Sábado, 17 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

Alckmin: candidato a presidente ou a premiê?

Alexandre Thiollier

Na política brasileira, agosto costuma ser apontado como o mês das bruxas, do suicídio de Getúlio Vargas, da renúncia de Jânio Quadros e do impeachment de Fernando Collor. Agosto ainda está longe, mas para o candidato tucano à Presidência da República, Geraldo Alckmin, as bruxas já estão soltas neste maio de 2006.

quarta-feira, 24 de maio de 2006

Alckmin: candidato a presidente ou a premiê?

Alexandre Thiollier *

 

Na política brasileira, agosto costuma ser apontado como o mês das bruxas, do suicídio de Getúlio Vargas, da renúncia de Jânio Quadros e do impeachment de Fernando Collor. Agosto ainda está longe, mas para o candidato tucano à Presidência da República, Geraldo Alckmin, as bruxas já estão soltas neste maio de 2006.

O que está errado com Alckmin e sua pré-campanha eleitoral? As pesquisas, de diferentes institutos, apontam o ex-governador paulista estagnado, quando não em movimento cadente, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acossado há um ano por pesadas acusações e evidências de desvio de dinheiro público para financiar a base aliada, segue firme e forte na liderança.

Geraldo Alckmin já disse a políticos e jornalistas que acredita no crescimento da candidatura a partir de junho, quando poderá utilizar um quarto do tempo destinado ao partido, no rádio e na TV, nos programas que serão exibidos nos estados. Em 22 de junho, Alckmin terá ainda mais espaço no programa nacional do PSDB. O problema é sobreviver até lá, pois novas pesquisas com números negativos poderão gerar um clima de grave crise no ninho tucano, agora reforçado com a indicação do vice, o senador do PFL de Pernambuco, José Jorge. A campanha tem problemas sérios, que passo a citar.

Revela-se provinciana, incapaz de assumir contornos nacionais, talvez refletindo as origens de Alckmin, que começou a carreira política como vereador, prefeito e deputado com base eleitoral em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo. O candidato está cercado por colaboradores e assessores cuja visão de país não alcança a dimensão que se espera de um postulante que já dirigiu o maior e mais estruturado estado brasileiro, historicamente um referencial para a Nação.

A proposta do partido de fazer ligadas as campanhas de Alckmin à Presidência da República e de Serra ao governo de São Paulo, defendida pelos tucanos, sugere um abraço de afogado. Um risco terrível para as duas candidaturas, mesmo que Serra ainda demonstre grande vigor nas pesquisas eleitorais.

Não bastasse a falta de propostas claras para se contrapor ao governo que pleiteia a reeleição, Alckmin deixou-se enredar pela problemática política, sem alcançar o alvo principal, as eleitoras e os eleitores, os brasileiros que, como nós, estão vivendo em suas cidades, em contato com o país real, que parece fugir à compreensão dos candidatos, tanto Alckmin quanto Lula. Quando se pronuncia, Alckmin parece estar falando aos parlamentares do Congresso e não para os eleitores, como se se tratasse de uma campanha parlamentarista e não presidencialista.

Sintomaticamente, a empregada de um amigo meu comentou, depois de ouvir e ver uma entrevista de Geraldo Alckmin na TV: “Esse rapaz não me convence!”. Milhões de brasileiros estão vendo e ouvindo Alckmin e tudo indica que têm a mesma impressão – pelo menos, é o que dizem as pesquisas. Caso não direcionar o seu discurso a quem interessa, o candidato tucano vai ficar realmente em maus lençóis, e bem antes de agosto.

Alckmin tem perdido a oportunidade de dizer objetivamente o que pensa e o que propõe sobre temas que mobilizam as pessoas, como os ataques de criminosos em São Paulo e a crise do gás com a Bolívia. Não se ouviu do principal candidato da oposição uma crítica severa e incisiva contra a postura covarde de Lula e seu governo, diante da nacionalização das refinarias e instalações da Petrobrás em território boliviano. Também não foi firme quando se referiu à crise na segurança pública e no sistema prisional paulista, temas que lhe dizem respeito diretamente. Falha provavelmente da assessoria do candidato que, em último análise, configura-se falha do próprio candidato, que não soube cercar-se de conselheiros competentes.

Por fim, e não menos grave, Geraldo Alckmin tem se demonstrado incapaz de transmitir aos brasileiros uma visão de futuro, dos contornos do país que ele pretende legar aos conterrâneos, caso venha a ser eleito e possa concretizar seus projetos. Que Brasil é esse com o qual sonha o presidenciável Alckmin? Até agora ele não nos deixou saber.

Acredito que falta à campanha do tucano um direcionamento firme, um discurso claro, como se viu no programa nacional em rádio e TV em defesa do “Não”, por ocasião do referendo sobre o desarmamento, em outubro do ano passado, que surpreendeu o favoritismo inicial do “Sim”. Alckmin não pode esperar oxigênio e votos fiando-se apenas nos programas eleitorais do PSDB, se o partido e o candidato continuarem a cometer os mesmos erros que temos visto até o momento.

Estas observações não devem ser interpretadas como crítica e sim um alerta ao candidato com mais chances de promover uma reviravolta no ambiente político nacional, carregado de nuvens e presságios de tempestades para a temporada 2007-2010. Até porque, se o chefe do PT for reeleito, o será com uma base parlamentar insuficiente para garantir a governabilidade. Alckmin só terá alguma chance caso demonstrar que tem de fato um projeto de país, com mais empregos e menos insegurança, mais educação e menos corrupção e, claro, estradas transitáveis. Enfim, aquele país com o qual sonha a maioria dos brasileiros.

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*Advogado do escritório Thiollier Advogados


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