domingo, 11 de abril de 2021

COLUNAS

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Porandubas nº 169

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Começo com uma parábola : "há pessoas que não conseguem perceber o que se passa ao seu redor. Não vêem que vão vêem, não sabem que não sabem".

Pequeno relato.

Zé caiu em um poço e está a 10 metros de profundidade. Olhava para os céus e não viu o buraco. Desesperado, começou a escalar as paredes. Sobe um centímetro e escorrega. Passou o dia fazendo tentativas. As energias começaram a faltar. No dia seguinte, alguém que passava pelo lugar ouviu um barulho. Olhou para o fundo do poço. Enxergou o vulto de Zé. Correu e pegou uma corda. Lançou-a no buraco.

Concentrado em seu trabalho, esbaforido, cansado, Zé não ouve o grito da pessoa : "pegue a corda, pegue a corda". Surdo, sem perceber a realidade, Zé continua a tarefa de escalar, sem sucesso, as paredes. O homem na beira do poço joga uma pedra. Zé sente a dor e olha para cima, irritado, sem compreender nada. Grita furioso :

- O que você quer ? Não vê que estou ocupado ?

O desconhecido se surpreende e volta a aconselhar :

- Aí tem a corda, pegue-a, que eu puxo.

Zé, mais irritado ainda, responde sem olhar para cima :

- Não vê que estou ocupado, ó cara. Não tenho tempo para me preocupar com sua corda.

E recomeça seu trabalho.

Parábola : "Zé não vê que não vê, não sabe que não sabe".

FCH SEGURA AÉCIO

Aécio Neves tem recebido muitos convites para ingressar no PMDB. O último deles partiu do ministro Hélio Costa, que deseja sucedê-lo no governo de Minas. O ingresso aponta para um plano B de Lula. Se Dilma não decolar, Neves poderia ser o candidato do PMDB, apoiado pela base governista e patrocinado por Lula. O mineiro resiste, agora sob o poder da palavra de FHC. Que desfila argumentos para segurá-lo na floresta tucana. Aécio teme que se o cavalo passar pela frente e não montar, terá dificuldade em pegá-lo pelo cabresto em 2014.

ALOYSIO NUNES

Há um nome próximo a José Serra que faz intensa articulação de bastidores : Aloysio Nunes Ferreira. Trata-se de um político hábil. Escondido e afastado da mídia, recebe prefeitos, deputados estaduais e líderes regionais. Começa a abrir espaços para parcerias. Está de olho firme no governo do Estado. Tudo vai depender das alianças que se formarão mais adiante.

AFIF NA LINHA DE FRENTE

Outro nome com potencial de voto capaz de surpreender é o de Guilherme Afif Domingos. Guilherme expressa um denso discurso liberal. É considerado um perfil identificado com a Nação dos pequenos e médios empresários. Tem uma língua afiada contra a massa burocrática que sufoca o empreendedorismo. Bem articulado, simpático, conhece a política por dentro e por fora. Pois bem, Afif poderia ser o nome do DEM ao governo do Estado. Claro, se não houvesse uma aliança firme com o PSDB. Nesse caso, se o candidato ao governo for um tucano - Aloysio, José Aníbal ou mesmo Geraldo Alckmin - a ele seria destinada uma das vagas para o Senado. A outra está prometida a Orestes Quércia.

O GRUPO DE KASSAB

Quem está fazendo essa engenharia é o prefeito Gilberto Kassab. Não por acaso, os personagens acima apresentados fazem parte de seu grupo de conselheiros. Kassab dispõe, hoje, de uma equipe de conselheiros veteranos, gente experiente e de alta competência político-administrativa. Este grupo é formado pelo próprio Aloysio Nunes Ferreira, Guilherme Afif (com quem Kassab sempre trabalhou e que inspirou sua trajetória), o trator administrativo Clóvis Carvalho, um perfil talhado para as tarefas de coordenação e o ex-governador Cláudio Lembo, guindado ao posto de secretário de Negócios Jurídicos. Esse é o comando estratégico de Kassab. Dele sairão os desenhos para o governo do Estado, o Senado e arredores. Claro, as estratégias e táticas deverão ser avaliadas e ajustadas pelo comandante Serra.

