profunda reverência e saiu correndo para dar a boa notícia à esposa. - Infeliz, acabas de assinar tua condenação. - Não é bem assim, meu bem. Pedi cinco anos.Você sabe que muitas coisas poderão acontecer em cinco anos : morre o camelo, morre o sultão... (Fábula enviada pelo atento Alexandru Solomon). Nada a ver com as próximas eleições. Queixumes O amigo de academia militar de Bolsonaro, general Luiz Eduardo Ramos, não gostou de ser defenestrado da Casa Civil. Está desconsolado com a transferência para a Secretaria de Governo, onde estava Onyx Lorenzoni. Dia que como soldado cumpre missão. Mas não há coração que resista a uma promoção para baixo. O general é uma cascata de queixumes. Guedes resistirá? Paulo Guedes, de amplo Posto Ipiranga e pau para toda obra, no início do governo, tem sido transformado ao longo do tempo, em mera bomba de gasolina. Bolsonaro corta seu poder. Desmembra seu poderoso ministério da Economia. Guedes é vaidoso. Quer se agarrar nas ancas do poder. Mas resistirá a tanta perda? Tenho dúvidas. Quarta marcha O governo Bolsonaro passa a quarta marcha. Antes do tempo. Quer colocar o carro na avenida da campanha. Faz um acordão com o Centrão, abre as comportas da administração, e fecha os olhos para as prioridades. O impulso fisiológico de Bolsonaro em direção ao Centrão pode ser um tiro no pé. O Centrão é pragmático. Se o navio começar a afundar, seus participantes serão os primeiros a desembarcar. Pequeno conto "Misia Sert dominava a arte de caçar moscas. Estudava pacientemente os modos destes animais até descobrir o ponto exato em que havia de introduzir a agulha para pregá-las sem que morressem. Exímia na arte de fazer colares de moscas vivas, entrava em frenesi com a celestial sensação do roçar das patinhas desesperadas em seu colo." Pequeno conto de Elias Canetti em Suplicio de Las Moscas. A máxima de Anacaris A máxima de Anacaris, um dos sete sábios da Grécia, começa a ser reescrita por aqui: "As leis são como as teias de aranha, os pequenos insetos prendem-se nelas e os grandes rasgam-nas sem custo". O novo triângulo do poder Identifica-se, em nossas plagas, o que Roger-Gérard Schwartzenberg cognomina de o novo triângulo do poder nas democracias, que junta o poder político, a administração (os gestores públicos) e os círculos de negócios. Essas três hierarquias, agindo de forma circular, cruzando-se, recortando-se, interpenetrando-se, passam a tomar decisões que se afastam das expectativas do eleitor. A cobiça dos parceiros - gestores, empreendedores privados e núcleos políticos das três instâncias federativas - desafia ainda mais o Estado. É o que tem mostrado a CPI da Covid-19. O joio e o trigo juntos Não é fácil separar o joio do trigo e perceber as tênues linhas que distinguem o bem comum do bem privado. A percepção é nítida diante de exageros como casos de superfaturamento, vícios de licitações, apropriação escancarada da coisa pública e flagrantes de ilícitos, por meio de gravações autorizadas pela Justiça. Pode-se aduzir que a lupa dos órgãos de controle ajusta mais o foco nessa planilha. Há a considerar, ademais, que os descaminhos na estrada pública têm sido alargados pela evolução das técnicas. Aos amigos, pão A ladroagem é embalada por um celofane tecnológico de alta sofisticação, diferente dos costumes da Primeira República, quando a eleição do Executivo municipal assumiu relevo prático. Naquele tempo, o lema da prefeitada era: "Aos amigos, pão; aos inimigos, pau". O Brasil da atualidade sobe degraus na escada asséptica, apesar das camadas de sujeira que ainda entopem canais da administração pública. O MP acendeu luzes sobre os esconderijos e parece movido por entusiasmo cívico, haja vista a disposição com que se aferra à missão de proteger o patrimônio público e social. O presidente que prometia combate incessante à corrupção cai nas malhas dos negociantes. A estética O código estético é o primeiro a se infiltrar na mente. Você imaginaria Jesus Cristo sem a barba? E Abraham Lincoln, seria o mesmo sem a barba? Que tal um Gandhi cabeludo? Elvis Presley sem o topete teria o mesmo charme? O milionário "O milionário, ao ser perguntado quanto dinheiro era o bastante, replicou 'só um pouquinho mais'. Reconhecia uma característica essencial da vida humana. Há razões positivas pelas quais o poder tende a ser uma bola de neve e é dado àqueles que o possuem". (Kenneth Minogue) Personagens Eduardo Leite O governador do Rio Grande do Sul terá voz mais forte no processo político. A conferir. João Doria Faz uma boa administração em São Paulo. Mas o automaketing o engole. ACM Neto Em processo de enfraquecimento. Não tem mais a força de tempos atrás. Mourão O general Mourão tem merecido respeito. Expressa palavras de bom senso. O presidente continua a dar estocadas no vice. Disse, por último, que "às vezes ele atrapalha". Até quando o general vai aguentar os tiros dados de frente e por trás? Kassab Gilberto Kassab sobe, devagar, a montanha de prestígio. Vai transformando o PSD em um grande partido. Ciro Nogueira Conheci o pai dele, Ciro, em 1986, quando coordenei a campanha eleitoral de Freitas Neto (PFL/PI). Ciro era um iniciante. O pai, deputado Federal, um grande comerciante. O filho é mais articulado. O pai, falecido, era um perfil sério e de poucas palavras. E descortina grande futuro para o filho. Como ministro da Casa Civil, Ciro servirá o feijão com arroz. Pacheco Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, tem boa expressão, é moderado, e exibe boa presença. Pode vir a ser protagonista importante em 2022. Arthur Lira Se pleitear a candidatura ao governo de AL, em 2022, será o favorito. Alckmin Geraldo Alckmin está em vias de carimbar o passaporte para chegar ao Palácio dos Bandeirantes em 2022 pelas asas do PSD de Kassab. Rodrigo Garcia Bom perfil, mas ganhará muita rejeição. Com jeito, pode escalar o morro. Caiado Candidato à reeleição. Tem capacidade de arregimentação. CPI da Covid-19 Serão muitos os crimes a serem atribuídos à gestão Federal. O que a PGR fará? Arruma-se uma gigantesca pizza. A não ser que a crise política suba o pico até meados de outubro. Responder sem confessar Nesses tempos de Covid-19, até parece que os depoentes leram a cartilha dos hereges. Seguinte: No tempo da Inquisição, os hereges desenvolviam dez truques para responder sem confessar: 1) A primeira consiste em responder de maneira ambígua. 2) O segundo truque consiste em responder acrescentando uma condição. 3) O terceiro truque consiste em inverter a pergunta. 4) O quarto truque consiste em se fingir de surpreso. 5) O quinto truque consiste em mudar as palavras da pergunta. 6) O sexto truque consiste numa clara deturpação das palavras. 7) O sétimo truque consiste numa autojustificação. 8) O oitavo truque consiste em fingir uma súbita debilidade física. 9) O nono truque consiste em simular idiotice ou demência. 10) O décimo truque consiste em se dar ares de santidade. (Manual dos Inquisidores - escrito por Nicolau Eymerich em 1376. Revisto e ampliado em 1578 por Francisco de La Peña) Epílogo "Um homem se propõe a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos, povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naus, de ilhas, de peixes, de moradas, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu rosto". (Jorge Luis Borges)
quarta-feira, 21 de julho de 2021

Porandubas nº 725

O mel de Frei Damião Fausto Campos sempre passava pela BR-232, entre Serra Talhada e Custódia, em Pernambuco. Na beira da estrada, vendedores ofereciam o melhor mel do mundo, o mais puro. Um dia, resolveu levar uma garrafa. Perguntou: "o mel é puro"? O vendedor: "o mais puro do mundo". Fausto arrematou: "pois vou levar esse mel para o Frei Damião". O vendedor apressou-se a esclarecer: "doutor, é melhor não levar esse pote. Quem tirou esse mel foi meu irmão e ele gosta de juntar um pouco d'água no mel para render mais. Desculpe. Na próxima vez, o senhor vai levar um mel 100% puro. Agora, só se o senhor quiser levar esse pro senhor. Mas pro Frei Damião, de jeito nenhum". (Historinha enviada por Delmiro Campos, filho de Fausto). Análise de viabilidade A viabilidade de um ator político conseguir atingir sua meta em determinado espaço de tempo é uma equação que reúne variáveis, componentes e fatores que mudam sob o fluxo das circunstâncias. Mesmo assim é possível alinhavar alguns eixos, a saber: perfil do protagonista; história de vida; experiência; recursos; análise dos espectros social, político e econômico do país; estrutura partidária; capacidade expressiva; escopo programático; conhecimento do país; identificação com valores do tempo; visibilidade; suporte social; apresentação pessoal; sentimento de que se trata de perfil vocacionado a fazer o país caminhar. Claro, todos esses ingredientes ainda têm de enfrentar a força do Imponderável, essa entidade que não escolhe dia, hora e espaço para fazer-nos uma visita. Identidade e imagem O protagonista deve realizar esforço extraordinário para transmitir uma imagem correspondente à sua identidade. Isto é, ser percebido como realmente é. Sem invencionismos, truques que elevam sua projeção pública a um grau de exagerada elevação, com qualidade que não as tem e valores que não combinam com suas crenças. Identidade tem origem no latim - idem, semelhante, igual. Quando a imagem está muito distante da identidade, cria-se um distanciamento entre um e outro conceito, o que veste o protagonista com a roupa de fantoche, pessoa artificial, manobrada, a quem não deve se dar crédito. Em comunicação, designamos esse fenômeno como "dissonância cognitiva". Visibilidade A comunicação é o dos eixos centrais do processo. Afinal, não se vota em quem não se conhece ou em quem não se apresenta. Mas não se pense que o conhecimento de um candidato é uma soma exagerada de tempo e espaço. Uma campanha eleitoral de 45 dias, com tempo de um grande partido, é suficiente para que o perfil seja amplamente conhecido. Equivale e uma campanha massiva desses grupos de varejo que atingem milhões de consumidores com seus anúncios diários e repetitivos de seus produtos. E quanto mais audiência tiver uma emissora, mais consumidores atingirá. Esses resultados são medidos por um conceito chamado GRP. GRP I Gross Rating Points ou pontos de audiência bruta. Esse conceito foi desenvolvido para medir a intensidade com que um anunciante se comunica com seu público através de anúncios na TV. O GRP representa o somatório das audiências das inserções de uma programação de TV. Vejamos um exemplo: um comercial é veiculado três vezes em uma novela com 40 pontos de audiência, duas vezes em um telejornal com 30 pontos de audiência e uma vez em um filme com 20 pontos de audiência. GRP II Para calcular o total de GRP dessa programação basta somar as audiências de todas as inserções. Portanto: três inserções na novela que tem 40 pontos de audiência representam 120 GRP; duas inserções no telejornal que tem 30 pontos de audiência representam 60 GRP; uma inserção no filme que tem 20 pontos de audiência representa 20 GRP. Somando tudo chega-se a um total de 200 GRP. Resultados Diferentes programações podem gerar a mesma quantidade de GRP, mas resultados diversos para o anunciante. Por exemplo, se ao invés de anunciar no telejornal e no filme fossem feitas apenas cinco inserções na novela o resultado seria de 200 GRP. Mas, é provável que nesse caso boa parte dos domicílios seria impactada cinco vezes pelo comercial, porque esses telespectadores acompanham diariamente o desenrolar da novela. Por outro lado, na programação mais diversificada aumenta a probabilidade de que uma quantidade maior de domicílios seja impactada, porém com menor frequência. Para fazer avaliação mais apurada é necessário considerar outros dados como o objetivo da campanha, custo das inserções para calcular o CPP (Custo por Ponto), perfil e audiência dos programas para medir o TRP (Target Rating Points). Coisas Há umas coisas que se buscam para se acharem e há também outras que, para se não acharem, é que se buscam. Costumava dizer o imperador Frederico: tomara que meus conselheiros deixassem às portas do palácio duas coisas, porque sem elas entenderiam melhor o que me aconselhavam e eu saberia discernir entre os votos. Perguntado que duas coisas eram estas, ele respondeu: a simulação e a dissimulação. (Padre Bernardes) O mentiroso O eleitor percebe quando o "perfil ensaboado" tomou um banho de loja. Acautelem-se, desde já, futuros candidatos. Costumo lembrar esse caso de mistificação como arma do palanque. Na campanha de 60, nos EUA, Barry Goldwater, governador do Alabama, queria passar a ideia de pessoa séria, um intelectual. Muito conservador, candidato à presidência, usava um palanque alto, cercado por uma proteção de vidros à prova de bala, para evitar atentados. Usava uma armação de óculos para passar a ideia de pessoa compenetrada. Um dia, em um comício, esqueceu que a armação não tinha lente. Colocou o dedo no olho para tirar um cisco. Mas enfiou o dedo pelo buraco da armação. Nesse momento, um fotógrafo flagrou a mentira. Dia seguinte, a manchete denunciava: "EIS O GRANDE MENTIROSO". O impacto negativo tirou-o do pleito. Começou aí a jornada do despenhadeiro político. Simone As mulheres estão vivenciando um momento de lutas e avanços. No tiroteio que se desenvolve na esfera política, as mulheres sobressaem com suas investidas na área organizativa e de mobilização. Chamo a atenção sobre a senadora Simone Tebet (MDB-MS) com seu perfil jovial, fluência ideativa, objetiva e desenvolvendo boa performance na CPI da Covid-19. Seria um perfil adequado para uma candidatura à presidência da República em 2022. Tebet Exibe boa experiência na administração pública. Ex-prefeita de Três Lagoas/MS, marcou sua administração pelo ritmo de progresso do município. Trouxe fábricas importantes na área da celulose e de produtos de refrigeração, entre outras. Um exemplo de boa gestão. Simone foi deputada estadual e secretária de Estado. Ganhou a educação política do pai, o senador Ramez Tebet, de saudosa memória. Pode ser o sinal avançado e diferenciado numa campanha majoritária nacional. De um grande partido, MDB, passa a imagem de assepsia política. E não é um poste como foi Dilma, eleita com o prestígio de Lula. Em suma, tem diferencial. Pazuello O ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, foi flagrado na mentira. O cumprimento que teria feito aos empresários interessados em vender a vacina Coronavac, por R$ 28 a dose, ultrapassou a linha da liturgia de uma rápida passagem por educação na sala de Élcio Franco, então secretário-executivo do Ministério. Prometeu assinar um compromisso. Um documento. Bolsonaro O presidente acena com a possibilidade de não ser candidato caso não seja aprovado no Congresso o voto impresso. Lorota. Uma saída à brasileira para eventual chance de ser fragorosamente derrotado. Jair será candidato. E mais: sonha com atos de força. Confissão só na hora da morte Numa cidadezinha de Minas, Padre Elesbão estava esgotado de tanto ouvir pecados, ou, como dizia, besteiras. Decidiu moralizar o confessionário. Afixou um papelão na porta da Igreja, dizendo: O Vigário só confessará: 2ª feira - As casadas que namoram 3ª feira - As viúvas desonestas 4ª feira - As donzelas levianas 5ª feira - As adúlteras 6ª feira - As falsas virgens Sábado - As "mulheres da vida" Domingo - As velhas mexeriqueiras O confessionário ficou vazio. Padre Elesbão só assim pode levar vida folgada. Gabava-se: - Freguesia boa é a minha... mulher lá só se confessa na hora da morte! (Leonardo Mota em seu livro Sertão Alegre)
quarta-feira, 14 de julho de 2021

Porandubas nº 724

Abro a coluna com o vinho da missa Mata o bicho Falo do monsenhor Aristides Rocha, mineirinho astuto, que fazia política no velho PSD e odiava udenistas. Ainda jovem, monsenhor foi celebrar missa em uma paróquia onde o sacristão apreciava uma boa aguardente. Um dia, o sacristão, seguindo o ritual, sobe o degrau do altar com a pequena bandeja e as garrafinhas de vinho e água, e não vê uma pequena barata circulando entre as peças do altar. Monsenhor interrompe o seu latim e, de olho na bandeja, diz baixinho ao sacristão: - Mata o bicho... O sacristão não entende a ordem. Atônito, fica olhando para o jovem padre, que repete a ordem, agora com mais energia: - Mata o bicho, sô! Ordem dada, ordem executada. O sacristão não se faz de rogado. Diante dos fieis que lotam a capela, ele pega a garrafinha e, num gole só, sorve todo o vinho da santa missa. No interior de Minas, "matar o bicho" é dar uma boa bebericada. (Do livro de Zé Abelha, A Mineirice). Poranrápidas... O luxo do funeral "O luxo do funeral e a suntuosidade do túmulo não melhoram as condições do morto; satisfazem apenas a vaidade dos vivos". (Dante Veoléci) A índole Após uma conversa de 20 minutos, o presidente Bolsonaro deu uma entrevista civilizada à imprensa. Sem impropérios e adjetivos pesados. Teria mudado? As pesquisas abriram seus ouvidos? Não se muda uma índole da noite para o dia. In dubio Pro reo. O ditado latino sugere ficar do lado do réu quando há dúvida sobre a situação que o envolve. E ante a verdade? Nenhum militar está dentro do vacinagate? Será que o imbróglio que laça alguns nomes não tem nenhum verniz de verdade? Ante a evidência de verdades, puna-se o réu. A defesa em nota O ministro da Defesa, Braga Neto, com o endosso dos comandantes das Forças-Marinha, Exército e Aeronáutica -, fez uma nota em defesa dos militares. O alvo foi o presidente da CPI da Covid-19, senador Omar Aziz. Militares prestigiados da reserva, ao que se lê, não concordam com a militarização do governo. O general Santos Cruz tem sido uma voz forte nessa direção. Omar no ataque Omar Aziz tem se saído muito bem no comando da CPI. Quem esperava uma performance amorfa, insossa, se surpreendeu. Omar é um dos mais ferinos integrantes da Comissão. Por sua causa, aliás, o G7 perdeu o senador Eduardo Braga, MDB-AM, e vira G6. Política amazonense. Renan pertinente O relator Renan Calheiros, MDB-AL, faz perguntas pertinentes. Ajusta a imagem a esses tempos de assepsia. Consegue, a seu modo, deixar de ser alvo de tiroteio. O leão governista Já o senador Marcos Rogério, DEM-RO, é o leão que defende o território governista. Cresceu muito na CPI. Divisa uma trajetória política de sucesso. Pode vir a ser governador. Mendonça Passará pela sabatina do Senado? O AGU, o pastor evangélico André Mendonça, abre caminho para ser aprovado como ministro do STF. Mas, seja qual for o resultado, a margem de vitória ou de derrota será pequena. Se for aprovado, fará o pedido do chefe Bolsonaro? O de abrir semanalmente as sessões do STF com uma oração. E o Estado-laico? Vai dar em pizza? A CPI da Covid-19 dará em pizza? Difícil saborear a massa ante tantas evidências. Mas este analista não acredita em impeachment do presidente. Um caldo grosso será ofertado, mas os condimentos políticos tentarão açucarar as decisões. Pacheco Anotem este nome: Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, mesmo nascido em RO, é um mineiro de quatro costados. Entrará no PSD de Kassab e será candidato à presidência da República em 2022. A conferir. Terceira via. Alckmin e Kalil Gilberto Kassab sabe costurar o tecido político. Puxa Geraldo Alckmin para o PSD, que o lançará candidato ao governo de São Paulo, em 2022. E já tem acertada a candidatura de Alexandre Kalil, prefeito de BH, ao governo de MG. E Lula? Como sair da polarização Bolsonaro x Lula? Tirando um ou outro. Para Bolsonaro sair, só o impeachment. Que faria afundar a candidatura petista. Diante dessa improvável alternativa, Lula navegará tranquilo. Até o nome da terceira via vingar. Ligeirandubas... A segunda parte da coluna continua com ligeiras passagens. Clima social Há ameaça de golpe nos horizontes eleitorais? Palavras ao vento. O destino do Brasil não aceita golpes sem um imenso apoio social. E isso faltará a qualquer protagonista com tal intenção. A profissionalização das Forças Armadas falará mais alto que eventuais ameaças. Economia Tende a melhorar nos próximos meses. Imposto de renda Com desafogo no bolso das classes médias, a reforma do IR poderá atrair a simpatia de contingentes eleitorais. Tributária Vejamos o que diz o amigo ex-deputado Luiz Carlos Hauly, um dos maiores especialistas em matéria de reforma tributária: "A aprovação da PEC 110 vai proporcionar uma Black Friday permanente para o consumidor brasileiro. Ela vai eliminar R$500 bilhões por ano de gorduras trans dos preços relativos de Bens e Serviços e eliminar de imediato 50% da sonegação fiscal anual de R$600 bilhões. Vai proporcionar um novo círculo virtuoso de crescimento Sustentado com renda e consumo para todas as famílias e em especial para as de menor renda, que são a maioria da nossa população." Vespasiano Do mestre Rui Barbosa: "Vespasiano dizia que, para um imperador, decência é morrer de pé, decência é cumprir bem o seu papel." A falta de vergonha, por estas plagas, chega ao pico da montanha. O reino da mentira Já o Reino da Mentira, descrito pelo senador Rui Barbosa, nos idos de 1919, volta à ordem do dia: "Mentira por tudo, em tudo e por tudo. Mentira na terra, no ar, até no céu. Nos inquéritos. Nas promessas. Nos projetos. Nas reformas. Nos progressos. Nas convicções. Nas transmutações. Nas soluções. Nos homens, nos atos, nas coisas. No rosto, na voz, na postura, no gesto, na palavra, na escrita. Nas responsabilidades. Nos desmentidos." Bismarck Nesses tempos de preamar do niilismo, cai bem nas nossas cabeças a insinuação do chanceler Von Bismarck (1862-1890): "se as pessoas soubessem como se fazem as leis e as salsichas", possivelmente não cumpririam as primeiras nem comeriam as segundas. Vale quanto pesa Um aspecto fica bastante patente na fisionomia dos Países de sólida democracia: as leis valem pelo peso da importância, tornando-se conhecidas, respeitadas, rigorosamente adotadas e, sobretudo, gerando resultados e fazendo convergir os interesses coletivos. Clima eleitoral Com muita antecedência, a campanha eleitoral de 2022 começa a ganhar as ruas. E, como se sabe, com alvos a atrair; eleitores interessados na política, racionais, com intenção de voto definida; e grupamentos dispersos, desinformados, instáveis e emotivos. Os primeiros se interessarão pelos discursos de seus candidatos, sendo pouco suscetíveis às mensagens dos adversários, enquanto os segundos, pragmáticos, podem mudar de posição, de acordo com os benefícios - maiores ou menores - oferecidos pelos contendores por meio de propostas para áreas como saúde, educação, transportes, segurança, habitação, emprego e bem-estar social. Quem prometerá mais? Campanha negativa Preparemo-nos para ver campanhas negativas. Pinço um caso dos EUA, tradição naquele país. Lyndon Johnson, candidato democrata a presidente em 1964, foi o primeiro a pagar anúncios para desmoralizar o rival Barry Goldwater. Uma menina no campo desfolhava pétalas de uma margarida, enquanto as contava uma a uma, até que, chegando ao dez, uma voz masculina começava a reverter a contagem. Na hora do zero, sob um ruído ensurdecedor, via-se na tela uma nuvem de cogumelo, simbolizando a bomba atômica, e a voz de Johnson: "Isto é o que está em jogo - construir um mundo em que todas as crianças de Deus possam viver ou, então, mergulhar nas trevas. Cabe a nós amar uns aos outros ou perecer." O arremate: "Vote em Lyndon Johnson. O que está em jogo é demais para que você se possa permitir ficar em casa." Em nenhum momento se mencionava Barry Goldwater, o candidato republicano. O anúncio saiu apenas uma vez, mas as TVs o repetiram. Outros foram criados e massacraram o falcão republicano. Aluízio alves Aluízio Alves, pioneiro do uso das ferramentas do marketing político, candidato a governador do Rio Grande do Norte em 1960, acusado pelo adversário de correr o Estado dia e noite liderando multidões pelas estradas, apropriou-se do termo "cigano" a ele atribuído. Enfeitiçou as massas. Os comícios pegavam fogo. Dinarte Mariz, o governador, patrono da candidatura de Djalma Marinho, menosprezava: "Quem vai a esses comícios é uma gentinha analfabeta." Aluízio adotou o termo: "Minha querida gentinha." Ganhou a eleição. P. S. Quando as acusações assumem um toque pessoal, podem se voltar contra o agressor. A desconstrução de perfis acaba se voltando contra o desconstrutor. Pão e circo "Os povos gostam do espetáculo; através dele, dominamos seu espírito e seu coração". Luís XIV. Maquiavel já aconselhava ao Príncipe "divertir e reter o povo em festas e jogos". Os tiranos que surgiam nas cidades gregas entre os séculos VII e VI A.C. já utilizavam intensamente as festas populares em benefício de sua propaganda.
quarta-feira, 7 de julho de 2021

