Domingo, 22 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

Coisas antigas

Edson Vidigal

Nada é tão novo assim. Nem o mensalão, nem a cremação.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Até parece que não há mais nada acontecendo no país, a não ser esse já quase entediante seriado do mensalão. Isso diz sobre práticas tão antigas quanto as dos partidos políticos na antiga Judeia.

Naquele tempo da ocupação romana não havia juízes em colegiados como hoje. A mídia era a plebe em si e daí essa expressão e esse instituto tão poderoso quanto as pesquisas de opinião, o plebiscito.

É muito antigo também esse costume de cremar os corpos das pessoas assim que elas morrem. Os judeus o abominam. Os cristãos históricos também.

Sendo a pessoa, mesmo depois da morte, uma criatura de Deus, manda a lei judaica que se trate os mortos com o maior respeito. A cremação é a maior desonra que se faz aos mortos.

Para os cristãos, o dia da morte é o do nascimento para a vida eterna. A dor pela perda se compensa pela certeza da vida eterna. No além.

Acreditando na reencarnação que para eles é o renascimento, os budistas treinam a mente para estarem tranquilos e serenos na hora da morte. Não choram nem se desesperam para que a mente se mantenha positiva.

No Japão, o ritual fúnebre budista manda colocar no caixão do morto, além de flores, uma tigela com arroz cozido e agua. Sem apegos às coisas materiais, aceitam serem cremados.

Os maiores devotos da reencarnação são os espiritas. Eles acham que a morte não existe, pois o espirito usa o corpo físico como meio de se aprimorar. Assim, quando o corpo morre o espirito sai e fica flutuando até nova encarnação.

Os muçulmanos também acreditam que depois da morte o corpo não vale mais nada porque a alma, esta sim, é que continua valendo. Ainda assim, a cremação do corpo não é permitida.

A prática da cremação, no entanto, é anterior às religiões mais conhecidas. Há um milênio antes de Cristo, os gregos e depois os romanos já cremavam seus mortos. Cremar era lhes dar um destino nobre.

Sepulcro era coisa para os criminosos, assassinos, suicidas e aos fulminados por raios, uma maldição de Júpiter.

Mas desde quando, há alguns anos, correu o bochicho de que no Rio de Janeiro os cadáveres após descerem ao forno eram apropriados para desmontes em pesquisas cientificas e que as cinzas entregues às enlutadas famílias não eram dos seus entes queridos, mas de algum bicho como bode ou jumento, que o mercado de cremações enfrenta alguns preconceitos no Brasil.

A crise dos cemitérios cada vez mais sem espaços e a especulação crescente nos preços das catacumbas, mais os altos custos dos velórios nas casas especializadas, isso tudo tem ampliado a tendência, hoje mundial, favorável à cremação.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a economia com velórios e cemitérios tem feito aumentar os valores das heranças a serem rateadas. E dos impostos a serem recolhidos.

No Brasil, na página de obituário de um grande jornal, há um anuncio em que um casal de idosos parecidos com dois atores muito conhecidos ilustra a oferta de um Plano que não sendo como os outros, digamos um Plano de Saúde, podemos chama-lo de Plano Post-Mortem.

Sem limite de idade, o Plano assegura velório e cremação à base de R$ 2,00 (dois) reais por mês, sendo que para não associados os mesmos serviços podem ser pagos em doze vezes no cartão de crédito. (Tel. 0800-726.1100).

Como se vê nada é tão novo assim. Nem o mensalão, nem a cremação.

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*Edson Vidigal é ex-presidente do STJ e professor de Direito na UFMA






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