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Porandubas nº 818

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

Atualizado às 12:55

Abro com o pai do Ariano.

Quanta terra...!

João Suassuna, velho coronel e líder político do Estado da Paraíba, pai do escritor Ariano Suassuna, ao punir um trabalhador de seu latifúndio, mandou dar um purgante de óleo de rícino e chamou dois jagunços aos quais deu essa ordem, no relato de Sebastião Nery:

- Levem esse cabra até a fronteira da fazenda. Vão os três a pé. E o purgante não pode fazer efeito em minhas terras. Se fizer, podem sumir com ele.

O homem saiu na frente dos dois capangas, andou, andou, apertou o passo, escureceu, e nada de chegar o fim da fazenda. O remédio começava a torturar e o homem suando frio e andando ligeiro. De repente, não aguentou mais, gemeu:

- Êta coronel pra ter terra!

  • Parte I

Os heróis, onde estão?

A figura do herói

Em o Estado Espetáculo, Roger-Gérard Schwartzenberg pontua: o grande papel com que sonham os monstros sagrados da política é o de grande homem. O de herói, o semideus da mitologia, o homem excepcional, o homem das façanhas, do entusiasmo e da glória, o salvador, o messias, o chefe genial, o profeta de sua gente.

Os clássicos

Xenofonte desenhava o esboço do herói. Aquele que impunha respeito, um ser superior. Aristóteles via no herói o gênio. Maquiavel também admitia o homem excepcional que se impõe sem contestação, um "deus entre os homens". Rousseau via no herói o homem "extraordinário", o legislador que produz leis, o fundador do Estado. Max Weber distingue três tipos de autoridade; a tradicional, fundamentada nos costumes; é a do senhor feudal, o monarca hereditário e a legal-racional, ancorada nas instituições. A ele se emprestando obediência em função do papel conferido pela Constituição. E, por último, a carismática, aquela que porta um dom particular conferido pela graça divina.

Nietzsche

O filósofo dizia: "o super-homem destrói os ídolos, orna-se com seus atributos; a apoteose da aventura humana é a glorificação do homem-Deus". A propaganda nazista/fascista criava uma nova religião: o culto do Estado e de seu chefe.

Os heróis? Quem?

Quem teriam sido heróis? César, Jesus Cristo, Luiz XIV, Hitler, Mussolini, Tito, João XXIII, o papa, De Gaulle, Roosevelt, Kennedy, Churchill, Stalin, enfim, que perfis podem ser inseridos na seara do heroísmo? Os seres que ilustraram a história com seus atos e sua política ou aqueles reverenciados sem as trambicagens do autoritarismo, o poder de mando pela força? Cada país tem seus heróis, seres venerados e cultuados por seu povo. Trata-se de tarefa inglória defender ou limitar os espaços de domínio dos heróis.

Assassinos?

Afinal, é possível considerar herói quem foi responsável pelo assassinato de milhões ou milhares de pessoas? Seria cabível considerar Hitler um herói? Só mesmo na imaginação de seus adeptos. Da mesma forma que Stalin e todos os outros, do passado ou da contemporaneidade, cujo âmbito de ação abrigaria a responsabilidade pela "matança" ou desaparecimento de seres humanos ou mesmo destruição da natureza. Por isso, é complexa a tarefa de classificar heróis e heroísmo.

E por aqui?

Quem são os nossos heróis? O descobridor Pedro Álvares Cabral? Uh, longe de ganhar essa láurea... Pedro I, o Imperador, ganharia no voto popular. Tiradentes já entraria melhor na galeria. Os ídolos populares de nossa história integrariam também a fileira de retratos na parede. Alguns dele ainda estão presentes no memorial de nossa gente: Getúlio Vargas, Kubitschek, Jânio, Garrincha, Pelé, Airton Sena.

Fiquemos assim...

Viram como é difícil classificar o tipo heroico? Na área política, este escriba tem restrições para considerar heróis aqueles que, reconhecidamente, provocaram e/ou provocam atos contra o povo, assassinatos ou desaparecimento de indivíduos, e que cometeram/cometem injustiças. Por isso, a luz que ilumina essa trilha é a da Justiça, a virtude de dar a cada qual o que lhe merece por direito, fazendo o bem, partilhando suas glórias com a coletividade. Por isso, é mais fácil (ou cômodo) ficar no terreno esportivo, onde os aplausos e o reconhecimento aos feitos dos protagonistas são mais intensos. Quem tem dúvidas de que Garrincha, Pelé, Guga, o tenista, e Airton Sena, o campeão de automobilismo, se enquadram nessa categoria?

O povo procura um herói

O Brasil está à procura de um herói. Mas o herói procurado não é aquele capaz de operar milagres, um São Jorge de espadas determinado a matar os dragões da maldade. O povo passou a rejeitar perfis milagreiros, divinos. O herói procurado deve ter face humana, uma feição plasmada pelos valores da honestidade, ética, autoridade, respeito, determinação, coragem, despojamento, simplicidade. Há alguém com esse perfil? Quem se arrisca a apontar algum? A nossa galeria de heróis é uma parede vazia. A seleção de futebol já não encanta. Os esportes, por sua vez, são enrolados com o manto do marketing.

P.S.

Atenção, muita atenção. O populista não é necessariamente um herói.

Neymar? Jamais

Veja-se Neymar, o contundido, com seu quase um bilhão das Arábias. Puro marketing. As disputas são movidas pela força do metal. E o glamour se esvai dos palcos e estádios, sufocando nossas emoções. O mundo se materializa. Os homens são cada vez mais tratados como coisas. Aqueles que merecem aplausos unânimes estão enterrados no cantinho da saudade. Da política, sobram poucos. Tancredo nem teve tempo de dar fulgor à imagem. Recebeu o pranto nacional, com as esperanças perdidas. Juscelino Kubitschek foi um símbolo de progresso. Quem mais? Só mesmo os vultos de nossa história mais antiga.