Porandubas nº 723

A paixão de Cristo O que vou narrar deu-se na encenação da Paixão de Cristo numa cidadezinha da Paraíba. O dono do circo, em passagem pela cidade, resolveu encenar a Paixão de Cristo na Sexta-Feira santa. Elenco escolhido dentre os moradores e no papel de Cristo, o cara mais gato da cidade. Ensaios de vento em popa. Às vésperas do evento, o dono do circo soube que 'Jesus' estava de caso com sua mulher. Furioso, deu-se conta que não podia fazer escândalo sob pena de perder o investimento. Bolou uma maneira. Comunicou ao elenco que iria participar fazendo o papel do 'centurião'. - Como? - reclamaram - Você não ensaiou! - Não é preciso ensaiar, porque centurião não fala! O elenco teve de aceitar. Dono é dono. Chegou o grande dia. Cidade em peso compareceu. No momento mais solene, a plateia chorosa em profundo silêncio. Jesus carregando a cruz ... e o 'centurião' começa a dar-lhe chicotadas. - Oxente, cabra, tá machucando! Reclamou Jesus, em voz baixa. - É pra dar mais veracidade à cena, devolveu o centurião. E tome mais chicotada. Chicote comendo solto no lombo do infeliz. Até que Jesus enfureceu-se, largou a cruz no chão, puxou uma peixeira e partiu pra cima do centurião: - Vem, desgraçado! Vem cá que eu vou te ensinar a não bater num indefeso! O centurião correndo, Jesus com a peixeira correndo atrás, e a plateia em delírio gritando: - É isso aí! Fura ele, Jesus! Fura, que aqui é a Paraíba, não é Jerusalém, não! Panorama visto da sacada Nesses tempos de reclusão, é agradável contemplar o panorama da sacada. Melhor que tentar ver as cores da paisagem na solidão do escritório. Daqui dá para enxergar que o comandante em chefe das Forças Armadas se vale da sua condição de militar para continuar a se referir ao "meu Exército", continuar a dizer que só perderá em outubro de 2022 se houver "fraude", fustigar a CPI da Covid-19 e até a dar estocadas no STF. Delfim Netto Daqui, dá para refletir sobre uma entrevista de Delfim Netto, o ex-todo poderoso ministro da Fazenda dos tempos de chumbo, ver que ele acredita na vitória de Lula no primeiro turno das eleições do próximo ano e mais: que Bolsonaro não contaria com apoio das Forças para alguma ação golpista, devendo ir tranquilamente para a casa depois de derrotado democraticamente nas urnas eletrônicas. Derrota que acontecerá mesmo que o PIB chegue a 5% este ano. Este analista, com todo respeito e interlocução que mantém com Delfim, um amigo, não é fiador dessa hipótese. PIB da felicidade Se o PIB jogar dinheiro no bolso do consumidor e tivermos uma vacinação em massa, como tenho repetido em minhas análises, o capitão deverá manter seu assento no Palácio do Planalto. A não ser que essas hipóteses não se realizem, Bolsonaro poderá resgatar a força e a condição de favorito. O PT no poder reabriria o passado de lodo. Não será simples uma volta de Lula por cima de todo o contencioso que cobre a imagem do lulopetismo. A decisão do STF de anular as sentenças do ex-juiz Sergio Moro, condenando Lula, não será suficiente para apagar sua trajetória, eis que os casos continuarão a infestar os espaços midiáticos. A conferir. PIB infeliz O Sul (SC, RS e PR) e o Centro-Oeste são as regiões onde o PIB da Felicidade é maior. O Nordeste lidera o PIB da Infelicidade. O índice acaba de sair. Semipresidencialismo Juristas, como Gilmar Mendes e Luís Barroso, políticos e perfis de prestígio, como o ex-presidente Michel Temer, apontam para o semipresidencialismo, maneira de atenuar os perigos da governabilidade sob as asas de Bolsonaro e de Lula. Ou seja, não haveria de ter receio da vitória de um ou outro, na medida em que um novo sistema de governo passaria o poder de governar a um primeiro-ministro, cabendo ao presidente chefiar o Estado, fazer as honras da Casa em matéria de relações internacionais, deixando a rotina com um ministério organizado pelas forças legislativas. Este analista acredita que esta mudança encontrará imensos desafios. Vejamos. A cultura presidencialista A semente presidencialista viceja em todos os espaços, dos mais simples e modestos aos mais elevados. Por estas plagas, o termo presidente faz ecoar significados de grandeza, forma associação com a aura do Todo-Poderoso, com as vestes do monarca, com a caneta do governante que tem influência, poder de mandar e desmandar. Até no futebol o presidente é o manda-chuva. O chiste é conhecido: como o ato mais importante da partida de futebol, o pênalti deveria ser cobrado pelo presidente do clube. De presidente para presidente Em 1980, no final do Campeonato Brasileiro, o Flamengo ganhou por 3 a 2 do Atlético Mineiro, em polêmica partida disputada no Maracanã. O árbitro expulsou três jogadores do Atlético, a bagunça tomou o campo e agitou os nervos. No fim, transtornado com o "resultado roubado", Elias Kalil, presidente do Atlético, exclamou aos berros: "Vou apelar para o presidente da República, João Figueiredo! Vou falar pra ele de presidente para presidente!" O culto à figura do presidente e, por extensão, a outros atores com forte poder de mando faz parte da glorificação em torno do Poder Executivo. Aparato milenar Tarefa impossível essa de pegar um machado para cortar o tronco do patrimonialismo ibérico. Herdamos da monarquia portuguesa os ritos da Corte: admiração, bajulação, respeito e mesuras, incluindo o beija-mão. O sociólogo francês Maurice Duverger defende a tese de que o gosto latino-americano pelo sistema presidencialista tem de ver com o aparato monárquico na região. O vasto e milenar Império Inca, com seus grandes caciques, e depois o poderio espanhol, com seus reis, vice-reis, conquistadores, aventureiros e corregedores, plasmaram a inclinação por regimes de caráter autocrático. O presidencialismo por estas plagas agregaria forte dose de autocracia. Coronelismo Lembremos que a semente do presidencialismo tem sido plantada na mesma terra da semente do "coronelismo", vetor que até hoje impera na política brasileira, definido por Vitor Nunes Leal em Coronelismo, Enxada e Voto como compromisso, "troca de proveitos entre o poder público, progressivamente fortalecido, e a decadente influência dos chefes locais, notadamente os senhores de terras". Portanto, a política nacional tem seu desdobramento no espaço da estrutura agrária, onde residem as manifestações do poder privado que se apropria da esfera pública, fenômeno visível e presente ainda hoje no interior do País. Como lembra Nunes Leal, o sistema coronelista gerou filhotes, como o mandonismo, o filhotismo, o falseamento do voto, a desorganização dos serviços públicos locais. Seu lema era: "para os amigos, pão; para os inimigos, pau". Ou, em outros termos: "para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei". Parlamentarismo Já o parlamentarismo que vicejou na Europa teria se inspirado na ideologia liberal da Revolução Francesa, cujo alvo era a derrubada do soberano. Isso explicaria a frieza europeia ante o modelo presidencialista. A disposição monocrática de exercer o poder vem, no Brasil, desde 1824, quando a Constituição atribuiu a chefia do Executivo ao imperador. A adoção do presidencialismo, na Carta de 1891 - que absorveu princípios da Carta americana de 1787 -, só foi interrompida no interregno de 1961 a 1963, quando o País passou por ligeira experiência parlamentarista. Eliminar os galhos da árvore presidencialista é missão para algumas gerações. A estadania Outra faceta que se conecta ao presidencialismo é a estadania. Expliquemos. Entre nós, a cultura do Estado prevalece sobre a cultura do cidadão. No Brasil houve uma inversão da lógica descrita por Thomas Marshall, em Cidadania, Classe Social e Status. José Murilo de Carvalho lembra que as nações democráticas, a partir da Inglaterra, implantaram, primeiro, as liberdades civis, a seguir, os direitos políticos e, por último, os direitos sociais. Por aqui, estes vieram primeiro. O Poder Executivo, operando as ações públicas, eleva-se no conceito das pessoas por simbolizar o distribuidor de 'benesses'. Direitos são vistos como concessões, e não como prerrogativas da sociedade, criando uma 'estadania' que sufoca a cidadania. Getúlio Vargas, ao fomentar as leis sindicais (CLT) e o sindicalismo na década de 30, criou um processo de tutela, amortecendo o ânimo social e dificultando a emancipação política da sociedade. Não por acaso, critica-se a força avassaladora do presidencialismo de cunho imperial. A dependência do Estado Desde o final do século XIX, o Brasil tenta construir, lenta e gradualmente, o altar da Cidadania de sua gente. Em 1881, tinha 12 milhões de habitantes, dos quais poucos eram imunes à manipulação dos governos. Ainda hoje, traços de uma população amorfa impregnam nossa identidade, reflexo da carga negativa que paira sobre a fisionomia nacional: a pobreza educacional das massas; a perversa disparidade de renda entre classes; o sistema político resistente às mudanças; o hiperpresidencialismo de cunho imperial etc. Não é à toa que o assistencialismo, como dádiva, corre nos desvãos das três esferas da administração pública. O adjutório que os governos criam e ampliam é o anzol para "pescar" os peixes em mares escassos de alimentos. Anomia Outra faceta bem transparente é a anomia que se espraia no país, um território que parece desconhecer as leis. Corruptos e facínoras, se condenados, ganham o mesmo status perante a lei. Esse estado anômico vem de longe. Desde os idos da colônia e do Império, fomos afeitos ao regime de permissividade, apesar da rigidez dos códigos. Tomé de Souza, primeiro governador-geral, chegou botando banca. Os crimes proliferavam. Avocou a si a imposição da lei, tirando o poder das capitanias. Um índio que assassinara um colono foi amarrado na boca de um canhão. Ordenou o tiro para tupinambás e colonos entrarem nos eixos. As ordenações Mas em 1553 uma borracha foi passada na criminalidade, com exceção dos crimes de heresia, sodomia, traição e moeda falsa. Depois vieram as Ordenações do Reino (Afonsinas, Manuelinas e Filipinas), que vigoraram até 1830. De tão severas, a ponto de estabelecerem a pena de morte para a maioria das infrações, espantaram até Frederico, o Grande, da Prússia, que ao ler Livro das Ordenações, chegou a indagar: "Há ainda gente viva no reino de Portugal?" Mas os castigos acabavam perdoados. A regra era impor uma dialética do terror e do perdão para fazer do rei um homem justiceiro e bondoso, como relata Luís Francisco Carvalho Filho em ensaio sobre a impunidade no Brasil. Poranrápidas 1. Voto impresso? Não passa O voto impresso é uma expressão recorrente na boca do nosso presidente. Pois bem, a MP do voto impresso não passa. 2. Cinturão apertado O cinturão do governo está mais apertado. Continua a cair a avaliação positiva do bolsonarismo. Não a ponto de tirar o fôlego da máquina. 3. Impeachment Só mesmo com povo na rua. Este analista não divisa condições de pressão. Por enquanto. Pandemia e economia complementam os fatores desta equação. 4. Tebet A senadora Simone Tebet (MDB-MS) seria um bom nome para entrar no páreo presidencial. 5. Segundo semestre Quanto mais demorar a CPI, pior para o governo. Se for prolongada em mais 90 dias, governo chegará ensanguentado às portas do Ano Novo. Fecho a coluna com Diógenes Patrimônio histórico Teremos o nosso Forte dos Reis Magos inserido no patrimônio nacional? Esta é a crença deste escriba com a nomeação do professor, escritor, poeta e advogado Diógenes da Cunha Lima como o primeiro potiguar a ocupar o cargo de conselheiro no Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, órgão que integra o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Diógenes cumprirá um mandato de 4 anos. E o Iphan é o órgão que trata das questões relativas ao patrimônio cultural brasileiro. Já integraram a entidade intelectuais como Carlos Drummond de Andrade, Edgar Roquete Pinto e Afonso Arinos de Melo Franco, entre outros grandes perfis.
quarta-feira, 30 de junho de 2021

Porandubas nº 722

Abro a coluna com uma historinha do Maranhão. Em campanha José Burnet, chefe da Casa Civil do governador do Maranhão, João Castelo, era deputado estadual do PSD. Em 1962 candidatou-se à Câmara Federal e saiu pelo interior fazendo campanha. Chegou à cidade de Santa Helena, foi para o comício: - Povo de Santa Helena. Eu gosto tanto desta terra, tanto, que se pudesse nascer de novo pediria a Deus para nascer aqui em Santa Helena. Foi um sucesso. No dia seguinte estava em Pinheiro: - Povo de Pinheiro. Eu gosto tanto desta terra, tanto, que se pudesse nascer de novo pediria a Deus para nascer aqui em Pinheiro. Lá de trás, um caboclo, que por acaso tinha assistido ao comício da véspera em Santa Helena, gritou: - Doutor, e Santa Helena, doutor? - Santa Helena? Santa Helena? Santa Helena que me perdoe. Queda de Bolsonaro assusta A queda do presidente Jair nas pesquisas começa a apavorar parcela do eleitorado, tanto a ala bolsonarista como aquela que não vota no PT de jeito nenhum. Vamos aos dados: o IPEC, de Márcia Cavallari, que este analista conhece bem, atestando sua competência, mostra que mais da metade, 53% dos eleitores de Bolsonaro no segundo turno de 2018, pretendem trocar de candidato ou apertar as teclas de branco e nulo na urna eletrônica em outubro de 2022. E um quarto, 26%, dos votantes no capitão sinalizam o voto em Lula, enquanto 34% dos que o elegeram não votariam nele de jeito nenhum. Os dados abrem muitas projeções, principalmente a de que o ex-metalúrgico, que ainda dá as cartas no PT, poderia chegar ao pódio já no primeiro turno. E isso amedronta. Imagens em reconstrução I Uma parcela considerável do eleitorado continua refratário ao lulopetismo. Não vota de jeito nenhum no PT e outra parcela não vota de jeito nenhum em Bolsonaro. O que fazer? Dar tempo ao tempo. Os índices acima podem não se sustentar caso a imagem do presidente seja remodelada com a tintura de uma economia em plena recuperação e uma pandemia em estágio completo de controle. Difícil, mas não impossível. Em política, nada é definitivo. Imagens em reconstrução II E a imagem do petismo poderia também ser mais limpa, caso Lula consiga se redimir dos pecados, aproximar-se do centro e formar alianças que ocupem o espaço central. Os dutos da corrupção, a partir da Petrobras, foram escancarados. Difícil, mas também não impossível. Restaria uma parcela menor que, mesmo assim, não votaria em qualquer um deles. O vazio continuaria a esperar um perfil de centro. A prevaricação O momento não é tranquilo para Bolsonaro. O depoimento dos irmãos Miranda joga a crise no colo do presidente. A se comprovar crime de prevaricação - o fato de ter conhecimento de aquisição irregular de vacinas, com intermediação de terceiros, sem tomar providências - dispara tensões na sala presidencial. Vamos acompanhar a denúncia a ser feita por senadores da CPI da Covid-19. O centrão, pragmático, terá dificuldades em continuar com seu apoio irrestrito ao presidente, principalmente se o líder do Governo na Câmara, Ricardo Barros, for envolvido. A PGR e o próprio STF terão papel decisivo nos próximos passos da CPI. Defesa de Bolsonaro: "não tenho como saber o que acontece nos Ministérios". Para que serve a ABIN? A CPI aguarda informações da PF sobre eventual pedido de investigação feito por Bolsonaro sobre corrupção na Pasta da Saúde. O tirano Maquiavel conta no Livro III dos Discursos sobre os primeiros dez livros de Tito Lívio a história de um rico romano que deu comida aos pobres durante uma epidemia de fome e que foi por isso executado por seus concidadãos. Argumentaram que ele pretendia fazer seguidores para se tornar um tirano. Essa reação ilustra a tensão entre moral e política. Mostra que os romanos se preocupavam mais com a liberdade do que com o bem-estar social. Quebrando a polarização Pergunta recorrente: como quebrar a polarização entre Bolsonaro e Lula? Este analista tenta expressar uma resposta: 1. Aparecendo um perfil no meio do arco ideológico que atenue a força dos extremos; 2. Tirando Lula do tabuleiro, o que, a essa altura, dependerá dos tribunais. Ou por vontade própria; 3. Tirando Bolsonaro do tabuleiro, o que dependerá do corpo congressual, em caso de aceitação e votação de um pedido de impeachment. Tumulto Este analista acredita que se Lula voltar a ser impedido de ser candidato por via judicial, haverá tumulto nas franjas e no meio da sociedade; e se Bolsonaro for impedido pelo impedimento, via Congresso, também haverá tumulto, sob o risco de algum golpe de espada. Há dúvidas, muitas, sobre tal hipótese. As divisões se acentuarão. Datena candidato? José Luiz Datena, o apresentador da Band, fechou sua filiação ao PSL. Um dos líderes do partido, o deputado Junior Bozzella diz que Datena chega no partido para entrar nas pesquisas sobre presidenciáveis. Datena chega ao partido depois de sinalizar vontade de ingressar na arena política, desistir e, agora, de se apresentar como candidato de terceira via. Difícil de acreditar, mas o Brasil é um dos sítios mais frequentados pelo Senhor Imponderável. Leveza "Ao longo de seu discurso ininterrupto sobre o insustentável peso do viver, Leopardi traduz a felicidade inatingível com imagens de extrema leveza: os pássaros, a voz de uma mulher que canta na janela, a transparência do ar, e sobretudo a lua". (Ítalo Calvino in Seis Propostas para o Próximo Milênio). A malandragem I O preconceito etário continua forte. Ter 45, 50, 60 anos hoje é bem diferente do que era em tempos passados. O número de pessoas com mais de 60 anos no Brasil já é superior ao de crianças com até 9 anos de idade. A população 50+ movimenta mais de R$ 1,8 trilhão, sendo a fatia com maior poder aquisitivo. Mas o etarismo permanece. E ultimamente tem sido muito comentado. A expectativa da vacina contra a Covid-19 despertou faixas etárias. Milhões de pessoas com prioridade avançaram na fila sob a batuta da malandragem brasileira. A malandragem II Um pouco da história da malandragem no Brasil. Final da carta de Pero Vaz de Caminha a El Rei de Portugal. "E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra vi. E, se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, pois o desejo que tinha de tudo vos dizer, mo fez por assim pelo miúdo. E, pois que, Senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da Ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro - o que dela receberei em muita mercê." E conclui Caminha: "Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro de Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500. Pero Vaz de Caminha."Um pedido aqui, um trololó acolá e tome bajulação. Roçados e feudos A corrupção não foi extirpada da administração pública. Continua densa. E as máfias agem nas malhas do poder. Como se sabe, a máquina governamental se parece com uma imensa e paquidérmica porca, deitada e alimentando os filhotes. Ou, se quiserem, há roçados e feudos distribuídos a grupos partidários. Aos amigos, tudo; aos adversários, a lei. Jung e o rei africano Jung perguntou, uma vez, a um rei africano: - Qual é a diferença entre o bem e o mal? O rei meditou, meditou e respondeu às gargalhadas: - Quando roubo as mulheres do meu inimigo, isso é bom. E quando ele rouba as minhas, isso é muito ruim. Sommelier de vacinas A última profissão no país é a de sommelier de vacinas, a pessoa que quer "experimentar" uma vacina em vez de outra. Ora, os infectologistas e imunologistas alertam: vacina boa é vacina no braço. Vacinem-se com as vacinas que estão à disposição. Efeitos colaterais podem (ou não) ocorrer com qualquer vacina, seja AstraZeneca, CoronaVac, Pfizer ou Janssen. O governo do espetáculo "O governo do espetáculo, que no presente momento detém todos os meios para falsificar o conjunto da produção tanto quanto da percepção, é senhor absoluto das lembranças, assim como é o senhor incontrolado dos projetos que modelam o mais longínquo futuro. Ele reina por toda a parte e executa seus juízos sumários". (Guy Debord in A Sociedade do Espetáculo). Xexéo Deu-nos adeus Artur Xexéo, jornalista, escritor, tradutor e dramaturgo brasileiro. Deixa sua marca na paisagem da cultura. E os livros: Liberdade de expressão; Janete Clair: A usineira de sonhos; O torcedor acidental; e Hebe: A biografia. Respeitado, comentarista da Globo News e, por muito tempo, da CBN. Com 69 anos, estava internado na Clínica São Vicente, na Zona Sul do Rio. Diagnosticado com um câncer tipo linfoma não-hodgkin de célula T duas semanas atrás, teve uma parada cardiorrespiratória na sexta-feira, 25, e morreu domingo.Minhas homenagens. Fecho com o meu RN. Prócer e líder Outra historinha contada por Carlos Santos, em seu livro Só Rindo 2. Auxiliar direto do governador Dinarte Mariz, Grimaldi Ribeiro apresenta-lhe outro político interiorano no Palácio Potengi: - Este é um prócer político do Trairi - define. Noutra oportunidade, utiliza vocábulo diferente: - Governador, esta é uma liderança política da região Oeste. Intrigado com as constantes distinções, mas sem captar a sutileza da separação, o arguto Dinarte interpela Grimaldi: "Por que uns são próceres e outros lideranças?". Professoral, Grimaldi justifica: - Governador, prócer só tem pose, e liderança é que tem voto.
quarta-feira, 23 de junho de 2021

Porandubas nº 721

Dois "causos" hilários, antes da leitura da conjuntura. Deu-se o vice-versa Dr. Dantinhas, deputado da Bahia, elo de todo um clã político do Estado (neto do barão de Geremoabo), foi convidado para padrinho de casamento da filha de um coronel do sertão. No dia de viajar, recebeu telegrama: - Compadre, não precisa vir. Deu-se o vice-versa. Menina morreu. Puxa-sacos Tempos eleitorais. Tempos de fidelidade e infidelidade. Guararé era cabo eleitoral do governador Sebastião Archer, do Maranhão. Convenção do PSD, alguém acusou Guararé de puxa-saco. Guararé argumentou: - Cada um puxa quem pode. Eu puxo o senhor, governador Archer. O senhor já puxa o senador Vitorino Freire. E o senador puxa o general Dutra. É a lei da fidelidade partidária. Tópicos sobre a conjuntura Canalhas O encontro do presidente Jair com jornalistas, anteontem, em Guaratinguetá/SP, mostrou o capitão nervoso e virulento. Mandou uma jornalista calar a boca, chamou outros de canalhas, fazem um jornalismo porco, atirando na CNN e na TV Globo. A postura presidencial, mesmo que não cause surpresas, sabendo-se como usa a linguagem, chamou a atenção em razão da indignação ter como motivo a manifestação contra ele no sábado último. Bolsonaro ainda tirou a máscara quando falava e arrematou dizendo que o "nove dedos" só ganhará dele em outubro de 2022 se houver fraude. Por antecipação? A campanha está nas ruas. Mas nem Bolsonaro nem qualquer analista, por mais arguto que seja, podem dizer quem ganhará o pleito. Veremos muita água a correr por baixo da ponte até outubro do próximo ano. Bolsonaro quer o voto impresso, quando se sabe que esta modalidade favorece fraudes. E sinaliza com uma convulsão social se a comprovação impressa do voto não for aprovada. A Câmara votará nos próximos dias o processo. Pelo que se infere das extravagâncias do mandatário-mor, ele tenta desenhar um cenário de fraudes para tentar reverter o impacto de eventual derrota. P.S. Lembre-se que ele esbravejou contra "fraude" na eleição de 2018, garantindo que ganhou no primeiro turno. A propósito, o corregedor do TSE, ministro Luiz Felipe Salomão, acaba de estipular o prazo de 15 dias para que Bolsonaro apresente provas da fraude. Condições Como tenho exaustivamente descrito, a vitória do atual comandante do país dependerá da economia saudável + bolsas e auxílios emergenciais + vacinação em massa da população + garantia de equilíbrio, credibilidade e segurança. Imagem de que poderá virar a mesa causará medo. A economia saudável, por exemplo, é uma variável com raízes na conjuntura internacional. A quantas andará a inflação? E o nosso PIB? O país receberá afluxo de investimentos? Candidatos de Bolsonaro Há um grupo, a cada dia ganhando mais corpo, que tentará se abrigar na sombra de Bolsonaro para enfrentar a tempestade eleitoral. E o próprio presidente acredita que sua sombra é como tiro e queda: quem ficar sob sua proteção, chegará ao paraíso. Pura ilusão. O eleitorado de um pleito costuma não repetir o modelo anterior. Se o presidente imagina que tudo será como 2018, quando uma leva de figurantes chegou ao pódio graças a ele, engana-se. Mesmo que consiga vencer - o quadro será bem mais difícil pela vacina ética que oxigena os eleitores - não se repetirá a situação. Tarefa das mais difíceis será eleger um candidato tirado do bolso do colete. A mosca azul A nota acima é um lembrete aos atuais ministros e assessores: cuidado com a mosca azul. Salles O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é persona non grata na paisagem ambiental das Nações. É designado "ministro do desmatamento". Nas redes, o humor: há uma nova dupla caipira no mercado musical, Mata e Desmata. Bolsonaro e Salles. Luz 15% mais cara A crise hídrica apertará o bolso, a partir de julho, com um aumento em torno de 15% nas contas. Bandeira vermelha. Aperto no bolso, barriga roncando. Covax, 1000% A vacina da Covax foi comprada a um preço 1000% mais alto do que o anunciado pela própria fabricante, Bharat Biotech, seis meses antes da aquisição. De US$ 1,34 a dose, o Ministério da Saúde a adquiriu por US$ 15 por unidade. Teve intermediário. E processo acelerado. Sonhos que se vão.... Sonhos que se esfumaçam sob o empuxo das crises sanitária e econômica. Dado de arrepiar: quase metade dos jovens brasileiros entre 15 e 29 anos (47%) pensa em sair do país para ter estabilidade e melhores condições de vida. É o que escancara a pesquisa Atlas das Juventudes da FGV Social. A maioria não pertence à classe média alta que vai para o exterior fazer intercâmbio, cursar um MBA ou garantir um diploma internacional de mestrado. Muitos dos jovens estão à procura de uma vaga de trabalho há mais de um ano e acreditam que no exterior é possível juntar dinheiro, conseguir a casa própria, um carro e ter condições financeiras para viajar e comer fora de casa. A autoestima se esvanece É triste constatar que a autoestima dos brasileiros está em um dos níveis mais baixos de toda a história. As populações aflitas rogam aos céus. O conceito de Pátria se esvanece. O que vemos não é o anelo comum, a união de ideais, a comunhão da coletividade na mesa da harmonia, da satisfação, das expectativas atendidas, da felicidade. A Nação, que é a congregação de valores, dá lugar ao território, o espaço físico que se torna mero habitat, onde a barbárie se instala e se estende, sob a forma da banalidade da morte, dos milhões de seres que vivem na extrema pobreza, da má gestão da coisa pública, dos precários serviços do Estado, da irresponsabilidade dos governantes. Tristeza e angústia enchem os corações. Em São Paulo No Estado mais poderoso da Federação, mais de um milhão de famílias vivem na condição de extrema pobreza. Bolsonaro na CPI O vice-presidente da CPI da Covid-19, senador Randolfe Rodrigues (Rede Sustentabilidade-AP), diz que o presidente Jair Bolsonaro será preso. O relator, senador Renan Calheiros(MDB-AL), anuncia que vai tentar inserir o presidente no rol dos depoentes. As duas sinalizações podem dar com os burros n'água. Bolsonaro se mostra um rebelde contra as normas. Como sempre lembra, faz o que quer, vai aonde quiser. O nó górdio e o ovo de Colombo Se a paisagem política fosse outra, as alternativas poderiam ser as mesmas que Alexandre, o Grande, e Cristóvão Colombo, escolheram para suas manobras. O oráculo prognosticara que o guerreiro que conseguisse desatar o nó que atava o jugo à lança do carro de Górdio, rei da Frígia, dominaria a Ásia. Muitos tentaram. Desistiram. Alexandre Magno, a quem também foi posto o desafio, tinha duas opções: desfazer o nó, corda a corda, ou cortá-lo com a espada. Foi o que fez. Num lance rápido, cortou o nó. Cristóvão Colombo não ficou horas tentando equilibrar o ovo em posição vertical, que era o desafio imposto. Muitos tentaram e não conseguiram. Colombo chegou, olhou, pensou. Com uma batida na extremidade mais larga, pumba, o ovo fixou-se sobre a mesa. Alexandre e Cristóvão exibiram a capacidade de antever possibilidades, quando a maioria das pessoas só enxerga restrições. Se as circunstâncias políticas assim o permitissem - derrocada da economia, falta de apoio congressual, bombas reveladas pela CPI da Covid - o nó górdio e o ovo seriam o impeachment. Este analista não acredita nesta hipótese. A não ser que o Brasil inteiro fosse para as ruas. Alternativa também complicada. O capitão tem por volta de 25% do eleitorado hoje. A ponderabilidade O território da ponderabilidade é vasto. Abriga tudo o que é provável ocorrer, numa escala que abriga situações com forte, média ou tênue previsibilidade. Veja-se o caso das vacinas. Mesmo com a comprovação de delitos, irresponsabilidade, compras superfaturadas, o ambiente político tende a amainar a situação dos implicados. Haverá manifestações de ruas nos próximos tempos? É bem possível, tendo em vista a estampa de indignação e a crescente participação de grupos militantes com interesse em antecipar a campanha eleitoral. A inflação poderá enervar os consumidores da cesta básica e contribuir para a desestabilização eleitoral? Se subir muito, sem dúvida. E uma virada de mesa? Golpe? Ah, coisa bem mais complexa. Terreno da imponderabilidade. Fecho com um pouco de humor. Farta feição José Aparecido chegou à sua Conceição do Mato Dentro/MG, começou a romaria dos amigos. Entrou um coronel, mansos passos e chapéu na mão: - Bom dia, doutor. Boa viagem? - Boa. Como vão as coisas? - Tudo correndo como de costume. Novidade aqui nunca tem e lá pra fora não sei, porque minha televisão está defeituada. - O que é que aconteceu com ela? - Não sei não. Às vez, farta prosa, às vez, farta feição. (José Aparecido foi deputado Federal, ministro da Cultura, governador de Brasília e embaixador em Portugal. Excepcional figura).
quarta-feira, 16 de junho de 2021

Porandubas nº 720

A ignorância é mãe dos delinquentes. O não saber é pai da barbárie. Seus filhos são delinquentes incapazes de adaptar sua conduta à moral e aos bons costumes. Refugiam-se na sombra da mediocridade. Sob a escuridão das noites. Orgulham-se de seus atos torpes e criminosos. Quando apanhados pelas malhas da Justiça, choramingam sua covardia. Infelizmente, desfilam cada vez em maior número numa macabra legião que marcha, atropeladamente, em direção à ignomínia. (Pequeno texto inspirado em O Homem Medíocre, de José Ingenieros, para dizer que o vandalismo chega aos cantos mais remotos do país, como a serra onde nasci, Luís Gomes, extremo oeste do Rio Grande do Norte, bucólica, em tempos idos, e hoje com suas praças devastadas pela delinquência). Aos leitores, aviso que o humor está no final da coluna. É um "causo" hilário. Aglomerações Em nossas plagas, a banalização da ilegalidade faz escola. Costumo lembrar os quatro tipos de sociedade existentes no mundo: o primeiro é a sociedade inglesa, onde tudo é permitido, salvo o que for proibido; o segundo é a sociedade alemã, onde tudo é proibido, salvo o que for permitido; o terceiro é a totalitária, ditatorial, onde tudo é proibido, mesmo o que for permitido; e o quarto tipo é a brasileira, onde tudo é permitido, mesmo o que for proibido. E o pior é que o mau exemplo vem de cima. Da mais alta autoridade da República, o senhor presidente, que continua a fazer aglomerações e a não usar máscaras em seus eventos de rua. Até quando? Quando veremos o império da ordem e da Justiça? Ou será que as leis não pegam? Perguntaram a Sólon, um dos sete sábios da Grécia antiga, se havia produzido boa legislação para os atenienses. Respondeu: "Dei-lhes as melhores leis que podiam suportar". Perguntaram ao barão de Montesquieu, o formulador da teoria da separação dos Poderes, quais as boas leis que um país deve ter. A resposta: "Quando vou a um país, não examino se há boas leis, mas se são executadas as que existem, pois há boas normas por toda parte". Pois é, por aqui, a quebra da norma começa com os poderosos. Quantas leis o senhor fez? Pergunte-se a um representante do povo no Parlamento brasileiro que critérios guiam a tarefa legislativa. É provável que aponte o número de projetos apresentados - sem destaque para o mérito -, corroborando a ideia de que, em nossa seara parlamentar, vale mais a quantidade do feijão plantado sobre a terra, do qual pouco se aproveita, do que a qualidade da semente. A extravagância Amparadas pela "força" (?) da lei, coisas estapafúrdias como o Dia da Jóia Folheada (toda última terça-feira de agosto), o Dia das Estrelas do Oriente, a Semana do Bebê e outras esquisitices povoam a roça do joio legislativo, cultivada por parcela ponderável do corpo parlamentar. Instados fossem a discorrer sobre a natureza de nossas leis, os Sólons tupiniquins poderiam sacar uma resposta como esta: "São as leis que os brasileiros têm de aguentar". Cada povo com sua medida e capacidade legislativa. Silêncio dos animais Há tempos, em Santa Maria/RS um vereador propôs a "lei do silêncio dos animais" para evitar latidos de cachorros após as 22h; em Catanduva/SP um projeto determinava que os doentes deveriam morrer em cidades vizinhas por causa da superlotação das sepulturas (nesse momento, então, a lei seria rapidamente aprovada); em Sobral/CE, sugeriu-se construir torres gêmeas para abrigar a prefeitura e as secretarias; em Manaus um vereador queria instalar um neutralizador de odores nos caminhões de lixo; e em Porto Alegre cavalos e burros teriam de usar fraldas, "com exceção dos que participarem de eventos". Incrível, porém verdadeiro. Burocracia Padecemos de aberrações como as descritas acima e de outras herdadas do nosso passado colonial. Somos um país que ainda não cortou as amarras da secular árvore do carimbo, "preciosidade" trazida pelos colonizadores portugueses. O carimbo foi criado por dom Diniz nos idos de 1305 para conferir autenticidade a documentos. Concedido a "homens bons", nomeados pelo rei, que juravam fidelidade aos santos Evangelhos, incrustou-se na vida brasileira a ponto de atravessar, incólume, mais de cinco séculos. Deixa sua tinta forte na própria era digital. Falsa autoridade A autenticação e os selinhos de cartórios trazem obsoletos costumes ao nosso cotidiano, pavimentando os caminhos da burocracia. Explica-se o cartorialismo ainda pela capacidade de fortalecer a estrutura de autoridade; esta, por sua vez, se expande na esteira de leis que procuram impor a ordem do mundo ideal. Trata-se da visão platônica de plasmar a realidade por força da lei. A célebre pergunta "você sabe com quem está falando?" expressa a ideia de que o poder deriva do cargo de quem o detém. O brasileiro, mais que outros povos, desfralda essa bandeira. Morrer pela pátria Daqui a pouco, chegaremos aos 500 mil mortos pela foice do corona-19. "Dulce et decorum est pro pátria mori" - Doce e digno é morrer pela Pátria - escreveu Horácio, o poeta romano em verso que traduz um dos mais nobres sentimentos políticos. Nos idos contemporâneos, este sentimento é um arrazoado de palavras ao vento. Multas O presidente Bolsonaro e dois ministros foram multados pelo governo do Estado de São Paulo por descumprirem a regra de uso de máscara em aglomerações. Perguntas com respostas já sabidas: quando serão pagas essas multas? Para onde foram enviadas? Ou tudo não passa de encenação? Se chegarem aos destinatários, o que estes farão com elas? Nas antessalas dos Palácios, ouvem-se gargalhadas. O nome Será extremamente difícil chegar-se a um nome político que possa canalizar partidos e facções. Principalmente se este nome já tem história na agenda eleitoral. O ideal seria um perfil asséptico, não contaminado pelo vírus da política, de uma idade entre 40 e 60 anos, empreendedor, com origem profissional na área privada. Se vier da política, que seja o mais limpo possível. Aceitam-se sugestões. Disputa por antecipação O governador João Doria antecipou em um mês o calendário de vacinação no Estado, prometendo vacinar todos os adultos até 15 de setembro. O prefeito Eduardo Paes, do Rio de Janeiro, chamou Doria de "pai das vacinas", mas topou o desafio, devendo também antecipar o calendário da capital. Boa disputa. Deve ser estimulada pela comunidade. Quem não deve.... Por que algumas figuras se negam, com veemência, a prestar depoimentos na CPI da covid-19? O ditado reclama: "quem não deve, não teme". Siga o dinheiro Esse também é um bom conselho para os integrantes da CPI. Sigam a rota do dinheiro, corram na pista do dinheiro. Deve aparecer falcatruas. Para muitos brasileiros, a curva é uma larga reta. Balas perdidas A tragédia se expande com essas balas perdidas atiradas a todo momento por policiais e bandidos no Rio de Janeiro. Sonhos desfeitos, dores no seio familiar. Vidas destruídas. Santos Cruz O nome do general Santos Cruz, que chefiou a Casa Civil no governo Bolsonaro, tem se mostrado uma voz de alerta contra a politização das Forças Armadas. Recebe o respeito da sociedade. Esse militar, da reserva, tem todas as condições de pleitear um cargo na esfera político-institucional. Bom senso e equilíbrio. André Mendonça Está chegando a hora da nomeação de um perfil "terrivelmente evangélico" ser nomeado para o STF na vaga do ministro Marco Aurélio, que se aposenta. Quem? O favorito é André Mendonça, ministro-chefe da AGU (Advocacia-Geral da União). Mas o presidente do STJ (Superior Tribunal de Justiça), Humberto Martins, também está no páreo. Os dois fazem telefonemas para os senadores. O número 3 O vereador Carlos Bolsonaro, leio, não perde uma viagem do pai. Fica todo tempo calado e observando as cenas. Teria sido o autor da engrenagem do presidente nas redes sociais. O rapaz sabe lidar com essas coisas. Integrado ao mundo digital. Melhor seria se assumisse de maneira oficial o papel do estrategista do governo. Primórdios "Rastreie, vá ao encalço de homens de toda e qualquer região, passe a conhecê-los, cultive e fortaleça a amizade, cuide para que em suas respectivas localidades eles cabalem votos para você e defendam sua causa como se fossem eles os candidatos". (Quinto Túlio Cícero aconselhando o irmão Marco Cícero, o grande tribuno, em 64. A. C., quando este fazia campanha para o Consulado de Roma) O marketing de campanha O marketing político eleitoral abriga duas vertentes: o marketing massivo, voltado para atingir classes sociais e categorias profissionais, indistintamente; e o marketing vertical, segmentado ou diferenciado, voltado para atender agrupamentos especializados: profissionais liberais, donas de casa, formadores de opinião, núcleos religiosos, militares, funcionários públicos, etc. Nas campanhas, o marketing segmentado acaba assumindo tanta importância quanto o marketing massivo. E a razão está na intensa organicidade da sociedade brasileira. Fecho a coluna com uma historinha do Paraná. Promessa de campanha A historinha foi enviada por um leitor do Paraná. Candidatos de duas famílias disputavam a prefeitura de uma pequena cidade. Final de campanha. A combinação era de que os dois candidatos e seus familiares teriam de usar o mesmo palanque. Discursou, primeiro, o candidato que tinha 70% de preferência dos votos: - Povo da minha amada terra, povo ordeiro, trabalhador, religioso e cumpridor de suas obrigações. Se eleito, irei resolver o problema de falta de água e de coleta de esgoto. Farei das nossas escolas as melhores da região, educação em tempo integral. Vou construir uma escola técnica do município... E arrematou: - E tem mais, meus amigos, ordeiros, religiosos e cumpridores de seus deveres morais, vocês não devem votar no meu adversário. Ele não respeita nossa gente, nossas famílias, nossos costumes. Ele desrespeita nossa igreja. Ele nem se dá ao respeito. Vocês não devem votar nele. Porque ele tem duas mulheres. O adversário, com 20% de intenção de voto, quase enfartou quando viu a mulher, ao seu lado, cair no palanque. Ela não aguentara ouvir a denúncia do adversário de que o marido tinha uma amante. A desordem ganhou o palanque. A multidão aplaudia o candidato favorito e vaiava o adversário. Cabos eleitorais começaram a se engalfinhar. Passado o susto, com muita dificuldade, o estonteado candidato acusado de ter duas mulheres começa seu discurso, depois de constatar que a esposa estava melhor: - Meu amado povo, de bons costumes e moral ilibada, religioso e cumpridor de seus deveres morais, éticos e religiosos. Quero dizer aos senhores e senhoras aqui presentes, que, se agraciado com seus votos me tornar o prefeito desta cidade, farei uma mudança de verdade. Não só resolverei o problema da falta de água, como farei também o tratamento de todo o esgoto do município, construirei uma escola técnica e um novo hospital. A multidão caçoava do coitado e de sua mulher. Mas ele não desistiu e foi em frente : - Vou melhorar o salário dos professores, a merenda das crianças e ainda vou instituir o Bolsa Cidadão! Agora, prestem bem atenção. Se os amigos acharem que não podem votar em mim porque tenho duas mulheres, votem no meu adversário! Mas saibam que a mulher dele tem dois maridos. A galera veio abaixo. O pau comeu. Brigalhada geral. Urnas abertas. O adúltero ganhou com 76% dos votos.
quarta-feira, 9 de junho de 2021

