domingo, 11 de abril de 2021

COLUNAS

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Porandubas nº 20

quinta-feira, 8 de setembro de 2005

 

COVARDIA OU TÁTICA?

A história está mal contada. Severino Cavalcanti ganhava ou não um mensalinho do empresário Sebastião Augusto Buani para conceder privilégios no contrato de exploração de um restaurante na Câmara? A história, cheia de detalhes, com nomes de secretárias e horários, foi contada pela revista Veja. Agora, o empresário desmente. Medo, covardia? Pode ser. Deve faltar prova. A não ser que Severino tenha assinado um recibo da propina. Mas o recuo de Buani pode ser uma tática. Quer ver até onde Severino pode incriminá-lo. Ai o empresário, no foro adequado, mata a cobra e mostra o pau. Será a única maneira de não sair desmoralizado.

QUEM TE VIU, QUEM TE VÊ

Parece que foi ontem. Severino passou a perna em Luiz Eduardo Greenhalgh. Ganhou a presidência da Câmara com os votos da oposição. O PT foi completamente abatido. Severino exibia um discurso de independência. Chegou a ser duro com Lula. Execrava as MPs. Depois, Severino ganhou um ministério. Indicou o nome do ministro. Passou a bajular o Governo e a se reunir, todas as semanas, com Lula. De repente, Severino é acuado. Foi jogado no olho do furacão. As oposições que ajudaram a elegê-lo, agora, querem defenestrá-lo. E o PT, que foi por ele derrubado, agora luta para segurá-lo na presidência da Câmara. É inacreditável. Mas é o retrato do Brasil. Olhem para os Céus. O bicho que hoje as nuvens mostram terá outra cara, amanhã.

DURO DE MATAR

Paulo Maluf é um caso sui generis. Duro de cair. Duro de matar. Maluf é bombardeado há décadas, desde os tempos em que, nomeado pelo general presidente Costa e Silva, presidiu a Caixa Econômica Federal. Polêmico, sagaz, inteligente, cabeça que impressiona pela capacidade de decorar nomes e passagens. Até um verbo se construiu a partir do sobrenome: malufar. Pois bem, os tiroteios acabam triscando no homem, não a ponto de derrubá-lo. Agora, foi a vez de um doleiro. Fitas com a voz nasalada de Paulo Maluf, do filho e do doleiro. Trechos de grampos vão ao ar pelas telas da TV Globo. O Brasil todo toma conhecimento. E o que o homem diz? Que se trata de mais uma armação contra ele. Para desviar a atenção do mar de lama que consome Brasília. E anuncia, para gáudio dos amigos, que será eleito deputado, no próximo ano, pelo PTB de Roberto Jefferson, e com uma quantidade extraordinária de votos. É outra faceta do Brasil.

NULOS E BRANCOS

As pesquisas começam a apontar o crescimento da indignação e do desencanto social com os políticos. Há um ano, as pesquisas atestavam para o Senado e para a Câmara, uma aprovação em torno de 30% e 25%, respectivamente. Hoje, esse índice é de 20% e de 15%, ou seja, uma queda de 10 pontos percentuais. Significa desprezo, desencanto, descrença nos políticos. Conseqüências: votos em perfis mais assépticos, inflação de votos nulos e brancos.

GABEIRA ALAVANCA PV

O poder da palavra. Bastou usar uma palavra contundente, dura, direta contra Severino para que ele pulasse do alto da cadeira de presidente da Câmara para a galeria do baixo clero.Foi exatamente que o deputado Fernando Gabeira fez. Mostrou a Severino que ele não estava à altura do cargo. O homem quase engasgou. E Gabeira, que se mostrava desencantado com os rumos da política brasileira, parece ter ganho nova vida. Bom, o discurso de Gabeira já uma forte alavanca para aumentar os votos da legenda - Partido Verde. E ele mesmo, com a peroração, estará adquirindo o passaporte da reeleição em 2006.

SATURAÇÃO

Pesquisas qualitativas recentes têm mostrado que a população começa a ficar saturada ante a avalanche de fatos negativos da crise. Há um momento em que o sistema cognitivo das pessoas, por absoluto cansaço ou sentimento de previsibilidade, já não mais registram impactos noticiosos. É assim que uma bomba atômica parece se confundir com um traque de São João. A engenharia psicológica das massas merece atenção. Há perfis que já iniciam uma trajetória de fuga do noticiário.Trata-se de uma tática para desvio do tiroteio.

AGRIPINO MAIA

O líder do PFL no Senado, José Agripino Maia, tem quase tudo para se habilitar a ser o candidato a vice-presidente em uma chapa liderada por um tucano. Ou seja, se o tucano sair de São Paulo, ele seria o candidato ideal, nordestino que é. Sudeste e Nordeste somam uma imensa fatia de votos. Mas se for Aécio Neves o candidato (pouco provável), a alternativa Agripino Maia perderia pontos.

A FORÇA DO TOPETE

Vejam como o ex-presidente Itamar Franco continua a se achar importante. Esnobou a Embaixada da Itália e veio para o Brasil. Insinuou sua pré-candidatura à presidência da República pelo PMDB, como se as bases dessa legenda corressem para aclamá-lo. Seria o pré-candidato com o menor número de votos entre Garotinho, Germano Rigotto, Roberto Requião, Jarbas Vasconcelos e Nelson Jobim. Não satisfeito, Itamar lança Aécio Neves como candidato à presidência, usando, como escudo, a bandeira de Minas Gerais. Um furo n'água. E José Dirceu, procurando salvação, corre logo à procura de quem.....dele mesmo, Itamar. Seria interessante que o ex-presidente, do alto de seu topete, mostrasse logo a montanha de votos que tem nas ruas e no Congresso para se alçar à condição de Pai da Pátria.

INDESCRITÍVEL, INACREDITÁVEL, IRRECONHECÍVEL

A tragédia de New Orleans é mais que reveladora. A maior potência do Mundo foi incapaz de prever a catástrofe que se abateu sobre uma das mais charmosas cidades do planeta. A situação é indescritível. Inacreditável e irreconhecível - foi o modo de agir das autoridades, Mais que isso: foram incapazes de oferecer a ajuda tempestiva e adequada para a população da cidade do jazz. O fracasso da Nação mais poderosa do mundo sugere a reflexão: pode alguém ditar normas e caminhos para a Humanidade quando não sabe cuidar de seus próprios espaços? Quando se observa a cena americana, a moldura brasileira até parece menos trágica.

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Atualizado em: 7/9/2005 21:59

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