segunda-feira, 12 de abril de 2021

COLUNAS

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Porandubas nº 11

quarta-feira, 6 de julho de 2005


A FOGUEIRA

A fogueira começa a ganhar um excesso de lenha. O acervo de investigações nos diversos espaços da Câmara Federal aumenta a intensidade do fogo. Perfis são iluminados e outros são esmaecidos por conta do excesso de fumaça. A palavra de Jefferson continua sendo a mais forte. O PT está no fundo do poço. A cúpula dirigente do partido foi atingida com tiros de canhão. Seriamente envolvidos nas denúncias: José Janene (PP), Valdemar Costa Neto (PL), Pedro Henri e Pedro Correa (PP), José Borba (PMDB), José Dirceu (PT), Bispo Rodrigues (PL), e ele, mesmo, Roberto Jefferson (PTB). O tesoureiro Delúbio, que se afasta do cargo, dificilmente escapará de alguma punição. Silvio Pereira, secretário do PT, também afastado, vai ter de explicar muita coisa. O presidente José Genoino dá mostras de "ingenuidade". O pivô de muitas histórias, Marcos Valério, empresário de publicidade, para salvar a mão, vai ter que cortar alguns dedos. Quando as falas de membros da Diretoria de um partido começam a se atropelar, é porque chegou a hora do "cada um por si e Deus por todos". O PT nunca mais será o mesmo.

O PT JOGA ERRADO

O PT joga errado - e põe erro nisso - ao tentar desqualificar os depoimentos no âmbito da CPI dos Correios e do Conselho de Ética da Câmara. É visível a segurança dos depoentes e também é visível a tentativa dos petistas de flagrar contradições, entrando em detalhes que não tiram o peso das informações e observações feitas. O público que assiste aos depoimentos é formado basicamente por cidadãos de classe média e núcleos de formação de opinião. Ora, o olhar desses contingentes é mais racional, observador, apurado e crítico. Para estes, fica patente a vitória dos depoentes sobre a tática petista de desqualificação dos nomes que se sucedem no pinga-pinga das investigações. Em resumo: a defesa do PT é frágil. O ataque é forte. Delcídio Amaral, senador do PT e presidente da CPI dos Correios, e Osmar Serraglio, deputado do PMDB e relator, começam a navegar nas ondas de pressão da opinião pública e a desfazer a impressão de que ali estão para fazer a vontade do Governo e do PT.

JOSÉ BORBA

Uma pergunta que sempre ficou sem resposta na cabeça dos deputados peemedebistas que não rezam na cartilha do governo: por que o deputado José Borba, líder do partido na Câmara, dono de precários recursos de pensamento, expressão e linguagem, tem conseguido se sustentar na liderança do PMDB, enfrentando embates internos e revertendo situações negativas que, nos últimos tempos, quase o derrubaram? A informação da secretária de Marcos Valério, de que ele, Borba, também mantinha estreitos contatos com o empresário, começa a abrir a cabeça de alguns parlamentares.

PMDB GANHANDO MAIS ESPAÇO

Aprofundar o espaço do PMDB no governo é mais um erro que Renan Calheiros, presidente do Senado, José Sarney, ex-presidente da República, e Ney Suassuna, líder do partido no Senado, cometem. E a razão é simples: há uma decisão partidária que pede o afastamento dos filiados do partido de espaços da administração. O mérito ainda não foi votado, poderão alegar os três senadores. Ocorre que o PMDB quer ter candidato próprio à presidência da República. E essa decisão parece, a cada dia, mais irrevogável. Nesse caso, como ficarão os governistas ante a situação de uma candidatura peemedebista à presidência da República? Sairão meses antes da campanha? Lula quer que os novos ministros permaneçam até o final do governo. E, no apagar das luzes, esses ministros terão cara e coragem para combater o governo que os acolheu? Serão dissidentes? Como serão vistos, caso se aliem à Lula em sua campanha de reeleição? Com a palavra, Renan, Sarney e Ney Suassuna, padrinhos do casamento entre PMDB e PT.