Porandubas nº 719

Abro a coluna de hoje com uma historinha do Paraná. Conversa de jardim Manuel Ribas, interventor no Paraná (1932/1935), depois governador (1935/1937), despachava no palácio, mas gostava de morar em sua casa. Bem cedinho, chega um rapaz e encontra o jardineiro regando o jardim: - Seu Ribas está? Sou filho de um grande amigo dele. Meu pai me mandou pedir um emprego a ele. Eu podia falar com ele? - Poder, pode. Mas, e se ele não lhe arrumar o emprego? - Bem, meu pai me disse que, se ele não arranjasse o emprego, eu mandasse ele à merda. - Olhe, rapaz, passe às 4 da tarde lá no palácio, que é a hora das audiências, e você fala com ele. Às 4 horas, o rapaz estava lá. Deu o nome, esperou, esperou. No salão comprido, sentado atrás da mesa, o jardineiro. Ou seja, o governador. O rapaz ficou branco de surpresa. - O que é que você quer mesmo? Repetiu a história. "Meu pai me mandou pedir um emprego ao senhor". - E se eu não arranjar o emprego? - Então, seu Ribas, fica valendo aquela nossa conversa de hoje de manhã, lá no jardim. Cordão esgarçado O cordão umbilical que ligava Jair Bolsonaro ao Exército está esgarçado. Não a ponto de se romper, mas deixando a ver fiapos. A entrevista do ministro da Casa Civil, general Luiz Eduardo Ramos, passando uma toalha sobre a ferida, pode ter acalmado a cúpula das FFAA, mas a sensação é a de que altas patentes - da ativa e da reserva - estão aborrecidas com o affaire Pazuello, ou seja, com o deixa pra lá que o comandante do Exército determinou ao não dar punição ao ex-ministro da Saúde por ter participado de ato político por ocasião da motociata no Rio de Janeiro. Afastamento Multiplicam-se as vozes que interpretam as constantes falas do presidente sobre eventuais fraudes a ocorrerem no processo eleitoral de outubro de 2022 como aceno longínquo a "um golpe" engendrado pelo sistema cognitivo do capitão. Vocação para o embate, cooptação do "meu exército", culto ao passado de chumbo, esforço quase diário para endurecer a linguagem e animar suas bases- seria o pano de fundo da maquinação. Parcelas das Forças, porém, parecem querer distância da política. Sob pena de verem naufragados todos os esforços realizados nas últimas décadas na meta sempre almejada de impregnar sua imagem com densa camada de profissionalismo. Haveria condições? Não é fácil responder à questão: haveria condições para um ato golpista? Ora, não se trata apenas de querer e fazer. Trata-se de querer e poder. O conceito de poder, nesse caso, abriga ponderáveis - elementos determinantes e componentes - que ultrapassam os limites de uma visão conservadora, ideológica, radical. De direita ou de esquerda. Estariam em jogo o estágio civilizatório do país, o grau de amadurecimento político, o estado geral da economia, a satisfação/insatisfação das classes sociais, a organicidade social, a pressão dos grupamentos organizados, o rolo compressor das classes médias, a fome e a miséria e a vinculação das mazelas sociais às administrações. E quem diria que o clamor social, em uma crise, seria a favor de um golpe desferido pelo governante do dia? Seja quem for? O Brasil no mundo Outra face a se contemplar seria a do papel do Brasil no mundo, a inserção na ordem planetária, seus parceiros e compromissos, suas políticas em todos os campos, moldura que certamente impactaria na hora de desfechar um golpe. As FFAA são integradas por perfis de alta qualificação, figuras que vão a fundo na análise das revoluções e contrarrevoluções. Imaginar que um golpe é um ato vapt-vupt sacramentado pela sociedade organizada é pensamento de ignaros e radicais, que têm soluções guardadas no bolso furado ou em mente distorcida. Terceira via? É cedo A esta altura, políticos e analistas estão dando à polarização entre direita e esquerda, Bolsonaro e Lula, como coisa certa e acabada. Não compartilho desta tese. É muito cedo para definir rumos. O vento que hoje corre numa direção tomará outros rumos amanhã. E sabendo como se faz política no Brasil, nada se define de antemão. Peru não morre de véspera. Os finais de história são decididos em instantes finais. O Senhor Imponderável costuma nos visitar. E o país está com um imenso vazio a ser ocupado no meio da sociedade. Que processos cognitivos poderão ocorrer? Faço curtas observações. Instinto de sobrevivência Sergei Tchakhotine, cuja obra A Mistificação das Massas pela Propaganda Política é meu livro de cabeceira, lembra os quatros instintos estudados por Pavlov: a) o instinto combativo; b) o instinto nutritivo; c) o instinto sexual e d) o instinto paternal. Os dois primeiros ligados à conservação do indivíduo e os dois últimos relacionados à preservação da espécie. Fiquemos com os dois primeiros. O ser humano combate para sobreviver. Ante uma ameaça, pega a arma mais próxima para vencer o inimigo. Vê-se acuado. Duas feras tentam abrir a bocarra em sua direção. Como sair? Ora, se a saída da emboscada é o aceno de uma pessoa que aparece na paisagem de medo e horror, ela corre, pressurosa. O salvador o chama: corre pra cá, corre pra cá. Ela aceita e foge na direção do figurante, que parece a única alternativa para escapar da enrascada. O figurante E quem seria esse figurante? Ora, alguém que o desesperado até então não conhecia. Só o viu até deparar com a ameaça fatal de duas feras de boca arreganhada. Uma pessoa nova nesse canto da floresta, com jeito de ser gente do bem, disposta a ajudar o medroso a fugir do perigo. Esse figurante não ocupava espaço central na paisagem e foi se aproximando, chegando. Seria a melhor opção. Ou seja, era um terceiro lugar por onde se refugiar. Lá estaria ele com seu aceno: um homem ou até uma mulher (sim, não se descarta essa possibilidade), com jeito de que não é caçador voraz como outros da floresta política. E em que tempo poderia aparecer? Março, abril, maio? Até as convenções partidárias. A barriga Atentaram para o segundo impulso ligado à sobrevivência? Pois é, o instinto nutritivo. Ou seja, as pessoas vão buscar no alimento a seiva da vida. Sem alimento, o ser humano não sobrevive. Donde tenho insistido na equação BO+BA+CO+CA= Bolso, Barriga, Coração, Cabeça. Se as famílias brasileiras estiverem com suas barrigas satisfeitas nas margens de outubro de 2022, podem, até, caminhar na direção de uma das feras da floresta, no caso, o governante que proporcionou o alimento. Mas se as barrigas estiverem roncando, o desesperado faminto e seus vizinhos tenderão a correr na direção do figurante que acena com a saída. Este consultor acha que a pandemia implicará refluxo da economia, não havendo tempo para sua recuperação até outubro de 2022. Dito isto, emerge a hipótese: a terceira via será viável. Kassab, o articulador Gilberto Kassab tem demonstrado ser um dos mais hábeis articuladores da política brasileira. Nesses tempos de pandemia, com CPI da Covid e seus reflexos, Kassab tem se desdobrado para adensar o seu PSD, atraindo nomes de alto coturno, como Eduardo Paes, prefeito do RJ, Rodrigo Maia, ex-presidente da Câmara, possivelmente Geraldo Alckmin, ex-governador de SP, e outros. Ex-ministro dos governos Dilma Rousseff e Michel Temer, Kassab é ponderado, sabe ouvir, tem palavra firme e joga todo tempo na costura de situações. Será parceiro fundamental na montagem das peças do pleito de 2022. Muito sigilo O processo envolvendo o ex-ministro Pazuello no ato político do presidente Bolsonaro ganhou um século para vir à tona. Isso mesmo, alto segredo de Estado. 100 anos sob uma capa de silêncio. Mozart Esta Coluna presta uma homenagem especial a um amigo que parte: Mozart Vianna, o braço direito de 12 presidentes da Câmara há quatro décadas. Educado, afável, voz baixa, competente, sabia o regimento da Câmara do capítulo 1º ao último. "Meu amigo, me explique esse PL". Cerimonioso: dava todas as explicações. E sempre acrescentava: "leio todos os seus artigos semanais". Que tristeza. P.S.: Faço observação do ex-deputado, sociólogo, grande pensador e amigo Paulo Delgado: "No Brasil, infelizmente, o elogio vem sempre em hora errada". Fecho com um "causo" de Pernambuco. O verbo não "vareia" A Câmara Municipal de Paulista/PE vivia sessão agitada em função da discussão de um projeto enviado pelo prefeito, que pedia crédito para assistência social. Um vereador da oposição combatia de maneira veemente a proposição. A certa altura, disse que "era contra o crédito porque a administração municipal não merecia credibilidade". O líder da bancada governista intervém, afirmando que "o nobre colega não pode jogar pedras no telhado alheio, pois já foi acusado de algumas trampolinagens". - Menas a verdade - retrucou o acusado. Sou homem honesto, de vida limpa. - Vejam, senhores, - disse o líder - o nobre colega, além de um passado nada limpo, ainda por cima é analfabeto, pois, "menas" é verbo, e verbo não "vareia".
quarta-feira, 2 de junho de 2021

Porandubas nº 718

Abro a coluna com a matreirice mineira. O milagre José Maria Alkmin, a raposa mineira, mestre da arte política, chegava da Europa com cinco garrafas enroladas na pasta. A Alfândega quis saber o que era. - Água milagrosa de Fátima. - Mas tudo isso? - Lá em Minas o pessoal acredita muito nos milagres da água de Fátima. Não dá para quem quer. - O senhor pode desenrolar? - Pois não, meu filho. - Mas, deputado, isso é uísque. - Ué, não é que já se deu o milagre? Cepa América Cartas marcadas. O jogo tem jeito de contaminação e matança. Bolsonaro decide abrigar a Cepa América (isso mesmo, Cepa). Resta gritar como os condenados no Coliseu Romano: "Ave, Caesar, morituri te salutant" ("Salve, César, aqueles que vão morrer te saúdam"). Oposições nas ruas Sábado último abriu a mobilização das oposições nas ruas. Causou surpresa pelo número de cidades - mais de 200 - em todos os Estados. Houve, sim, uma grande mobilização. Bolsonaro e o clamor pela vacina deram o tom. O comparecimento esteve acima da expectativa tendo em vista o pano de fundo pandêmico e a emergência de uma terceira onda. As oposições, no entanto, perdem o discurso de defensores da luta contra o coronavírus. Houve, sim, aglomerações. Tal constatação iguala os oposicionistas aos bolsonaristas em matéria de respeito às restrições. Cisão? Não? Sim Cisão nas Forças Armadas? Tema proibidíssimo. Forças Armadas significam disciplina, ordem unida, respeito à Constituição, defesa da Pátria. E quando um componente da corporação infringe uma de suas normas? Claro, deve ser punido. Ora, o general Eduardo Pazuello, ainda na ativa, teria ferido uma norma. Mas o comandante geral das Forças Armadas, o senhor presidente da República, vetaria eventual punição. O que fazer? Como se comportar? Essa situação, alvo da mídia, escancara a inferência: há, sim, uma cisão entre componentes da cúpula das FFAs a respeito desse assunto. Insanidade Se a Ciência já tomou posição contra a cloroquina e outros remédios incluídos no pacote antipandêmico, defendido pelo presidente e seu entorno; se o presidente continua a menosprezar as medidas de precaução, como o uso de máscara e o distanciamento; se a gestão governamental sobre o combate ao corona-19 tem sido considerada um pandemônio; se o mundo inteiro vai por um caminho e o Brasil se esforça para avançar na contramão... e outras coisas que causam perplexidade. O que dizer? Alguém ou alguéns padecem de insanidade. Caso de internação. O Estado-Espetáculo O Estado-Espetáculo tem sido construtor e destruidor de imagens. No Estado-Espetáculo, os atores são políticos, cantores e compositores, atores, atrizes e produtores do mundo cinematográfico, jogadores de futebol e de outras modalidades, empresários e demais perfis dos círculos de negócios. A mídia os tem transformado em olimpianos, na acepção de Edgar Morin, aqueles que vivem no Olimpo da cultura de massas, com uma faceta humana e uma faceta divina. São admirados e aplaudidos. Solicitados a dar autógrafos. A histeria provocada por alguns integra o espetáculo. Até pedaços de suas vestes são disputados por mãos e braços de galeras histéricas. A imagem desaba De repente, a faceta divina entra na lama. Uma denúncia, flagrante de assédio (moral, sexual), corrupção, propina, atos considerados abusivos, imorais e condenáveis jogam o olimpiano no banco dos réus. Da noite para o dia, a imagem do protagonista desaba. Alguns vão diretamente para a prisão, outros, para o banco dos réus. E aguardam a decisão da Justiça. Aquela aura recheada de carisma, brilho, simpatia, empatia, admiração escapa do perfil como uma nuvem passageira. Os ídolos de barro desmoronam com a chuvarada de críticas. Tipologia da queda Os perfis no vale dos caídos têm algumas particularidades: Política - Atingido por um flagrante - escândalo, propina, desvio de verbas - o político entra no inferno dos malvistos. A depender do volume midiático e da importância da pessoa, a suja imagem tende a permanecer muito tempo boiando no pântano. Alguns carregam a fama por toda a vida. Adhemar de Barros puxa o troféu do "rouba, mas faz". O tempo o cobriu com o manto do folclore. Virou governante simpático. Paulo Maluf também ganhou essa embalagem. Orestes Quércia, idem. O fluir do tempo limpa a parede suja na medida em que a corrupção banaliza padrões e costumes ilícitos; regra geral, os políticos, como uma coletividade, são jogados no mesmo saco. A imagem também é compartilhada pelo escopo ideológico que envolve o protagonista: comunista, esquerdista, fascista, nazista, direitista, conservador, negacionista (novo atributo). Atores/atrizes - Na contemporaneidade, os integrantes desse universo têm sido flagrados pela lupa do assédio (sexual, moral/ético). Exemplos de personagens que borraram sua imagem: Woody Allen, o grande diretor e um talento de criatividade, acusado de abusar de Dylan Farrow, filha dele com Mia Farrow. Alyssa Milano juntou 80 mulheres que denunciaram abusos do produtor de Hollywood, Harvey Weinstein. Kevin Spacey, muitos filmes e House of Cards, foi acusado de assediar sexualmente diversos homens. Ben Affleck, acusado de tocar os seios da atriz Hilarie Burton quando ela tinha 18 anos. Jamie Foxx, acusado de bater com o pênis em um rosto de uma mulher. Michael Douglas, acusado de usar linguagem sexual para parceiras. Morgan Freeman, acusado de assédio sexual por oito mulheres em entrevista à CNN. Roman Polanski, detido sob a acusação de drogar e estuprar uma jovem de 13 anos durante uma sessão de fotos na casa do ator Jack Nicholson. Sylvester Stallone, alvo de denúncia de abuso sexual contra adolescentes. E muitos outros. Alguns provaram sua inocência. Mas a mancha fica. P.S. Woody Allen, mesmo com criatividade, parece rejeitado em seu mundo. Brasil O caso mais recente no Brasil é o que envolve o humorista Marcius Melhem, denunciado pela atriz Dani Calabresa e outras colegas de trabalho dele por assédio sexual. Outro caso que mexeu muito com a classe artística foi o do famoso ator José Mayer, também acusado de assédio sexual. Saiu da TV Globo e ainda hoje está fora do vídeo. Há casos em todos os quadrantes. Nessa esfera artística, a limpeza de imagem é complexa. Depende muito da complacência da mídia. Depois de certo tempo, e pedidos de perdão, alguns acabam voltando a lograr simpatia de suas antigas comunidades, apesar de ser impossível resgate completo de imagem. Esportes - Quem continua na crista da onda - mídia e adjacência - em matéria de sexo (assédio) é Neymar, do PSG. Há uma década que circula pelo Olimpo da cultura de massa, alvo de intenso tiroteio. A torcida (parte apenas) acaba perdoando as diatribes por conta de sua performance futebolística e a aura divina que o envolve. Círculo de negócios - Morreu na prisão aos 82 anos, faz pouco tempo, Bernie Madoff, criminoso que deu o maior golpe financeiro de todos os tempos. Estava preso desde 2008 e havia sido condenado a 150 anos de prisão por ter enganado 30 mil pessoas que participaram de uma pirâmide financeira e de um rombo de 65 bilhões de dólares. Recuperar a imagem dele, tarefa impraticável. Odebrecht, no Brasil, e outros grupos, foram envolvidos com corrupção e acabaram alvo da operação Lava Jato. Resgatar imagem? Será possível. Medidas: reconhecimento público do erro, mudança de nome, adoção de novos métodos de gestão, rígidos controles, campanhas de marketing social intensas. A Vale do Rio Doce está limpando a imagem usando esses métodos. Campanhas de utilidade pública nesse ciclo de pandemia caem bem. Conveniência Há um aspecto pouco considerado no capítulo da imagem. Há figuras que fazem questão de passar uma imagem para a sociedade não compatível com parâmetros éticos, morais e até legais. Na política, essa observação é mais compreensível quando se selecionam perfis que procuram andar na contramão do bom senso: incentivar a violência pelo uso de armas, vituperar contra a ciência, usar linguagem inapropriada e até de baixo calão e assim por diante. O que explica tal contrafação? Alimentar as bases populares com os sentimentos que as empolgam: violência, ataque, medo, ameaça de morte a adversários, sob uma pseudo linguagem de moralização. Fatores comportamentais Mas há gente séria e competente que apresenta imagem negativa, apesar do reconhecimento sobre suas qualidades. O que explica sua inserção no poço da imagem? Resposta: por não conseguirem entrar na equação interativa da comunicação. O jeito, a postura, a forma de se apresentar, o maneirismo nas explanações, o estilo professoral/didático (que passa ideia de onisciência e onipotência) integram a escala de valores em questão. Em vez de transmitir sinceridade, transmitem impressão de artificialismo, marketing, autoglorificação, hosanas para si próprio. Essa é uma barreira de difícil ultrapassagem. Os protagonistas tendem a não aceitar mudar de comportamento. O novo livro do Maierovitch "Máfia, Poder e Antimáfia, um olhar pessoal sobre uma longa e sangrenta história" é um livro-ensaio-grande reportagem do jurista Walter Fanganiello Maierovitch, conhecido nacionalmente por nos brindar, na CBN, com a mais competente análise dos fatos políticos e sociais, sob a ótica do Direito e da Justiça. Com prefácio do jornalista Fernando Gabeira, a obra, sob o selo da editora UNESP, é um painel pleno de informações, casos e histórias envolvendo a máfia italiana, porém com um algo a mais que não se lê em outros compêndios: a vivencia e o domínio do juiz Maierovitch sobre a temática da violência e do terrorismo, eis que ele, também cidadão italiano, é amigo dos juristas que investigaram a Cosa Nostra siciliana, a partir do juiz Giovanni Falcone, assassinado em 1992, e que aqui esteve para tratar da extradição de Tommaso Buscetta, preso em São Paulo em 1983. Brasil no mapa das drogas A obra do analista jurídico resgata a história da máfia e seus personagens, ao lado dos temas sobre violência na contemporaneidade, como o combate às drogas, a política criminal, o Estado e o terrorismo, as Convenções Internacionais contra o crime organizado, abarcando até questões nossas, como a Cracolândia, que tem sido contemplada com políticas que Walter Maierovitch designa de "enxuga gelo". A leitura, fácil e convidativa, mostra como o Brasil se inseriu no mundo da violência como um entreposto de drogas. Um trabalho de grande fôlego. O fecho vem também de Minas. Desde que o dinheiro venha Mais uma da matreirice mineira. Benedito Valadares chegou a Curvelo/MG, para visitar a exposição de gado do município. Na hora do discurso, atrapalhou-se: - Quero dizer aos fazendeiros aqui reunidos que já determinei à Caixa Econômica e aos bancos do Estado a concessão de empréstimos agrícolas a prazos curtos e juros longos. Lá do povo, alguém corrigiu: - É o contrário, governador! Empréstimo a prazo longo e juro curto. - Desde que o dinheiro venha, os pronomes não têm importância.
quarta-feira, 26 de maio de 2021

Porandubas nº 717

Panorama Burrice ou estultice? Depois de comparecer duas vezes à CPI da Covid-19, o ex-ministro da Saúde, general da ativa Eduardo Pazuello, compareceu ao ato de domingo passado, um evento de motoqueiros em homenagem ao presidente Bolsonaro. Erro crasso. Militar na ativa não pode comparecer a evento político. Pior é que essa subida em palanque ocorre depois de Pazuello ter dito e repetido que Bolsonaro e ele defendem o uso de máscara. Pois nem ele nem o presidente usaram máscara. O general confessa que errou. Errou na logística do comparecimento? Burrice ou estultice? Uma asneira arrematada. Punição Se o general errou, deve ser punido. Mourão, o vice-presidente, deu a pista: sair logo da ativa para aliviar a pena. O respeitado general Santos Cruz proclama: um erro que não pode passar em branco sob pena de desmoralizar a Força. P.S. O presidente Jair Bolsonaro ordenou a lei do silêncio nas investigações sobre a participação do general Pazuello na "motorciata", domingo passado, no Rio de Janeiro. P.S. E se o general enveredar pelos caminhos da política, hein? Mosca azul? A lei do 1/3 Está na boca dos analistas políticos: as oposições à esquerda contam, hoje, com 1/3 do eleitorado e simpatizantes (PT, PSOL, parte do PSB); os núcleos de centro contam com 1/3 (PSDB, MDB, DEM, parte do PSD e outros) e os governistas, à direita, partidos no entorno do presidente agregariam também 1/3 (PP na liderança e parcelas de outros). Essa equação dos três terços é a mais referenciada (não reverenciada). A mais repetida. Quem vai desarrumar a equação para lá ou para cá é o motor da economia. A conferir. Lula de centro? Minha querida mãe, que Deus levou aos 102 anos, sempre me dizia: "meu filho, nunca diga - desta água não beberei". Popular e sábia advertência. Lula ser considerado, hoje, um perfil de centro, é uma entortada no canivete suíço. Lâminas indobráveis. Mas o próprio já chegou a dizer que é a própria "metamorfose ambulante". Desgaste de material Eis o imbróglio que pegará muita gente pelo gogó. O eleitor/consumidor vota, convive, consome o mesmo produto por anos a fio. Com o tempo, uma crosta de bolor se forma em torno dele. Parede velha, esburacada, carecendo de reboco. Pintar sobre a parede sem cuidar do reboco é gastar tinta. O tempo desgasta os materiais. Por isso, as paredes precisam receber um tratamento mais adequado. Com argamassa nova e resistente. Cimento de boa qualidade. Pensem, agora, quem está rebocando suas paredes? Lista do reboco Quem, entre esses, vocês acham que carece de fina (F), média (M) ou grossa argamassa (G)? Um lembrete: perfis apontados como G tendem a sofrer maior resistência do eleitor/consumidor. Minhas pontuações: - Luiz Inácio Lula da Silva - G; - Ciro Gomes - G; - João Doria - M; - Sérgio Moro - F; - Luiz Mandetta - F;- ACM Neto - M; - Jaques Wagner - M; - Fernando Haddad - M - Jair Bolsonaro- G; - Rui Costa - F; - Eduardo Leite - F; - Eduardo Paes- M; - General Mourão - G. O paradoxo do mentiroso Em época de muita mentira e lero-lero, vale a pena lembrar o quebra-cabeças atribuído a Eubulides, aluno de Euclides, conhecido como "o paradoxo do mentiroso". Se alguém (escolha um político ou governante, ministro ou ex-ministro) disser "essa afirmação é falsa", estaremos diante do seguinte paradoxo. Se a afirmação for falsa, então a afirmação do emissor é verdadeira, pois foi o que ele disse. Mas se ele falou verdadeiramente, a afirmação tem de ser falsa, porque ele falou que era falsa. Arremate: se é falsa, conclui-se que a afirmação é verdadeira; e se é verdadeira, segue-se que é falsa afirmação. Deixemos que os senadores quebrem a cabeça na CPI da Covid-19. Diógenes Governo parece querer oxigenar os espaços do patrimônio cultural. O advogado, poeta, escritor e presidente da Academia Norte-rio-grandense de Letras, Diógenes da Cunha Lima, foi convidado para integrar o Instituto Histórico e Artístico Nacional. O Iphan cuida do patrimônio cultural do país. Diógenes é o escritor que mais escreveu sobre Câmara Cascudo, com quem conviveu. E guarda uma coleção de histórias e depoimentos sobre o maior folclorista brasileiro, orgulho do Rio Grande do Norte. Cascudo Vejam este depoimento, pinçado do livro "Câmara Cascudo, um Brasileiro Feliz", colhido por Diógenes da Cunha Lima: "Eu só escrevi, pesquisei, trabalhei naquilo que amava. De maneira que não posso escolher entre meus livros aquele que mais amo. Todos foram feitos com amor, com a mesma técnica de pesquisa. O povo, depois a pesquisa bibliográfica. O povo entrava com 70% e depois vinha a identificação no tempo e no espaço do que eu tinha ouvido do povo. Eu tenho um livro, Trinta Histórias Brasileiras, que foi editado em Portugal e lá se esgotou. São estórias contadas pela mesma velha, uma velha de Ceará-Mirim, branca. Analfabeta, cuja área de percurso na vida era de Ceará-Mirim a Natal. Foi uma das minhas professoras do ponto de vista de literatura oral". A médica Mayara A médica Mayara Pinheiro, que comanda uma Secretaria no Ministério da Saúde (Gestão do Trabalho e na Educação da Saúde) e que depôs ontem na CPI da Covid-19, muito falante, relativizou os conceitos por trás das perguntas que lhe foram feitas. A verdade é relativa; a ciência não tem respostas para muitas questões; nenhum país é obrigado a seguir as orientações da OMS; Manaus foi a maior experiência de sua vida profissional; há mais de mil textos defendendo a cloroquina no combate à Covid-19; foi convidada pelo então ministro Luiz Mandetta, a quem tem respeito e apreço e assim por diante. Defendeu com veemência o uso da cloroquina, inclusive para crianças. Deve entrar na política. Terceira dose? Ante evidência de que algumas vacinas apresentam baixa eficiência em idosos, especialistas começam a pensar e a falar sobre uma terceira dose. Pesquisas preliminares. É uma hipótese bastante viável mais adiante. Transformista A maior performance do transformismo na frente da administração Federal cai no perfil do ministro da Economia, Paulo Guedes. O pleno liberal privativista é um camaleão, um bicho mimético que ganha as cores das folhas ao seu redor. Não é de admirar que acabe pregando o Estado paquidérmico, com reabsorção de empresas de todos os tamanhos. Pessimismo e otimismo Os vetores de decisão do eleitorado são influenciados por dois elementos que parecem paradoxais. De um lado, um pessimismo galopante, que se faz presente nas locuções de que o "o país não tem jeito, estamos todos perdidos, não vale a pena lutar por isso, a roubalheira vai continuar, etc.". De outro, um otimismo extravagante, que evidencia a superlativa dose emotiva da alma nacional. Nesse sentido, as alavancas de força se apresentam nas festas de época e fora de época, no carnaval, nas antigas folias cotidianas dos bares e até na esteira da bagunça que, em maior ou menor grau, transparece na fisionomia das cidades, na improvisação dos motoristas de trânsito e na linguagem desabrida das ruas. A pandemia, porém, deixou o país mais pessimista e triste. Bandeira Hora de puxar para a paisagem o lamento de Manuel Bandeira: "que adianta a glória, a poesia, a beleza, a linha do horizonte? Eu só vejo o triste beco". Juro dizer a verdade Juro dizer a verdade, nada mais que a verdade. O Brasil é a terra da ética, do respeito aos valores morais que dignificam o homem e do cumprimento exemplar das leis. O caráter de seu povo é reto e imaculado, fruto de uma herança cultural profundamente alicerçada no civismo, na solidariedade, no culto às tradições, na religiosidade, no respeito aos mais velhos, no carinho e proteção às crianças e na repartição justa dos bens produzidos. Neste país, atingir a honra de um cidadão equivale a ferir a alma da pátria. Aqui, preserva-se e cumpre-se o abençoado lema "todos por um e um por todos". A ironia também se faz presente na paisagem institucional. A grandeza de uma nação A grandeza de uma Nação não é apenas a soma de suas riquezas materiais, o produto nacional bruto. É o conjunto de seus valores, o sentimento de pátria, a fé e a crença do povo, o sentido de família, o culto às tradições e aos costumes, o respeito aos velhos, o amor às crianças, o cumprimento da lei, o culto à liberdade, a chama cívica que faz correr nas veias dos cidadãos o orgulho pela terra onde nasceram. A anulação de alguns desses valores faz das Nações uma terra selvagem. Responsabilidade que se deve, em grande parte, à incúria dos governantes, cujo olhar se descola da realidade social para mirar o espelho narcisista das ambições pessoais. Curto conto Uma parábola: "há pessoas que não conseguem perceber o que se passa ao redor. Não veem que não veem, não sabem que não sabem". Zé cai em um poço e está a 10 metros de profundidade. Olha para os céus e não vê o buraco. Desesperado, começa a escalar as paredes. Sobe um centímetro e escorrega. Passa o dia fazendo tentativas. As energias começam a faltar. No dia seguinte, alguém que passa pelo lugar ouve um barulho. Olha para o fundo do poço. Enxerga o vulto de Zé. Corre e pega uma corda. Lança-a no buraco. Concentrado em seu trabalho, esbaforido, cansado, Zé não ouve o grito da pessoa: "pegue a corda, pegue a corda". Surdo, sem perceber a realidade, Zé continua a tarefa de escalar, sem sucesso, as paredes. O homem na beira do poço joga uma pedra. Zé sente a dor e olha para cima, irritado, sem compreender nada. Grita furioso: - O que você quer? Não vê que estou ocupado? O desconhecido se surpreende e volta a aconselhar: - Aí tem a corda, pegue-a, que eu puxo. Mais irritado ainda, Zé responde sem olhar para cima: - Não vê que estou ocupado, ó cara. Não tenho tempo para me preocupar com sua corda. E recomeça seu trabalho.
quarta-feira, 19 de maio de 2021

