segunda-feira, 19 de abril de 2021

COLUNAS

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Porandubas nº 697

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Com estas Porandubas, fecho 2020.

Desejando felicidades a Todos.

"Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade". Mario Quintana

À guisa de balanço

Tentar fazer um balanço sobre o Brasil e seus protagonistas em tempos de crise - sanitária, política, econômica e social - é um desafio dos mais instigantes. Baterá no sistema de cognição de uns com vieses; de outros, os resultados do balanço poderão até ser aprovados; de um terceiro grupo, posso ganhar uma não-leitura. Como aprendi a conviver com os contrários, irei em frente. Para começar: o Brasil perdeu e muito. O mundo também perdeu, mas não há de se negar os ganhos com a descoberta das vacinas. Se as Nações perderam trilhões, o planeta caminhou na trilha da ciência.

O Brasil perdeu mais

A perda brasileira foi maior. Porque o país deixou de caminhar na vereda civilizatória. Ao final, o que se anota no caderninho da história é um país isolado do mundo, atolado numa crise econômica, sufocado por UTIs locupletadas de contaminados pela Covid-19, deteriorado nas contas públicas, sem ainda apresentar um plano seguro e claro sobre a vacinação em massa. O Brasil já foi exemplo de território que soube combater epidemias. Essa imagem dá lugar a um vazio, uma caminhada sem rumos.

O presidente açodado

Temos um presidente da República que, de maneira proposital, fez questão de exibir um discurso radical, agradando sua base popular, fechando o circuito de interesses de conservadores, sinalizando para que o país cumprisse a mais retrógrada política de relações exteriores de toda a nossa história.

Ministros desajustados

Equação do atraso: o chanceler Ernesto Araújo e a figura destruidora do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Sales, com seus olhos complacentes para a corrosão dos nossos biomas. Como o país ganhará uma roupagem de respeito, de autoridade, de seriedade no concerto das Nações? Esses dois ministros estão abaixo de todas as expectativas. Os piores figurantes da Esplanada dos Ministérios.

Guedes na bicicleta

O ministro Paulo Guedes sai com a imagem deslustrada. Foi embora o brilho que irradiava no início da administração. Vem tentando equilibrar uma bicicleta desgovernada, tateando à esquerda e à direita e sofrendo quedas aqui e ali. O fabuloso programa de privatização não foi cumprido. A ponto de o secretário nomeado para acioná-lo, o dono da Localiza, Salim Mattar, ter desistido da tarefa e saído do governo. Guedes vive às turras com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, com quem hoje pouco fala. Guedes pode se orgulhar de ter aprovado a Reforma da Previdência - é um fato - ou gastado 7,5% do PIB no enfrentamento da pandemia. Mas há um gap, um vazio entre expectativas e resultados. Perdeu bons quadros de sua equipe.

O cobertor social

Um dos destaques positivos do governo tem sido o cobertor social que teceu para acolher as comunidades carentes. O auxílio emergencial e o 13º do Bolsa Família garantiram razoável avaliação positiva ao governo Bolsonaro. Mas esse cobertor será encurtado nos próximos tempos em função de cofres vazios. O cenário econômico, com a continuidade da pandemia ainda por um tempo, será um gargalo para o cenário social. 2021 ameaça ser pior do que 2020. É o que projetam alguns analistas econômicos.

As forças sem forças

As Forças Armadas, que tanto prezam sua imagem de profissionalismo, respeito à Constituição, exibem uma mancha suja nas fardas de seus contingentes, por integrarem um governo que parece sem rumos, cuja linguagem cotidiana fere todos os princípios da liturgia do poder. Para piorar, um general da ativa, ministro da Saúde, de quem se esperava um formidável planejamento logístico, sua especialidade, não o faz, merecendo críticas de colegas de farda.

A paisagem social

Nas frentes sociais, o país caminhou muito bem na trilha da organicidade. As organizações, principalmente as não-governamentais, fizeram pressão, acenderam suas fogueiras expressivas com críticas, denúncias e casos de discriminação contra identidade de gêneros - mulheres, negros, LGBTs, - violência policial, assédio de personalidades do mundo das artes, da cultura e da política. Nunca se viu tantas manifestações críticas.

A luta antirracista

O ano de 2020 escancarou a luta antirracista, aqui e alhures. Desde os Estados Unidos ("vidas negras importam") até em nossas plagas as manifestações contra a discriminação racial chegaram ao clímax. Nunca se viu a negritude manifestar tão intensamente seus valores e a defender sua identidade. A luta pela igualdade ganhou amplos espaços. Viva!

