Sexta-feira, 20 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

Luiz Vicente

Edson Vidigal

Você conhece e convive com umas certas pessoas e nem pensa que um dia elas vão morrer.

quinta-feira, 18 de março de 2010


Luiz Vicente

Edson Vidigal*

Você conhece e convive com umas certas pessoas e nem pensa que um dia elas vão morrer.

Quando a vida inventa distâncias geográficas, um num canto, o outro mais longe, ainda assim, se é pessoa do bem, nunca passa pela sua cabeça a tenebrosa ideia de que um dia você vai ficar sabendo que ela morreu.

É agora o caso do Luiz Vicente, quero dizer do Cernicchiaro.

Na UnB dos anos 70, sob a reitoria do Azevedo, Landim dirigindo a Faculdade de Direito, eu estudando lá, o que para muitos apaixonados parecia cinza de chumbo, para os que pensavam o Brasil precisando se abrir para a democracia, firmava-se o ambiente arejado para a floração livre das ideias republicanas e democráticas.

Cernicchiaro, então um jovem Juiz no DF, recém-chegado de Roma, Itália, onde concluíra um doutorado em Direito Penal, era a atração nos seminários do auditório Dois Candangos e nas salas de aulas.

Não fui seu aluno na graduação, mas desde então colamos um no outro uma amizade.

Depois ele foi meu Professor de Criminologia, na pós-graduação. Depois fomos colegas no STJ, onde o sucedi na Presidência da Terceira Seção, especializada em Direito Público.

Ele fazia o julgador tipo "prafrentex", eu às vezes mais conservador, às vezes mais à frente. Tivemos mais convergências do que divergências.

Sempre estivemos muito próximos. O seu livro Direito Penal na Constituição o escreveu por sugestão minha para indicá-lo aos meus alunos na UnB.

Recebo agora a notícia que de o Luiz Vicente morreu em Brasília. Já estava com 81 anos de idade.

Cernicchiaro foi um dos que ficaram no STJ até a última hora do último dia da véspera da aposentadoria compulsória.

Teve pouco tempo para viver a vida, que ele a dedicou mais e muito mais aos estudos e ao trabalho.

Eu lhe dizia o que tenho repetido aos meus outros amigos Juízes – isso é trajetória, gente; não pode ser estrada porque estar Juiz até o ultimo dia do prazo não é vida, é renúncia à vida.

Muitos dos que saem desse ramo no último dia do prazo saem não sabendo fazer mais quase nada para a vida. Só raciocinam em termos de ementa, relatório e voto.

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*Ex-Presidente do STJ e Professor de Direito na UFMA





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