Porandubas nº 716

Abro a coluna com a noiva. A morada do doutô Agriço Mais uma do mestre Leonardo Mota. Quem entra no "Hotel Roma" de Alagoinhas, na Bahia, vai com os olhos a uma tabuleta agressiva em que peremptoriamente se adverte: Pagamento adiantado, hóspedes sem bagagens e conferencistas Também em Pernambuco, o proprietário do hotelzinho de Timbaúba é, com carradas de razão, um espírito prevenido contra conferencistas que correm terras. Notei que se tornou carrancudo comigo quando lhe disseram que eu era conferencista, a pior nação de gente que ele contava em meio à sua freguesia. Supunha o hoteleiro de Timbaúba que eu fosse doutor de doença ou doutor de questão. Por falar em Timbaúba, há ali um sobrado, em cuja parte térrea funciona uma loja de modas, liricamente denominada "A Noiva". O andar superior foi adaptado para residência de uma família. Eu não sabia de nada disso quando, ao indagar ao major Ulpiano Ventura onde residia o dr. Agrício Silva, juiz de Direito da comarca, recebi esta informação que me deixou tonto: - O Doutô Agriço? O Doutô Agriço está morando em riba d'A Noiva... Panorama Terceira onda? Nos últimos 15 dias os hospitais privados de São Paulo registraram alta de 7% de contaminados de Covid-19 com ingresso em leitos e UTIs. Interrogações dos médicos: seria uma terceira onda? O relaxamento aumentou bastante. E os vacinados com segunda dose se achando imunizados. Não é bem assim. CPI da Covid-19 Em uma semana pouca coisa mudou no front da política. A CPI da Covid-19 continua a mobilizar as atenções, os bolsonaristas tentam sair pela tangente no banco de testemunhas e, ao que se infere, o relatório final incriminará o governo e membros de sua equipe apontando má gestão da pandemia e provas recaindo sobre a responsabilidade de gestores e ex-gestores. Indagação que se impõe: o presidente será responsabilizado, além de seus auxiliares? Sim. Mas será punido com impeachment? Não. Não haveria tempo e condições objetivas para uma decisão com tal dimensão. Pazuello O depoimento do ex-ministro Eduardo Pazuello, hoje, é o que cria maior expectativa. O ministro tem um salvo-conduto para não se incriminar. Mas é obrigado a falar sobre terceiros. A questão de fundo é: falando ou silenciando, o general terá curta sombra para se abrigar. Aliás, o silêncio, como já acentuei neste espaço, é uma grande forma de expressão, traduzindo coisas como medo, insegurança, versão distante da verdade, escapadas ao fogo interrogativo. Esta também é a alternativa da "Capitã Cloroquina", que enviou carradas do remédio para Manaus, no auge da crise, orientando sobre sua adoção. O Centrão de olho O Centrão, com eixo central no PP, está de olhos esbugalhados: um focado em Bolsonaro e em seu governo, outro fixado nas pesquisas que mostram imagem em queda na avaliação da administração. Como se sabe, a tendência de integrantes do bloco é de caminhar na direção apontada pelo peso da balança. Caso seja o da oposição a Bolsonaro, lá pelos meados de 2022, talvez até antes, o desembarque dos participantes do Centrão é algo previsível. Primeiro, eu; segundo, eu; terceiro, eu. Este é o velho lema do blocão. Perspectiva de poder - eis a bússola que orienta a esfera política. Lula submergindo Para evitar desgaste com lançamento prematuro, Luiz Inácio foi aconselhado a mergulhar. Sair a campo muito cedo é se sujeitar a bombardeios prévios. Ademais, Lula não está seguro sobre sua condição de elegibilidade. A primeira instância voltará a analisar seus casos. Mas, e a pressão da opinião pública? Já começa a funcionar a favor dele. Lula inicia um discurso de vítima, de inocente. A OP tende a favorecê-lo, como indicam as pesquisas. É evidente que os juízes balizarão em suas decisões por impulsos dos balões de pressão social. DEM Padece sua maior crise dos últimos tempos. PRTB Esnobou e decidiu não entregar a legenda para Bolsonaro. Continuará nas mãos da família de Levy Fidelix. Historinha: por ocasião do lançamento do meu livro - Era uma Vez Mil Vezes - na livraria Cultura, Levy chegou trovejando sua voz: "desculpem, tenho outro compromisso. Vou furar a fila e cumprimentar meu amigo". Passou bom tempo posando para fotos ao lado da mesa. E a gritaria o impediu de ficar mais tempo. Uma figura. Alckmin Geraldo Alckmin está entre a cruz e a caldeirinha. Se permanecer no PSDB, ameaça perder a condição de candidato ao governo de São Paulo, posição hoje nas mãos de Rodrigo Garcia, que deixa o DEM pelo tucanato. Se sair, pode ser candidato da sigla em que ingressar. E vai brigar contra João Doria, seu discípulo. O que seria melhor? Bolsonaro Cai o índice de avaliação positiva de Jair Bolsonaro. Poderá cair mais ou ele terá condições de resgatar o prestígio anterior? Em política, tudo pode ocorrer. Mas, a continuar seu destampatório, emerge a alternativa de perder o favoritismo. Lula, para ele, seria o candidato ideal. Há quem não acredite nesta hipótese. Mourão Hamilton Mourão, o vice-presidente da República deverá ser candidato ao Senado pelo Rio Grande do Sul. Opção mais atrativa. Não integrará a chapa de Bolsonaro. Militares Alas insatisfeitas com os "feitos" do capitão se espalham. Classes médias Continuam a observar o cenário e a aguardar momento de descer do muro da indecisão. Hoje, pendem para Lula por falta de opção. E parcela vai de Bolsonaro, por convicção. Pobreza Aumentando a olhos vistos. Os pedintes agora querem víveres, comida, em vez de dinheiro. Em São Paulo, na porta de supermercados, os famintos marcam ponto. Redes sociais Decrescem ímpeto e tom violento das brigadas bolsonaristas nas redes sociais. Sinal dos tempos. Bruno Covas Certo dia, em evento num sindicato, disse para ele: "Bruno, siga o exemplo de firmeza de seu avô, Mário". Ele me respondeu: "Gaudêncio, ele me inspira na vida. É minha bússola". Bruno era um homem corajoso, determinado, transparente e simples. Sem arrogância. Teria um grande amanhã na política. Muito ligado ao avô. Renan O relator da CPI da Covid-19, senador Renan Calheiros (MDB-AL), passa a ganhar simpatia em setores que o recriminavam. É a gangorra da política. Angarita Liguei, ontem, para cumprimentar meu amigo Antônio Angarita, ex-presidente da Vasp, ex-professor da FGV, ex-secretário de Estado em São Paulo, tendo ajudado muito o governo Mário Covas. Lembrei os velhos tempos em que me acolheu para integrar a equipe de preparação do programa do governo, levado que fui por João Doria. Viva Angarita. Fatores da eficácia eleitoral Pré-candidatos já começam a pôr os ouvidos junto aos bochichos das ruas. Pedem a este consultor para dizer o que pode acontecer em outubro de 2022. Consulto minha bola de cristal e vejo apenas nuvens plúmbeas. Mas arrisco o alinhamento de 10 fatores que jogarão/não jogarão votos nas urnas: 1. Economia - dinheiro no bolso, barriga satisfeita. 2. Pandemia - Gestores bem avaliados serão bafejados. 3. Cobertor social - Quanto menos curto, melhor, permitindo cobrir pés e cabeça. 4. Mais ação, menos discurso - Tempos de observação para quem age e para quem fica no blá blá blá. 5. Inovação - Palavra enganadora. Não adiantará dizer que vai inovar. A boca expressiva deve garantir credibilidade. 6. Tendência de caras novas ganharem preferência. Mas as caras antigas, respeitadas, terão sucesso. 7. Partidos políticos - Sem grande importância, mas serão alavanca em termos de espaço midiático. 8. Polarização do discurso - Abrigo de 15% do eleitorado. A maioria não engrossará turbas radicais. 9. Dinheiro/Recursos - Continua abrindo porta, mas bolso largo deixou de ser decisivo. 10. Circunstâncias - O espírito do tempo. O Produto Nacional Bruto da Felicidade, conjunto de situações vividas naquele momento eleitoral. O Senhor Imponderável, que costuma nos fazer visitas, deve aparecer em algumas regiões. Fecho a coluna com uma historinha das Minas Gerais. Da burrice e da engenharia Viajando pelo interior de Minas, o arquiteto Marcos Vasconcelos encontrou um grupo de trabalhadores abrindo uma estrada: - Esta estrada vai até onde? - Muito longe, muito longe, doutor. Atravessa o vale, retorce na beirada da serra, quebra pela esquerda, retoma pela direita, desemboca em frente, e vai indo, vai indo, até chegar a Ponte Nova, passando pelos baixios e cabeceiras. - Vocês têm engenheiro, arquiteto, teodolito, instrumentos de medição? - Num tem não, doutor. Nós tem um burro, que nós manda ir andando, andando. Por onde ele for, aí é o melhor caminho. Nós vai picando, picando. - E quando não tem burro? - Aí não tem jeito, doutor; nós chama um engenheiro mesmo. O arquiteto seguiu adiante filosofando sobre as artes da burrice e da engenharia.
quarta-feira, 12 de maio de 2021

Porandubas nº 715

Abro a coluna com Tebet. O besourão Abro a coluna com uma historinha que me foi contada pelo ex-senador Ramez Tebet, saudoso amigo. Por ocasião da criação do Estado do MS, em 1979, a população de Campo Grande ficava assombrada com a caravana dos 17 grandes carrões pretos dos deputados estaduais que paravam diante da Assembleia Legislativa. Os carros ganharam logo o nome de "besourão" e, ao passarem pelas ruas, as pessoas logo faziam o sinal da cruz, na tentativa de afastar o medo daqueles carros que mais pareciam transporte de defunto. Ninguém se atrevia a andar num carro daqueles. Até que um dia, ao comparecer ao velório de um correligionário, numa cidade do interior, dirigindo um desses carros, o então deputado Ramez Tebet teve que atender ao pedido da família do defunto. Queriam que o defunto fosse levado naquele carro. Nessa hora, não dá para negar. E lá se vai o deputado carregando o caixão de defunto em seu "besourão". A história se espalhou por todo o Estado. Assim a fama negativa do carrão preto foi dissipada. O "besourão" passou a ser visto com outros olhos. A boa fama só veio depois de ter conduzido um defunto. Crises se imbricam Uma crise entrando na outra. É assim que se desenha a paisagem dos últimos dias. Convivemos com a maior crise sanitária dos últimos 100 anos; sofremos com a crise na economia, que não dá sinais de grande alento; padecemos de uma crise crônica na política, que continua a operar os velhos métodos, e reabre o que já se chama de "tratoraço", nos moldes dos tempos dos "anões do orçamento"; e, o que não é novidade, a crise hídrica, com a carência de chuva em algumas regiões e que, segundo palavras do próprio presidente da República, vai dar "de cabeça" na população. Sob essa teia emaranhada espraia-se a crise social, com o empobrecimento de milhões de habitantes do meio-baixo da pirâmide, a classe média C. O "tratoraço" Esse "orçamento secreto" está assim carimbado porque a enxurrada de emendas para aquisição de tratores, a pedido de parlamentares, foi feita de modo escondido, como se houvesse a intenção de não dar muito na vista. Mas um repórter do Estadão teve acesso à papelada. O caso está sendo considerado "muito grave". Sob essa ênfase, já corre uma lista de pedidos de uma CPI. O que se mostra nesse "adjutório" é o dedo do superfaturamento, chegando a 259% por cento no caso da compra de um trator, duas vezes e meia, segundo se mostra. O caldeirão ameaça ferver com a água em ebulição jorrada da CPI da Covid-19. O Centrão aliviando Mas o Centrão tem o condão de aliviar as tensões. Afinal ele entrou de sola na Codevasf - Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco -, jogando seus quadros na estrutura da companhia e, desse modo, formando uma barreira sólida para aguentar o tranco que virá da base oposicionista do governo. Será a hora para Arthur Lira, presidente da Câmara, usar sua "lábia de convencimento" com a ajuda da caneta governamental, e aliviar as tensões. Vai ser difícil puxar o tapete do governo. Mas a barulheira que esse assunto vai provocar deve compor a argamassa eleitoral de 2022, que já começa a se formar. O cordão das crises, puxado do rolo, pode gerar um efeito dominó. Uma pedra batendo na outra e produzindo uma fileira de quedas. Essa hipótese entra no cenário, mas, como já se acentuou, poderá dar em nada por obra e graça do Centrão. E a CPI da Covid? O trio que comanda a CPI - Omar Aziz, presidente, Randolfe Rodrigues, vice, e Renan Calheiros, relator, estão afinados e dispostos a gerar resultados. Dizem isso quase todos os dias. Assim, é pouco crível apostar numa pizza com muitos sabores. Se as chamadas "provas cabais" de responsabilidade pela má gestão da pandemia foram evidentes, claras e de contundência inquestionável, os resultados se dariam no campo da punição. Quem e como? Mais uma vez, acentuo, a margem para um pedido de impeachment do presidente é muito estreita. A elevação do clima ambiental dará um nó cego na arena institucional. O Imponderável estará de olhos abertos. Lula faz campanha Este analista não teme ser repetitivo: na régua de 100 centímetros, a possibilidade de Luiz Inácio ser candidato está entre 10% e 15%. Lula está fazendo articulações, abraçando todos os ombros do arco ideológico, porque entende que uma frente ampla de oposição será vital para tirar o assento presidencial de Bolsonaro. Nesse sentido, defende a polarização. Mas uma aguerrida luta entre a direita radical contra pedaços do centro, da esquerda e até um pedacito do centro-direita. E por que Lula não seria candidato? Porque seria levado novamente ao banco dos réus por causa dos grandes lances que ditaram os eventos de corrupção no Brasil nos últimos anos. Lula ainda não se livrou da balança da Justiça. E, por volta da campanha, seu caso será novamente elevado à mídia massiva. O calvário será remontado. Os 10 a 15% de possibilidade de Lula vir a ser candidato apostam na hipótese: ou tudo ou nada. Se ganhar, voltará aos braços do povo; se perder, se enfia no baú das velhas lembranças. Sob as alegrias da vida privada. Mulher Este analista também se inclina a favor de outra hipótese: as chapas para a presidência deverão intensificar seus esforços na busca de uma mulher como candidata à vice-presidência. Rodrigo Pacheco Olhem para este nome. Presidente do Senado, jovem, moderado, boa fluência, de Minas Gerais, 2º maior colégio eleitoral do país, encarnaria muito bem o papel de candidato do lema: in media, virtus. A virtude está no meio. Entrave: o DEM, que perde quadros. Mas ele poderia não resistir ao imã de outro partido competitivo. Imunidade de rebanho Atentem para este conceito: estará no centro da polêmica nos próximos tempos. Defender a imunidade de rebanho é querer que o vírus contamine rapidamente a população. Nesse caso, conviria ir contra a ciência. Mirabolância O PDT, Carlos Lupi e Ciro Gomes entraram na "carruagem do espetáculo" do marqueteiro João Santana, o chamado "mago da mirabolância". Vídeos espetaculares, imagens de comoção, adoçamento de perfis, fantasias, hosanas. O Brasil deixou para trás esses enredos miraculosos. A conferir. Rejeição João Doria vai ter de reaprender lições de simplicidade, modéstia, harmonia, humildade, falas com menor grau de autoelogio. É uma tarefa que consumiu a vida de alguns protagonistas. O problema é o tempo até a campanha de 2022. Passando no exame Ouço que o governador do Maranhão, Flávio Dino, PC do B, passou na primeira fase do teste "gestão da pandemia". Ganha cacife para entrar como vice numa chapa presidencial. Talvez vindo para o PSB. Fábio Faria Fala-se que é candidato a senador no RN. O ministro das Comunicações está no PSD de Kassab. Mas também se fala na candidatura de Robinson Faria, seu pai, a deputado Federal. Aí fica difícil. Um senador e um deputado? Um dos dois terá de fazer um sacrifício. Tudo vai depender do chapão bolsonarista a se formar para a campanha de 2022. Fátima A governadora do RN, Fátima Bezerra, irá para a reeleição. Diz-se que não vai bem na avaliação popular. Muito mal. Mas, e se a economia despencar de vez, o governo Federal (Bolsonaro) seja execrado, será que ela, com a caneta (mesmo sem tinta), não teria chance? Mais, se Lula for candidato? O Imponderável estará de olhos abertos. Castro A política é uma Caixa de Pandora. Esconde surpresas. Esse Claudio Castro, vice que assumiu o cargo de governador com o impeachment de Wilson Witzel, vai se candidatar ao governo do Rio de Janeiro. Desconhecido e desprestigiado. Pois não é que a tragédia de Jacarezinho alavancou seu nome? No Rio, o tiro da polícia dá votos a favor. E assim caminha a Humanidade. Leite Será difícil sustentar no PSDB o governador do Rio Grande do Sul, o jovem Eduardo Leite. Tem convites de outros partidos. E é um perfil em ascensão. Alckmin O ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, quadro histórico do PSDB, poderá sair do partido. Tem boas chances para o Senado e, ainda, para o próprio governo. Geraldo é algodão entre vidros. Zema Faz um bom governo em MG. Candidato à reeleição. Mas pode ter um forte candidato contra ele: Alexandre Kalil, prefeito de BH. Muito bem avaliado. Atenção: Kalil pode ser uma opção para a presidência em 2022. Fecho com Jesus de Nazaré. I.N.R.I. - Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum Conta Leonardo Mota que o mestre Henrique era reputado marceneiro nos sertões de Sergipe. Sua especialidade estava nas camas francesas à Luís Quinze. Quando o freguês achava que o leito era baixo, recebia a explicação de que a cama era francesa, mas era à Luís Quatorze; se queixava da excessiva altura, ficava sabendo que aquilo era cama francesa à Luís Dezesseis... O mestre Henrique pôs toda a sua ciência no Cruzeiro do patamar da igreja de Aquidabã. No topo do sagrado madeiro, o vigário da freguesia fizera o mestre Henrique colocar uma tabuinha com as letras I.N.R.I., iniciais de Jesus Nazareno Rei dos Judeus, a irônica inscrição latina de que a ruindade de Pilatos se lembrara na ignominiosa sentença de morte do filho de Deus. Decorrido algum tempo, um sertanejo sergipano, intrigado com a significação daquelas quatro letras, perguntou a um seu conhecido: - Que é que quererá dizer aquele negócio de INRI, que tem escrito em riba do Cruzeiro? - Você não sabe, não? Ali falta é o Q-U-E. Esse QUE não cabeu na tabuinha: aquilo é a assinatura de quem fez, que foi o mestre INRIque...
quarta-feira, 5 de maio de 2021

Porandubas nº 714

Abro com o meu RN. "Da casa do cacete" No primeiro mandato de Garibaldi Filho como governador deu-se a largada dos projetos de recursos hídricos, com as adutoras que se tornaram marca registrada do seu governo. Em Pau dos Ferros, na inauguração oficial, Garibaldi foi cobrado de público pelo abastecimento d'água da cidade. Sem se afobar, como é do seu hábito, o governador pegou carona na cobrança popular com indisfarçável irritação: "Vou botar água em Pau dos Ferros nem que a água venha da casa...". Aí parou. Sentindo que não podia ir além, repetiu a frase: "Já autorizei Rômulo Macêdo a elaborar o projeto e vou botar água em Pau dos Ferros nem que a água venha da casa do...". Parou de novo. Populares de raciocínio apressado completaram: "Da casa do cacete...". O orador foi sutil e perspicaz: "Eu não queria dizer essa palavra...". Risos gerais. "Gari" guardara a postura e conseguiu o resultado. (História contada pelo espirituoso escritor e acadêmico da ANRL (Associação norte-rio-grandense de Letras, Valério Mesquita). Panorama Pandemia Tudo como d'antes no quartel d'Abrantes. A CPI começou e as primeiras oitivas se comportam como o previsível. O barulho ainda não ensurdece. O governo tem minoria na Comissão. Independentes e opositores somariam sete, governistas, quatro. Mas o governo conta com sua artilharia pesada, menos falas de seu grupo e mais cargos. Daqui a um mês, será possível a regularização da remessa de vacinas. E o passado transformar-se-á em nuvem fugidia. Arthur Lira e Rodrigo Pacheco não teriam disposição para abrir um processo de impeachment se o relatório final da CPI apontar para este caminho. Ruas Convém ouvir o murmúrio das ruas. No 1º de maio, as ruas de diversas cidades foram ocupadas por militantes bolsonaristas. Com todas as imperícias e falas desastradas do mandatário-mor, não se pode fechar os olhos para sua militância, algo em torno de 25%. Quem viu as maiores manifestações da história do Brasil, como alguns torcedores fanáticos do bolsonarismo fizeram questão de dizer a este analista, estava com os olhos embaçados. Tinha bastante gente na avenida Paulista, algo como três quarteirões cheios. Mas o chutômetro costuma aparecer jogando a bola para o teto ou para as laterais. Temos, geralmente, três faixas de números: uma da PM, outra dos organizadores (ONGs, movimentos) e Institutos de Pesquisa. Cálculos Usando imagens de satélite, pesquisadores e medições, o Instituto Datafolha apura que a av. Paulista tem 136.000 metros quadrados disponíveis para a concentração de pessoas, incluindo calçadas, canteiro central e vias, vão livre do MASP e até espaços dos túneis. Para comportar 1 milhão de pessoas, a Paulista deveria abrigar concentração de 7,5 pessoas por metro quadrado ao longo de toda a área disponível. Coisa inviável. Nos horários de pico do metrô, a concentração nos vagões é algo entre 6 e 7 pessoas por metro quadrado. Para abrigar 1 milhão, deveriam os estatísticos dos eventos na Paulista considerar toda a extensão da avenida da Consolação e 7 pessoas por metro quadrado. Geralmente, esse número oscila entre 3 e 5. Nos EUA Para aperfeiçoar a contagem e reduzir a margem de erro, o arquiteto Curt Westergard, fundador da empresa Digital Design and Imaging Service (DDIS), desenvolveu, segundo a Veja, uma nova metodologia. A emissora CBS News contratou a empresa para estimar o número de pessoas que se reuniu em uma manifestação organizada por um apresentador da Fox News e em outra coordenada por comediantes. No primeiro evento, os organizadores anunciaram 500.000 pessoas; Westergard e sua equipe contaram 87.000, com uma margem de erro de 9.000 pessoas para mais ou menos. Na segunda manifestação, visivelmente mais numerosa, um dos comediantes brincou que havia 10 milhões de pessoas; mas a DDIS contou 250.000, com uma margem de erro de 10%. Em suma, o chutômetro fica por conta dos torcedores a favor e contra. Sudeste mais Nordeste Tem sido assim nas últimas décadas. Os eventuais candidatos presidenciáveis procuram arrumar suas chapas com a tentativa de inserir perfis a vice com visibilidade e domínio político em duas regiões: Sudeste e Nordeste. Apenas São Paulo tem 46 milhões de votos, com Minas Gerais, em segundo lugar, com cerca de 17 milhões e o Rio de Janeiro, com 12 milhões. O Nordeste soma mais de 27% dos votos. Nessa região o favoritismo de Lula já foi maior. O porcentual de intenções de voto no petista representa uma perda na fatia do eleitorado de 2020 até agora. Em maio do ano passado, por exemplo, o ex-presidente tinha ali 38,4%. No mesmo período, Bolsonaro avançou de 16,6% para 26,8%. Nomes O PSDB tem três nomes para disputar prévias: Tasso Jereissati, João Doria e Eduardo Leite. Tasso começa a ser chamado de "Biden brasileiro". Seria um nome forte para mobilizar o Nordeste. Caso escolhido, seu vice seria naturalmente da região Sudeste. Já se o candidato for o governador de São Paulo, João Doria, inverte-se: o vice deveria ser do Nordeste. A região Sul tem a terceira posição no ranking eleitoral. Leite, escolhido candidato, deveria compor com um nome do Sudeste ou do Nordeste. Mais especulação: Minas Gerais, desde a morte de Tancredo, crê que o Brasil lhe deve um tributo, a vaga que perdeu. Dilma, mesmo tendo nascida em Minas, não é considerada como tal para efeitos de composição política. Cheguemos ao Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, boa pinta, boa expressão, perfil moderado. Vai depender de sua atuação no comando da Câmara Alta. Escolhido, puxaria um bom nome do Nordeste ou mesmo de São Paulo, um leite com café retemperado. E Bolsonaro, hein? Com o vice Mourão praticamente descartado de sua chapa, Jair Bolsonaro teria de escolher um político com o pé no Nordeste ou mesmo em São Paulo para enfrentar os adversários. De pronto, deve excluir a possibilidade de mais um militar compondo sua chapa. A não ser que decidisse "engrossar o caldo" e "remilitarizar" o governo com novas levas de quadros das Forças Armadas. Para aliviar a identidade pesada, um bom nome deveria agregar valores como renovação, assepsia política, respeitabilidade, inserção nas camadas jovens, visão avançada, empreendedorismo. Alckmin e França Acabo de receber de Murilo Hidalgo a pesquisa do Paraná Pesquisas, dando Geraldo Alckmin (PSDB) e Márcio França (PSB) como líderes na disputa para o governo de São Paulo em outubro de 2022. No principal cenário, Alckmin tem 19,9% das intenções de voto contra 15,4% de França. Tecnicamente empatados. Fernando Haddad (PT) tem 13,4% e Guilherme Boulos (PSOL) soma 11,4%, também ambos empatados. Paulo Skaf, por enquanto ainda no MDB, tem 10,2%. Rodrigo Garcia (DEM), atual vice-governador, tem 3,1% e o deputado estadual Arthur do Val (Patriota), Mamãe Falei, tem 6,4%. Skaf, pelo que se comenta, gostaria de ser o candidato bolsonarista em São Paulo. Bolsonaro Segundo a pesquisa, Bolsonaro lidera a eleição em SP, mas 49,4% desaprovam o seu governo. Presidente aparece com 32% das intenções de voto contra 23,7% do ex-presidente Lula em levantamento feito no estado pelo Instituto. Bruno Covas O prefeito de São Paulo, o tucano Bruno Covas, enfrenta com firmeza e disposição o câncer que o ataca. Tirou licença de 30 dias. O prefeito interino Ricardo Nunes (MDB) cumprirá a agenda de Bruno. Nossos votos de plena recuperação ao prefeito. Um homem de coragem como seu avô, Mário Covas. Aécio recuperando Aécio Neves, passo a passo, recupera sua capacidade de articulação nos bastidores da política. Voltará ao palco principal. Hauly Um destemido, resiliente e respeitado tributarista, o ex-deputado Luiz Carlos Hauly. O Brasil muito deve a ele pelo esforço que vem fazendo para lapidar a reforma tributária. BO+BA+CO+CA Minha velha equação Bolso, Barriga, Coração, Cabeça, aguarda com muita expectativa os próximos tempos. A classe média C caiu de posição e adentra na D. Auxílio Emergencial, Bolsa Família e que tais estão de olho nos governos e na burocracia, que impede rapidez no acesso aos parcos recursos. Tempos pandêmicos, barriga roncando. Ainda bem que a solidariedade brasileira se faz presente na seara das doações de alimentos. Catacumbas do desperdício Jogamos fora 50% dos alimentos produzidos (perda estimada em R$ 15 bilhões anuais, o que daria para alimentar 30 milhões de pessoas), 40% da água distribuída, 30% da energia elétrica. Os cálculos foram feitos pelo professor de Engenharia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro José Abrantes, autor do livro Brasil, o País dos Desperdícios. Há simplesmente um bom pedaço do PIB desperdiçado, ou seja, jogam-se no lixo R$ 4,0 trilhões. Se a montanha de riquezas perdidas pudesse ser preservada, o país estaria, há tempos, no ranking das potências. Res privada A que se deve isso? Primeiro, a uma cultura política plasmada no patrimonialismo, assim explicada: a res publica é entendida como coisa nossa, o dinheiro dos cofres do Tesouro tem fundo infinito, o Estado é um ente criado para garantir nosso alimento e bem-estar. O jeito perdulário de ser do brasileiro começa, portanto, com a visão do Estado-mãe, providencial e protetor, no seio do qual se abrigam a ambição das elites políticas e o utilitarismo de oportunistas. O (mau) exemplo dado pelos faraós do topo da pirâmide acaba descendo pelas camadas abaixo, na esteira do ditado "ou restaure-se a moralidade ou nos locupletemos", que uns atribuem a Stanislaw Ponte Preta e outros ao Barão de Itararé. Municipalização x nacionalização das campanhas? Questões que florescerão no jardim do Marketing Eleitoral: campanhas próximas serão municipalizadas ou tenderão a receber inputs federais? Micropolítica - política das pequenas coisas - ou macropolítica, temáticas abrangentes? O discurso da forma (estética) suplantará o discurso semântico? Campanhas privilegiarão pequenas ou grandes concentrações? Qual é o papel das entidades de intermediação social (associações, movimentos, sindicatos, federações, clubes, etc.)? Telegráficas respostas: 1) Ambiente geral - estado geral de satisfação/insatisfação - adentra esfera regional/local (temas locais darão o tom, mas a temperatura ambiental será sentida); 2) Micropolítica, escopo que diz respeito ao bolso e a saúde, estará no centro dos debates; 3) O discurso semântico - propostas concretas e viáveis - suplantará a cosmética; 4) Pequenas concentrações, em série, gerarão mais efeito que grandes concentrações; 5) Organizações sociais mobilizarão eleitorado. Lições táticas As lições de táticas e estratégias dos clássicos da política e das guerras parecem não merecer nenhuma consideração por parte de nosso presidente. Lembremos conselhos de Sun Tzu: a) "Quando em região difícil, não acampe. Em regiões onde se cruzam boas estradas, una-se aos seus aliados. Não se demore em posições perigosamente isoladas. Em situação de cerco, deve recorrer a estratagemas. Numa posição desesperada, deve lutar. Há estradas que não devem ser percorridas e cidades que não devem ser sitiadas". b) "Não marche, a não ser que veja alguma vantagem; não use suas tropas, a menos que haja alguma coisa a ser ganha; não lute, a menos que a posição seja crítica. Nenhum dirigente deve colocar tropas em campo apenas para satisfazer seu humor; nenhum general deve travar uma batalha apenas para se vangloriar. A ira pode, no devido tempo, transformar-se em alegria; o aborrecimento pode ser seguido de contentamento. Porém, um reino que tenha sido destruído jamais poderá tornar a existir, nem os mortos podem ser ressuscitados". Para a cidade inteira Volte sua atenção para a cidade inteira, todas as associações, todos os distritos e bairros. Se você atrair à sua amizade seus líderes, facilmente vai ter nas mãos, graças a eles, a multidão restante. (Cícero - Manual do candidato às eleições, 34 A.C.) Defesa e ataque "A invencibilidade está na defesa; a possibilidade de vitória, no ataque. Quem se defende mostra que sua força é inadequada; quem ataca, mostra que ela é abundante". (Sun Tzu) Sinal de derrota "O maior sinal da derrota é quando já não se crê na vitória". (Montecuccoli)
quarta-feira, 28 de abril de 2021