O QUE É IMPRENSA ?

Lord Chesterton, em 1912, definiu assim a imprensa : "a arte de dizer que Lord Jones morreu a quem nunca soube que Lord Jones existiu". Com o tempo, o conceito evoluiu. Vejam o que se comenta. Passou a ser o ofício de dizer, a todos indistintamente, que Lord Jones disse tudo o que Lord Jones disse, ou dizer que Lord Jones disse o que Lord Jones nunca disse, ou não dizer que Lord Jones disse o que Lord Jones realmente disse ou, ainda, fazer de conta que nunca existiu um Lord Jones para um público cada vez mais informado.

SKAF NÃO BRINCA EM SERVIÇO

Esta Coluna até duvidou da intenção de Paulo Skaf em ingressar na seara política. O argumento da Coluna tem lógica : mandato que cai como maná do Céu pode ser alcançado em territórios políticos menos racionais e mais incultos. No maior Estado da Federação, é difícil ocorrer a hipótese. Gente com muita grana já tentou e sobrou. Cito dois : Antônio Ermírio e Olavo Setubal. Skaf poderia se candidatar à presidência da CNI. Mas o presidente da FIESP/CIESP insiste mesmo em desafiar as leis da política. Continua mapeando possibilidades. Nota: Paulo Skaf, pelo que se sabe, não é filiado a partido político. Sonha com a idéia de ser governador de São Paulo.

CONFÚCIO AJUDA

Um ponto a favor de Skaf. É o voto de Confúcio. O mestre chinês ensina : "o homem pode ampliar o caminho. Não é o caminho que amplia o homem".

MAROLINHA, POROROCA E TSUNAMI

Pois bem, Lula previu para o Brasil a chegada de uma marolinha. Com o refluxo da indústria automobilística, da siderurgia, da construção civil e do agronegócio, os olhos começam a ver que os 15 centímetros de altura da marolinha estão chegando a um metro. Não chega a ser tsunami, com aquelas ondas de 30 metros de altura. Mas é, seguramente, uma pororoca, o encontro das águas do rio Amazonas com o oceano Atlântico.

OS COMANDOS DAS CASAS CONGRESSUAIS

José Sarney, por mais de uma vez, disse ao deputado Michel Temer que está fora da disputa pelo comando do Senado. Disse a mesma coisa ao presidente Lula. Renan Calheiros, que deseja reingressar ao terreno da credibilidade, é quem ainda faz marolas. Quer ser o líder do governo ou do partido, enquanto Romero Jucá sonha com a presidência do PMDB. São ajustamentos para contrabalançar o peso da Câmara dos Deputados sob o comando de Michel Temer. Há no caminho arestas a serem aparadas.

MUDANÇA CONSERVADORA ?

Barack Obama ganhou a cadeira de presidente da Nação mais poderosa do mundo com o discurso da mudança. Lula começou o discurso com que assumiu o primeiro mandato dizendo de maneira pausada : mudança ! Agora Obama escolhe uma equipe conservadora para as áreas de política externa e segurança nacional. Trata-se, por enquanto, de mudança com olho no retrovisor.

ATENÇÃO, MINISTRO LUPI

Exame, uma revista de economia que faz jus ao nome, avalia as medidas mais "simples, rápidas e efetivas" para ajudar o sistema econômico brasileiro a sair mais forte da crise. A primeira medida é "terceirização de funcionários". Diz o texto : "com algum empenho do governo junto às suas lideranças no Congresso, seria possível aprovar rapidamente o Projeto de Lei nº 4.302/98, que acaba de desembarcar na Câmara e trata da regulamentação do mercado de trabalho de aproximadamente 10 milhões de funcionários terceirizados no país. A grande novidade é permitir a contratação de terceirizados não apenas nas chamadas atividades-meio, como segurança e limpeza, já autorizadas hoje, mas também nas atividades-fim das empresas". Uma perguntinha : o que é atividade-fim em uma montadora de automóveis ?

