Quarta-feira, 21 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

A verdade das arquibancadas

Maristela Basso

Morte do boliviano Kevin Espada, atingido por um sinalizador durante o jogo entre Corinthians e San José em fevereiro, foi um "trágico acidente".

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

No dia 10 de dezembro passado, o jornalista e colunista da Folha de São Paulo Janio de Freitas enfrentou o tema da violência nas arquibancadas referindo-se aos torcedores em Joinville/SC a bestas humanas e bestalhões adeptos a acessos de brutalidade. Até mesmo a imprensa não foi poupada, na medida em que, segundo ele, faz seu surto de críticas como subsidiário do espetáculo boçal, à espera da clarinada dos boçais.

Nem os brasileiros, torcedores do Corinthians, presos na Bolívia este ano, foram poupados.

Para o articulista, descobriu-se um "dimenor" no litoral paulista para assumir o disparo do tal rojão que teria atingido Kevin Espada, garoto boliviano de 14 anos morto no estádio de Oruro. Se não bastasse a engenhosa artimanha da defesa dos brasileiros presos, à família da vítima teria sido dado um "cala boca monetário", como complemento da atuação desta que subscreve este artigo. Charmosa, como ele diz, mas também ardilosa – que se uniu ao bando de boçais que pouco se distinguiu de um grupo de querubins.

Ou seja, no artigo de Janio de Freitas não sobrou para ninguém, nem para os brasileiros, que após longo calvário na Bolívia voltaram inocentados e com a cabeça erguida.

No que diz respeito a esse episódio, especificamente, diante da afirmação do articulista que a "solução cobriu-se de silêncio" e que não houve, por parte dos jornais, revistas, TVs e rádios, interesse em esclarecer o ocorrido, cumpre-me informar, inicialmente, que a cobertura da mídia foi impecável. A revista "Istoé" deu enorme destaque em dois números nos quais tudo foi explicado e revelado. A TV Bandeirantes não poupou esforços com equipes que permaneceram em Oruro todo o tempo, assim como com informes diários em seus telejornais.

Quanto ao meu trabalho, diferentemente do afirmado pelo articulista, esclareço que não foi o de calar a boca da família de Kevin Espada com dinheiro ou outras benesses. Não foi para isso que as famílias dos brasileiros presos me contrataram. Foi para provar a inocência deles. A liberação deles deu-se graças ao trabalho jurídico que demonstrou, sem espaço para dúvidas, que nem os 12 brasileiros, nem mesmo o "dimenor" paulistano, tiveram qualquer envolvimento no trágico acidente que matou o garoto boliviano. As provas dos autos do processo eram inequívocas: alguns dos brasileiros não estavam no estádio no momento do disparo; os outros ocupavam lugar nas arquibancadas de onde jamais um disparo poderia ter atingido a cabeça do garoto morto – tanto pela distância quanto pela existência de obstáculo enorme que separava os grupos de torcedores. Também, o "dimenor" brasileiro, que disparou, sim, um rojão, como vimos em imagens na televisão, não estava em posição capaz de atingir a vítima. E aquele rojão que o vimos disparar, pelas imagens da TV, não atingiu ninguém no estádio. O "dimenor" disparou sim, mas não foi o seu disparo que fulminou a vítima.

E, para por uma pá de cal final sobre a inocência dos brasileiros nesse episódio, a grande revelação do caso não está simplesmente na soltura dos rapazes corintianos, mas no fato de que a morte do garoto boliviano aconteceu minutos antes do jogo começar, e seu falecimento não se deu pela violência de um torcedor brasileiro, mas pelo infortúnio de um acidente fatal, decorrente da emoção resultante da adrenalina que circula incontrolável quando a bola entra rolando no estádio, seguida daquela revoada de moços que com suas camisas coloridas conseguem nos levar, por poucas horas, para um mundo no qual somos todos iguais.

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* Maristela Basso é advogada e professora da Faculdade de Direito da USP.