Porandubas nº 713

Abro a coluna com Zeca de Campina Grande. Zeca de Campina Em João Pessoa, num restaurante chique, Zeca pediu um bode assado. O garçom retrucou: - Desculpe-me, senhor, aqui só servimos frutos do mar. Zeca emendou sem dar tempo: - Então me traz uma água de coco. _________ Um dia, outro taxista cobrou R$ 20. Zeca, liso, só tinha R$ 10. E pagou. - Cadê o resto? - pergunta o taxista. Zeca não hesita: - E eu vim sozinho. Vamos rachar! CPI e a luz midiática CPI da Covid-19 instalada, o governo toma assento a cadeira dos réus. Governadores, idem. Mas as luzes midiáticas focarão com mais intensidade o espaço Federal. A imagem do governo vai ser plasmada com o pincel a ser usado pelos investigadores, no caso, um seleto grupo de 11 senadores titulares e sete suplentes. O governo tem minoria e o grupo independente abarca o maior número. Foi um erro crasso do governo tentar, por liminar impetrada pela deputada novata Carla Zambelli, vetar o senador Renan Calheiros como relator. Apenas exacerbou os ânimos. Os resultados da CPI levarão em conta os fatores: pressão da opinião pública, pressão parlamentar, presidentes das Casas Congressuais. CPI Covid-19: OP+PP+PCS. A terceira via Comecemos com a recorrente dúvida que percorre a esfera política: será viável a terceira via no pleito de 2022? Ou será mais viável apostar todas as fichas na polarização Bolsonaro x Lula? Aos argumentos. A terceira via se apresenta absolutamente viável como hipótese a vingar na eleição presidencial. 1) O eleitorado tende a se libertar de opções entre polos extremos do arco ideológico; 2) o lulopetismo não tem condições de resgatar sua simbologia de esperança dos tempos antigos; 3) o bolsonarismo terá seu bloco de ativos participantes, mas seu comandante-capitão se mostrou aquém das necessidades do país, a partir da má gestão na frente da pandemia; 3) a sociedade está saturada com o tiroteio entre as duas alas, sinalizando o desejo de respirar outros ares; 4) o país se mostra preparado para buscar uma nova alternativa que abrigue valores da ponderação/moderação/equilíbrio/menor tensionamento social. A esperança Este é um valor sempre presente na seara da política. O PT dos tempos idos sinalizava com a esperança de mudança. Aliás, mudança foi a palavra usada por Lula para iniciar seu discurso de posse em 1º de janeiro de 2003. O eleitorado acabou o reelegendo e ele, mesmo sob atropelos, conseguiu eleger sua sucessora, Dilma Rousseff. Foram 13 anos de gestão petista. E em sua esteira inaugurou-se uma era de grandes escândalos, tendo como centro a Petrobras. Caímos na operação Lava Jato. A imagem do lulopetismo ficou na lama. Lula foi condenado. E agora, com sua absolvição pelo STF da condenação imposta pelo então juiz Sergio Moro, ganha condições de elegibilidade, que pode ser retirada por novas condenações. Novos julgamentos A mídia tem dado cobertura às recentes decisões do STF como se elas já fossem algo definitivo. Há, assim, um imenso prejulgamento midiático, que coloca novamente o foguete Luiz Inácio na plataforma de lançamento. Ora, tudo será reiniciado na vara de Brasília ou, até, em São Paulo. Mesmo que o vento corra, hoje, na direção do líder maior do PT, este analista acredita que Lula, por enquanto, está no limbo, podendo voltar a frequentar o inferno. Alcançar as glórias do paraíso? Isso seria possível, sabendo-se como são instáveis nossas instituições e como o Senhor Imponderável costuma frequentar nossas plagas. Mas nova condenação não pode ser retirada do mapa das previsões. Dizer que nunca foi beneficiado pela "mão caridosa" de grupos que promoveram a roubalheira parece um grande drible na verdade. Como já se acentuou, acima, pode acontecer até isso. Enfim, com nova condenação ou não, Lula terá dificuldades para resgatar a aura do passado. Déjà vu O sentimento que percorre as veias sociais, sempre com referência aos fluxos mais fortes, é o de figura já vista, conhecida, saturada. O tempo de Lula na cadeira do Planalto faz parte de um tempo que passou. Mas será decisivo no jogo eleitoral, eis que ainda toma banho nas águas do carisma, beneficiando-se, sobretudo, com a deterioração do perfil do capitão Jair, um incorrigível na arte de atirar a esmo, gerando polêmica e exibindo imensa falta de preparo para administrar este país. Cravar um voto em Lula é tirar do velho baú de lembranças o estilo "nós e eles", erva daninha plantada na seara da consciência das maiores fatias que habitam a pirâmide social. A imagem do capitão No início, contava Jair com a boa vontade, a paciência e certo apoio de parcelas que, inclusive, não chegaram a sufragar seu nome. Voltemos a uma análise já aqui descrita. Ele foi eleito pelos erros e defeitos dos outros - o lamaçal da Petrobras e adjacências - do que por suas qualidades. Identifica-se um conjunto de situações assemelhadas ao quadro eleitoral norte-americano, com a eleição de Donald Trump. Thomas Frank, respeitado analista político, argumenta que o megaempresário foi eleito por "conservadores em um movimento de contrarreação". Uma onda para a direita Nesse rolo compressor social, movido à contrariedade em relação ao status quo, reuniram-se norte-americanos brancos, parcela da classe operária, parcela das classes médias, faixas que sentiram perda de status e de renda. A raiva, indignação, a constatação de que o bolso se esvaziava, não dando para cumprir obrigações com a família - alimentação, saúde, educação - motivaram a identificação desses grupos com Deus, com as Forças Armadas e com os valores pátrios, principalmente aqueles com foco na defesa do emprego e contrários à invasão do território por estrangeiros. Afastando-se de suas associações de referência, aquelas que defendiam seus interesses, a onda voltou-se para a direita e refugiou-se numa asa do partido republicano. Deu no que vimos, Trump na Casa Branca. Contra o petismo Por aqui, os sentimentos difusos confluíram também para a via conservadora, onde se abrigam núcleos religiosos, com destaque para os credos evangélicos, as Forças Armadas e a defesa dos eixos centrais da família, sob um clima geral de rechaço ao lulopetismo, então identificado com os escândalos da operação Lava Jato. A mídia expôs massivamente a ligação do lulopetismo com a corrupção. E, hoje, garantindo a ascensão de Lula, o STF marca a testa de Sergio Moro com o ferro da suspeição. Lula resgata, por enquanto, o manto de candidato em 2022. E Bolsonaro, que canalizava a contrariedade nacional, transformando-se em extensão dos contingentes que se mostravam dispostos a "aceitar tudo contra o PT", começa a ver faltar arroz e feijão nos pratos dos eleitores que nele votaram. O meio puxando as bases O desgaste dos polos extremos do arco ideológico recompõe traços da cultura política nacional de buscar a moderação, a harmonia e fugir do foguetório comum às crises. A polarização, sentida por meio de acusações recíprocas, bate boca nas redes sociais, falas intempestivas dos protagonistas do discurso radical, dá sinais de saturação. De um lado, referências ao poder da força, o pano de fundo de volta de tempos obscuros, quarteladas e canhões nas ruas; de outro, a lengalenga contra as elites, o vermelho e seus símbolos ocupando as ruas, o desfraldar de surrados slogans e refrãos do socialismo. Para fugir a esses contrapontos, uma corrida para o centro é o movimento mais antenado com as demandas sociais do momento. Quem, quem? O fator que contribui para o descrédito desta hipótese gira em torno da pergunta: quem seria o perfil a canalizar a maior parte do eleitorado? Não há, hoje, alguém que possa juntar as forças centrais. Há um conjunto de nomes jogados no balão de ensaio. A economia e a pandemia certamente estarão no tabuleiro do jogo quando o jogo começar para valer. Por enquanto, assistimos a uma preleção envolvendo figuras com pequeno e médio prestígio. Mas o ciclo da articulação já está dando os sinais de que as conversas começam. Não se chegará a um nome no curto prazo, pois as variáveis da economia e da pandemia certamente terão influência na definição do ator principal. Os nomes sobre a mesa tentam, por hora, se manter no tabuleiro. Dentre eles, Tasso Jereissati, Ciro Gomes, Luiz Inácio (seria milagre se puxasse o centro), Luiz Mandetta, Sergio Moro, Luciano Huck, João Doria, Guilherme Boulos (sem condição de atrair o centro), João Amoedo. Pequena moldura A imagem dos políticos Em recente live, fui surpreendido com a pergunta: "a vida privada do homem público deve ser objeto de interesse social?". Minha resposta, que surpreendeu meu interrogador foi sim. O homem público tem o dever de compatibilizar a vida privada e a pública, na medida em que ambas são forjadas por valores e princípios que expressam seu caráter. A Constituição expressa serem invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas. É inquestionável tal pletora de direitos. Mas estes devem ser exercidos para garantir a cidadania. Vida privada I "O estadista deve trazer o coração na cabeça". A frase de John Kennedy, o mais querido presidente dos EUA, possivelmente explica por que sua vida íntima era um mistério, cercada por intrincada teia de boatos, que abrigaria um relacionamento com a mais famosa ícone da sensualidade feminina no cinema, Marilyn Monroe. O ex-presidente Bill Clinton teve um caso com a estagiária Monica Lewinsky, no gabinete anexo ao famoso Salão Oval da Casa Branca. O mundo tomou conhecimento de conversa picante, gravada em dezembro de 1989, entre o príncipe Charles da Inglaterra, então casado com a princesa Diana, e sua amante (hoje sua mulher), Camila Parker Bowles. A mídia fez uma algazarra. Vida privada II Líderes que procuram "humaniza" a imagem são, em geral, aplaudidos e admirados, eis que despertam nas massas sentimentos de familiaridade, simplicidade e proximidade. Na França, o presidente Giscard d'Estaing costumava sair pelas ruas, participar de partidas de futebol, exibir-se em festivais de acordeão, visitar prisões, convidar varredores de rua para tomar café da manhã no Palácio Eliseu. O presidente Miterrand teve uma filha fora do casamento e a imprensa francesa soube respeitar sua vida privada. Outros exageram nos gestos, resvalando, por conseguinte, pelo perigoso terreno da galhofa. Pierre Trudeau, então primeiro-ministro do Canadá, e pai do atual primeiro ministro, em recepção cerimoniosa, chegou a escorregar pelo corrimão de uma escada. Outra feita, ocupou lugar na Câmara dos Comuns envergando camisa polo, paletó esporte e sandálias. Vida privada III Thomas Jefferson, um dos homens mais admirados dos EUA, protagonizou um "escândalo" amoroso, o caso com uma de suas escravas, Sally Hemings, que fora a Paris cuidar da filha mais velha do presidente, na época com nove anos de idade. Já o político inglês John Profumo, que tinha o cargo equivalente ao de ministro da Guerra, um dos heróis do Dia D (desembarque aliado na Normandia durante a 2ª Guerra Mundial), foi protagonista de um grande escândalo: o envolvimento com a modelo Christine Keeler, no começo dos anos 60. Ouve-se, aqui e acolá, um zunzum envolvendo figuras de destaque na política. No Brasil Aqui em nossas bandas, os feitos amorosos de figuras públicas já não geram a comoção do passado. O carisma do governante ajuda a aplainar arestas. Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, vale recordar, foram presidentes namoradores, o que não lhes corroeu a fama. Falava-se de Jango como namorador. O general Médici usava um radinho para acompanhar os jogos de seu time, o Grêmio. Afinal, quais os limites da vida privada que devem ser preservados? Espírito do tempo A rejeição a comportamentos de governantes tem que ver com o espírito do tempo. A percepção sobre esses feitos já não gera tanta negatividade quanto no passado. Mas a comunidade política precisa tomar conhecimento da vida privada, até para poder fazer justa avaliação de sua conduta. Veja-se o caso de Tancredo Neves nas horas antes de tomar posse. A informação deu lugar a boataria. O prefeito Bruno Covas, de São Paulo, por sua vez, dá completa transparência ao tratamento do câncer a que se submete. Guardar o coração na cabeça Urge pontuar: uma coisa é o ato particular, que ocorre no sagrado espaço do lar ou no ambiente pessoal de trabalho, outra é o evento privado que se desenvolve em território público. E mesmo em locais privados a conduta do homem público há de ser condizente com os valores republicanos e com preceitos éticos e morais da sociedade. Quando altas autoridades de uma nação são flagradas em situações torpes, despencam no ranking da credibilidade social. Passam a ser motivo de vergonha e chacota. É bastante tênue, como se pode perceber, a linha divisória que separa o comportamento íntimo do ator político de sua vida pública. Na história dos governantes, alguns souberam tirar proveito (e fazer marketing) de situações privadas, principalmente por meio de gestos, atitudes e manifestações voltadas para conquistar a simpatia. Desvios de padrão são denunciados pelo caleidoscópio social. Quem se arrisca nos descaminhos afunda, inexoravelmente, no poço do descrédito. Se quiserem galgar os degraus mais altos do poder, vale apreender a lição de Kennedy: guardem o coração na cabeça.
quarta-feira, 14 de abril de 2021

Porandubas nº 712

Abro a coluna com este lindo poema enviado pelo amigo Antônio Imbassahy. De acordo com a agência Lupa, o texto é de autoria do poeta cubano Alexis Valdés, publicado originalmente em 21 de março deste ano, em sua conta pessoal no Instagram, sob o título de "Esperança" e também no site Periódico Cubano, em 28 de março. Esperança Quando a tempestade passar,as estradas se amansarem,E formos sobreviventesde um naufrágio coletivo,Com o coração chorosoe o destino abençoadoNós nos sentiremos bem-aventuradosSó por estarmos vivos. E nós daremos um abraço ao primeiro desconhecidoE elogiaremos a sorte de manter um amigo. E aí nós vamos lembrar tudo aquilo que perdemos e de uma vez aprenderemos tudo o que não aprendemos. Não teremos mais inveja pois todos sofreram.Não teremos mais o coração endurecidoSeremos todos mais compassivos. Valerá mais o que é de todos do que o que eu nunca consegui.Seremos mais generososE muito mais comprometidos Nós entenderemos o quão frágeis somos, e o quesignifica estarmos vivos!Vamos sentir empatia por quem está e por quem se foi. Sentiremos falta do velho que pedia esmola no mercado, que nós nunca soubemos o nome e sempre esteve ao nosso lado. E talvez o velho pobre fosse Deus disfarçado...Mas você nunca perguntou o nome delePorque estava com pressa... E tudo será milagre!E tudo será um legadoE a vida que ganhamos será respeitada! Quando a tempestade passarEu te peço Deus, com tristeza.Que você nos torne melhores.como você "nos" sonhou. Cenário brasileiro A banalidade do mal I O conceito de banalidade do mal foi analisado e aprofundado por Hannah Arendt no livro "Eichmann em Jerusalém", cujo julgamento histórico foi acompanhado pela filósofa por meio de artigos na revista The New Yorker. Ela defende a ideia de que, em virtude da massificação social, as massas são incapazes de fazer julgamentos morais, razão porque aceitam e cumprem ordens sem questionar. E assim, Adolf Eichmann, um dos responsáveis pela solução final, não é avaliado como monstro, mas como um funcionário zeloso que foi incapaz de resistir às ordens que recebeu.                          A banalidade do mal II Tomo emprestado de Arendt o clássico conceito que a tornou famosa. Por nossas plagas, o mal está tão banalizado que perdeu peso na balança da gravidade. Veja-se esse surrealista diálogo, gravado, entre um senador e o presidente da República. Bolsonaro é contundente: que se paute no Senado o impeachment de ministros do STF. E que acabará na "porrada" com um senador "bosta", o parlamentar que pediu a CPI da Covid-19, Randolfe Rodrigues, do Amapá. E por aí vai. Os Poderes vivem alto grau de tensão. Será difícil realizar uma CPI presencial no cume da pandemia. O mal: interferência do Executivo no Legislativo; interferência no Judiciário; falta de decoro; gravação (combinada ou não) de uma conversa com o presidente da República; linguagem desaforada. Dias sombrios. Pátria, ih, o que é isso? Os países são expressões geográficas e os Estados formas de equilíbrio político. A Pátria, porém, transcende esse conceito: é sincronismo de espíritos e corações, aspiração à grandeza, comunhão de esperanças, solidariedade sentimental de uma raça. Enquanto um país não é Pátria, seus habitantes não formam uma Nação. Este breve resumo, pinçado de um dos mais belos ensaios sobre a mediocridade, de autoria do escritor argentino José Ingenieros, serve como lição aos nossos governantes. Construir a Pátria para se alcançar o nível de grandeza no concerto das Nações deveria ser o farol a iluminar os nossos representantes e governantes. Para eles, Pátria é um naco patrimonialista que lhes pertence. Que partido? O presidente Jair Bolsonaro continua sem partido. O Aliança pelo Brasil, que estava sendo criado, morre no nascedouro. O capitão está de olho em uns e outros. A propósito, lembro uma historinha com o ex-vice-governador de São Paulo, Cláudio Lembo, que foi uma das alavancas do antigo PP. Em tempos idos, trabalhou para engordar o partido. Ligava para os prefeitos. "Fulano, já se inscreveu em algum partido?". "Não. Esperava as suas ordens". Lembo pede para ele entrar no PP. E lá vem a pergunta: "No PT do Lula?". Não estou ouvindo bem. O ex-vice-governador de São Paulo replica: "No PP". Matreiro, o amigo diz: "continuo a ouvir mal". O arremate é hilariante, segundo conta Sebastião Nery. "Vou soletrar alto e devagar: PP. P de partido e P de banco". O amigo prefeito entendeu ligeirinho a mensagem. Hora da virada? Impressão de que a virada nos rumos da política, tão esperada pela comunidade nacional após a eleição de Bolsonaro, não se deu. A cada dia, cresce o cordão dos desvalidos e zonzos com o estado da Nação. Muitos desistiram do sonho. Uma leva esperará por 2022. Os bolsonaristas acreditam que as coisas boas começaram a acontecer. Não é piada. É o que se ouve da boca dos radicais. Este analista de política prefere sentir o espírito aguerrido de Zaratustra, o profeta de Nietzsche, gritando no cume da montanha para fazer descer sua voz sobre a placidez dos vales: "Novos caminhos sigo, uma nova fala me empolga; cansei-me das velhas línguas. Não quer mais o meu espírito caminhar com solas gastas". Vida pregressa          O mais do mesmo. Essa é a impressão que se tem quando se tenta distinguir os avanços e inovações no cenário institucional. A crise da pandemia ocorre no pico de outra crise que se arrasta há décadas: a crise política. O que haverá de novidade pelas bordas de 2022, por exemplo? E a corrupção implicará novos perfis, mais assépticos e menos oportunistas? Ouvi um alto tribuno, que me passou essas ideias. Um candidato de vida pregressa, plena de desvios, deve ser inelegível. E exibe a força do argumento: os princípios constitucionais do direito coletivo, entre os quais o da soberania popular e a delegação para ser representado, devem sobrepor-se aos direitos individuais, como o princípio da não-culpabilidade. Não por acaso se inseriu na Carta de 88 (artigo 14, § 9º) uma cláusula com a finalidade de proteger a probidade administrativa e a moralidade para o exercício do mandato. Além disso, há referência explícita à vida pregressa do candidato. Aqui pra nós, tenho as minhas dúvidas. Credenda e miranda Para fechar a nota acima, uma lembrança. Há duas referências que ilustram o cenário da política: os "credenda", coisas a serem acreditadas, a partir do sistema legal; e os "miranda", coisas a serem admiradas, a partir dos símbolos. Daí a inescapável pergunta: o que há para crer na política brasileira e o que há para admirar? Abra os ouvidos: nada. As razões para tanto se abrigam em campos múltiplos, mas a origem dos males recentes é a continuidade de um alto PNBC - Produto Nacional Bruto da Corrupção. Recorde de mortos A cada dia, entre 20h30 e 21h40, aparece o refrão: Brasil atinge o recorde na média de mortos e na mortalidade em 24 horas de vítimas da Covid-19. E entre as cenas, algumas sobre aglomerações, desleixos, desvios na vacinação, malandragem na aplicação. A índole brasileira? Com a palavra, Roberto DaMatta. Crueldade Sobre essa índole, costumo pinçar velha historinha. Um dia um maometano se encontra com um canibal. "Sois muito cruéis, pois comeis os cativos que fazeis na guerra", disse o maometano. "E o que fazeis com os de vocês?", indagou o canibal. "Ah, nós os matamos, mas depois que estão mortos não os comemos". Montesquieu arremata a passagem contada no livro Meus Pensamentos: "Parece-me que não há povo que não tenha sua crueldade particular". Tomemos emprestada a observação do pensador que inspirou os principais fatos políticos do século 18 para dizer que os governos podem se assemelhar a um dos interlocutores. Execram heranças malditas e acabam fazendo as suas. Escapismo Quem gostava de explicar a psique de países em desenvolvimento era Roberto Campos. Esses países, segundo ele, apresentam dois traços característicos: a ambivalência e o escapismo. Ambivalência é querer equacionar o descontrole aéreo, por exemplo, sem controlar os controladores. E escapismo é argumentar que os confrontos frequentes nas metrópoles ocorrem porque o poder do crime é maior que o poder de um Estado, cuja leniência torna-se cada vez mais patente ante a escalada de violência que se abate sobre a sociedade. O espaçoso terreno público se apresenta todo esburacado. Fecho a coluna com uma pitada de humor. Adiantando os resultados Há historinhas que merecem um repeteco. O coronel Lucas Pinto, que comandava a UDN no Vale do Apodi/RN, não dormia em serviço. Quando o Tribunal Eleitoral exigiu que os títulos eleitorais fossem documentados com a foto do eleitor, mandou um fotógrafo "tirar a chapa" do seu rebanho, aliás, do seu eleitorado. Numa fazenda, um eleitor tirava o leite da vaca quando foi orientado a posar para a foto. Não teve dúvida: escolheu a vaca como companheira do flagrante. Mas o fotógrafo, por descuido, deixou-o fora. O coronel Lucas Pinto não teve dúvida. Ao entregar as fotos aos eleitores, deparando-se com a vaca, não perdeu tempo e ordenou ao eleitor: "prega a foto aí, vote assim mesmo, na próxima eleição nós arrumamos a situação". Noutra feita, o coronel levou as urnas de Apodi para o juiz, em Mossoró, quase 15 dias após as eleições. Tomou uma bronca. - Coronel, isso não se faz. As eleições ocorreram há 15 dias. - Pode deixar, seu juiz. Na próxima, vou trazer bem cedo. Não deu outra. Na eleição seguinte, três dias antes do pleito, o velho Lucas Pinto chegava com um comboio de burros carregando as urnas. Chegando ao cartório, surpreendeu o juiz: - Taqui, seu juiz, as urnas de Apodi. - Mas coronel, as eleições serão daqui a três dias. - Ah, seu juiz, não quero levar mais bronca. Tá tudo direitinho. Todos os eleitores votaram. Trouxe antes para não ter problema. Idos das décadas de 50/60. Não havia grandes empreiteiras financiando campanhas. A empreitada ficava mesmo a cargo dos coronéis.
quarta-feira, 7 de abril de 2021