A política vaivém

O trem da política correu para a frente e para trás. Apesar do esforço de Rodrigo Maia para organizar uma pauta de reformas e avanços na Câmara, os tropeços e querelas com a equipe econômica atrapalharam o calendário. Nesse momento, o debate foca nos perfis que deverão se engalfinhar na luta pelo comando das casas congressuais. O Senado tem uma balança mais governativa do que a Câmara, mas a derrota do presidente Alcolumbre no pleito de Macapá, onde seu irmão foi ultrapassado pelo médico Dr. Furlan, atenua seu poder de barganha no processo eleitoral da Câmara Alta. O fato é que a política não avançou de maneira que possa ser elogiada. O pleito municipal de novembro não fechou um ciclo,como se esperava, não podendo ser considerado o início de uma nova era.

A judicialização da política

O Judiciário termina o ano com a imagem de que entrou com tudo na esfera do Parlamento. Legislou às pencas, tentando aliviar a situação de protagonistas às voltas com a Operação Lava-Jato. O último ato nessa direção foi a decisão do ministro novato, Kássio Marques, nomeado por Bolsonaro, suspendendo trecho da Lei da Ficha Limpa que determina que o prazo de inelegibilidade de oito anos para condenados por órgãos colegiados terá efeitos após o cumprimento da pena. Marques segue a linha dos ministros Gilmar Mendes e Lewandowski. Para o presidente Bolsonaro, quem comete crimes "não pode pagar ad eternum".

O empresariado

O empresariado, que aclamava Bolsonaro no início do governo, subiu no muro. Faz pressão para aliviar a carga de tributos, mas sente que não pode confiar no destempero presidencial. Os empresários agem pragmaticamente. Mas cresce a insatisfação com medidas tomadas, entre as quais as desonerações de tributos para importação de determinados produtos. E teme restrição do nosso maior parceiro comercial, linguagem ferina usada pelo presidente e ministros quando se referem à China.

A guerra das vacinas

O troféu da estupidez do ano vai para a guerra das vacinas. O presidente se refere à coronavac como "a vacina chinesa de Doria", o que leva seu núcleo de apoiadores a rejeitar o uso daquele medicamento. E mais: o próprio presidente, que bate de frente na abordagem científica, diz que não tomará nenhuma vacina e ponto final. Seu ministro, general Pazuello, como barata tonta, dissera que a vacina chinesa seria comprada, depois afirmou que não seria adquirida e, só recentemente, ante balbúrdia que criou, acabou garantindo que a "vacina brasileira" (a chinesa) também será usada. O governador de São Paulo, João Doria, que não é bobo, deixa que a futrica do governo federal ganhe visibilidade, enquanto diariamente anuncia a chegada de mais doses vindas da China. O Instituto Butantã ganha prestígio com o selo "vacina brasileira". Até o final do ano, o estoque de São Paulo chegará aos 10,5 milhões de doses.

Tributo de Porandubas

A Coluna presta sua homenagem, o TROFÉU DE GRANDEZA, a protagonistas que fizeram o Brasil avançar em 2020:

    - Profissionais de Saúde - que estão no front da guerra contra a pandemia.

    - Fontes especializadas- Médicos, pesquisadores, infectologistas que têm se dedicado a explicar os fenômenos da pandemia.

    - Mulheres - Lideraram os espaços de denúncias em defesa da igualdade de gêneros, contra o assédio e a discriminação.

    - Trabalhadores - Contingentes do trabalho formal e informal, mesmo com sacrifício de perda de parte substantiva de seus salários, têm se esforçado para não deixar o país travado.

    - Jornalistas - Destaque para os jornalistas, que têm buscado informar e explicar os fenômenos atuando na linha de frente da guerra.

    - Líderes mundiais - Grandes protagonistas que dão exemplo de respeito à ciência e mostram a importância da vacinação, entre os quais, Joe Biden, Ângela Merkel, Boris Johnson e Benjamin Netanyahu.

    - Luiza Trajano - Empresária que faz crescer seu grupo e implanta políticas de integração/inserção social em seus empreendimentos.

    - João Doria - Governador que teve a coragem de buscar de maneira ágil a vacina que deverá salvar milhões de vida, enfrentando dissabores e a politização da ciência.

    - Rodrigo Maia - Presidente da Câmara, estabeleceu uma pauta de votações com temas que ajudaram o Brasil a avançar.

    - Padre Júlio Lancelotti - Um guerreiro anônimo na luta em defesa dos sem teto e sem alimento, os moradores de rua.

Atualizado em: 23/12/2020 09:05

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