Quinta-feira, 17 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

A simplificação das obras literárias

José Maria da Costa

O mecanismo de intervenção na obra literária de Machado de Assis, tal como pretende o MinC, com alteração de sua estruturação sintática ou vocabular, não parece trazer benefícios maiores nem contribuição adequada ao mundo literário.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Veio a público, nas últimas semanas, a notícia de que estaria tramitando no Ministério da Cultura um projeto para que este patrocine a “tradução” de obras de nossa literatura. A ideia visaria, num primeiro aspecto, a despertar as pessoas para a leitura; num segundo aspecto, buscaria difundir e popularizar os clássicos. Na prática, como exemplo, na versão da conhecida obra “O Alienista”, de Machado de Assis, palavras de uso menos corrente nos dias de hoje, como “sagacidade”, seriam substituídas por outras mais populares, como “esperteza”.

Ora, quando se ouve uma notícia como essa, surge, forçosa, uma importante indagação: é correto um proceder de simplificação, de popularização de uma obra literária, ou isso constitui um seu desvirtuamento? E se acrescenta uma outra: faz sentido, em nosso meio, uma proposta dessa natureza?

Esse proceder não é novidade, quando se considera o que acontece em outros países. Basta ver que os falantes de língua inglesa estão acostumados a ver suas histórias contadas dessa forma. Nesse quadro se incluem as de tradição, como a do Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda, ou Parsifal e o Santo Graal, e também as verídicas, mesmo que recheadas com adendos não históricos, como Henrique V, de Shakespeare, e ainda as de total inventividade, como Romeu e Julieta, também de Shakespeare.

Nesse processo, são predeterminados os níveis de linguagem em que será escrito o texto: um mais simples, para os falantes de estádio inicial, em que se usam, por exemplo, não mais do que duzentas palavras do idioma; um mediano, para os falantes de nível intermediário, exemplificativamente com trezentas palavras; e um de nível elevado, por exemplo, com quinhentas palavras, para os falantes com mais intimidade com a língua inglesa. O leitor escolhe o nível de vocabulário em que pretende ler ou desenvolver sua leitura, e segue pelo caminho escolhido.

Com isso, as histórias célebres são postas ao dispor dos falantes de língua inglesa de todos os níveis, os quais, por um lado, podem conhecer-lhes os pormenores e, por outro, adquirem, gradativamente, um vocabulário mais rico, de modo a aperfeiçoar seu arsenal de fala.

Todavia, o que se dá hoje, aqui no Brasil, com o citado projeto do MinC, é algo bem diverso. E isso porque, de início, com todo o respeito que de nós merecem o Bruxo do Cosme Velho e toda a sua obra literária, não se pode dizer que “O Alienista” seja uma história de amplitude nacional, ou de tradição multissecular na memória do povo, ou mesmo de penetração literária como as já referidas de língua inglesa. Além disso, não parece, no projeto do MinC, que tenha havido uma predeterminação de níveis de linguagem para recontar a história, como acontece naquele idioma, de modo a atingir falantes de patamares diversos. Por fim, na obra de Machado de Assis, o que se conta tem a mesma importância daquilo que se conta, pois conteúdo e forma se envolvem de tal maneira, que não há como alterar um deles sem desfigurar a obra.

Em resumo e conclusão: pelo que divulgou o noticiário, o mecanismo de intervenção na obra literária de Machado de Assis, tal como pretende o MinC, com alteração de sua estruturação sintática ou vocabular, não parece trazer benefícios maiores nem contribuição adequada ao mundo literário, mas apenas serve para desfigurar a obra do Bruxo do Cosme Velho, sem reais aspectos positivos aparentes.

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* José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas e autor da coluna Gramatigalhas.