Porandubas nº 711

Hoje, a coluna está muito pretensiosa. Tentará explicar o fenômeno Brasil. O motivo: a razão pela qual os brasileiros tentam se desviar do manual de combate à epidemia. Arrisco-me a desvendar esse mistério, ou melhor, essa índole. Faça uma leitura, mesmo por cima. Antes, porém, notinhas de abertura. Kit Covid-19 Bolsonaro insiste em defender a cloroquina. Hoje, foi a Chapecó, levando a tiracolo o ministro da Saúde, Queiroga. P.S. Chapecó está com 100% dos leitos hospitalares ocupados, segundo o Estadão. Os catarinenses usaram muito a cloroquina. SC é motivo de visitas constantes do presidente. Empresariado Bolsonaro participará, hoje à noite, de jantar na casa do empresário Washington Cinel, da área de segurança. Cerca de 20 empresários devem estar presentes. Sua Excelência faz esforço para atrair o empresariado, que se mostra desconfiado. Cinel recebe regularmente governantes e políticos e sua casa é uma espécie de consulado de articulação política. Nunes Marques O ministro Kassio Nunes Marques, recém-escolhido por Bolsonaro para integrar o STF, mostra-se a cada dia afinado com o bolsonarismo. A liberação de cultos e missas nesse momento da pandemia é um soco na cara da sociedade. O dízimo, o dízimo, o dízimo, gritam os pastores. Silas Malafaia e Edir Macedo agradecem. O voto de Gilmar, proibindo os eventos em liminar para julgar decretos do governo de São Paulo, jogou a questão em plenário. Lula seria vice? Ciro Gomes pede a Lula que seja mais humilde e aceite dar um passo atrás. E mostra o caso da Argentina, onde Christina Kirchner entrou como vice na chapa de Alberto Fernandez. Lula como vice? O PT no bastidor: nem a pau, Juvenal. 5 mil A continuar o país com medidas meia-boca para combater a pandemia, chegaremos em julho com o índice de cinco mil mortos por dia. Covas distante de Doria? Bruno Covas tenta estabelecer cronograma de vacinação diferente do esquema organizado pelo governador João Doria, em São Paulo. Prefeito e governador parecem estar de birra. Mas sempre voltam às boas. Análise do fenômeno Brasil Crise de liderança A crise política, que se arrasta há décadas no país, decorre de nossa precária institucionalização. Não temos instituições sólidas, fincadas com firmeza no território, eis que nosso sistema democrático vive altos e baixos, intermediando tempos de autoritarismo com tempos de liberdade. Que lideranças novas podemos contar cenário? Os que sobraram são extensões dos tempos do golpe de 64, com destaque para Luiz Inácio, ainda gozando algum prestígio junto às massas. Fernando Henrique é um schollar, José Serra é um perfil forjado nas lides universitárias. Ciro Gomes teve vida na antiga Arena, João Doria é protagonista da atualidade. A crise de liderança no país está por trás de nossas mazelas. Sísifo e o eterno retorno O Brasil se parece com Sísifo. Como é sabido, em decorrência dos pecados que cometeu, os deuses aplicaram em Sísifo, que foi rei em Corinto, um castigo para jamais ser esquecido: carregar uma imensa pedra sobre os ombros até o cume da montanha. Tarefa que jamais conseguiria completar. Prestes a cumprir a missão, a pedra resvala dos ombros e rola ao sopé da montanha. Exercício que Sísifo repetirá por toda a eternidade. O Brasil tem semelhança com a execrável figura. A metáfora aponta para as mazelas que herdamos do nosso berço civilizatório, condenando-nos ao eterno retorno. Quando achamos que a coisa vai dar certo, tudo vai por água abaixo, e temos de recomeçar o que foi construído com sacrifício. As coisas não dão certo Para melhor compreensão de nossa vivência nesses tempos da Covid-19, relembro a historinha que diz haver quatro tipos de sociedade no mundo. A primeira é a inglesa, a mais civilizada, onde tudo é permitido, salvo o que é proibido. A segunda é a alemã, sob rígidos controles, onde tudo é proibido, salvo o que é permitido. A terceira é a totalitária, pertinente às ditaduras, na qual tudo é proibido, mesmo o que é permitido. E, coroando a tipologia, a sociedade brasileira, onde tudo é permitido, mesmo o que é proibido. Como se explica o fato de o Brasil ser um país tão caricatura? Por quê, sob lockdown e mil recomendações sobre os cuidados que devemos ter, os jovens se juntam em festas de arromba no fim de semana? Nosso jeito de ser A explicação pode ser encontrada na composição do ethos nacional. A engenharia social brasileira, assentada sobre a miscigenação de raças (colonizadores portugueses, índios e negros), expressa heterogênea coleção de valores. Conservamos, porém, uma unidade étnica básica, apesar da confluência de variados matizes formadores, que poderiam, na visão de Darcy Ribeiro, resultar numa sociedade multiétnica, "dilacerada pela oposição de componentes diferenciados e imiscíveis". Complementa o nosso famoso antropólogo e ex-senador em seu livro "O Povo Brasileiro": "Mais que uma simples etnia, porém, o Brasil é uma etnia nacional, um Povo-Nação, assentado num território próprio e enquadrado dentro de um mesmo Estado para nele viver seu destino. Somos o contrário da Espanha, na Europa, ou da Guatemala, na América, por exemplo, que são sociedades multiétnicas regidas por Estados unitários". O homo brasiliensis A adjetivação para qualificar o homo brasiliensis é vasta e, frequentemente, dicotômica: cordial, alegre, trabalhador, preguiçoso, verdadeiro, desconfiado, improvisado. Afonso Celso, em "Porque me Ufano do meu País", divide as características psicológicas do brasileiro entre positivas e negativas, dentre elas a independência, a hospitalidade, a afeição à paz, caridade, acessibilidade, tolerância, falta de iniciativa, falta de decisão, falta de firmeza, pouco diligente. Gilberto Freyre, em "Casa Grande & Senzala", pontifica: "Considerada de modo geral, a formação brasileira tem sido, na verdade, um processo de equilíbrio de antagonismos. Antagonismos de economia e de cultura. A cultura europeia e a indígena. A europeia e a africana. A africana e a indígena. A economia agrária e a pastoril. A agrária e a mineira. O católico e o herege. O jesuíta e o fazendeiro. O bandeirante e o senhor de engenho. O paulista e o emboaba. O pernambucano e o mascate. O grande proprietário e o pária. O bacharel e o analfabeto. Mas predominando sobre todos os antagonismos, o mais geral e o mais profundo: o senhor e o escravo". O primeiro mito Três mitos formam o pano de fundo sobre o qual se teceu nosso tecido valorativo. Primeiro, o mito do Éden. Ao aportarem, os nossos colonizadores se depararam com a exuberância da natureza e seus habitantes, rudes e inocentes, índios sem vestes, uma paisagem deslumbrante, o jardim do paraíso, tão bem emoldurados por Sérgio Buarque de Holanda, no clássico Visão do Paraíso, ao mostrar a atmosfera mágica que as novas descobertas proporcionaram ao europeu: "o enlevo ante a vegetação sempre muito verde, o colorido, a variedade e estranheza da fauna, a bondade dos ares, a simplicidade e inocências das gentes", como, aliás, já escrevera Pero Vaz de Caminha. Sob essa primeira visão, a seara valorativa produziu seus primeiros frutos: o ócio, a indolência, a sensualidade, a voluptuosidade, a glutonaria, a improvisação, a festa, a dança, o eterno carnaval. O segundo mito O segundo mito abriga o Eldorado. As riquezas apareciam ao longo das descobertas do ouro e das pedras preciosas. Na esteira da exploração predatória, outro conjunto de valores tomou corpo: a cobiça, a ganância, a traição, a destruição da natureza, a ambição, a disputa, a guerra entre grupos, os conflitos. O terceiro mito O inferno verde é o terceiro mito. A cobiça levou os colonizadores ao interior profundo. A floresta despontava como ambiente inóspito, selvagem, agressivo. As doenças debilitaram corpos, fustigando as mentes. Claude Lévi-Strauss, em seu celebrado Tristes Trópicos, radiografava o Brasil como o lugar mais inabitável do planeta, onde seria impossível a um homem sobreviver. Na paisagem da conquista do interior do país, outro feixe de características aparece: a miséria, a desorganização, a improvisação, a sujeira, a marginalidade, o desleixo. A dubiedade Ao lado dos três mitos, outros conjuntos valorativos surgiam, frutos da miscigenação. Quem não conhece o perfil individualista e de grandeza do brasileiro? "Você sabe com quem está falando?". E a nossa propensão para a imprecisão, para a ausência de objetividade? "Quantas horas você trabalha por semana?". Eis a previsível resposta: "trabalho mais ou menos 40 horas". O mais ou menos é coisa muito nossa. O fingimento é outro traço. O político, ao cumprimentar o interlocutor, pisca para alguém que está ao lado. Quem não já se defrontou com a expressão catastrofista ou o complexo de grandeza, comuns em nossa interlocução diária? Somos os melhores e os piores do mundo em matéria disso e daquilo; temos os maiores potenciais, as maiores riquezas ou a mais degradante miséria. Não somos um povo do imediatismo. Mas treinados na arte da protelação. Traços de anarquia Cultivamos a semente da anarquia. Ou, como bem o diz Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil: "os elementos anárquicos sempre frutificaram aqui facilmente, com a cumplicidade ou a indolência displicente das instituições e costumes. As iniciativas, mesmo quando construtivas, foram continuamente no sentido de separar os homens, não de os unir". Gostamos de adiar atos e decisões. Apreciamos o apadrinhamento, o patrocínio dos favores, o ludismo. Somos o país do futebol. E um vulcão de explosões emotivas. Trocamos com facilidade o riso pelo choro. Na festa de arromba, costuma-se haver balbúrdia, briga. A árvore do patrimonialismo Para agravar, herdamos valores que plasmaram nosso caráter. A fonte inicial é o patrimonialismo, que alimenta o fisiologismo, mazela central do nosso sistema político, o qual remonta aos primórdios de nossa história. Diz-se, em tom de piada, que o primeiro índio a receber espelhos de Pedro Álvares Cabral, em 1500, na Bahia, emprestou o DNA às tribos políticas festejadas, hoje, com "pacotes mais substantivos" do Palácio do Planalto. Quem duvida que os presentinhos do início da colonização estejam na origem do troca-troca de hoje, apoios e benefícios, convênios entre Ministérios e organizações não governamentais? Capitanias Quando Dom João III dividiu o Brasil em 15 capitanias hereditárias, em 1534, semeava a cultura patrimonialista. Hoje, semente que se espalhou pelo território. A semente patrimonialista resultou na mistura entre o público e o privado, gerando os "ismos" (caciquismo, mandonismo, paternalismo, nepotismo, familismo, grupismo), que invadem a esfera política. Não há como deixar de registrar as profundas marcas deixadas pelo sistema de colonização do país, a partir do feudalismo indígena, gerado espontaneamente, segundo a expressão de Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder, pela conjunção das mesmas circunstâncias que produziram o europeu. "Feudalismo renascido na América, renovação da velha árvore multissecular portuguesa. O quadro teórico daria consistência, conteúdo e inteligência ao mundo nostálgico de colonos e senhores de engenho, opulentos, arbitrários, desdenhosos da burocracia com a palavra desafiadora à flor dos lábios, rodeados de vassalos prontos a obedecer-lhes ao grito de rebeldia. Senhores de terras e senhores de homens, altivos, independentes, atrevidos - redivivas imagens dos barões antigos". As tetas do Estado Sob essa "herança maldita", descortina-se a fonte de egocentrismo, que se impregna nas instâncias da Federação. Temas transcendentais, como reestruturação produtiva da economia, reestruturação do Estado, inovações tecnológicas, relações de trabalho, segurança pública, pobreza e desigualdade social e até programas sociais acabam contaminados por visões personalistas, corporativistas, circunstanciais e eleitoreiras. Vejam-se os programas assistencialistas, como Bolsa Família, Auxílio Emergencial etc. Vão se perpetuar. Aqui, o maná cai do céu. Milhões esperam mamar nas tetas do Estado. Estadania, a inversão da lógica de Marshall Analisemos nossa modelagem política. José Murilo de Carvalho observa que, entre nós, a cultura do Estado prevalece sobre a cultura da sociedade. Os direitos políticos apareceram antes dos direitos sociais, gerando uma sobrevalorização do Estado. Ou seja, houve uma inversão da lógica descrita por Thomas Marshall, em Cidadania, Classe Social e Status. As nações democráticas, a partir da Inglaterra, implantaram, primeiro, as liberdades civis, a seguir, os direitos políticos e, por último, os direitos sociais. Por aqui, o Poder Executivo, operando as ações públicas, aparece como a salvaguarda das 'benesses'. Direitos são vistos como concessões, e não como prerrogativas da sociedade, criando uma 'estadania' que sufoca a cidadania. Tudo depende do Estado. Um processo de tutela amortece o ânimo social, dificultando sua emancipação política. Não por acaso, critica-se a força avassaladora do nosso presidencialismo de cunho imperial. Centrão, centrinho e otras cositas Não a toa, o nosso presidencialismo de coalizão agasalha muito bem os grupamentos que se formam na área parlamentar. Centrão, com sua bocarra, abocanha nacos de poder. E há centrinhos, aqui e ali, pegando as sobras. Sem estes grupamentos, é difícil governar. Para uns, impossível. A governabilidade é, assim, uma biruta de aeroporto, que muda de posição conforme o vento. Pergunta Deu para entender alguma coisa sobre o homo brasiliensis? Um pouco de humor. 5 minutos de silêncio A onda de um minuto de silêncio faz parte da liturgia do poder. Surfam nessa onda políticos de todos os espectros. Vereador, então, usa a onda para capturar todos os votos da família do morto. Vejam este caso que ocorreu na Vila São José, bairro periférico de Macaíba/RN. O ex-vereador e candidato Moacir Gomes, ao usar a palavra, inicia a oração rogando aos assistentes do comício um minuto de silêncio pelo falecimento de um morador do bairro. Seu assessor e cabo eleitoral, ao lado, pensando no tamanho da família do falecido, sopra no ouvido de Moacir: - Um minuto é pouco. Peça cinco. Tem muito voto lá! (Historinha de Valério Mesquita, ótimo contador de causos)
quarta-feira, 31 de março de 2021

Porandubas nº 710

Coisas do Brasil Um sujeito comprou uma geladeira nova e para se livrar da velha, colocou-a em frente a casa com o aviso: "De graça. Se quiser, pode levar". A geladeira ficou três dias sem receber um olhar dos passantes. Ele chegou à conclusão: ninguém acredita na oferta. Parecia bom demais pra ser verdade. Mudou o aviso: "geladeira à venda por R$ 50,00". No dia seguinte, a geladeira foi roubada! (Historinha enviada por Álvaro Lopes) Azevedo abrindo tensões O ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, pediu o boné. Maneira de dizer que foi demitido. Surpresa. Não se esperava sua saída. Abrupta. Nota do Ministério: "Agradeço ao presidente da República, a quem dediquei total lealdade ao longo desses mais de dois anos, a oportunidade de ter servido ao País, como ministro de Estado da Defesa. Nesse período, preservei as Forças Armadas como instituição de Estado. O meu reconhecimento e gratidão aos Comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, e suas respectivas forças, que nunca mediram esforços para atender às necessidades e emergências da população brasileira". Ontem no fim da manhã, o Ministério da Defesa soltou uma nota dizendo que os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica serão substituídos. O comunicado dá a entender que a ordem veio de cima. Mas vale ainda a hipótese de terem pedido demissão. Os substitutos serão mais alinhados ao bolsonarismo? Vamos acompanhar sua trajetória. A mexida Mexer no Ministério nesse momento crítico que o país atravessa exige cautela, leitura adequada da moldura político-institucional, sensibilidade. E, sobretudo, consciência dos impactos da mexida em cada setor. No ambiente das Forças Armadas, a saída do general Fernando Azevedo e Silva do Ministério da Defesa, seguida da saída dos três comandantes das Forças, azedou o ambiente. E a eventual confirmação dos motivos abrirão pontos de tensão. Comenta-se que o ministro não teria demitido o comandante Edson Pujol, do Exército, pois não estaria fazendo uma gestão ao gosto do presidente Bolsonaro. Pujol sempre se manifestou contrário ao papel político das Forças. Centrão com força A escolha da deputada Flávia Arruda (PL-DF) para a área da articulação é um gol do Centrão. Emplaca mais um dos seus quadros. A deputada é casada com o ex-governador do DF, José Roberto Arruda. Vai ser questionada. Mas tem a proteção de Arthur Lira, presidente da Câmara. André Mendonça desce de posto, deixando o Ministério da Justiça para a Advocacia-Geral da União, de onde saiu. Mas poderá subir mais adiante, chegando ao Supremo. Anderson Flores, da PF, ascende ao Ministério da Justiça. Teria o apoio da "bancada da bala". O general Braga Neto, na Defesa, seria uma forma de harmonizar o ambiente conturbado. E a entrega da Casa Civil ao seu colega de turma na AMAN, general Luiz Eduardo Ramos, Bolsonaro tenta deixar no entorno gente de confiança. Mas a marca dessa mexida sinaliza para as bases. O presidente Jair dá guarida ao seu clamor. Esse ministério estará no olho do furacão quando a campanha pré-eleitoral se iniciar. Ernesto e sua ideologia A saída do ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro significa um baque da ideologia de extrema direita que tenta fincar estacas no país e que tem no então chanceler um de seus pilares. Ernesto Araújo fechou fronteiras do multilateralismo, desdenhou das vacinas, isolou o Brasil da modelagem diplomática internacional e, como fecho de sua desastrada atuação no MRE, brigou com a área política. Sua saída era previsível a partir dos recados dados pelos presidentes da Câmara e do Senado. Há dias cerca de 300 diplomatas, em carta, pediam sua demissão. A tarefa do novo chanceler, mesmo que seja identificado com o bolsonarismo, será a de recompor as pontes destruídas no campo das relações internacionais. O novo chanceler, embaixador Carlos Alberto França, é comedido. Saúde O novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, tem reuniões diárias com entidades e políticos. Muitas falas e pouca ação. Deveria, sim, estar na linha de frente, em hospitais, nas UPAs, vendo a tragédia que se espraia. De fora Triste notícia: o Brasil fica de fora de pacto internacional contra a epidemia. Sem rumo O governo Bolsonaro parece um dândi na escuridão. Procura um rumo. Guedes defronta-se com a questão do orçamento, inflação que sobe, perda de quadros. Auxílio emergencial abaixo das expectativas. Mesmo assim, mostra ainda certa esperança. Mas está angustiado com a situação. Pandemia no pico. Clamor da população sobe o tom. Bolsonaro preocupado com o Congresso. Perdeu a narrativa na frente da pandemia. Nomeou um Comitê, do qual não é o coordenador. A nau parece sem rumo. À procura de uma bússola. O jogo vai começar Os jogadores ainda estão no campo de treinamento. E os times começam a providenciar chuteiras e novos uniformes. Alguns começam a treinar imaginando que serão selecionados pelo técnico para compor o time. Outros já sabem que estarão no banco de reserva. E ainda um grupo de jogadores já sabe que só entrarão no jogo de final de campeonato se houver contusão de parceiros. O jogo é o campeonato eleitoral brasileiro, cujo final será disputado em outubro de 2022. Analisemos o panorama. Calendário I O jogo eleitoral tem um calendário, que nem a crise sanitária tem força para mudar, eis que tem data fixa para terminar. Sabemos que, por aqui, o processo eleitoral é ininterrupto. Termina um pleito e, no dia seguinte, começa outro. Esse fenômeno acaba deixando o país amarrado no tronco do patrimonialismo, pois os protagonistas só pensam em chegar ao poder central, desprezando agendas prioritárias e fechando os olhos para as grandes carências sociais. Calendário II Por isso, pode-se aduzir que estamos no estágio de pré-campanha, quando os nomes aparecem, alguns como balão de ensaio, para se conferir sua receptividade na opinião pública. As primeiras articulações se iniciam, prevendo-se interlocução que vai se fechando ao correr do ano até se compor a moldura com os mais prováveis jogadores. No final do ano, o corpo político, sondando suas bases, firma suas ideias, confirma ou desfaz impressões, compromete-se com alianças, enfim, junta os elementos para finalizar, até abril/maio de 2022, sua visão. A campanha terá início nesse tempo. Lula Este analista tem caminhado na direção oposta ao de vários comentaristas de política. Por exemplo, minha leitura sobre Lula é esta: só será candidato se houver uma forte e insuperável mobilização social. Articulações, alianças e compromissos, novas Cartas aos Brasileiros e outras ferramentas do arsenal da política não serão suficientes para tornar Lula candidato. Há um conjunto de fatores que ancoram esta hipótese, a saber: o espírito do tempo; a sombra do passado; a mesmice expressiva; a divisão do país. O espírito do tempo Cada ciclo tem sua identidade. Os fatos do presente podem até ter semelhança com o passado, mas o espírito do tempo respira os ares do hoje. O espírito do tempo, que acolheu Lula no passado, compunha-se de um conjunto de circunstâncias que empurravam o poder para seu colo. Depois de Lula e de Dilma, 13 anos, o país entrou em uma nova rota. Ares renovados, escândalos vindos à tona, vísceras expostas de líderes e partidos, versões dando lugar à verdade. Ninguém atravessa um rio duas vezes no mesmo lugar. Sombra do passado O passado tem duas facetas: a de saudades, dos entes queridos que se foram, do bucolismo e do atavismo que nos levam às pracinhas de nossa infância, do cheiro de terra molhada pela chuva, das brincadeiras e das músicas que nos embalavam. O passado que não volta mais. Mas há outra faceta: o tempo das coisas nefastas, dos grandes escândalos, da corrupção perversa, dos crimes, das traições e emboscadas, enfim, da maldade instalada nos espaços do nosso território. Esse passado é repelido. "Sai pra lá, peste". Pois bem, esse passado abriga os protagonistas que participaram dos acontecimentos. Não serão assépticos, limpos, em pouco espaço de tempo. O perfil de Lula estará sob a sombra do passado. Aristóteles pontuava: "pode-se considerar o caráter de uma pessoa como o mais eficiente meio de persuasão de que se dispõe". Mesmice expressiva O nosso sistema cognitivo é dotado de alavancas para aceitar ou rejeitar o discurso. Clyde Miller designa-as de alavancas psíquicas. A primeira é a adesão, fazendo que as pessoas aceitem ideias, por associá-las a coisas consideradas. Democracia, pátria, cidadania, liberdade, justiça estão nesta lista. Estamos falando de conceitos considerados positivos e bons. A segunda é a alavanca da rejeição, o contraponto, que procura convencer a massa a rejeitar pessoas, coisas, associando-as a símbolos negativos, como guerra, morte, fome, imoralidade, corrupção. A terceira é a autoridade, que traduz valores da experiência, conhecimento, sabedoria, domínio. Deus é a síntese desse escopo. Outros exemplos: Gandhi, Jânio Quadros. Por último, a alavanca da conformização, cujo apelo se volta para a solidariedade, a união, a irmandade. "A união faz a força". Procurem, agora, associar a voz rouca de Lula em palanque com algo. Identifica-se mais com aspectos positivos ou negativos? A divisão do país Lula é sempre lembrado pela divisão do país em duas bandas: nós e eles, mocinhos e bandidos. Essa imagem é muito ruim. Destrói a alavanca da unidade, da solidariedade, da harmonia social. E estamos vivenciando um momento em que o lema deve ser suprapartidário, acima das ideologias. Será muito difícil ao PT eliminar os vestígios dos tempos em que pregava "a luta contra a zelite". A favor de Lula Há um argumento que as margens podem correr na direção de Lula. Trata-se da hipótese que, há tempos, é inafastável de meus comentários: a equação BO+BA+CO+CA. Ou seja, o uso de instintos em campanhas eleitorais: combativo, nutritivo, sexual e paternal. Destaco o instinto nutritivo. Minha hipótese para explicar o processo de decisão de voto parte do cinturão econômico, ciclicamente usado por governos para afrouxar ou apertar a barriga do eleitor. O xis da questão resume-se na equação: bolso (BO) cheio enche a geladeira, satisfaz a barriga (BA), emociona o coração (CO) e induz a cabeça (CA) dos bem alimentados a recompensar os patrocinadores do pão sobre a mesa. E o troco, a recompensa? O voto na urna. A recíproca é verdadeira. Bolso vazio é reviravolta eleitoral. As massas podem fazer associação com Lula abrindo os dutos do consumo. Mesmo assim, este analista não crê em sua candidatura. Fecho a coluna com mais um pouco de humor. Idôneo, o comandante Em certa cidade fluminense, o chefe local era um monumento de ignorância. A política era feita de batalhas diárias. Um dia, o chefe político recebeu um telegrama de Feliciano Sodré, que presidia o Estado: - Conforme seu pedido, segue força comandada por oficial idôneo. O coronelão relaxou e gritou para a galera que o ouvia: - Agora, sim, quero ver a oposição não pagar imposto: a força que eu pedi vem aí. E quem vem com ela é o comandante Idôneo. (Historinha contada por Leonardo Mota, em seu livro Sertão Alegre)
quarta-feira, 24 de março de 2021

Porandubas nº 709

Abro a coluna com "causos" do Pará. Um pouco de humor para adoçar nossa amargura nesses tempos turbulentos. E as crianças? O Pará já teve políticos muito engraçados. Um deles, João Botelho, foi interventor, deputado e constituinte. Certo dia encontra um cabo eleitoral: - Como vai? E a senhora sua esposa? E as crianças? - Tudo bem, deputado. Minha mulher está ótima. Mas, por enquanto, é só um menino, certo? - E eu não sei que é um filho só? Mas é um menino que vale por muitos. Então, como vão os meninos? Outra figura folclórica do Pará foi Magalhães Barata, revolucionário em 1924 e 1930, interventor, constituinte em 46, senador e governador. Tinha ele um candidato a prefeito de Santarém. Mas o diretório local do PSD queria outro. Ia perder. Foi lá, conversou, pediu votos. Não teve jeito. Perdeu a eleição no diretório: 15 a 5. Pegou o microfone: - Meus senhores, pela primeira vez a minoria vai ganhar. Está escolhido o candidato que perdeu. A plateia bateu palmas. O velho Barata encerrou os trabalhos: - E, pela primeira vez, a minoria ganhou por unanimidade. Sinais de distância Tudo de acordo com o esperado. O Centrão começa a dar mostras que não é um bloco tão firme como alguns imaginam. É como um iceberg imenso descolando de uma geleira. Afasta-se suavemente do lugar e, ao sabor de ventos e vendavais, procura um lugar no oceano, agarrando-se a outros imensos pedaços de gelo. O Centrão não está muito contente com o governo Bolsonaro. O presidente da Câmara não conseguiu que sua indicada, dra. Ludhmila Hajjar, fosse escolhida para o Ministério da Saúde. A pandemia avoluma caixões nos cemitérios todos os dias. Cerca de três mil mortos por dia. Lula dá sinais de que ambiciona voltar ao Palácio do Planalto. E o Centrão passa a peneira em todos esses eventos. Para complicar, aparece Lula com seu discurso moderado, uma nova modalidade de Carta aos Brasileiros, expediente usado em tempos passados, quando cooptou o empresariado. E as fatias de poder? Alguém poderá objetar: e as fatias de poder já entregues aos partidos que compõem o Centrão? E as conversas intermitentes que o líder do Centrão, senador Ciro Nogueira, mantêm com o presidente Bolsonaro? Mas outros começam a raciocinar: que adianta acumular poder hoje se amanhã tudo poderá virar pó? O Centrão olha à direita, à esquerda, e avalia o espaço que ocupa. Seguirá em 2022 a onda do vento, a dinâmica da política. Vê, por exemplo, que o presidente cede pouco aos apelos para amainar o discurso radical e tomar decisões mais duras para dominar o diabo que poderá matar 500 mil brasileiros em curto espaço de tempo. O Centrão não é suicida. Pragmático, será parceiro do protagonista que melhores condições reúna para chegar ao pódio em 2022. Guedes mais fraco Paulo Guedes, comandante da economia, vê seus quadros voltando ao mercado: mais de 15. E essa debandada significa frustração de economistas de proa, insatisfeitos com o andamento da carruagem, decepcionados com o fato de que é difícil ganhar batalhas na arena de um governo que parece tatear na escuridão. Some-se a tudo isso o fato de que o tom do governo mostra desafinamento com os toques da banda de música das faixas sociais, à espera de avanços. As margens aguardam o auxílio emergencial. E haverá muita grita quando perceberem que seus bolsos continuarão vazios, mesmo com as parcelas do adjutório. Articulação capenga É evidente o esforço do ministro da Articulação, general Luiz Eduardo Ramos, para limpar os entulhos do caminho entre as Casas Congressuais e o Palácio do Planalto. A articulação é frágil por se saber que o presidente é de veneta: compromissos são desfeitos, a palavra que vale é a dele, não se subordina às pressões. "Vamos que vamos". Parece ser o refrão governamental, o que dá a entender um estilo improvisado de governar, empurrar de barriga, tampar buracos aqui e ali, sem saber quais os buracos rasos e fundos. Os basistas (que integram as bases do governo) desconfiam do prometido. Ou confiam com um pé atrás. Desaparecidos Há ministérios de peso, como o da Educação. Como é mesmo o nome do ministro da Educação? Um picolé de assaí para quem souber. O ministro do Meio Ambiente, por onde anda? O teor polêmico que saía das trombetas de alguns ministros arrefeceu. E se concentrou no protagonista que habita o 3º andar do Palácio do Planalto. Terceira via As pesquisas deixam ver um amplo espaço para uma terceira via, um candidato que possa quebrar a polarização entre os protagonistas das margens. Quem, quem, quem? Os atuais que poderiam disputar o lugar da terceira via criaram muitas arestas. Trajano A empresária Luiza Trajano, do conglomerado Magazine Luiza, tem mais vocação para estilingue que vidraça. Este analista teve oportunidade de conhecer Luiza em eventos empresariais. Tem a língua bem afiada. Sabe ir ao ponto, o centro da questão. Grande líder. Tirocínio. Não lhe convém entrar na liça de baixarias, truques e emboscadas. Por isso, é crível quando ela arreda a hipótese de compor chapas presidenciais. Seria um trunfo: mulher, bem-sucedida e articulada. Ciro Ciro Gomes é uma metralhadora ambulante. Atira bem. Mas seu estilo amedronta. Pode ser um nome a crescer nas margens esquerda e direita do centro. Vacinação As vacinas chegam a conta-gotas. Virão, não no ritmo que se espera. Mas milhares de brasileiros ainda morrerão por conta de um cronograma capenga. O pior De Jamil Chade, no UOL: "Na pior semana da pandemia no Brasil e sem um cenário de queda no número de novos casos, o país somou 25% das mortes no mundo no período entre 15 e 21 de março. Dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) apontam que, no total, 60,2 mil pessoas foram vítimas da Covid-19 no planeta nesse período -15,6 mil delas apenas no Brasil, país que representa apenas 2,7% da população mundial". Brasil invade EUA Desculpe se você se assustou. A variante brasileira da Covid-19 chegou aos EUA sem avisar. Uma invasão não detectada. Desembarcou em Nova Iorque. O caso foi identificado por cientistas do Hospital Mount Sinai, Nova York, e verificado pelo Departamento de Saúde do Wadsworth Center Laboratory. P.S: invasão brasileira nos EUA? Jamais. Só mesmo por meio de doenças. Efeitos Resultados projetados para os próximos tempos. 1. Queda no número de mortos e contaminados 2. Tombo nas atividades econômicas 3. Frustração das margens com o auxílio emergencial, pois será bem menor e não dará para pagar nem um terço da cesta básica. Entre R$ 150 e R$ 375 - durante quatro meses; no ano passado, foram pagas cinco parcelas de R$ 600 e quatro de R$ 300. 4. 48 milhões de pessoas serão atendidas pelo auxílio emergencial, contra 68 milhões no ano passado 5. Crescimento do PIB de 3,2%. Renda básica e vacinas O Movimento Convergência, que agrega importantes figuras da área econômica, lança ofensiva junto aos Poderes Executivo e Legislativo para viabilizar um programa de renda básica. Os recursos viriam das privatizações e da reforma administrativa, considerada central para reduzir gastos com recursos humanos do Estado. Outro Movimento, reunindo banqueiros e economistas, faz uma Carta Aberta aos Poderes da República cobrando a adoção de medidas efetivas contra a Covid-19. As lideranças parecem despertar da letargia. Estão apavoradas. A carta dos economistas foi rechaçada pelo presidente. PT e PSDB Minha querida mãe sempre me dizia: "nunca diga - desta água não beberei". Aprendi o ditado e não me surpreendo com a gangorra da política. Para derrotar Bolsonaro, o PT abre diálogo com o PSDB. Sabemos que, nos últimos tempos, tucanos de alta plumagem fizeram intenso bombardeio sobre Lula e o petismo. Se há certa trégua, hoje, é porque as oposições, dispersas, perceberam que o todo é maior que as partes. A conferir o que ocorrerá na temporada de emboscadas que vai se estender até outubro de 2022. Visibilidade O governador do Rio Grande do Sul é destaque entre tucanos. Ganhou boa visibilidade com o recrudescimento da pandemia no Estado. Expressa uma linguagem de bom senso. João Doria continua no marco da visibilidade como "o senhor da vacina brasileira". O governo Federal teve de engolir a realidade da imunização liderada pela vacina Coronavac/Butantã. 10 dias de lazer? Essa decisão de governantes de juntar os feriados e formar um calendário com 10 dias de folga é considerada uma estratégia para diminuir a circulação de pessoas, evitando aglomerações. O RJ determinou que vai adotar um feriado de dez dias a partir da próxima sexta, 26. Os prefeitos do Rio e de Niterói endurecem medidas. Em São Paulo, o prefeito Bruno Covas faz o mesmo. Será que vai funcionar? E o ethos do homus brasiliensis, voltado para a farra e a quebra da ordem? Cena Hospitais do DF têm corpos armazenados no chão e fila de 400 pessoas esperando leitos de UTI. O Sistema de saúde no Distrito Federal vive situação de calamidade pública. Outros Estados também registram o colapso. Lei de Segurança A Lei de Segurança Nacional está defasada. Vem lá de trás. Não condiz com a contemporaneidade. Merece passar pelos filtros dos direitos e deveres. Uma adaptação à realidade fará bem. Alerta ao Brasil A pandemia do novo coronavírus somada a uma grave crise institucional fez com que indicadores da Turquia entrassem em pane, alertando para os riscos que grandes interferências podem ter na saúde econômica. A interferência do presidente brasileiro na Petrobras e no BB também deixa os agentes do tal "mercado" com a pulga atrás da orelha.
quarta-feira, 17 de março de 2021