MARTA NÃO QUER

Marta Suplicy é a primeira vice do PT. Se José Genoino se afastar - para se defender - o cargo de presidente será dela. Marta não quer por duas grandes razões: 1. é pré-candidata ao governo de São Paulo e teme receber impactos negativos da crise que continuará acirrada; 2. Roberto Jefferson foi o relator de seu projeto de união civil de pessoas do mesmo sexo. Ou seja, Jefferson considera-se amigo de Marta, diz que a preservou, por ocasião de sua campanha à prefeitura de São Paulo. E Marta não gostaria de estar na pele de presidente de um Partido violentamente acusado por Jefferson, seu amigo. Um imbróglio.

CHUMBO GROSSO: DIRCEU versus JEFFERSON

O clímax da CPI dos Correios será a acareação entre os deputados Roberto Jefferson e José Dirceu. Primeiro tempo: Jefferson resgata as histórias de encontros, reuniões, com circunstâncias e detalhes. Dirceu confirma algumas das histórias, mas conclui: "prove que fui indecente, cometi delito, pratiquei crime?" Segundo tempo: Jefferson utiliza um ou outro documento, dando conta de um outro acordo feito com Dirceu, particularmente no campo de escolhas de nomes, nomeação para cargos etc. Dirceu, assentado em base técnico-jurídica, indaga sobre a natureza do crime? Terceiro tempo: Dirceu parte para o ataque, insinuando desvios éticos e morais de Jefferson. O deputado sente-se atingido na honra e parte para o maior ataque verbal de sua peroração. Momento do apito final: placar sem previsão de resultados, mas a impressão, nesse momento, é de que o deputado carioca ganhará de goleada do deputado paulista.

SEVERINO ESTÁ CALADO

Se Severino Cavalcanti, o falante presidente da Câmara Federal, está calado, é porque isso é mais que conveniente nesse momento. Em circo pegando fogo, o melhor é sair correndo. Mas Severino não é homem de correr. O que ele quer mesmo é comer pelas bordas. Por isso, em silêncio, articula um pedaço do espólio do governo Lula para seu PP. Enquanto as chamas da fogueira não queimam seus companheiros pepistas Pedro Correa e Pedro Henry.

O BINGO VEM AÍ

A CPI dos Bingos vem aí. Para ajudar na fogueira que já queima parte das vestes de José Dirceu. Waldomiro Diniz será ressuscitado. O relator, senador Garibaldi Alves (PMDB), promete ir fundo. Já pediu toda a documentação reunida na CPI formada pela Assembléia do Rio de Janeiro.

CELSO DANIEL

Se o cadáver de Celso Daniel, ex-prefeito de Santo André, vítima de um assassinato até hoje não de todo esclarecido, for exumado por uma dessas CPIs em andamento, o que ocorrerá com o PT, líderes e adjacências ficará na esfera do SDS - Só Deus Sabe. O desenrolar dos acontecimentos vai depender, e muito, da disposição dos parentes do ex-prefeito. Se decidirem a reabrir a boca, será-um-deus-nos-acuda.

CHEGARÁ NO COLO DE LULA?

Pergunta recorrente: as bombas que começam a explodir por todos os lados chegarão no colo de Lula? Pistas: o PSDB não quer que isso ocorra; pretende disputar a eleição com um Lula sangrando; o PFL topa tudo pelo poder, mas deverá ser contido; nenhum partido da base governista desejará ver destroços no colo do presidente, pela óbvia razão de que seriam todos atingidos. O PMDB tem duas bandas: a governista até quer apoiar Lula e a oposicionista raciocina como os tucanos: é melhor um Lula fraco do que um Lula destruído.

DELFIM COM FORÇA

Delfim Neto é um homem que sabe ler o momento. Exibe triunfalmente a tese do déficit nominal zero em quatro ou cinco anos, com o objetivo de reduzir fortemente a relação dívida/PIB, ressurge como o idealizador da grande novidade no campo da economia, ganha aplausos de todos os lados, menos de setores da esquerda radical. E se dá ao luxo de recusar Ministérios. A força do pensamento quebra muitas resistências.

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Atualizado em: 6/7/2005 07:43

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