MOZARILDO VERSUS ANCHIETA

O governador José de Anchieta (PSDB), de Roraima, estaria traindo o ideário de Ottomar Pinto, a quem sucedeu depois de sua morte. A aliança feita com Romero Jucá (PMDB) não tem sido bem aceita por fiéis seguidores da corrente organizada por Ottomar e hoje representada pela ex-senadora Marluce Pinto. O senador Mozarildo Cavalcanti ameaça romper com o governador Anchieta.

QUE CRESCIMENTO ?

O ministro Guido Mantega garante que o Brasil crescerá 3,5% do PIB em 2009. A ONU duvida : diz que ficará entre 0,5% e 3%. A conferir.

O NOME DE DEUS EM VÃO

Deus é sempre a referência de homens que carregam em sua alma a pretensão da onipotência. Franco usava a Providência Divina para se afirmar : "Deus colocou em nossas mãos a vida de nossa Pátria para que a governemos". Não satisfeito, mandou cunhar nas moedas : "Caudilho da Espanha pela graça de Deus". Idi Amin Dada, o cabo que tornou marechal de Uganda, ditador sanguinário, dizia ao povo que falava com Deus nos sonhos. Um dia, um jornalista faz a inquietante pergunta : "o senhor tem com freqüência esses sonhos ? Conversa muito com Deus ?" Lacônico, o cara de pau responde : "Só quando necessário".

ORLANDO SILVA

Boa pinta, conversador, alegre, bem disposto, capaz de recitar os números da Copa da Alemanha, em 2006, com tranqüilidade e projetar os impactos da Copa de 2014 sobre o nosso país, o ministro Orlando Silva não expressa a costumeira pose de autoridades. Merece o título de um dos ministros mais simpáticos do governo Lula.

REFORMA TRIBUTÁRIA

A reforma tributária não passará este ano. Tem mais arestas que consensos. A arrumação dos interesses no prazo que resta até o recesso é tarefa impossível. Os governadores do Nordeste estão sendo instados a lutar contra os governadores do Sudeste. Aí é que a coisa não pegará mesmo...

ENGANO DE SEGUNDO GRAU

31 de março de 1964. Benedito Valadares se encontra com José Maria Alkmin e Olavo Drummond no aeroporto de Belo Horizonte :

- Alkmin, para onde você vai ?
- Para Brasília.
- Para Brasília, ah, sim, muito bem, para Brasília.

Os três saem andando para o cafezinho, enquanto Benedito cochicha no ouvido de Drummond:

- O Alkmin está dizendo que vai para Brasília para eu pensar que ele vai para o Rio. Mas ele vai mesmo é para Brasília.

Esse tipo de artimanha é chamado de engano de segundo grau. Quer dizer : engano meu interlocutor, dizendo-lhe a verdade para tirar proveito da sua desconfiança. A primeira historinha é judia e expressa com humor o refinamento a que leva o ocultamento de informações :

"Que sacanagem, o senhor quis fazer-me acreditar que vai a Minsk. Acontece que o senhor vai a Minsk".

CONSELHO AOS GOVERNANTES

Esta Coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos aos políticos, governantes e líderes nacionais. Na edição passada, o espaço foi destinado aos ministros do Tribunal Superior Eleitoral. Hoje, volta sua atenção aos governantes:

1. A tragédia de Santa Catarina sugere que governantes de Estados e municípios da Federação tenham atitude firme e enfrentem com coragem as decisões nas áreas de meio ambiente e urbanização.

2. O planejamento urbano não deve transigir em matérias de ocupação irresponsável dos espaços.

3. Políticas nas áreas de habitação, saneamento e transportes - muitas vezes relegadas a segundo plano para dar lugar a programas de cunho assistencialista-populista - precisam ganhar prioridade nas agendas governamentais.

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Atualizado em: 3/12/2008 08:32

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