Porandubas nº 708

Como os leitores sabem, abro a coluna com uma historinha engraçada e pitoresca, antes de fazer a leitura da política, do clima social e das circunstâncias. Um aperitivo. Vi, segunda-feira, a entrevista do então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que tinha ao lado o assessor Airton Soligo, mais conhecido como Cascavel. Paranaense de Capanema/PR, em 1985 estabeleceu-se em Roraima, em virtude da expansão das linhas de ônibus da empresa paranaense União Cascavel de Transporte e Turismo (Eucatur), na qual trabalhava como assessor da direção. Conheci Cascavel em Boa Vista/Roraima, onde coordenei o marketing de quatro campanhas eleitorais. Cascavel foi eleito vice-governado na chapa de Neudo Campos. Foi também prefeito de Mucajaí e presidiu a Assembleia Legislativa. Agora, a historinha relembrada por um jornalista amigo. Povo de Roraima Comício no bairro popular, zona do meretrício. Chegara a vez de Cascavel dar seu recado. - Povo de 13 de setembro. Olhou para o lado, olhou para o outro, encarou a multidão e tascou: - Meu povo de 13 de setembro. - Heróis de 13 de setembro. Não satisfeito, continuou: - Meu povão de 13 de setembro. Parou. Faltava verbo. Na fila da frente do palanque, um bebum gritou: - Desembucha, Cascavel. Que danado de cobra você é. Foi você que pegou minha 86? Cascavel não perdeu a deixa: -Tá aí esse filho de uma égua que prova o próprio veneno. Vá se lascar, desgraçado. O fato é que a cachaça 86 era considerada a pior cachaça do mundo. Hoje, Cascavel é um próspero empresário do norte do país. Assessorava o então ministro Pazuello, a quem ajudou na tarefa de administrar a imigração de venezuelanos em RR. É simpático e tem veia política. A vida política A vida de um governo é uma gangorra. Vai ao alto e desce. Chega ao pico da montanha e ao fundo do poço. Lá e cá. Os ciclos obedecem ao espírito do tempo. Em início de gestão, os governantes estão no alto. Vivem a ressaca da vitória, as placas tectônicas da política vão se acomodando com a composição de ministérios e autarquias, o cobertor social é estendido para acolher as margens sociais e a locomotiva do governo - a economia - ajusta seus eixos. Noutra simbologia, podemos dizer que o carro dá partida. Ou, ainda, é a fase do lançamento do governo, quando todos os olhos se voltam para o protagonista principal do jogo. As visões se clareando Geraldo Vandré compôs Disparada, sua mais famosa música, que diz: "E nos sonhos que fui sonhando, as visões se clareando, as visões se clareando, até que um dia acordei". Pois bem, ao completar um ano de administração, as visões começam a se clarear. E o eleitor a acordar. O carro está na segunda marcha, esperando a terceira, mas já dá para perceber como o motorista dirige, seu jeito, a maneira como pega a direção e avança na estrada. Percebe-se a identidade do governo. Identidade significa a coluna vertebral, o estilo, a substância governativa - programas, ações, fraseado, como se comporta ante elogios e críticas. É a etapa de crescimento. A terceira marcha O carro roda e ronca, pedindo mais velocidade. Terceira marcha, que permite saber a real performance do automóvel. Bom de subida, estável em descida e em curvas, respondendo bem ao que dele se espera. Essa fase abre oportunidade para que os consumidores, conhecendo as condições do carro, possam ou não comprá-lo ou recomendá-lo a um amigo. O carro ganha a chance de ser bem ou mal avaliado. Estamos no ciclo da maturidade. A opinião pública forma a imagem do governo, a percepção cognitiva do eleitorado. Imagem, portanto, é projeção da identidade, desenvolvida pela bateria de comunicação. O clímax A última fase é a do clímax, quando o carro, em quarta ou quinta marcha (se tiver), chega ao ápice da montanha, demonstrando todo o seu potencial e avançando terreno de maneira rápida e segura. Paremos, aqui, e puxemos essas fases para o governo Bolsonaro. O lançamento O governo saiu-se bem no lançamento, na esteira de amplo apoio social, depois de vencer uma guerra contra o PT, seu adversário, e em atendimento a uma poderosa visão crítica da sociedade, saturada com o lema "nós e eles". Esse fraseado foi martelado durante muito tempo, em clara divisão do Brasil em duas alas, a dos mocinhos e a dos bandidos. Ante os estrondosos escândalos que arrebentaram com a imagem do petismo-lulismo e que desbocaram na operação Lava Jato, o "nós e eles" perdeu sentido, até porque as tão combatidas elites, execradas por Lula e o PT, acabaram inseridas nos dutos da corrupção. Juntas com o PT. O crescimento O governo Bolsonaro, eleito com o apoio de milhões de brasileiros, de todas as classes, prometia renovação da política. Não fez e não faz isso. A decepção passou a forjar o espírito nacional. O presidente, confiante no antipetismo que se alastrou pelo território, passou a fazer um governo com as mesmas ferramentas que lapidaram os governos petistas, instalando um "eles e nós", eles, os bandidos, nós, os mocinhos. E passou a jogar no prato de suas bases simpatizantes o caldo apimentado de ódio, da vingança e da ferocidade. A identidade - conservadora nos costumes, dúbia no liberalismo, franciscana na política ("é dando que se recebe") - plasmou uma imagem desgastada, tosca, plena de versões e desmentidos. A pandemia Para coroar esse leque de situações desencontradas, apareceu a Covid-19, com seu poder mortífero, porém, desacreditada pelo presidente e seus ministros, abrindo a maior crise sanitária vivida pelo país em toda a sua história. A má gestão do governo na pandemia disparou gigantesca teia de críticas, deixando perplexa a comunidade internacional. A indecisão e a má vontade para a aquisição de vacinas se mostraram por meio de uma embalagem ideológica, como se vacina tivesse ideologia, religião, cor. O país está doente, sai mais um ministro da Saúde, a vacinação é lenta e o governo, mesmo a contragosto, teve de encarar a realidade, topando comprar vacinas antes rejeitadas e a apertar, repito, mesmo a contragosto, as mãos da ciência. Mudança de ministro sem mudança de comportamento de Bolsonaro é o mesmo que trocar seis por meia dúzia. E agora, José? Estamos, ainda, na fase três. A quarta marcha só será usada em 2022. Temos, agora, uma triste paisagem dos corpos político, econômico e social. Na política, fez-se um arranjo com o Centrão. Na economia, as interrogações aumentam: o bolso do consumidor continuará a esvaziar? A inflação sobe. Os preços dos alimentos, idem. Paulo Guedes engole sapos. O programa de privatizações emperra. Brasil é visto com desconfiança pelo mercado internacional. O pacote social será apertado ou suficiente? E agora, José? O Produto Nacional Bruto da Felicidade baixa, continuará na mesma ou sobe? Saúde O Ministério da Saúde é o calcanhar-de-Aquiles do governo. O general da área de logística que sai não mostrou competência para gerir a bagunça que toma conta da saúde no país. O general deveria ter pedido o boné bem antes. O que dizem seus companheiros? A médica Ludhmila Abrahão Hajjar, convidada, declinou do convite. Foi ameaçada de morte. Um grupo de ódio teria ameaçado, até, invadir o hotel onde se hospedou em Brasília. Milícias? De onde vêm ameaças desse tipo? Ao que se infere, o novo ministro Marcelo Queiroga, respeitado, já deu o aviso: governo define a política e Ministério da Saúde executa. Péssimo começo. A lógica recomenda que a Pasta especializada em saúde deve definir a política sobre saúde. Alternativa Os governadores e os líderes do Congresso podem avocar a gestão do combate à epidemia e constituir um grupo de comando. Chegou-se ao limite. Sob essa tempestade, aparece Lula como a bonança. Após seus processos terem sido anulados na vara de Curitiba pelo ministro Edson Fachin fez um grande discurso moderado e se posicionando como a virtude para esses tempos nebulosos. Lula prega uma frente ampla. Na visão deste analista, não será candidato, mas protagonista de proa na batalha eleitoral de 2022. Mais fogo A quebra de sigilos bancário e fiscal de pessoas e empresas ligadas ao senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) revela indícios de que o esquema da rachadinha também ocorria nos gabinetes do pai, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), quando este era deputado Federal, e do irmão, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ). A Ordem no Planalto é tratar rachadinhas como assunto "de fora do governo. O tema continua na mídia. O custo da descontinuidade Fecho a coluna com um alerta sobre o custo da descontinuidade administrativa. No Brasil, o custo atinge bilhões e bilhões de reais. Os sucessores na administração pública costumam apagar as ideias, mesmo ótimos programas, de seus antecessores. Dou um exemplo: o caso da EMPARN, dirigida no início dos anos 80 pelo prof. Benedito Vasconcelos Mendes. Ali, ele fez extraordinário trabalho de inovação da pesquisa agropecuária no Nordeste. Hoje, o professor Benedito dirige o Museu do Sertão, empreendimento exemplar, em Mossoró/RN. Importação de animais Na época, criou o Projeto de Introdução de Animais de Desertos, financiado pela FINEP e EMBRAPA e, na época, o mais arrojado para a ser implantado nos Estados nordestinos. Era proibido importar animais da África em razão de uma endemia, a doença do sono, transmitida pela mosca tsé-tsé. Daí ter se decidido pela compra junto a criadores americanos. O mestre conta: "tivemos de pagar ao Departamento de Agricultura Americano para fazer a quarentena e todas as imunizações necessárias para evitar introduzir novas doenças no Brasil. Foram 60 dias de quarentena nos Estados Unidos. Os 12 Elandes (10 fêmeas e 2 machos) e os 12 Órix-de-cimitarra vieram em avião fretado de Dallas para o aeroporto de Natal. Eu mesmo fui escolher os animais nos EUA, mas toda a transação comercial foi feita pela EMBRAPA". Adaptação Os animais foram introduzidos para pesquisa de adaptação, para saber se eles iriam se adaptar as condições edafoclimáticas do semiárido nordestino. Mas as pesquisas foram interrompidas depois que o professor deixou de dirigir a empresa. Tudo foi por água abaixo. Um desmonte. Inveja, despeito, apagar o sucesso da administração. Ora, seria muito útil ao semiárido se soubéssemos como estes animais se comportam nas condições do Nordeste. Curiosidades: o elande consome ramas espinhentas (como a rama da jurema), característica que lhe garantiria sobrevivência por ocasião das secas. Benedito arremata: "a jurema não é caducifólia e sim perenifólia, ou seja, não perde as folhas no segundo semestre do ano, nem durante as secas. Um copo de leite de elande seria suficiente para manter uma criança no que diz respeito à proteína e gordura".
quarta-feira, 10 de março de 2021

Porandubas nº 707

A coluna de hoje é dividida em duas partes. A primeira traz uma abordagem sobre os eventuais protagonistas que sonham com 2022. A segunda apresenta resumida visão histórica sobre as mulheres que, dia 8, segunda-feira, receberam homenagem pelo Dia Internacional da Mulher. Abro com uma fábula de Esopo. O jumento e o sal Um jumento carregado de sal atravessava um rio. A certa altura escorregou e caiu na água. Então o sal derreteu-se e o jumento, levantando-se mais leve, ficou encantado com o acontecido. Tempos depois, chegando à beira de um rio com um carregamento de esponjas, o jumento pensou que, se ele se deixasse cair outra vez, logo se levantaria mais ligeiro; por isso resvalou de propósito e caiu dentro do rio. Todavia ocorreu que, tendo-se as esponjas embebidas de água, ele não pôde levantar-se, e morreu afogado ali mesmo. Assim também certos indivíduos não percebem que, por causa das suas próprias astúcias, eles mesmos se precipitam na infelicidade. (Esopo) Parte I Os nomes Nos últimos tempos tem se avolumado o espaço de análise e especulação em torno dos nomes imaginados por uns e por outros para entrar na arena eleitoral de 2022. São estes os mais nomeados: Ciro Gomes, Fernando Haddad, Lula, Flávio Dino, Guilherme Boulos, Eduardo Leite, Jair Bolsonaro, João Amoedo, João Doria, Luciano Huck, Luiz Henrique Mandetta, Marina Silva e Sergio Moro.Tracemos algumas linhas sobre cada um. Ciro Pelo PDT, o candidato mais provável será o do ex-governador e ex-ministro Ciro Gomes. Luta para ocupar o espaço de centro-esquerda, atraindo o centro e suas margens. Tem dito que fará tudo para bloquear o PT e essa promessa cai bem nas almas ponderadas. Ciro conhece o país e é bom de debate. Tem visão de economista e sociólogo. Precisa resgatar a confiança perdida junto a alguns setores por conta de sua linguagem exacerbada. Seu desafio: conseguir ser o candidato de uma frente. Haddad Mesmo considerado marxista, não tem a marca radical que, ao longo do tempo, se fixou na imagem de petistas, aos quais se atribui o lema: "nós e eles", nós, os mocinhos, eles, os bandidos. Não é radical e a imagem jovial conota um PT mais moderno, não com cara de ranço ou de lobo. Poderá ser o nome do PT, caso Lula desista ou seja instado a desistir em função de processos na Justiça. O problema é a imagem do PT, hoje estigmatizada. Lula I Uma bomba com impactos. Lula acaba de ver anuladas as condenações sobre suas costas, feitas pela 13ª vara Federal de Curitiba. O ministro Edson Fachin, relator do processo, acolhe habeas corpus impetrado pela defesa de Lula em novembro do ano passado. Na verdade, Fachin não entrou no mérito, apenas decidiu que processos contra Lula, em Curitiba, fogem à alçada da 13ª vara Federal de Curitiba, eis que não estão relacionados à Petrobras, objeto central da Lava Jato. Lembrando: casos do Guarujá, sítio de Atibaia e terreno para o Instituto Lula. A decisão do ministro deverá ser referendada pelo plenário do STF. Os casos irão para o Juizado de 1ª instância em Brasília. Há possibilidade de prescrição. Na verdade, teria sido um golpe de mestre de Fachin, que sempre defendeu a operação Lava Jato e, com sua decisão, a livra de questões não referentes aos dutos da Petrobras. Lula vai esperar os próximos passos do Judiciário. Lula II Por enquanto Luiz Inácio ganha a condição de elegível. Tudo vai recomeçar na 1ª instância. E é também possível que a 2ª Turma do STF anule todas as acusações contra Lula, inviabilizando o uso de provas já coletadas. Tudo, então, recomeçaria do zero. O fato é que outros condenados poderão se ancorar na decisão de Fachin e pedir anulação de suas condenações. O PT, por sua vez, recebe com cautela a decisão, endossando e comemorando a decisão do ministro paranaense, e iniciando a campanha para inocentar Lula. E transformá-lo em vítima. Ganhando a condição de elegibilidade, Lula enfrentará o dilema de ser o candidato do PT ou entrar em eventual frente ampla contra Bolsonaro. Mas se os partidos de esquerda se dividirem - PSOL, PDT, PSB, PC do B - e ainda, se houver divisão nos partidos de centro e direita - MDB, DEM, PSD, PSL - o PT se aproveitará do racha para jogar Lula no páreo. Quanto maior a divisão, melhor para o PT. A imagem do PT, para a maior parcela do eleitorado, ainda é a de um demônio. Limpar esse traço é tarefa mais que complexa. O partido dividiu o país em duas bandas. (Imponderável) P.S. Este consultor considera que o desafio de limpar a imagem do PT, até as margens de outubro de 2002, será tarefa hercúlea. A depender da economia, Produto Nacional Bruto da Felicidade, desastre gigantesco do governo Bolsonaro, acesso das margens à mesa do pão, satisfação/insatisfação das classes médias, gestão da pandemia, sob a sombra do Senhor Imponderável, que costuma visitar o Brasil. Flávio Dino O governador do Maranhão, do PC do B, tem se destacado como voz do Nordeste. Com chance limitadas, pode vir a compor uma chapa majoritária, como candidato a vice-presidente. Não tem cacife para unir as esquerdas. É hábil na articulação, mas não tem entrada nos espaços do Sudeste, por exemplo. Guilherme Boulos Em ascensão, deixou de lado a linguagem contundente para ganhar a confiança de contingentes do meio da pirâmide. É inteligente, bom de debate, mas lhe falta conhecimento sobre a realidade brasileira. Tem um eleitorado fiel. Ainda não criou a imagem de um presidenciável. Mais parece um fomentador de massas. Eduardo Leite O governador do RS é o nome tucano em crescimento, opção ao governador de SP, João Doria. Jovial, boa aparência, fluente, consegue integrar grupos em conflito no PSDB. Perfil moderado, de centro. Seu cacife dependerá da maneira como será avaliado no ciclo da pandemia. Já entra na linha de tiroteio de Bolsonaro, que o considera "manso", em expressão depreciativa. Jair Bolsonaro Tem como meta manter a polarização com o PT e os partidos de esquerda, com um discurso ideológico e ameaçador. Suas condições dependerão do desempenho da economia, que pode se traduzir pela equação com que tenho condicionado a viabilidade dos protagonistas: BO+BA+CO+CA= Bolso, Barriga, Coração, Cabeça. Bolso cheio, barriga satisfeita, coração agradecido, cabeça votando no patrocinador da equação. Mas a corrosão mortífera da pandemia ameaça estraçalhar seu perfil. Bolsonaro é um atirador sem bom senso. Diz o que lhe vem à cabeça. E costuma desdizer o que disse. João Amoedo Um empresário à espera de uma oportunidade. Exibe uma receita ultraliberal. É desconhecido. E voluntarioso. João Doria Tem vontade, determinação, gosta da luta. E faz um bom trabalho de combate à pandemia, sendo até a ele atribuído o acesso do Brasil à vacina Coronavac, que Bolsonaro execrou como a "vacina chinesa". Mas fica tão patente a intenção de ser o candidato do PSDB, que propicia a formação de grupos contrários dentro do próprio partido. Enfrenta um exército de bolsonaristas que o xingam nas redes sociais. Luciano Huck Endinheirado, o apresentador de TV tem como âncora um programa de TV. É admirado pelas margens. Mas a identidade ficará sempre repartida entre o mundo dos espetáculos e o mundo da política. Seria um outsider. Pode se arriscar, eis que seu ciclo na TV se mostra em declínio. Sairia da campanha igual, sem grandes perdas. Insere-se no centro, com apelo às adjacências. Luiz Henrique Mandetta Pode vir a ser o nome do DEM, caso este não entre numa Frente Ampla. Ganhou fama e respeito como ministro da Saúde do governo Bolsonaro, de onde foi defenestrado. Simpático, irradia sinceridade. Marina Silva Passou sua vez. Frágil, sem articulação política. Mas conserva a imagem de limpa, digna, séria. Sergio Moro A grande incógnita. Se a economia despencar e se mostrar disposição, tem chance de ser chamado por algum partido para se candidatar. Também deve ser alvo do bombardeio político, a partir da suspeita de que teria havido conluio com os procuradores de Curitiba para apertar o cerco contra Lula. Beneficiado também por esta decisão do ministro Fachin. Desvia-se da linha de tiro. Mas tudo pode recomeçar, sob a decisão de Gilmar Mendes de levar a (de Moro) suspeição para a 2ª Turma e ele ser condenado. O abacaxi seria descascado no Plenário da Corte. Se for condenado, SDS: Só Deus Saberá. A interrogação se agiganta. Parte II - A luta das mulheres Luta contra a escravidão A luta da mulher pelo ideário de igualdade tem longa história. Seja na frente do direito ao voto, seja na frente do direito por salários iguais aos dos homens, seja no combate à discriminação que enfrenta na labuta cotidiana, a mulher conquista, passo a passo, papel central na construção de um planeta mais solidário e justo. Valho-me de um ensaio do pesquisador e consultor Antônio Sérgio Ribeiro para anotar alguns desses eventos, a começar pelo combate à escravidão, onde se destacam, inicialmente, Susan Brownell Anthony e Elizabeth Cady Stanton. Ambas, em um encontro em 1851, em Seneca Falls, Estado de New York (EUA), iniciaram a jornada de lutas contra a escravidão. Susan queria ver aprovada uma emenda constitucional pelo direito de voto às mulheres. A ideia culminou com a aprovação da emenda nº 13, pelo Congresso, extinguindo a escravidão nos Estados Unidos. Nísia Floresta Abro espaço para falar da luta das mulheres no meu Rio Grande do Norte, começando com a professora Nísia Floresta Brasileira Augusta. Próxima a Augusto Comte, o primeiro teórico a fincar as bases do positivismo. Em 1832, traduziu a obra da feminista inglesa Mary Wollstonecraft e passou a ser considerada uma das primeiras defensoras da emancipação feminina no Brasil. Com ideias, Nísia Floresta lutou para que as representantes do sexo feminino tivessem direito ao voto. Voto que, a partir de 1932, através de um decreto de Getúlio Vargas - decreto este que foi confirmado pela Constituição de 1934 - veio a eleger Alzira Teixeira Soriano para prefeita do município de Lajes. Nordestina e lutadora, foi alçada à condição de primeira prefeita eleita no Brasil. Alzira Soriano Filha mais velha de influente líder político regional, Alzira nasceu e cresceu em Jardim de Angicos, um distrito de Lajes, no Rio Grande do Norte. Aos 17 anos de idade, casou-se com um promotor pernambucano, com quem teve três filhas. Ficou viúva aos 22 anos quando seu esposo morreu vítima da Gripe Espanhola. Um detalhe: em 1928, Bertha Lutz fez uma visita ao Rio Grande do Norte. Ativista feminista, bióloga, filha de Adolfo Lutz, pioneiro da medicina tropical, influenciou a fundação de uma associação de eleitoras, promovendo ainda a candidatura de Alzira Soriano à prefeitura de Lajes. Juntamente com Juvenal Lamartine, governador do Estado, Bertha Lutz fez uma visita ao "coronel" Miguel Teixeira de Vasconcelos, pai de Alzira, que à época, tinha 31 anos. "Esta é a mulher que estamos procurando", teria dito Bertha Lutz à Juvenal Lamartine. O direito de votar Aliás, no RN, em 25 de outubro de 1927, pela Lei estadual 660, as mulheres brasileiras puderam, pela primeira vez, ter o direito de votar e serem votadas. Infelizmente, viram seus votos anulados. A Comissão de Poderes do Senado Federal, no ano de 1928, ao analisar essas eleições realizadas no Estado, requereu em seu relatório a anulação de todos os votos que haviam sido dados às mulheres, sob a alegação da necessidade de uma lei especial a respeito. O projeto que concedia esse direito à mulher norte-rio-grandense foi de autoria do deputado Juvenal Lamartine de Faria, o mesmo que, como relator do projeto de 1921 na Câmara Federal, havia dado parecer favorável ao pleito, e fora aprovado pelo legislativo estadual e sancionado pelo governador José Augusto Bezerra de Medeiros. Os pioneiros A batalha pelo voto, como se vê, teve retas e curvas. No então território de Wyoming no ano de 1869, EUA, a mulher obteve o direito ao voto. Posteriormente mais três Estados do Oeste também seguiriam o exemplo. A Nova Zelândia foi o primeiro país do mundo a conceder o direito ao voto às mulheres no ano de 1893. A Austrália concedeu o voto em 1902, com restrições. Na Europa, o primeiro país em que as mulheres obtiveram o direito ao voto foi a Finlândia em 1906. Na Inglaterra, as mulheres iniciavam a sua luta mais acirrada. Já em 1866 John Stuart Mill, jurista, economista e filósofo, eleito para o Parlamento, apresentou emenda que dava o direito à mulher inglesa, assinada também por miss Sarah Emily Davies e pela dra. Garret Anderson. Foi derrotado por 194 votos contra e 73 a favor. Finalmente, em 1918, ao término da 1ª Grande Guerra, que contou com a participação decisiva do sexo feminino na retaguarda do conflito, deu-se o direito do voto às mulheres inglesas com mais de 30 anos, sendo eleitas três mulheres para a Câmara dos Comuns. Em 1928, a idade foi reduzida para 21 anos. Na AL, o Equador, em 1929, foi o primeiro país. Já a Argentina, em 1947, sob uma campanha liderada por Eva Perón, conseguiu aprovar o voto feminino. Junta feminina No Brasil, a emancipação feminina teve como precursora a educadora baiana Leolinda de Figueiredo Daltro, que vivia no Rio de Janeiro. A fim de colaborar na campanha eleitoral para a presidência da República, fundou, em 1910, a Junta Feminina Pró-Hermes da Fonseca, de quem era amiga da família. Com a vitória de seu candidato, continuou sua campanha pela participação da mulher brasileira na vida política do país. Concorreu como candidata à Constituinte no ano de 1933. Com o advento da Revolução de 30, novos ventos sopraram. Nathércia da Cunha Silveira e Elvira Komel, esta líder feminista em Minas Gerais, formaram uma comissão para atuar junto a autoridades Federais e pedir o apoio da igreja ao cardeal D. Sebastião Leme. Berta Lutz No princípio dos anos 30, Bert Lutz fundou no Rio de Janeiro a Federação Brasileira Pelo Progresso Feminino, quando expressou: "é um fato interessante, que as revoluções de pós-guerra têm favorecido a mulher". O presidente Getúlio Vargas suprimiu restrições às mulheres. Em 1932, uma comissão de mulheres foi recebida no Palácio do Catete pelo presidente, que acatou um memorial com mais de 5.000 assinaturas, no qual pleiteava-se a indicação da líder Bertha Lutz como participante da comissão para elaborar o anteprojeto da nova Constituição. Em 3 de maio de 1933, na eleição para a Assembleia Nacional Constituinte, a mulher pela primeira vez, em âmbito nacional, votou e foi votada. A médica paulista Carlota Pereira de Queirós foi eleita a primeira deputada brasileira. Disparidades No mercado de trabalho, a luta das mulheres por salários iguais aos dos homens continua. Desempenham as mesmas funções, cumprem a mesma carga horária, têm responsabilidades similares, mas, ao final do mês, quase sempre, recebem contracheques com salário menor que seus pares. A renda média dos homens é 76% maior que a renda das mulheres, o que comprova que as mulheres são o elo mais frágil na corrente salarial. Luta árdua A luta por espaço no mercado de trabalho é tão árdua que, de acordo com um levantamento recente da OIT (Organização Internacional do Trabalho), 67% das mulheres que trabalham no Brasil estão no setor informal. Um percentual superior ao masculino, que é de 55%. Ou seja, na hora de contratar, apesar das mulheres serem maioria, os homens têm a preferência. Preferência, de certa forma injustificada, uma vez que as mulheres investem mais em educação do que os homens: 45% das mulheres têm mais de oito anos de estudo contra 36% dos homens. De 195 países no mundo, apenas 22 são comandados por mulheres. Na Academia A coluna presta sua homenagem às mulheres do RN, com referência à sua participação na Academia de Letras do nosso Estado. Transcrevo a homenagem da Academia para as Mulheres de Letras: Auta, Nísia, Carolina, Palmira, Anna, Eugênia, América, Eulália, Sônia, Diva e Leide. Um acinte O afastamento por apenas quatro meses do deputado Fernando Cury (Cidadania), de São Paulo, por ter apalpado sua colega Isa Penna (PSOL), no plenário da Assembleia Paulista, é um escárnio. Decisão da Comissão de Ética. Deveria ter sido cassado. Samba do crioulo doido O governo vive seu pior momento. A paisagem da epidemia mostra destruição e desorganização por todos os lados. Governadores isolam o presidente. O pico de mortes parece coisa banal. Uma viagem de 10 pessoas para ver um spray em Israel é maluquice. Esse remédio ainda está em fases iniciais de teste. Usado para combater câncer. Samba do crioulo doido. E assim caminha a humanidade!
quarta-feira, 3 de março de 2021