A dissonância nacional

O desfile nas telas de TV é uma ampla exibição da dissonância nacional. Passam pelos nossos olhos figuras esquisitas e discursos tortos. Alguns querendo aparecer como heróis. A demagogia campeia nas promessas mirabolantes, na recitação artificial de qualidades inventadas, na exposição de cenários e propostas irreais, nas mentiras proferidas nas CPIs. A política no Brasil está se transformando em um grande comércio, onde atores procuram se revezar no balcão das trocas. Será que a maior parte dos 5.568 prefeitos estarão se recandidatando? Para ficar mais pobres ou mais ricos?

Ache seu herói

Leitor, procure achar seu herói. Não precisa distinguir nele a aura dos santos. Basta olhar para os perfis, avaliar o seu passado, examinar o que faz ou o que promete, compará-lo com outros. Tenha cuidado para não comprar gato por lebre. Há muito canalha desejando parecer santo.

  • Parte II

Raspando o lixo....

- Na Conferência dos BRICS, há uns 20 países que tentam entrar no Grupo. Seria uma desconfiguração do atual modelo. Lula quer incluir os latino-americanos.

- Dilma, com seu supersalário, presidente do Banco dos BRICS, posa de toda poderosa.

- Já estão culpando o competente Marcos Troyjo, ex-presidente do Banco, por faltar dinheiro nos cofres.

- Osires Silva, meu candidato à "guerreiro da educação" no troféu CIEE. O setor aeronáutico brasileiro deve muito a ele.

- A cúpula das Forças Armadas está preocupada com a queda da boa imagem do setor. E mais ainda com o desenrolar da CPMI do 8 de janeiro. O que acontecerá com o tenente-coronel Mauro Cid e com o pai dele, o respeitado general Lorena Cid?

- A campanha para a prefeitada, em 2024, será a mais endinheirada dos últimos tempos. O primeiro turno da eleição ocorrerá no primeiro domingo de outubro, dia 6.

- Os municípios com mais de 200 mil eleitores terão, caso necessário, segundo turno, no último domingo de outubro, para o cargo de prefeito, caso nenhuma das candidatas ou candidatos ao cargo obtenha metade mais um dos votos válidos no primeiro turno.

- Os partidos do centro lutarão para fazer a maior "baciada" de prefeito.

- O ministro José Múcio, da Defesa, expõe seus dotes como cantor/compositor de músicas românticas. Com um disco na praça.

- Parte considerável do planeta padece do maior calor da história. Anúncio da terra devastada.

- Se Milei ganhar a eleição, na Argentina, os nossos trópicos viverão tempos mais tensos e perigosos.

- A Fiesp promove importantes debates sobre o país, com palestras dos presidentes do Senado e Câmara, Rodrigo Pacheco de Arthur Lira, do diretor de política monetária do Banco Central, Gabriel Galípolo e do ex-deputado Fábio Feldmann, que sob o comando do ex-presidente da República, Michel Temer, discorreu sobre Meio Ambiente. Programação intensa. O maior foro de debates, depois do Congresso Nacional. Parabéns ao presidente Josué Gomes da Silva.

- A campanha paulistana para prefeito será ideologizada: esquerda versus direita. A conferir.

- Quando a vida de um depende da morte de outro: é o que me vem à mente com essa triste notícia do transplante de coração para Faustão. E para milhares de outros que estão na fila de espera do SUS. Fila da morte.

- A vida é como um pequeno fio que se esgarça na camisa quando apertamos o botão.

- Tristeza pela morte da mãe Bernadete, líder quilombola. A lei do fuzil.

Fecho com mais uma historinha da Paraíba.

Brejo das Freiras é uma Estância Termal nos confins da Paraíba, perto de Uiraúna e Souza. Trata-se de um lugar para relaxamento e repouso. O Governo da Paraíba tinha (não sei se ainda tem) um hotel, com uma infraestrutura para banhos nas águas quentes. Década de 70. Apolônio, o garçom, velho conhecido dos fregueses da região, recebe, um dia, um hóspede de outras plagas. Pessoa desconhecida. Lá pelas tantas, quase terminando a refeição, o senhor levanta a mão, chama Apolônio e pede:

- Meu caro, quero H2O.

Susto e surpresa. Anos e anos de serviços ali no restaurante e ninguém, até aquele momento, havia pedido aquilo. Que diabo seria H2O? Apolônio, solícito:

- Pois não, um instante!

Aflito, correu na direção da única pessoa que, no hotel, poderia adivinhar o pedido do hóspede. Tratava-se de Luiz Edilson Estrela, apelidado de Boréu (por causa dos olhos grandes de caboré), empedernido boêmio, acostumado aos salamaleques da vida.

- Boréu, tem um senhor ali pedindo H2O. O que é isso?

Desconfiado, pego sem jeito, Boréu coça o queixo, olha pro alto, tenta se lembrar de algo parecido com a fonética e, desanimado, avisa:

- Apolônio, sei não. Consulte o Freitas.

Freitas era o diretor do Grupo Escolar, o intelectual da região. Localizado, o professor tirou a dúvida no ato:

- H2O é água, seus imbecis. Quer dizer água.

Apressado, Apolônio socorreu o freguês com uma jarra do líquido. Depois, no corredor, glosando o feito, gritou em direção a Boréu:

- Ah, ah, ah, esse sujeito achava que nós não sabia ingrês. Lascou-se!