Porandubas nº 706

Abro a coluna com uma historinha do Ceará. Quatro chinelas O médico Francisco Ibiapina, do Jaguaribe/CE, tratava com muito zelo de um cliente recém-casado e acometido de forte gripe. O clínico fazia prescrições sobre o regime alimentar e sugeria cautelas para evitar recaída. A um lado, a jovem esposa presenciava a conversa, silenciosa e atenta aos conselhos do médico. Fixando nela os olhos amorosos e não se conformando com a desarrumação de sua lua de mel, o doente cochichou um pedido com voz rouquenha: - Seu doutô: fazerá mal quatro chinela debaixo da minha rede? (Causo contado pelo historiador Leonardo Mota) Duas questões centrais O escritor israelense Yuval Noah Harari (Homo Deus, Homo Sapiens, 21 Lições para o Século XXI) levanta duas questões essenciais que certamente balizarão o nosso futuro: a aparente dicotomia entre a crescente autonomia dos cidadãos e a também tendência em expansão de vigilância totalitária por parte do Estado; e o isolacionismo de viés nacionalista e a globalização solidária. Quem vai predominar nesse conflito e que desenho podemos pintar do amanhã que nos espera? Esse é o dilema que merece nossa reflexão. A identidade Na expressão recorrente de nossas análises, temos discorrido sobre a mudança de parâmetros na escala de costumes e valores humanos. O homem-massa, como temos destacado, quer resgatar seu empoderamento, seus potenciais, capacidades, enfim, sua identidade. E isso ocorre nesse oceano turbulento em que navega a Humanidade. Vivemos o maior conjunto de crises da vida contemporânea. A identidade tem sido resgatada pela conquista, mesmo lenta, de direitos, defesa do habitat humano, defesa da privacidade, expansão das condições que formam o Produto Nacional Bruto da Felicidade. Esse grau civilizatório tem balizado as aspirações do conglomerado humano em todos os pedaços do planeta, incluindo territórios marcados pela barbárie. Os olhos do Estado Ao mesmo tempo em que se desenvolve tal fenômeno, os olhos do Estado sobre os cidadãos tornam-se mais perscrutadores, querendo saber o que fazem, para onde vão, como estão seu pulso e seu coração, o que comem, quando comem, que meio de transporte usam, com quem se relacionam, quantas vezes vão ao banheiro, qual a cor dos excrementos (tudo importa), para onde olham nas gôndolas de supermercados, que produtos guardam na geladeira, o que difere um queijo de outro, quantas garfadas de alimentos por dia, enfim, tudo, o conjunto de ações do cotidiano das pessoas. Finalidades Veja-se a dimensão do conflito: de um lado, os cidadãos na luta por seu pleno empoderamento; de outro, o Estado na luta por pleno domínio de seus entes. O argumento do Estado é denso e vasto: luta contra as mazelas - males, epidemias, pandemias -; realocação de bens e recursos para melhorar o nível de vida das populações; descobertas científicas para a cura de doenças graves; uso de algoritmos extraídos da "grande visão" do Big Brother para definir rumos, novos caminhos, rotas e veredas a serem seguidas ou evitadas. Sob a hipótese de melhorar a vida no planeta, esconde-se o total domínio da vida humana. Daí para o Estado Totalitário, um passo. O Estado totalitário Sempre visto como ameaça que paira sobre a Humanidade, chega mais perto com o avanço do sistema tecnológico que se instala na vida cotidiana. A questão é saber se o ser humano, mesmo com a identidade plenamente resgatada, conseguirá evitar os olhos do Grande Irmão e preservar sua privacidade. Lembrando a pergunta de Bobbio: "quis custodiet custodes?" ("quem vigia o vigilante"?) A resposta, pois, pressupõe um controlador superior. O filósofo indaga: Deus, o herói fundador de Estados, o mais forte, o partido revolucionário que conquistou o poder, o povo entendido como a coletividade que se exprime por meio do voto? Teríamos um vidente visível ou invisível? Poderes invisíveis Outra escala de problemas é operada nas entranhas do Estado, quando políticos, burocratas e os círculos de negócios, juntos ou separados, exercem um "poder invisível" para defender interesses seus ou de outros, apresentando-se, assim, com força que age contra o "poder visível", este simbolizado pelas instituições de Estado, os poderes constitucionais. Há, ainda, os conglomerados organizados por ondas mafiosas, criminosos de todos os tipos, cartéis de armas e de drogas, que também exercem "poderes invisíveis". O Estado, impregnado desses "exércitos", que lutam nas malhas escondidas das máquinas administrativas, consegue vencer a guerra contra os feitos do mal? A globalização Para tornar mais nebulosa a paisagem, eis que a tão aclamada globalização solidária, que poderia ser o espaço de acolhimento ao sonho de ajuda recíproca entre as Nações, de interlocução amigável, parcerias comuns, mãos juntas para fazer avançar a ciência, está ameaçada. E a ameaça começou a surgir antes mesmo da pandemia da Covid-19, quando o isolamento dos países entrou na agenda de grupos populacionais e de políticos populistas. Estamos voltando à era do "quanto mais só, melhor", cada qual com sua realidade. Trata-se, na verdade, de um gesto egoísta, relacionado ao fechamento de fronteiras, um muro que se constrói a cada dia para evitar a imigração de povos em busca de sobrevivência. Como conjugar? Como conjugar as necessidades e demandas urgentes de populações em busca de um novo habitat com o ideário de contingentes que se enrolam nas bandeiras do nacionalismo, defesa de empregos exclusivos para os nativos, redomas construídas para abrigar apenas os originários de cada Nação? Um mundo menos solidário causará que tipos de impacto na vida cotidiana? Conservação das culturas ou expansão do egocentrismo, de conflitos entre países, guerras étnicas e raciais? Para onde caminhará a solidariedade? O dilema está à vista: se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come. Meditemos. O Brasil solidário Puxando o fio da meada para as nossas plagas, de pronto aparecem nesgas no horizonte. No lado da sociedade, vê-se alargar o espaço solidário, as mãos dadas de tantos quantos, em desespero, clamam aos céus por mais empregos, mais saúde, domínio da pandemia, remédios, mais vacinas. Do lado do Estado, observa-se uma teia de fatores que contribuem para aumentar a descrença na política: leniência dos governantes, desprezo pela ciência, descaso para com a res publica, enfim, des...des..des..des - prefixo para designar desistir, desprezar, destruir etc. Temos dois Brasis: um, solidário, outro, desordeiro. O primeiro agrega os espíritos conviviais; já o segundo agrega o arbítrio, o descumprimento das normas, a permissividade, o ódio, governantes sem escrúpulo. Notinhas Preço dos combustíveis A Petrobras vai entrar na política de ajustes determinada pelo presidente. A conferir. Pazuello O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, tenta se agarrar nos números prometidos de vacinas que virão até meados de julho. 80 milhões até junho, é a promessa. Secretários de Saúde dos Estados perderam o prumo. Luiz Carlos Trabuco Cappi - Em O Estado de S.Paulo, segunda-feira "As condições objetivas existem. O Brasil tem dois centros de excelência na produção de vacinas - Fiocruz, no Rio de Janeiro, e Butantan, em São Paulo. No segundo semestre, os dois institutos devem inaugurar novas fábricas, capazes de criar também o ingrediente farmacêutico ativo (IFA), necessário para a fabricação das vacinas da Oxford-AstraZeneca e da chinesa Sinovac. A vacina resolve a crise". Faria O ministro Fábio Faria, das Comunicações, tem se revelado um perfil eficiente. Seu gol de placa será a implantação do 5G. Fez uma incursão internacional para medir parâmetros. Pandemia Ao que parece, os descrentes começam a acreditar nos efeitos mortais da Covid-19. Jovens morrem mais que no primeiro ciclo e abrem pânico. Frente ampla Na paisagem das parcerias, Ciro Gomes avança. Disse que seu projeto é tirar o PT do segundo turno de 2022. A declaração passou a impactar setores antes arredios a seu nome. Variantes As variantes do novo coronavírus se espalham. A boa notícia é que vacinas mais avançadas estão em fase final de teste. Vacina da Johnson Mais uma boa notícia: a vacina em dose única da Janssen-Cilag, do grupo Johnson & Johnson, passa a ser considerada a mais viável para a imunização em massa do planeta. O Brasil não a comprou até agora. Já o comitê da FDA recomendou que EUA autorizem. O teste clínico fase 3 - do qual o Brasil participou - mostra 66% de eficácia. Garcia Rodrigo Garcia, vice-governador de SP, do DEM, está em dúvida: sair para entrar no PSDB ou permanecer onde está? E se João Doria não viabilizar a candidatura dele à presidência? Rodrigo começa a procurar PMDB e outros partidos. Mandetta O ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, começa a se movimentar sob o olhar de 2022. O DEM tem chances de ter candidato? Essa é a questão. Bolsonaro Não fecha a expressão. Continua dando corda ao relógio dos simpatizantes. Não percebe que esse tipo de atitude gera bumerangue. Volta-se contra ele. "Mijar sangue" 'A OAS tem que mijar sangue', diz procurador em diálogos da Lava Jato. Novas mensagens enviadas pela defesa de Lula ao STF mostram Lava Jato discutindo como 'bater, bater e bater' em investigados. Imposto sobre bancos Governo deve aumentar impostos sobre bancos para compensar desoneração do diesel e gás de cozinha. De acordo com fonte da equipe econômica, a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido deve subir para zerar tributação dos combustíveis, medida que tem custo total de R$ 3,6 bi. Conflito federativo Acirra-se a divisão no campo da gestão da pandemia entre governadores e presidente da República. Governadores pedem mais ação, mais firmeza, mais vacinas. Presidente anima suas bases. Pano de fundo: conflito federativo. Lockdown Pedido geral de especialistas: lockdown entre 18 horas e 5 da manhã durante 16 dias. Março é mês do pico agudo. Fecho a coluna com um "causo" paulista. Eu e Deus O "causo" ocorreu em Conchas/SP. Era a audiência de um processo - requerimento do Benefício Assistencial ao Idoso para um senhor alto, velho, magro, negro, humilde e muito simpático, tipo folclórico da cidade. Antes da audiência, o advogado lembrou ao seu cliente para afirmar perante o juiz morar sozinho e não ter renda para manter a subsistência. Nisso residiria o sucesso da causa. Na audiência, veio a pergunta: - O senhor mora sozinho? - Não! respondeu ele (o advogado sentiu que a coisa ia degringolar). - Hum, não? Então, com quem o senhor mora? - Eu e Deus, respondeu o matreiro velhinho. O advogado tomou um baita susto. Mas a causa foi ganha. O juiz considerou procedente a ação. (Historinha enviada por Éder Caram e contada pelo pai dele).
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Porandubas nº 705

Abro a coluna com um pouco de riso, com esta historinha do Jânio Quadros. Obrigado, colega O próprio presidente Jânio Quadros, às vezes, transmitia seus bilhetinhos para os ministros por meio do aparelho de Telex que mandou instalar em seu gabinete, ligado diretamente com os ministérios em Brasília e no Rio de Janeiro. Ele mesmo datilografava os "memorandos". Transmitiu ele um bilhete para um ministro e na mesma hora recebeu a seguinte resposta, pelo telex: "Prezado colega. Não há mais ninguém aqui". Ao que o presidente respondeu: "Obrigado, colega. Jânio Quadros". Do outro lado do fio, porém, o outro não se perturbou: "De nada, às ordens. John Kennedy...". (Nelson Valente, jornalista e escritor, em seu livro Jânio Quadros - O Estadista) O homem e suas circunstâncias A expressão com sua hipótese é do filósofo espanhol Ortega Y Gasset (1883-1955). Do começo ao fim da vida, o homem navega por um oceano de aprendizado. Está sempre em mudança. E daí emerge o conceito de que a verdade depende de cada um. Nunca esse axioma foi tão recorrente. O ritmo de mudanças vivenciado no planeta é acelerado. Nos campos tecnológico, biogenético e de sondagem sobre a natureza do universo, os avanços são extraordinários. O que não se pode dizer na área dos valores. Este escriba aprecia fazer leituras sobre esse pano de fundo. O que está ocorrendo, onde iremos parar com o gigantesco volume de conflitos na sociedade? As circunstâncias entre nós Pois é, o Brasil desta semana é diferente do país de uma semana atrás. As circunstâncias nos levam a lembrar que: 1. Atingimos o pico da pandemia, com os índices mais avassaladores desde seu início. O colapso das estruturas de hospitais é geral. Mortes e internações sobem ao cume da montanha. 2. Mesmo assim, certo amortecimento impregna a alma social, a indicar a conformidade e a resignação ante esse clima de devastação. 3. A taxa de autoritarismo do governo, com a intervenção no comando da Petrobras, chega também ao auge, fazendo derreter resultados positivos que marcavam determinados setores. 4. A Petrobras teve o segundo maior tombo de sua história, com o derretimento de R$ 102 bilhões de seu preço de mercado. 5. O governo coleciona, esta semana, críticas ácidas sobre seu desempenho, chegando ao momento mais conflituoso de sua gestão. 6. Avoluma-se o teor crítico sobre a cooptação do presidente junto aos militares, com evidente prejuízo à imagem das Forças Armadas. 7. A imagem de governantes, em todos os Estados, começa a descer o despenhadeiro sob a aceleração dos índices pandêmicos. 8. O mercado dá recados concretos ao presidente, já desconfiado de sua ideologia liberal. 9. A perplexidade se volta também para o ministro Paulo Guedes, que não está conseguindo segurar suas intenções e seus amigos. 10. A desconfiança e o descrédito avançam celeremente. Voltemos ao plano global das mudanças em curso no planeta. A escala de valores Tendo como mote a moldura das mudanças no campo dos valores, permito-me retomar a leitura, que sempre faço, sobre o espírito do tempo. Muda o planeta, Marte recebe a visita de três artefatos da Terra; Joe Biden assina decretos anulando políticas de Donald Trump; este continua a fazer campanha eleitoral, mesmo recolhido em seu resort; a Europa debate seu futuro e a gestão da pandemia, que consome milhões de vidas e trilhões de dólares das economias mundiais; a China sempre de olho no ranking das maiores economias mundiais; sinais de esperança no campo da imunização. A espetacularização A desideologização, que impregnou os sistemas políticos no século XX, amalgamando partidos, esfacelando os mecanismos clássicos da política - engajamento das bases, firmeza das oposições, grandeza dos Parlamentos, harmonia e independência dos Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) - mudou os rumos da democracia. Os entes coletivos cedem lugar ao individualismo. Ressurgem os perfis populistas, demagógicos, que atuam sob a perspectiva do EU sobre o NÓS. Pessoas tomam o lugar de partidos. Nesse eu voto, diz o eleitor. E a força do personalismo resgata o conceito de política como espetáculo. O ator político está no palco, usando sua arte manipulativa para engabelar as massas e expandir o descrédito geral, que se espraia na base, no meio e no cimo da pirâmide social. Os figurantes Os figurantes usam a linguagem da oportunidade. Cobertor social, cestas básicas, auxilio emergencial, demissão sumária de figuras da administração, eleição de personagens identificados com o selo "pagou, levou". Salvadores da Pátria, heróis de coragem, justiceiros, pais da pátria e suas bandeiras: combate à corrupção, defesa do patrimônio nacional, defesa do Estado-liberal, de um lado, e defesa do Estado-patrimonial, de outro. A receita de uns e outros. O ódio O ódio passa a ser destilado nas fontes de apoio - bases e simpatizantes - e distribuído em imensos jorros pelas redes sociais e nos contatos entre interlocutores, que queimam velhas amizades em nome da defesa de seus "heróis-patrocinadores". Pessoas de quem se imaginava terem uma cota mínima de racionalidade embarcam nas caravanas da bajulação. A convivialidade, que se apresenta como grau elevado do estágio civilizatório, vai para o buraco. As correntes do ódio assumem posicionamentos que mais se assemelham à volta da barbárie sobre o planeta. O velho habitat O mundo, até pouco, era carimbado como aldeia global. Todos por um, um por todos. Vimos, maravilhados, a quebra de fronteiras físicas e espirituais, com a ascensão de pobres e necessitados ao banquete dos ricos. Grandes nações acolhiam imigrantes. Davam-lhes teto e comida. E o que temos visto hoje nos quadrantes do planeta? O isolamento. O fechamento de fronteiras. Filhos pequenos separados dos pais. Renasce a noção de que a pátria é nossa. Não de estranhos. Cada nação com sua gente. Os pobres? Que fiquem onde nasceram. P.S. Lembrete histórico: conta-se que o marechal Erwin Rommel, a raposa do deserto, ao contemplar em cima de um morro os aliados destroçados por seus panzers no norte da África, teria dito: "os pobres nunca deveriam fazer guerra". Os pobres, como pensa Trump, deveriam voltar ao seu velho habitat. O consumo da informação A pressa, a rapidez, a competição desvairada em um mundo de carências crescentes impedem que a natureza seletiva do homem exerça sua função de enxergar conceitos de certo e errado, viável e inviável, justo e injusto. A abundância informativa acaba entupindo os filtros que purificam as águas. As pessoas acabam misturando coisas, sorvendo misturas maléficas. Paradoxo: em plena era da informação, o grau de aprendizagem não acompanha o ritmo das novidades e mudanças. A defasagem entre o que se consome e o que é necessário assume proporções extraordinárias. Feita a digressão, passemos novamente ao nosso cotidiano. Centralização A inferência é decorrente da troca de comando na Petrobras: o presidente tende a ser mais centralizador nos próximos tempos. Pensa assim: fui eleito, devo meu cargo ao povo, não aos políticos, vou agora governar ao modo Bolsonaro. Troca aqui, troca ali, troca acolá. Parece querer se aproximar do sistema de governo que anunciou, há dias, não esse que temos. Se der certo, tudo bem. Se não der certo, pode dizer que tentou. Paulo Guedes, nesse cenário, não terá alternativa que a de entregar o boné. Questão de tempo. A não ser que decida fazer como os três macaquinhos: não vi, não ouvi, não falei. Queda de 102 bilhões As ações da Petrobras sofreram queda gigantesca. O preço da petrolífera caiu em cerca de mais de R$ 100 bilhões com as falas de Bolsonaro, que também viu sua avaliação positiva cair para 33%. A avaliação negativa do governo Jair Bolsonaro subiu mais de 8 pontos percentuais em quatro meses e atingiu 35,5%, segundo a última pesquisa CNT/MDA. Já a positiva caiu quase nove pontos. O advogado André de Almeida, um dos idealizadores da ação coletiva (class action) que levou a Petrobras a pagar US$ 2,9 bilhões para encerrar uma disputa judicial com acionistas nos Estados Unidos em 2018, já mira uma nova batalha na Justiça em Nova York contra a estatal. Guedes será vital Paulo Guedes será peça importante na engrenagem de 2022. Para Bolsonaro confirmar seu favoritismo, precisa administrar uma economia em franca recuperação. Se Guedes não conseguir, o presidente buscará perfil mais populista. Capaz de passar marchas de aceleração no carro da economia, no qual devem caber as demandas populares. Sem cobertor social extenso, Bolsonaro não terá chances. O voto das margens decidirá o rumo do país. BB, o próximo? O falatório em Brasília se avoluma: a próxima mudança/intervenção seria no comando do Banco do Brasil. A conferir. Pfizer A Pfizer diz que não aceita condições de Bolsonaro para vender vacina ao Brasil. A farmacêutica anuncia que, na América Latina, apenas o Brasil, a Venezuela e a Argentina não aceitaram as cláusulas de seu contrato. Vamos ver se o Congresso muda os paredões legais. P.S. A Anvisa decidiu liberar a vacina, mesmo sob o imbróglio burocrático. O símbolo I: Lippmann O emprego de símbolos é um dos estratagemas mais eficazes preferidos pelos líderes para dirigir as massas, para aspirar e inspirar as emoções das multidões (to siphon emotion), segundo a expressão de Walter Lippmann (96) [306]. "É um truque para criar o sentimento da solidariedade e, ao mesmo tempo, explorar a excitação das massas". O símbolo II: Tchakhotine "O símbolo pode desempenhar, na formação de reflexos condicionados (como decorre de todo nosso raciocínio) o papel de fator condicionante, que, enxertando-se sobre um reflexo preexistente, absoluto, ou sob um reflexo condicionado constituído anteriormente, adquire, por sua vez, a possibilidade de tornar-se um excitante, determinando essa ou aquela reação desejada por quem faz esse símbolo sobre a afetividade de outros indivíduos. A palavra, falada ou escrita, pode ser utilizada para representar um fato concreto, único e simples, ou um conjunto de fatos, mais ou menos complexos, assim como uma abstração ou todo um feixe de ideias abstratas, científicas ou filosóficas". (Serge Tchakhotine In Mistificação das Massas pela Propaganda Política). Canetti A massa I "A ânsia de crescer constitui a primeira e suprema qualidade da massa. Ela deseja abarcar todo aquele que esteja ao seu alcance. Quem quer que ostente a forma humana pode juntar-se a ela. A massa natural é a massa aberta: fronteira alguma impõe-se ao seu crescimento. Ela não reconhece casas, portas ou fechaduras; aqueles que se fecham a ela são-lhe suspeitos. A palavra aberta deve ser entendida aqui em todos os sentidos: tal massa o é em toda parte e em todas as direções. A massa aberta existe tão somente enquanto cresce. Sua desintegração principia assim que ela para de crescer. Sim, pois tão subitamente quanto nasce a massa também se desintegra". A massa II "Seu caráter aberto, que lhe possibilita o crescimento, representa-lhe também um perigo. A massa traz sempre vivo em si um pressentimento da desintegração que a ameaça e da qual busca escapar através do rápido crescimento. Enquanto pode, ela absorve tudo; uma vez, porém, que tudo absorve, tem ela também de, necessariamente, desintegrar-se. Em contraposição à massa aberta - que é capaz de crescer até o infinito, está em toda parte e, por isso mesmo, reclama um interesse universal - tem-se a massa fechada. Esta renúncia ao crescimento, visando sobretudo a durabilidade. O que nela salta aos olhos é, em primeiro lugar, sua fronteira. A massa fechada se fixa. Ela cria um lugar para si na medida em que se limita; o espaço que vai preencher foi-lhe destinado". (Elias Canetti in Massa e Poder).
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Porandubas nº 704

Abro a coluna com uma historinha de Tancredo Neves, que mostra a índole matreira do grande político das Minas Gerais. Um disfarçado sorriso No segundo semestre de 1984, como chefe do Departamento de Jornalismo da Faculdade de Comunicação Cásper Líbero, coordenei um debate com os presidenciáveis Tancredo Neves e Paulo Maluf. Eram candidatos à presidência em eleição indireta, que ocorreria em 15 de janeiro de 1985, quando Tancredo venceu Maluf com 480 contra 180 votos e 26 abstenções. Salão nobre do Teatro Gazeta, enorme, lotado. Tancredo veio primeiro. Aplaudido de pé após um debate que terminou por volta de 23h. Por sugestão do banqueiro e ex-prefeito de São Paulo, Olavo Setúbal, fomos (pequeno grupo de professores) jantar com ele no elegante restaurante-pub de Geraldo Alonso, o famoso publicitário, o Santo Colomba, na rua Padre João Manoel. Sentei-me ao lado dele. Puxei conversa. Falamos de política. "Gaudêncio, de onde você é?", indagou. Observara o sotaque. Respondi: "Sou do RN". A conversa girou então sobre Dinarte, Aluízio, Djalma Marinho, os Rosados etc. O vinho bom descia suave. De repente, no meio de animado papo, Tancredo fecha os olhos e abre um leve bocejo. Nem houve aviso prévio. Fiquei preocupado. Será que a conversa está chata? Setúbal, sentado na nossa frente, com sua voz de barítono, pisca o olho e avisa, sabendo que ele iria ouvir: "professor, não se incomode. É assim mesmo. Quando ele quer ir embora, não fala. Simplesmente, inventa que está dormindo". Mas era visível seu cansaço. Olhei de leve para nosso ex-primeiro-ministro e confesso ter observado um disfarçado sorriso nos lábios. Setúbal pagou a conta e saímos. Felizes por termos participado de um histórico encontro com a matreirice mineira. Lição de sabedoria Do padre João Medeiros Filho, em "Uma Vacina em Prol da Ética e da Moralidade", no jornal Tribuna do Norte (RN): "Além das vacinas contra a epidemia que grassa pelo Brasil, necessita-se também imunizá-lo contra o ódio, radicalismo, egoísmo, interesses escusos, desrespeito, injustiças e mentira. É incontestável que a fragilidade da saúde pública é um problema crônico, que se arrasta há décadas. Não faltam alertas e denúncias de profissionais e líderes. Não se improvisam soluções duradouras, nem existem respostas automáticas e mágicas. Urge uma dose maior de solidariedade e otimismo. É necessário crescer no altruísmo, inoculando na sociedade mais respeito, diálogo e amor." Marés altas e baixas Vamos ao cenário nacional. A pandemia vai e vem, não dando sinais de que vai amainar em curto prazo. Os dados exibem picos de mortes e contaminados, a ponto de os gráficos mostrados nas TVs começarem a gerar o efeito de "dormência", a repetição rotineira que já não impacta, causa susto ou sensação de coisa nova. O registro nas últimas semanas é de mais de mil mortes por dia. Uma estatística que causaria pânico fosse banhada por um toque de originalidade. Temos de nos acostumar com a ideia de que conviveremos com esse bicho feroz durante todo o ano. Não nos enganemos. E mesmo após vacinadas, as pessoas não se livrarão das variantes desse corona mortífero. O Carnaval vem aí, mesmo proibidas as concentrações populares. Não se espere bom senso na folia. Mas o Brasil... Costumo lembrar os quatro tipos de sociedade no planeta: 1. a inglesa, liberal, onde tudo é permitido, exceto o que é proibido; 2. a alemã, rígida, onde tudo é proibido, exceto o que for permitido; 3. a ditatorial, fechada, onde tudo é proibido mesmo o que for permitido; e 4. a brasileira, onde tudo é permitido mesmo o que for proibido. Pois bem, por causa dessa extrema liberalidade, do desrespeito às leis e implantação de um estado de anomia, a paisagem nacional é propícia para ruptura da norma. As pessoas costumam praticar pequenos delitos, ponte para os médios e grandes ilícitos. Donde emerge o conceito de "país da impunidade". Panorama político Não há como abrir um grande sorriso quando se tenta ver nosso amanhã na política. Os protagonistas mudam de posição, mas não de índole. A agenda do Parlamento na esfera das reformas caminhará a passos de tartaruga. Arthur Lira, mesmo com vontade de mostrar algum grau de independência, estará ao lado do Palácio do Planalto. Rodrigo Pacheco terá uns centímetros a mais de independência, nada que ameace as intenções do Poder Executivo. O que pode ocorrer é um certo remanejamento no traçado partidário. O DEM, por exemplo. Depois de atravessar um bom tempo numa posição mais central do arco ideológico, na vivência de Rodrigo Maia como presidente da Câmara, mostra-se inclinado a habitar o espaço da direita, após a liberação da bancada para votar em qualquer candidato na Câmara. Despejaram o voto em Lira, em explícita traição ao acordo firmado por Maia para votar em Baleia Rossi, MDB. O DEM com Bolsonaro Trata-se de uma decisão que aproxima os demistas do governo Bolsonaro. O presidente do partido, ACM Neto, por mais que diga que comanda a entidade, mas não é seu proprietário, cometeu explícita traição. Na verdade, agiu de acordo com as vontades dos correligionários, que tentam assegurar posições na administração. O DEM poderá, até, ser o partido de Bolsonaro, caso o presidente queira. ACM Neto deverá recebê-lo sem objeções. Já se fala até na entrega ao DEM do Ministério da Cidadania. Especula-se, ainda, com a hipótese de Neto vir a ser vice na chapa de Bolsonaro. Mas ele pretende, mesmo, é ser governador da Bahia. Rodrigo Maia, por sua vez, promete sair do DEM, tendo como opção preferencial o PSDB. O fato é que os partidos iniciam uma atividade de agregação de perfis, em um processo de engorda que tem como mira o pódio de 2022. É muito cedo para decisões de alianças e parcerias. Um xeque em Garcia O DEM criou um imbróglio com o vice-governador de SP, Rodrigo Garcia, fiador de João Doria para 2022, sendo ele mesmo o nome preferido pelo governador para disputar o governo paulista em 2022. E como ficará a questão? Garcia teria condição de permanecer no DEM ou é mais provável que saia e ingresse no PSDB? A decepção de Doria com o DEM foi grande e a parceria com o partido em 2022 subiu ao muro. A aproximação dos antigos pefelistas com Bolsonaro, nos últimos dias, elimina essa hipótese. Por isso, Rodrigo Garcia também tende a deixar a sigla. Não vai se afastar de João Doria. O PSDB sem escopo Os tucanos estão perdidos na floresta. Não sabem que rumo tomar, eis que o leit motiv da sigla, hoje, é o personalismo, o quem, os possíveis nomes que estarão no palco presidencial. Perdeu o PSDB sua bandeira social-democrata, como, aliás, outros partidos também enfiaram na gaveta seus escopos programáticos. Qual é o programa para o país? Qual seria a extensão do cobertor social? Qual o tamanho do Estado? O que e como privatizar? Quais as ações a serem empreendidas no tempo, hoje, amanhã e depois de amanhã? Afinal, como deve ser refeita a bandeira social-democrata? Como estão mudando os entes social-democratas nas democracias ocidentais? MDB vai para onde? A mesma indefinição impregna o espírito emedebista. O que fazer, para onde ir, com quem fazer parcerias? É cedo, pode-se alegar, para fazer composição. Mas onde está o MDB velho de guerra? Tinha um plano - Ponte para o Futuro, coordenado pelo ex-presidente Michel Temer. E hoje, ante a mudança de cenários, qual é a proposta do partido para o país? Enfim, o que se observa nos grandes entes partidários é um imenso vazio programático, onde estão poucos nomes de expressão. As massas sumiram. Em suma, os partidos carecem de um cimento programático. Como lesmas, derretem facilmente com um punhado de sal. Viraram o que Otto Kirchheimer, um dos grandes constitucionalistas alemães, designa de "catch all parties" ("partidos do agarra tudo"). PSD: um olho no norte, outro no sul Gilberto Kassab é, reconhecidamente, um hábil articulador. O PSD entrou na composição de Arthur Lira. Kassab teria uma aliança com João Doria. Mas os últimos acontecimentos o afastam do governador, eis que seu PSD está de mãos dadas com o Centrão, hoje comprometido com o bolsonarismo. Mas o PSD herdou do seu homônimo do passado o estilo do matreiro Tancredo Neves. Um olho no norte, outro no sul. A bancada na Câmara é grande. Gilberto Kassab se mostra hábil na formação e no crescimento da sigla. Até 2022, passará um oceano de água por baixo da ponte. O ex-prefeito de São Paulo sabe a hora em que tem de submergir e de emergir. O partido também carece de escopo programático. PDT com chances O PDT está com posição bem localizada no espectro ideológico. Habita o centro-esquerda. Basta, agora, preencher as lacunas de seu escopo. Carlos Lupi conseguiu atrair e sustentar Ciro Gomes no partido. Um perfil preparado. Precisa, apenas, conter a língua. Mas o ex-ministro da Fazenda conhece bem o riscado. E em São Paulo há um moço bem talhado no métier da política: Gabriel Chalita, que cai bem no papel de candidato ao governo do Estado de São Paulo em 2022. A régua dividida Em 2002, o sonho de Bolsonaro é polarizar novamente com o PT, como temos dito e repetido. Da mesma forma, o sonho do PT é enfrentar o bolsonarismo, mas contando com uma ampla frente das oposições. Lula ainda pensa em concorrer. Este analista não acredita que, condenado em 2ª instância, ele possa vir a ganhar a condição de candidato. Será difícil que o STF anule os processos a que se submete. Por isso, Lula já sinalizou com o nome de Fernando Haddad. Ocorre que a mancha suja sobre a imagem do PT enfraquece, e muito, sua ambição. O lulismo parece fadado a um ciclo mais longo de afastamento do centro do poder. Então, olhemos para a régua: se os candidatos do centro - e suas margens direita e esquerda - forem muitos, com tendência à dispersão, os candidatos das extremidades terão mais chances de disputar um segundo turno. A economia e as circunstâncias no segundo semestre de 2022 definirão o rumo do páreo. O centro só leva a melhor se seus integrantes formarem um grupão. Toma lá... O populismo afeta a ação dos governantes. Em um momento tormentoso como o que vivemos, deixar de tecer o cobertor social seria o suicídio de um governante. Eis porque o governo Bolsonaro deverá implantar um novo pacote social. Já estão batizando o programa com o nome de Bônus de Inclusão Social - BIP. Seriam três parcelas de R$ 200,00, que se vincularão à obrigatoriedade de um curso de qualificação profissional. Esse BIP entraria na PEC do Pacto Federativo. Fecho a coluna com o mineiro monsenhor Aristides. Mata o bicho O monsenhor Aristides Rocha, mineirinho astuto, fazia política no velho PSD e odiava udenistas. Ainda jovem, monsenhor foi celebrar missa em uma paróquia onde o sacristão apreciava boa aguardente. Um dia, o sacristão, seguindo o ritual, sobe o degrau do altar com a pequena bandeja e as garrafinhas de vinho e água, e não vê uma pequena barata circulando entre as peças do altar. Monsenhor interrompe o seu latim e, de olho na bandeja, diz baixinho ao sacristão: - Mata o bicho... O sacristão não entende a ordem. Atônito, fica olhando para o jovem padre, que repete a ordem, agora com mais energia: - Mata o bicho, sô! Ordem dada, ordem executada. O sacristão não se faz de rogado. Diante dos fiéis que lotavam a capela, ele pegou a garrafinha e, num gole só, sorveu todo o vinho da santa missa. No interior de Minas, "matar o bicho" é dar uma boa bebericada. (Do livro de Zé Abelha, A Mineirice).